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segunda-feira, Abril 21, 2014

Pobredata




Uma rápida leitura dos jornais de hoje indica:
1- O Estado gastou 4 milhões em assessorias só na última semana.
2- Os portugueses mais ricos e com maior grau de instrução dão menos importância a valores como a solidariedade, a justiça e os valores democráticas. 
3- O Benfica é o clube europeu com maior percentagem de adeptos no seu país.
4- A perspectiva de ganhar um Audi fez crescer o número de facturas comunicadas ao fisco em 45%. 
5- 2000 pessoas passam fome em Lisboa e a paróquia de Santo António quer criar condições para matar a fome a estes 2000. 
6- A maioria dos portugueses (2/3) que teve conhecimento do Manifesto dos 74 quer a restruturação da dívida.
A foto vem do Arquivo Municipal de Lisboa, e é de Joshua Benoliel. A data é 1910, não 2014...

sexta-feira, Abril 18, 2014

Gabo (1927-2014)



"Cem anos de solidão e tristeza, pelo maior colombiano de todos os tempos", disse hoje o presidente da Colômbia. Para mim, um dos maiores escritores latino-americanos. Desapareceu o homem. Ficam os livros. Inesquecíveis. Para ler e reler, sempre. Mais ainda, em tempos de cólera.

quinta-feira, Abril 17, 2014

Pão e Circo

Leio os jornais do dia, onde encontro notícias (só aparentemente) contraditórias.
Assim, enquanto a Assembleia da República veta uma intervenção dos "capitães de Abril" no hemiciclo, o governo autoriza a promoção de 4300 militares das forças armadas; enquanto a mesma AR chumba a proposta-lei sobre a exclusividade dos deputados, o Procurador-Geral da República arrasa a proposta-lei do governo sobre o "segredo de estado"; enquanto a proposta de renegociação da dívida é chumbada, a Troika chega a Portugal para a sua "última" avaliação; enquanto as escutas telefónicas, no caso "Monte Branco",  revelam pressões de um conhecido banqueiro sobre o primeiro-ministro, Duarte Lima sai em liberdade condicional da sua prisão domiciliária.
Em simultâneo, a televisão pública transmitia a chegada da Taça dos Campeões Europeus a Lisboa, num percurso que incluia o navio "Sagres", um elevador da capital e os famosos pastéis de Belém.
Ah, já me esquecia: hoje são sorteados os primeiros "Audi" na lotaria fiscal.
Em tempos de comemorações de Abril, é caso para dizer, "tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"...

segunda-feira, Abril 07, 2014

A Imagem que Falta(va)



Há uns anos atrás, o Instituto Franco-Português organizou um ciclo do documentarista cambojano Rithy Panh. Alertado para o facto por uma amiga cinéfila, lá fui entre o curioso e o desconfiado. Do Cambodja, para além dos templos, do principe Sihanouk e do regime de Pol-Pot, pouco mais sabia.
Lembro-me de ter visto quatro dos seus filmes, respectivamente "Site 2" (1989), "La terre des âmes errantes" (2000), "S-21: La machine de Mort Khmère Rouge" (2003) e "Duch, le maître des forges de l'enfer" (2011). Uma tetralogia do terror Khmer Vermelho, filmado por uma das suas vítimas. Não me lembro de nenhum cineasta (para além de Lanzmann) que, de forma tão pungente, tivesse a coragem e a obstinação de confrontar-se com a memória desta forma, a um tempo documental e humanista, onde os carrascos respondem perante os seus crimes. Fiquei fã do realizador, certamente um dos maiores documentaristas da actualidade, na esperança que um dia seria descoberto em Portugal.
Esse momento parece ter chegado agora, com a estreia, no circuito comercial, da sua mais recente obra, o premiado "L'Image Manquante" de 2013.  Estamos, de novo, perante um filme-memória de um dos períodos mais negros da história recente. Ao contrário dos documentários anteriores, em que nos mostrava os horrores do regime de Pol-Pot através das suas vítimas e algozes, Panh conta-nos neste filme a sua própria experiência, desde o dia em que as tropas dos Khmer Vermelhos obrigaram a sua família a abandonar Phnom Penh, para ser "reeducada" nos arrozais do Cambodja. Estamos em Abril de 1975 e Rithy Panh tinha apenas 13 anos. Com ele foram os seus pais, irmãos e primos, que viriam a morrer de forma trágica.  Estima-se que terão morrido cerca de 2 milhões de cambojanos (um terço da população do país), durante o regime comunista de Pot (1975-1979). A maioria devido a maus tratos e às condições sub-humanas em que eram obrigados a viver. É esta história, trágica e heróica, que o realizador nos conta. Porque as imagens reais são parcas e, na sua maioria, glorificavam o regime, Panh viu-se obrigado a improvisar, com bonecos de barro pintados à mão, todos eles representando um personagem real, entre os quais o próprio realizador, de camisa às pintas. Alternando com as imagens dos "campos da morte", a preto e branco, podemos assim seguir a história da família Panh, através da teatralização dos bonecos de barro, sublinhada pela excelente narração de Randal Douc. Uma espantosa "mise-en-scène", onde o horror está sempre presente, apesar de nunca o vermos.
Não sabemos se, com este filme, Rithy Panh, fechou o ciclo da memória que se propôs filmar. Após esta obra, verdadeiramente excepcional, ele entrou definitivamente para o panteão dos grandes documentaristas de sempre. Um filme imperdível.         

