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quarta-feira, Setembro 17, 2014

Tiraram-me as palavras da boca!

Alexandre Soares dos Santos diz que um salário de 500 ou 520 euros não presta, não motiva. "Não serve para nada," sentencia o empresário enfaticamente. Marinho e Pinto acha, por seu turno, que um salário de 4800 euros por mês para um titular de um cargo público "não permite padrões de vida muito elevados."
Bem me queria parecer...

sexta-feira, Setembro 12, 2014

Here we go again...



Não constituiu propriamente uma surpresa a declaração de Barak Obama feita (simbolicamente) na véspera do aniversário do 11 de Setembro, sobre as intenções dos EUA em liderar uma coligação internacional para atacar as forças Jihadistas do Estado Islâmico. Depois dos avanços verificados no terreno pelos fundamentalistas, do anúncio da criação do Califado do Levante e das chacinas levadas a cabo pelos mercenários que integram estas tropas sanguinárias, era esperada uma reacção forte dos países ocidentais. As recentes decapitações dos jornalistas, acompanhadas de ameaças directas a Obama, seriam a "gota de água" que fez transbordar o copo da política de contenção, anunciada pelo presidente americano aquando da sua primeira eleição em 2008. Nessa campanha eleitoral, Obama prometeu retirar as tropas americanas do Iraque e do Afeganistão até finais de 2014, um processo que está em vias de ser concluído. Depois de anos da política expansionista, seguida pelos "neocons" de Bush, que acreditavam na exportação do modelo democrático ocidental através da chamada "nation building" (ensaiada de forma desastrosa no Iraque), o povo americano cansou-se da guerra. Não só esta consumia meios humanos e materiais incomportáveis para o país, como a prática demonstrou que os EUA não tinham capacidade para manter uma guerra prolongada de guerrilha em duas frentes, o que viria a revelar-se fatal para a "estratégia de dominó" preconizada por Cheney e Rumsfeld. A perda de popularidade deste modelo (baseado em mentiras, como as "armas de destruição maciça") constituiu um forte golpe no orgulho americano e revelar-se-ia fatal para os republicanos. As teses dos "falcões" do regime perderam peso na política externa e a eleição de um democrata, menos agressivo, foi tudo menos surpreendente.
Acontece que, no "aftermath" da guerra, os EUA deixaram um país (Iraque) ingovernável, entre outras coisas porque destruiram os pilares do estado (polícia, exército e o aparelho administrativo do partido Baas) mantidos pelo regime ditatorial de Sadam. A uma ditadura, seguiu-se o caos e neste proliferou o banditismo, como se tem visto naquela região desde a queda do regime em 2003. O país ficou praticamente dividido em três regiões distintas, controladas por Shiitas, Sunitas e Curdos, que se digladiam entre si.  Junte-se a este "cocktail" explosivo, o aparecimento do Al Qaeda (que transformou o Iraque num campo de treinos) e, mais recentemente, a guerra civil na vizinha Síria, que libertou os "demónios" jihadistas agrupados no que alguma imprensa chama, eufemisticamente, de "rebeldes" e temos reunidas as condições necessárias para uma "tempestade perfeita". Não por acaso, o auto-proclamado estado islâmico foi ali anunciado. O que se seguirá, ainda não sabemos. Mas, não será bom, com certeza. Para já, foi anunciada uma coligação de 10 países para combater o monstro. Obama já declarou que os EUA não vão voltar a uma guerra clássica (leia-se, com tropas no terreno), mas limitar-se-ão a bombardeamentos aéreos. E quem é que fará o trabalho "sujo", no campo, onde todas as batalhas se decidem? Essa é a questão. Sabemos sempre como as guerras começam, mas nunca sabemos como (e quando) acabam.  Lá vamos nós outra vez...

        

quarta-feira, Setembro 10, 2014

No maior parolo cai a nódoa

Há uma série de televisão, relativamente popular, chamada "A Teoria do Big Bang". Alguns dos que me lêem já a viram certamente. Um dos personagens, o Sheldon, amesquinha sistematicamente um outro personagem, o Howard. Num episódio em particular, Howard, um engenheiro com um mestrado do MIT, desafia Sheldon, um doutorado em física teórica, detentor de um QI de 187, a elogiá-lo uma vez na vida, pedindo-lhe que lhe diga que é bom naquilo que faz. Sheldon, admirado e aliviado, diz que não é problema. "Eu nunca disse que tu não és bom naquilo que fazes, o que fazes é que não é útil".
Vem isto a propósito de um programa da TVI24 — um programa de "referência", dizem de si próprios — a que ontem, por infeliz acaso, acabei por assistir. O tema interessava-me e fui ficando, apesar da presença dessa pestilência televisiva que dá pelo nome de Medina Carreira, cuja imagem, vá-se lá saber porquê, me causa agora brotoeja. António Coutinho, o investigador, fez neste caso de compère.
Entre o chorrilho de banalidades e de conceitos mal amanhados que, certamente por um fenómeno emético, foram sendo sucessivamente expelidos pelos intervenientes, houve um momento precioso, que ilustra bem o nível a que chegaram as ditas elites portuguesas, com o pivot a tentar colaborar, de forma patética, com os charlatães.
Deixo aqui a transcrição do tal momento. Procurei que fosse o mais fiel possível, mas quem tiver pachorra pode confirmar tudo aqui.
Falava-se, a dado momento, da evolução dos doutoramentos em Portugal nos últimos 12 anos. Via-se o gráfico que ilustra este post. Era o último de uma série deles com que estes gajos julgam ganhar credibilidade, crescia a expectativa, esperava-se a revelação final e depois, quem sabe, talvez o apocalipse.
AC - 37% de todos os doutorados nos últimos 12 anos são em ciências sociais e humanidades. Evidentemente que podem contribuir para o tecido produtivo, mas pouco...
MC - Mas isto o que é? É investigar em sociologia?
AC - Eu não sei o que é xôtôr...
MC - Ah, não sabe...
AC - É sociologia. Alguns são economistas, provavelmente...
MC - 37%... (Comenta indignado Carreira...)
AC - ... As ciências da educação, as ciências sociais, essas coisas...
Esperemos que não sejam o rigor e a isenção aqui demonstrados, os atributos que Coutinho coloca na sua actividade de investigação ou na condução das instituições por onde tem passado. Sheldon teria certamente morrido de inveja ao dar conta deste rigor e isenção do iminente investigador do Karolinska, do Pasteur ou do IGC. Se o Sheldon tivesse ouvido Coutinho, não hesitaria, estou certo, em escrever ao Passos Coelho propondo-lhe a sua nomeação para ministro da blue skies science. Assim, em English e tudo...
Uma coisa é certa: o Sheldon tem infinitamente mais graça que o Coutinho.

A "Rentrée"

in http://oficialdejustica.blogs.sapo.pt/


Contrariamente ao estabelecido pelo calendário, Janeiro nunca foi, para mim, o primeiro mês do ano.
Desde muito novo que me habituei a olhar para Setembro como o mês da renovação, ou do reinício, provavelmente um resquício das minhas memórias escolares. O fim do Verão e o aparecimento das primeiras chuvas, sempre foram bem mais importantes que a mudança de ano, algures no pico do Inverno, quando as condições climatéricas permanecem inalteráveis... 
Agora que o Verão parece ter terminado, e os discursos da "rentrée" já tiveram lugar, resta-nos aguardar as novidades de uma temporada, que se antevê longa e cheia de surpresas. 
Folheio os jornais da manhã, na procura de notícias estimulantes e sou levado a concluir que a mudança de estação não condiz necessariamente com a mudança de práticas e atitudes que nos levem a acreditar que algo vai mudar para melhor.
Veja-se o caso de encerramento e concentração de tribunais, executada nas últimas semanas em todo o país, onde a solução administrativa encontrada foi criticada por todos os interessados (magistrados, funcionários e utentes) que viram o já de si difícil acesso à justiça ainda mais dificultado por uma lei que destruturou por completo um sistema que parece agora não servir a ninguém. O caos está instalado, as salas de tribunal instaladas em contentores, os sistemas operativos não funcionam há duas semanas e a própria bastonária da ordem de advogados, perante tal descalabro, exige a exoneração da ministra.
Ou o caso da colocação dos professores eventuais que, pela enésima vez, se vêem relegados para uma miserável existência, eufemisticamente denominada de "horário zero", o que para milhares deles mais não significa do que o desemprego mascarado. Que o número, este ano, ronde "apenas" mil professores nestas condições, mais não significa que o abandono em massa da profissão que muitos deles abraçaram e os tem levado a emigrar para outras paragens.
O mesmo pode ser dito relativamente à crítica situação do sector da saúde, onde os encerramentos e concentrações anunciadas não servem as populações mais desfavorecidas, obrigadas a optar por hospitais particulares, onde a prestação de serviços se tornou impagável para a maioria dos utentes. Não por acaso, os acidentes mortais como consequência da falta de pessoal (veja-se os casos de Faro ou Évora) têm vindo a aumentar, uma prova inequívoca de que as soluções economicistas, encontradas pelo actual ministério, apenas tendem a desmantelar o SNS e a favorecer os sistemas privados, conforme as indicações da Troika sempre exigiram. 
Finalmente, as privatizações anunciadas - Saúde, PT, TAP, Comboios da linha de Cascais, etc. - que confirmam o que já se sabia: a necessidade urgente de privatizar o que dá lucro, seja para desmantelar o aparelho de estado (e dessa forma alijar as suas obrigações), seja para conseguir capitais necessários ao pagamento dos juros da dívida publica, que já atinge os 140% do PIB nacional.
A acrescentar a esta visão pessimista, necessariamente embaciada pelas condições atmosféricas, resta-nos falar do paupérrimo debate de ideias, oferecido por dois potenciais candidatos ao cargo de 1º ministro e de que, ontem, vimos apenas o primeiro "round". Alguém comprava um carro em segunda-mão a Costa ou a Seguro? Eu não, certamente.
Sim, a "rentrée" está aí, mas a chuva, que cai interruptamente há três dias, não é ainda suficiente para limpar uma situação que parece tornar-se estruturante e para a qual não parece haver solução à vista...           

