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quinta-feira, fevereiro 04, 2016

As Grandes Manobras

Nunca um Orçamento de Estado desencadeou uma discussão tão profícua na sociedade portuguesa.
É extraordinário o afã das forças mais retógradas - da oposição parlamentar à "domesticada" comunicação social - em criticar os números do "draft" (esboço) apresentado pelo governo português a Bruxelas. Trata-se de um procedimento normal, à qual todos os países da UE estão sujeitos e que Portugal (ainda que com algum atraso) está a cumprir de acordo com os compromissos assumidos. A questão do "atraso", inclusive, explica-se pelo facto do anterior governo (PSD/CDS) não ter apresentado um Orçamento em tempo útil, devido à realização das eleições legislativas de Outubro. Dada a inexistência de um Orçamento e de um governo formal (saído das eleições) não era, de todo, possível apresentar o OE antes da constituição de um novo governo, o que só veio a verificar-se em finais de Novembro. Dois meses e alguns dias mais tarde, o actual governo apresentou o seu primeiro "esboço" à UE, que está, neste momento, a ser discutido em Bruxelas. Qual a surpresa?
A surpresa, reside no facto deste orçamento partir de pressupostos diferentes dos orçamentos anteriores, elaborados num período de crise financeira e de austeridade, imposta pela Troika, entre 2011 e 2014. Como é sabido, os resultados desse programa foram, na sua quase totalidade, desastrosos para a economia e para a população portuguesa e, com a excepção do "déficit", nenhum dos objectivos foi alcançados pelas políticas de austeridade levadas a cabo pelo governo anterior: houve perda do poder de compra, empobrecimento geral, desemprego generalizado, aumento da emigração, perda de apoios sociais e subsídios diversos, miséria absoluta para grandes extratos da população e fome declarada para milhares de crianças sem apoios parentais.
Uma vez no governo, é pois, natural, que o PS (no que é apoiado pelas forças de esquerda maioritárias no parlamento) quisesse inverter este ciclo de empobrecimento que, não só não conseguiu obter os resultados anunciados, como compromete o futuro do desenvolvimento do país para os próximos anos.
É com esta estratégia, que se compromete a reverter o ciclo de austeridade, que o orçamento foi elaborado e apresentado em Bruxelas: um orçamento que se propõe cumprir as obrigações de Portugal na Europa (pagamento das prestações da dívida soberana e "déficit" abaixo dos 3% nominais exigidos), ao mesmo tempo que prevê melhorar as condições sociais dos grupos mais atingidos pela austeridade (assalariados, pensionistas, famílias e grupos mais vulneráveis da sociedade), penalizando os salários e grupos (empresas) mais favorecidos.
É difícil, esta equação?
Com certeza. O governo necessita de cerca de 1000 milhões de euros para cobrir as despesas previstas e isso só será possível com um aumento do crescimento económico superior a 2,5% anual, quando a média da UE é inferior a 2% (ainda que, em Espanha, a economia esteja a crescer a 3,5%).
Ou seja, sem crescimento económico relevante, dificilmente o governo poderá satisfazer os seus compromissos, a menos que volte a penalizar (através de impostos) a classe média, tradicionalmente o grupo mais "sacrificado" em todas as projecções. A chamada "quadratura do círculo".
Uma coisa é certa: as críticas ao (esboço de) Orçamento, feitas pela direita portuguesa (no que é secundada pela comunicação social) e pela Comissão Europeia, não são técnicas, mas, fundamentalmente, políticas. Para a UE, Portugal não pode tornar-se um exemplo positivo para outros países (Espanha e Itália, por exemplo), pois isso seria comprometer o modelo económico e o "pensamento único" que, actualmente, domina a Europa, onde o capital financeiro controla o poder politico.
Este é, pois, o maior desafio que o governo de Costa enfrenta e sobre o qual não pode haver duas interpretações: ou, as negociações em Bruxelas, permitem ao governo defender o seu orçamento e aplicá-lo (ainda que com concessões) de acordo com as promessas eleitorais feitas há três meses; ou uma capitulação, nesta fase, poderá comprometer toda a estratégia concebida e tornar Portugal numa nova Grécia, o pesadelo de todos os democratas.  

   
   
 

domingo, janeiro 24, 2016

Campanha alegre...

