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quarta-feira, agosto 26, 2015

Uma catástrofe anunciada

foto TORM A/S
As imagens do Mediterrâneo e dos Balcãs, onde diariamente milhares de refugiados de todas as nacionalidades, cores e credos, continuam a chegar,  são o prenúncio de  uma catástrofe anunciada. A crise no Médio Oriente, associada à implosão de estados africanos, dizimados pela fome, guerra e doença, forçaram milhões de pessoas a abandonarem territórios, onde sempre viveram, única forma de escaparem a um genocídio anunciado. Perante esta calamidade de proporções "bíblicas", a incapacidade de perceber e acolher tal quantidade de refugiados, é evidente.
Estamos perante o maior êxodo, desde a 2ª guerra mundial e ninguém pode, neste momento, prever o fim da vaga migratória. Se, para o problema dos africanos, que atravessam o Mediterrâneo, nunca chegou a haver propriamente uma solução; para a recente vaga de refugiados, da Síria e do Iraque, a solução nem sequer foi pensada...
Independentemente das recriminações que possam ser feitas aos agentes no terreno, duas coisas parecem desde já evidentes: nem a Europa tem, neste momento, capacidade para absorver milhões de pessoas (basta olhar em volta); nem a situação destes imigrantes poderá ser resolvida, enquanto não forem atacados os problemas existentes a montante: os conflitos regionais, provocados por grupos internos a mando de forças obscuras e outras, mais claras, a quem interessa a destabilização regional por motivos geo-estratégicos.
Temos aqui, portanto, dois problemas a resolver urgentemente: a contenção do fluxo de refugiados para a Europa e a contenção de beligerantes no terreno, condições indispensáveis para que a operação possa ter algum êxito. Pensar que uma pode anular a outra é, para além de naíve, perigoso. Subestimar a força dos fundamentalistas no terreno, enquanto continuamos a assistir à chegada de milhões de desalojados, só poderá desembocar numa catástrofe: a montante, o fortalecimento do fascismo-islâmico e, a jusante, o renascimento do fascismo europeu. A Europa,  que conheceu duas guerras e o maior genocídio da História moderna, não pode vacilar perante tal dilema. Hesitar agora é comprometer o futuro. Amanhã, pode ser tarde.


 

terça-feira, agosto 18, 2015

Tiro de rajada


O PS anda a dar sucessivos tiros no pé há anos. Não tem remédio.
A arma esteve sempre em modo tiro a tiro. Mas neste momento está em modo de rajada.
António Costa está, a escassas semanas das eleições, a exercer um papel de embrulho que não posso deixar de considerar, no mínimo, perturbante.
E ao embrulho falta-lhe tudo, até um lacinho mais janota para disfarçar...
Pessoalmente, acho que António Costa não percebeu, afinal, patavina do filme que esteve a ver. Pessoalmente, estou profundamente chocado.
Temos pela nossa frente um desastre anunciado.

segunda-feira, agosto 10, 2015

quinta-feira, julho 30, 2015

A Silly Season está de volta...

Há petróleo no Beato e não sabíamos.
De acordo com o programa da coligação governamental, ontem apresentado, o pior já passou.
Se os portugueses, em Outubro, votarem nos mesmos partidos, o futuro estará assegurado.
Vejamos: haverá menos impostos (IRS), menos cortes nas reformas mais baixas, plafonamento nas mais altas, direito a médico de família para todos os portugueses, mais empregos, melhor educação e melhor saúde. Mais apoios às famílias e mais Estado Social. A economia vai crescer e as exportações também. Logo, o desemprego vai baixar. Ah, o turismo não pára e a riqueza também não.
Cereja em cima do bolo: Portugal vai tornar-se uma das 10 economias mais competitivas do Mundo!  Digam lá se o nosso país não é um paraíso?
Já posso ir de férias. E andava eu tão preocupado...

quinta-feira, julho 16, 2015

A operação correu bem. O paciente morreu.