sexta-feira, Setembro 05, 2014

David Copperfield passou por aqui


Um truque do conhecido ilusionista fez desaparecer o País!
Perdeu-se a oportunidade de introduzir reformas estruturais sérias na estrutura produtiva do País e no aparelho de Estado?
Pois, de facto, perdeu-se, mas, atenção!, agora surge uma coisa chamada "Fórum Económico Mundial" — que o ministro da Economia jura a pés juntos ser referência incontornável para os investidores — que diz que não, e faz Portugal saltar, num só passe assombroso, 15 - lugares -15 na lista dos países mais competitivos do mundo. Afinal houve aumento da competitividade por causa das "reformas estruturais". Deste governo? A da Justiça não foi certamente e o Álvaro já não mora aqui.
O endividamento era o problema número um do País?
Pois era, mas Portugal decide sacar uns pózinhos, puf-puf, zás-pás!, e emitir ainda mais dívida, desta vez em condições mais vantajosas do que nunca, ou seja, excelentes para os prestamistas. A redução da dívida segue dentro de momentos.
As exportações eram o motor da "retoma"? Pois, as exportações caem porque os exportadores parecem estar a perder quota de mercado. A procura interna aparece agora como o próximo coelho que o Coelho tira da cartola.
O IEFP "dá" emprego? Pois "dá", mas parece que, em certos casos, graças ao gesto mais rápido que o olhar, os trabalhadores são colocados em empresas das quais foram despedidos. É certo que com a economia neste estado, os empresários, carregados de impostos, não têm muitas vezes condições de manter os trabalhadores. A solução encontrada é então despedirem esse trabalhadores e voltarem a admiti-los através do IEFP, pagos por todos nós. O "emprego" dura enquanto durar o subsídio. Depois voltam a sair. O "Estado mínimo" em versão ultra-liberal.
Há crise?
Pois há, mas, varinha mágica, swiig-ziiing-zoiing!, os ordenados dos gestores de topo subiram enquanto os trabalhos menos qualificados (não necessariamente os trabalhadores menos qualificados, note-se) descem. Isso mesmo era relatado ontem na imprensa. A "procura interna", pelos vistos, vai continuar a ser privilégio dos gestores de topo. A retribuição do trabalho vai continuar a descer.
E não é só o país que desaparece. A Europa, não tarda, também vai. Com a ajuda de um mágico local. Portugal subiu ao pódio europeu do desemprego estrutural?
Pois subiu, e agora parece que — certamente em guisa de remuneração compensatória — o dr. Moedas, um dos fautores desse desemprego vai tomar conta da pasta do emprego da Comissão Europeia, alargando, abrakadabra pronto, presto!, o efeito da sua magia ao resto do velho continente.
Portugal, 2014, é este o país que vê? Ou isto não passa de um imenso festival de magia? Um festival de truques produzidos por um grupo de ilusionistas capitaneado por Pedro Manuel Mamede Passos Coelho, com a assistência de Paulo de Sacadura Cabral Portas, a varinha de Aníbal António Cavaco Silva e o apoio técnico de António José Martins Seguro.

terça-feira, Setembro 02, 2014

Take Another Plane

A acreditar nos responsáveis da TAP, as notícias sobre avarias mecânicas que nos últimos tempos têm surgido na comunicação social, são francamente exageradas. Talvez. A verdade é que, nos últimos dois meses, foram noticiados dez incidentes com aviões da companhia que, até há bem pouco tempo, era tida como uma das mais seguras do Mundo. De resto, as estatísticas não mentem: a transportadora nacional teve apenas em acidente de grandes dimensões em toda a sua história e, por alguma razão, muitas companhias de aviação continuam a fazer a manutenção dos seus aviões em Lisboa.
Acontece que, de há anos a esta parte, a TAP - a exemplo de outras companhias de bandeira - se viu confrontada com as crises de crescimento inerentes à própria industria: se por um lado aumentou o número de rotas e dessa forma ganhou novas clientelas, por outro foi obrigada a modernizar a frota e dessa forma aumentar o passivo que, numa área de transportes cada vez mais competitiva, acabaria por levar à integração da companhia numa "aliança" internacional, como forma de evitar a privatização da mesma e de resistir ao aparecimento das companhias "low-cost", cada vez mais utilizadas por diferentes segmentos da população. Se a esta situação,  acrescentarmos a crescente insatisfação do pessoal de bordo (pilotos e hospedeiras) que nos últimos anos têm trocado a companhia portuguesa por outras companhias internacionais, bem mais interessantes em termos económicos, está explicada parte da actual crise. As exigências da troika relativamente às privatizações acelerou este processo e a venda da companhia a um magnate colombiano esteve por um triz. De resto, o processo foi apenas adiado e nada garante que no próximo ano o mesmo colombiano não volte à carga, como o próprio referiu em recente entrevista.
Também é muito possível que todas estas avarias sejam normais, e sempre tenham existido, como nos fazem crer os relações públicas da companhia. Mas, então, porque é que nunca ouvíamos falar delas e agora surgem todas as semanas nos mais variados voos? Terá a ver com uma frota reduzida e sobreutilizada, devido à falta de aviões; ou com uma "estratégia" de desvalorização da companhia com vista à sua venda pelo melhor preço? Esta é a questão levantada por muito boa gente.
Seja o que fôr, aqui fica uma sugestão aos utilizadores frequentes (como eu), que prezam a sua vida: caso se mantenham os acidentes, reportados nos últimos meses, não se acanhem, pois podem sempre levar à prática a sugestão implícita no acrónimo da companhia: tomem outro avião...

quarta-feira, Agosto 20, 2014

Duas semanas noutra cidade (3)