sábado, Abril 05, 2014

Negócio da fome, negócio de famílias

Muito se tem falado nos últimos dias sobre as mais recentes declarações de Isabel Jonet. "BANCO ALIMENTAR: A ENGORDA DA IGREJA CATÓLICA" é o título deste artigo (só agora chegado ao conhecimento, através de mão amiga) que embora tenha já um par de anos, devendo portanto ser lido com essa cautela, ajudará certamente a colocar as coisas na sua verdadeira perspectiva.
Se fosse católico diria: Deus ajude o Papa Francisco...

quarta-feira, Março 26, 2014

Cantar Grândola 40 anos depois


O concerto "Cantar Grândola, 40 anos depois",  realiza-se no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 28 de Março de 2014 e é organizado pela Associação José Afonso com a colaboração da Casa da Imprensa. Pretende-se evocar o espectáculo que há 40 anos se realizou na mesma sala e no qual a canção GRÂNDOLA VILA MORENA, de José Afonso, seria escolhida pelos militares como uma das senhas para o desencadear das operações do 25 de Abril. 
O espectáculo de 29 de Março de 1974, organizado pela Casa da Imprensa para entregar os prémios com que anualmente distinguia personalidades da área cultural, adquiriu o significado de um acto de resistência à ditadura, com a sala do Coliseu lotada com cerca de cinco mil pessoas vigiadas por um forte dispositivo policial. As autoridades tentaram impedir a sua realização que, só na própria noite, foi autorizado, mas com a proibição de diversas canções como "Venham mais cinco", "O que faz falta", "Menina dos olhos tristes e "A morte saiu à rua".
Estranhamente, os censores autorizaram "Grândola Vila Morena", o que seria aproveitado por José Afonso e todos os participantes no palco, para a entoarem em uníssono, no que foram acompanhados pelo público presente. Na assistência, alguns dos militares que preparavam o 25 de Abril, aperceberam-se da força mobilizadora da canção, tendo-a escolhido como segunda senha da operação militar que poria fim ao regime dictatorial. O resto, é história.
Para comemorar a data, foram convidados cantores, nacionais e estrangeiros, de várias áreas musicais, entre participantes no concerto de há 40 anos, "companheiros de estrada" do Zeca e intérpretes da sua obra que, numa sessão que se prevê histórica, irão evocar a efeméride. 
O concerto está esgotado, mas o evento merece ser assinalado. Que a voz não nos esmoreça!  

segunda-feira, Março 24, 2014

Eles andam aí...


