Agora pode consultar o FOT no seu smartphone ou tablet

quarta-feira, Julho 23, 2014

A Silly Season chegou a Timor...

Há dias para esquecer. Hoje é um deles. Já não bastavam as notícias chegadas da Faixa de Gaza, onde todos os dias são mortos inocentes em nome de uma qualquer religião; da Ucrânia, onde os corpos calcinados de um avião abatido, foram hoje transportados para a Holanda; ou das notícias do BES, que dão conta da emissão de títulos do Banco, com vista a nacionalizar uma falência de privados, quando nos chegam as imagens deploráveis de Dili, onde a cimeira da CPLP aceitou (sem votação!) a adesão da República da Guiné Equatorial, como membro de pleno direito da organização.
Logo a Guiné Equatorial, um país onde não se fala português, onde o espanhol é a principal língua, onde os mais elementares direitos humanos não são respeitados (existe a pena de morte!) e o seu presidente é o ditador há mais tempo no poder em todo o Mundo.
Duas coisas se percebem nesta adesão: nem ela se pauta por quaisquer princípios linguísticos ou humanos de qualquer ordem; nem Portugal (teoricamente o único país que pôs algumas reservas a esta decisão) conta para alguma coisa no plano internacional.
Dito de outra forma: foram privilegiados os interesses económicos (petróleo) em detrimento dos interesses linguísticos e democráticos e o governo português participou em mais uma fantochada, desta vez promovida pelo governo de Timor-Leste (onde estás Xanana Gusmão?) tornando-se cúmplice de mais esta página negra das relações internacionais, que nos devia envergonhar a todos.
Digna de um verdadeiro episódio de Monty Python, seria a entrevista feita por uma jornalista portuguesa, ao ditador Obiang, no final da cerimónia: "Presidente, está satisfeito com esta cimeira? Si, si, mucho satisfecho"... 
 

quinta-feira, Julho 03, 2014

O mar é reciclável?

Facebook que nos diz? Folha de rosto, do rosto, que rosto? 
O meu ou o do planeta diário?
Punheta-umbigo ou cosmos?
Teatro do eu ou do mundo?
É como se nos dessemos a ver quando nos vemos num espelho?
Mas damo-nos a ver em charme decaído ou maquilhado, cores ou desenhos ou na bruta, assim mesmo, como a Gabriela que nasceu assim? 
Num espelho que está fora de nós mas também naquele espelho que está dentro? 
É uma coisa de ir atrás do impensado, de ir atrás do que vai à frente, de ceder ao imediato que nos preenche desse nada que enche? 
E que significa o gosto e o comentário e as aplicações que seguem o sistema, a reprodução da estrutura desigual na economia, a democracia como a face visível e disponível do mundo do financismo, o parlamentarismo liberal burguês que reduz a política ao jogo mediatizado da alternância? 
E o dia-a-dia como pura funcionalidade, o corpo mecânico, a cabeça pura química neuronal da actividade fabril mental? 

E o pensamento, que espaço tem que não seja o já pensado? 
Há criação por aqui? 

E o não gosto tem espaço? 
Não é logo entendido como autoexclusão? 
A não empatia cola o quê a quê se só descola? 
Não somos obrigados a uma simpatia online que passa por cavalheirismo, feminino – que será?-, e masculino, no meio de um voyeurismo dominante, massivo e que trabalha subliminarmente as atitudes como gestos quase impensados do fluxo da (in)consciência fluindo? 
Pezinhos de lã no trato e subterraneamente um infinito mercado negro de tudo um pouco: tráficos vários, publicidades omnipresentes, o corte de cabelo da estrela, o champô que arrasa a caspa inimiga e faz um futuro escalpe de sonho na reforma sempre imaginado lazer infinito, o banco preferido de depósitos e taxas paradisíacas em directo na ilha com a tal, o tal, que se escolheu na anedota, de modo personalizado, educado, em voz baixa e adocicada neutra, como os bancos tratam os clientes, pois claro, e a brilhantina no horizonte como um sol a pôr-se ao contrário, nascendo de se pôr, mais os ténis de marca e aço invisível resistente e propulsor, o peito musculado em ginásio ao preço da uva mijona de euros que compensam na dureza dos abdominais de sonho, boa relação preço qualidade, ficas cliente-contente, e que atrai todos o tipo de garinas e garinos, de varinas e chichisbéus, como quase moscas vão à luz mortal que rompe do peito olímpico do atleta e inunda o mundo, as férias do craque seladas com um beijo russo semidespido que obrigam a dar um beijo no mesmo tipo de aparthotel quando formos casal instante, quecaqueda, mais pedofilia por certo e também as múltiplas e inovadoríssimas indústrias da dependência, tóxica e outras, as narrativas do governo bem mentidase mantidas, a vídeo-pornografia de híper-primeiros planos do material sem ecrã para os tamanhos dos materiais e outras variantes e o mais que seja que por aí adiante faça parte da ilimitável capacidade mutante da voracidade mercantil do capitalismo real no dia-a-dia não opcional – afinal, estar vivo, não é opção, opção é mesmo estar morto.

Nada tem de original esta engrenagem. Ela é um conjunto de operações que já fazíamos: a confissão ou notícia de qualquer coisa, o anúncio desesperado, a página dos óbitos, a bunda comerciada, a notícia confessional, pessoal ou acontecimento, a adesão ou recusa dessa coisa num regime que identifica uma tendência de grupo instante – ou mais regular – e a possibilidade do debate de ideias, o mais difícil e menos vulgar. 

Na realidade o que submerge a tanto navegar é mesmo a viagem, não se vai de um porto a outro através da superação inteligente da radical presença dos escolhos, as rochas reais, os baixios, mas também os Adamastores – em novo gostava de dizer Adapastores, aliás como gostava de dizer Minetauro. Navega-se parado no pesadelo de um mar de pânicos, muitos gostos são cliques, gestos mecânicos e estão ao alcance do não esforço – é assim a vida nos céus e é deste modo que os deuses têm uma vida algodoada, fofinha – que palavra … – como se diz: a existência em peluche não chega muitas vezes ao mar encrespado da autoconsciência de si, isso exige fundo, como aquele a que o furo artesiano vai buscar a água que já não há. 

Lembrei-me de uma aranha em peluche, mas que aconteceu às aranhas para serem menos interessantes que os dinossauros de um ponto de vista lúdico-industrial? Preguiças já há, sem o cheiro, é como as doninhas fedorentas, são amorosas, mas extirpado o cheiro – assim são animais de leito, como os furões e furoas. E os ouriços, coitadinhos, esborrachados nas bermas de lentos, sob a velocidade crescente do automóvel de nova marca e cilindrada. 

Tantas perguntas, outras respostas nas respostas que se compram a pronto. 

As aranhas são de carnaval, para meter medo sazonal, não se pode pedir a uma aranha que dê a pata? Uma tarantola rosa é no entanto um amor de muitas patas e pode dar uma a uma a quem a amestrar – ora aí está uma licenciatura interessante.

Vêem-se muitas coisas nestas folhas de rosto, desde verdadeiras antecipações noticiosas a posições que os média nunca publicariam e vêem-se também escritas originais, mesmo de alcance artístico, muito raras mas reais, até se assiste a actos criativos no meio dos não actos do puro fluxo – um rio não para e quando para morre, faz-se-lhe o funeral, vende-se o leito em turismo acidental, catástrofe ambiental. Recicla-se o mar?

Mas essas coisas observam-se no quadro de todas as outras, porventura sendo dominantes aquelas que estruturam o voyeurismo e o narcisismo hedonista, mesmo um certo drama doméstico em primeiro plano – o primeiro plano é mais real do que o plano de conjunto, a importância da ruga e das olheiras leva a palma da atenção afectiva ao plano de conjunto, a estares como mobília entre mobílias. Precisas do drama para te sentires viva, a adrenalina emotiva cria a sensação de que afinal a vida não está parada, pelo contrário anda a centenas de pulsação instante – no resto esquece, isto é, qualquer um se pode ausentar de si mesmo para uma zona da consciência que fica standby. Qualquer coisa do género. Será assim? Chama-se alienação, ser preenchido por esse outro, mesmo pelo grande outro normativo. Brecht falava do grande costume. Numa era de entropias calculadas parecia não ser assim, parecia que a desordem assaltara tudo, mas não é assim, a ordem dos poderes nunca foi tão forte de capacidade totalitária, nunca o poder controlou a ideia de ser individual de uma forma tão capaz de produzir rebanhos miméticos uns dos outros, com a décalage das línguas e das riquezas entre as nações.   

Quando alguém escreve tenho o olho inchado ou que o cão acordou triste e foi ao analista veterinário, seja pedo-canino-neurologista ou psiquiatra-canino e analista, ou mesmo psicãonalista, está a eleger a absoluta irrelevância como drama e a assumir que, num mesmo espaço, pode habitar o bordado de retalhos e o rapto das meninas nigerianas. Esta é a característica fundacional do esquema: no momento em que podemos ser livres - o que significa libertarmo-nos e não propriamente pensar que como escravos somos livres e que portanto liberdade é o que nos passar na bola e se atira cá para fora como quem tira uma nódoa da alma – e podemos, o modo de uso de uma estrutura que pode ser o instrumento disso, acaba por regrar o seu contrário na medida em que nivela as coisas pelo menos qualificado mental massivo híper-controlado e estabelece o vulgar, de modo absoluto, como máximo denominador comum. 

Esta é uma questão. E que nos diz? Diz-nos que esta engrenagem reproduz o mundo exterior, é reflexo da estrutura dominante, a tal que engendra a reprodução sistémica da desigualdade extremada produzida pelo capitalismo actual e suas estruturações reflexas na totalidade do REAL – há uma aliança entre o sistema financista e as performances de todo o tipo, para-publicitárias e publicitárias, que surfam de modo incontinente o ecrã das aparências seja pela via da insignificância que se assume como fim do sentido em pose, seja pela via da insignificância que é directamente mercantil. 