Era previsível. O parlamento grego aprovou esta madrugada, por maioria expressiva, um terceiro programa de assistência (vulgo "resgate") para evitar a bancarrota do país.
Depois de 6 meses de negociações e um referendo, onde os gregos se expressaram inequivocamente contra mais medidas de austeridade, o governo de Tsipras foi obrigado a capitular perante a intransigência dos restantes países da zona Euro, Alemanha à cabeça.
Era possível outra saída?
Sim, caso Tsipras tivesse respeitado o resultado do referendo e agisse em consequência (saída da Grécia do Euro). Nesse caso, seguir-se-ia um período de transição, com vista a preparar o país para uma nova moeda, de consequências imprevisíveis e provavelmente mais dramáticas para o povo grego. Essa foi, de resto, a explicação dada pelo primeiro-ministro grego na primeira entrevista, após a maratona de Bruxelas e, ontem, confirmada no Parlamento.
Não, caso os credores se mostrassem intransigentes e obrigassem a Grécia a aceitar um novo programa de assistência (vulgo "resgate") que, em troca de mais dinheiro, mantivesse o país na esfera da dependência económica e financeira dos alemães e franceses.
Contra todas as expectativas e apesar de duas votações inequívocas, que suportavam uma decisão de ruptura, Tsipras deu o dito por não dito e aceitou as condições impostas pelos credores.
Deve, no entanto, ser sublinhado, que a posição do primeiro-ministro grego não foi apoiada por mais de três dezenas de deputados do seu próprio partido, entre os quais o ex-ministro das finanças, Varoufakis, que dirigiu a delegação grega durante as negociações de Bruxelas. A este propósito, leiam-se os apontamentos e sugestões de Varoufakis, publicadas por estes dias, que explicam bem as razões pelas quais ele teria sido "sacrificado" durante este processo.
E os credores? Ainda que um novo "resgate" possa aliviar temporariamente a situação grega e, indirectamente, permitir à Grécia pagar parte dos juros da dívida actual, a verdade é que, com este novo programa, a dívida grega aumenta e torna-se impagável. A opinião é da insuspeita Lagarde (FMI) que sabe do que fala. É ela que propõe um "haircut" (perdão) da dívida, única forma de aliviar a Grécia da pesada herança dos últimos 40 anos de governação e que conduziram o país a este beco sem saída. Percebe-se a preocupação da directora do FMI: se a Grécia dever 100 milhões de euros, o país terá de pagá-los, mas se dever 1000 milhões, os credores nunca mais verão o dinheiro...
Resta falar da Europa e do projecto europeu: depois do que aconteceu esta semana, a UE nunca mais será a mesma. A irredutabilidade de países credores, como a Alemanha, perante uma situação cujas causas devem ser procuradas na arquitectura de uma moeda única que não prevê situações de insolvabilidade financeira de países intervencionados, faz temer o pior e o pior poderá ser o fim do Euro e, quiçás, do próprio projecto europeu tal como o conhecemos.
Esse perigo ficou patente na reacção inglesa, que se recusa a apoiar o plano de emergência para acudir à Grécia e nas diversas manifestações, um pouco por toda a Europa, onde os partidos e movimentos nacionalistas (vide França, Finlândia e Hungria) não escondem o seu ódio aos ditames dos eurocratas de Bruxelas.
Sim, a operação de "resgate", parece estar a correr bem. Mas, não passa de um paliativo. Os problemas voltarão e nada nos faz acreditar que o paciente já não esteja, de facto, morto.          

segunda-feira, julho 13, 2015

“We were set up”


Foto Getty, via New Statesman
Para perceber — o quanto é possível perceber neste momento — os bastidores destas negocições com a Grécia nestes últimos dias, para perceber para onde vai caminhar inevitavelmente o país e o resto da Europa, leia esta entrevista de Yanis Varoufakis aNew Statesman "Exclusive: Yanis Varoufakis opens up about his five month battle to save Greece".

segunda-feira, julho 06, 2015

The day after

Um dia após serem conhecidos os resultados do referendo grego, a especulação sobre o futuro do país continua a ser a questão dominante. Não é caso para menos, agora que o país fundador da democracia ousou votar maioritariamente contra as medidas de austeridade propostas pelos credores internacionais. Ao contrário do que (maliciosamente) sugerem alguns fazedores de opinião, a Grécia (os gregos) não votou contra a Europa, ou contra o Euro, mas contra o programa de austeridade que há cinco anos vem sendo imposto, sem qualquer resultado positivo. Mais, a situação na Grécia é, agora, muito pior que em 2010, com indicadores que não mentem, quanto ao drama humano e social que o país enfrenta: uma dívida pública equivalente a 166% do PIB, uma quebra de 25% do Produto Interno Bruto, 27% de desemprego estrutural nos adultos, 60% de desemprego jovem e emigração em massa para fugir à miséria. Paralelamente, e como resultado de tudo isto, um aumento exponencial da pobreza no país, devido aos cortes nos apoios sociais e subsídios de desemprego, que deixaram milhões de gregos sem qualquer seguro de saúde. Uma catástrofe humanitária de proporções desconhecidas na União Europeia, que levou o presidente do Parlamento Europeu a apelar a um programa especial de apoio urgente à população mais carente e, à presidente do FMI, a reconhecer o falhanço do programa de austeridade imposto pela Troika. Perante este cenário catastrófico, não devem ser considerados surpreendentes os resultados de ontem. Colocados entre a espada e a parede, os gregos escolheram a espada, preferindo combater pela sua dignidade e dando ao governo de Syriza, democraticamente eleito, a legitimidade que este necessitava para (re)negociar em Bruxelas uma nova proposta, que tenha em conta a situação-limite a que está sujeita a Grécia.
Independentemente de ter ganho o "não", a situação social e económica grega não melhorará substancialmente. Este é um dado adquirido, que os eleitores devem ter ponderado na hora da votação. Apesar de tudo, ousaram desafiar o poder financeiro, dando uma lição de coragem e democracia ao Mundo. Nada ficará como dantes, nesta Europa decadente submetida ao diktat alemão. À Grécia, o devemos. Não é coisa pouca.        

