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quinta-feira, abril 23, 2015

O "Indie" está de volta


Tem hoje início, mais uma edição do festival de cinema independente "Indie", uma das mais emblemáticas e importantes mostras cinematográficas em Portugal.
As sessões, que decorrerão em diferentes salas da capital, terão este ano lugar no cinema S. Jorge (sala principal do Festival), no cinema Ideal, na Culturgest e na Aula Magna da cidade universitária.
Entre as inúmeras obras, este ano apresentadas, destaque para a noite de abertura com 3 sessões especiais: na sala do S. Jorge o filme "Around the world in 50 concerts" da realizadora holandesa Heddy Honigman, conhecida de outras edições do festival; um concerto ao vivo, pelo Alis Ubbo Ensemble, que interpretará alguns dos temas mais marcantes da história do cinema e o filme de culto "Buzzard" de Joel Potry Kus, que passará no cinema Ideal.
Outro dos filmes mais aguardados desta edição é "The black power mixtape 1967-1975" de Gorang Hugo Olsson, relatado pela voz de Lauryn Hill, sobre os efeitos da descolonização sobre os povos indígenas, nas décadas de 60 e 70 do século passado. O filme passará na Aula Magna de Lisboa.
Destaque ainda para a produção nacional "Capitão Falcão", baseado na célebre Banda Desenhada sobre o capitão fascista do mesmo nome e para os filmes portugueses "O medo à espreita" de Marta Pessoa, sobre as marcas que o antigo regime deixou nos suspeitos de colaborarem com a PIDE; o documentário "Rabo de Peixe", sobre a localidade açoreana do mesmo nome, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel; o filme "Cinzas e Brasas", o mais recente filme do aclamado documentarista Manuel Mozos; e o aguardado documentário "A arte da luz tem 20.000 anos" de João Botelho, sobre as gravuras do vale do Côa.
"State of Art" é o nome da secção especial do festival, organizada em colaboração com o Tampere Film Festival (Finlândia) e o VIS - Vienna Nieuw Independent Shorts (Austria), onde são mostrados filmes dos festivais destes países.
O "Indies" deste ano terá ainda uma secção especial dedicada à música "Wackers Open Air" (3 D) para ver com óculos especiais. Um verdadeiro "happening"! 
Manoel de Oliveira, recentemente falecido, será igualmente alvo de uma homenagem especial, que engloba algumas das suas obras mais marcantes.
Enfim, tudo bons motivos para ir ao "Indie", que está de volta para animar os dias e as noites dos cinéfilos portugueses. Para mais detalhes da programação, consultar o "site" do festival.

sexta-feira, abril 03, 2015

domingo, março 08, 2015

O Ano do Cabrão (calendário chinês)

Balada do Cabrão *

I

O pequeno cabrão
é sempre
um pequeno cabrão;
mas, não há cabrão
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno cabrão.

no entanto, há
cabrões
que nascem grandes e
cabrões
que nascem pequenos,
diz o pequeno cabrão.

de resto,
os cabrões
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno cabrão.

o pequeno
cabrão
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno cabrão.

no entanto,
o pequeno cabrão
tem orgulho em
ser
o pequeno cabrão.

todos
os grandes cabrões
são reproduções em
ponto grande
do pequeno cabrão
diz o pequeno cabrão.

dentro do
pequeno cabrão
estão em ideia
todos os
grandes cabrões,
diz o pequeno cabrão.

tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande cabrão,
diz o pequeno cabrão.

o pequeno cabrão
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno cabrão.

é o pequeno
cabrão
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande cabrão.
diz o pequeno cabrão.

de resto,
o pequeno cabrão vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande cabrão:
o pequeno cabrão
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno cabrão.

II

o grande cabrão
também em certos casos começa
por ser
um pequeno cabrão,
e não há cabrão
por pequeno que seja,
que não possa
vir um dia a ser
um grande cabrão,
diz o grande cabrão.

no entanto, há
cabrões
que já nascem grandes
e
cabrões
que nascem pequenos,
diz o grande cabrão.

de resto,
os cabrões
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande cabrão.

o grande
cabrão
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande cabrão.

por isso,
o grande cabrão
tem orgulho em
ser
o grande cabrão.

todos
os pequenos cabrões
são reproduções em
ponto pequeno
do grande cabrão,
diz o grande cabrão.

dentro do
grande cabrão
estão em ideia
todos os
pequenos cabrões,
diz o grande cabrão.

tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos cabrões,
diz o grande cabrão.

o grande cabrão
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande cabrão.

é o grande
cabrão
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno cabrão,
diz o grande cabrão.

de resto,
o grande cabrão vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno cabrão:
o grande cabrão
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande cabrão.

* (Adaptação do texto "balada do pequeno e do grande filho-da-puta" de Alberto Pimenta, minha inspiração em dias cinzentos).


sábado, março 07, 2015

Apanhado...


Al Capone, um dos mais famosos gangsters americanos, também conhecido por Scarface, ganhou triste notoriedade como líder da mafia de Chicago durante o período da Lei Seca. Foi detententor de uma imensa fortuna, estimada em mais de 100 milhões de dólares e responsável por inúmeros assassinatos. Foi preso e enviado para Alcatraz, em consequência de uma condenação por evasão fiscal...