Ao meio-dia, tinham votado 15,8% dos recenseados portugueses. Fraquinho, fraquinho...
Há seis minutos, que estou a assistir em 6 canais (seis!) a uma entrevista de Marcelo Rebelo na mesa de voto de Celorico da Beira. De longe, o candidato que falou mais tempo e em mais canais em simultâneo. Em directo, nos telejornais das 13horas. Com mais de meio-dia para votar, se isto não é propaganda descarada, não sei o que é...

sábado, janeiro 23, 2016

Reflexão

Ao contrário da opinião generalizada, os dados não estão lançados, mesmo quando os media portugueses levaram o "candidato da televisão" ao colo.
Num país pouco dado a mobilizações e onde as taxas de abstenção rondam os 50%, não será diferente desta vez.
As razões para que tal suceda são, de resto, conhecidas: iliteracia generalizada, ignorância profunda sobre os verdadeiros problemas do país, admiração bacoca pelos símbolos do entretenimento a que temos direito e medo, "muito medo", do desconhecido. Ora, como bem sabemos, os povos (os portugueses não são excepção) são conservadores por natureza. Preferem votar no que já conhecem, a votarem na mudança. É natural. Há quem lhe chame "instinto de sobrevivência".
Acontece que, no quadro actual das relações do poder em Portugal, não há muitas escolhas, ou alternativas, possíveis: ou se vota no "status quo" - o modelo experimentado em Portugal nos últimos quatro anos; ou se arrisca mudar o modelo, com todos os riscos daí inerentes. Não se trata, sequer, de alterar o regime, porque esse parece de pedra e cal.
Um primeiro passo, frágil e arriscado é certo, foi tentado em Novembro que, de tão recente, não permite (ainda) extrair conclusões apressadas. O caminho é estreito, mas os sinais estão lá. Assim consigam os gestores da coisa pública, levar este barco a bom porto e muita coisa poderá mudar. Para melhor, espera-se.
Depois, há as presidenciais.
Ainda que não sejam eleições comparáveis e, muito menos, possam ser consideradas uma 2ª volta das legislativas, a recente campanha permitiu esclarecer algumas coisas importantes:
Desde logo, a emergência de dois ou três nomes, não totalmente desconhecidos, cujas propostas deixaram antever uma nova forma de fazer política, diferente daquela experimentada até agora. Depois, a clarificação, no campo da esquerda, de quem estava (ou não) verdadeiramente interessado na mudança. Nesse sentido, o surgimento de duas correntes distintas dentro do PS, foi clarificador e, nesse sentido, benéfico. Finalmente, a comprovação, à direita, que não é necessário uma máquina partidária oleada para eleger um candidato, pois, com os principais jornais e canais televisivos a apoiar, até "sabonetes se vendem". Numa sociedade de consumo, a publicidade, compensa.
Amanhã, saberemos, quem ganha. Ou melhor: amanhã, saberemos se há segunda volta ou não.
Em qualquer dos casos, só dois candidatos poderão passar à fase seguinte: Marcelo e Nóvoa.
Porque hoje, é "dia de reflexão" (uma lei completamente desactualizada na era digital), abstenho-me de dar a minha opinião.
Porque penso, e espero, haver uma 2ª volta, deixo já explícito qual será o meu candidato nessa altura: Sampaio da Nóvoa.

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Uma força matriz da Democracia


Há um aspecto particularmente relevante na eleição para a Presidência da República, que não tem sido devidamente valorizado. Tem, contudo, uma importância vital e um significado profundo. Refiro-me ao facto de, pela primeira vez na história da 3a República termos um candidato, a sério (não uma “lebre”, um boneco de ventríloquo ou os habituais fantoches que sempre aparecem nestas coisas para compor o ramalhete ou dar o toque de pantomima barata que julgam que ainda falta à vida política portuguesa), que não é oriundo das sacrossantas áreas castrense, do direito ou da economia. Sampaio da Nóvoa vem da área da pedagogia. Tem originalmente, pasme-se!, uma licenciatura em Teatro. O Teatro, seguramente uma força matriz da Democracia! E ousa afirmar que a Pedagogia e o Conhecimento são condicionantes e componentes vitais do nosso futuro.
Neste país de burros convertidos em “doutores”, a área de especialidade de Sampaio da Nóvoa é motivo de especulação. Fosse isto um país a sério e a causa a que ele dedicou a sua vida seria, não pretexto para insulto, mas motivo de enorme confiança. Fosse isto um país a sério e a dedicação que ele generosamente demonstrou à causa seria motivo de merecido e grato reconhecimento e nunca pretexto para ataques reles. Fosse isto um país a sério e a simples escolha dos temas Pedagogia e Conhecimento como causas maiores e necessárias de um magistério presidencial seria, isso sim, garantia antecipada de vitória. Fosse isto um país a sério e estaríamos a escolher entre, não um, mas dois ou mais candidatos de cujo programa constariam esses dois temas essenciais.
Há dois candidatos à eleição para Presidente da República de Portugal. Um uniu a Universidade e fez da Pedagogia e do Conhecimento bandeiras últimas da sua acção. Quer formar mais Portugueses capazes. Outro dá “aulas" numa espécie de loja dos 300 em formato HD, com promoções semanais e promessa de desconto em cartão. Quer formar mais imbecis, como se não bastassem os que cá temos.
Vamos ver se isto é um país a sério...
Mas não vamos desistir nunca de o transformar num país a sério.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Taxi Driver (4)