sábado, julho 04, 2015

O referendo Grego



"Os Sete Magníficos" é um western que vi assim que estreou em Portugal e fui revendo ao longo dos anos. Revi-o ontem. É um daqueles filmes de culto, bons de um lado, maus do outro, sem tretas. Os bons ganham!
Um remake de "Os Sete Samurais" de Kurosawa, "Os Sete Magníficos" conta a história de uma pequena aldeia mexicana de fronteira. A aldeia é vítima de um grupo de bandidos liderados por Calvera (Eli Wallach) que a mantém dominada pelo medo, rouba as colheitas e outros bens, perante a aparente passividade dos seus habitantes, cuja capacidade de reacção se encontra totalmente paralisada pelo regime de terror criado pelos bandidos.
Os aldeões reúnem-se e decidem reagir. Um grupo é encarregado de partir para uma cidade próxima, já em território americano, para contratar homens e comprar armas que os ajudem a combater o bando de Calvera.
Um grupo de pistoleiros é finalmente contratado. Para além da sua intervenção directa, os pistoleiros estão também encarregados de treinar os aldeões no manejo de armas e de criar uma estratégia de defesa. Um primeiro ataque do bando de Calvera é rechaçado, mas num segundo ataque os pistoleiros são apanhados de surpresa, desarmados e obrigados a abandonar a aldeia. Finalmente, os magníficos voltam à aldeia, e num golpe de mão conseguem aniquilar o bando e matar o próprio Calvera. The end.
Por que razão vos conto isto?
Três cenas que me escaparam anteriormente.
Cena número um. Na reunião em que é tomada a decisão de reagir contra Calvera e contratar ajuda, uma minoria manifesta-se contra essa decisão porque, argumenta, o Calvera rouba mas deixa-lhes sempre o suficiente para eles não passarem fome.
Cena número dois. Na noite anterior à derrota dos magníficos, a aldeia tinha-se reunido e alguns aldeões questionaram os motivos pelos quais os pistoleiros acederam a participar nesta causa.  Estes explicam que a luta é da aldeia, que assumiram a causa mas só podem ajudar. Se os aldeões não querem combater ou não querem a sua ajuda, eles vão-se embora. A tensão é grande e a aldeia divide-se entre os que querem participar e os que duvidam da vantagem da luta. Quando o grupo é derrotado e obrigado a deixar a aldeia, Calvera, novamente senhor da situação após ter reinstalado o seu regime de terror, dirige-se ao líder dos magníficos, Chris (Yul Brynner), e diz-lhe "Os vossos amigos (aldeões) já não gostam de vocês. Vocês obrigam-nos a tomar muitas decisões, comigo eles só têm de decidir uma coisa: fazer o que eu mando!"
Cena número três. Depois do triunfo no tal golpe de mão final, Calvera é atingido por Chris. Moribundo, pergunta-lhe "Vocês voltaram. Para um lugar destes. Porquê? Um tipo como tu, porquê?"
Quem conseguir ver nisto uma metáfora com o que está em jogo para todos nós, amanhã no referendo grego, acertou em cheio!

quarta-feira, julho 01, 2015

Tirar a máscara

O Conselho Europeu considera que o referendo na Grécia viola as regras. Criticam a pergunta que nele é feita. A Alemanha só volta às negociações depois de saber os resultados deste referendo violador, cuja pergunta não faz sentido. Dijsselbloem, uma espécie de Relvas à holandesa, espera, em nome da UE, pelos resultados do referendo. Irregular e criticável. Lamenta-o, lamenta-se. Exibe ar enfadado.
Os gregos insistem na realização do seu referendo, mostram-se mestres no exercício da sua função, clarificam os termos da sua iniciativa, para que não restem dúvidas, expõem-se. De um lado tudo é claro, subtil e categórico, correm-se riscos. Sem máscara.
Do outro lado tudo é obscuro, incompetente, pesadão, autoritário. A tragédia grega, hoje, é isto: a Europa usa a máscara. Que caiu.
Ilegítimas, arrogantes, incompetentes, as autoridades europeias revelaram-se um verdadeiro desastre em todo este processo.
Os povos europeus devem-se perguntar que corja é esta que não foi legitimada pelo voto e que, ainda por cima, lhes custa balúrdios.

domingo, junho 28, 2015

O rei vai nu

Um artigo sobre as verdadeiras consequências da crise grega. O futuro, é razoável pensá-lo, chama-se optimismo.
Leia aqui.

quarta-feira, junho 24, 2015

Pedir contas

"Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujeitos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas ombreiras, com colarinhos à moda."

