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sexta-feira, junho 24, 2016

O Euro 2016 e o Brexit

Se tivesse participado na votação sobre o Brexit ter-me-ia provavelmente abstido.
Explico-me: considero a pergunta formulada incorrecta e traiçoeira. Não sabemos, de facto, não sabemos nós ou o povo britânico, se o voto de ontem foi um sim à saída desta União Europeia ou ao projecto de "União Europeia". 
Se foi um voto contra a existência de uma união europeia ou se foi um voto contra a direcção deste projecto, contra ou a favor do rumo que ele tomou. O mesmo se passa com o voto não. Ao votar sim ou não nenhuma pergunta política crucial sobre o futuro da Europa fica respondida.
As distinções não são meros jogos de palavras.
Se a pergunta tivesse sido claramente "concorda com o projecto europeu?" ou "acha que o RU deve participar num projecto europeu?" creio que as leituras teriam sido bem diferentes. Take it or leave it é uma fórmula estúpida, incapaz de garantir a resposta inequívoca que todos pretendiam ou temiam.
Neste sentido não se percebe bem a tristeza de uns e a alegria de outros. A reacção dos partidos de ultra direita europeus mereceria uma outra reflexão, mais alongada. Interrogo-me, para já, sobre as causas da sua alegria. Sofreram uma derrota, por que riem tanto?
Não acredito que os ingleses que votaram pela saída estejam todos contra o projecto europeu. Como também não acredito que os que votaram pela permanência sejam totalmente a favor desta direcção de cariz fascista. Assim sendo, estamos perante uma questão falsa, perante falsos dilemas e continua tudo em aberto.
A votação de ontem não esclareceu nada nem foi uma opção por um mal menor. As alternativas em cima da mesa eram enganadoras. O Brexit é um imenso logro. Nem os ingleses se livraram da UE nem nós nos livrámos dos ingleses. Os problemas vão continuar, para eles e para nós. Ao contrário do que ontem disse Juncker "out will never be out". Por que razão foi in, para começar? O que é que mudou?
O debate segue dentro de momentos. Os ingleses, como os portugueses e todos os outros povos europeus, têm ainda muito para aprender com todo este processo.
O projecto europeu é, se calhar, o projecto mais progressista neste momento no mundo e constitui, talvez, o modelo mais avançado, mais capaz de dar resposta aos desafios da Humanidade no século XXI. Mais susceptível de servir de exemplo aos outros povos. Não há, diria até, outro.
A Europa não é um jogo da fase de grupos em que quem não passa regressa a casa e quem passa segue para os oitavos de final.

Europa 2.0



O Reino Unido disse não a esta Europa, incapaz de demonstrar e valorizar claramente os seus méritos e de mostrar vontade de resolver o seu problema de total falta de democraticidade. Vamos ver se a moda não pega...
Para já, trata-se de uma derrota pesada para os burocratas e para a troika, eles que pareciam tão firmes neste seu comportamento protofascista. É um alívio para os restantes que vêem a Europa encaminhar-se, sem apelo nem agravo, para o ambiente de horror, cujo espectro a levou, justamente, a criar a Comunidade.
Boa!
Gritava há pouco D. Cohn-Bendit que a Europa não é um brinquedo. Junker avisava ontem, por seu turno, que "out is out". Juncker, por exemplo, é "out". Ainda não percebeu.
Vamos então levar isto a sério, finalmente?

quarta-feira, junho 22, 2016

Encruzilhada Europeia


Na semana de todas as decisões, continuam a faltar soluções à Europa.
As medidas financeiras, anunciadas por Draghi, mostram-se insuficientes para relançar uma economia em crise desde 2009; a crise dos refugiados não desapareceu e foi oportunisticamente "entregue" à Turquia, sem que exista qualquer estratégia subjacente; os movimentos nacionalistas não páram de crescer, continuando a alimentar a xenofobia e o ódio contra as populações imigrantes, eternos "bodes expiatórios" das crises sociais; as dívidas soberanas continuam a estrangular e a impedir a recuperação das economias mais frágeis, como a de Portugal e a da Grécia, enquanto os movimentos independentistas e anti-partidos continuam a ganhar adeptos em Espanha e em Itália. Em França, os conflitos laborais tomaram conta do país, entretanto a braços com ameaças terroristas e com a organização do europeu de futebol, onde os acidentes com "hooligans" voltaram a ser notícia.
Veja-se o caso do Reino Unido, onde em vésperas do referendo, ainda não é certo se os britânicos ficam ou saem da União Europeia. Caso o "Brexit" ganhe, em que condições o farão? Abandonam todos os tratados, ou só alguns? E a Escócia? Manter-se-á no Reino Unido, ou convocará um novo referendo, com vista a tornar-se independente e, dessa forma, poder manter-se na UE?
Se o Reino Unido permanecer na UE, quais as contrapartidas exigidas por Cameron? Exigirá a limitação da entrada de refugiados e emigrantes, cedendo às exigências dos movimentos nacionalistas e independentistas ingleses? Que estatuto passarão a ter os imigrantes da UE, que residem no Reino Unido? Quais as consequências para as centenas de milhares reformados ingleses, que vivem noutros países da União e mantêm regalias adquiridas no seu país de origem?
Questões maiores, que preocupam os directamente interessados e às quais o referendo não dá resposta, pois os votantes não sabem sequer quais as consequências da sua votação.
Em Espanha, a convocação de novas eleições não contribuiu para a clarificação política e tudo indica que a previsível vitória do Partido Popular, não trará uma maioria absoluta necessária para governar. Registe-se a subida da coligação Unidos-Podemos que ultrapassará o PSOE, mas que não será suficiente para formar governo. Como ninguém quer governar com Rajoy, o impasse parece ser total. No meio de tudo isto, os sentimentos nacionalistas da Catalunha não abrandaram e a contestação a Madrid é mais forte que nunca, pondo em perigo a unidade do país.
Resta Portugal. No fim deste mês, o Eurogrupo reunirá de novo para apreciar a questão do "déficit" (ainda acima dos 3%) e quais as eventuais sanções a aplicar, caso o governo recuse aplicar novas medidas de austeridade. As perspectivas são moderadamente optimistas, com o governo a subestimar as críticas e o perigo de sanções, e os eurocratas a manterem a ameaça, por incumprimento das medidas exigidas. No limite, Portugal pode perder apoios financeiros, que limitarão os investimentos numa economia que não cresce. Sem crescimento económico, não há riqueza e, sem riqueza, não há investimento, distribuição e pagamento da dívida...
A coisa não está fácil e nem o Ronaldo nos safa. Não só não marca golos, como atira microfones de jornalistas para dentro de água (!?). No meio desta desorientação colectiva, resta Fernando Santos, que ainda acredita em milagres e, à falta de melhor, continua a gritar: "não percam a cabeça!".

terça-feira, junho 21, 2016

Taxi Driver (8)



Então, para onde vamos?
- Para a Buraca, pelo Monsanto...
Vamos tentar, mas olhe que isto, hoje, está tudo "entupido".
- Às sexta-feiras, é sempre assim...
Vamos tentar. Talvez pelas Amoreiras.
- Então?
Não me parece. Vamos até lá cima e viramos para Campolide. Está de acordo?
- Parece-me bem...
Eu dantes, vivia em Campo de Ourique, mas agora mudei-me para a Amadora. É melhor e mais calmo. Já lá mora há muito tempo?
- Há uns anitos, sim...
Conhece o "Panças"? Vou lá comer muitas vezes.
- Nunca lá fui.
Vive ali ao pé e nunca lá foi?  Não sabe o que perde. O cozido aos domingos, é espectacular. Eu como sempre o mesmo: "piano". Por 14euros, uma dose, que dá para três...
- Sim, por alguma razão tem sempre filas à porta...
Eu gosto mais de comer em casa. Como o que quero e posso repetir...Agora vou para casa jantar. Só trabalho à noite, para evitar o trânsito.
- Faz muito bem. Mas, se calhar tem menos clientes, ou não?
Sim, mas ganho mais. Já tenho clientes e hóteis certos. 
- Isso rende mais?
Claro. Os turistas, principalmente os russos e os angolanos, querem é borga e "strip-tease"...
- Gastam muito?
Se gastam muito? Fortunas! Olhe uma vez levei um suiço que queria duas prostitutas no quarto. Deu 800euros às duas! As brasileiras estão ricas. Conheço uma que já comprou uma herdade no Brasil e diz que, daqui a um ano, volta para lá, porque já não precisa de fazer esta vida...
- E você? Gosta do que faz?
Não é mau, por uns tempos. Mas, eu não quero fazer isto toda a vida. Já fui rico e agora tenho de cuidar da família.
- Donde é?
De Angola. O meu pai é branco e foi para África nos anos sessenta. Era militar. Em 1974, tivemos de sair de lá e viemos para Portugal. Graças a ele, ainda puderam vir mais famílias. Éramos ricos, tinhamos fazendas, muitos empregados e cinco carros...
- Estou a perceber. Agora é um imigrante. Eu também estive emigrado...
Ah, sim? Onde?
- Na Holanda. Muitos anos.
Também lá trabalhei. Em Roterdão. Uma vez, saí daqui às 7h da manhã, para chegar lá antes das sete da manhã do dia seguinte. Tinha um encontro com uma namorada. Eu sabia que a discoteca estava aberta até às 7h e, quando lá cheguei, ela ainda estava à minha espera...Estive um ano na Holanda. Não gostei. As pessoas são muito distantes, está sempre frio e a comida era má. Só me dava com cabo-verdeanos. Comia sempre em casa de africanos. Podemos não ter dinheiro, mas damos sempre abrigo a estranhos. Na Europa, já não é assim. Nem em Portugal. Se não tiver dinheiro, não tem amigos...
- É verdade, as pessoas são mais individualistas. Mas, também tem a ver com o apoio que o estado dá aos cidadãos. E como é em Angola?
Em Angola, é tudo da família dos Santos. Quando ele morrer, a filha herda tudo...
- Eu sei, já é a mulher mais rica de África...
Pois é. E está a comprar Portugal inteiro. Qualquer dia manda no país...
- É pena não ser mais generosa com o povo angolano. Um país tão rico, dava para todos...
Temos tudo, mas a riqueza está nas mãos de meia-dúzia de famílias. E olhe que há muito dinheiro. Há dias andei uma noite inteira com um angolano. Fomos jantar, depois levei-o a um clube de alterne, pagou champagne àquelas gajas todas, fomos a um "strip-tease" e acabou tudo num hotel. Gastou para aí uns 8000euros numa noite! Disse-me que, se eu quizesse, podia ficar com uma das prostitutas...
- Devia ganhar bem, o homem...
É avaliador de diamantes e vem à Europa todos os meses. Depois, quando está em Lisboa, e quer sair à noite, telefona-me do hotel...
- Isso é que é uma vida...Bom, estamos a chegar. Isto, hoje, levou mais tempo que o costume...
Desculpe lá, mas o trânsito não ajudava. São 16euros.
- Então, até à próxima.
Até à próxima. E, já sabe, não se esqueça de ir ao "Panças"...