Neste mundo de peluches e desacontecimentos – a resistência do núcleo duro do mesmismo é enorme, tem um potencial militarizado impensável – o que é verdade é que os verdadeiros dramas estão aí mas que o modo de os pensar – e tratar formalmente, é inevitável e é um combate constante – de os colocar em itálico, quase submerge no conjunto complexo e totalitário das poluições do imediatismo pseudo-espontâneo do impensado comum. E é assim que as casinhas dos botões são lindinhas e em cada uma sorri um botão de felicidade, com os seus dois olhos abertos ao devir. 

E o BUTÃO é uma monarquia linda de se turistar, como o mar português, um de caravelar na mente e agora o outro, para semear turismo também. Com sede na Berlenga. 

segunda-feira, Junho 30, 2014

Traição




O debate sobre a verdadeira origem e utilidade das chamadas "redes sociais" não é uma perda de tempo. Nem as redes sociais se irão embora por muito que se lhes arrime. Pelo contrário, penso que cada vez mais as relações entre as pessoas e as culturas vão ser mediadas por algo do género e que o seu papel está longe de se ter esgotado. Mas a Matrix e o Neuromancer são nomes que me parecem cada vez mais reais.
Quanto ao Facebook, o que as recentes notícias parecem querer dizer é que enquanto "o ajuda a ligar-se e a partilhar com as pessoas na sua vida", a rede do senhor Zuckerberg tem algo diferente em mente.
Isto não é ficção. Foi publicado em vários sítios, não foi desmentido e não se viu uma palavra aceitável de explicação ou desculpa para um facto tão grave. Uma vergonha.
Está na hora de repensar a presença no Facebook...
O que o senhor Zuckerberg fez foi um acto de traição totalmente inqualificável.

quinta-feira, Junho 26, 2014

Síndrome Nacional

A poucas horas do "mata-mata", poucas ilusões restam sobre o futuro da selecção portuguesa, nesta edição do Campeonato do Mundo de Futebol. Amanhã, por esta hora, estará a fazer as malas para regressar a Portugal o que, independentemente da exibição de hoje, será o epílogo lógico de uma participação sem brilho e força anímica, outra designação amável para a chamada falta de atitude.
Depois do apuramento na fase de qualificação, conquistado graças a um super motivado São Cristiano, os responsáveis embandeiraram em arco, convencidos que a exibição de Estocolmo era a regra e não a excepção. A FIFA ajudou nesta ilusão, ao classificar-nos (vá lá saber-se porquê) em 4º lugar no "ranking" mundial de selecções e, a partir desse momento, toda a gente pensou que poderíamos ser a surpresa do torneio e - calculem só! - até ganharmos no Brasil.
Daí para cá, e já lá vão uns meses largos, assistimos a um acumular de sinais que pronunciavam a borrasca: desde jogadores (considerados titulares da selecção), que praticamente não jogavam nos seus clubes devido a má forma; passando por outros, afastados por castigo ou pré-eliminados pelo seleccionador; até às épocas longas e desgastantes nos principais clubes, tudo contribuiu para que o lote de escolha fosse reduzido. Junte-se a digressão preparatória pelos Estados Unidos (que mais interesse parece não ter tido do que cumprir contractos comerciais) e a escolha de um lugar de estágio, distante milhares de quilómetros dos estádios onde ia competir, para perceber que, dificilmente, nestas condições logísticas e climatéricas, a selecção poderia ter um bom desempenho.
Não por acaso, as limitações físicas desta equipa, apareceram logo no primeiro jogo com as lesões de três dos seus titulares. Junte-se a estes, o afastamento de um quarto elemento por expulsão e as duas posteriores lesões no segundo jogo, para perceber que, com metade dos titulares lesionados, dificilmente uma selecção, sem "segundas linhas", poderia resistir. Com o "melhor jogador do Mundo" em sub-rendimento e um treinador teimoso, que não abdica dos seus fiéis, estavam reunidas as condições ideais para a "tempestade perfeita". Tudo o que devia correr mal, correu pior e, como é habitual  nestas ocasiões, a lei de Murphy também não falhou.
Num país desmotivado por uma crise estrutural, e onde as perspectivas de melhores dias não passam da "fata morgana" permanentemente adiada, esta equipa nacional é bem o símbolo do período histórico que atravessamos. Porque tudo muda, e pior do que estamos é quase impossível, só nos resta confiar que, daqui para diante, consigamos melhorar. Com um bocado de inspiração e sorte, talvez comece já esta tarde, quem sabe?...
   

quarta-feira, Junho 25, 2014

Algo é algo...

Um mês após as últimas eleições europeias, foi hoje anunciada a composição do Parlamento Europeu. Nada que não pudessemos antecipar, em função dos votos nos respectivos partidos e sua distribuição nas facções partidárias que integram o hemiciclo de Estrasburgo.
Depois das negociações habituais nestas coisas, o próximo Parlamento será constituido por uma facção Social-Democrata (PPE), com 221 deputados (a maior do hemiciclo); uma facção Socialista (S&D) constituida por 191 deputados; uma facção Conservadora (ECR) com 70 membros; uma facção Liberal (ALDE) de 67 membros (na qual se inclui, pela primeira vez, o Partido da Terra, de Marinho e Pinto); uma facção da Esquerda Europeia (GUE) com 52 membros, uma facção dos "Verdes" (EGP), com 50 membros e os Eurocépticos Radicais (EFD), com 48 membros.
De fora, ficaram 52 deputados, designados como "não-inscritos", por não terem conseguido uma aliança de 7 países, mínimo necessário para poder constituir uma facção parlamentar. Neste grupo, estão todos os partidos de extrema-direita, desde os partidos racistas e xenófobos de Marine Le Pen (França) e Geert Wilders (Holanda), até aos partidos nazis alemães (1), húngaros (3), gregos (3) e deputados independentes diversos.
Se alguma coisa há a concluir, para além da composição das grandes facções, é a exclusão (até ver) dos partidos de extrema-direita, sinal de que o (novo) fascismo  tem várias matizes. Não é de excluir que, mais cedo ou mais tarde, haja transferência de votos de outros partidos para esta "frente" nacionalista e racista europeia. Tudo dependerá da futura situação social e económica da União Europeia, que tarda em encontrar um rumo para a sua política e, por isso, dá azo ao aparecimento destas aberrações ideológicas. Para já, todos estes partidos, ficaram de fora das decisões parlamentares e limitados nas suas intervenções nas respectivas comissões. E isso é sempre uma coisa boa. Algo, é algo, como dizia o poeta... 

sexta-feira, Maio 23, 2014

Candeia que vai à frente...

Na Holanda (e no Reino Unido) realizaram-se, ontem, as Eleições Europeias.
Ainda que os resultados oficiais não sejam conhecidos, as sondagens à boca das urnas apontam para uma perda significativa dos partidos do governo em ambos os países. Curiosamente, enquanto na Holanda, o PVV (extrema-direita), perde influência; em Inglaterra, o UKIP (anti-europeu), deve ser o mais votado. Crescem, igualmente, os partidos minoritários, desde o SP (Socialistas Radicais) e D'66 (Liberais) na Holanda aos "Verdes", no Reino Unido.
Preocupante, é a percentagem de abstenção que, só na Holanda, atingiu os 63%...
Ou seja, nem todas as más previsões (crescimento do partido xenófobo holandês) se concretizaram, mas a desilusão, com esta Europa, parece ser crescente.
Resta aguardar pelas votações nos restantes países, para podermos extrair conclusões mais definitivas. Em Portugal, após duas semanas onde se discutiu tudo, menos a União Europeia, não são de esperar grandes surpresas. Os dados estão lançados e toda a gente já percebeu a tendência do voto: a coligação governamental vai perder e a oposição vai ganhar, mas não é seguro que a situação se altere: a coligação governamental não se demitirá e o presidente da república não demitirá o governo. Porque a oposição não dá mostras de unidade na acção, a situação manter-se-á nos próximos quinze meses.  Lamentável, até porque, mais um ano deste governo, será um mais ano de austeridade e sacrifícios para a população portuguesa. Depois, não se queixem...   

quarta-feira, Maio 21, 2014

A assobiar para o lado, até que um dia...