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Dois artigos, uma foto



Uma nota breve para recomendar a leitura de dois artigos que julgo que se completam perfeitamente. Poderiam ser ilustrados por esta extraordinária foto (surripiada de um deles, cuja autoria não consegui apurar). Ambos foram recomendados já no noticiário Twitter que exibimos aqui na badana direita do blog, mas nunca será demais chamar a atenção para eles.
Em primeiro lugar, um notável e lapidar artigo de António Guerreiro. Neste curto texto, o modelo necessário para uma análise das origens do Hades grego. Em segundo lugar, uma exposição lúcida, contendo uma pequena resenha dos sinais inequívocos da victória, que muitos teimam em não ver ou parecem ignorar, da Grécia sobre as forças que comandam esse Hades.
Dois artigos, uma foto. De um lado um Yanis Varoufakis, com ar confiante, que parece arregaçar as mangas para iniciar o confronto com este novo Reichsführer-SS, um Schäuble antes arrogante e desdenhoso, mas que aqui parece algo acabrunhado, agora que se vê obrigado a responder ao confronto para o qual os Gregos o desafiaram.
Neste combte nem o gongue o salvará! Irão, ele e a restante Wehrmarcht, inevitavelmente ao tapete.

sábado, janeiro 31, 2015

Democracia



Seja qual for a justificação, nunca aceitarei que em Democracia se abuse da Democracia. As razões pelas quais a actual maioria chumbou a audição do PR sobre o caso BES são ditadas por uma de duas coisas. Ou a maioria é conduzida por um espírito totalitário ou tenta esconder algo.
Em Democracia não há, ou não deveria haver, tabus. Os agentes políticos são votados e são pagos pelos que neles votaram para exercer o seu cargo. Têm de prestar contas!
Se a maioria tem alguma coisa a esconder ou pretende esconder alguma coisa que o PR tenha feito é porque alguma fez...

domingo, janeiro 25, 2015

Somos todos gregos


Um fantasma ameaça a Europa: o fantasma do Syriza. Todas as potências da Europa se agruparam numa santa aliança para dar caça a este fantasma: o Papa, o Presidente da União Europeia, o Presidente do Banco Central Europeu, o Presidente do Eurogrupo e o Ministro alemão das Finanças. Não estão incluídos nesta lista, o FMI, os especuladores e credores gregos, as agências de notação, a imprensa de direita e, naturalmente, todos os partidos do "arco de governação" grega que governam o país há 40 anos. É obra.
Como é possível um partido, que teve apenas 27% de votos nas últimas eleições, poder constituir uma ameaça aos poderes instituidos, na Grécia e fora dela?
Desde logo, porque, pela primeira vez, um partido de esquerda não-tradicional está à frente nas sondagens e vai, muito provavelmente, ser o mais votado nas eleições de hoje. A acontecer tal resultado, esta será a primeira vez na história da União Europeia que um partido, da designada "extrema-esquerda", ganha umas eleições legislativas.   
Depois, porque é que os gregos, que durante 40 anos votaram alternadamente nas famílias políticas sociais-democratas (Pasok) e conservadores de direita (Nova Democracia), desejam uma nova força política, que se oponha a esta alternância?
Finalmente, porquê é que esta situação se tornou de tal modo insustentável, que a população grega chegou ao "ponto de não-retorno" e pensou - muito legitimamente - que tem todos os motivos para apostar numa força que não esteja comprometida com as políticas que conduziram o país a um beco sem saída?
Como sintetiza hoje um grego anónimo, entrevistado por jornalistas portugueses: "se comes todos os dias o mesmo prato, durante um tempo, e alguém te põe à frente um prato diferente, tu vais provar. Pode ser melhor ou pior, tu não sabes. Mas, o que andas a comer é intragável e já não aguentas".
O que é a comida intragável para um grego?
Uma quebra do PIB (desde 2009) de 25%.
Uma taxa de desemprego de 27% (a maior da Europa).
Uma taxa de desemprego jovem de 50% (a maior da Europa).
Uma taxa de 175% do PIB de dívida pública (a maior da Europa).
Uma emigração crescente, devido ao desemprego.
O fim dos apoios sociais e médicos para quem está desempregado.
Diminuição do salário mínimo, que passou de €750 mensais em 2010, para €350 em 2015.
Aumento exponencial da miséria e de doenças infecciosas nas zonas urbanas.
Aumento da criminalidade e dos ataques racistas a estrangeiros, por parte de grupos nazis.
Pressões insustentáveis da parte dos credores que, ao não aliviarem as sanções, impedem o crescimento económico e o pagamento da própria dívida grega.
Um círculo vicioso, portanto, do qual nenhum país poderia sair, sem uma renegociação das condições actuais que impedem qualquer solução viável para o problema grego que, em última instância, é um problema da Europa. Isso mesmo, já compreenderam alguns dos responsáveis europeus, desde o primeiro-ministro irlandês (que apoia uma conferência de credores e países intervencionados sobre as dívidas públicas), ao ministro francês Vals, que considera ser possível ao Syriza discutir a dívida e o próprio Mario Draghi (BCE) que, ao injectar dinheiro no sistema bancário europeu, reconheceu implicitamente a crise monetária europeia, que dura há já cinco anos.
Logo, são precisas soluções pragmáticas e concessões de ambos os lados, dos irredutíveis alemães e do Syriza (que está longe de ser o fantasma que todos receiam), para salvar a Grécia, mas - não menos importante - para salvar a própria Europa. É por essa razão, que os gregos vão hoje a votos. Eventualmente, para mudar alguma coisa. Para melhor. Para eles e para nós.
Por isso, hoje, somos todos gregos.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Não tens seguro, morres nas urgências!