sábado, maio 07, 2016

Amnésias

As próteses dentárias de Hitler eram, ao que parece, feitas com ouro retirado dos dentes dos judeus assassinados nos campos de concentração. Este ouro terá sido obtido pelo seu dentista Hugo Blaschke. O dentista terá juntado cerca de 50 kg, que  valeriam qualquer coisa como 2 milhões e meio de dólares a preços de hoje.
Segundo informação de há dias, a Grécia voltou ao estado de recessão. Ou melhor, viu aprofundar-se o estado de recessão permanente em que vive desde há anos. Tudo isto é fruto do terceiro resgate, o último neste longo processo que Varoufakis classificou apropriadamente como terrorismo
Terrorismo que se reflecte agora numa dívida externa a subir para uns "himalaianos" 180% do PIB, em mais cortes na despesa pública, em mais cortes de salários e pensões, em mais despedimentos e num aumento recorde do desemprego. Depois de tudo o que se passou na Grécia, depois de tudo o que vimos e ouvimos... tudo ficou pior. Um site publicita a venda dos últimos bens públicos gregos ainda susceptíveis de serem colocados no prego. Um equipamento que se mantém em bom estado de funcionamento, um exemplar de património, a pechincha certa de ocasião, um activo do Estado, perfeito para conceder a um privado, um serviço rentável sem avarias, uma instalação pública bon-marché, levamos a casa. 
Uma espécie de OLX na lógica austeritária!
Tudo isto acontece depois de toda aquela tensão vivida há sensivelmente um ano, com o David Varoufakis a desafiar o Eurogrupo Golias. Um momento que culminou na saída do governo do desafiador ministro das finanças grego, depois de toda aquela barragem de contra-informação, que, por um momento breve, deixou os Europeus a pensar em Política. Lembram-se?
A Grécia deixou entretanto a agenda dos jornais, já não motiva encontros de fim de tarde ou de fim de semana de agitprop dos partidos das boas intenções e até está ausente das conversas de café dos que, volta não volta, se levantam do sofá da letargia política e resolvem parar para pensar, enquanto sorvem a bica.
Um dia destes, podemos acordar com um incêndio brutal à porta, maior que o de Fort McMurray, mas sem hipótese de sermos evacuados para lugar seguro. 
E de quem será a culpa?
Numa série chamada os "Segredos do Terceiro Reich", que passou recentemente na RTP 2 (onde colhi a informação sobre a dentadura dourada do Hilter), analisava-se a possibilidade do ditador sofrer de uma qualquer forma de doença mental.  "Foi bastante conveniente para os alemães, após a guerra, dizerem que Hitler era louco e nós não fomos responsáveis, ele não foi responsável, e assim se livrarem de culpas," afirmava o historiador Richard Evans, que acrescentava que "é importante ter em conta que ele era, para todos os efeitos, designadamente, os mais importantes e cruciais da sua actuação, perfeitamente são. Se a sua ideologia era racional, isso já era uma outra questão."
O historiador alemão Hans-Joachim Neumann observava na aludida série que "não houve guerra e os judeus não foram aniquilados por Hitler ser doente, mas porque a maioria dos alemães apoiou as suas decisões."
Evans concluía que "gostamos de pensar que alguém que cometeu tamanhas monstruosidades e tais crimes deve ser louco. Mas são outras e mais profundas as questões colocadas quando admitimos que ele não era louco."
A figura tão laboriosamente construída, o símbolo audio-visual tão facilmente identificável de Hitler, desapareceu. Em vez dele temos hoje inúmeros pequenos Hitlers, que tão pouco são loucos, mas cuja ideologia fede igualmente a irracionalidade. Hitlerzinhos inconspícuos, instalados no poder pela Democracia, como outrora o foi Hitler, com uma diferença: ao contrário do que aconteceu com o ditador do bigodinho e dos gestos ridículos, vão ter enorme dificuldade em destruir o mecanismo que os conduziu ao poder. Só esse mecanismo poderá incendiar o seu Reichtag. Hitlerzinhos suportados por uma propaganda que faria roerem-se de inveja os especialistas do Terceiro Reich, cerzida num subtil sistema de dependências que a todos parece condicionar e a todos ameaça destruir o futuro, seu e dos seus filhos. Mas que, para uma triste maioria, destes e dos seus filhos, parece não ser ainda motivo suficiente para renegar o apoio canino. 
A que bocas terá, entretanto, ido parar o ouro, o dos gregos e o nosso? 

segunda-feira, maio 02, 2016

Sem família

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A "crise dos refugiados" tem um lado que terá escapado à atenção de muitas pessoas. Escapou à minha certamente.
Há um grupo, em particular, que chega à Europa em número surpreendentemente elevado, constituído por crianças que viajam sem família. Pare por um momento e pense: crianças, sozinhas.
O assunto não é de hoje, mas parece-me importante trazê-lo aqui porque, se o número inicial de refugiados já era assustador e a percentagem de crianças era elevada, passados cinco anos, esse número continua, segundo informação recente, a crescer de forma dramática. Também o número de crianças sozinhas aumenta, naturalmente.
Um relatório da UNICEF fala no caso especial da Síria. Serão, desde o início da crise, 2,4 milhões de crianças refugiadas. À Alemanha teriam chegado, no ano passado, mais de mil crianças sem familiares. No final do ano passado teriam chegado já cerca de 17 000. À Suécia chegavam semanalmente cerca de 700 crianças desacompanhadas, por semana. Muitas destas crianças são vítimas dos traficantes, são conduzidas para a prostituição, todas deixaram a escola, todas são vítimas da desestruturação das suas famílias. Muito poucas terão um futuro "normal".
Imagine o leitor que decidia emigrar. Imagine que o fazia para procurar melhores condições económicas. Imagine a carga emocional que esse simples facto — em si, e, apesar de tudo, ditado por um motivo positivo — traria para a sua família.
Imagine agora que o fazia por viver num cenário de guerra. Imagine que o fazia levando consigo os seus filhos. Imagine que a guerra o separava da sua família. Imagine agora os seus filhos a fugirem sozinhos para um destino desconhecido. Talvez à sua procura. Apenas com a garantia de que não ver ter, jamais, um futuro "normal".
Mais um problema a somar ao das crianças sem documentos, nascidas de pais refugiados, consideradas, portanto, apátridas.
Se calhar, a imagem que acompanha este post (cujo autor não consegui identificar e a quem peço antecipadamente desculpa pelo eventual uso abusivo da imagem) parecer-lhe-á oportunista, porventura lamecha, quiçá mesmo demagógica.
Números da Unicef, apenas referentes ao ano passado, indicavam que entre os requerentes de asilo nas Europa, 214 000 eram crianças. Um em cada quatro não tinha família.
O Homem quer chegar a Alfa Centauro em menos de 50 anos. Para já, no ano de 2016, é assim. Sem fim à vista...