Os Maias (1888), Eça de Queirós


A jornada de solidariedade com a Grécia da passada segunda feira foi um fracasso total.
Uma vergonha, diria mesmo, à semelhança do que se tem passado com outras iniciativas destinadas a protestar contra a loucura neo-liberal que têm sido (mal) organizadas neste país, tenham elas maior ou menor expressão, maior ou menor adesão. Uma vergonha que não conseguiu sequer mobilizar os transeuntes que passavam do outro lado da praça ou os artistas de rua que se exibiam mesmo ali ao lado. Uma vergonha que defrauda as expectativas mais profundas de uma larga maioria de Portugueses que sofre na pele as consequências das políticas desta Europa fascizóide.
São actos que revelam uma total irresponsabilidade e têm consequências desastrosas para a luta política.
É que, este tipo de inciativas, para além de projectar uma imagem deturpada do que significa a solidariedade com o Povo Grego e uma falsa perspectiva sobre as reais consequências que a sua luta tem para a nossa luta, dá argumentos ao governo para insistir nas suas teses políticas sobre a Grécia e, no pólo oposto, dá razão aos fanáticos da organização, que criticam com razão a sua inconsequência, mas se esquecem que a sua "organização" há muito que se transformou em móbil único e é, ela própria, no fundo, inconsequente.
Esta é uma causa que nos diz respeito a todos. Não há fracturas possíveis. A todos, na proporção das suas responsabilidades, é necessário pedir contas sobre o seu papel nesta luta. O que andam, particularmente, a fazer as direcções políticas da oposição em Portugal?

domingo, junho 21, 2015

A ouvir

Recomendo vivamentte a audição das 3 edições do programa Quinta Essência (de João Almeida), na Antena 2, com Frederico Delgado Rosa. Esta série foi emitida a propósito do seu livro "Humberto Delgado: biografia do general sem medo".
Relembrar este processo ajuda-nos a perceber muito do que se passa ainda hoje na nossa vida política e explica muito dos tiques do poder que persistem.
A Democracia continua, tantos anos volvidos, a não ser um valor sagrado em Portugal. Vivemos, de facto, num regime fascista.
Os programas (emitidos a 31 de maio, 7 e 14 de junho) estão disponíveis aqui.

sexta-feira, junho 19, 2015

Filmar a Memória

Nos últimos quinze dias pude assistir a três obras cinematográficas - género documentário - sobre a memória de regimes e eventos políticos em países devastados por guerras, golpes de estado e repressão generalizada. Os dois primeiros, no âmbito do Festival "Olhares do Mediterrâneo" (Cinema no Feminino) e, o terceiro, numa das salas da Medeia Filmes.
Filmes sobre a guerra na Bósnia, na década de noventa (For those who can tell no tales); sobre a repressão em Portugal durante o fascismo (O medo à espreita) e sobre o golpe de estado militar na Indonésia em 1965 (O olhar do silêncio).
Enquanto no primeiro filme, a realizadora Jasmila Zbanic (Bósnia), utiliza uma turista australiana como alter-ego, para dessa forma construir uma narrativa distanciada, mas nem por isso menos denunciadora das violações sofridas por centenas de mulheres bósnias num hotel, utilizado pelas tropas sérvias durante a guerra civil na década de noventa; o filme português, de Marta Pessoa, reúne diversas figuras da resistência anti-fascista e deixa-as falar perante a câmara, num cenário negro, onde os entrevistados relatam as torturas a que foram sujeitos nos calabouços da PIDE. O terceiro filme, realizado por Joshua Oppenheimer (norte americano, baseado na Dinamarca), segue a investigação do personagem principal, cujo irmão foi torturado e morto por milícias de extrema-direita, às ordens dos generais indonésios.
Três formas diferentes de olhar a tortura, em sociedades onde, durante períodos mais ou menos prolongados, o poder foi exercido por regimes autoritários ou durante convulsões internas, como foi o caso da guerra civil na ex-Jugoslávia.
Dos três filmes, o docudrama de Oppenheimer (segunda parte do díptico iniciado com "A arte de matar",  que vimos no ano passado) é, sem dúvida, o mais impressionante. Já porque o realizador dinamarquês possui aptidões que as realizadoras dos outros filmes parecem ainda não possuir; como, os meios técnicos postos à sua disposição, são, indubitavelmente, mais sofisticados. Se "A arte de matar" já era um filme devastador, pela crueza das histórias de tortura representadas pelos próprios esbirros, "O olhar do silêncio", ainda que versando o mesmo tema, não cai na repetição de "clichés" procurando descobrir a verdade, através das conversas informais que o personagem principal do filme vai tendo com os antigos torturadores, até conseguir descobrir os assassinos do próprio irmão. Um filme assustador na sua simplicidade formal, filmado com grande mestria e beleza estética, a lembrar a grande tradição asiática de Ozu e Lav Diaz.
Num período histórico de grandes convulsões políticas, em que começam a surgir prenúncios de regimes mais ou menos autoritários, alguns dos quais bem perto de nós, é bom lembrar que as derivas dictatoriais não estão tão longe assim. Neste sentido, filmes como aqueles que nos foi dado ver nas últimas semanas, são bons exemplos do que a arte cinematográfica pode fazer pela memória.       
   

quinta-feira, maio 21, 2015

Grande País!!!

Não há palavras, legendas ou mais comentários a fazer. Em Portugal 10% da população mais rica detém cerca de 26% da riqueza, enquanto 10% da população mais pobre detém apenas 2.6%. O resto dos números do relatório In It Together: Why Less Inequality Benefits All da OCDE, publicado hoje, é igualmente eloquente no que toca a este país.
Leia tudo aqui.

quarta-feira, maio 13, 2015

Atrevam-se!