Para onde?
- Para a Buraca...
Vamos lá ver se arranjamos um trajecto rápido...
- O melhor é ir por Monsanto.
Já estou a ver que sabe o caminho. Isto à sexta-feira é mais difícil. Muito trânsito, ruas cheias de buracos...olhe, mais um!
- Os buracos tapam-se, o trânsito é mais difícil.
Não custava nada. Eu tenho lá um cilindro em casa e uma misturadora para o alcatrão. Vou escrever ao Presidente da Câmara e propôr-lhe o negócio...ele alugava-me a maquineta  e eu andava aí a tapar buracos...
- Ao Medina?
Esse...
- Boa. Cada vez que passava por um buraco...pimba!
Pimba! Essa é muito boa...acha que ele aceitava?
- Sei lá, alguns políticos aceitam tudo e o seu contrário...
Pois é...mas, agora, como não há eleições, não precisam de tapar os buracos...
- Agora, estão mais preocupados com a 2ª circular e as árvores que lá vão plantar. Dizem que é para melhorar o meio-ambiente.
Não acredite nisso. São boatos para distrair o pessoal. As pessoas andam cheias de "stress" e é preciso distraí-las com alguma coisa. Se quisessem melhorar o ambiente, proíbiam os carros no centro.
- Ou isso, ou taxá-los como em Londres...
Andamos a dizer isso há anos. Taxavam os carros e criavam corredores para os táxis e para os autocarros. Quem quisesse, deixava os carros fora das cidades e vinha de autocarro.
- Pois, mas os interesses dos automobilistas falam mais alto e, taxar os automóveis, faz perder votos...
Claro, essa é que é essa! Andamos aqui que nem cordeirinhos...os gajos querem é que a malta se porte bem. Que nem cordeirinhos...Isto já é um "big brother". Estamos como no "1984", amigo...
- O livro?
Sim, do George...o Orwell. Leu? E os "Diários" dele (onde escreve sobre os ovos que contava todos os dias na quinta?). As galinhas eram os soldados dele, percebe? Vem daí a ideia da quinta e dos porcos...
- Estou a ver. Os "Diários" (!?), não li. Foi um escritor premonitório. Já estamos em 1984, de facto. Ele e o Huxley...
O do "Admirável Mundo Novo"?
- Sim, esse mesmo. Ainda escreveu uma sequela (Regresso ao Admirável Mundo Novo), mas não era tão boa. O Orwell e o Huxley são dois clássicos. Estão entre os meus favoritos.
Esse segundo livro, não conheço, mas já vi que é cá dos meus...
- Pois, mas isso foi nos anos 30 e 40, do século passado. Agora, com a internet, já andamos todos controlados.
Ah, pois é. O meu patrão sabe sempre (se quiser, claro) onde está este táxi. Estou sempre debaixo de olho...
- Claro, é como os Iphones, estão encriptados e têm um chip que assinala a sua localização.
Todos têm. Os Iphones e os outros telemóveis. Foi assim que eles apanharam os terroristas...
- Claro, agora é mais fácil, vai tudo para a NSA.
Na América, não é? Vi há tempos um filme sobre isso. Aquilo é que é uma bizarma, han? São milhões e milhões de dados, que são todos vistos à lupa...
- Todos, não direi, mas podem sempre fazer uma pesquisa mais direccionada, através de palavras-chave, ou de pessoas suspeitas...
Não foi assim que apanharam o Bin-Laden?
- Bom, que eu saiba, ele não usava telemóvel...mas, de facto, a versão oficial conta que foi através do telemóvel do seu "pombo-correio", quando este foi interceptado no Paquistão.  Depois, foi só seguir o "pombo-correio"... 
Está a ver?
- Até há um filme sobre isso. Se está interessado na história...
Ah, sim? Como se chama?
- "00.30: hora negra", baseado num livro do Peter Berger, que entrevistou o Laden para a televisão.
Entrevistou-o? Antes ou depois "daquilo"?...
- Penso que antes. Deve ter sido em finais dos anos noventa.
Isso é que eu acho uma estupidez. Esses gajos são uns estúpidos...é como o narcotraficante mexicano que foi apanhado.
- O "El Chapo"?
Esse. São todos uns vaidosos. Querem mostrar-se e dar entrevistas e, depois, pumba!
- Pois, parece que foi através de uma entrevista que lhe fez o Sean Penn, um artista americano...
Esses gajos não prestam. O Craig é que é bom.
- O Craig?...
Sim, o Bond. Transportei-o aqui, neste táxi, aí onde o senhor vai sentado. Estava alojado num hotel em Alcântara e eu fui chamado ao hotel. Quando o vi, conheci-o logo: James Bond!
- É um Bond simpático...
Diz o senhor...
- Nos filmes, pelo menos. Não o conheço pessoalmente...
Ah, pois, se o conhecesse...
- Bom, chegámos.
São 7.50euros. Tive muito prazer em falar consigo. Como se chama?
- Rui...
O meu nome é João. Tome lá o meu cartão, quando precisar de um táxi, já sabe...