sábado, abril 30, 2016

Taxi Uber Alles

Então, para onde vamos?
- Para a Rua de S. Bento, mesmo lá no fim, ao pé do Parlamento...
Oh diabo, isso não vai dar...
- Pois, hoje está difícil... estava a ver que não conseguia táxi.
Não sei se conseguiremos lá entrar, mas vamos até ao largo do Rato e depois logo se vê...
- Até ao Rato, já é bom. Depois, desço o resto da rua de S. Bento a pé...
Isto, hoje, não há táxis para ninguém...
- Pois, já percebi, mas, afinal, explique-me lá o que é isso da Uber, pois nunca andei num carro dessa empresa.
 A Uber, é uma empresa ilegal, que não cumpre a lei e paga impostos na Holanda...
- Não cumpre a lei? Mas, isso é possível?
Claro... os carros não andam identificados, o senhor não pode mandar parar um na rua, mas se tiver uma aplicação no seu telemóvel, pode chamar um carro deles pelo telefone... eles mandam-lhe um carro particular, com chauffeur, mas sem taxímetro...
- Sem taxímetro? E como é que eu sei quanto devo pagar?
O preço é calculado em função da distância. Eles calculam o preço para si e comunicam quanto tem de pagar. Tem de fornecer o número do seu cartão de crédito e, depois, o valor da corrida, é-lhe retirado da conta bancária...
- Estou a ver... e passam facturas?
Só se o senhor quiser... mas, as facturas são electrónicas, em nome da sede da empresa, que é na América...
- Sim, já tinha percebido que era uma empresa americana, mas penso que, na Europa, a sede é na Holanda, certo?
Não, não, a empresa é americana e os impostos são pagos na Holanda...
- Então, qual a diferença entre um táxi normal e um táxi Uber?
A Uber diz que eles não são táxis normalizados, mas uma plataforma de serviços. Prestam serviços, entre os quais o transporte de passageiros.
- Para todos os efeitos, são vossos concorrentes...
Pois são, mas o problema não é a concorrência, é a diferença perante a lei.
- Então?
Para já, os carros deles são carros de "leasing" e não pagam os mesmo impostos de circulação. Depois, não estão identificados, os chauffeurs não pagam alvará e licença de táxi como nós, não têm taxímetro e não têm seguro de passageiros. Se têm um acidente, as companhias de seguro não pagam aos passageiros...
- Se é assim, isso é uma concorrência desleal...
Pois é, por isso é que os meus colegas estão em greve. Contra a discriminação de que somos alvo...
- Mas, eu oiço as pessoas dizerem que são bem tratadas pelos chauffeurs da Uber e que os carros deles são maiores, mais modernos e mais limpos...
Isso tudo, pode ser verdade, mas a lei é diferente... Aquilo é uma multinacional que não está sujeita às mesmas leis do mercado... Ora, isso é que está mal. Eles que cumpram a lei e que paguem os impostos em Portugal, como nós.
- Estou a perceber... então é quase como os "tuk-tuks", sem lei nem roque...
O senhor não me fale dos "tuk-tuks"... isso é uma praga... fazem o preço que querem, levam um preço por cabeça e as pessoas que querem no carro...se eu levar mais de 4 pessoas ou uma criança ao colo, sou logo multado... se fôr um carro da Uber ou um "tuk-tuk", pode levar 4 ou 5 pessoas, pedem 10euros por cabeça, para irem da Praça da Figueira ao Castelo e, quando chegam lá cima, são 50 euros no total. Se forem de táxi, são 5 euros pelo mesmo percurso.
- Mas, isso é uma "bagunça", completa. E, ninguém controla essas práticas?
Isso queremos nós. Mas, há dois anos que andamos nisto e nada se resolve...
- Mas, eu ouvi esta tarde, o presidente da Assembleia da República dizer que os recebeu e prometeu resolver a situação. Até criaram uma comissão para estudar o assunto... 
Está a ver? Mais uma Comissão para estudar o assunto. Para quê? Toda a gente sabe que, quando criam uma comissão é para adiar a solução. Não vão resolver nada, como é costume...
- Já estamos no Rato, veja lá se pode avançar...
Vamos até à Rua da Imprensa e depois tenho de deixá-lo lá. Já vi que está tudo barrado pela polícia.
- Bom, ficamos aqui, então. Obrigado pelas informações.

sexta-feira, abril 22, 2016

Outras Guerras



A história conta-se em poucas palavras:
Durante a guerra colonial em África (1961-1974) milhares de jovens portugueses sairam do país, por recusarem fazê-la. Uns, como objectores de consciência; outros como refractários; outros, ainda, como desertores do próprio exército. Se eram mobilizados , só lhes restava uma alternativa: sair de Portugal. Foi o que fizeram, de acordo com as estimativas, cerca de 100.000 jovens, enquanto a guerra durou.
Anos mais tarde, já depois do 25 de Abril, muitos destes (ex)exilados voltaram a encontrar-se, agora para encontros informais de confraternização, dentro e fora do país. Alguns nunca regressaram a Portugal, mas os laços de amizade e a militância política, construídas nesses anos, não desvaneceram.
Mais recentemente, os contactos tornaram-se formais e, num desses encontros, surgiu a ideia de dar corpo a um objecto que reunisse as memórias e os testemunhos dos "anos da brasa" que, nessa época, agitavam a Europa.
Um "parto" difícil, dado o intervalo temporal decorrido e a memória de quem viveu esses anos. Com a ajuda de documentação pessoal e de centros de documentação vários (Coimbra e Paris), chegámos a um primeiro "draft", do que poderia ser um documento de consulta. Estávamos em 2014 e o mais difícil estava ainda para vir.
Foram pedidos mais contributos e, quando todas as "datas-limite" (para a entrega de materiais) tinham sido ultrapassadas, decidimos dar por concluído o corpo principal da obra. Dado que as histórias necessitavam de ser contextualizadas para memória futura, pedimos a dois "compagnons de route" que escrevessem o prefácio e o posfácio. Já lhe podíamos chamar um livro, nessa altura. Estávamos em 2015 e ainda faltavam coisas tão importantes como conseguir dinheiro e uma editora, arranjar apoios, patrocínios e a distribuição do produto final. Escolhida a gráfica, passámos à encomenda, que ficaria pronta na primeira semana de Março deste ano.
Hoje, o livro está editado e começou a ser divulgado nas redes sociais e orgãos de comunicação habituais. As reacções não se fizeram esperar. Boas, más e péssimas, como é usual nestas coisas.
Nada que nos surpreenda.
Não é fácil "desmontar" 300 anos de Inquisição e 50 de ditadura fascista. São séculos de ignorância, medo, repressão e exploração desenfreada, dentro e fora do pais. Estas coisas pagam-se. É esta "herança" que explica muitos dos traumas actuais, quer relativamente à ditadura, quer relativamente à guerra colonial e à deserção, como é o caso.
De um modo geral, os portugueses preferem não enfrentar os seus medos, recusando a catarse que podia fazê-los cidadãos maiores. Dito de outro modo, os portugueses sairam do fascismo, mas o fascismo "não saiu" dos portugueses.
Este livro, não sendo a primeira obra sobre a temática é, certamente, um dos poucos a abordar o tema do "exílio de resistência", uma faceta relativamente desconhecida de muitos que viviam e vivem em Portugal.
Agora, está à disposição dos interessados, sejam os "companheiros de estrada", espalhados pela Europa nos anos sessenta e setenta, sejam os curiosos e investigadores destas coisas que, a partir de agora, passarão a ter ao seu dispôr um instrumento mais para relançar uma discussão que continua por fazer. Outros materiais já existem (lembramos o excelente documentário "Guerra ou Paz" de Rui Simões) estando já anunciado um colóquio sobre a "Deserção na Guerra Colonial",  uma iniciativa conjunta do CES de Coimbra e a UN de Lisboa, que terá lugar no próximo mês de Outubro.
E portanto, move-se...   

quarta-feira, abril 13, 2016

Objectivo: Alfa Centauri. Meios: uma Revolução!



As revoluções não vêm necessariamente acompanhadas por tiros e carnificinas. Se assim fosse estaríamos hoje no meio de uma e o mundo estaria a assistir a uma mudança radical. Não faltam tiros, mortos e selvajaria e, no entanto, em vez de crescer a esperança de que a revolução está em curso, cresce em muitos de nós, pelo contrário, um sentimento inexorável de desespero por vermos a necessária mudança cada vez mais improvável e as ferramentas para a alcançar cada vez mais impotentes.
A nova organização Breakthrough Initiatives aspira a alterar este estado de coisas.
Trata-se de um programa de "exploração científica e tecnológica, que se dirige às grandes questões da vida e do Universo. Estamos sós? Existem mundos habitáveis na nossa vizinhança galática? Podemos dar o grande salto para as estrelas E podemos nós pensar e agir juntos, como um único mundo dentro no seio do cosmos?"
Uma destas iniciativas é o Starshot.
Trata-se de um programa de 100 milhões de dólares de investigação e engenharia destinado a demosntrar a "proof of concept" de uma tecnologia nova que permite o voo espacial, ultra-leve e sem piloto, a uma velocidade que será de 20 % da velocidade dat luz, com um objectivo simples: atingir Alfa Centauro em menos de meio século. Os meios: novos métodos de propulsão que aumentam dramaticamente a capacidade de vencer grandes distâncias. Porquê? Porque, como dizem os promotores desta Breakthrough Initiatives "uma civilização madura, como um indivíduo maduro, tem de fazer esta pergunta: será que a Humanidade se define pelas suas divisões, os seus problemas, as suas necessidades passageiras e tendências? Ou será que temos um rosto partilhado, virado para fora, para o Universo?"
O que a Starshot promete é uma revolução. Quem sabe, a Revolução!
O que a Starshot propõe é o método de a levar por diante e os meios para a operar.
O que podemos fazer é esperar ou participar.
Ouça e veja o video acima. Para além da descrição que os diversos participantes fazem do que vai ser esta inciativa, dos seus meios e das suas etapas, é para a intervenção da astronauta Mae Jamison, uma das várias personalidades que está nas base da criação deste Breakthrough Initiatives que sugiro que dirija a sua atenção. 
Estou certo que depois de ouvir esta intervenção, depois de ultrapassar a candura desarmante com que reflecte sobre as consequências desta inciativa, vai ser possível perceber por que razão estamos perante uma Revolução sem precedentes.