Os resultados de Marine Le Pen, na primeira volta das eleições municipais em França, não devem espantar-nos. Afinal, o seu pai, já em 2002 tinha passado à segunda volta das presidenciais, obrigando toda a esquerda a unir-se em torno de um candidato medíocre como Chirac e, no mandato seguinte, Sarkozy só ganharia a presidência graças aos votos da extrema-direita, que compreendeu bem qual era o candidato que melhor serviria os seus interesses. O crescimento constante da Frente Nacional nas sondagens apontava para este resultado e a segunda volta deverá confirmar a implantação, agora sólida, de Marine Le Pen, em câmaras importantes de França. Daqui, até ao Eliseu, ainda faltam alguns anos, mas, a continuação desta tendência, só poderá confirmar o pior dos cenários.
Menos baladados, mas nem por isso menos importantes, foram os resultados das eleições municipais na Holanda, que decorreram na quarta-feira passada e nas quais o partido de extrema-direita PVV (Partido da Liberdade) conquistou a municipalidade de Almere e foi o segundo partido mais votado na cidade de Haia. Um pequeno teste, já que o partido do xenófobo Wilders não está preocupado em governar, mas apenas em apoiar o governo de coligação liberal-trabalhista que depende dos votos do PVV no Parlamento. A coisa funciona, mais ou menos assim: Wilders apoia a coligação do governo, desde que este sancione as suas leis anti-imigrantes e islamofóbicas, que constituem o "core" da sua ideologia racista. Não por acaso, há poucas semanas, Wilders recebeu Marine Le Pen em Haia, onde ambos assinaram um acordo de intenções com vista à constituição de uma frente partidária para as próximas eleições europeias. As conversações entre estes dois partidos e os partidos mais nacionalistas europeus, foram alargadas ao Reino Unido, à Bélgica, à Finlândia, à Austria e à Grécia, aumentando deste modo a possibilidade da criação de uma facção anti-Europa no parlamento europeu.
A Leste, o panorama não parece muito melhor, com os neonazis no governo provisório ucraniano, (criado no rescaldo do levantamento da praça Maidan) e governos na Hungria e na Polónia que defendem explicitamente idéias nacionalistas e racistas já condenadas no Parlamento Europeu.
Haverá, certamente, muitas explicações para este fenómeno de renascimento das ideologias de extrema-direita, o mais significativo desde a segunda guerra mundial. Afinal, a ideologia existia, mas não estava organizada. A recente crise económica e social, acrescida da incapacidade dos governos de inspiração social-democrata, hoje cúmplices e completamente submetidos ao poder financeiro, explicam uma parte substancial desta crise de valores que aproveita a direita mais radical. O terreno é propício ao aparecimento de líderes e discursos populistas e, menosprezá-los, seria um erro trágico, do qual os políticos e forças progressistas europeus se arrependerão. Depois, não digam que não sabiam...    



terça-feira, Março 18, 2014

"Não ao colaboracionismo"

"Houve certamente compromissos e negociações, insistências e cedências. Mas foi possível chegar a um texto comum, onde todos cederam um pouco no menos importante para defender o essencial," escreve José Vítor Malheiros nesta sua crónica intitulada "Não ao colaboracionismo", a propósito do chamado Manifesto dos 40. recomendo  Recomendo a sua leitura integral.

quarta-feira, Março 12, 2014

Sustentabilidade

Não deixa de ser curioso e não pode deixar de merecer um olhar especial o facto de o Manifesto dos 70, hoje dado a conhecer, ter merecido tão amplo, violento e sincronizado coro de críticas. No noticiário, via Twiter, aqui mesmo do seu lado direito, encontrará artigos vários sobre o assunto.
O primeiro ministro já vai na segunda reacção pública num espaço de poucas horas. Ontem ainda, apressou-se a reagir, antes mesmo de o documento e os seus subscritores serem cabalmente conhecidos. Hoje voltou à carga fazendo voz com a ministra das finanças. Já ontem também, o ministro Maduro tinha vindo ajudar à missa. E hoje veio-se a saber que dois conselheiros do presidente da república tinham subscrito o manifesto, tendo sido imediatamente exonerados com enorme estrondo. Finalmente, a própria Comissão Europeia apressou-se, já hoje também, a dizer que a dívida portuguesa é afinal sustentável. Assim seria se a classe média não estivesse a chegar ao osso. É que o famoso diálogo de Colbert e Mazarin, na peça Le Diable Rouge não passa de ficção.
Registam-se as críticas, surpreendem os silêncios.
Duas conclusões parecem poder, entretanto, tirar-se de tudo isto. Primeiro, na razoabilidade das suas conclusões e simplicidade e clareza das propostas o manifesto fez mossa da grossa. Segundo, há afinal fissuras sérias no poder que agora ficaram expostas e a sangrar.
O manifesto dos 70 constitui um instrumento inegavelmente poderoso e sério e um instrumento real para ajudar a dar um rumo novo à contestação aos ditames de Bruxelas e a este desgraçado e desacreditado governo. Um instrumento que pode permitir ultrapassar os interesses e conluios de uns, as tergiversações, o voluntarismo ultrapassado e inconsequente de outros e a retórica cheia de acne de outros ainda.
Todos eles vão ser agora obrigados a sair da chamada zona de conforto. As propostas do manifesto são claras, simples e podem ter efeitos políticos amplos e devastadores. Nem uma vitória do voto em branco, se fosse viável, conseguiria ir tão longe!
O combate parece já aberto, inevitável e a sua sustentabilidade política parece demonstrada. Vamos é ver quem é que, afinal, estava à altura do confronto.

domingo, Março 09, 2014

100 Anos

Se fosse viva, a minha mãe faria hoje 100 anos.
Lá estive, no cemitério, como é hábito neste dia, para oferecer-lhe flores.
Rosas brancas e vermelhas, aquelas de que mais gostava.
A vida, essa, continua...