O PR na inauguração do Hospital da Luz


O caos instalado nos serviços hospitalares atingiu, esta semana, uma situação sem paralelo na história recente do país.
Desde o início do ano, faleceram já 8 pessoas nas urgências, foram registradas mil mortes a mais (comparativamente ao mesmo período do ano passado) enquanto, na maior parte das urgências dos hospitais, os tempos de espera chegaram a atingir dez, quinze e vinte horas em média.
É isto normal?
Pesem as explicações avançadas pelos responsáveis de serviço (ministro e secretário de estado da saúde) relativamente ao Inverno rigoroso, ao aumento de doenças infecciosas entre os idosos e à falta de profissionais de saúde em número suficiente, a verdade é que estas coisas planificam-se e, se a organização do SNS já deixava a desejar antes da actual crise, é uma evidência que os serviços pioraram em toda a linha.
Desde logo, pelo encerramento de centros de saúde e serviços ambulatórios de proximidade, que permitiam, em casos menos graves, o tratamento imediato sem recorrer às urgências de um hospital. Depois, pela sub-dimensão dos próprios hospitais, claramente a "rebentar pelas costuras", como é o caso dos hospitais de Faro, Almada ou Amadora-Sintra (este projectado para 200.000 utentes e que hoje atende mais de 500.000/ano). Finalmente, a falta de profissionais de saúde (médicos e enfermeiros), provocada pela reforma antecipada dos primeiros e pela emigração dos segundos, devido ao desemprego crescente no país. 
Sem cuidados primários perto de casa (o que obriga os doentes a irem às urgências hospitalares), sem hospitais suficientes (com capacidade para atender os casos urgentes) e sem pessoal especializado em número suficiente, não nos devemos admirar que a situação tenha atingido o ponto de ruptura.
O que sobra?
Os hospitais privados, para onde muitos dos médicos do SNS se transferiram em part-time, a existência de um seguro médico, sem o qual não se é atendido nestes hospitais e o pagamento de diárias que atingem dois salários mínimos nacionais.
Bem podem os responsáveis da tutela apregoar que o planeamento foi feito, mas que as condições anormais explicam o caos existente.
A verdade é que esta situação, já de si grave, piorou de forma dramática nos últimos anos. A causa deve ser procurada no programa de austeridade imposto pela Troika, que quis à viva força reduzir nas despesas da saúde, como se o economicismo fosse critério, neste sector fundamental.
Os resultados - catastróficos - estão à vista e nada nos garante que os indicadores conhecidos não venham a piorar, agora que as previsões climatéricas se mantêm e os meios para pagar a saúde deixaram de existir. Tens dinheiro ou seguro de saúde, vais para um hospital privado, sem filas de espera; não tens dinheiro e dependes do Serviço Nacional de Saúde, ficas à porta e morres no corredor.
Uma vergonha sem nome, um governo que trata desta forma os seus cidadãos.
 
 

terça-feira, janeiro 13, 2015

Cinema Bioscoop

Decorre em Lisboa, entre 15 e 18 de Janeiro, a 3ª edição do festival Cinema Bioscoop, mostra anual de obras cinematográficas em língua neerlandesa. A programação deste ano, inclui um total de 24 títulos, entre obras de ficção, documentários e curta-metragens, que serão exibidas nos cinemas S. Jorge, na Cinemateca e nas instalações da Associação José Afonso, em Lisboa.
Entre as obras seleccionadas, destaque para os filmes "Matterhorn" do realizador holandês Diedrick Ebbinge, que abrirá oficialmente o festival, "Violet" do belga Bas Devos (premiado em Berlim), "Tweesprongs" do Bert Hana e "Een Pak Slaag" de Bert Haanstra, histórico realizador holandês, a quem será dedicado um pequeno ciclo na Cinemateca, que inclui os documentários "Spiegel van Holland", "De Stem van het Water", "Muiderkring Herleeft" e "Alleman".
Outro dos homenageados, nesta edição, será o documentarista holandês Kees Hin, com os filmes "Goedemorgen Toekomst" e "The Match" (na Cinemateca) e o filme "De Volharding" (Persistência), um documentário sobre a orquestra do mesmo nome, conhecida das suas interpretações de José Afonso e dos arranjos musicais de Amílcar Vasques Dias (que estará igualmente presente na sessão).  Este último evento, decorrerá no dia 15, nas instalações da Associação José Afonso em Lisboa que, desta forma, se associa ao festival deste ano.
Para além dos filmes, está prevista uma mesa-redonda, com a participação dos realizadores Bert Hana e Kees Hin (Holanda) e Wouter Bouvijn e Wannes Destoop (Bélgica), convidados especiais deste ano; uma instalação, preparada para o evento pela artista plástica, residente na Holanda, Cristina Guerreiro e uma palestra, sobre a "questão neerlandesa",  da autoria de David Bracke.
A abertura do festival terá lugar no cinema S. Jorge, no próximo dia 16, pelas 21h.00. 
Todas as informações sobre Cinema Bioscoop podem ser obtidas nas salas S. Jorge, Cinemateca e Associação José Afonso, ou directamente através do ticketline (bilhetes).

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Uma única solução: mais Democracia!

Os acontecimentos de ontem deixaram-me num incontrolável estado de choque e com um profundo sentimento de impotência. Liquidar 12 pessoas, entrando-lhes pela casa dentro, desta forma brutal e programada, liquidar pessoas cujo "crime" foi produzirem e publicarem uns desenhos, é algo que ultrapassa os prodígios da mais fértil imaginação. Por outro lado, parece que ninguém está a salvo desta situações. Seja quem for, onde for, em França ou aqui em Portugal. Nem os próprios autores deste crime reles.
Cometido o crime, ninguém parece ser capaz de nos poder defender de uma situação semelhante no futuro. Os guardiães das liberdades e garantias, o Estado e a Justiça que nós pagamos e a "austeridade" faz encolher ainda mais, estão, eles também, envolvidos num jogo ambíguo que continuamos a não conseguir controlar ou, relativamente ao qual, escolhemos fazer vista grossa.

Solução: mais democracia! O que temos hoje é uma sociedade que a esqueceu. Uma sociedade que se compraz em aceitar as "recomendações" da televisão para depois depositar um papelinho num caixote de 4 em 4 anos (se se der a esse trabalho; cada vez o faz menos) é uma sociedade que está doente, com o sistema imunitário em baixo e, portanto, sujeita a ataques como o que ontem aconteceu contra o Charlie Hebdo. É a fraqueza ou a falta de democracia que atentam contra a liberdade de expressão, que pode vir a degenerar num ataque contra a própria liberdade de pensamento. As tropelias contra a democracia não estão só a ser cometidas em África, no Próximo ou no Médio Oriente. Estão a ser cometidas aqui, por nós, contra nós próprios.

Ao contrário do que pensam estes assassinos, um desenho não vai mudar o mundo. Nunca mudou. Os desenhos reflectem mudanças. Decidir matar o desenhador por retratar uma determinada situação é um crime tão grosseiro como pensar que foi o desenho provocou a situação retratada. Um erro que, de resto, nenhum dos desenhadores cometeu. Jean Cabut, um dos desenhadores assassinados ontem, sabia-o bem. Ainda não há um mês, dizia numa entrevista: "nós não passamos de humoristas, estamos aqui para fazer rir. Mas, no final, não servimos para grande coisa."