terça-feira, abril 05, 2016

O filme

Cometeram um erro aqueles que votaram no professor Marcelo. As razões começam a tornar-se claras.
Num primeiro momento o actual PR surpreendeu-me, surpreendeu-nos, com um discurso apaziguador, bonacheirão e com uma postura mais descontraída que a do seu antecessor. Ilusão!
Para provar que não há motivos para surpresas ouçam-se as suas declarações de hoje, a propósito dos chamados Panama Papers. Falou em "fragilidades das democracias" e referiu que as revelações que estão a causar tanta agitação constituem "más notícias" para os defensores da liberdade.
É estranho porque, na minha opinião, ele deu um contributo decisivo, durante anos e de várias formas, para fragilizar a democracia portuguesa. Não conheço os dotes pedagógicos do professor.  Na minha própria prática pedagógica procuro seguir o princípio de que é meu dever fornecer aos alunos pistas para que possam pensar por si. Está assim proscrito do meu arsenal pedagógico a injeção gratuita de matéria e, sobretudo, a transmissão de ideias pré-fabricadas, com a consequente formatação ou condicionamento de uma capacidade autónoma de resposta.
Pelo pouco que percebi da intervenção pública do actual Presidente da República, foi o que ele fez durante anos, sem quartel. Isso sim, essa formatação do pensamento é que fragiliza a democracia. Cidadãos que não sabem pensar e que se apoiaram na homilia dominical para formar o seu comportamento cívico e político não podem construir uma democracia forte. Foi a prática do actual Presidente da República durante décadas. O seu contributo para fragilizar a democracia que temos foi, assim, decisivo.
Enalteceu o papel da imprensa na denúncia destes casos, mas creio que não será complicado demonstrar que a imprensa, no seu conjunto, é um dos agentes que mais desgraçadamente contribui para fragilizar a democracia. Citem-me um órgão de informação que mereça algum crédito! Marcelo sabe-o, de resto, bem.
Uma democracia fragilizada enfraquece a liberdade. Liberdade enfraquecida é má notícia para a democracia.
O projecionista enganou-se e colocou a bobine no projector ao contrário. E Marcelo veio contar mal o filme...

sexta-feira, abril 01, 2016

O Fardo do Homem Branco


O voto de condenação do julgamento dos jovens angolanos, apresentado pelo BE e pelo PS na Assembleia da República, chumbou devido à votação maioritária do PSD, CDS e PCP.  Nada que nos deva espantar.
Se a posição dos partidos de direita, pode fazer algum sentido, atendendo aos negócios angolanos em Portugal (há quem lhe chame "realpolitik"), o voto do PCP é de todo oportunista, ao recusar a condenação do regime cleptocrata e corrupto que governa Angola.
Os deputados do PCP fazem lembrar o soldado japonês (Hiroo Onoda), encontrado nas Filipinas em 1974, que não sabia que a guerra tinha terminado. Enviado para a ilha de Lubang, em 1944, com a missão de defender as bases japonesas no arquipélago, e resistir o tempo que fosse necessário, refugiou-se na selva com uma vintena de militares, que recusaram entregar-se em 1945 e  desconheciam Hiroshima e Nagasaki. Posteriormente, alguns dos membros deste grupo morreram,  ou entregaram-se às forças filipinas e regressaram ao Japão. Só Onoda ficou.
Em 1974, um jovem estudante japonês encontrou-o na selva filipina e comunicou o facto ao antigo superior militar de Onoda, o major Yoshimi Taniguchi, entretanto reformado. Este dispôs-se ir às Filipinas e ordenar, formalmente, a Onoda para depôr as armas e regressar ao Japão, única forma de este aceitar a "rendição".
Aparentemente, o PCP ainda não percebeu que a "guerra fria" acabou em 1989 e que o MPLA de Eduardo dos Santos, já não é o mesmo de Agostinho Neto (pró-soviético), que lutou contra o colonialismo português e foi apoiado pelos comunistas portugueses.
A justificação para tal acto, foi mais uma vez, o estafado argumento da "não-ingerência nos assuntos internos de uma nação amiga e independente" que, como sabemos, serve para justificar tudo e o seu contrário, inclusive o cinismo.
Outra interpretação possível, é o complexo de culpa de um país colonialista em relação ao país colonizado, mais conhecido no jargão antropológico por "white's man burden", o fardo do homem branco.      


quinta-feira, março 24, 2016

O Holandês Voador


Vi-o tantas vezes jogar, que esqueci o número de partidas.
Lembro-me, isso sim, da primeira vez que o vi ao "vivo".
Eu tinha chegado a Amsterdão há pouco mais de dois anos e trabalhava numa companhia holandesa de seguros. Era Inverno e, além do frio, nevava copiosamente. Na semana anterior ao jogo, um dos colegas do escritório perguntou-me se eu não ia ver o Benfica, que tinha calhado em sorteio ao Ajax. Disse-lhe não ser essa a minha intenção, mas ele insistiu e comprou os bilhetes. Lá fomos, no dia 12 de Fevereiro de 1969, ao Estádio Olímpico de Amsterdão, lugar mítico para os portugueses, onde o Benfica tinha ganho a sua segunda taça de campeões europeus, em 1962. 
O Estádio Olímpico era, à época, descoberto e, nessa noite, a intempérie afastou muita gente do estádio. Recordo-me de estar duas horas de pé, ao frio e à neve, e de ficar completamente enregelado. Não me lembro dos pormenores do jogo, mas da exibição de dois jogadores naquela noite gelada: do Eusébio, já longe do seu período áureo, mas suficientemente perigoso para suscitar "ohs" de espanto de cada vez que pegava na bola; e do jovem Cruijff, em início de carreira, o grande ídolo do futebol holandês. Os portugueses ganharam (3-1), o que me valeu elogios de todos os colegas na manhã seguinte. Eu era o único estrangeiro da empresa, onde trabalhavam mais de cinquenta pessoas e, nesse dia, penso ter incarnado o "espírito" da pátria...
O deslumbramento duraria pouco. O Ajax ganharia em Lisboa a segunda-mão da eliminatória, pelo mesmo resultado, o que obrigou a um terceiro jogo em Paris. Com Cruijff em grande forma, a equipa holandesa derrotaria os "encarnados" por 3-0.
Nunca mais deixei de "seguir" o Johan que, a partir daí, passou a ser o meu ídolo local.
Os anos que seguiram, confirmaram o seu talento e o currículo está aí para prová-lo. Como jogador, como treinador e como pensador do futebol. No Ajax primeiro e no Barcelona mais tarde, não esquecendo a "laranja mecânica", a selecção holandesa que melhor praticou o "futebol total". Um génio do futebol, incomparável na sua forma de jogar e de influenciar o desporto que o tornaria famoso.
Partiu hoje, este holandês que "voou" acima dos seus pares, quem sabe na procura de voos mais largos.