Perante os sinais evidentes da falência total das democracias ocidentais, como esta em que vivemos, o que Manuel Arriaga nos propõe neste seu "Reinventar a Democracia, 5 ideias para um futuro diferente" é simples: como criar uma verdadeira alternativa de controlo e exercício do poder que não seja um travesti deste sistema que faliu?
Um corolário imediato desta proposta é o seguinte: poderão as “alternativas” que vemos surgirem por aí quase todos os dias, dentro e fora do sistema, ser consideradas verdadeiras alternativas?
E há um outro corolário óbvio, que se pode ainda extrair: é possível construir um alternativa sem cair na tentação de usar os mesmos meios que o sistema que queremos reformarusa, eles próprios sustentáculos e causas dessa falência?
A resposta a estas perguntas é simples: sim, é possível, usando a inteligência. A única forma que o Homem teve para assegurar a sobrevivência da espécie durante 200 000 anos.
As palavras chave, neste caso, são "usar" e "inteligência".
A democracia de tipo ocidental é um sistema cheio de imperfeições, que tem, por via delas, destruído a sua própria promessa. A democracia ocidental está hoje no estado daqueles corpos que, sem alimento, começam a consumir as suas próprias gorduras até nada mais restar.
Sem vergonha, o modelo até é exportado para as paragens mais "selvagens", apoiado no cliché “churchilliano” de que a democracia é "a pior forma de governo imaginável, à excepção de todas as outras que foram experimentadas.” Uma forma hábil de impedir o surgimento de alternativas antes mesmo de nascerem, classificando-as desde logo como experiências…
Como se a democracia não tivesse começado por ser uma experiência.
Chegámos a um ponto porém em que esta democracia não corresponde mais ao estado de evolução das sociedades humanas. Os problemas avolumaram-se e avolumam-se, não há soluções dentro do sistema, e as soluções tornaram-se, elas próprias, problema, a partir do momento em que os detentores do poder que as impõem, em nome dos seus interesses. Alapados nesses interesses e neste horror ao experimentalismo, esses crónicos detentores do poder velam para que nada mude, desde que os seus interesses não sejam afectados. O descrédito e o descontentamento perante esta situação são generalizados e a revolta, mesmo que nem sempre claramente expressa, é profunda.
O olhar atento revela-nos que o sistema contém um mecanismo de auto-regulação que impede a sua reforma e o blindou contra todas as tentativas de mudança. Uma ínfima minoria não terá a inteligência para se aperceber disso. E uma esmagadora maioria não quer, simplesmente, usá-la. Eis a génese do impasse que inviabiliza a mudança: os descontentes parecem preferir não usar a sua inteligência e demitiram-se de intervir nos mecanismos que decidem as suas vidas. Preferem demitir-se a provocar a mudança. Preferem demitir-se a contribuir para resolver os problemas de que se queixam.
Como explicar este disparate a quem não quer ouvir? Como dizer-lhes que a raiz do seu desconforto são eles próprios, sem os hostilizar?
Acredito, porém, como Manuel Arriaga, que a natureza humana é boa, embora admita, como ele, que os perigos e as dificuldades gerados por estas propostas de mudança, que de forma corajosa, saudavelmente clara, surpreendentemente serena  e candidamente optimista, ele aqui propõe, são reais e imensos.
A vantagem destas propostas é que, ao contrário de outras baseadas em perspectivas reformistas ou revolucionárias — mas sempre convenientemente encaixadas numa qualquer forma de poder actual —, estas permitem estabelecer o diálogo, sem excluir nem afrontar ninguém à partida.
Dialogar não significa antagonizar. Só através do diálogo inteligente poderemos aspirar a construir uma sociedade auto-determinada, aí onde, como aponta John Holloway, outras propostas que dominaram o pensamento político ao longo de todo o século XX, quando o mal estar se começou a instalar, falharam em toda a linha.
Acredito, portanto, que mais depressa do que se pensa o bloqueio será furado. Não nos restará outra coisa senão sermos atrevidos. Atrevamo-nos, portanto.
Comece por se atrever a ler este livro.
Ver-nos-emos certamente por aí.
Até já.