Já há muito que se tornou doloroso observar o gigantesco acto de prestidigitação que foi montado em torno da chamada crise da dívida soberana portuguesa e o modo como o Povo Português a ela reage. Nem Siegfried & Roy alguma vez conseguiram tamanha proeza. Esta questão da culpabilização dos povos e da exaltação dos chefes e do seu papel providencial, não é um fenómeno de hoje nem, seguramente, um "problema português". A teoria política disseca este tema e há várias explicações para ele. Em todo o caso, é de coelhos tirados da cartola, de ilusionismo, portanto, que estamos aqui a falar. Vender a crise é como vender detergentes, criando a ilusão de que um lava "mais branco" que o outro e nisso, temos de o admitir, os actuais governantes arriscam ganhar o Leão de Cannes...
Há uma série de ideias que entraram no imaginário colectivo de uma forma chocante e verifica-se que a esmagadora maioria das pessoas actua perante essa ficção que é a "crise" como se se tratasse, de facto, da realidade, deixando a realidade, essa sim, escapar-se-lhe por entre os dedos.
Duas ideias ilustram isto que digo.
Primeiro, a ideia de que temos de "reformar" o Estado. Ninguém está contra a necessidade de melhorar serviços, poupar recursos, alterar até objectivos. Todos, mas todos!, queremos mais, melhor e maior eficácia na obtenção de resultados. Querer, pois, reformar o Estado não é, em si mesmo, algo digno de nota especial. O que está em causa aqui é verificar se aqueles que repetem esta ladainha o estão a fazer bem, se não estão a agravar o problema que diziam querer resolver ou se não estarão a aproveitar para impor a sua própria (uma outra) ideia de Estado. Se levarmos em conta tudo aquilo que foi dito antes, para obter a legitimação democrática necessária para levar a cabo estas reformas, o que parece quererem dizer agora aqueles que propagandeiam e os que papagueiam, sem reflectir, este cliché, é que temos de acabar com o Estado. No entanto, lá os vemos com ar moralista a repetir o estafado argumento dos gastos acima das possibilidades, do défice incomportável e da impossibilidade de viver assim, alapados, eles e os amigos, no Estado que tanto criticam.
Dizer-se que temos de alterar o estado actual do Estado não é nada em si mesmo. O que está em causa é como fazê-lo e com que resultados. É a esse julgamento que os actuais responsáveis pelo governo de Portugal parecem querer fugir, ao repetirem a mesma conversa sem se submeterem à nossa avaliação periódica. Nós somos a troika! 
Outra das ideias que esvoaçam constantemente nos discursos dos políticos e nas análises dos doutos comentadores, pagos para nos ensinarem a pensar, é a de que vamos ter reforma para 20 ou 30 anos. Portugal não se levanta nem daqui a uns decénios, vamos continuar como " protectorado" mais não sei quanto tempo, os credores exigem, os credores dominam. Esbanjou? Tem de ajoelhar!  Estas ideias em particular, ouvimo-las da boca dos mesmos responsáveis políticos que as originaram (ouvimo-las da boca de Cavaco Silva, por exemplo, que a proferiu sem corar de vergonha, assobiando como se nada fosse com ele) e ouvimo-las também de gente crítica do actual governo e das suas orientações, alguns mesmo que conquistaram auditório a denunciar os desmandos dos políticos e que agora se limitam a fazer coro com aqueles mesmo que antes denunciaram, não apresentando - facto significativo! - uma única alternativa ao que criticam nem se comprometendo com a viabilização de soluções para as críticas que proferem. Gente de gravata, falar manso e cara bolachuda, diz aos sem-abrigo, magros e esfarrapados que vão ter de permanecer dentro dos caixotes de papelão mais umas décadas.
Não há culpados, há uma "dívida", que é vista como se fosse um desses arquétipos platónicos, coisa portanto intangível e só discutível no domínio da música das esferas, mas ninguém assinou o cheque nem mandou publicar em Diário da República. Fomos "nós", os "portugueses", mandriões e desorganizados, que levámos o País à ruína. 
Espanta a leviandade com que gente de barba branca fala na hipoteca do futuro de filhos e netos sem pestanejar, sem sequer sentir, aparentemente, um leve resquício de vergonha na tromba. Começar a vida com a perspectiva de que quando tiver 20 ou 30 anos vai ainda ter de pagar uma dívida que não contraiu, é esta a "promessa" que faço à minha neta recém nascida?! Uma dívida que o avô nem sequer contraiu? E os que, de facto, a contraíram, limpa-se-lhes o cadastro? E será na realidade a dívida dela? E se for, não terá ela direito a uma compensação por nos ir pagar algo que não avalizou? Como vai ela sustentar-se a ter de pagar os compromissos necessários a assegurar a sua sobrevivência juntamente com os encargos do regabofe para o qual não contribuiu? E esta gente, mesmo a que critica as actuais orientações do governo, acha isto normal? O movimento pró vida transformou-se em movimento pró dívida...?
Contra isto alguns Portugueses reagem saindo do País, outros juram que não vão votar, muitos, a maioria, diabolizam os políticos mas fogem à responsabilidade de os apear do poder e criar verdadeiras alternativas. Irão para a praia em dia de eleições, dirão depois que não foi com a sua ajuda que "estes" foram para lá, sentir-se-ão assim leves que nem pássaros. Mas não, a culpa é deles e mais tarde ou mais cedo, de uma forma ou de outra, vão ter de pagar por isso.
Já terão os Portugueses pensado como vai ser, de facto, a sua vida, a sua, dos seus filhos e netos, daqui a 20 ou 30 anos se continuarmos a assobiar para o lado da forma como temos vindo a fazer até aqui?

sábado, Maio 10, 2014

MERDRE SUR CALDAS, o peido invisível


O Pacheco, Luís, andou aos caracóis nas Caldas, para comer, quer dizer, comia caracóis - passou no Lisbonense, Hotel, umas férias sem factura nem dívida, errância libertinada, à solta, um dia de fartura e pontapé no cu, em epílogo.
Os caracóis fazem boca para a cerveja, mas os caracóis era o que o Pacheco dava às crias depois de sair do ninho e caçar onde caracolassem, nas estepes caldenso-gaieirenses, matagal de bermas da estrada.
O Pacheco cervejaria? Quer dizer, tudo vale se a alma não é pequena e a sede aumenta e tal. À falta de tinto era sabido que era desportista, embarcava na distância entre o tinto e a canha, o fino, a imperial, o príncipe, o que queiram. Tinha mais que bom feitio, estômago. Se há crise não conheceu outra dívida que não fosse a vida. Era um tipo que, mesmo leninista - a foice no caixão mais o martelo por paixão ao Lenine (clicando vem o brasileiro das cantigas) - era sem medida, inclassificável tanto quanto inarrumável. Não se pode dizer o mesmo de muitos, precavidos e estrategos da sua própria táctica existencial, carreiristas ou mesmo casados por conveniência, como nos negócios reais - de realeza.
Ora ocorreu-me e não é uma ignição (os incêndios são mais para o verão) que a Merdre que ele, Pacheco, aplica a Caldas é do Jarry. Merdre diz Ubu. O Pacheco sonhou-se Rei dos Caracóis, contando com os próprios ossos em paisagem, a ver se eram os que sobravam por estar em pé e se neles os caracóis fariam ninho.
Sei que nada justifica o que colateral é essencial, o que é dizer que a vida de qualquer outro merece uma atenção total - muitos, egocentrados, sem abandonar o útero que os tem para sempre, por preguiça em renda e oportunismo matricial, não percebem: acham que são eles o centro e que todos lhes devem o que eles não cessam de roubar, inadvertidamente, claro, até são boa gente.
Não me move nenhum tipo de idolatria pelo Pacheco, não se pode seguir um pulha mesmo que este faça o pleno dos afectos e tenha graça para esbanjar, mais que qualquer marketing indutor, daqueles que convertem a qualquer moda por razões de troca sócio-estatutária - fazes a madeixa, a tatuagem, pões os saltos muito mais altos, mesmo coturnos.
Outra coisa é a literatura e mesmo o talento (que será? Vem da moeda?), talvez, talento dioptrióptico, espesso filtro de vidro antes de encontrar o real, o que permite ir mais ao fundo que ir à superfície, coisa mais de panorâmicas.
Só agora topei que a porra da Merdre era dupla, a ubuesca e a olfactiva. Em Caldas Sur Merdre, capital do caralho de louça, cheira a merda, quer dizer, a Merdre e não estamos a falar da sua gente institucional, cujo cheiro é certamente indiferencial, mesmo o anal chEira a burocracia comum, institucional global, a reunião, a aconchego sob tecto, a inauguração mecenática parola com BCP ou outra narcotraficância branqueadora.
O camarada Pacheco, bisexual de um só cartão partidário, seu multibanco fora os democratas mais moderado-existenciais, percebeu a ambiguidade da coisa: entre a sulfurosa e olfactiva força da terrenidade subterrânea e a sofisticação termal, perdida na memória, só uma palavra era possível, MERDRE. O francês, o R que canta, dá ao vernáculo luso um toque que faz o glamour do sítio e das gentes. Na verdade é como diz o Carlos B : podemos descuidar-nos que ninguém sabe quem foi. Assim o prevaricador prevarica em paz, a emissão peidal é dos censos e coisa de estatística. Fadada, para a coisa ser perfeita, a plataforma electrónica e análise swotttt. What é que vocês pensam?

quinta-feira, Maio 08, 2014

O insustentável peso do medo


Bem sei, o medo combate-se. Mas o combate é muito difícil quando, como anedoticamente ilustrado neste vídeo, o opositor tem a faca e o queijo na mão. Então só pensas em sobreviver, na esperança de que a situação seja transitória, e engoles todos os sapos possíveis: aceitas um ordenado de merda, trabalhas as horas e os dias que o patrão mandar, obedeces a ordens absurdas sem ripostar, aturas as maiores faltas de respeito. Em breve usarás métodos de que não te sabias capaz porque és obrigado a competir com os teus colegas de trabalho e porque eles também os usam, justificas-te perante o grilo da tua consciência. Além disso, apesar de o emprego ser merdoso, sabes que estão lá fora a formar o salto mais uma data de outros desesperados. Isto não é ficção.
Escrevi que o medo segue dentro de momentos. De facto, depois do 25 de Abril, não foi preciso esperar muito para o medo regressar aos nossos corações. Ou melhor, nunca de lá saiu. Num ensaio que para mim funciona como referência, Portugal, Hoje – O Medo de Existir, o filósofo José Gil defende que mantemos em nós um atavismo que nos leva à “não inscrição”; somos nós quem não se consegue inscrever num clube que nos aceita como sócios. Mais depressa acreditamos que um dia um qualquer D. Sebastião sairá da neblina para nos vir resolver os problemas. Porque temos inscrito nos nossos seres esse medo, mesmo os jovens que nunca tiveram a experiência de viver sob um regime repressivo. Porque estas coisas passam de geração em geração, sem que os próprios por vezes tenham consciência disso.




terça-feira, Maio 06, 2014

Limpinhos, limpinhos...