quarta-feira, março 23, 2016

Double Standards


Os atentados de Bruxelas lembram-nos que o terror não abrandou, apesar dos sofisticados meios postos ao dispôr das polícias e serviços de informação internacionais. Uma realidade insofismável, à qual não podemos furtar-nos e que temos (todos) de enfrentar, única forma de manter a liberdade que alguns teimam em querer roubar-nos.
O método usado pelos terroristas não difere de outros atentados no passado em Madrid, Londres ou Paris, ainda que a sua autoria tenha sido reivindicada por organizações, aparentemente, diferentes (Al Qaeda e Daesh).
Em todos eles podemos reconhecer um padrão comum: a destabilização da vida quotidiana, através de actos de terror gratuitos, praticados indiscriminadamente contra cidadãos civis. Os locais são, por norma, frequentados por grande número de pessoas (transportes públicos, estações de caminhos de ferro, aeroportos) e em capitais de países directamente implicados nos conflitos militares do Médio-Oriente. Foi assim em Madrid e em Londres, nos atentados executados por células do Al Qaeda, como resposta à intervenção militar no Iraque (o que originou, posteriormente, a retirada das tropas espanholas do conflito); e foi, assim, de novo, em Paris e Bruxelas, nos atentados reivindicados por membros do Daesh, como resposta às intervenções europeias na Síria.
Ainda que o estafado argumento da "não-integração" de minorias estrangeiras estigmatizadas em Londres, Paris ou Bruxelas, não deva ser desprezado - como explicação para a adesão destes "desesperados" a uma causa fanática sem objectivos, onde a auto-imolação dos terroristas é, por norma, o desfecho frequente - a verdade é que o problema do terror (do "mal", como alguém lhe chamou) é bem mais complexo do que à primeira-vista poderá parecer.
Nas últimas vinte-e-quatro horas, temos assistimos a uma emissão "non-stop" de programas de televisão, onde os mais variados "experts" na matéria, dizem coisas tão banais como "enquanto for permitido entrar nos aeroportos sem sermos revistados, os terroristas não necessitam de passar o controlo de bagagem. Basta-lhes entrar com um carrinho de bagagem no hall de entrada...". O que é verdade, obviamente. E então? Passamos a controlar os passageiros na Grand-Place de Bruxelas?
A paranóia está instalada e este é o maior perigo. Destabilizar as sociedades ocidentais (uma vez que o terrorismo é, hoje, global) é o fim último destes grupos de "lobos" acossados, sem programa político, para além do ódio e da frustração.
Todos os "experts" disseram isto e disseram outra coisa ainda: a prevenção tem evitado males maiores, mas nunca evitará os atentados em si. Haverá sempre um momento de distracção (ou menos atenção) que pode ser fatal. Por outras palavras: é impossível tudo controlar, a menos que coloquemos um polícia ao lado de cada cidadão. Nem nos estados mais totalitários, isso é possível, como sabemos.
Ora, como não desejamos um estado totalitário (o desejo inconfessável dos fascistas de várias matizes), teremos de defender a liberdade conquistada, única forma de não permitir o aumento da repressão. No fundo, encontrar o equilíbrio entre segurança e a democracia, para que a primeira não nos faça perder a segunda.
Esta luta, que é de todos, passa, obviamente, por uma maior consciência dos interesses em jogo, que não acabam no bairro de Molenbeek. É necessário fazer rusgas e prender os suspeitos, chamem-se eles Hamid ou Van der Meulen. Os suspeitos existem ("o fascismo está em cada um de nós", dizia Deleuze), mas convém não isolar a árvore da floresta. Algures, numa cidade perto de si, os maiores "arautos da liberdade" clamam por mais uma guerra (formal), contra um exército de sombras. Na manhã de ontem, ouvimos, outra vez, François Hollande proclamar o seu "statement" favorito: "Estamos em guerra!". É verdade. Estamos em guerra. Não foi ele que vendeu os "Mirages" e continua a comprar petróleo aos "sheiks" da Arábia Saudita, o principal financiador do mesmo "Estado Islâmico" que pratica atentados em solo europeu?
Se querem combater eficazmente o terrorismo, comecem pelas suas fontes de financiamento. Deixem de vender armas às ditaduras árabes e impeçam a venda do petróleo controlado pelo Daesh, aos países que mais dele beneficiam (por exemplo, a Turquia). Não será a solução para todos os problemas, mas é, certamente, um passo na boa direcção.
 

quarta-feira, março 16, 2016

Quem condena quem?

A corrupção, que é endémica na sociedade brasileira (o país ocupa a 78ª posição no índice "transparency" da ONU), sempre existiu antes e durante o consulado do PT.
Lula, ao aceitar a nomeação para um cargo de super-ministro (mesmo que inocente das acusações que lhe são feitas), só fará aumentar as suspeitas existentes e não se libertará do cerco.
E isto é mau para a democracia.
O Brasil, como os restantes "BRICs", depois de uma década de crescimento económico sem paralelo na história, entrou numa crise profunda: social, económica, na inflação, no desemprego e, como sempre, na corrupção, que é hoje transversal a toda a sociedade.
Se Dilma for afastada por "impeachment", quem a vai substituir? O vice-presidente acusado, ele também, de corrupção? O presidente da Assembleia, o "maior" corrupto? E quem a vai julgar? Tribunais e juízes, provavelmente tão corruptos como os demais? Ou a polícia, conivente com o crime organizado, como é do conhecimento público?
Quem tem moral para condenar quem?
Este é, provavelmente, o maior dilema da sociedade brasileira, que deixou de acreditar em soluções democráticas. Ora, quando se deixa de acreditar nas instituições, abre-se caminho para outras "pulsações".
Estamos a assistir a uma situação, onde tudo se conjuga para a chamada "tempestade perfeita". Em tempo de crise moral e social, os apelos a soluções autoritárias, aumentam. É da história e já assistimos a este filme no passado.
Também eu quero acreditar, que o tempo dos "generais" já passou, mas o "populismo" (outra das características da América Latina) está ainda bem presente (ver países vizinhos onde a "democracia musculada" vai fazendo o seu caminho...)
As reacções da apelidada "classe média branca", vistas da Europa, parecem típicas de um grupo social descaracterizado e sem grande consciência social. Com medo do presente e sem alternativa política. Não se manifestavam há dois anos atrás, mas, agora, parecem ter todos "descoberto" a corrupção (!?). Uma fuga em frente?
Provavelmente, não sofrem tanto com a corrupção, como fazem crer (também eles beneficiam dos privilégios advindos das desigualdades, do racismo e da estratificação social existente naquele país).
Não tenho certezas. Temo o pior, mas quero acreditar que a democracia acabará por vencer.
Com eleições democráticas, claro. 

sexta-feira, março 11, 2016

Taxi Driver (6)

Boa noite. Então, para onde vamos?
- Buraca, se faz favor.
Importa-se que eu fume?
- Eu não, esteja à vontade...
Isto é um vício, sabe?...
- Deve ser. Não fumo, não posso avaliar. O meu médico diz que fumar, ou não fumar, é uma questão de inteligência.
Não me diga nada...
- Os vícios, são sempre difíceis de combater.
Mas, eu combato. Quando acabar esta corridinha, vou logo para o ginásio, fazer uns "push-ups".
- Faz bem, sempre elimina algumas toxinas.
Pois é. Sou doido por desporto. Todas as semanas, estou lá caído. E ainda faço "futsal", numa equipa das Olaias.
- Pelo menos não engorda. Agora só falta deixar o tabaco...
Não engordo, mas tenho de controlar-me. Cheguei a beber meio-litro por refeição, mais três ou quatro cervejas por dia, faça as contas...2 litros por dia, vezes 30 dias, são 60 litros por mês, vezes 12 meses, são mais de 700 litros por ano. Fora, as festas, as bebedeiras e os "cheirinhos"...nunca menos de 1000 litros por ano! Mil litros, é muito litro...
- Isso é capaz de ser muito, de facto. Tem de ter cuidado...
Eu sei, mas nesta profissão, já sabe como é...um "gajo" anda aqui sempre em "stress" e se, não compensa com outra coisa, não aguenta...
- Tem de beber menos e comer mais, se calhar...
Comer, não como muito, mas os doces...agora descobri umas sobremesas lá na "tasca" onde passo todos os dias e não resisto. Tem as melhores "mousses" de Lisboa. Com pedaços de chocolate puro e tudo! Dia que não coma duas "mousses", à sobremesa, não é dia...
- Cuidado com os diabetes...
Pois é, ando sempre a medir o colesterol por causa disso e estou sempre no ginásio. Um momento (toca o telefone). Está? És tu, pá? Agora não posso atender que vou levar um cliente e volto já para Lisboa. Depois, passo aí...eh pá, leva os "beefs" a uma cervejaria para eles beberem um copo e fazerem tempo. Daqui a meia-hora, vou ter contigo e levo-os ao clube...
- Não falta trabalho...
Pois não, o pior é que estava a pensar ir jogar "futsal" e já não vai dar tempo...tenho um grupo de "beefs" à espera, que querem ir a um clube de "strip", e nós temos percentagem pelos clientes que lá levamos. Não se pode perder...
- Claro, trabalho é trabalho...
Vamos ver se ainda consigo dar umas corridas, antes de levar os estrangeiros, porque depois faz-se muito tarde e nunca sabemos como acaba a noite.
- Estou a ver...isso é que é actividade!
Sou um doido por desporto. Até em casa, pratico. Tenho uma sala grande, onde instalei uma mesa de "pool". Convido os meus amigos e passamos lá fins-de-semana, inteiros, a jogar. Sou o melhor, pois pratico muito, mas às vezes tenho de os deixar ganhar, senão, nunca mais lá vão...agora descobri um professor estrangeiro, com uma academia em Portugal, que me tem dado umas lições. Tem manuais, com trabalhos de casa e tudo. Custa-me umas "massas", mas aprende-se muito.
- O "pool" é mais para descontrair, imagino...
Sim, sim, muito bom mesmo...no fundo, é a velha questão da "bola branca". Acertamos e pronto, a partir dali engatamos e mais ninguém joga...
- Estou a ver. Pelo menos, não se aborrece.
Eu? Nunca. No fundo, eu não sou taxista. Tenho é de ganhar algum. O meu projecto é tornar-me um bom jogador de "pool", montar uma academia e ensinar os outros. Passar os meus conhecimentos e, com isso, ganhar umas "massas", claro.
- Acho que faz muito bem. Chegámos.
São 7 euros e meio, certinhos. Boa-noite e obrigado pela companhia.

quinta-feira, março 10, 2016

Tempos de Circo...