Neste sentido, está já seguramente em curso uma mudança que os desenhos irão certamente reflectir em breve. Estes assassinos não impõem medo a quem quer que seja, somos nós que começamos por ter medo. Temos medo da democracia! É este medo que leva os assassinos a matar. É este medo que leva os franceses, todos nós, a ter medo de que isto se possa repetir. É necessário deixar de ter medo da democracia. Essa é a mudança necessária. Mas, não são os desenhos que a vão determinar, foram os tiros.

sexta-feira, janeiro 02, 2015

E os melhores filmes de 2014, foram...

Agora que 2014 terminou, nada como um balanço de coisas boas, pois para mal já basta assim...
Ora, uma coisa boa é (sempre) o bom cinema, essa arte que alguém disse um dia ser a mais completa de todas (devido ao processo de montagem, presumo eu).
Da mesma forma que em 2013, o ano que findou foi um bom ano em termos de estreias e reposições cinematográficas. Também os festivais e ciclos exibidos confirmaram esta tendência, nalguns casos completados por excelentes colectâneas, muito por mérito das distribuidoras Medeia e Midas, dois oásis num mercado dominado pela distribuição "mainstream". 
O ponto mais negativo, continua a ser a queda do número de espectadores, que o encerramento de  históricas salas, como os cinemas King, apenas veio confirmar.  Em contrapartida, assinale-se a (re)abertura do velho Ideal (ex-Cinema Paraíso), graças a uma parceria entre a Casa da Imprensa e a distribuidora Midas. Virado para o cinema português, reposição de clássicos e estreias europeias, o "Ideal" veio, de alguma forma, colmatar a falta dos "King", ainda que uma sala não chegue para substituir quatro...
Na impossibilidade de ver tudo o que de bom passa em Lisboa (e não só), resta-nos a "short list" do costume, reduzida por questões de espaço a dez títulos, um número redondo, misto de qualidade e gosto, conceitos sempre subjectivos como sabemos. Nem todos são filmes recentes, ainda que todos tenham sido estreias em Portugal, da mesma forma que há obras de ficção e documentários nesta lista ordenada sem preocupações de hierarquia. 

A IMAGEM QUE FALTA - Rithy Panh (Cambodja/França)
O ACTO DE MATAR - Joshua Oppenheimer (Dinamarca/Noruega/Reino Unido)   
BOYHOOD - Richard Linklater (EUA)
CAVALO DINHEIRO - Pedro Costa (Portugal)
A FLOR DO EQUINÓCIO - Yasujiro Ozu (Japão) 
A GRANDE CIDADE - Satyajit Ray (Índia) 
A GRANDE BELEZA - Paolo Sorrentino (Itália/França)
A EMIGRANTE - James Gray (EUA)
MAMÃ - Xavier Dolan (Canada)
MAPAS PARA AS ESTRELAS - David Cronenberg (Canada/EUA/Alemanha/França) 

De registar ainda os ciclos dedicados a Ingmar Bergman, Yasujiro Ozu e Satyajit Ray, com direito a reedições em DVD, para além de reposições de clássicos como "A Desaparecida" de John Ford, "O Garoto" e "Luzes da Cidade" de Charles Chaplin e "Mauvais Sang" e "Boys Meets Girl" de Leos Carax, estes últimos igualmente editados em novas versões digitalizadas.
No cinema português, a destacar "Os Maias" de João Botelho e "E Agora? Lembra-me" de Joaquim Pinto, como os de maior sucesso da crítica e de bilheteira.     
Alguns destes títulos ainda estão a passar nas salas portugueses, pelo que recomendo o seu visionamento. Bons filmes!

segunda-feira, dezembro 29, 2014

E a Grécia aqui tão perto...

Reuters

A Grécia terá eleições antecipadas em Janeiro de 2015.
Após três votações parlamentares, os deputados gregos não conseguiram escolher um candidato presidencial, com maioria absoluta de votos. De acordo com a constituição grega, após três votações inconclusivas, o primeiro-ministro é obrigado a dissolver o parlamento e a convocar eleições antecipadas, as quais deverão ocorrer no dia 25 de Janeiro.
Porque é que estas eleições são importantes?
Porque, neste momento, a Grécia é um país intervencionado, sujeito a um programa de ajustamento sob a supervisão da mesma Troika que esteve em Portugal e deixou o nosso país ainda mais endividado do que estava antes do programa ser aplicado; e, da mesma forma que em Portugal, foram os partidos gregos (no poder) os principais responsáveis pelo descalabro das contas públicas e a causa directa pela intervenção externa naquele país. 
As razões por que isso aconteceu, já foram escalpelizadas em dezenas de "posts" e artigos de opinião ao longo destes últimos anos e, se algumas dúvidas existiam, as recentes declarações da presidente do FMI (um dos parceiros da Troika) sobre os programas nos países intervencionados (Grécia, Irlanda e Portugal) falam por si: os programas foram desajustados, empobreceram as populações dos países em causa e criaram dívidas soberanas impagáveis no futuro, porque estas são agora maiores do que antes da intervenção.
Como é que isto foi possível?
Desde logo, pela má gestão dos respectivos governos que directamente (finanças aldrabadas e aumento descontrolado da despesa pública, nos casos da Grécia e de Portugal) e indirectamente ("bolha" imobiliária e crédito fácil, no caso da Irlanda) foram obrigados a pedir a intervenção de organismos internacionais (FMI, BCE e UE), para consolidarem as suas finanças. As condições estabelecidas pelos bancos para concederem os empréstimos (juros altos e prazos curtos) em países da zona Euro (sem possibilidade de desvalorização da moeda) causaram crises sociais e económicas sem precedentes. Porque as populações empobreceram e deixaram de consumir, as economias retraíram-se e entraram em recessão, tornando a dependência externa ainda maior. Não é, pois, de admirar, que após a "intervenção" da Troika, a dívida portuguesa tenha aumentado para cerca de 130% do PIB e a dívida grega para 175%! Obviamente, os juros a pagar pelos empréstimos não pararam e continuam a aumentar exponencialmente, uma vez que são calculados em função do risco inerente a economias que não crescem acima de 1% ao ano. Perante tal cenário, é natural que as famigeradas agências de "rating" continuem a considerar tais economias como "lixo", o que na prática quer dizer que ninguém quer investir nestes países ou, se o faz, exige contrapartidas impagáveis (já houve bancos alemães a exigirem ilhas gregas em troca...).
Estamos perante um problema sem solução?
Esta é a pergunta que todos fazem, dentro e fora dos países intervencionados.
Enquanto a UE (leia-se, governo alemão) não abrir mão do "diktat" que impõs aos países membros da zona Euro, que os impede de renegociar a dívida pública existente (através da sua mutualização, do alargamento de prazos e de baixa de juros) não só as dívidas serão impagáveis, como os países endividados ficarão mais dependentes no futuro. Provavelmente, essa é a estratégia do capital financeiro internacional. Para que isso seja possível, deverá contar com governos cúmplices e colaboradores, como tem sido o caso do governo português e do governo grego, ainda que este, recentemente, tenha recusado aplicar mais medidas de austeridade.
A alternativa, é romper com este ciclo de subjugação e, se não restar outra solução, abandonar a zona Euro, o que vem sendo defendido por cada vez mais analistas políticos. Esta é, de resto, a "pedra de toque" que separa o governo grego do Syriza (o maior partido da oposição) o qual defende a renegociação da dívida e está à frente nas sondagens para as próximas eleições.
Questionado sobre a crise grega e provável vitória do Syriza, Schauble, o ministro alemão das finanças, já veio declarar que não importa o presidente escolhido, mas a dívida grega, que tem de ser paga. Entretanto, as principais bolsas europeias já reagiram negativamente e o FMI anunciou a suspensão do pagamento da última "tranche" até às eleições. Outra coisa não seria de esperar. Resta, esperar - isso sim - pelos resultados das eleições anunciadas pois, em última instância, será sempre o povo grego a decidir do seu futuro. E esse direito é inalienável, pesem as ameaças vindas do estrangeiro.