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Eleger (ou não) um trampolineiro

foto tvi24
A um dia e dois debates do fim desta primeira ronda de campanha eleitoral, os dados parecem estar lançados: Marcelo, o "comentador", será o candidato mais votado na primeira volta. Resta a dúvida, se haverá (ou não) uma segunda. Neste caso, quem será o adversário de Marcelo?
Depois de termos assistido à maioria dos debates, e excluíndo os sete candidatos com menos possibilidade de passarem à fase seguinte, fácil é concluir que Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, reúnem a preferência da maioria dos portugueses. Serão estes dois candidatos que, em princípio, poderão passar a uma segunda volta, caso Marcelo não consiga reunir uma maioria absoluta à primeira. O "comentador" sabe disso e terá todo o interesse em ganhar logo com mais de 50%, pois não é garantido que consiga aumentar a percentagem dos seus votos numa segunda volta. Também sabe que o candidato adversário poderá reunir a maioria dos votos dispersos nesta primeira fase e, nesse caso, ter mais votos do que Marcelo.
Esta é, neste momento a grande diferença destas eleições: Marcelo corre por si e Belém e Nóvoa, correm entre si.
Curiosamente, ou talvez não, a comunicação social portuguesa (controlada por 3 ou 4 grupos económicos) depois de ter levado Marcelo "ao colo" durante meses a fio, tem evitado publicar sondagens nesta fase dos debates, o que é susceptível de várias interpretações. Marcelo, incensado como o (virtual) vencedor destas presidenciais, desde o anúncio da sua candidatura, surgiu de tal forma destacado nas sondagens (chegaram a dar-lhe 52% à primeira volta) que, dificilmente, podia subir. Ora, como bem observou um comentador televisivo, quando se começa uma campanha com expectativas muito altas, a tendência é para descer. As pessoas inqueridas, conhecem Marcelo da televisão (onde foi visto, semanalmente, nos últimos 20 anos) e é natural que gostem do seu estilo de
conversador nato, que entre meia-dúzia de opiniões avulso, sobre política, futebol ou livros (não esquecendo as "ofertas" dos presuntos aos "pivots") fabricava factos políticos, dizendo tudo e o seu contrário, quando lhe convinha. Nestes seus "monólogos" semanais, nunca escondeu as suas preferências partidárias, chegando a imiscuir-se na linha política do PSD, partido do qual foi secretário-geral. Sem contraditório.
Acontece que, agora, é obrigado a debater com candidatos cultos e experientes no combate político, seja na área partidária (Maria de Belém, Marisa Matias, Edgar Silva), seja na área da cidadania independente (Sampaio da Nóvoa, Paulo Morais, Henrique Neto). E é aqui que o candidato comentador, habituado a dizer tudo e o seu contrário, foi obrigado a responder às questões centrais que preocupam os portugueses: as desigualdades na sociedade, as questões de género, as causas fracturantes, a dívida pública, a promiscuidade entre a política e os interesses económicos, a corrupção ou o Tratado Europeu.
Ontem, mais uma vez, confrontado com as contradições políticas apontadas por Nóvoa, irritou-se, perdeu a calma e chegou ao desplante de sugerir outro assunto, dizendo ao "pivot" de serviço (Clara de Sousa) que mudasse de tema (!?). Percebe-se: não está habituado a ser criticado e sempre impôs a agenda nas suas homílias dominicais. Agora, a arena política é outra. Marcelo, pela primeira vez nestes debates, teve um adversário à altura e foi obrigado vir a terreiro justificar-se pelas incongruências passadas. Vai ser assim, daqui para a frente. Nada será igual, nos quinze dias que faltam. A tendência na campanha poderá ter mudado ontem. O que parecia uma vitória indiscutível do "comentador", poderá vir a revelar-se uma surpresa para muitos. A começar por ele próprio.   
 

segunda-feira, janeiro 04, 2016

Taxi Driver (3)