Uma das zonas mais inovadoras e interessantes de Amsterdão é, actualmente, o Noord, situada numa das margens do Ij, o lago que divide a cidade em duas partes distintas. Porque a maioria dos visitantes tende a permanecer no centro, onde estão concentradas as maiores atracções da cidade, poucos são aqueles que conhecem uma área que sofreu modificações profundas nos últimos 20 anos. Antiga zona industrial da cidade, onde estavam os grandes silos de armazenamento de produtos transportados por via marítima e os estaleiros de construção e reparação naval, o Noord foi perdendo a sua importância, à medida que a construção naval passou a ser feita em países asiáticos de mão-de-obra mais barata. Da mesma forma, os antigos armazéns, originalmente destinados a cereais e especiarias trazidas de outros continentes, acabaram por ser esvaziados das funções para que tinham sido construídos, muitos deles tendo ficado ao abandono. Após um período conturbado, nas décadas de setenta e oitenta, em que muitos destes edifícios foram recuperados por "krakers" (ocupantes de casas), que ali viviam e tinham os seus "ateliers", a zona acabaria por ser requalificada e entregue a empreendores privados que transformaram muitos destes antigos armazéns em "lofts" e apartamentos de luxo, onde hoje vive parte da classe média alta da cidade.  Nem todas as soluções arquitectónicas são admiráveis, mas é nesta zona que podem ser vistos alguns dos edifícios mais marcantes desta inovação. Visitámos a zona de Ijburg, servida por uma linha de eléctricos que parte da Centraal Station da cidade. Ainda em fase de acabamentos, já dispõe de uma marine e de uma praia artificial (blijbeach) onde a população da zona pode nadar em águas calmas e conviver nos inúmeros bares e lojas existentes.
Para os turistas, a parte mais interessante da zona Norte está, no entanto, situada nos terrenos da NDSM (Nederlandsche Dok en Scheepsbouw Maatschappij), os antigos estaleiros da cidade onde, entre 1894 e 1979, foram construidos e reparados centenas de navios e tanques de grande porte. Após anos de decadência e subaproveitamento dos antigos edifícios, também aqui surgiriam iniciativas ligadas às artes performativas (Over Het Ij Festival) e diversos "ateliers" e incubadoras de empresas (Creative Hotspot Amsterdam) que transformaram por completo a imagem de "arqueologia industrial" dos antigos estaleiros. Visitámo-la por duas vezes, a primeira para almoçar no Plekk, um restaurante/discoteca construido a partir de antigos contentores empilhados, que dispõe de uma óptima esplanada e uma praia artificial com vista para a cidade; e a segunda, para jantar no Ij-Kantine, um gigantesco restaurante que funciona num dos antigos estaleiros de construção naval. Mais uma vez, uma vista magnífica do "skyline" de Amsterdão, a partir da doca, onde estão fundeados diversos barcos históricos, desde o velho submarino S-117 holandês, ao mítico barco "Verónica", que foi rádio pirata no Mar do Norte, nas décadas de sessenta e setenta. No Ij-Kantine, é ainda possível ouvir música de jazz cigano, numa programação que faz inveja a muitas salas de espectáculos. Os interessados em visitar esta zona da cidade devem apanhar o "ferry" (pont) que parte todas as meias-horas das traseiras da Centraal Station. É a maneira mais rápida, confortável e é gratuita. Não há desculpas e vale a visita.       

terça-feira, Agosto 19, 2014

Duas semanas noutra cidade (2)


Um dos lugares mais refrescantes e tranquilos de Amsterdão é o Jardim Botânico. Para quem deseja fugir à verdadeira "Disneyland" em que se tornou o centro histórico da cidade, invadido por milhares de turistas durante todo o Verão, este é um lugar a visitar. O Hortus Botanicus Amsterdam é um dos mais antigos jardins botânicos do Mundo. No jardim e nas estufas encontram-se nada menos do que 4.000 espécies de plantas originárias de todos os continentes. Originalmente criado em 1638, após a epidemia de peste que assolou a cidade, com o nome de Hortus Medicus, albergava à época um jardim de ervas medicinais. Médicos e farmaceuticos aprimoravam ali os seus conhecimentos sobre as ervas medicinais. As ervas eram, então, a principal fonte de medicamentos. Nos séculos XVII e XVIII os navios da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) trouxeram plantas ornamentais e especiarias exóticas ao Hortus. Ainda que relativamente pequeno (1,2 ha), a sua riqueza em plantas é enorme. O jardim e as estufas representam sete climas diferentes. A colecção contém somente espécies de plantas naturais e é cientificamente gerada, mediante o intercâmbio de sementes com outros jardins botânicos. 
No lago exterior, aquecido, floresce no Verão a rainha dos nenúfares, a "Victoria Amazonica", que é desde 1859 o ponto culminante da colecção de plantas do Hortus. Porque o acontecimento é publicitado no "site" oficial do Jardim, quis o acaso que, no dia da nossa chegada à cidade, estivesse previsto um dos florescimentos deste ano. Lá fomos, eram 22.30, hora prevista para o desabrochar da Victoria. Nessa noite os portões estavam abertos à população e eram centenas os curiosos que, como nós, se deslocaram ao Hortus. A flor do nenúfar surge ao cair da noite e dura normalmente cerca de 24h, após o que desaparece. Este ano, já tinham florido 10 exemplares, rigorosamente registrados num quadro ao lado do lago e onde uma especialista do Jardim nos guiou através das suas detalhadas explicações. Um verdadeiro acontecimento.  
Outra das atracções, num país de apreciadores de cerveja, é a prova das ditas nos locais próprios, as famosas "bierbrouwerijen" (fábricas de cerveja) das quais existem diversas fábricas artesanais. Esqueçam a "Heineken", a "Amstel" e a "Bavaria", marcas com as quais os portugueses estão familiarizados, e que são aqui meras cervejas de supermercado. 
Se querem provar o que é bom, dirijam-se à Brouwerij't Ij, situada na zona Leste da cidade, não muito longe do Museu Marítimo. É identificável através de um alto moinho de vento, dos poucos que ainda existem em Amsterdão.
Uma vez lá chegados, a dificuldade reside na escolha. Para os iniciados,  recomendamos a Plzeñ (5º) feita a partir de malte de trigo, com aroma de lúpulo e ervas aromáticas. O seu nome deriva da cidade de Plzeñ na Checoslováquia, onde teria surgido a cerveja a copo (pils) original. A minha preferida é a Ijwit (6,5º), uma cerveja branca de malte de trigo. De resto, a palavra "wit" é o antigo termo usado para trigo. Para os apreciadores, a Zatte (8º) é uma prova imperdível. Foi a primeira cerveja saída da fábrica (criada em 1985) e tornou-se um clássico. É uma "tripel", de acordo com a classificação belga dada às cervejas "blonde" mais fortes. Para os mais ousados,  a I.P.A. (7º), uma cerveja "blonde" escura de sabor a lúpulo, ou uma Struis (9º), cerveja de cevada ao estilo inglês, são alternativas a provar. Não esquecer, para acompanhar, o "Old Amsterdam", um queijo bem curado, ligeiramente salgado, ou uma enguia fumada, pois uma boa cerveja biológica exige aperitivos à altura. Um verdadeiro templo de cerveja, a Brouwerij't Ij, que pode ser visitada, individualmente ou em grupo, desde que feitas as marcações com antecedência.        

segunda-feira, Agosto 18, 2014

Duas semanas noutra cidade


É uma das cidades mais populares da Europa (2.5 milhões de turistas por ano) e continua a crescer. Falamos de Amsterdão, que acabamos de (re)visitar, na enésima visita feita a esta cidade, que não pára de nos surpreender,  apesar (et pour cause) de décadas ali vividas.
Ainda que Agosto não seja o mês mais indicado para o fazer - a cidade esvazia-se de habitantes e enche-se de hordas de turistas que ocupam literalmente o centro histórico - o Verão é, por definição, a melhor estação do ano para visitar esta urbe do Norte da Europa, onde a imprevisibilidade climatérica é um factor de risco a ponderar. Como bem sabem os naturais, o clima pode mudar três vezes ao dia e andar de calções e sandálias não dispensa o chapéu de chuva, pois as trovoadas e aguaceiros são, nesta altura do ano, frequentes.
Sem programa pré-estabelecido, a opção, desta vez, foram lugares ou programas menos populares, que turistas clássicos (mais interessados em Rembrandt, Van Gogh ou Anne Frank) não costumam visitar. Em boa hora o fizemos, pois o que vimos compensou largamente as expectativas, tanto do ponto de vista qualitativo como do ponto de vista da tranquilidade dos museus escolhidos. 
Desde logo, a celebrada Huis Marseille/Museum voor Fotografie, que ocupa duas antigas casas senhoriais do Keizersgracht, um dos principais canais do centro de Amsterdão. Diversas exposições seminais de fotógrafos tão diferentes como Taco Anema (Portraits de Conselhos Directivos de Organismos Municipais), Guido Guidi (fotografias hiper-realistas de uma Itália desconhecida) e Martin Roemers, Frans Beerens e Marrigje de Maar (sobre a China actual), que confirmam a qualidade e os critérios de bom gosto deste verdadeiro templo de fotografia contemporânea.
Outra visita gratificante foi a do Cobra Museum of Modern Art, situado em Amstelveen, zona nobre a sul da cidade, que alberga permanentemente a antiga colecção do Stedelijke Museum (Appel, Constant, Jorn, Corneille, Alechinsky) e onde se encontra, temporariamente, uma selecção da Guggenheim Collection, constituida por 51 trabalhos de 44 artistas do famoso museu nova-iorquino, com trabalhos de artistas como Pollock, Rothko, Willem de Kooning, Louise Bourgelos, José Geurrero e Vieira da Silva. Obras marcantes da arte contemporânea, no período compreendido entre 1949 e 1960.
Inesquecível, seria também a visita à cinemateca da cidade, o futurista edifício "Eye" onde, para além das habituais sessões (4 salas em permanência), visitámos o programa dedicado a David Cronenberg, que inclui a projecção de todos os seus filmes, uma exposição, com painéis explicativos e interactivos, adereços (cápsula do filme "A Mosca", os monstros de "Naked Lunch" e "eXistenZ", ou os trajes de "M.Butterfly" e "Eastern Promises"), completada com diversas entrevistas ao realizador, que passam em modo contínuo numa sala decorada como bar, onde não falta o famoso monstro de "Naked Lunch". Imperdível.
Finalmente, e ainda no campo das exposições, "De Krim - Goud en Geheimen van de Zwarte Zee" (A Crimeia - Ouro e Segredos do Mar Negro), que pode ser vista no Museu Arqueológico da Universidade de Amsterdão, o Allard Pierson Museum. Uma pequena, mas informativa exposição sobre esta península ucraniana, recentemente declarada território russo, onde nas últimas décadas foram feitas escavações arqueológicas e descobertos verdadeiros tesouros em cemitérios de povos tão diversos como os Chyntios, os Godos e os Hunos que ocuparam a região. Porque a Crimeia foi um ponto de passagem entre a Europa e a Ásia, devido à famosa "Rota da Seda", também ali foram recuperadas as primeiras caixas lacadas chinesas conhecidas no Ocidente. Uma revelação, agora que a região é notícia pelas piores razões, e uma curiosidade: a exposição, que deveria ter terminado em Julho, foi prolongada, pois a administração do museu holandês não sabe a quem há-de entregar o acervo exposto, uma vez que este é originário de 5 museus diferentes, uns de Kiev e outros da Crimeia...     