terça-feira, dezembro 23, 2014

Logo agora, que isto ia tão bem...



O último relatório da Comissão Europeia sobre o nosso país não é meigo e, de acordo com as notícias, chega mesmo a "puxar as orelhas" ao governo português.
Ora, que diz, no essencial, tal documento?
Desde logo, critica as "reformas estruturais" do governo (leia-se, medidas de austeridade) que teriam abrandado, depois da saída da Troika em Julho passado. Depois, critica o aumento do salário mínimo, congelado há quatro anos. Critica também a correcção do défice assente na receita em vez da despesa e, finalmente, critica o excesso de dívida pública, que continua demasiado alto.
Temos de concordar que não é coisa pouca.
No entanto, há aqui coisas difíceis de explicar. Por exemplo: desde Maio de 2011 que, aos portugueses - sujeitos ao mais austero programa financeiro dos 40 anos de democracia - foram pedidos sacrifícios sem fim, para reduzir um "déficit" incontrolável e uma dívida pública galopante, com a promessa que, depois, poderíamos regressar aos mercados (e continuar a endividar-nos de novo...). Para que isso fosse possível, era necessário aumentar os impostos, reduzir os salários, reduzir as pensões e reformas, reduzir os subsídios de desemprego e invalidez, reduzir o abono de família e reduzir o rendimento de inserção social. Era ainda necessário reduzir o "peso do estado" na despesa pública e aumentar as privatizações em áreas tão nevrálgicas como a EDP, a REN, a PT, a ANA e a TAP. Porque estas medidas não foram consideradas suficientes, foram pedidos ainda mais sacrifícios, nomeadamente a suspensão dos subsídios de Natal, o pagamento das pensões em duodécimos,  criadas taxas de solidariedade sobre todas as pensões acima de 650euros (3,5%), assim como uma taxa de 15% sobre todas as pensões acima de 1500euros (segundo o critério, um português com 1500euros, é um português rico!). Como está bem de ver, esta espiral de empobrecimento colectivo conduziu à retracção do consumo, que por sua vez influenciou negativamente a produção de bens e levou ao fechamento de lojas e fábricas por todo o país, com as consequências previsíveis. O desemprego atingiu os 14% (a terceira maior taxa da União Europeia) e, porque o desemprego aumentou, as famílias ficaram ainda mais endividadas tendo, muitas delas, visto os seus bens penhorados. Milhares tiveram de revender as casas e os carros aos bancos, tirarem os filhos das escolas e, nalguns casos, regressar a casa dos familiares. Os que terminaram os estudos, porque não arranjavam emprego, tiveram de emigrar (só nos últimos três anos, teriam saído de Portugal cerca de 350.000 jovens adultos em idade laboral!). Porque ainda não era suficiente, os orçamentos para a educação e para a investigação, foram drasticamente diminuidos e o mesmo se passou na saúde, onde todos os serviços passaram a ser pagos de acordo com os vencimentos dos utentes. A cultura deixou de ter ministério e o orçamento não atinge, hoje, os 0,3%. Tudo passou a ser pior, como era imaginável e, três anos depois, Portugal não só está mais pobre (dois milhões de pessoas a viverem abaixo do índice da pobreza e mais de 25% das crianças subalimentadas), como nenhum dos principais objectivos, do programa de "emagrecimento" resultou: o déficit continua a estar acima dos 3% exigidos pela Tratado Europeu (prevê-se que atinja os 4,9% este ano), a dívida pública continua muito acima do máximo de 120% previsto (está em 127,7% do PIB), a economia não cresce acima dos 1,1%, as importações não diminuiram e as hipóteses da economia melhorar, a curto prazo, são nulas.  Não fora o abaixamento das taxas de juro (devido às intervenções de Mario Draghi) e à recente quebra do preço do petróleo nos mercados internacionais e Portugal continuaria a ver a sua dívida ainda mais aumentada e prolongada no tempo.
A situação é de tal modo grave, que a insuspeita Lagarde (FMI), declarou há dias que a receita do Fundo Monetário para os países intervencionados, Portugal incluido, não estava a resultar e que as medidas de austeridade tinham sido exageradas.
Ora, vem agora o Snr. Juncker (acusado pelo Parlamento Europeu de favorecer a lavagem de dinheiro no Luxemburgo, enquanto foi presidente do país), chamar a atenção do governo português, para os desmandos verificados nos últimos meses. Não se faz!
Ainda por cima, criticar os nossos governantes, que sempre disseram querer ir além da Troika e foram os primeiros a assinar o Tratado Orçamental Europeu, que nos prende irremediavelmente a regras impossíveis de cumprir num país endividado como o nosso. E agora, em que ficamos?
É o programa bom? Se é, porque não resultou? Se não é, porque insistir neste modelo?
De facto, há coisas incompreensíveis. Logo agora, que isto ia tudo tão bem, como não se cansa de repetir o governo de Portugal...  