Para onde é que vamos?
- Para a Buraca, sff...
Tem algum caminho preferido?
- Talvez pelo Monsanto, há menos semáforos...
Terminou mais um dia de trabalho, não?
- Não, já não trabalho, no sentido formal do termo...
Ah... reformado... Também gostaria de estar assim, agora sou taxista...
- Então?
Tive de agarrar o que havia... a minha empresa foi à falência e tive de arranjar um táxi. Tenho dois filhos para criar. Estão ambos na faculdade, um com 19 e outro com 22. Alguém tem de ganhar dinheiro. A minha mulher trabalha e, até ver, tenho de ser taxista...
- Pois, não deve ser fácil. Ainda para mais há muita concorrência nos táxis...
Concorrência? Isto são tudo "curiosos" que vêm aqui estragar o negócio dos outros. Está cheio de oportunistas.
- Não há controlo?
Controlo? Ando aqui há seis meses e nunca fui controlado. Ninguém controla nada neste país...
- Lá isso, também é verdade... Isto está bom é para os banqueiros...
Lá está, para os banqueiros e para os políticos que estão feitos com os banqueiros. Veja lá na América, se o Madoff não apanhou centenas de anos! Centenas de anos! Ou na Islândia... onde deixaram falir os bancos.
- Certo. Fizeram eles muito bem.
Cá, mandam os gajos para casa com pulseiras, como o gajo do BPN, que pôs os bens todos em nome da mulher. Mas, a culpa também é deste povo que aceita tudo. O meu pai sempre me disse que Portugal era um país muito pequenino e que não sabíamos cuidar de nós. Tivemos aquele século dos Descobrimentos e nunca mais... vivemos sempre à custa de alguém: das colónias, agora da Europa...
- Sim, somos pouco letrados e críticos...
Lá está. Esta gente nova não se interessa por nada...os meus filhos, se eu não fôr acordá-los de manhã ficam a dormir. O mais novo, quando eu, hoje, saí de casa ainda ficou na cama...
- Também têm a vida mais facilitada...
Lá em casa, não. O meu mais velho só teve computador aos 18 anos. Se queria trabalhar num, ia para o meu escritório. Não pago extravagâncias, como aqueles pais que mandam os filhos para Espanha, embebedar-se no fim do curso. Não há para mim, não há para eles. É igual para todos...
- Acho muito bem...
Eu também tive o primeiro carro aos 18 anos, mas o meu pai tinha posses e eu ajudava-o a arranjar carros na oficina. Fazia serões a limpar as peças todas...e hoje ando aqui, a fazer nem sei bem o quê...
- Ainda por cima com esta crise e a falta de dinheiro...
Falta de dinheiro? Tem visto os debates? Veja lá a corrupção que para aí há...começa logo pelos impostos no mesmo ramo de actividade: se você dormir num hotel de 5 estrelas paga 6% de IVA, mas se for a um restaurante em frente, paga 23%! Acha isto bem? Só defendem os grandes grupos económicos...
- Sim, essa afirmação é do Paulo Morais, que também disse que 30% da economia não pagava impostos.
Pois não! 30% ou mais! Já viu para que dava esse dinheiro?...
- Imagino...para pagar reformas, por exemplo...
Sim, eu acho que esse senhor tem razão, mas não devia candidatar-se a presidente da república. Devia ir para o Ministério Público...
- Também acho que faria um bom lugar no MP.
Mas, julga que esta gente vai votar nele? Vão todos votar no Marcelo, porque o conhecem da televisão. Uns broncos. A mim não me enganam, vou votar no reitor da universidade.
- No Nóvoa?
Nesse. Um homem culto e de confiança.
- Bom, chegámos.
São €9,75. Bom ano para si.
- Bom ano.


quinta-feira, dezembro 31, 2015

Filmes que valem a pena



E pronto, terminou mais um ano. O do calendário e o das efemérides. Também o ano dos acontecimentos, para lembrar e para esquecer. Para esquecer, já basta assim. Para lembrar, entre outras coisas boas, ficam os filmes, o sonho possível, que a realidade não se deixa sonhar.
Comparado com o ano anterior, 2015 não foi um ano de grande safra. Entre as dezenas de filmes vistos, alguns ficaram na retina que é, como quem diz, na memória. Eis os meus favoritos, ordenados cronologicamente, sem qualquer ordem de preferência:

  1. PASOLINI de Abel Ferrara (2014)
  2. LEVIATÃ de Andrey Zvyagintsev (2014)
  3. O ÚLTIMO DOS INJUSTOS de Claude Lanzmann (2013)
  4. BIRDMAN de Alejandro G. Jñárritu (2014)
  5. O OLHAR DO SILÊNCIO de Joshua Oppenheimer (2014)
  6. REGRESSO A CASA de Zhang Yimou (2014)
  7. AS MIL E UMA NOITES de Miguel Gomes (2015)
  8. LISTEN TO ME MARLON de Stevan Riley  (2015)
  9. RIO CORGO de Maya Kosa e Sérgio Costa (2015)
10. MINHA MÃE de Nanni Moretti (2015)  

Para além dos filmes estreados, de assinalar as retrospectivas e os ciclos dedicados a Roberto Rosselini, Ingrid Bergman, Jacques Tati e  Krzysztof Kieslowsky, como os mais marcantes, num ano em que a Medeia e a Midas, uma vez mais, deram a ver bom cinema em Portugal.
2015 seria também o ano do desaparecimento de dois dos mais marcantes realizadores portugueses, Manoel de Oliveira e José Fonseca e Costa. O cinema português ficou mais pobre.
Resta desejar um bom ano - e melhores filmes - em 2016!