sexta-feira, Agosto 08, 2014

BES! BES! BES!


The beat goes on, the beat goes on
Drums keep pounding
A rhythm to the brain
La de da de de, la de da de da






domingo, Agosto 03, 2014

A Leste nada de novo

Folheio os jornais do fim-de-semana, antes de partir para umas curtas férias fora de Portugal.
Ao contrário de anos anteriores, não há notícias de fogos "postos" (ou outros) essa calamidade que anualmente assola o território de Norte a Sul. Porque será? Imagino ter alguma coisa a ver com um Verão que tarda em surgir. Outra explicação possível, pode ser a prevenção feita no terreno. Seja como for, as estatísticas não mentem: no primeiro semestre deste ano, houve menos de metade dos fogos verificados em igual período de 2013. Nada mau.
Outra notícia, esta de sinal contrário, confirma prejuízos do BES na ordem dos 3,6 mil milhões de euros. Os valores são de tal ordem que, em comparação, o "buraco" do BPN já é considerado "razoável"... Depois destes números terem sido tornados públicos, o valor das acções caíram 40%, após o que a negociação em Bolsa teve de ser interrompida. O contágio ao resto da Bolsa foi inevitável. Estamos, assim, perante um caso de gestão danosa (há quem lhe chame "engenharia financeira"), para a qual o governo procura uma solução que pode passar por uma intervenção estatal (através do BdP)  e a divisão do BES num Banco "bom" e num banco "mau" (onde ficariam os prejuízos) como forma de evitar uma nacionalização que teria de ser paga pelos contribuintes. Provavelmente, o BdP irá usar parte dos 12.000 milhões de euros da Troika destinados a recapitalizar a banca, o que significa o pagamento desta dívida - ainda que de forma indirecta - pelos mesmos contribuintes que estão a pagar o empréstimo do "bailout". Um verdadeiro crime, para o qual muita gente vinha alertando e que o  presidente da república, o governo, o presidente do Banco de Portugal e o líder da oposição, sempre menorizaram, considerando o prestígio do BES como a garantia "moral" de boas contas. E agora, quem paga o "calote"?
Outra coisa que nunca muda é a posição da Russia em relação ao Ocidente e vice-versa, num "remake" da "guerra fria" que muitos julgavam definitivamente enterrada. A luta fraticida entre ucranianos pró-ocidentais, agrupados em redor do governo de Kiev, e separatistas pró-russos que controlam parte da zona Leste do país, não mata apenas ucranianos, mas estrangeiros de muitas nacionalidades, como aqueles que tiveram o infortúnio de embarcar no avião da Air Malaysia há duas semanas atrás. Pesem as "démarches" feitas pelos governos dos países mais atingidos pela tragédia (Holanda, Australia e Malásia), nada faz crer que o esclarecimento deste macabro acidente esteja para breve, num processo ainda difícil de explicar.
Também a Leste, continua o eterno conflito Israel-Palestina, agora centrado em Gaza, onde o exército de Israel leva a cabo uma limpeza étnica sem precedentes, perante o silêncio cumplice dos EUA e da UE, que se limitam a pedir o cessar-fogo e a condenar a morte de civis, principalmente crianças, que morrem diariamente, independentemente do local onde possam estar abrigadas. Encurralados entre o sadismo das tropas sionistas israelitas e o fundamentalismo islâmico do Hamas, os habitantes de Gaza são hoje as principais vítimas, heróis e símbolos maiores de um Mundo onde, apesar de aparentes progressos, continuam a ser espezinhados os valores mais importantes da humanidade e onde nada de relevante parece ter mudado. Tudo como dantes, afinal...

A ler

Um texto a não perder. O autor é Fernando Mora Ramos e o título "O sistémico que convém e a ética dos banqueiros".

quarta-feira, Julho 23, 2014

A Silly Season chegou a Timor...

Há dias para esquecer. Hoje é um deles. Já não bastavam as notícias chegadas da Faixa de Gaza, onde todos os dias são mortos inocentes em nome de uma qualquer religião; da Ucrânia, onde os corpos calcinados de um avião abatido, foram hoje transportados para a Holanda; ou das notícias do BES, que dão conta da emissão de títulos do Banco, com vista a nacionalizar uma falência de privados, quando nos chegam as imagens deploráveis de Dili, onde a cimeira da CPLP aceitou (sem votação!) a adesão da República da Guiné Equatorial, como membro de pleno direito da organização.
Logo a Guiné Equatorial, um país onde não se fala português, onde o espanhol é a principal língua, onde os mais elementares direitos humanos não são respeitados (existe a pena de morte!) e o seu presidente é o ditador há mais tempo no poder em todo o Mundo.
Duas coisas se percebem nesta adesão: nem ela se pauta por quaisquer princípios linguísticos ou humanos de qualquer ordem; nem Portugal (teoricamente o único país que pôs algumas reservas a esta decisão) conta para alguma coisa no plano internacional.
Dito de outra forma: foram privilegiados os interesses económicos (petróleo) em detrimento dos interesses linguísticos e democráticos e o governo português participou em mais uma fantochada, desta vez promovida pelo governo de Timor-Leste (onde estás Xanana Gusmão?) tornando-se cúmplice de mais esta página negra das relações internacionais, que nos devia envergonhar a todos.
Digna de um verdadeiro episódio de Monty Python, seria a entrevista feita por uma jornalista portuguesa, ao ditador Obiang, no final da cerimónia: "Presidente, está satisfeito com esta cimeira? Si, si, mucho satisfecho"... 
 

quinta-feira, Julho 03, 2014

O mar é reciclável?

Facebook que nos diz? Folha de rosto, do rosto, que rosto? 
O meu ou o do planeta diário?
Punheta-umbigo ou cosmos?
Teatro do eu ou do mundo?
É como se nos dessemos a ver quando nos vemos num espelho?
Mas damo-nos a ver em charme decaído ou maquilhado, cores ou desenhos ou na bruta, assim mesmo, como a Gabriela que nasceu assim? 
Num espelho que está fora de nós mas também naquele espelho que está dentro? 
É uma coisa de ir atrás do impensado, de ir atrás do que vai à frente, de ceder ao imediato que nos preenche desse nada que enche? 
E que significa o gosto e o comentário e as aplicações que seguem o sistema, a reprodução da estrutura desigual na economia, a democracia como a face visível e disponível do mundo do financismo, o parlamentarismo liberal burguês que reduz a política ao jogo mediatizado da alternância? 
E o dia-a-dia como pura funcionalidade, o corpo mecânico, a cabeça pura química neuronal da actividade fabril mental? 

E o pensamento, que espaço tem que não seja o já pensado? 
Há criação por aqui? 