sábado, dezembro 20, 2014

"A cultura em geral, a arte, têm de servir para que as pessoas possam ser melhores"



Jordi Savall deu uma notável entrevista à Visão. A ler. Entre muitas outras coisas importantes, afirma que "vivemos numa época global mas apenas para o comércio. Não conseguimos ainda que seja um mundo global para a política, para a ética, para a moral. E aí é que estamos falhando. Fazemos todos os tratados para que se possa vender tudo, em todo o mundo, mas não somos capazes de nos pormos de acordo por uma ordem universal de ética, de moral, de justiça (...) O que se faz no comércio teríamos de o fazer também na ética, na educação, na justiça."

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Da Transparência

Rodrigo Gatinho/Portugal.gov.pt


O Índice de Percepção de Corrupção 2014, esta semana divulgado pela ONG Transparency International, confirma a mediana classificação de Portugal, apesar de uma ligeira melhoria (dois lugares) relativamente a 2013.
Portugal ocupa, agora, o 31º lugar, numa lista de 175 países avaliados, onde os primeiros 5 lugares são, respectivamente, ocupados pela Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Suécia e Noruega.
No fim da lista, estão, como habitualmente, o Afeganistão (172º), o Sudão (173º), a Somália e a Coreia do Norte (174º).
O índice permite ainda avaliar o nível de corrupção nos países de língua portuguesa, onde Cabo Verde (42º) é, de novo, o mais bem classificado, e Angola e a Guiné-Bissau (161º) os piores da lista.
É isto bom ou mau?
Num ano em que os casos de suspeita de corrupção activa e passiva na sociedade portuguesa foram alvo de noticias quase diárias (BES, Vistos Gold, Duarte Lima, Sócrates, etc.) só é de espantar que a classificação de Portugal tenha melhorado. Não podemos, no entanto, esquecer que o índice é elaborado a partir de dados reunidos no ano transacto, pelo que, em 2015, a classificação poderá bem ser outra.
Também aqui, as opiniões se dividem: os arautos do "politicamente correcto" viram nesta melhoria um sinal do "copo meio-cheio", enquanto os "arautos da desgraça", só vêem "copos meio-vazios".
Acontece que estes índices, com todas as suas limitações, são um misto de relatórios fornecidos pelas delegações nacionais da Transparency International, da análise dos processos judiciais por corrupção e da observação empírica da realidade, pelo que a soma destas três variáveis é determinante para avaliar do nível de transparência em cada país.
Sendo assim, convém relembrar algumas verdades incontornáveis, que permitem aferir da relativa justeza de tais índices. Em primeiro lugar, as razões porque os países mais bem classificados são, normalmente, países escandinavos e/ou anglo-saxónicos: são todos eles, sem excepção, países onde a tradição democrática está mais enraizada, a educação é maior e a orientação religiosa (protestantismo) desenvolveu uma ética de responsabilidade (accountability), meritocracia, rigor, austeridade e cidadania, que exigem maior transparência dos seus cidadãos.
No fundo da lista, os países onde nada disto funciona: são, todos eles, sem excepção, países onde não há democracia (ditaduras ou estados-párias), onde a ignorância é maior e a orientação religiosa (fundamentalista) fomenta o clientelismo, o nepotismo, o suborno e a corrupção. Logo, onde há menos transparência.
No meio da tabela, estão países (como Portugal) que nas últimas décadas têm vindo a sair desta espiral de regimes autoritários e onde a desigualdade, a pobreza e a ignorância, continuam a ser factores impeditivos da construção de sociedades mais justas e equitativas, como é desejável.
Não nos devemos, portanto, admirar que os países onde há maior transparência, são aqueles onde há mais igualdade, mais educação e maior participação, portanto mais democracia. É tão simples como isto e ignorá-lo será sempre fatal.  

quinta-feira, dezembro 04, 2014

Sentir

Todos certamente já tocámos em gente que se comporta como um holograma. Estão lá, mas não estão. Agora propõem-nos hologramas que podemos sentir como se fosse gente.
A única vantagem que antevejo nesta novidade é que, talvez reaprendendo a tocar e a sentir, os computadores nos ensinem a sermos seres humanos de novo... Uma espécie de crianças selvagens da era digital.