quinta-feira, abril 23, 2015

O "Indie" está de volta


Tem hoje início, mais uma edição do festival de cinema independente "Indie", uma das mais emblemáticas e importantes mostras cinematográficas em Portugal.
As sessões, que decorrerão em diferentes salas da capital, terão este ano lugar no cinema S. Jorge (sala principal do Festival), no cinema Ideal, na Culturgest e na Aula Magna da cidade universitária.
Entre as inúmeras obras, este ano apresentadas, destaque para a noite de abertura com 3 sessões especiais: na sala do S. Jorge o filme "Around the world in 50 concerts" da realizadora holandesa Heddy Honigman, conhecida de outras edições do festival; um concerto ao vivo, pelo Alis Ubbo Ensemble, que interpretará alguns dos temas mais marcantes da história do cinema e o filme de culto "Buzzard" de Joel Potry Kus, que passará no cinema Ideal.
Outro dos filmes mais aguardados desta edição é "The black power mixtape 1967-1975" de Gorang Hugo Olsson, relatado pela voz de Lauryn Hill, sobre os efeitos da descolonização sobre os povos indígenas, nas décadas de 60 e 70 do século passado. O filme passará na Aula Magna de Lisboa.
Destaque ainda para a produção nacional "Capitão Falcão", baseado na célebre Banda Desenhada sobre o capitão fascista do mesmo nome e para os filmes portugueses "O medo à espreita" de Marta Pessoa, sobre as marcas que o antigo regime deixou nos suspeitos de colaborarem com a PIDE; o documentário "Rabo de Peixe", sobre a localidade açoreana do mesmo nome, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel; o filme "Cinzas e Brasas", o mais recente filme do aclamado documentarista Manuel Mozos; e o aguardado documentário "A arte da luz tem 20.000 anos" de João Botelho, sobre as gravuras do vale do Côa.
"State of Art" é o nome da secção especial do festival, organizada em colaboração com o Tampere Film Festival (Finlândia) e o VIS - Vienna Nieuw Independent Shorts (Austria), onde são mostrados filmes dos festivais destes países.
O "Indies" deste ano terá ainda uma secção especial dedicada à música "Wackers Open Air" (3 D) para ver com óculos especiais. Um verdadeiro "happening"! 
Manoel de Oliveira, recentemente falecido, será igualmente alvo de uma homenagem especial, que engloba algumas das suas obras mais marcantes.
Enfim, tudo bons motivos para ir ao "Indie", que está de volta para animar os dias e as noites dos cinéfilos portugueses. Para mais detalhes da programação, consultar o "site" do festival.

sexta-feira, abril 03, 2015

domingo, março 08, 2015

O Ano do Cabrão (calendário chinês)

Balada do Cabrão *

I

O pequeno cabrão
é sempre
um pequeno cabrão;
mas, não há cabrão
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno cabrão.

no entanto, há
cabrões
que nascem grandes e
cabrões
que nascem pequenos,
diz o pequeno cabrão.

de resto,
os cabrões
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno cabrão.

o pequeno
cabrão
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno cabrão.

no entanto,
o pequeno cabrão
tem orgulho em
ser
o pequeno cabrão.

todos
os grandes cabrões
são reproduções em
ponto grande
do pequeno cabrão
diz o pequeno cabrão.

dentro do
pequeno cabrão
estão em ideia
todos os
grandes cabrões,
diz o pequeno cabrão.

tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande cabrão,
diz o pequeno cabrão.

o pequeno cabrão
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno cabrão.

é o pequeno
cabrão
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande cabrão.
diz o pequeno cabrão.

de resto,
o pequeno cabrão vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande cabrão:
o pequeno cabrão
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno cabrão.

II

o grande cabrão
também em certos casos começa
por ser
um pequeno cabrão,
e não há cabrão
por pequeno que seja,
que não possa
vir um dia a ser
um grande cabrão,
diz o grande cabrão.

no entanto, há
cabrões
que já nascem grandes
e
cabrões
que nascem pequenos,
diz o grande cabrão.

de resto,
os cabrões
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande cabrão.

o grande
cabrão
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande cabrão.

por isso,
o grande cabrão
tem orgulho em
ser
o grande cabrão.

todos
os pequenos cabrões
são reproduções em
ponto pequeno
do grande cabrão,
diz o grande cabrão.

dentro do
grande cabrão
estão em ideia
todos os
pequenos cabrões,
diz o grande cabrão.

tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos cabrões,
diz o grande cabrão.

o grande cabrão
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande cabrão.

é o grande
cabrão
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno cabrão,
diz o grande cabrão.

de resto,
o grande cabrão vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno cabrão:
o grande cabrão
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande cabrão.

* (Adaptação do texto "balada do pequeno e do grande filho-da-puta" de Alberto Pimenta, minha inspiração em dias cinzentos).


sábado, março 07, 2015

Apanhado...


Al Capone, um dos mais famosos gangsters americanos, também conhecido por Scarface, ganhou triste notoriedade como líder da mafia de Chicago durante o período da Lei Seca. Foi detententor de uma imensa fortuna, estimada em mais de 100 milhões de dólares e responsável por inúmeros assassinatos. Foi preso e enviado para Alcatraz, em consequência de uma condenação por evasão fiscal...