Sem surpresa, o governo anunciou em Bruxelas a saída "limpa" do programa de austeridade, a que Portugal esteve submetido nos últimos três anos. Uma operação mediática, que começara na véspera diante das câmaras de televisão em "prime-time" e que terminou ontem, com alguma "pompa e circunstância", apoiada pelas declarações dos inefáveis Durão Barroso e Jeroen Dijsselbloem, personagens tutelares do programa de "salvação" imposto a Portugal. Já anteriormente, a Troika tinha-se (auto)congratulado pelos resultados obtidos (todos "bons", a avaliar pelos balancetes publicados trimestralmente nos jornais de referência) pelo que não havia surpresas nestas conclusões. Estivéssemos nós em Hollywood e não faltaria o "happy end" dos filmes "cor-de-rosa" a que nos habituaram no passado. "All well that ends well", como diria Shakespeare, para continuar na língua do dramaturgo maior. Do que nos queixamos nós, afinal, perguntava ontem um desiludido deputado da maioria parlamentar? De facto, após tantos sacrifícios, não se compreende que os cidadãos deste país não estejam agradecidos a quem, em seu nome, pediu "ajuda" aos sempre beneméritos organismos bancários que nos "protegem".
Acontece que esta era uma produção "manhosa", arquitectada e produzida por estagiários medíocres de um país há muito desacreditado nas praças financeiras internacionais. Ora, como sabemos, da era dos omnipresentes "mercados" e das agências de notação,  contam muito pouco as intenções e conta muito o peso real da economia. Tivéssemos nós a importância de Espanha ou Itália e outro "galo cantaria". Mas, não temos, e agora é tarde.
Para já, os principais indicadores são, salvo raras excepções (fim da recessão e aumento de exportações) todos negativos. O "déficit" continua acima dos 4%; a dívida pública aumentou para 130%; o desemprego é o terceiro maior da zona Euro (15% da população activa e 35% entre os jovens); mais de 350 000 desempregados, sem qualquer espécie de subsídio; mais 200 000 emigrantes nos últimos dois anos; cortes brutais nos ordenados e pensões de reforma; 20% da população a viver abaixo do limiar da pobreza; 25% de crianças sub-alimentadas; mais de 3000 "sem-abrigo" nas principais cidades do país; dezenas de milhares de empresas falidas e a consequente perda do poder de compra de famílias inteiras, que ficaram sem casa e outros bens pessoais confiscados pelo fisco; aumento dos Bancos Alimentares em todo o país; menos e piores serviços públicos, como escolas, hospitais, polícia e lojas do cidadão, e.o.
Enfim, a lista é longa e visível a olho nu. Porque, no meio deste "tsunami" social, poucos são os que ousam ter filhos, a pirâmide demográfica inverteu-se nos últimos anos e, actualmente, são já mais os que morrem do que os que nascem. Ou seja, o país está mais velho e há cada vez menos gente a descontar para manter o actual estado social. Uma tendência que, a não ser invertida, conduzirá inevitavelmente à diminuição da população (prevista, de resto, para a próxima década) e à desertificação acelerada do país. Sem uma população jovem qualificada e sem uma productividade significativa, o crescimento económico ficará sempre aquém do necessário, o que implicará mais ajuda externa, logo maior dependência económica do estrangeiro. Um programa para vinte anos...
É o que se chama uma "limpeza geral". Não é, pois, de admirar, que os nossos governantes andem tão impantes em Bruxelas. Ninguém os poderá acusar de não sermos limpos.

domingo, Maio 04, 2014

YES GIRL OU DA FIDELIDADE CANINA E INSTITUCIO-ANAL

A Cão deputa. Em Lisboa. Na terra não deputa, demanda ansiosamente deputar fora dela mentindo nela o que for necessário para parecer que deputa o que se supõe se depute longe dela – deputam cada vez menos por lá e traficam cada vez mais com o próprio lugar mas também praticam todo o tipo de serviços necessários à seita partidária, de alto abaixo da escala. E particularmente o que for útil ao chefe imediato e ao chefe de topo. 
Com a verdade polida ao momento e algum hálito mastigado fora, mesmo fumado no fumo alheio se necessário, aparece bem montada em qualquer sela: a sua utilidade vem de um saber escuteiro, das catequeses e do ranço que tempera o seu servilismo arrivista, o sorriso gravado na pele como máscara, o hálito polido nos dentes saídos com a graxa das simpatias circunstanciais. 
O que é renda serviçal a mantém à tona. Se for necessária mentira e lucro, tudo bem, pois a quem por cima se mantém o que convém é o que por cima o mantém feito em baixo e com as baixezas traficadas por quem é capaz delas. Ela, Cão, desmanda, não manda, morde apenas no subalterno e morde com os dentes tortos ou os novos-ricos, investidos, principalmente na canela mais sincera que da dentada se não livra pois o que for verdade não tem caminho nela. A Cão detesta a verdade. É crítico o que na canela tem a sua marca de unha partidária arreganhada e não quer pagar o que dizem que deve não devendo – quem afinal vive acima das possibilidades mais que aqueles que foram donos das possibilidades desde que a tal Europa as trocou pela descaracterização lucrativa nacional? Que país é este tal em que assim se deputa a identidade? Nem o das tais três sílabas de plástico, pois esse apesar de tudo silabava e este só grunha.
Pouco manda ela, a Cão, afinal apenas é num quintal. Sua a casota que aí impera, grande casota com vistas para dentro da horta público-privada, querida e regada com a clandestina coisa pecaminosa que é capital secreto, porventura a ver se o que é geneticamente seco se humidifica milagrosamente no final de cada mês. 
É entretanto no quintal da frente que o penteado acontece: é evento em souplesse de sedosa publicidade silenciosa, só de estar na foto. No detrás se faz o desmancho ou o arranjo. O penteado queque é óbvio na frente, com o cabelo que há, a mise em work em progresso é no detrás, os rolos em cascata-croquete delirando na sobre tola sem miolo. 
E quem na Cão se põe? O Cão dela. No momento em que quer ladrar mais acima no estatuto ladra-lhe vociferante para cima de modo canino-masoquista. O Cão cuja cilindrada fede também a nabos vindos daquela frase de um tal Vicente que diz “assim que bafejais logo me cheirais a nabos”. 
Que bicho tem inimigo que não seja de humana ordem aprendido? Cão gosta de gato e gato de rato, o contrário é induzido – fome é outra coisa - e deputado de filha deputar. Deputado aplaude quando a batuta chefe lhe bate no bestunto. Quer dizer, se mandam ladrar ladra e não bate palmas. Mas há quem nem boca abra na magna assembleia quatro anos dados. Deputar calado colhe. Deputa com quem o calado? Deputa com ninguém, mas consigo, por certo. E consigo prossegue caninamente o que o umbigo inidentificável lhe dita – que pequeno burguês diz eu que seja identificável mais que ser o que tudo possa ser dizendo eu e sempre a dar à anca? Que lhe dita o umbigo? Dita-lhe que bingo: sigo caninamente o cimo e quando o cimo anda perdido melhor é andar na sombra e desacontecer – o deputado nem sempre é performativo. Com aos que sei Cão como ela, ou ele, são muitos. Deputa com não sei quantos que com certeza deputam e são de deputar disso, calados ou acontecidos. Serão? São e com que habilitação que seja? São de assim condizer com o nada ser mais que rebanho e nem diploma tenham mais que o cartão partidário. Saber? O quê? Para quê? Melhor é calar e abrir a boca para sim dizer o que convier ao que de cima ditarem. Lá vir opinar isso é outra coisa e é no quintal detrás. É colar bem no ouvido de quem traficar. 

terça-feira, Abril 29, 2014

Mudar de Vida...

... é o título do filme, dedicado à vida e obra de José Mário Branco, exibido no "Indies", o Festival de Cinema Independente, a decorrer esta semana em várias salas de Lisboa.
Um documento importante, num país sem grande tradição de "biopics" e, onde, a maior parte dos documentários, é feita para a televisão.
A partir de material inédito, filmado em França nos anos setenta, o documentário "Mudar de Vida: José Mário Branco, vida e obra", acompanha cronologicamente a vida do cantor, desde o exílio em Paris ao regresso a Portugal, após o 25 de Abril, incluindo as experiências no Colectivo GAC e nos grupos de teatro "A Comuna" e "Teatro do Mundo", até ao seminal "FMI", período que, nas suas próprias palavras, encerra um ciclo da sua vida artística. Segue-se uma segunda parte, onde o filme acompanha o processo criativo do músico e compositor, em projectos tão díspares como a produção dos álbuns de Camané ou "raps" de Chullage, sem nunca passar ao lado da intervenção política, um prolongamento da sua vida como músico.
O documentário, abre com o texto "Mudar de Vida", do concerto do mesmo nome, filmado na Culturgest em 2008 e que, ao longo do filme (115 minutos), regressa como fio-condutor da obra.
Realizado pelos jovens Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro, "Mudar de Vida" foi produzido com a ajuda de "crowdfunding" e é uma co-produção luso-francesa. As suas quase duas horas de duração, provam que o dinheiro foi bem investido. A ver, porque imperdível.   

domingo, Abril 27, 2014

A ouvir...



Vale a pena ouvir esta entrevista que Salgueiro Maia deu a Manuela Cruzeiro, pouco tempo antes da sua morte. Revelações importantes foram feitas nessa altura, que importa recordar hoje.

sexta-feira, Abril 25, 2014

25A40 - O som do cravo

Um concerto em três tempos.

1º tempo

No princípio era o silêncio. O pensamento abafado, a voz muda, o segredo, o degredo, a clandestinidade. “Se fores preso, camarada”... Portugal vivia em silêncio, um silêncio antigo que se foi instalando com o crepitar dos primeiros autos de fé. 

Fé. No final de 1973, início de 1974, acreditei (e continuo a acreditar!) que a educação musical é um factor de libertação. Que pela via da música todos podemos atingir o nosso apogeu, todos podemos ser melhores seres humanos. A experiência pedagógica fugaz que tive nesta altura, imediatamente antes do 25 de Abril, parecia confirmar que o meu credo — de que a música deveria fazer parte do currículo escolar, não do modo acessório como acontecia até então, mas como disciplina fundadora — é uma ideia razoável, cujas bases era necessário lançar. Silenciaram-me nestes propósitos.

Havia tempo que tinha mergulhado num universo musical caótico e esta componente pedagógica, que logrei pôr em prática ainda antes de Abril, resultava de uma reflexão sobre esse caos, era uma espécie de destilação deste caos, que mais não era, por sua vez, que um acto de resistência, um esforço pessoal de exigência de liberdade e de crença na capacidade de transformação da sociedade através da música. Este universo musical caótico era a minha tentativa de romper com o silêncio.