quarta-feira, Fevereiro 26, 2014

Paco de Lucía (1947-2014)


Com a morte de Paco de Lucía, desaparece o maior guitarrista flamenco dos últimos cinquenta anos.
Nascido em Algeciras, como Francisco Sánchez Gómez, Paco cedo adoptaria o nome artístico de Lucía, em homenagem à sua mãe (Lucia Gomes) de origem portuguesa.
Começa a tocar aos 5 anos de idade, por influência de Manuel Fernandez, primo de Melchior de Marchena, que o obriga a estudar 12 horas por dia. Os resultados não se farão esperar e, em 1958, com apenas 11 anos de idade, toca pela primeira vez na Radio Algeciras.   
No mesmo ano, conhecerá Sabicas, ao tempo uma referência da guitarra flamenca, com quem estabelece amizade e que o influencia a seguir uma carreira profissional. Em 1959,  ganha o prémio especial no Festival Internacional de Flamenco de Jerez de La Frontera.
Seguem-se actuações em toda a Espanha, começando a tornar-se conhecido além-fronteiras. Em 1963, com apenas 15 anos, viaja até New York, onde reencontra Sabicas, com quem volta a tocar. Não tardará a gravar o primeiro disco, "La Fabulosa Guitarra de Paco de Lucía", editado em 1967. O seu prestigio é, agora, internacional, tendo sido convidado para o Festival de Jazz de Berlim, onde actua ao lado de grandes nomes do jazz, como Miles Davis e Duke Ellington.
Em finais da década de sessenta, conhece o cantor Camarón de La Isla, com quem inicia uma colaboração regular em palco e estúdio, da qual resultarão 10 albuns seminais. Na opinião do crítico e biógrafo Richard Nidel, "esta parceria é central para compreender a história do Flamenco no último quarto do século XX". Juntamente com o bailarino Antonio Gades, eles são os maiores responsáveis pela renovação do género Flamenco dos anos setenta.
Em 1972, o  seu album "El Duende Flamenco de Paco de Lucía",  é considerado um marco inovador na linguagem guitarrista do Flamenco. Notam-se aqui influências jazzísticas, que se tornarão uma imagem de marca em trabalhos posteriores. O album seguinte, "De Fuente Y Caudal", inclui um dos seus temas mais populares "Entre Dos Aguas" e torna-se o disco de Flamenco mais vendido em Espanha (65.000 cópias). Em 1975, é o primeiro artista flamenco a pisar o palco do Teatro Real em Madrid, prova de que o género musical tinha sido aceite pelas elites da capital.
Em 1977, grava o album "Castillo de Arena", a sua última colaboração com Camarón de La Isla.
Volta à estrada e inicia um período de digressões pela Europa e pelos EUA, onde toca com Carlos Santana e Di Meola.
Em 1978, grava "Paco de Lucía interpreta Manuel de Falla", em homenagem ao compositor espanhol, onde volta a deslumbrar pela sua apurada técnica.
Em 1979, um novo salto na carreira: forma, com John Mclaughlin e Larry Coryell, o trio de guitarras responsável pelo album "Meeting the Spirits", um êxito a nível mundial. Mais tarde, Coryell seria substituido por Di Meola, tendo o trio gravado novo album, "Friday Night in San Francisco", provavelmente o seu disco mais vendido (mais de 1 milhão de cópias).
Os anos oitenta são marcados pela formação "Paco de Lucía Sextet", onde canta o seu irmão Pepe de Lucía, com quem conhece novos êxitos. O "Sextet" terminaria a sua existência em meados da década, após três albuns editados, mas a arte de Paco continua, agora como intérprete em filmes de Carlos Saura, com quem colabora regularmente nos filmes "Carmen", "Sevilhanas" e "Flamenco".
Em 1992, toca no palco principal da Grande Exposição de Sevilha, onde tem uma actuação memorável.  O seu prestígio é, agora, enorme e a sua arte é comparada à de Andrés Segovia, o mestre da guitarra clássica. Dele, a crítica diz que é o maior produto de exportação espanhol.
Em finais da década, retira-se para o México, onde vivia a maior parte do ano e se dedicava à composição. Voltava regularmente à Europa, para fazer concertos esporádicos. Numa dessas ocasiões, passou por Lisboa, para apresentar o seu último disco "Cositas Buenas". Teria sido em 2004 ou 2005. Estivémos lá e nunca esqueceremos. O mestre tocou, como sempre, genialmente.
Afinal, ele era um génio.

sábado, Fevereiro 22, 2014

O Mundo anda estranho...