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Dois artigos, uma foto



Uma nota breve para recomendar a leitura de dois artigos que julgo que se completam perfeitamente. Poderiam ser ilustrados por esta extraordinária foto (surripiada de um deles, cuja autoria não consegui apurar). Ambos foram recomendados já no noticiário Twitter que exibimos aqui na badana direita do blog, mas nunca será demais chamar a atenção para eles.
Em primeiro lugar, um notável e lapidar artigo de António Guerreiro. Neste curto texto, o modelo necessário para uma análise das origens do Hades grego. Em segundo lugar, uma exposição lúcida, contendo uma pequena resenha dos sinais inequívocos da victória, que muitos teimam em não ver ou parecem ignorar, da Grécia sobre as forças que comandam esse Hades.
Dois artigos, uma foto. De um lado um Yanis Varoufakis, com ar confiante, que parece arregaçar as mangas para iniciar o confronto com este novo Reichsführer-SS, um Schäuble antes arrogante e desdenhoso, mas que aqui parece algo acabrunhado, agora que se vê obrigado a responder ao confronto para o qual os Gregos o desafiaram.
Neste combte nem o gongue o salvará! Irão, ele e a restante Wehrmarcht, inevitavelmente ao tapete.

sábado, janeiro 31, 2015

Democracia



Seja qual for a justificação, nunca aceitarei que em Democracia se abuse da Democracia. As razões pelas quais a actual maioria chumbou a audição do PR sobre o caso BES são ditadas por uma de duas coisas. Ou a maioria é conduzida por um espírito totalitário ou tenta esconder algo.
Em Democracia não há, ou não deveria haver, tabus. Os agentes políticos são votados e são pagos pelos que neles votaram para exercer o seu cargo. Têm de prestar contas!
Se a maioria tem alguma coisa a esconder ou pretende esconder alguma coisa que o PR tenha feito é porque alguma fez...

domingo, janeiro 25, 2015

Somos todos gregos


Um fantasma ameaça a Europa: o fantasma do Syriza. Todas as potências da Europa se agruparam numa santa aliança para dar caça a este fantasma: o Papa, o Presidente da União Europeia, o Presidente do Banco Central Europeu, o Presidente do Eurogrupo e o Ministro alemão das Finanças. Não estão incluídos nesta lista, o FMI, os especuladores e credores gregos, as agências de notação, a imprensa de direita e, naturalmente, todos os partidos do "arco de governação" grega que governam o país há 40 anos. É obra.
Como é possível um partido, que teve apenas 27% de votos nas últimas eleições, poder constituir uma ameaça aos poderes instituidos, na Grécia e fora dela?
Desde logo, porque, pela primeira vez, um partido de esquerda não-tradicional está à frente nas sondagens e vai, muito provavelmente, ser o mais votado nas eleições de hoje. A acontecer tal resultado, esta será a primeira vez na história da União Europeia que um partido, da designada "extrema-esquerda", ganha umas eleições legislativas.   
Depois, porque é que os gregos, que durante 40 anos votaram alternadamente nas famílias políticas sociais-democratas (Pasok) e conservadores de direita (Nova Democracia), desejam uma nova força política, que se oponha a esta alternância?
Finalmente, porquê é que esta situação se tornou de tal modo insustentável, que a população grega chegou ao "ponto de não-retorno" e pensou - muito legitimamente - que tem todos os motivos para apostar numa força que não esteja comprometida com as políticas que conduziram o país a um beco sem saída?
Como sintetiza hoje um grego anónimo, entrevistado por jornalistas portugueses: "se comes todos os dias o mesmo prato, durante um tempo, e alguém te põe à frente um prato diferente, tu vais provar. Pode ser melhor ou pior, tu não sabes. Mas, o que andas a comer é intragável e já não aguentas".
O que é a comida intragável para um grego?
Uma quebra do PIB (desde 2009) de 25%.
Uma taxa de desemprego de 27% (a maior da Europa).
Uma taxa de desemprego jovem de 50% (a maior da Europa).
Uma taxa de 175% do PIB de dívida pública (a maior da Europa).
Uma emigração crescente, devido ao desemprego.
O fim dos apoios sociais e médicos para quem está desempregado.
Diminuição do salário mínimo, que passou de €750 mensais em 2010, para €350 em 2015.
Aumento exponencial da miséria e de doenças infecciosas nas zonas urbanas.
Aumento da criminalidade e dos ataques racistas a estrangeiros, por parte de grupos nazis.
Pressões insustentáveis da parte dos credores que, ao não aliviarem as sanções, impedem o crescimento económico e o pagamento da própria dívida grega.
Um círculo vicioso, portanto, do qual nenhum país poderia sair, sem uma renegociação das condições actuais que impedem qualquer solução viável para o problema grego que, em última instância, é um problema da Europa. Isso mesmo, já compreenderam alguns dos responsáveis europeus, desde o primeiro-ministro irlandês (que apoia uma conferência de credores e países intervencionados sobre as dívidas públicas), ao ministro francês Vals, que considera ser possível ao Syriza discutir a dívida e o próprio Mario Draghi (BCE) que, ao injectar dinheiro no sistema bancário europeu, reconheceu implicitamente a crise monetária europeia, que dura há já cinco anos.
Logo, são precisas soluções pragmáticas e concessões de ambos os lados, dos irredutíveis alemães e do Syriza (que está longe de ser o fantasma que todos receiam), para salvar a Grécia, mas - não menos importante - para salvar a própria Europa. É por essa razão, que os gregos vão hoje a votos. Eventualmente, para mudar alguma coisa. Para melhor. Para eles e para nós.
Por isso, hoje, somos todos gregos.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Não tens seguro, morres nas urgências!