Ao mesmo tempo, perguntava a mim próprio aonde nos poderia levar toda a amplitude criativa e estilística que na altura existia, cuja influência também sofri. Perguntava para que serviria todo aquele novo ferramental sonoro, que já então despontava, a que eu tinha finalmente acedido e que tinha já começado a dominar. Para que serviria tudo aquilo se não existissem ouvidos para ouvir a nova música. Como viabilizá-la? Todas estas perguntas tinham como resposta o silêncio. 

2º tempo

O 25 de abril apanhou-me no meio destas perguntas sem resposta, mas revelou-me, de imediato, uma enorme quantidade de respostas para perguntas que nem sequer tinha imaginado. Tudo parecia então possível. Todos os sons pareciam poder suceder a todo aquele silêncio. Mas essas possibilidades não serviram para me dissipar as dúvidas. Todas as dúvidas eram também possíveis.

Um dia, regressava a casa tarde, e fui surpreendido por um intrigante acontecimento sonoro. Uma nuvem sonora composta pelos ténues sons de milhares de pequenos insectos que, na altura, não consegui identificar com rigor, produzidos talvez pela Tettigettalna aneabi, que soa assim. Não é possível descrever o som de milhares destes insectos espalhados por uma área sensivelmente do tamanho de um campo de futebol. Façam, por favor, um esforço de imaginação. A tentação de usar aqui a metáfora do pirilampo é grande. Em vez das luzes, imaginem-se "cliques". Mas não, não vou cair nessa tentação...

Fiquei ali quieto durante muito tempo a ouvir aquele deslumbrante espectáculo sonoro. Lentamente fui percebendo que a música que eu procurava estava ao alcance do meu ouvido. Pré feita. Em vez de me preocupar em introduzir mais sons no ambiente, de meter mais som ao barulho, devia talvez prestar atenção ao som, aos sons que me rodeavam.

O próprio 25 de abril, que se ia desenrolando na altura à nossa volta, era feito de sons que de forma subtil se iam enraizando em nós. A Revolução tinha começado com o som da rádio. Foram as canções que deram o sinal para o início das operações. Depois foi o som das marchas militares. De seguida vieram as vozes dos locutores com a leitura dos comunicados do MFA. “Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas”. E novamente as marchas militares, designadamente uma, chamada “Life On the Ocean Wave”, que ficaria conhecida como a “marcha do MFA”. Essa foi a sonoplastia original do 25 de abril. Rapidamente se lhe sobrepuseram os primeiros gritos de liberdade, os (poucos) tiros, as primeiras palavras de ordem, os primeiros discursos, os primeiros comunicados. Por cima dessa sonplastia original foram-se inscrevendo as vozes dos protagonistas da Revolução, cujo timbre ficou para sempre gravado na memória auditiva de todos nós, os que vivemos esse momento. As músicas antes proibidas tocavam agora continuamente numa jukebox que adornava o nosso quotidiano. O grito das reivindicações era o coro que marcava os momentos de tensão. Os passos da “Grândola” ouviam-se firmes, num crescendo inexorável. O 25 de abril foi uma empolgante paisagem sonora. O cravo soava bem.

Foi com o 25 de abril que aprendi verdadeiramente a escutar o mundo à minha volta. Com o meu gravador ao ombro e de microfone em punho, aproveitei para calcorrear quilómetros e registar tudo o que produzia som. O mundo ouvido começou a ter um significado diferente desde então. Dei-me conta que todos os sons estavam ainda por descobrir. O 25 de abril veio-me provar que era possível entender melhor o mundo escutando-o.

3º tempo

Um dia uma bomba rebentou, com enorme estrondo, os emissores da rádio. De instrumento da revolução, a rádio passou a obstáculo que era preciso demolir. Silenciá-la com estrondo foi a solução. E ao estrondo seguiu-se a imposição de um novo silêncio. Um outro 25 a querer restaurar velhos métodos. Eu próprio fui vítima desta tentativa de silenciamento, num incidente caricato que envolveu uma guitarra eléctrica tomada por uma G3.

O silêncio de antigamente, cedo descobriram os promotores desse novo 25, não era afinal possível. E o silêncio transformou-se em ruído. 

O silêncio é a tela negra onde todos os temores se projectam. O ruído é a tela branca que ofusca todos os pensamentos. Ambos, silêncio e ruído, visam os mesmos objectivos: tolher movimentos, impedir a acção. Silêncio e ruído são ferramentas do poder. É preciso ter poder para conseguir impor silêncio ou produzir ruído. É preciso capacidade de luta para contrariar e vencer os seus efeitos. 

O 25 de abril significou, para mim, perceber o mundo sonoro à minha volta e ganhar a capacidade de o escutar. A capacidade de escutar é algo que considero ser a componente decisiva da democracia. Escutar para além do silêncio que não nos permite ter voz e escutar para além da cacofonia que procura mascarar e confundir as vozes necessárias. Bem escutar para bem soar. Há anos que venho chamando a atenção para esta verdade singela: só escutando será possível desmascarar aqueles que pretendem silenciar a nossa voz ou afogá-la num mar de vozes que tornam a nossa indistinguível. 

40 anos depois do 25A creio que ainda não ganhámos a capacidade de nos escutarmos uns aos outros. Não escutamos os nossos companheiros de jornada, sem os quais não atingiremos jamais o nosso desígnio colectivo, e não escutamos verdadeiramente aqueles que apenas nos pretendem confundir. Se os tivéssemos escutado, de facto, não estaríamos como estamos. Eles disseram tudo.

Escutar é uma (talvez, a) exigência maior da democracia, que Abril não conseguiu ainda ensinar.

quinta-feira, Abril 24, 2014

25A40 - Abril de escravos mil?