Não são boas as notícias que nos vão chegando através dos orgãos de comunicação social. Para além da crise nacional, que continua a fustigar a maioria da população portuguesa e para a qual não parece haver solução conjuntural, somam-se agora as crises internacionais, algumas delas bem mais "europeias" do que podem parecer. Da Síria à Venezuela, passando pela Ucrânia, o espectro de guerra civil ganha terreno em todos os países, ainda que as causas sejam diferentes. Se algo há de comum à realidade destes regimes, é a natureza dos seus governos, de tendência dictatorial e populista, como também é habitual nestas situações. Para além dos regimes (et pour cause) estão outros interesses, que manipulam na "sombra" (quando não à descarada) os peões locais que servem a sua estratégia geopolítica.
É o caso da Síria, onde um conflito que surgiu na seguimento da "Primavera Árabe" tem vindo a alastrar a toda a região, seja pela intransigência do tirano local, seja pela ingerência dos principais blocos políticos, que tentam ganhar dividendos com a contenda. No meio, como sempre, restam os deserdados da terra, hoje milhões, espalhados pelos campos de refugiados dos países vizinhos. Depois, a Venezuela, um país dividido ao meio, onde a classe dirigente, após ter ganho a simpatia da maior parte da população mais pobre (devido às medidas implementadas por Chavez) está confrontada com a maior crise social e económica dos últimos anos, apesar da riqueza natural do país (petróleo) que continua a ser o factor maior de destabilização da região. Sem o carisma do falecido presidente, Maduro parece ter enveredado por um caminho ainda mais populista e autoritário do que o seu antecessor, o que não augura um futuro melhor para o país. Neste quadro, os EUA estarão à espreita e não é improvável que a sua influência já seja grande entre a oposição local. Finalmente, a Ucrânia. O segundo maior país da Europa depois da Russia é, desde tempos imemoriais, uma região tampão na Europa Central que, por razões culturais e políticas, sempre foi disputada pela Russia e pela Europa. Também aqui, a independência, conquistada há pouco mais de 20 anos, veio acelerar o desejo de parte significativa da população em pertencer à UE. Essa corrente, que esteve na origem da "revolução laranja", tão exaltada no Ocidente, não só não é representativa de todo o país, como nunca teve o apoio da Russia de Putin. Que o actual presidente ucraniano, democraticamente eleito, tenha impedido um acordo comercial com a UE, devido à pressão russa, é um acto que uma parte da população não lhe perdoa. Quando os interesses ocidentais exploram este desencanto e apoiam indirectamente os movimentos mais nacionalistas e de extrema-direita no país, para derrubarem o regime, é de temer o pior. As aparentes tréguas, hoje assinadas, não são a garantia de que o perigo de uma guerra civil esteja totalmente afastado. Na Ucrânia, joga-se por estes dias uma parte importante do futuro europeu.
E em Portugal? A avaliar pela missa partidária em curso numa sala lisboeta, este fim-de-semana, nada parece ter mudado. O Mundo roda, mas o país parece estático. Ou, como sintetizou um conceituado orador do evento: "O país está melhor, apesar das pessoas viverem pior". Perante tal desconchavo, vêem-me à memória as premonitórias palavras escritas nos muros de Maio de 68: "Deus não existe, Marx morreu e, eu próprio, já não me sinto lá muito bem..."
      

terça-feira, Janeiro 28, 2014

Pete Seeger (1919-2014)


Vio-o, pela última vez, na televisão, junto ao Memorial de Lincoln, na tomada de posse de Barack Obama em 2009, onde cantou com Bruce Springsteen a canção-hino "This land is your land", popularizada por Woody Guthrie.
Para trás, tinham ficado décadas de activismo político e dezenas de canções escritas ao serviço das causas que sempre abraçou, fossem estas no campo dos direitos sindicais, dos direitos civis da população negra, ou contra a guerra do Vietnam, à qual sempre se opôs, como pacifista assumido que era.  Dele, ficaram ainda canções como "We shall overcome", "Where have all the flowers gone", "If I had a Hammer" ou "Turn, Turn, Turn", reproduzidas vezes sem conta por intérpretes em todo o Mundo.
A carreira de cantores como Bob Dylan, Joan Baez, "Peter, Paul and Mary" ou "The Kingston Trio", não teria, provavelmente, sido a mesma sem a influência de Seeger. Foi a própria Joan Baez que o declarou, esta madrugada, após ter sido informada do falecimento do cantor.
Memorável, seria a sua primeira passagem por Portugal, onde actuou no antigo Pavilhão dos Desportos, em 2 de Dezembro de 1983. Desse histórico evento, foi gravado um LP numa edição limitada de 3000 exemplares. Tenho um, que guardo religiosamente.
Um ícone americano, ou como o descreveu Springsteen: "O arquivo musical e de consciência da América, um verdadeiro testamento do poder da canção e da cultura do último meio século nos EUA e no Mundo". Nem mais. A sua obra e o seu exemplo, são já imortais.      