O PR na inauguração do Hospital da Luz


O caos instalado nos serviços hospitalares atingiu, esta semana, uma situação sem paralelo na história recente do país.
Desde o início do ano, faleceram já 8 pessoas nas urgências, foram registradas mil mortes a mais (comparativamente ao mesmo período do ano passado) enquanto, na maior parte das urgências dos hospitais, os tempos de espera chegaram a atingir dez, quinze e vinte horas em média.
É isto normal?
Pesem as explicações avançadas pelos responsáveis de serviço (ministro e secretário de estado da saúde) relativamente ao Inverno rigoroso, ao aumento de doenças infecciosas entre os idosos e à falta de profissionais de saúde em número suficiente, a verdade é que estas coisas planificam-se e, se a organização do SNS já deixava a desejar antes da actual crise, é uma evidência que os serviços pioraram em toda a linha.
Desde logo, pelo encerramento de centros de saúde e serviços ambulatórios de proximidade, que permitiam, em casos menos graves, o tratamento imediato sem recorrer às urgências de um hospital. Depois, pela sub-dimensão dos próprios hospitais, claramente a "rebentar pelas costuras", como é o caso dos hospitais de Faro, Almada ou Amadora-Sintra (este projectado para 200.000 utentes e que hoje atende mais de 500.000/ano). Finalmente, a falta de profissionais de saúde (médicos e enfermeiros), provocada pela reforma antecipada dos primeiros e pela emigração dos segundos, devido ao desemprego crescente no país. 
Sem cuidados primários perto de casa (o que obriga os doentes a irem às urgências hospitalares), sem hospitais suficientes (com capacidade para atender os casos urgentes) e sem pessoal especializado em número suficiente, não nos devemos admirar que a situação tenha atingido o ponto de ruptura.
O que sobra?
Os hospitais privados, para onde muitos dos médicos do SNS se transferiram em part-time, a existência de um seguro médico, sem o qual não se é atendido nestes hospitais e o pagamento de diárias que atingem dois salários mínimos nacionais.
Bem podem os responsáveis da tutela apregoar que o planeamento foi feito, mas que as condições anormais explicam o caos existente.
A verdade é que esta situação, já de si grave, piorou de forma dramática nos últimos anos. A causa deve ser procurada no programa de austeridade imposto pela Troika, que quis à viva força reduzir nas despesas da saúde, como se o economicismo fosse critério, neste sector fundamental.
Os resultados - catastróficos - estão à vista e nada nos garante que os indicadores conhecidos não venham a piorar, agora que as previsões climatéricas se mantêm e os meios para pagar a saúde deixaram de existir. Tens dinheiro ou seguro de saúde, vais para um hospital privado, sem filas de espera; não tens dinheiro e dependes do Serviço Nacional de Saúde, ficas à porta e morres no corredor.
Uma vergonha sem nome, um governo que trata desta forma os seus cidadãos.
 
 

terça-feira, janeiro 13, 2015

Cinema Bioscoop

Decorre em Lisboa, entre 15 e 18 de Janeiro, a 3ª edição do festival Cinema Bioscoop, mostra anual de obras cinematográficas em língua neerlandesa. A programação deste ano, inclui um total de 24 títulos, entre obras de ficção, documentários e curta-metragens, que serão exibidas nos cinemas S. Jorge, na Cinemateca e nas instalações da Associação José Afonso, em Lisboa.
Entre as obras seleccionadas, destaque para os filmes "Matterhorn" do realizador holandês Diedrick Ebbinge, que abrirá oficialmente o festival, "Violet" do belga Bas Devos (premiado em Berlim), "Tweesprongs" do Bert Hana e "Een Pak Slaag" de Bert Haanstra, histórico realizador holandês, a quem será dedicado um pequeno ciclo na Cinemateca, que inclui os documentários "Spiegel van Holland", "De Stem van het Water", "Muiderkring Herleeft" e "Alleman".
Outro dos homenageados, nesta edição, será o documentarista holandês Kees Hin, com os filmes "Goedemorgen Toekomst" e "The Match" (na Cinemateca) e o filme "De Volharding" (Persistência), um documentário sobre a orquestra do mesmo nome, conhecida das suas interpretações de José Afonso e dos arranjos musicais de Amílcar Vasques Dias (que estará igualmente presente na sessão).  Este último evento, decorrerá no dia 15, nas instalações da Associação José Afonso em Lisboa que, desta forma, se associa ao festival deste ano.
Para além dos filmes, está prevista uma mesa-redonda, com a participação dos realizadores Bert Hana e Kees Hin (Holanda) e Wouter Bouvijn e Wannes Destoop (Bélgica), convidados especiais deste ano; uma instalação, preparada para o evento pela artista plástica, residente na Holanda, Cristina Guerreiro e uma palestra, sobre a "questão neerlandesa",  da autoria de David Bracke.
A abertura do festival terá lugar no cinema S. Jorge, no próximo dia 16, pelas 21h.00. 
Todas as informações sobre Cinema Bioscoop podem ser obtidas nas salas S. Jorge, Cinemateca e Associação José Afonso, ou directamente através do ticketline (bilhetes).