quarta-feira, dezembro 30, 2015

Casa Júlia

"Os agressores, raramente, são psicopatas. Não é esse o padrão mais comum. São, normalmente, homens criados em meios sociais de baixa educação, onde o papel da mulher continua a ser de submissão. Estamos a falar de uma questão cultural, ainda que a violência doméstica possa ter lugar em todos os estratos sociais, dos mais pobres e destruturados aos mais ricos e educados. Uma herança de uma sociedade patriarcal e machista, como é a sociedade  portuguesa". As palavras são da representante da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta)  no dia em que a comunicação social anunciava mais uma vítima de violência doméstica: a 29º em 2015. De acordo com o relatório anual da mesma organização, entre 1 de Janeiro e 20 de Novembro, outras 33 mulheres foram vítimas de tentativa de homicídio. Em 2014, 35 mulheres foram assassinadas por ex-maridos, companheiros ou namorados. Outras sete mulheres foram assassinadas por outros familiares.
Uma verdadeira chaga social e civilizacional, que nos devia envergonhar a todos.
Para combatê-la, foram criados programas, organizações e pontos de apoio (casas de abrigo), onde podem ser denunciadas (e protegidas) as vítimas deste verdadeiro flagelo nacional.
Uma delas, é a "Casa Júlia", situada numa esquadra policial de Lisboa, baptizada com o nome de uma destas mulheres, morta nessa mesma rua.
Os contactos escritos, para informações ou denúncias, podem ser feitos através do endereço de mail: <casajulia.lisboa@psp.pt> ou, telefonicamente, através dos números: 214161147 e 214161148.
Denunciar a violência doméstica é um dever moral e cívico em qualquer sociedade.               

terça-feira, dezembro 29, 2015

Urgente

A Jovem e a Morte, de Marianne Stokes

É urgente remodelar as urgências dos hospitais, que não funcionam, quando mais urgentes são os seus serviços. A recente morte do jovem de Santarém, por falta de assistência atempada no tratamento de um AVC, veio despoletar uma discussão velha de anos, agora divulgada pelo relato dos familiares, sem o qual não teríamos sabido a existência de mais quatro casos semelhantes. Ontem mesmo, um novo caso, agora no hospital de Faro, provocou a sexta morte (!?) por falta de assistência a uma vítima de AVC nas urgências, o que excede toda e qualquer tolerância para este tipo de procedimentos.
Invocam-se os cortes verificados na saúde, devido à austeridade financeira a que Portugal está sujeito, como explicação para a falta de médicos nos fins-de-semana. É certamente uma explicação contabilística, que não resolve o problema de saúde dos cidadãos, que têm direito constitucional (SNS) a serem tratados, independentemente de terem posses financeiras, ou não. Em última análise, se os hospitais públicos não estão apetrechados para determinado tipo de intervenções (as operações de doentes, que sofreram um AVC, implicam uma equipa de cirurgiões especializados), devem existir escalas nos principais hospitais nacionais (privados inclusive) que permitam, de forma rotativa e satisfatória, operar doentes em risco de vida iminente. A filosofia só pode ser uma: salvar a vida primeiro e exigir o pagamento depois.
Por outro lado, e não sejamos ingénuos, as lacunas do incensado Serviço Nacional de Saúde, já vêm de longe e não começaram com a chegada da Troika a Portugal. O desmantelamento progressivo de apoios intermediários e unidades hospitalares no interior do país, é uma tendência da última década e iniciou-se com as aberrantes decisões do ministro de saúde de então (Correia de Campos), cujo afã para encerrar serviços, obrigou dezenas de portuguesas irem ter os filhos a clínicas espanholas. Alguém imagina uma cidadã espanhola vir a Portugal ter os seus filhos, por falta de apoios no seu país?
Eu próprio, fui testemunha da falta de meios humanos em diversos hospitais da periferia de Lisboa, nomeadamente durante a noite e nos fins-de-semana. No Hospital Amadora-Sintra, por exemplo. Por alguma razão, as urgências nesse hospital registaram, no ano passado, tempos de espera de 17 e mais horas (!?), o que pode revelar-se fatal, como é o caso de um AVC, com sequelas para a vida.
Não basta, por isso, pedir a demissão, como fizeram os principais responsáveis pela saúde da região de Lisboa. Por muito nobre que o gesto pareça, a causa desta inoperância é estrutural e tem de ser assumida pelos governantes em gestão. O sistema existente não funciona, os meios humanos são reduzidos, os médicos queixam-se de não serem chamados aos fins-de-semana por falta de verbas e os doentes têm de esperar mais de 48horas, antes de serem atendidos. Para seis desses pacientes, a espera foi fatal. E é isto que não pode acontecer. Nunca mais.
Esperemos que o partido do novo governo, responsável pela criação do Serviço Nacional de Saúde, motivo de orgulho de todos nós, saiba extrair as lições desta catástrofe. É urgente tratar das urgências.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Salvam-se os bancos, pagam os contribuintes