segunda-feira, Janeiro 27, 2014

As praxes, essa aberração

Seis semanas após as trágicas mortes do Meco, pouco se sabe de concreto sobre o que levou sete jovens estudantes, trajados a rigor, naquela noite e àquela hora, para a beira de um mar em fúria.
Também ninguém percebe porque, passado todo este tempo, a polícia não tenha sido mais lesta na procura das causas e das provas que possam estar por detrás de tão macabra encenação. Entretanto, o único sobrevivente, continua aparentemente em "estado de choque" e ninguém, para além dos familiares, parece estar muito interessado em esclarecer tal mistério. Porque as conclusões tardam, não faltam especulações.
As redacções, sempre ávidas de sangue, lá foram ao local do crime, tentar reconstituir o "puzzle". Tivemos de tudo, nas últimas semanas: os vizinhos que viram e não falam (?), os que viram e falam pelos cotovelos, a encarregada da limpeza com honras de "prime time", os psiquiatras de serviço para explicar os "bloqueios emocionais" do sobrevivente, os colegas do curso fechados numa estúpida "omertá" que a ninguém pode ajudar, os responsáveis da Lusófona cúmplices na impotência de instituições que nunca tiveram a coragem de proibir tais anormalidades e a opinião pública completamente atordoada perante esta nova realidade.
Alguma coisa está errada numa sociedade que, pesem algumas excepções, permite e estimula comportamentos indignos de relações e ritos de iniciação que se querem fraternos e colegiais.
Se o que aconteceu há seis semanas, não servir para mudar radicalmente a mentalidade dos responsáveis políticos, universitários e educadores (a elite!) por tal absurdo, receio bem que tenhamos entrado definitivamente na idade de trevas que a actual crise prenunciava. O que se seguirá, agora?  

sexta-feira, Janeiro 17, 2014

Os bárbaros estão de volta


Pensava já ter visto e ouvido tudo nestes quase três anos que leva este governo de má memória, mas,  o que hoje se passou na Assembleia da República, ultrapassa tudo o que podia imaginar.
O Parlamento, por iniciativa do PSD, acaba de aprovar uma das leis mais reaccionárias da república, agora que a proposta da bancada do maior partido do governo  - realização de um referendo sobre a co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo - foi aceite pelo hemiciclo.
Num país onde nenhuma das leis fundamentais foi, até hoje, sujeita a qualquer referendo - lembro a adesão à CEE, o Tratado de Maastricht, a adesão ao Euro, o Tratado de Nice, o Tratado De Lisboa - uma proposta-lei da Juventude Social-Democrata (!?) pretende pôr em causa (ao arrepio da própria constituição) todo o caminho percorrido no sentido das conquistas civilizacionais que marcaram os últimos quarenta anos da democracia portuguesa.
A não ser que a estratégia do principal partido do governo seja a de criar um elemento de distracção, no momento em que a sociedade portuguesa se vê confrontada com a maior crise social e económica da democracia, não se percebe o porquê desta proposta-lei e, muito menos, o momento escolhido. Pode ainda acontecer, que o reaccionarismo da juventude partidária do PSD, seja maior que o dos seus pais e, nesse caso, estarmos perante um caso de verdadeira patologia comportamental,  associada a uma prática e a um nome há muito condenados pela Constituição Portuguesa e pelo Tribunal dos Direitos Humanos. Chama-se homofobia e não o podemos permitir, sob pena de sermos cumplices de um atraso civilizacional sem par. Há dias em que tenho vergonha de ser português. Hoje foi um deles.

Entrevista de Ricardo Paes Mamede sobre o "milagre económico"...






Entrevista de Ricardo Paes Mamede a Paulo Magalhães no programa 'Política Mesmo', da TVI24, na passada 4ª feira (a partir do minuto 37). 
Está lá tudo, ouça com atenção. É simples...
Mais informação aqui.

segunda-feira, Janeiro 06, 2014

Diz-me a que funerais vais, dir-te-ei quem és...