Portugal tem um novo Presidente da República.
Aparentemente, começou um "novo ciclo", a expressão mais usada nas últimas vinte e quatro horas.
Uma coisa, parece certa: terminou o triste ciclo, inaugurado por Cavaco Silva, o pior presidente da democracia recente. Algo é algo.
Resta-nos aguardar pelo ciclo Marcelo que terá, à partida, cinco anos pela frente.
Sobre o novo presidente, já muito foi dito, antes e depois da sua nomeação. Sabemos que é um comunicador nato (quarenta anos semanais na imprensa escrita e televisiva, não passam despercebidos) e sabemos que, ideologicamente, é de direita e filiado no PSD, partido do qual foi secretário geral, na década de noventa. Da mesma forma, sabemos que é professor e constitucionalista de mérito, assim como sabemos ser um católico praticante, como ontem ficou, mais uma vez, demonstrado.
Se dúvidas houvesse sobre a sua personalidade e comportamento, os sinais dados neste primeiro dia, são inequívocos: o país assiste, entre surpreso e divertido, ao frenesim do novo presidente nestas horas em que ainda está em "estado de graça".
Relembramos: deslocação (a pé) para o Parlamento onde jurou a constituição e fez um discurso, suficientemente abrangente para agradar a gregos e troianos, após o que recebeu os cumprimentos habituais. Seguiu depois para os Jerónimos, onde depôs as flores da praxe nos túmulos de Camões e Gama. Almoço e visita "ecuménica" à mesquita de Lisboa, onde recebeu os cumprimentos dos representantes das confissões religiosas existentes em Portugal. À noite, mais cumprimentos no palácio da Ajuda e, finalmente, um concerto ao ar livre, oferecido aos lisboetas na companhia de dezenas de crianças convidadas para o efeito. Mariza cantou o hino e os restantes artistas fizeram a festa.
Hoje, a televisão ofereceu-nos um directo de Belém, que permitiu ver a sua apresentação formal aos funcionários do palácio (Obama fez escola) e, esta tarde, recebeu os representantes do corpo diplomático no palácio de Ajuda, em directo para a televisão, com a presença de alguns atletas e da inevitável...Mariza. É obra!
Está dado o mote: Marcelo, o "comunicador" nato, sabe lidar com os média e o frenesim não vai parar. Para a semana, estão anunciadas as duas primeiras visitas estatais, ao Vaticano (!?) e a Espanha (noblesse oblige).
Quem esperava um presidente mais sisudo e formalista, enganou-se. Quem esperava um presidente interventivo, vai ter de esperar mais tempo. Para já, o circo não tem faltado. Falta, ainda, o pão.
Uma coisa é certa: a partir de agora, nada será como dantes.        

sexta-feira, março 04, 2016

É a ética, estúpida!

Assisto a uma das muitas "opiniões públicas", em que a televisão portuguesa é pródiga, desta vez sobre a polémica relativa ao novo "job" da ex-ministra Maria Luís Albuquerque.
Como é habitual nestas "terapias de grupo", há opiniões para todos os gostos: os comentadores "encartados", que juram a pés juntos não saberem nada de leis, mas afirmam peremptoriamente não haver incompatibilidade com a função de deputada; os indignados do costume, que criticam toda esta promiscuidade a que vamos assistindo regularmente; e os conformados do costume, que dizem serem todos os políticos iguais, leia-se corruptos.
Assistimos, de facto, à degradação crescente de uma sociedade onde, apesar, de todos os progressos materiais, continuamos a ser confrontados com a mais despudorada falta de "sentido de estado" (o sempre citado "civil servant") categoria há muito arredada da política portuguesa recente.
Os portugueses em geral, mantêm-se enredados em "rodriguinhos" e assuntos de "lã caprina", sem qualquer relevância para a vida dos cidadãos (futebóis, dramas passionais de famosos, telenovelas, lixo televisivo, prisões de empresários futebolísticos...), enquanto os assuntos, verdadeiramente importantes para o nosso bem-estar quotidiano, continuam por resolver, sem que a "polis" se revolte indignada.
Nunca, como nos dias que correm, o conformismo, o laxismo e a promiscuidade, parecem ter descido tão baixo. O que devia ser fácil (criar uma lei de incompatibilidades entre funções de estado e interesses privados) é tido como uma dificuldade intransponível, com o argumento de que a "exclusividade" de cargos políticos, impediria, no futuro, de contratar os melhores para a função. Mas, se assim é, quem obriga os "civil servant" a fazer serviço público? Ninguém, como é óbvio. Todos lá estão (ou deviam estar) com essa missão: a de servir o povo, que os elegeu para o representar por um período determinado. Uma vez eleitos, só lhes resta cumprir (o melhor que souberem) a função de governantes ou deputados, como é o caso em notícia. Uma vez, este período cumprido, podem sempre optar pelo emprego que melhor sirva os seus interesses. Ninguém os impede.
Logo, uma deputada - que há 3 meses atrás ainda era ministra das finanças e nessa função negociou parte da dívida portuguesa com a empresa especuladora Arrows - não deveria, em tese, poder conciliar o seu cargo de deputada, com o de administradora dessa mesma empresa.
A própria lei de incompatibilidades o afirma, ao explicitar que (aos ex-governantes) se exige um período mínimo de 6 anos de nojo, antes de aceitar uma cargo de chefia numa administração de uma empresa com a qual teve relações institucionais. Claro como a água.
Não se percebe, por isso, as reacções das "virgens ofendidas" do costume, ouvidas a toda a hora e vindas de quem mais proveito tira deste regime de promiscuidade, que só pode interessar a quem não quer perder privilégios inerentes a quem governou o país.
É a ética, estúpida!

quarta-feira, março 02, 2016

I'll make you an offer you can't refuse...

O "episódio" do CCB é, apenas, mais um, na já longa série de nomeações por "compadrio" (familiar e partidário) que enxameia o aparelho de estado (leia-se, o Poder) em Portugal. Neste particular, o PS não difere do PSD. Vivemos numa partidocracia controlada por duas "famílias" políticas (PS e PSD) que, de há 40 anos a esta parte, dominam por completo o "spectrum" político português.
Independentemente das pessoas que são (ou não) nomeadas para os cargos, o que importa realçar é o regime de clientelismo larvar que existe em Portugal, um país subdesenvolvido em termos de cidadania, onde as pessoas continuam dependentes do patrocinato existente, segundo a velha fórmula "se votares em mim, arranjo-te um emprego".
O problema não são as nomeações, mas a forma como os "amigos" são colocados no aparelho de estado e lá ficam eternamente. Se querem nomear pessoas de "confiança", façam-no com transparência e limitem os mandatos às legislaturas, como nos EUA, onde os nomeados abandonam os cargos, após exercerem os seus mandatos. Nesse sentido, é completamente ridícula a argumentação da ex-ministra da cultura (Canavilhas) quando ontem veio justificar a decisão de João Soares, com a desculpa de Mega Ferreira (PS) também ter sido afastado do CCB, para lá colocar Vasco da Graça Moura (PSD). Como se uma nomeação partidária pudesse ser justificada por outra nomeação partidária (...se o PSD já fez, nós também podemos fazer...). 
Que dizer, então, da nomeação da filha de Ana Gomes para a direcção da EGEAC, da filha do ministro Vieira da Silva para secretária de estado, do filho de João Soares para assessor na CML, ou ainda da nomeação da (ex-deputada) Inês Medeiros para a direcção do INATEL?
E, agora ("cereja em cima do bolo"), a nomeação do "irmão" Summavielle para a presidência do CCB, como se a promiscuidade entre o estado e a maçonaria não fosse já suficiente...
Sim, Portugal é um país onde a corrupção campeia, a meritocracia não é reconhecida e o amiguismo e o "compadrio" continuam a fazer lei. Assim, não vamos lá.  

terça-feira, março 01, 2016

Taxi Driver (5)