E o não gosto tem espaço? 
Não é logo entendido como autoexclusão? 
A não empatia cola o quê a quê se só descola? 
Não somos obrigados a uma simpatia online que passa por cavalheirismo, feminino – que será?-, e masculino, no meio de um voyeurismo dominante, massivo e que trabalha subliminarmente as atitudes como gestos quase impensados do fluxo da (in)consciência fluindo? 
Pezinhos de lã no trato e subterraneamente um infinito mercado negro de tudo um pouco: tráficos vários, publicidades omnipresentes, o corte de cabelo da estrela, o champô que arrasa a caspa inimiga e faz um futuro escalpe de sonho na reforma sempre imaginado lazer infinito, o banco preferido de depósitos e taxas paradisíacas em directo na ilha com a tal, o tal, que se escolheu na anedota, de modo personalizado, educado, em voz baixa e adocicada neutra, como os bancos tratam os clientes, pois claro, e a brilhantina no horizonte como um sol a pôr-se ao contrário, nascendo de se pôr, mais os ténis de marca e aço invisível resistente e propulsor, o peito musculado em ginásio ao preço da uva mijona de euros que compensam na dureza dos abdominais de sonho, boa relação preço qualidade, ficas cliente-contente, e que atrai todos o tipo de garinas e garinos, de varinas e chichisbéus, como quase moscas vão à luz mortal que rompe do peito olímpico do atleta e inunda o mundo, as férias do craque seladas com um beijo russo semidespido que obrigam a dar um beijo no mesmo tipo de aparthotel quando formos casal instante, quecaqueda, mais pedofilia por certo e também as múltiplas e inovadoríssimas indústrias da dependência, tóxica e outras, as narrativas do governo bem mentidase mantidas, a vídeo-pornografia de híper-primeiros planos do material sem ecrã para os tamanhos dos materiais e outras variantes e o mais que seja que por aí adiante faça parte da ilimitável capacidade mutante da voracidade mercantil do capitalismo real no dia-a-dia não opcional – afinal, estar vivo, não é opção, opção é mesmo estar morto.

Nada tem de original esta engrenagem. Ela é um conjunto de operações que já fazíamos: a confissão ou notícia de qualquer coisa, o anúncio desesperado, a página dos óbitos, a bunda comerciada, a notícia confessional, pessoal ou acontecimento, a adesão ou recusa dessa coisa num regime que identifica uma tendência de grupo instante – ou mais regular – e a possibilidade do debate de ideias, o mais difícil e menos vulgar. 

Na realidade o que submerge a tanto navegar é mesmo a viagem, não se vai de um porto a outro através da superação inteligente da radical presença dos escolhos, as rochas reais, os baixios, mas também os Adamastores – em novo gostava de dizer Adapastores, aliás como gostava de dizer Minetauro. Navega-se parado no pesadelo de um mar de pânicos, muitos gostos são cliques, gestos mecânicos e estão ao alcance do não esforço – é assim a vida nos céus e é deste modo que os deuses têm uma vida algodoada, fofinha – que palavra … – como se diz: a existência em peluche não chega muitas vezes ao mar encrespado da autoconsciência de si, isso exige fundo, como aquele a que o furo artesiano vai buscar a água que já não há. 

Lembrei-me de uma aranha em peluche, mas que aconteceu às aranhas para serem menos interessantes que os dinossauros de um ponto de vista lúdico-industrial? Preguiças já há, sem o cheiro, é como as doninhas fedorentas, são amorosas, mas extirpado o cheiro – assim são animais de leito, como os furões e furoas. E os ouriços, coitadinhos, esborrachados nas bermas de lentos, sob a velocidade crescente do automóvel de nova marca e cilindrada. 

Tantas perguntas, outras respostas nas respostas que se compram a pronto. 

As aranhas são de carnaval, para meter medo sazonal, não se pode pedir a uma aranha que dê a pata? Uma tarantola rosa é no entanto um amor de muitas patas e pode dar uma a uma a quem a amestrar – ora aí está uma licenciatura interessante.

Vêem-se muitas coisas nestas folhas de rosto, desde verdadeiras antecipações noticiosas a posições que os média nunca publicariam e vêem-se também escritas originais, mesmo de alcance artístico, muito raras mas reais, até se assiste a actos criativos no meio dos não actos do puro fluxo – um rio não para e quando para morre, faz-se-lhe o funeral, vende-se o leito em turismo acidental, catástrofe ambiental. Recicla-se o mar?

Mas essas coisas observam-se no quadro de todas as outras, porventura sendo dominantes aquelas que estruturam o voyeurismo e o narcisismo hedonista, mesmo um certo drama doméstico em primeiro plano – o primeiro plano é mais real do que o plano de conjunto, a importância da ruga e das olheiras leva a palma da atenção afectiva ao plano de conjunto, a estares como mobília entre mobílias. Precisas do drama para te sentires viva, a adrenalina emotiva cria a sensação de que afinal a vida não está parada, pelo contrário anda a centenas de pulsação instante – no resto esquece, isto é, qualquer um se pode ausentar de si mesmo para uma zona da consciência que fica standby. Qualquer coisa do género. Será assim? Chama-se alienação, ser preenchido por esse outro, mesmo pelo grande outro normativo. Brecht falava do grande costume. Numa era de entropias calculadas parecia não ser assim, parecia que a desordem assaltara tudo, mas não é assim, a ordem dos poderes nunca foi tão forte de capacidade totalitária, nunca o poder controlou a ideia de ser individual de uma forma tão capaz de produzir rebanhos miméticos uns dos outros, com a décalage das línguas e das riquezas entre as nações.   

Quando alguém escreve tenho o olho inchado ou que o cão acordou triste e foi ao analista veterinário, seja pedo-canino-neurologista ou psiquiatra-canino e analista, ou mesmo psicãonalista, está a eleger a absoluta irrelevância como drama e a assumir que, num mesmo espaço, pode habitar o bordado de retalhos e o rapto das meninas nigerianas. Esta é a característica fundacional do esquema: no momento em que podemos ser livres - o que significa libertarmo-nos e não propriamente pensar que como escravos somos livres e que portanto liberdade é o que nos passar na bola e se atira cá para fora como quem tira uma nódoa da alma – e podemos, o modo de uso de uma estrutura que pode ser o instrumento disso, acaba por regrar o seu contrário na medida em que nivela as coisas pelo menos qualificado mental massivo híper-controlado e estabelece o vulgar, de modo absoluto, como máximo denominador comum. 

Esta é uma questão. E que nos diz? Diz-nos que esta engrenagem reproduz o mundo exterior, é reflexo da estrutura dominante, a tal que engendra a reprodução sistémica da desigualdade extremada produzida pelo capitalismo actual e suas estruturações reflexas na totalidade do REAL – há uma aliança entre o sistema financista e as performances de todo o tipo, para-publicitárias e publicitárias, que surfam de modo incontinente o ecrã das aparências seja pela via da insignificância que se assume como fim do sentido em pose, seja pela via da insignificância que é directamente mercantil. 

Neste mundo de peluches e desacontecimentos – a resistência do núcleo duro do mesmismo é enorme, tem um potencial militarizado impensável – o que é verdade é que os verdadeiros dramas estão aí mas que o modo de os pensar – e tratar formalmente, é inevitável e é um combate constante – de os colocar em itálico, quase submerge no conjunto complexo e totalitário das poluições do imediatismo pseudo-espontâneo do impensado comum. E é assim que as casinhas dos botões são lindinhas e em cada uma sorri um botão de felicidade, com os seus dois olhos abertos ao devir. 

E o BUTÃO é uma monarquia linda de se turistar, como o mar português, um de caravelar na mente e agora o outro, para semear turismo também. Com sede na Berlenga. 

segunda-feira, Junho 30, 2014

Traição




O debate sobre a verdadeira origem e utilidade das chamadas "redes sociais" não é uma perda de tempo. Nem as redes sociais se irão embora por muito que se lhes arrime. Pelo contrário, penso que cada vez mais as relações entre as pessoas e as culturas vão ser mediadas por algo do género e que o seu papel está longe de se ter esgotado. Mas a Matrix e o Neuromancer são nomes que me parecem cada vez mais reais.
Quanto ao Facebook, o que as recentes notícias parecem querer dizer é que enquanto "o ajuda a ligar-se e a partilhar com as pessoas na sua vida", a rede do senhor Zuckerberg tem algo diferente em mente.
Isto não é ficção. Foi publicado em vários sítios, não foi desmentido e não se viu uma palavra aceitável de explicação ou desculpa para um facto tão grave. Uma vergonha.
Está na hora de repensar a presença no Facebook...
O que o senhor Zuckerberg fez foi um acto de traição totalmente inqualificável.