Comemorar como quem põe mais um prego no caixão é recusar a potência inscrita de liberdade, justiça e igualdade que Abril trouxe e que existe tão intacta quanto tem vindo, de novo, a tomar a forma de um desejo colectivo como o prova a manifestação abrilista de 15 de Setembro de 2012. Em Portugal deseja-se um novo Abril propulsionado pelo de 1974 – é por não ter sido cumprido, tendo acontecido, à vista como uma terra boa que se julga achar, que as potencialidades são reais enquanto Abril não estiver para além da memória ou pela via da usurpação da sua carga simbólica convertido no que não é, um qualquer 25 de Novembro. 
O que é necessário fazer é o que não se fez e foi possível em embriões de novas sociabilidades destruídos policialmente pela “normalização democrática” primeiro e pela integração europeia depois – esta nunca aconteceu pela convergência entre os níveis de desenvolvimento díspares e as desigualdades nacionais, no plano do aprofundamento das democracias versus qualidade das vidas de cada país. O que aconteceu foi uma dissociação progressiva entre países numa integração subalternizante para os do Sul, europas de primeira, segunda, terceira e por-aí-fora, a bitola das desigualdades não cabe na visão mecânica das estatísticas, há portanto a considerar nos países avançados as comunidades emigrantes que, com regresso de um racismo activista, colocam questões mais que problemáticas à ideia de uma Europa da inclusão – pelo contrário, como temos visto na Alemanha, em França, na Itália e na Inglaterra. A conversa das duas velocidades oculta muitas outras realidades, a velocidade em si não é uma via de integração, só tem como ideia aquela pobre ideia do desenvolvimento como fenómeno quantitativo em busca de novas qualidades, quando existem questões culturais, religiosas e raciais que não são irrelevantes. 
A propaganda do establishment, assumidamente pragmática, a política real, culpando-te a ti, do Sul por seres quem és em nome de uma superioridade laboral especificamente alemã lança de novo o mote da superioridade racial e está presa à venda da ideia – as ideias são marketing para o poder conservador neoliberal europeu, convertidos ao consumo, como horizonte atingido, no lugar de Deus - de um comboio de duas classes, esquecendo que muitos viajam na carga e clandestinos, que outros estão parados onde nada chega, os interiores abandonados em que vivem populações idosas e que na fronteira da Europa muitos morrem numa espécie de catástrofe constante, como acontece em Lampedusa ou Melilla. Essa propaganda que afirma que apesar de tudo continuamos a parte do mundo civilizado mais civilizada enquanto deita para o lixo justamente o estado social que a caracterizava enquanto tal, esconde também, por exemplo, que a disparidade salarial na Europa civilizada pode chegar a abismos de distância como acontecia nas sociedades asiáticas de outrora: o salário de Gaspar é de 22.400 euros, muitas pensões rurais não atingem os 250 euros e esta diferença está longe de ser aquela que se verifica no sector bancário e privado em geral, em que há indivíduos, lembremo-nos dos Jardins Gonçalves das Opus Dei que são donos de pirâmides de ouro tendo enriquecido pela via da gestão, das administrações, do tráfico de influências e da especulação.
Abril interessa pelas conquistas, praticamente destruídas - não tendo sentido uma fixação na sua reconstrução mecânica como A política alternativa – mas interessa mais pelo que encerra de não realizado ao tempo: a revolução que se viveu como experiência mas que não se enraizou como democracia real. 
A tomada real do poder por um bloco social que não veja o futuro como dependência, sujeição a terceiros e pseudodemocracia massivas, devir empobrecido, desqualificado, pura imitação do que deva ser uma democracia, é decisiva. Tomada do poder por um bloco vasto que deseje um país da pluralidade das culturas que ao mesmo tempo não faça desaparecer a maravilhosa língua que nos identifica e teve um papel moldador de outros mundos, não fosse a nossa língua uma pátria aberta a falantes de outras línguas, matriz de pluralidades culturais, nas origens e nas consequências das partilhas com outros, vejam-se os crioulos, o português do sertão nordestino, de Moçambique, o português brasileiro, todas as formas de falar a língua que nenhum acordo travará e que beneficiariam, todas elas, de um contacto permanente e profícuo com uma matriz cuidada e amada. O que supõe uma política da língua menos obcecada pelo inglês, seja técnico ou de praia e sorria yes no dente perfilado para turista consumir... Se ao menos fosse o de Shakespeare estaria perto de uma mitologia comum greco-latina e até, já que o inglês tem o seu latim dentro, de uma matriz algo coincidente, parcialmente. O problema português é também o da colonização da língua, uma forma de a descaracterizar, como é a questão da natalidade. São questões decisivas.
Abril comemorado como o fazem oficialmente é um Abril desvitalizado, sem a sua “cafeína”, um Abril contra Abril. A normalização democrática, como a expressão trai, foi um modo de converter as conquistas que chegaram a ser direitos praticados num misto de romagem de saudade a Abril de 1974 e de alguma excitação polémica em torno da sua curiosidade histórica, tempo excêntrico, particularmente para os que não viveram Abril e a quem vendem a ideia de uma espécie de período de pés descalços no poder, de momento de loucura pouco mansa dos avós, de nenhuns brandos costumes, de desgoverno – desgoverno que agora nos conduz para o abismo e que assim olha Abril, um Abril que não foi, enquanto durou, obcecado de bancos nem em mercados, mas em população e democracia. Abril que nada teve de carnificina e que se algum sangue trouxe foi pelo anticomunismo e antissocialismo de meia dúzia é apresentado como excessivo, tresloucado, quando terrorista era o sistema a que deu fim – em Abril até o PSD era socialista e contra a exploração, falava mais em trabalhadores do que em classe média, claro que a estrutura do voto – social - era outra. 
Um novo “respeitinho é que é preciso” é o que quer este “jovem poder”. Querem uma espécie de passividade contente do sacrificado – é a visão de um “cidadão” obediente ao chefe - que vota na via única da dívida como não havendo para além dela outra vida – com eles vão voltar as bandeirinhas e o cortafitismo, as várias inaugurações para a mesma coisa inaugurada, como já acontece. A propaganda hoje omnipresente anda exultante. Eles confundem, de facto, regressão com vida e futuro com retrocesso, estão mais perto de Salazar do que dos economistas que não cessam de citar, as suas políticas são tão científicas quanto os resultados que apresentam: fome como nunca houve (25% dos portugueses no limiar da pobreza e muitos nem isso), desemprego/emigração (não se pode ler de outro modo), vulgarização e destruição do universo escolar, dos aparelhos mínimos da cultura e das artes, concepção da sociedade como uma espécie de falanstérios de vida/produção concentrados, com as pessoas a receber salários menos que mínimos e a viver em espaços urbanos degradados, população que deve estar agradecida e dobrar a cerviz pelo esforço que os governantes fazem – se eles soubessem o que custa governar! Onde é que já ouvimos isto? Um país a ser “organizado” como urbanizações degradadas de um lado e, a par, uma política de condomínios para criaturas Gold, algumas já nas prisões por branqueamento de capitais. Em Espanha o BES foi multado por coisa parecida, ter clientes ligados a essa prática. O turismo é outra das obsessões, não um turismo que respeite as identidades culturais, mas um turismo folclórico que transforme os “indígenas” em criaturas gentis, guardanapo no antebraço a direito e vincado do ferro, mal pagos mas agradecido pelo emprego, essa raridade em vias de extinção, a servir os reformados e turistas do Centro e Norte da Europa, da China e de outras paragens em que o crescimento económico prevalece, numa conversão do litoral num outro país em que domina um inglês de troca comercial, uma espécie de colónia dos paradigmas do lazer, peixe fresco e sol, em que somos apenas os serviçais, cozinheiros, barmans, criado de mesa, camareiras, porteiros e outras profissões altamente qualificadas. A quantidade de Escolas de Hotelaria que pulularam, por um lado e de campos de golfe e resorts, por outro, mostram bem a visão que os poderes têm da relação com esses terceiros do dinheiro- resta obviamente acrescentar os universos colaterais das prostituições e da pedofilia para um quadro completo.
Os tais excessos que dizem que se praticaram em Abril – Oh saudoso PREC, quantas injúrias te lançam levianamente!- não foram o suficiente para vivermos hoje uma democracia plena, tivessem esses excessos ajudado a cumprir Abril. Vivemos um simulacro. Os sinais mais evidentes disso são por certo, repito, a pobreza, 25% da população, o desemprego, a emigração que voltou, a generalização do medo e a eleição do gesto da delacção como “cidadania” premiada pelo poder. O que aconteceu nos transportes públicos recentemente, o convite a delactar quem não paga ou não valida o famoso bilhete e esta coisa do concurso das facturas com prémios Audi, revelam o enfeudamento total a uma ideia de “cidadania” exemplificada paternalmente pelo lado de uma sujeição total à contabilidade de si mesmo e ao policiamento do outro – não só vives para te organizares como burocrata de ti mesmo, ficas fichado, mas és também polícia do próximo, isto é: preenchem-te um tempo mental e controlam-te por todo o lado, nas portagens, balcões, escola, hospitais, etc., enquanto querem que sejas tu também controlador, controlador controlado. És vídeo-vigiado e nem dás por isso – o que eram visões de utopistas alucinados na literatura, vem-se insinuando como real. Tudo em nome da dívida e, não esquecer, do combate ao tal terrorismo que é alimentado pelas lógicas do antiterrorismo globalizado do Estado Espectacular Integrado. Aliás com o 11 de Setembro americano – que vale o de Allende?- os calendários e suas simbólicas datas foram revalorizados ideologicamente, perdendo força tudo o que era libertador e reforçando-se tudo o que é securitário e policial.
Voltou tudo aquilo que motivou o 25 de Abril excepto a guerra colonial. De um peso equivalente hoje e mais grave, é a perda da soberania. Se antes de Abril o poder era uma força totalitária contra o povo, que não era soberano e vivia sem direito de voto e opinião livre, não decidia o seu destino, agora a entrega da soberania à Alemanha e a organizações “internacionais” dela e dos Estados Unidos dependentes, no quadro da negação de uma Europa de soberanias interligadas livremente, faz de Portugal um país colonizado, tutelado, protectorado como assumiu o direitista Portas com orgulho de protegido – necessita ser defenestrado pois. Colonizado porque a “integração” tal como se processou é uma descaracterização da nossa identidade cultural e linguística – a história do acordo ortográfico tem um significado político pois cede na matriz para traficar uns cobres, para se inglesar na vocação comerciante, os curricula escolares de Bolonha são de um generalismo wikipédia antieuropeu, de vulgarização reles de conteúdos de conhecimento, da extensão e pluralidade do saber (está tudo na net, é com cada um, dirão! como se aprender a nadar fosse uma questão só de haver mar, um mar, claro, sem ondas nem peixes, alguns grandes). O que era superior e qualificado, é inferior, vulgar e mimético, citam-se bolcos de net por pura mecânica numa prática totalmente desconexa, absurda. Descontextualizada. E somos tutelados, colónia, porque não temos um governo autónomo mas um governo guiado de fora, satélite dos mercados financeiros e da Alemanha, obediente e covarde. 
O que hoje sucede politicamente e na economia como sujeito único é mais inspirado no salazarismo do que na libertação que os militares trouxeram – a liberdade que é uma conquista é o princípio necessário de mais liberdade, de um enraizamento da liberdade que liberte e crie igualdade, justiça, qualidade da democracia. Claro é que se governa sob o primado de uma ditadura financeira que, em si, não gera democracia, antes a destrói. O que o défice e a suposta política anti défice trouxeram é a instauração de uma prática do lucro constante dos credores, muito para além da expressão real do pagamento da dívida e na recusa constante de que deva ser auditada – temos todos de ir a fundo e perceber o que se passa e não ir atrás do que nos contam... 
O sistema da dívida e a redução da política à contabilidade da dívida, aliados ao não questionamento da lógica especuladora do crédito, são em si um Novo Velho Regime – Salazar começou nas Finanças -, o da concentração de modos lucrativos que nem sequer na economia se baseiam. O financismo é uma roleta manipulada por especuladores sem escrúpulos que, não sendo cretinos, têm também calendário político – que significa agora, perto do acto eleitoral, o verdadeiro fogo de barragem de boas notícias numéricas quando as más continuam péssimas e os problemas por resolver? As pessoas vão atrás dos números e já não querem ouvir palavras? Tudo se resume à demagogia de uns quantos dados estatísticos a dar ao ambiente informativo – ideológico - consumível um ar científico de inevitabilidade – a tal “ciência” estatística só serve para augurar o pior. Isto quando sabemos que a desregulação é justamente o modo de controlo dos poderes especuladores e que a sua “ciência” não tem outra regra para além da arbitrariedade dos tais mercados. A desregulação, o que é ela mais do que permitir a manipulação a quem tem o poder de impedir a regulação controlando governos e lei? Se tens a faca e o queijo na mão cortas a fatia que queres para ti e desenvolves junto do outro a tua política de redistribuição para famintos em doses “homeopáticas” de relativização da fome e do medo, crias o trauma, a patologia da inevitabilidade da via na cabeça do consumidor, enterrado cidadão entretanto empobrecido, precário, zé-ninguém. 
Abril fez-se contra a guerra, contra a exploração, contra a PIDE/DGS, contra a miséria, contra o analfabetismo, contra a condição periférica e o isolamento internacional – éramos um Estado pária, pois -, contra a necessidade de emigrar, contra o subdesenvolvimento, contra a escola elitista, contra a incultura, contra o abandono forçado dos campos, contra o absentismo dos terra-tenentes alentejanos, contra o trabalho precário, contra a inexistência de direitos sociais, laborais, de opinião livre, contra a proibição de organizar partidos, contra a violência terrorista do Estado fascista, contra a proibição da palavra, contra a liberdade de escrever, contra, contra… a subserviência e o medo eram fruto da omnipresença repressiva, o Estado tinha um rede de informadores e polícias que eram a extensão permanente da sua mão de ferro em todas as realidades íntimas, familiares, em todos os espaços de tentativa de organização política ou apenas de manifestação pública de ideias. O teatro, politicamente, viveu confinado, como numa reserva, sem uma verdadeira expressão pública e protestava quando podia com astúcia, Brecht era proibido, a literatura foi perseguida, as realizações públicas eram vigiadas e serviam muitas vezes para o regime fingir uma abertura que impedia.  O lápis azul era o meio ridículo de uma amputação constante da criação, a mão do censor prolongava o juízo do inquisidor, vinha de séculos de arbitrariedade. 
Estamos agora não no caminho do mesmo, não faz sentido esse tipo de comparações como homogenias temporais, mas num caminho em que aspectos do mesmo teor repressivo, totalitário, não democrático, estão aí. A este tipo de nova ditadura chamar-se-á o quê, um fascismo pós moderno? Não se trata apenas de um problema de nome, ele há muitos que identificam o que acontece, embora o termo financismo, por exemplo, tenha uma falta de conotação política necessária – diz uma cosia mas não diz a outra. A questão do autoritarismo social é mesmo real, da nossa vida quotidiana e real. O ambiente que vivemos é já o resultado de um regime que se tem vindo a instalar e cujos traços essenciais são repressivos e castradores.
A atitude da Presidente da Assembleia da República, Dr.ª Assunção Esteves, o modo displicente da resposta dada aos Capitães de Abril, de quem viveu Abril em Valpaços pela mão do pai alfaiate (e da concelhia do PSD) como diz a sua curta biografia na net, explica claramente a que ponto a instituição mais significativa – e reveladora - do que deve ser a democracia está contaminada pelo tique de um autoritarismo decisionista e irreflectido, “espontâneo”, tão colado à pele que nos faz pensar em outros tempos e em certo tipo de alienígenas. Estas pessoas não veem o que todos veem, então o que veem, são de que estranha origem, de que planeta?
Abril está por cumprir e porventura virá como uma nova Primavera, venha quando vier, no Inverno seja… e que se cumpra.