O que é que têm em comum Rudyard Kipling, Anatole France, William Yeats, George Bernard Shaw, Henri Bergson, Thomas Mann, Luigi Pirandello, Hermann Hesse, André Gide, Thomas Eliot, Bertrand Russell, Albert Camus, Winston Churchill, Ernest Hemingway, John Steinbeck, Jean-Paul Sartre, Samuel Beckett, Pablo Neruda, Camilo José Cela, Octavio Paz, Dario Fo, ou Harold Pinter? Foi-lhes atribuído o Prémio Nobel. O mesmo prémio que foi atribuído, se bem se recordam, a José Saramago.
Gostaria de ter visto o Presidente da República de Portugal presente também no funeral de José Saramago. Não tive (não tivemos) essa sorte...

quarta-feira, Janeiro 01, 2014

Num ano para esquecer, filmes para recordar


Num ano que não deixou grandes recordações, as melhores foram cinematográficas.
Pese embora o decréscimo global do número de espectadores, que estará na origem do encerramento de duas salas de referência como o King e o Londres, para além da crise na Cinemateca (que continua ameaçada na sua existência por falta de financiamento estatal), a verdade é que este foi um ano "vintage" no que ao cinema diz respeito. Dos muitos filmes vistos e visionados, alguns foram mais marcantes que outros. Eis aqui a minha lista, necessariamente sucinta e não necessariamente por ordem de preferência:
"Viagem a Tóquio" de Yasujiro Ozu
"O Gosto do Saké" de Yasujiro Ozu
"China - Um toque de pecado" de Jia Zhang-Ke
"Norte, The End of History" de Lav Diaz
"Django Libertado" de Quentin Tarantino
"O Mentor" de Paul Thomas Anderson
"Vénus de Vison" de Roman Polansky
"Não" de Pablo Larrain
"Barbara" de Christian Petzold
"Hannah Arendt" de Margarethe von Trotta
Juntem-se a estas estreias absolutas, as reposições de clássicos como "Lawrence of Arabia", "Psico", "2001, Odisseia do Espaço", "O último ano em Marienbad", "Casablanca",  "Hiroxima, mon amour", as colectâneas em DVD de Béla Tarr e Aleksandr Sokurov (provavelmente os maiores cineastas europeus vivos), a reedição de "Shoah" de Claude Lanzmann e a recente "A História do Cinema: uma odisseia" de  Mark Cousins, e teremos uma idéia do que foi o grande cinema em 2013. Muitos destes filmes ainda "andam" por aí e, não vê-los, seria imperdível.

terça-feira, Dezembro 31, 2013

Um ano para esquecer

Não foi um bom ano, este que agora termina.
A "crise" não é com certeza uma figura de estilo e instalou-se definitivamente na sociedade portuguesa. Basta atentar nos índices de desemprego, nas falências de empresas, na perda de poder de compra da maioria dos cidadãos, no aumento dos programas caritativos, nos níveis da emigração ou na dívida pública galopante, para não termos quaisquer ilusões relativamente ao que nos espera.
Pesem os tímidos sinais de recuperação (exportações e fim da recessão técnica), argumentos que o governo tenta explorar demagogicamente, é por demais evidente o empobrecimento generalizado da população, confrontada com o maior ataque aos direitos adquiridos desde o 25 de Abril.
A inconstitucionalidade destas medidas é, de resto, de tal forma evidente, que os chumbos do Tribunal Constitucional passaram a ser a regra em lugar da excepção.
E, no entanto, nada parece demover o governo neste caminho para o desastre anunciado. A estratégia delineada em 2011 continua a ser aplicada, segundo o princípio "estado mínimo, mercado máximo", que não deixará pedra sobre pedra quando a Troika abandonar o país ou, lá mais para a frente, quando a coligação governamental for, eventualmente, derrotada nas urnas.
Mas, mesmo que isso se verifique, qual será o cenário pós-eleitoral?
Nada nos garante que, nessa altura, o partido vencedor (seja ele qual for), possa sequer aplicar uma política radicalmente diferente daquela que tem vindo a ser utilizada. A razão é simples: o país estará, então, de tal forma exangue e a economia de tal forma destruída, que levará anos (uma década, segundo Stiglitz, prémio nobel da economia) a recuperar...
Um cenário à imagem da superfície lunar, onde a paisagem é constituida por rochas onde nada cresce. Será esse o nosso destino colectivo, se nada fizermos para o evitar. Será portanto, esta, a nossa maior e mais importante tarefa em 2014: evitar o desastre anunciado.
Bom ano!