Para onde vamos?
- Buraca
É melhor ir pelo Monsanto, não acha?
- Acho, mas teria de ter virado à direita e, agora, já é tarde...
Pois, não posso virar à esquerda no largo do Rato, mas a gente dá um jeito...
- O senhor é que sabe...
Eu não devia fazer isto, se a polícia me apanha...só me meto em trapalhadas, mas tenho de trabalhar. Não posso parar.
- Parar é morrer...
Tenho a carta apreendida e não posso conduzir durante três meses...
- Então?
A culpa foi minha. Fui ver o Benfica com uns amigos e depois fomos beber um copo. Tinha deixado o carro estacionado perto do terreno, onde o arrumo todas os dias, a menos de 100 metros do café. Quando saímos, já ia um bocado "entornado" e peguei no carro para ir ao parque de estacionamento. Logo por azar, a policia, que nunca anda por ali, mandou-me parar (deve ter desconfiado ao ver um gajo aos tombos a conduzir àquela hora da matina).
- Isso é azar, de facto. E depois?
Fizeram-me o "teste do balão" e acusou logo:1.47...tinha bebido bem, ganhámos ao Zenith...
- Estou a ver. O Benfica faz perder a cabeça a muita gente.
Paguei, logo ali, 300euros de multa, mas fiquei 3 meses sem carta e ainda tenho de fazer serviço cívico numa instituição durante 60 dias...
- É pá, essa foi a doer...
Não me diga nada. O pior é andar sem carta este tempo todo, pois tenho de trabalhar. Não posso parar, tenho mulher e filhos em casa.
- E se o apanham?
A "bófia" não costuma controlar os táxis. Tenho de arriscar. Faço-me esquecido. Já sei que daqui a um mês, mandam-me apresentar na esquadra e entregar a carta. Tenho de arranjar um bom advogado e ele consegue pedir adiamento da pena. Entretanto, já passaram 3 meses...
- Mas, um advogado bom, custa dinheiro...
É verdade, também tenho de ganhar para lhe pagar...mas, não tenho alternativa. Tenho de pagar as contas e, se não ganho, como vou manter a família?
- É difícil, assim. E o trabalho voluntário? Onde é que tem de fazê-lo?
Ah, isso é fácil. É à minha escolha. Já escolhi. Vou fazê-lo no Vitória F.C. que é lá no meu bairro. Como faço parte dos orgãos sociais, peço ao presidente para assinar a ficha e já está. Passo lá as noites, por isso não me importo nada.
- Estou a ver...não sabia que obrigavam os infractores a fazerem serviço voluntário...
Sim, sim, há muito tempo. Mas, isso é o menos. Já está resolvido. O problema é andar 3 meses sem a carta...Se me voltam a apanhar em falta, estou quilhado...
- E guia sempre à noite?
Não, costumo guiar de dia, Não gosto da noite, mas agora tenho de andar de dia e de noite. Sempre que possa, pois tenho de arranjar dinheiro. Como é que posso parar 3 meses?
- Mas isso é um grande risco. Além disso, se tiver um acidente, como é?
Também já pensei nisso. Vou sempre a uma velocidade baixa, até para não levantar suspeitas e ando por caminhos menos controlados. Este trajecto, pelo Monsanto, não é mau, até porque levo passageiros e normalmente a polícia não nos manda parar quando vê a luz acessa...
- Estou a ver. E quando o táxi não tem passageiros?
É a mesma coisa: acendo a luz e, se me mandarem parar, digo que fui chamado e tenho de ir buscar um cliente...
- Bem pensado. Bom, chegámos.
São 7,85euros. Obrigado pela companhia.
- Boa noite e boa sorte.

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Entre Bruxelas e Lisboa, vai o passo de um anão...


O Orçamento 2016 foi aprovado na generalidade. Segue-se, agora, a discussão na especialidade.
Após dois dias de intenso debate, a aprovação final - que não constituiu propriamente uma surpresa, dada a constituição da Assembleia da República - confirmou o caminho estreito e sinuoso que nos espera.
Será, agora, a execução do próprio Orçamento, a confirmar (ou não) as expectativas geradas.
O governo, numa antecipação do que poderá aí vir, já foi avisando que este não é Orçamento desejado, ainda que inclua algumas das premissas apresentadas na primeira versão discutida em Bruxelas. Sabemos assim, que esta versão, é um recuo em relação aos desejos governamentais e, por extensão, aos partidos de esquerda que o apoiam. Um mal menor, algures entre o desvarios dos últimos 4 anos e o Orçamento "ideal" que todos desejaríamos, mas que não será ainda possível.
Há um nítido avanço no campo dos direitos laborais, com recuperação das medidas de equidade necessárias à recuperação do poder de compra dos mais desfavorecidos e uma maior inclusão de mais de dois milhões de portugueses na sociedade. Estas são as medidas positivas e devem ser saudadas.
Depois, há um agravar dos impostos indirectos (combustíveis, automóveis, tabaco) o que, sendo compreensível, por serem os bens mais importados, irá necessariamente agravar o peso da despesa nas empresas e nos transportes públicos, como é inevitável.
Desta forma, o governo corre o risco de penalizar largos extratos sociais (a mítica classe média), dependentes da utilização do automóvel e dos transportes públicos no seu quotidiano (empregos, escolas, etc.). Esta é uma crítica pertinente da direita, ainda que se perceba a lógica de taxar os bens mais importados e, nessa medida, contribuir para a diminuição da despesa pública.
O governo fez as contas e provou, com números, ser a carga fiscal menor relativamente ao Orçamento do anterior governo. Por outras palavras, os portugueses irão pagar, globalmente, menos impostos este ano.
Independentemente dos ganhos e perdas neste Orçamento, nada mudará estruturalmente enquanto o peso da dívida continuar a sufocar a economia portuguesa. Com uma dívida pública de 220.000 milhões de euros (130% do PIB) e 8.500 milhões de juros a pagar em 2016, não parece fácil reduzir o déficit até 2,4%, conforme a exigência da Comissão Europeia. Sem um crescimento económico sólido (acima de 2,5%) e sem poder utilizar o saldo primário excedente (todo ele canalizado para o pagamento da dívida), o governo português não parece dispôr de margem suficiente para praticar as políticas sociais anunciadas.
Desta forma, a exigência da renegociação da dívida (defendida pelo BE e pelo PCP) ganha nova actualidade. Impedido de fazer as reformas estruturais anunciadas, o governo terá na dívida a "pedra de toque" desta legislatura. Também, por esse motivo, arrisca a sua própria sobrevivência. Bruxelas sabe isso e não facilitará a vida a Lisboa.
Agora que se tornou moda citar Sérgio Godinho, parece-nos actual relembrar uma das suas canções mais famosas: 
"Entre a rua e o país, vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis, vai o tiro de um canhão
e o trono é do charlatão".


Foto: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Simplex Revisitado



Manhã de Novembro, numa repartição de Finanças da baixa lisboeta:
- Faço parte de uma associação, recentemente constituida. Quero registar esta associação nas Finanças e abrir as respectivas actividades.
Funcionária 1 - Uma associação? Actividades? Que tipo de Associação? Tem aí algum  documento?
- Tenho os documentos seguintes: os estatutos da associação, o documento da inscrição na Conservatória do Registo Predial das Caldas da Rainha, a acta da sua constituição em AG (com a respectiva nomeação e assinatura dos membros dos corpos sociais), a abertura de uma conta bancária, os meus documentos na qualidade de tesoureiro e uma procuração do presidente, autenticada por um notário. É necessário mais alguma coisa?
Funcionária 1 - Deixe cá ver... hum, não sei se podemos fazer isto aqui. Ainda por cima uma "associação na hora", registada nas Caldas da Rainha...Um momento, vou perguntar à minha colega...
Funcionária 2 - Sim, podemos abrir as actividades, mas necessitamos de mais uma assinatura. No mínimo, são necessárias 3 pessoas. Tem aí mais algum documento?
- Não, pois de acordo com os nossos estatutos só são necessárias 2 assinaturas...
Funcionária 2 - Não, não...necessitamos de mais uma assinatura. Pode ser de qualquer membro dos corpos sociais. Por exemplo, do presidente do Conselho Fiscal...
- Mas, essa pessoa vive em Coimbra...
Funcionária 2 - Peça-lhe para enviar uma fotocópia do BI e, depois, volte cá. Entretanto, a minha colega tira fotocópias de toda a documentação e, quando voltar, já cá temos o processo...

Manhã de Dezembro, mesma repartição (outro funcionário)
- Faço parte de uma associação, recentemente constituida e estive cá há cerca de um mês, para registar a associação nas Finanças. Como, aparentemente, faltava uma assinatura, tive de pedi-la e trouxe uma fotocópia do BI da pessoa em causa...Penso que, agora, está tudo.
Funcionário - Deixe cá ver os estatutos. Quais são os objectivos da associação?
- Uma associação cultural, sem fins lucrativos...
Funcionário - Estou a ver. Nesse caso, não necessitam de pagar IVA nem de ter contabilidade organizada. Basta um registo de contabilidade simples, vulgo "livro de caixa", para "lançarem" os débitos e os créditos da associação. Se tiverem receitas, acima de 10.000euros/ano, têm de preencher uma declaração de impostos e pagar IVA.
- E posso abrir hoje as actividades nas Finanças? Tenho aqui uma procuração do presidente e a assinatura da pessoa que faltava. 
Funcionário - Pode, mas ainda tem dois meses para fazê-lo. Não necessita de três assinaturas, bastam duas e a procuração não serve para nada. O presidente tem de assinar este formulário, que lhe vou dar para preencher.
- Mas, não foi isso que as suas colegas me disseram em Novembro...
Funcionário - Pois, mas informaram-no mal. Quando tiver o formulário preenchido e assinado por dois responsáveis, pode entregá-lo em qualquer repartição das Finanças do país...

Manhã de Janeiro, mesma repartição (outro funcionário)
- Faço parte de uma associação, recentemente constituida e já cá estive, duas vezes, para abrir as actividades nas Finanças, mas não consegui, porque faltava sempre qualquer coisa. Um colega seu, entregou-nos este formulário para preencher e assiná-lo presencialmente. Estamos aqui, eu na qualidade de tesoureiro e o presidente da associação.
Funcionário - Ora deixe cá ver... pois, faltam aqui alguns dados... a associação tem proveitos?
- Não, só as quotas dos associados. Pensamos editar um livro, que será vendido posteriormente...
Funcionário - Estou a ver. As quotas não pagam imposto, pois são consideradas doações. Se venderem o livro, terão de pagar IVA, acima dos 10.000euros/ano. Quanto ao resto, parece-me bem, à excepção dos bens e transacções comunitárias... necessito de rever isto... os senhores vivem em Lisboa?
- Eu, por acaso não, mas estou perto...
Funcionário - Pois, eu podia preencher o resto do formulário, mas não quero cometer erros e dar-vos uma má informação. Se não se importam, deixam cá a documentação necessária e voltam amanhã, à mesma hora. Têm de tirar senha, mas não têm de esperar... basta fazer um sinal...
- Bem, nesse caso, até amanhã...