Menos de um mês após a instalação do governo PS (com apoio dos partidos à sua esquerda) surge a primeira divisão entre os partidos da coligação governamental. Na origem, a urgência de votar um Orçamento Rectificativo, necessário para justificar o dinheiro investido no banco Banif. Nada que deva espantar, conhecidos que eram os contornos da falência anunciada deste banco, com maioria de capitais do estado, gerido por privados. Os repetidos alertas e pedidos de intervenção (8!) junto das autoridades europeias de supervisão, não chegaram para encontrar uma solução atempada que previa a integração do Banif na Caixa Geral de Depósitos e, dessa forma, evitar uma falência, aparentemente, desnecessária. Agora é tarde e, para evitar males maiores, o governo PS decidiu vender o Banif ao banco Santander, que apresentou a melhor proposta (150 milhões). Salvam-se os depositantes, os aforradores e (para já) os funcionários do banco falido, mas pagam os contribuintes, que verão os seus impostos aumentados em mais de 3 mil milhões de euros (375 por português). Um mal menor, nas palavras do ministro de finanças...
Percebem-se melhor, agora, as reservas de António Costa durante as conversações com Passos Coelho, após as eleições de Outubro. Nessa altura, as conversações foram interrompidas por falta de transparência nas contas públicas. Aparentemente, o governo cessante teria omitido o "buraco" do Banif, para não comprometer o défice de 3% prometido a Bruxelas.
Sabemos agora que, nem o banco podia ser salvo, nem o défice de 3% será atingido.
Perante tal situação e obrigado a apresentar um Orçamento Provisório a Bruxelas, antes do fim-do-ano, o governo optou por fechar este dossier, com um mínimo de perdas. A decisão, que pode ser justificada pelas obrigações nacionais (depositantes, aforradores, credores e funcionários) e pelas obrigações internacionais (apresentação de um Orçamento na Europa), não pode agradar ao partido do governo e, ainda menos, aos partidos de esquerda que o apoiam.
A votação, esta tarde, reflectiu isso mesmo: o PS só podia votar a favor de um Orçamento Rectificativo, que apenas passou devido aos votos de abstenção do PSD. Coerentemente, o PCP, os Verdes e o Bloco de Esquerda, votaram contra.
Esperemos, que a lição, tenha sido apreendida de vez. Urge, agora, rectificar os procedimentos de supervisão e controlo do sistema bancário português, cuja crise estrutural e sistémica já levou à falência de 4 bancos (BPN, BPP, BES e BANIF) nos últimos 7 anos.
Nada justifica que continue a faltar dinheiro para as pessoas, enquanto há dinheiro para salvar os bancos.  

quarta-feira, novembro 25, 2015

Com a morte na alma...

O Presidente da República indicou António Costa como primeiro-ministro. Não indigitou, mas indicou. Este, como lhe competia, no mesmo dia (!), entregou-lhe a lista dos ministros escolhidos. Cavaco, não parece convencido. Terá com Costa mais uma conversa.
Falta alguma coisa?
Não sabemos. Com este Presidente, o "delay" é uma constante. Há quem pense que o homem é incompetente. Outros, que ele estará doente. Há quem ache ser apenas uma vingança mesquinha, por não suportar dar posse a um governo de esquerda, ainda por cima apoiado pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda. Tudo é possível.
Pessoalmente, penso que a falta de sentido de estado e de valores democratas, são os grandes defeitos deste presidente. Sempre pensei, de resto. Não é surpresa nenhuma. Esta "mise en-scene" era escusada e, só se compreende, vinda do mentor de uma política reaccionária e autoritária de anos, que não se importa de adiar o país, desde que a sua vontade prevaleça. Triste fim para uma carreira política que sempre se pautou pela mediocridade e pelo conservadorismo mais pacóvio.
Dito isto, a culpa não foi só dele. Foi de quem o apoiou e em quem ele sempre se apoiou, a começar pelos amigos, pelo partido a que pertence e pelos agentes económicos e financeiros deste país. As clientelas. Também dos seus votantes. Não foi ele eleito quatro vezes, sempre com maioria absoluta? Vinte anos da vida política do país, metade dos quarenta que leva esta democracia. Então?
Aparentemente, terminou um ciclo na vida política portuguesa. Um mau ciclo. Pior do que os últimos quatro anos, será difícil. "Avec la mort dans l'âme" (como diria Sartre), Cavaco vai ter de empossar Costa e o executivo por este indicado.
As tarefas, que esperam o novo governo, são enormes. Desde logo, internamente, quando todos sabemos que a economia não cresce o suficiente para pagar as despesas e a dívida pública continua a aumentar. Depois, externamente, quando sabemos que os "mercados" e os credores, serão agentes activos na destabilização deste governo de pendor socializante.
Resta a composição governamental, onde os "pesos pesados" e as "surpresas" se misturam, naquilo que pode ser considerado um governo de "experiência e juventude", sempre uma escolha pessoal do primeiro-ministro. Pesem algumas surpresas (cultura, defesa, educação, justiça...) o governo parece equilibrado. Pessoalmente, gostaria de ver todos os partidos, que assinaram este acordo,  representados no governo. Daria mais consistência ao executivo e responsabilizaria os seus co-autores. Não foi possível. Aparentemente, as diferenças são maiores que as convergências. É pena. Foi o que se pôde arranjar.
Resta desejar os melhores votos à governação que agora se inicia. Estaremos cá para apoiar e criticar, sempre que isso o justifique.     