quinta-feira, Junho 26, 2014

Síndrome Nacional

A poucas horas do "mata-mata", poucas ilusões restam sobre o futuro da selecção portuguesa, nesta edição do Campeonato do Mundo de Futebol. Amanhã, por esta hora, estará a fazer as malas para regressar a Portugal o que, independentemente da exibição de hoje, será o epílogo lógico de uma participação sem brilho e força anímica, outra designação amável para a chamada falta de atitude.
Depois do apuramento na fase de qualificação, conquistado graças a um super motivado São Cristiano, os responsáveis embandeiraram em arco, convencidos que a exibição de Estocolmo era a regra e não a excepção. A FIFA ajudou nesta ilusão, ao classificar-nos (vá lá saber-se porquê) em 4º lugar no "ranking" mundial de selecções e, a partir desse momento, toda a gente pensou que poderíamos ser a surpresa do torneio e - calculem só! - até ganharmos no Brasil.
Daí para cá, e já lá vão uns meses largos, assistimos a um acumular de sinais que pronunciavam a borrasca: desde jogadores (considerados titulares da selecção), que praticamente não jogavam nos seus clubes devido a má forma; passando por outros, afastados por castigo ou pré-eliminados pelo seleccionador; até às épocas longas e desgastantes nos principais clubes, tudo contribuiu para que o lote de escolha fosse reduzido. Junte-se a digressão preparatória pelos Estados Unidos (que mais interesse parece não ter tido do que cumprir contractos comerciais) e a escolha de um lugar de estágio, distante milhares de quilómetros dos estádios onde ia competir, para perceber que, dificilmente, nestas condições logísticas e climatéricas, a selecção poderia ter um bom desempenho.
Não por acaso, as limitações físicas desta equipa, apareceram logo no primeiro jogo com as lesões de três dos seus titulares. Junte-se a estes, o afastamento de um quarto elemento por expulsão e as duas posteriores lesões no segundo jogo, para perceber que, com metade dos titulares lesionados, dificilmente uma selecção, sem "segundas linhas", poderia resistir. Com o "melhor jogador do Mundo" em sub-rendimento e um treinador teimoso, que não abdica dos seus fiéis, estavam reunidas as condições ideais para a "tempestade perfeita". Tudo o que devia correr mal, correu pior e, como é habitual  nestas ocasiões, a lei de Murphy também não falhou.
Num país desmotivado por uma crise estrutural, e onde as perspectivas de melhores dias não passam da "fata morgana" permanentemente adiada, esta equipa nacional é bem o símbolo do período histórico que atravessamos. Porque tudo muda, e pior do que estamos é quase impossível, só nos resta confiar que, daqui para diante, consigamos melhorar. Com um bocado de inspiração e sorte, talvez comece já esta tarde, quem sabe?...
   

quarta-feira, Junho 25, 2014

Algo é algo...

Um mês após as últimas eleições europeias, foi hoje anunciada a composição do Parlamento Europeu. Nada que não pudessemos antecipar, em função dos votos nos respectivos partidos e sua distribuição nas facções partidárias que integram o hemiciclo de Estrasburgo.
Depois das negociações habituais nestas coisas, o próximo Parlamento será constituido por uma facção Social-Democrata (PPE), com 221 deputados (a maior do hemiciclo); uma facção Socialista (S&D) constituida por 191 deputados; uma facção Conservadora (ECR) com 70 membros; uma facção Liberal (ALDE) de 67 membros (na qual se inclui, pela primeira vez, o Partido da Terra, de Marinho e Pinto); uma facção da Esquerda Europeia (GUE) com 52 membros, uma facção dos "Verdes" (EGP), com 50 membros e os Eurocépticos Radicais (EFD), com 48 membros.
De fora, ficaram 52 deputados, designados como "não-inscritos", por não terem conseguido uma aliança de 7 países, mínimo necessário para poder constituir uma facção parlamentar. Neste grupo, estão todos os partidos de extrema-direita, desde os partidos racistas e xenófobos de Marine Le Pen (França) e Geert Wilders (Holanda), até aos partidos nazis alemães (1), húngaros (3), gregos (3) e deputados independentes diversos.
Se alguma coisa há a concluir, para além da composição das grandes facções, é a exclusão (até ver) dos partidos de extrema-direita, sinal de que o (novo) fascismo  tem várias matizes. Não é de excluir que, mais cedo ou mais tarde, haja transferência de votos de outros partidos para esta "frente" nacionalista e racista europeia. Tudo dependerá da futura situação social e económica da União Europeia, que tarda em encontrar um rumo para a sua política e, por isso, dá azo ao aparecimento destas aberrações ideológicas. Para já, todos estes partidos, ficaram de fora das decisões parlamentares e limitados nas suas intervenções nas respectivas comissões. E isso é sempre uma coisa boa. Algo, é algo, como dizia o poeta... 

sexta-feira, Maio 23, 2014

Candeia que vai à frente...

Na Holanda (e no Reino Unido) realizaram-se, ontem, as Eleições Europeias.
Ainda que os resultados oficiais não sejam conhecidos, as sondagens à boca das urnas apontam para uma perda significativa dos partidos do governo em ambos os países. Curiosamente, enquanto na Holanda, o PVV (extrema-direita), perde influência; em Inglaterra, o UKIP (anti-europeu), deve ser o mais votado. Crescem, igualmente, os partidos minoritários, desde o SP (Socialistas Radicais) e D'66 (Liberais) na Holanda aos "Verdes", no Reino Unido.
Preocupante, é a percentagem de abstenção que, só na Holanda, atingiu os 63%...
Ou seja, nem todas as más previsões (crescimento do partido xenófobo holandês) se concretizaram, mas a desilusão, com esta Europa, parece ser crescente.
Resta aguardar pelas votações nos restantes países, para podermos extrair conclusões mais definitivas. Em Portugal, após duas semanas onde se discutiu tudo, menos a União Europeia, não são de esperar grandes surpresas. Os dados estão lançados e toda a gente já percebeu a tendência do voto: a coligação governamental vai perder e a oposição vai ganhar, mas não é seguro que a situação se altere: a coligação governamental não se demitirá e o presidente da república não demitirá o governo. Porque a oposição não dá mostras de unidade na acção, a situação manter-se-á nos próximos quinze meses.  Lamentável, até porque, mais um ano deste governo, será um mais ano de austeridade e sacrifícios para a população portuguesa. Depois, não se queixem...   

quarta-feira, Maio 21, 2014

A assobiar para o lado, até que um dia...

Já há muito que se tornou doloroso observar o gigantesco acto de prestidigitação que foi montado em torno da chamada crise da dívida soberana portuguesa e o modo como o Povo Português a ela reage. Nem Siegfried & Roy alguma vez conseguiram tamanha proeza. Esta questão da culpabilização dos povos e da exaltação dos chefes e do seu papel providencial, não é um fenómeno de hoje nem, seguramente, um "problema português". A teoria política disseca este tema e há várias explicações para ele. Em todo o caso, é de coelhos tirados da cartola, de ilusionismo, portanto, que estamos aqui a falar. Vender a crise é como vender detergentes, criando a ilusão de que um lava "mais branco" que o outro e nisso, temos de o admitir, os actuais governantes arriscam ganhar o Leão de Cannes...
Há uma série de ideias que entraram no imaginário colectivo de uma forma chocante e verifica-se que a esmagadora maioria das pessoas actua perante essa ficção que é a "crise" como se se tratasse, de facto, da realidade, deixando a realidade, essa sim, escapar-se-lhe por entre os dedos.
Duas ideias ilustram isto que digo.
Primeiro, a ideia de que temos de "reformar" o Estado. Ninguém está contra a necessidade de melhorar serviços, poupar recursos, alterar até objectivos. Todos, mas todos!, queremos mais, melhor e maior eficácia na obtenção de resultados. Querer, pois, reformar o Estado não é, em si mesmo, algo digno de nota especial. O que está em causa aqui é verificar se aqueles que repetem esta ladainha o estão a fazer bem, se não estão a agravar o problema que diziam querer resolver ou se não estarão a aproveitar para impor a sua própria (uma outra) ideia de Estado. Se levarmos em conta tudo aquilo que foi dito antes, para obter a legitimação democrática necessária para levar a cabo estas reformas, o que parece quererem dizer agora aqueles que propagandeiam e os que papagueiam, sem reflectir, este cliché, é que temos de acabar com o Estado. No entanto, lá os vemos com ar moralista a repetir o estafado argumento dos gastos acima das possibilidades, do défice incomportável e da impossibilidade de viver assim, alapados, eles e os amigos, no Estado que tanto criticam.
Dizer-se que temos de alterar o estado actual do Estado não é nada em si mesmo. O que está em causa é como fazê-lo e com que resultados. É a esse julgamento que os actuais responsáveis pelo governo de Portugal parecem querer fugir, ao repetirem a mesma conversa sem se submeterem à nossa avaliação periódica. Nós somos a troika! 
Outra das ideias que esvoaçam constantemente nos discursos dos políticos e nas análises dos doutos comentadores, pagos para nos ensinarem a pensar, é a de que vamos ter reforma para 20 ou 30 anos. Portugal não se levanta nem daqui a uns decénios, vamos continuar como " protectorado" mais não sei quanto tempo, os credores exigem, os credores dominam. Esbanjou? Tem de ajoelhar!  Estas ideias em particular, ouvimo-las da boca dos mesmos responsáveis políticos que as originaram (ouvimo-las da boca de Cavaco Silva, por exemplo, que a proferiu sem corar de vergonha, assobiando como se nada fosse com ele) e ouvimo-las também de gente crítica do actual governo e das suas orientações, alguns mesmo que conquistaram auditório a denunciar os desmandos dos políticos e que agora se limitam a fazer coro com aqueles mesmo que antes denunciaram, não apresentando - facto significativo! - uma única alternativa ao que criticam nem se comprometendo com a viabilização de soluções para as críticas que proferem. Gente de gravata, falar manso e cara bolachuda, diz aos sem-abrigo, magros e esfarrapados que vão ter de permanecer dentro dos caixotes de papelão mais umas décadas.
Não há culpados, há uma "dívida", que é vista como se fosse um desses arquétipos platónicos, coisa portanto intangível e só discutível no domínio da música das esferas, mas ninguém assinou o cheque nem mandou publicar em Diário da República. Fomos "nós", os "portugueses", mandriões e desorganizados, que levámos o País à ruína. 
Espanta a leviandade com que gente de barba branca fala na hipoteca do futuro de filhos e netos sem pestanejar, sem sequer sentir, aparentemente, um leve resquício de vergonha na tromba. Começar a vida com a perspectiva de que quando tiver 20 ou 30 anos vai ainda ter de pagar uma dívida que não contraiu, é esta a "promessa" que faço à minha neta recém nascida?! Uma dívida que o avô nem sequer contraiu? E os que, de facto, a contraíram, limpa-se-lhes o cadastro? E será na realidade a dívida dela? E se for, não terá ela direito a uma compensação por nos ir pagar algo que não avalizou? Como vai ela sustentar-se a ter de pagar os compromissos necessários a assegurar a sua sobrevivência juntamente com os encargos do regabofe para o qual não contribuiu? E esta gente, mesmo a que critica as actuais orientações do governo, acha isto normal? O movimento pró vida transformou-se em movimento pró dívida...?
Contra isto alguns Portugueses reagem saindo do País, outros juram que não vão votar, muitos, a maioria, diabolizam os políticos mas fogem à responsabilidade de os apear do poder e criar verdadeiras alternativas. Irão para a praia em dia de eleições, dirão depois que não foi com a sua ajuda que "estes" foram para lá, sentir-se-ão assim leves que nem pássaros. Mas não, a culpa é deles e mais tarde ou mais cedo, de uma forma ou de outra, vão ter de pagar por isso.
Já terão os Portugueses pensado como vai ser, de facto, a sua vida, a sua, dos seus filhos e netos, daqui a 20 ou 30 anos se continuarmos a assobiar para o lado da forma como temos vindo a fazer até aqui?