sábado, novembro 22, 2014

Os bancos maus e os capuchinhos vermelhos



Parece que ainda não é desta que acabaram as surpresas neste ano pós-Troika.
Mal refeitos das notícias que conduziram à detenção dos implicados no caso dos vistos "gold" - e consequente demissão do ministro Miguel Macedo - surge-nos agora a notícia da detenção, para inquérito, do ex-primeiro ministro José Sócrates, aparentemente suspeito de crimes de corrupção e branqueamento de capitais. Temos de concordar que, tais notícias, ainda para mais na mesma semana, não são coisas triviais num país de "brandos costumes" como Portugal.
Das duas, uma: ou existem fortes índicios que levaram à detenção de todos estes personagens e, nesse caso, nada a estranhar, pois a justiça estará a funcionar; ou, dada a razia que as detenções do grupo de onze suspeitos dos "vistos" causou na coligação governamental (leia-se PSD-CDS), poderá estar em curso uma acção contrária por parte do ministério da justiça, com o fim de desacreditar o maior partido da oposição (PS), agora que António Costa surge à frente nas intenções de voto...
Ambas as hipóteses são válidas e, como têm vindo a comentar os "tudólogos" de serviço nos diversos canais televisivos, é ainda muito cedo para extrair conclusões apressadas. Se, no caso dos "vistos gold", as acusações parecem fundamentadas; no caso da detenção de Sócrates, esta terá a ver com ligações do suspeito a uma empresa de Leiria, alvo de investigações prévias, para além de fluxos de avultadas somas de dinheiro através da sua conta bancária. Como diria o outro, "isto anda tudo ligado" e não será de estranhar que os próximos dias nos tragam notícias, porventura, ainda mais sensacionais.
Uma coisa parece certa: depois dos escândalos bancários  do BPN, do BPP e do BES, dos vistos "gold" e, agora, da prisão (pela primeira vez) de um ex-primeiro-ministro, aparentemente ligado a negócios menos transparentes, Portugal começa a tornar-se um lugar cada vez menos recomendável.
Nada que nos surpreenda. Contrariamente à generalidade das opiniões, que continuam a ver nos actores políticos e nos principais partidos governamentais os únicos responsáveis por este clima de suspeição generalizada, pensamos que há um mal maior, transversal a toda a sociedade portuguesa. E, da mesma forma que não há corruptores sem haver corrompidos, também não poderá haver apenas políticos corruptos sem que alguém se deixe, por eles, corromper ou vice-versa. Isso mesmo está implícito nas mais diversas investigações, levadas a cabo sobre esta matéria e reflectidas nos índices publicados anualmente pela Organização do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (PNUD). Uma simples consulta ao "ranking" a partir de 1990 (ano em que o IDH foi pela primeira vez publicado) permite-nos constatar o óbvio: Portugal caíu 10 lugares na lista de corrupção mundial, depois de ter ocupado a 23ª posição, a sua melhor classifcação de sempre. O nosso país ocupa, agora, a 33ª posição no índice "Transparência" (ver mais aqui), uma das piores entre os países europeus. Não vale a pena olhar para o lado. Algo está, realmente, podre no reino da Dinamarca e não chega chamar pelo lobo mau, para desculpar as maldades do capuchinho. Esta é uma situação potencialmente explosiva e mal vai uma sociedade onde a descrença é geral e o estado perdeu a credibilidade.  
      

quarta-feira, novembro 12, 2014

Esperteza Saloia



Lisboa está, definitivamente, na moda.
Não passa uma semana, sem que sejamos confrontados com artigos e reportagens elogiosas sobre a capital portuguesa em tudo o que é publicação estrangeira. Isto, para não falar nos prémios que anualmente são autorgados à excelência turística de Lisboa: pela localização, pela hospitalidade, pelos bairros históricos, pelo Fado, pelo eléctrico 28, pela gastronomia, por Pessoa e pelo pastel de nata. Ainda bem.
Depois dos anos cinzentos do antigo regime, onde tudo era proibido, incluindo pisar a relva dos jardins e beijar turistas no Rossio, os lisboetas libertaram-se e fizeram da sua cidade - certamente uma das mais bonitas do planeta - um lugar bastante mais aprazível para viver.
Pesem as dificuldades inerentes a uma cidade antiga de séculos, da estrutural falta de meios financeiros e da arquitectura "pato bravo", que por aí ainda pulula, a verdade é que a Lisboa de hoje é completamente diferente da Lisboa de há 40 anos. Para melhor.
Não é pois, de admirar, que, após um longo período de relativo "esquecimento" - quando Portugal não fazia parte das rotas turísticas, nem existiam voos e hotéis "low-cost" - o nosso país comece, agora, a ser "descoberto" por uma nova geração de viajantes os quais, para além da praia, também desejam conhecer outras culturas. Óptimo.
Acresce que, numa altura em que a crise social e económica se instalou definitivamente, depois de uma intervenção externa que nos vai custar décadas de recuperação, o país passou também a ser conhecido por outras razões, nomeadamente a de ser um país pobre, logo atractivo para especuladores e visitantes, por ser barato. É natural. 
É por isso que o actual governo criou o "golden card", um visto de residência para estrangeiros que invistam meio-milhão de euros no país (na compra de uma casa, por exemplo); e, agora, o famigerado "euro", com que o presidente da CML se propõe taxar todos os turistas que desembarquem na Portela e todos aqueles que em Lisboa queiram dormir...Para quem ficar mais de uma noite, há descontos a partir dos 7 euros (!?). A argumentação usada para tal despaupério, é que essas receitas extras vão permitir a recuperação de edifícios degradados da cidade, já que o governo faz o mesmo, no OE, através da apelidade "taxa verde", com o imposto sobre os combustíveis. Brilhante.
A imaginação desta gente, não tem, realmente limites...
Conheço dezenas de cidades capitais da Europa e não sei de nenhuma onde exista tal taxa. Dizem-me que em Itália (where else?) há cidades como Veneza, Florença e Roma, onde é cobrada uma taxa suplementar aos turistas estrangeiros (!?). É possível. Logo por azar, a Itália, um país que não prima propriamente pela transparência das suas práticas institucionais, como se depreende de uma rápida consulta ao índice sobre a corrupção publicado anualmente pelo PNUD.
Agora que Lisboa está, finalmente, na rota dos principais operadores turísiticos e cruzeiros internacionais, a Câmara Muncipal de Lisboa quer criar um imposto para os viajantes de avião e para quem queira pernoitar uma, ou mais noites, na cidade. E os portugueses, que vêm de fora? Ou os portugueses que têm de utilizar a Portela, mas depois viajam para Fornos de Algodres? E porque é que os estrangeiros devem pagar um preço diferente dos cidadãos nacionais? Só porque são estrangeiros?
Esta gente não se enxerga. O edil Costa deu mais um tiro no pé e ainda não percebeu que, desta forma, não atrai mais turistas para Lisboa, mas, simplesmente, dá uma má imagem da capital no estrangeiro. A polémica já começou e não é caso para menos. Uma desgraça, estes gestores da coisa pública. Imagine-se, quando chegarem ao governo...
  

sexta-feira, outubro 31, 2014

De que é que está tudo à espera?