sexta-feira, Dezembro 20, 2013

Chumbo Unânime

Num país normal, depois do quarto chumbo do Tribunal Constitucional às medidas inconstitucionais do governo, aconteciam uma de duas coisas: ou o governo (se tivesse vergonha) pedia a demissão; ou o presidente da república (se existisse) chamava o primeiro-ministro a Belém e exigia a sua demissão. Em qualquer dos casos, a decisão permitia convocar eleições antecipadas, o que não sendo a solução para os problemas do país, permitia clarificar as opções existentes e dar voz a uma população que há muito não se revê num programa de austeridade do qual não se vêem quaisquer resultados positivos. Pelo contrário, a situação piora a cada dia que passa e a destruição social é uma evidência. Mas, não estamos num país normal...  
Desde logo, porque o Portugal "intervencionado", deixou de ser um estado soberano desde que pediu o resgate e aceitou as condições impostas; depois, porque a Troika tem mostrado ser inflexível nas suas metas e pressiona o governo através dos organismos internacionais que dela fazem parte; finalmente, porque o governo português não está minimamente interessado em negociar este programa de ajustamento, que serve às maravilhas a sua estratégia de privatizações e desmantelamento do estado social. Resta acrescentar que, nesta matéria, tanto os organismos que fazem parte da Troika (FMI, BCE, UE) como os partidos governamentais (PSD, CDS) têm uma visão comum sobre o modelo político e económico a seguir: estado mínimo e mercado máximo.
Sobre a oposição parlamentar (PS, PCP e BE), é visível a sua incapacidade de apresentar alternativas reais, seja porque não as tem, seja porque sabe que, no dia em que for governo, será confrontada com uma economia irrecuperável - porque destruída nos seus fundamentos - o que obrigará a uma renegociação da ajuda externa, logo de mais dependência.
Resta falar da oposição extra-parlamentar, onde aumenta a contestação e as formas de desobediência civil, para além dos projectos anunciados de novas formações à esquerda (Livre, 3D) o que, não sendo (ainda) uma alternativa concreta, aponta para novas formas de organização fora do anquilosado sistema partidário.
Em suma: o chumbo do Tribunal Constitucional, sendo justo e esperado, não garante uma mudança das políticas até agora seguidas. As ameaças, ainda que veladas, já começaram a surgir: desde logo através dos porta-voz do partidos governamentais e (who else?) da chanceler alemã e do presidente da Comissão Europeia, o "patriota" Barroso, que (como sempre) dizem estar "atentos" aos desenvolvimentos em Portugal. Por outro lado, prevendo o que aí vinha, a Troika fez depender a transferência, de mais uma "tranche" da "ajuda",  da decisão do Tribunal Constitucional. É por demais evidente, que a chantagem vai continuar.

   
       

segunda-feira, Dezembro 16, 2013

Na Morte de Peter O'Toole


Há algum tempo que não se falava dele. Aparentemente, continuava a interpretar peças de teatro - que nunca abandonou - e a participar em filmes que, esporadicamente, lhe eram propostos. Este ano anunciou a despedida da representação. Em 2002, a Academia tinha-lhe oferecido o Óscar que nunca ganhou (apesar de nomeado 7 vezes) como tributo pela sua carreira cinematográfica. Não fora um filme e, porventura, não estaria aqui a escrever estas linhas. Conheci-o, como a maior parte das pessoas da minha geração, através de "Lawrence of Arabia", a obra prima de David Lean. Já lá vão cinquenta anos...
E, no entanto, "Lawrence" - o filme,  continua gravado na memória, como uns dos mais marcantes da minha juventude.  Talvez devido ao facto do cinema continuar a ser a "fábrica de sonhos" que nunca abandonámos. Uma coisa é certa: depois do "Lawrence", o cinema, para mim, nunca mais foi a mesma coisa.
Vi o filme diversas vezes, a última das quais em formato 70mm, quando David Lean faleceu. Nesse dia, algumas salas de Amsterdão tiveram a ideia original de projectar quatro das obras de Lean, em homenagem ao realizador britânico. Indeciso quanto à escolha, optei por "Lawrence". Antes da projecção, a sala ficou às escuras e, durante largos minutos, só ouvimos o tema musicado por Maurice Jarre. Uma experiência inesquecível. Quando surgem as primeiras imagens, com Lawrence a andar de moto, naquela que seria a sua última viagem, já estamos identificados com o personagem. Lawrence só podia ser O'Toole e O'Toole era Lawrence. Uma simbiose perfeita, que a duração do filme (mais de 3horas na versão "director's cut") apenas confirma. Tudo é perfeito nesta obra - nomeada para oito óscares - o argumento, as inesquecíveis imagens do deserto, a música e as interpretações individuais. De todas, a mais impressionante é, sem dúvida, a de Peter O'Toole, até aí um desconhecido do grande público. As nomeações para o Óscar, que posteriormente viria a receber, apenas confirmam o seu inegável talento como actor, apreendido no celebrado Old Vic, onde voltava sempre que podia.
Um personagem inesquecível, o Lawrence. Ou seria o Peter?