sábado, Maio 10, 2014

MERDRE SUR CALDAS, o peido invisível


O Pacheco, Luís, andou aos caracóis nas Caldas, para comer, quer dizer, comia caracóis - passou no Lisbonense, Hotel, umas férias sem factura nem dívida, errância libertinada, à solta, um dia de fartura e pontapé no cu, em epílogo.
Os caracóis fazem boca para a cerveja, mas os caracóis era o que o Pacheco dava às crias depois de sair do ninho e caçar onde caracolassem, nas estepes caldenso-gaieirenses, matagal de bermas da estrada.
O Pacheco cervejaria? Quer dizer, tudo vale se a alma não é pequena e a sede aumenta e tal. À falta de tinto era sabido que era desportista, embarcava na distância entre o tinto e a canha, o fino, a imperial, o príncipe, o que queiram. Tinha mais que bom feitio, estômago. Se há crise não conheceu outra dívida que não fosse a vida. Era um tipo que, mesmo leninista - a foice no caixão mais o martelo por paixão ao Lenine (clicando vem o brasileiro das cantigas) - era sem medida, inclassificável tanto quanto inarrumável. Não se pode dizer o mesmo de muitos, precavidos e estrategos da sua própria táctica existencial, carreiristas ou mesmo casados por conveniência, como nos negócios reais - de realeza.
Ora ocorreu-me e não é uma ignição (os incêndios são mais para o verão) que a Merdre que ele, Pacheco, aplica a Caldas é do Jarry. Merdre diz Ubu. O Pacheco sonhou-se Rei dos Caracóis, contando com os próprios ossos em paisagem, a ver se eram os que sobravam por estar em pé e se neles os caracóis fariam ninho.
Sei que nada justifica o que colateral é essencial, o que é dizer que a vida de qualquer outro merece uma atenção total - muitos, egocentrados, sem abandonar o útero que os tem para sempre, por preguiça em renda e oportunismo matricial, não percebem: acham que são eles o centro e que todos lhes devem o que eles não cessam de roubar, inadvertidamente, claro, até são boa gente.
Não me move nenhum tipo de idolatria pelo Pacheco, não se pode seguir um pulha mesmo que este faça o pleno dos afectos e tenha graça para esbanjar, mais que qualquer marketing indutor, daqueles que convertem a qualquer moda por razões de troca sócio-estatutária - fazes a madeixa, a tatuagem, pões os saltos muito mais altos, mesmo coturnos.
Outra coisa é a literatura e mesmo o talento (que será? Vem da moeda?), talvez, talento dioptrióptico, espesso filtro de vidro antes de encontrar o real, o que permite ir mais ao fundo que ir à superfície, coisa mais de panorâmicas.
Só agora topei que a porra da Merdre era dupla, a ubuesca e a olfactiva. Em Caldas Sur Merdre, capital do caralho de louça, cheira a merda, quer dizer, a Merdre e não estamos a falar da sua gente institucional, cujo cheiro é certamente indiferencial, mesmo o anal chEira a burocracia comum, institucional global, a reunião, a aconchego sob tecto, a inauguração mecenática parola com BCP ou outra narcotraficância branqueadora.
O camarada Pacheco, bisexual de um só cartão partidário, seu multibanco fora os democratas mais moderado-existenciais, percebeu a ambiguidade da coisa: entre a sulfurosa e olfactiva força da terrenidade subterrânea e a sofisticação termal, perdida na memória, só uma palavra era possível, MERDRE. O francês, o R que canta, dá ao vernáculo luso um toque que faz o glamour do sítio e das gentes. Na verdade é como diz o Carlos B : podemos descuidar-nos que ninguém sabe quem foi. Assim o prevaricador prevarica em paz, a emissão peidal é dos censos e coisa de estatística. Fadada, para a coisa ser perfeita, a plataforma electrónica e análise swotttt. What é que vocês pensam?

quinta-feira, Maio 08, 2014

O insustentável peso do medo


Bem sei, o medo combate-se. Mas o combate é muito difícil quando, como anedoticamente ilustrado neste vídeo, o opositor tem a faca e o queijo na mão. Então só pensas em sobreviver, na esperança de que a situação seja transitória, e engoles todos os sapos possíveis: aceitas um ordenado de merda, trabalhas as horas e os dias que o patrão mandar, obedeces a ordens absurdas sem ripostar, aturas as maiores faltas de respeito. Em breve usarás métodos de que não te sabias capaz porque és obrigado a competir com os teus colegas de trabalho e porque eles também os usam, justificas-te perante o grilo da tua consciência. Além disso, apesar de o emprego ser merdoso, sabes que estão lá fora a formar o salto mais uma data de outros desesperados. Isto não é ficção.
Escrevi que o medo segue dentro de momentos. De facto, depois do 25 de Abril, não foi preciso esperar muito para o medo regressar aos nossos corações. Ou melhor, nunca de lá saiu. Num ensaio que para mim funciona como referência, Portugal, Hoje – O Medo de Existir, o filósofo José Gil defende que mantemos em nós um atavismo que nos leva à “não inscrição”; somos nós quem não se consegue inscrever num clube que nos aceita como sócios. Mais depressa acreditamos que um dia um qualquer D. Sebastião sairá da neblina para nos vir resolver os problemas. Porque temos inscrito nos nossos seres esse medo, mesmo os jovens que nunca tiveram a experiência de viver sob um regime repressivo. Porque estas coisas passam de geração em geração, sem que os próprios por vezes tenham consciência disso.




terça-feira, Maio 06, 2014

Limpinhos, limpinhos...