Estou 100% de acordo com este texto do Sérgio Lavos. Ocorrem-me várias perguntas, contudo. Em primeiro lugar, o que raio aconteceu para este Passos Coelho ter ganho o poder que ganhou? Qual foi, de facto, a causa do aparecimento e do protagonismo que ganharam estes "Passos Coelhos" todos? O que segura a tribo dos "Passos Coelhos"? Quem foi, ou melhor, quem foram os dr. Jekills que criaram estes mr. Hydes? Como exterminá-los a todos? Quem está, de facto, de acordo em exterminá-los e quem é que afinal gosta e a quem é que dá jeito a indigência mental de Passos Coelho? Será assim tão difícil remeter este bandalho e os seus apaniguados para a sua verdadeira dimensão? De que é que está tudo verdadeiramente à espera?

segunda-feira, outubro 27, 2014

WOMEX 2014: os caminhos de Santiago


Realizou-se, no passado fim-de-semana, mais uma edição da WOMEX (World Music Expo), por muitos considerada a maior feira de "Músicas do Mundo" do planeta e, certamente, a maior a nível europeu. Lá fomos, a "tribo womexiana", como é habitual em Outubro, desta vez em peregrinação a Santiago de Compostela, lugar mítico por excelência, onde todos os homens e mulheres de boa vontade devem ir, pelo menos uma vez na vida, expiar os seus pecados. Este ano, para além da catedral, a cidade de Santiago tinha ainda para oferecer quatro dias de feira, música, conferências, debates e filmes do Mundo, o que para um melómano nunca é coisa pouca. 
A acreditar no press-release oficial, teriam estado nesta 20ª edição da Feira, mais de 2400 delegados, entre empresários, agentes, produtores, editores, programadores e artistas, distribuidos por cerca de de 300 "stands",  22 conferências e 60 "showcases", para além das inúmeras actividades paralelas organizadas pela Nordesia e pelas Municipalidade de Santiago e Xunta da Galiza, em diversos lugares da cidade. Uma festa, desta vez galega, onde a organização e a hospitalidade local estiveram de mãos dadas para pôr de pé este evento que, pela quinta vez, chega a Espanha.
Dado ser a música a razão maior destes encontros, é nos "showcases" nocturnos que, após um dia de exaustivos contactos e negócios, os delegados se sentam para ajuizar dos nomes seleccionados por um júri de sete membros (os "7 samurais") que este ano receberam 900 candidaturas, donde sairiam os 60 "acts" finais.
Porque se tornaria exaustivo falar das dezenas bandas e solistas escutadas, escolhemos aqueles que, em nossa opinião, foram os melhores "showcases" da Feira. Em lugar de destaque, o projecto que dá pelo nome de Maru Tarang, um quarteto composto pelos australianos Jeff Lang (slide guitar, voz),  Bobby Singh (tabla) e pelos hindus Asin Langa (sarangi, voz) e Bhungar Manganiyar (khartal), que incendiou literalmente o Auditório Abanca, onde actuaram na sexta-feira de madrugada. Música de fusão, alternando entre os "desert blues" e a música cigana do Rajasthan, interpretada por quatro virtuosos nos respectivos instrumentos. Uma revelação, unanimemente aclamada pelos presentes.
Depois e num registro completamente diferente, o grupo coreano Noreum Machi, onde os seus elementos conjugaram uma alucinante técnica de percussão de tambores, com danças e expressões mais teatrais, na velha  tradição asiática. Excelentes, a merecerem os aplausos finais.
Se tivéssemos de escolher a banda de maior impacto desta feira, seria sem dúvida a Dzambo Agusêvi Orchestra, uma Brass-Band da Macedónia, composta por uma dúzia de trompetes e tubas que arrasaram literalmente Santiago. Violência musical e sonora em estado puro, de fazer ressuscitar um morto dos filmes de Kusturica. 
Finalmente, destaque para o excelente grupo húngaro "Sondorgó", um quinteto na melhor tradição musical eslava, com reportório de influências sérvia e croata, duas das maiores comunidades estrangeiras na Hungria. Todos multi-instrumentistas exímios, com destaque para os tocadores de violino e viola, para além da tambura, trompete, clarinete e acordeão, numa simbiose de sons inesquecíveis. A aguçar o apetite para Budapeste, cidade da próxima WOMEX.
Num plano muito bom, deve ser ainda referido o guitarrista Custódio Castelo, a merecer elogios e entrevistas para a rádio e televisão galega; a incontornável Uxia, nome maior da canção da Galiza; Cesária Évora Project, o colectivo  liderado por Nancy Vieira e Jenifer Solidade, formado na cidade da Praia para celebrar as canções da "diva" de pés descalços; "Spiro", um quarteto inglês de folk minimalista; Baloji, grupo de Rap e Hip-Pop de origem congolesa e belga, liderado pelo expressivo vocalista Baloji; Kareyce Fosto, jovem actriz e cantora camaronesa, de forte presença em palco, onde uma simples guitarra fez a diferença. Folk e blues africanos ao melhor nível. 
Porque a representação portuguesa, dada a vizinhança regional, desta vez esteve em peso, não podemos deixar de referir a "showcase" de Lula Pena (dentro do seu registo habitual) e o de Mariza, homenageada este ano com o prémio Womex 2014. Nas conferências, a presença do cantor Vitorino, que faria uma pequena comunicação sobre a canção revolucionária portuguesa através dos últimos dois séculos e os cantores António Zambujo e Ricardo Ribeiro, o primeiro integrado num programa Off-Womex dedicado à música Ibérica e o segundo convidado para falar sobre Fado.
Resta falar dos delegados de Portugal, mais de 30 este ano que, com ou sem "stands", confirmaram uma presença, cada vez mais visível neste importante circuito musical europeu. Para o ano há mais. Esperamos poder lá estar.
Adeus Santiago. Olá Budapeste!