25A40 - O medo segue dentro de momentos

Continuavam os dias de festa em Lisboa, e não era preciso ir à Internet, que ainda não havia, ver o menu das que estavam previstas para esse dia. Lisboa era bem mais “pequena” do que é hoje e todos sabíamos o que estava na ordem do dia. Sentada no passeio em frente da Rádio Renascença, ladeada por amigos, Quica assistia à “revolução”. Foi então que o Marinho se saiu com a tirada, que ela nunca mais esqueceu: «Já pensaste que se isto fosse pago não tinhas dinheiro pra cá estar?»
Vendo a coisa por este lado, o da sociedade do espectáculo, em que todos somos espectadores e por vezes também actores, vêm-me à memória, de entre os muitos espectáculos a que assisti, os poucos que aí ficaram indelevelmente gravados. Não posso esquecer as emoções daquela maravilhosa onda sonora que se propagava pelo ar e nos entrava nos ouvidos e nos cérebros, no Coliseu de Lisboa, da primeira vez que aí actuou Milton Nascimento; ou da reacção do público da festa do Avante, ainda no terreno do Monsanto onde depois foi construído o campus universitário, à inefável versão da «Geni», por Chico Buarque: muitos choravam comovidos, como, soube depois, o próprio Chico e Simone e os elementos do MPB4 choraram abraçados, nos bastidores, eles mesmos contagiados pelo público. Evoco ainda, também no Coliseu dos Recreios, a figura mítica de Léo Férré, todo de preto e com os cabelos brancos compridos de velha matrona, mas com uma força, de voz e de presença, implausível no septuagenário que já era, cantando «Les Anarchistes». Também fui dos felizardos que assistiram à actuação de Miles Davis (com o fabuloso Keith Jarrett ao piano) e de Ornette Coleman (com Charlie Haden no contrabaixo) no primeiro festival de jazz de Cascais, aquele em que Haden dedicou um dos temas aos movimentos de libertação de Angola e de Moçambique (sendo recambiado, ele e o resto da banda, para fora da fronteira no dia seguinte). No ambiente de proibição que vivíamos, atitudes destas desencadeavam o imediato saltar da rolha que nos oprimia, e, por momentos, perdíamos o medo, cometíamos a heresia de gritar palavras de ordem contra a guerra colonial, e saboreávamos uma brisa de liberdade, aquilo que nos fazia tanta falta no dia-a-dia. A mesma liberdade que senti, com o coração a bater mais depressa, os olhos húmidos e uma incapacidade de dizer palavra, ao ouvir Zeca Afonso cantar, no primeiro “canto livre”, pouco depois do 25 de Abril, «A Morte Saiu à Rua», essa homenagem ao escultor Dias Coelho e a todos os que foram assassinados pela PIDE. Já agora sempre vos digo que me bateu forte a forte e crua versão dos «Vampiros», de Zeca, do recente espectáculo «Liberdade», por Sérgio Godinho.
Mas nada disto se compara à saída do quartel, onde me obrigavam a passar três anos da minha jovem vida cumprindo o serviço militar, fardado de alferes, comandando um grupo de militares voluntários, todos armados mas sem a mínima intenção de usar as armas, montados num jipe. Fomos quase de seguida engolidos por um mar de gente que, sem amarras e esquecida do medo, celebrava o primeiro Primeiro de Maio em liberdade. O jipe parecia levitar, levado pela multidão, connosco e com mais umas dezenas de festejantes em cima, os quais conviviam alegre e destemidamente com a “autoridade” das nossas fardas, agora já não identificadas com a repressão; as pessoas aclamavam-nos como heróis, as mulheres de todas as idades beijavam-nos e punham cravos nos canos das nossas espingardas e eu sentia uma indizível alegria física, visceral, emocionada, única.
O medo parecia ter desaparecido do coração dos portugueses. Como acontecera durante esses dias, timidamente primeiro, mais afoitamente à medida que se percebia que aquilo tinha vindo para ficar.
Enfiado à força no quartel, a princípio não tive a certeza sobre se o golpe era pela liberdade ou pelo ainda maior arrocho que a face dura do regime gostaria de ver aplicar. Até porque da tropa só estávamos habituados a receber repressão. Então, na messe de oficiais do quartel, lado a lado com outros milicianos mas também com oficiais do quadro permanente, vários de patente superior, encostado a uma das paredes para lhes deixar ocupar os lugares sentados, assisti pela televisão à saída dos presos políticos, entre os quais vários amigos que comigo conspiraram (Luís e Xaxão Moita, Joaquim Osório, Fátima Fonseca Ribeiro, o grande Nuno Teotónio Pereira e outros); tive a certeza: era mesmo a liberdade! E, ainda com medo de expressar os sentimentos naquele ambiente, fiz das tripas coração para não se me verem as lágrimas de alegria.
A vida é um bolo maravilhoso do qual só temos direito a provar pequenas mas deliciosas fatias lá muito de vez em quando, nos intervalos das chatices. Mas comida uma, essa já cá canta: ninguém no-la pode tirar. E esta foi daquelas cujo sabor vai ser muito difícil de igualar, por mais anos que viva…

25A40 - O dia mais longo

No dia 25 de Abril de 1974, estava em Amsterdão, onde me tinha exilado cerca de oito anos antes. Na véspera, tinha combinado com o Miguel, também ele um exilado político, passar por uma tipografia anarquista holandesa, onde tinhamos encomendado uma "rede" de imprimir serigrafias, para o Comité de Refugiados Portugueses na Holanda. Lá fomos, ainda não eram 9 horas da manhã, montados numa só bicicleta, buscar a "encomenda". Custou-nos 100 florins e, no acto da entrega, lembro-me do tipógrafo nos ter dito ser bom não termos de a utilizar muito tempo, pois seria sinal que o exílio iria ser longo...
Dali, seguiria para a Faculdade de Antropologia, onde uma hora mais tarde participava num grupo de trabalho com colegas holandeses. A maior parte dos estudantes já se encontrava na cantina e,  ao verem-me, dispararam: "O que estás aqui a fazer? Não vais para Portugal?". Perante a minha surpresa, continuaram "Houve um golpe de estado no teu país e pensávamos que já soubesses...". Imaginei que se referiam ao golpe abortado do "16 de Março", ainda fresco na memória, e pensei que estavam a gozar comigo. Mas não, asseguravam-me, tinha sido naquela noite. Esperei pelo fim da aula, onde o professor me disse mais ou menos a mesma coisa: "pensava que não vinhas hoje...". 
Saído da faculdade, corri a comprar o "Het Parool", o primeiro jornal da tarde, onde confirmei a notícia. Lá estava, na primeira página, a fotografia do Spínola, de monóculo, sob o título "Coup d'Etat in Portugal". Porque as notícias eram parcas e resumiam-se a uma descrição de uma acção armada dirigida por algo que dava pelo nome de MFA, à cabeça do qual estaria o famoso general, temi o pior: outro golpe de direita.
Seguiram-se telefonemas para a comunidade portuguesa em Amsterdão e para exilados noutros países europeus, parte dos quais sabia tanto como eu. Telefonar para Portugal era uma impossibilidade, dado o "estado de sítio" existente, pelo que ficámos dependentes das notícias das agências e meios de comunicação holandeses. À medida que a tarde avançava, os noticiários iam sendo mais específicos, ainda que a incerteza fosse total. Já em casa, telefonam-me de duas estações de televisão: a VPRO, uma estação privada, que desejava saber se eu ia regressar a Portugal, para me acompanharem no avião e poderem filmar o regresso de um exilado; e da NOS, a televisão pública holandesa, para uma entrevista em directo no noticiário dessa noite, onde seria questionado sobre os acontecimentos em Portugal.
Acertei os pormenores da entrevista e sugeri as instalações do Comité de Desertores, situado num edifício no centro da cidade. Reunimos algumas dezenas de refugiados portugueses e fomos para as instalações do Comité, vazias àquela hora. Lá estava o carro de exteriores da NOS e, depois de ensaiadas as perguntas, assistimos ao telejornal, que abriu com a notícia do dia: o golpe de estado em Portugal. As primeiras imagens (a preto e branco) eram de militares e da população em Lisboa, seguidas da proclamação da Junta de Salvação Nacional, dirigida por Spínola. Ao ver aqueles rostos fechados, a maior parte deles fardados e de óculos escuros, não pude deixar de pensar na "junta" chilena de Pinochet. Quando o entrevistador me perguntou sobre o que pensava do golpe, lembro-me de ter respondido que, a avaliar pelos personagens, me parecia um golpe de direita, tanto mais que tinha havido uma tentativa de golpe em Março, ligada a "spinolistas". Teriamos de esperar para confirmar, pelo que não aconselhava ninguém a voltar a Portugal, naqueles primeiros dias, até se confirmarem as notícias, adiantei. Fim da entrevista, que seria repetida de hora a hora, até ao fecho da emissão. O resto da noite foi passado em animada discussão, com centenas de exilados que iam chegando ao Comité de Desertores. Um ambiente de tensão, dominado por sentimentos de alegria e de incerteza, em relação a uma realidade que não podíamos avaliar directamente.
A manhã do dia seguinte trouxe mais notícias e entrevistas, agora para a rádio e, à medida que iam sendo conhecida a adesão da população, a certeza que as coisas estavam a ir no bom caminho. Faltava ainda a libertação dos presos políticos (o que só viria a acontecer na madrugada do dia 27) e, entretanto, tinha havido disparos da sede da PIDE, o que indiciava haver resistência da parte dos fascistas.
Quando, nesse fim-de-semana, passei pelo Albertkuip, o maior mercado ao ar livre da cidade, onde vendíamos o jornal "O Alarme!" (uma publicação de portugueses exilados em Grenoble), fui insultado por diversos emigrantes portugueses, que me tinham visto na televisão: "Então, você não tem vergonha de dizer mal do Spínola e de Portugal?". Respondi que não podia fazer outra coisa, dada a reputação do famigerado general. Mas, sim, tudo indicava que o "golpe" tinha sido de tendência democrática e ainda bem. Não ficaram lá muito convencidos...
Hoje, passados 40 anos - sobre um dia que parecia nunca mais acabar - continuo a pensar que foi bom ter errado nos meus vaticínios. O 25 de Abril está aí para o provar. Festejemo-lo, pois.