Manhã de Janeiro, mesma repartição (mesmo funcionário)
Funcionário - Avancem, avancem...
- E agora, está tudo bem?
Funcionário - Parece que sim... tive de esclarecer aqui umas questões com os meus colegas. Vão ter de pagar uma multa, pois este registo nas Finanças tinha de ser feito nos primeiros quinze dias após a constituição da associação...
- Ahn? A lei diz que temos 90 dias para fazê-lo e ainda falta uma semana...
Funcionário - Ah é? Pois, têm razão. É uma associação "criada na hora". Vou só buscar um carimbo e tirar cópias da documentação para os senhores...(Volta com as mãos sujas de tinta dos carimbos)... Nada funciona aqui... agora nem o "agrafador" (os agrafes revelam-se fracos para o tamanho da resma de papel). Tenho de ir buscar um agrafador mais forte...
- Isso, hoje, não está a correr bem...
Funcionário - Está a ver em que condições trabalhamos aqui? Nem material de qualidade nos dão.
- Têm de fazer exigências...
Funcionário - Precisamos é de criar uma associação...
- Isso, isso. E agora? Está tudo em ordem?
Funcionário - Agora está tudo bem. Tenham um bom dia...
  

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

As Grandes Manobras

Nunca um Orçamento de Estado desencadeou uma discussão tão profícua na sociedade portuguesa.
É extraordinário o afã das forças mais retógradas - da oposição parlamentar à "domesticada" comunicação social - em criticar os números do "draft" (esboço) apresentado pelo governo português a Bruxelas. Trata-se de um procedimento normal, à qual todos os países da UE estão sujeitos e que Portugal (ainda que com algum atraso) está a cumprir de acordo com os compromissos assumidos. A questão do "atraso", inclusive, explica-se pelo facto do anterior governo (PSD/CDS) não ter apresentado um Orçamento em tempo útil, devido à realização das eleições legislativas de Outubro. Dada a inexistência de um Orçamento e de um governo formal (saído das eleições) não era, de todo, possível apresentar o OE antes da constituição de um novo governo, o que só veio a verificar-se em finais de Novembro. Dois meses e alguns dias mais tarde, o actual governo apresentou o seu primeiro "esboço" à UE, que está, neste momento, a ser discutido em Bruxelas. Qual a surpresa?
A surpresa, reside no facto deste orçamento partir de pressupostos diferentes dos orçamentos anteriores, elaborados num período de crise financeira e de austeridade, imposta pela Troika, entre 2011 e 2014. Como é sabido, os resultados desse programa foram, na sua quase totalidade, desastrosos para a economia e para a população portuguesa e, com a excepção do "déficit", nenhum dos objectivos foi alcançados pelas políticas de austeridade levadas a cabo pelo governo anterior: houve perda do poder de compra, empobrecimento geral, desemprego generalizado, aumento da emigração, perda de apoios sociais e subsídios diversos, miséria absoluta para grandes extratos da população e fome declarada para milhares de crianças sem apoios parentais.
Uma vez no governo, é pois, natural, que o PS (no que é apoiado pelas forças de esquerda maioritárias no parlamento) quisesse inverter este ciclo de empobrecimento que, não só não conseguiu obter os resultados anunciados, como compromete o futuro do desenvolvimento do país para os próximos anos.
É com esta estratégia, que se compromete a reverter o ciclo de austeridade, que o orçamento foi elaborado e apresentado em Bruxelas: um orçamento que se propõe cumprir as obrigações de Portugal na Europa (pagamento das prestações da dívida soberana e "déficit" abaixo dos 3% nominais exigidos), ao mesmo tempo que prevê melhorar as condições sociais dos grupos mais atingidos pela austeridade (assalariados, pensionistas, famílias e grupos mais vulneráveis da sociedade), penalizando os salários e grupos (empresas) mais favorecidos.
É difícil, esta equação?
Com certeza. O governo necessita de cerca de 1000 milhões de euros para cobrir as despesas previstas e isso só será possível com um aumento do crescimento económico superior a 2,5% anual, quando a média da UE é inferior a 2% (ainda que, em Espanha, a economia esteja a crescer a 3,5%).
Ou seja, sem crescimento económico relevante, dificilmente o governo poderá satisfazer os seus compromissos, a menos que volte a penalizar (através de impostos) a classe média, tradicionalmente o grupo mais "sacrificado" em todas as projecções. A chamada "quadratura do círculo".
Uma coisa é certa: as críticas ao (esboço de) Orçamento, feitas pela direita portuguesa (no que é secundada pela comunicação social) e pela Comissão Europeia, não são técnicas, mas, fundamentalmente, políticas. Para a UE, Portugal não pode tornar-se um exemplo positivo para outros países (Espanha e Itália, por exemplo), pois isso seria comprometer o modelo económico e o "pensamento único" que, actualmente, domina a Europa, onde o capital financeiro controla o poder politico.
Este é, pois, o maior desafio que o governo de Costa enfrenta e sobre o qual não pode haver duas interpretações: ou, as negociações em Bruxelas, permitem ao governo defender o seu orçamento e aplicá-lo (ainda que com concessões) de acordo com as promessas eleitorais feitas há três meses; ou uma capitulação, nesta fase, poderá comprometer toda a estratégia concebida e tornar Portugal numa nova Grécia, o pesadelo de todos os democratas.

domingo, janeiro 24, 2016

Campanha alegre...

Ao meio-dia, tinham votado 15,8% dos recenseados portugueses. Fraquinho, fraquinho...
Há seis minutos, que estou a assistir em 6 canais (seis!) a uma entrevista de Marcelo Rebelo na mesa de voto de Celorico da Beira. De longe, o candidato que falou mais tempo e em mais canais em simultâneo. Em directo, nos telejornais das 13horas. Com mais de meio-dia para votar, se isto não é propaganda descarada, não sei o que é...

sábado, janeiro 23, 2016

Reflexão

Ao contrário da opinião generalizada, os dados não estão lançados, mesmo quando os media portugueses levaram o "candidato da televisão" ao colo.
Num país pouco dado a mobilizações e onde as taxas de abstenção rondam os 50%, não será diferente desta vez.
As razões para que tal suceda são, de resto, conhecidas: iliteracia generalizada, ignorância profunda sobre os verdadeiros problemas do país, admiração bacoca pelos símbolos do entretenimento a que temos direito e medo, "muito medo", do desconhecido. Ora, como bem sabemos, os povos (os portugueses não são excepção) são conservadores por natureza. Preferem votar no que já conhecem, a votarem na mudança. É natural. Há quem lhe chame "instinto de sobrevivência".
Acontece que, no quadro actual das relações do poder em Portugal, não há muitas escolhas, ou alternativas, possíveis: ou se vota no "status quo" - o modelo experimentado em Portugal nos últimos quatro anos; ou se arrisca mudar o modelo, com todos os riscos daí inerentes. Não se trata, sequer, de alterar o regime, porque esse parece de pedra e cal.
Um primeiro passo, frágil e arriscado é certo, foi tentado em Novembro que, de tão recente, não permite (ainda) extrair conclusões apressadas. O caminho é estreito, mas os sinais estão lá. Assim consigam os gestores da coisa pública, levar este barco a bom porto e muita coisa poderá mudar. Para melhor, espera-se.
Depois, há as presidenciais.
Ainda que não sejam eleições comparáveis e, muito menos, possam ser consideradas uma 2ª volta das legislativas, a recente campanha permitiu esclarecer algumas coisas importantes:
Desde logo, a emergência de dois ou três nomes, não totalmente desconhecidos, cujas propostas deixaram antever uma nova forma de fazer política, diferente daquela experimentada até agora. Depois, a clarificação, no campo da esquerda, de quem estava (ou não) verdadeiramente interessado na mudança. Nesse sentido, o surgimento de duas correntes distintas dentro do PS, foi clarificador e, nesse sentido, benéfico. Finalmente, a comprovação, à direita, que não é necessário uma máquina partidária oleada para eleger um candidato, pois, com os principais jornais e canais televisivos a apoiar, até "sabonetes se vendem". Numa sociedade de consumo, a publicidade, compensa.
Amanhã, saberemos, quem ganha. Ou melhor: amanhã, saberemos se há segunda volta ou não.
Em qualquer dos casos, só dois candidatos poderão passar à fase seguinte: Marcelo e Nóvoa.
Porque hoje, é "dia de reflexão" (uma lei completamente desactualizada na era digital), abstenho-me de dar a minha opinião.
Porque penso, e espero, haver uma 2ª volta, deixo já explícito qual será o meu candidato nessa altura: Sampaio da Nóvoa.