Sem surpresa, o governo anunciou em Bruxelas a saída "limpa" do programa de austeridade, a que Portugal esteve submetido nos últimos três anos. Uma operação mediática, que começara na véspera diante das câmaras de televisão em "prime-time" e que terminou ontem, com alguma "pompa e circunstância", apoiada pelas declarações dos inefáveis Durão Barroso e Jeroen Dijsselbloem, personagens tutelares do programa de "salvação" imposto a Portugal. Já anteriormente, a Troika tinha-se (auto)congratulado pelos resultados obtidos (todos "bons", a avaliar pelos balancetes publicados trimestralmente nos jornais de referência) pelo que não havia surpresas nestas conclusões. Estivéssemos nós em Hollywood e não faltaria o "happy end" dos filmes "cor-de-rosa" a que nos habituaram no passado. "All well that ends well", como diria Shakespeare, para continuar na língua do dramaturgo maior. Do que nos queixamos nós, afinal, perguntava ontem um desiludido deputado da maioria parlamentar? De facto, após tantos sacrifícios, não se compreende que os cidadãos deste país não estejam agradecidos a quem, em seu nome, pediu "ajuda" aos sempre beneméritos organismos bancários que nos "protegem".
Acontece que esta era uma produção "manhosa", arquitectada e produzida por estagiários medíocres de um país há muito desacreditado nas praças financeiras internacionais. Ora, como sabemos, da era dos omnipresentes "mercados" e das agências de notação,  contam muito pouco as intenções e conta muito o peso real da economia. Tivéssemos nós a importância de Espanha ou Itália e outro "galo cantaria". Mas, não temos, e agora é tarde.
Para já, os principais indicadores são, salvo raras excepções (fim da recessão e aumento de exportações) todos negativos. O "déficit" continua acima dos 4%; a dívida pública aumentou para 130%; o desemprego é o terceiro maior da zona Euro (15% da população activa e 35% entre os jovens); mais de 350 000 desempregados, sem qualquer espécie de subsídio; mais 200 000 emigrantes nos últimos dois anos; cortes brutais nos ordenados e pensões de reforma; 20% da população a viver abaixo do limiar da pobreza; 25% de crianças sub-alimentadas; mais de 3000 "sem-abrigo" nas principais cidades do país; dezenas de milhares de empresas falidas e a consequente perda do poder de compra de famílias inteiras, que ficaram sem casa e outros bens pessoais confiscados pelo fisco; aumento dos Bancos Alimentares em todo o país; menos e piores serviços públicos, como escolas, hospitais, polícia e lojas do cidadão, e.o.
Enfim, a lista é longa e visível a olho nu. Porque, no meio deste "tsunami" social, poucos são os que ousam ter filhos, a pirâmide demográfica inverteu-se nos últimos anos e, actualmente, são já mais os que morrem do que os que nascem. Ou seja, o país está mais velho e há cada vez menos gente a descontar para manter o actual estado social. Uma tendência que, a não ser invertida, conduzirá inevitavelmente à diminuição da população (prevista, de resto, para a próxima década) e à desertificação acelerada do país. Sem uma população jovem qualificada e sem uma productividade significativa, o crescimento económico ficará sempre aquém do necessário, o que implicará mais ajuda externa, logo maior dependência económica do estrangeiro. Um programa para vinte anos...
É o que se chama uma "limpeza geral". Não é, pois, de admirar, que os nossos governantes andem tão impantes em Bruxelas. Ninguém os poderá acusar de não sermos limpos.

domingo, Maio 04, 2014

YES GIRL OU DA FIDELIDADE CANINA E INSTITUCIO-ANAL

A Cão deputa. Em Lisboa. Na terra não deputa, demanda ansiosamente deputar fora dela mentindo nela o que for necessário para parecer que deputa o que se supõe se depute longe dela – deputam cada vez menos por lá e traficam cada vez mais com o próprio lugar mas também praticam todo o tipo de serviços necessários à seita partidária, de alto abaixo da escala. E particularmente o que for útil ao chefe imediato e ao chefe de topo. 
Com a verdade polida ao momento e algum hálito mastigado fora, mesmo fumado no fumo alheio se necessário, aparece bem montada em qualquer sela: a sua utilidade vem de um saber escuteiro, das catequeses e do ranço que tempera o seu servilismo arrivista, o sorriso gravado na pele como máscara, o hálito polido nos dentes saídos com a graxa das simpatias circunstanciais. 
O que é renda serviçal a mantém à tona. Se for necessária mentira e lucro, tudo bem, pois a quem por cima se mantém o que convém é o que por cima o mantém feito em baixo e com as baixezas traficadas por quem é capaz delas. Ela, Cão, desmanda, não manda, morde apenas no subalterno e morde com os dentes tortos ou os novos-ricos, investidos, principalmente na canela mais sincera que da dentada se não livra pois o que for verdade não tem caminho nela. A Cão detesta a verdade. É crítico o que na canela tem a sua marca de unha partidária arreganhada e não quer pagar o que dizem que deve não devendo – quem afinal vive acima das possibilidades mais que aqueles que foram donos das possibilidades desde que a tal Europa as trocou pela descaracterização lucrativa nacional? Que país é este tal em que assim se deputa a identidade? Nem o das tais três sílabas de plástico, pois esse apesar de tudo silabava e este só grunha.
Pouco manda ela, a Cão, afinal apenas é num quintal. Sua a casota que aí impera, grande casota com vistas para dentro da horta público-privada, querida e regada com a clandestina coisa pecaminosa que é capital secreto, porventura a ver se o que é geneticamente seco se humidifica milagrosamente no final de cada mês. 
É entretanto no quintal da frente que o penteado acontece: é evento em souplesse de sedosa publicidade silenciosa, só de estar na foto. No detrás se faz o desmancho ou o arranjo. O penteado queque é óbvio na frente, com o cabelo que há, a mise em work em progresso é no detrás, os rolos em cascata-croquete delirando na sobre tola sem miolo. 
E quem na Cão se põe? O Cão dela. No momento em que quer ladrar mais acima no estatuto ladra-lhe vociferante para cima de modo canino-masoquista. O Cão cuja cilindrada fede também a nabos vindos daquela frase de um tal Vicente que diz “assim que bafejais logo me cheirais a nabos”. 
Que bicho tem inimigo que não seja de humana ordem aprendido? Cão gosta de gato e gato de rato, o contrário é induzido – fome é outra coisa - e deputado de filha deputar. Deputado aplaude quando a batuta chefe lhe bate no bestunto. Quer dizer, se mandam ladrar ladra e não bate palmas. Mas há quem nem boca abra na magna assembleia quatro anos dados. Deputar calado colhe. Deputa com quem o calado? Deputa com ninguém, mas consigo, por certo. E consigo prossegue caninamente o que o umbigo inidentificável lhe dita – que pequeno burguês diz eu que seja identificável mais que ser o que tudo possa ser dizendo eu e sempre a dar à anca? Que lhe dita o umbigo? Dita-lhe que bingo: sigo caninamente o cimo e quando o cimo anda perdido melhor é andar na sombra e desacontecer – o deputado nem sempre é performativo. Com aos que sei Cão como ela, ou ele, são muitos. Deputa com não sei quantos que com certeza deputam e são de deputar disso, calados ou acontecidos. Serão? São e com que habilitação que seja? São de assim condizer com o nada ser mais que rebanho e nem diploma tenham mais que o cartão partidário. Saber? O quê? Para quê? Melhor é calar e abrir a boca para sim dizer o que convier ao que de cima ditarem. Lá vir opinar isso é outra coisa e é no quintal detrás. É colar bem no ouvido de quem traficar. 

terça-feira, Abril 29, 2014

Mudar de Vida...

... é o título do filme, dedicado à vida e obra de José Mário Branco, exibido no "Indies", o Festival de Cinema Independente, a decorrer esta semana em várias salas de Lisboa.
Um documento importante, num país sem grande tradição de "biopics" e, onde, a maior parte dos documentários, é feita para a televisão.
A partir de material inédito, filmado em França nos anos setenta, o documentário "Mudar de Vida: José Mário Branco, vida e obra", acompanha cronologicamente a vida do cantor, desde o exílio em Paris ao regresso a Portugal, após o 25 de Abril, incluindo as experiências no Colectivo GAC e nos grupos de teatro "A Comuna" e "Teatro do Mundo", até ao seminal "FMI", período que, nas suas próprias palavras, encerra um ciclo da sua vida artística. Segue-se uma segunda parte, onde o filme acompanha o processo criativo do músico e compositor, em projectos tão díspares como a produção dos álbuns de Camané ou "raps" de Chullage, sem nunca passar ao lado da intervenção política, um prolongamento da sua vida como músico.
O documentário, abre com o texto "Mudar de Vida", do concerto do mesmo nome, filmado na Culturgest em 2008 e que, ao longo do filme (115 minutos), regressa como fio-condutor da obra.
Realizado pelos jovens Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro, "Mudar de Vida" foi produzido com a ajuda de "crowdfunding" e é uma co-produção luso-francesa. As suas quase duas horas de duração, provam que o dinheiro foi bem investido. A ver, porque imperdível.