segunda-feira, Abril 21, 2014

Pobredata




Uma rápida leitura dos jornais de hoje indica:
1- O Estado gastou 4 milhões em assessorias só na última semana.
2- Os portugueses mais ricos e com maior grau de instrução dão menos importância a valores como a solidariedade, a justiça e os valores democráticas. 
3- O Benfica é o clube europeu com maior percentagem de adeptos no seu país.
4- A perspectiva de ganhar um Audi fez crescer o número de facturas comunicadas ao fisco em 45%. 
5- 2000 pessoas passam fome em Lisboa e a paróquia de Santo António quer criar condições para matar a fome a estes 2000. 
6- A maioria dos portugueses (2/3) que teve conhecimento do Manifesto dos 74 quer a restruturação da dívida.
A foto vem do Arquivo Municipal de Lisboa, e é de Joshua Benoliel. A data é 1910, não 2014...

sexta-feira, Abril 18, 2014

Gabo (1927-2014)



"Cem anos de solidão e tristeza, pelo maior colombiano de todos os tempos", disse hoje o presidente da Colômbia. Para mim, um dos maiores escritores latino-americanos. Desapareceu o homem. Ficam os livros. Inesquecíveis. Para ler e reler, sempre. Mais ainda, em tempos de cólera.

quinta-feira, Abril 17, 2014

Pão e Circo

Leio os jornais do dia, onde encontro notícias (só aparentemente) contraditórias.
Assim, enquanto a Assembleia da República veta uma intervenção dos "capitães de Abril" no hemiciclo, o governo autoriza a promoção de 4300 militares das forças armadas; enquanto a mesma AR chumba a proposta-lei sobre a exclusividade dos deputados, o Procurador-Geral da República arrasa a proposta-lei do governo sobre o "segredo de estado"; enquanto a proposta de renegociação da dívida é chumbada, a Troika chega a Portugal para a sua "última" avaliação; enquanto as escutas telefónicas, no caso "Monte Branco",  revelam pressões de um conhecido banqueiro sobre o primeiro-ministro, Duarte Lima sai em liberdade condicional da sua prisão domiciliária.
Em simultâneo, a televisão pública transmitia a chegada da Taça dos Campeões Europeus a Lisboa, num percurso que incluia o navio "Sagres", um elevador da capital e os famosos pastéis de Belém.
Ah, já me esquecia: hoje são sorteados os primeiros "Audi" na lotaria fiscal.
Em tempos de comemorações de Abril, é caso para dizer, "tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"...

segunda-feira, Abril 07, 2014

A Imagem que Falta(va)



Há uns anos atrás, o Instituto Franco-Português organizou um ciclo do documentarista cambojano Rithy Panh. Alertado para o facto por uma amiga cinéfila, lá fui entre o curioso e o desconfiado. Do Cambodja, para além dos templos, do principe Sihanouk e do regime de Pol-Pot, pouco mais sabia.
Lembro-me de ter visto quatro dos seus filmes, respectivamente "Site 2" (1989), "La terre des âmes errantes" (2000), "S-21: La machine de Mort Khmère Rouge" (2003) e "Duch, le maître des forges de l'enfer" (2011). Uma tetralogia do terror Khmer Vermelho, filmado por uma das suas vítimas. Não me lembro de nenhum cineasta (para além de Lanzmann) que, de forma tão pungente, tivesse a coragem e a obstinação de confrontar-se com a memória desta forma, a um tempo documental e humanista, onde os carrascos respondem perante os seus crimes. Fiquei fã do realizador, certamente um dos maiores documentaristas da actualidade, na esperança que um dia seria descoberto em Portugal.
Esse momento parece ter chegado agora, com a estreia, no circuito comercial, da sua mais recente obra, o premiado "L'Image Manquante" de 2013.  Estamos, de novo, perante um filme-memória de um dos períodos mais negros da história recente. Ao contrário dos documentários anteriores, em que nos mostrava os horrores do regime de Pol-Pot através das suas vítimas e algozes, Panh conta-nos neste filme a sua própria experiência, desde o dia em que as tropas dos Khmer Vermelhos obrigaram a sua família a abandonar Phnom Penh, para ser "reeducada" nos arrozais do Cambodja. Estamos em Abril de 1975 e Rithy Panh tinha apenas 13 anos. Com ele foram os seus pais, irmãos e primos, que viriam a morrer de forma trágica.  Estima-se que terão morrido cerca de 2 milhões de cambojanos (um terço da população do país), durante o regime comunista de Pot (1975-1979). A maioria devido a maus tratos e às condições sub-humanas em que eram obrigados a viver. É esta história, trágica e heróica, que o realizador nos conta. Porque as imagens reais são parcas e, na sua maioria, glorificavam o regime, Panh viu-se obrigado a improvisar, com bonecos de barro pintados à mão, todos eles representando um personagem real, entre os quais o próprio realizador, de camisa às pintas. Alternando com as imagens dos "campos da morte", a preto e branco, podemos assim seguir a história da família Panh, através da teatralização dos bonecos de barro, sublinhada pela excelente narração de Randal Douc. Uma espantosa "mise-en-scène", onde o horror está sempre presente, apesar de nunca o vermos.
Não sabemos se, com este filme, Rithy Panh, fechou o ciclo da memória que se propôs filmar. Após esta obra, verdadeiramente excepcional, ele entrou definitivamente para o panteão dos grandes documentaristas de sempre. Um filme imperdível.         

sábado, Abril 05, 2014

Negócio da fome, negócio de famílias

Muito se tem falado nos últimos dias sobre as mais recentes declarações de Isabel Jonet. "BANCO ALIMENTAR: A ENGORDA DA IGREJA CATÓLICA" é o título deste artigo (só agora chegado ao conhecimento, através de mão amiga) que embora tenha já um par de anos, devendo portanto ser lido com essa cautela, ajudará certamente a colocar as coisas na sua verdadeira perspectiva.
Se fosse católico diria: Deus ajude o Papa Francisco...

quarta-feira, Março 26, 2014

Cantar Grândola 40 anos depois


O concerto "Cantar Grândola, 40 anos depois",  realiza-se no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 28 de Março de 2014 e é organizado pela Associação José Afonso com a colaboração da Casa da Imprensa. Pretende-se evocar o espectáculo que há 40 anos se realizou na mesma sala e no qual a canção GRÂNDOLA VILA MORENA, de José Afonso, seria escolhida pelos militares como uma das senhas para o desencadear das operações do 25 de Abril. 
O espectáculo de 29 de Março de 1974, organizado pela Casa da Imprensa para entregar os prémios com que anualmente distinguia personalidades da área cultural, adquiriu o significado de um acto de resistência à ditadura, com a sala do Coliseu lotada com cerca de cinco mil pessoas vigiadas por um forte dispositivo policial. As autoridades tentaram impedir a sua realização que, só na própria noite, foi autorizado, mas com a proibição de diversas canções como "Venham mais cinco", "O que faz falta", "Menina dos olhos tristes e "A morte saiu à rua".
Estranhamente, os censores autorizaram "Grândola Vila Morena", o que seria aproveitado por José Afonso e todos os participantes no palco, para a entoarem em uníssono, no que foram acompanhados pelo público presente. Na assistência, alguns dos militares que preparavam o 25 de Abril, aperceberam-se da força mobilizadora da canção, tendo-a escolhido como segunda senha da operação militar que poria fim ao regime dictatorial. O resto, é história.
Para comemorar a data, foram convidados cantores, nacionais e estrangeiros, de várias áreas musicais, entre participantes no concerto de há 40 anos, "companheiros de estrada" do Zeca e intérpretes da sua obra que, numa sessão que se prevê histórica, irão evocar a efeméride. 
O concerto está esgotado, mas o evento merece ser assinalado. Que a voz não nos esmoreça!