terça-feira, novembro 24, 2015

Algo é algo...

Portugal tem um novo primeiro-ministro.
Depois de mais de cinquenta dias de audições, já não era sem tempo.
Algo é algo.

terça-feira, novembro 17, 2015

Da Hipocrisia

Foto Mint Press News


Sigo, como a maior parte das pessoas, as notícias sobre os atentados de Paris que, ao minuto, passam nos principais canais televisivos. As análises dos "experts" (poucos) e dos tudólogos (muitos) sucedem-se em catadupa. Passada a estupefacção e revolta iniciais, tentamos compreender as razões deste acto de terror gratuito, mais um, entre muitos, que se sucedem em todo o Mundo: Nova-York, Bali, Istambul, Madrid, Londres, Bombaim, Paris, Nigéria, Beirute, Bruxelas...
Aparentemente, todos estes actos, seguem um padrão semelhante, há muito tipificado pelos  estudiosos da matéria: puro terror, praticado por fundamentalistas psicopatas, sem qualquer objectivo relevante, que não seja provocar o medo e a insegurança. Através desta estratégia demente, crêem os seus autores poder destabilizar as sociedades democráticas, onde vivem e trabalham a maior parte das comunidades muçulmanas, esperando dessa forma um aumento da repressão por parte das autoridades desses países e a consequente revolta dessas mesmas comunidades, estigmatizadas devido aos actos dos fundamentalistas islâmicos. Porque, estes, não receiam a morte (praticam a auto-imolação), tornam-se mais perigosos e, por consequência, mais imprevisíveis. No fundo, é esse o verdadeiro terror, o medo do desconhecido. Relata-me uma amiga, a viver em Paris, que ontem, no metro, o silêncio era sepulcral. Os passageiros pareciam em estado de choque, olhando-se desconfiados e temerosos do que não podem controlar. Se esse for o estado de alma dos parisienses (e de outros cidadãos do Mundo) no futuro, podemos dizer que o terror ganhou. Voltarão os apelos aos líderes fortes e ao reforço das medidas autoritárias, sempre sugestivos em tempos de incerteza e insegurança, como aqueles que vivemos.
Perante tal cenário, não posso deixar de congratular-me com as medidas anunciadas pelo presidente Hollande, com a "pompa e a circunstância" que Versailles exige. Como deixar de aplaudir? Também os bombardeamentos executados pelos bombardeiros franceses na Síria, contra o quartel-geral do ISIS, me parece de louvar. Nem podia ser de outro modo. No meio de toda esta retórica, uma dúvida sistemática me assalta: mas, então, foi preciso um atentado destas proporções, para a França "descobrir" onde estava o "comando" do Estado Islâmico e bombardeá-lo? Porque não o fizeram antes? Porque esperaram para fazê-lo, agora que todos os argumentos jogavam a seu favor e a maior parte dos países europeus não hesitariam em apoiá-los?
Recordo os atentados contra o "Charlie-Hebdo", nesta mesma Paris, em Janeiro deste ano e a manifestação de líderes políticos de todo o Mundo, que marcharam de braço dado contra a barbárie. Muitos deles, ainda no poder, dirigem governos que continuam a vender armas a grupos terroristas que matam os cidadãos dos seus próprios países. A começar pela França que, ao apoiar os grupos "rebeldes" que combatem o regime de Assad, "alimenta" indirectamente grupos como o ISIS, responsável pelos atentados de Paris. Da mesma forma que a França, também os EUA, a China, a Russia, a  Inglaterra e a  Alemanha, vendem armas às ditaduras árabes (que apoiam os grupos terroristas) em troca de petróleo.
Sobre a hipocrisia destes políticos, e da política que praticam, estamos conversados.  

segunda-feira, novembro 09, 2015

Acabou a Tradição

Há dias assim...
Uma pessoa acorda, meio estremunhada, com um telefonema de parabéns, para descobrir que tem mais um ano. Nada de especial, não fora esta data, para além do primeiro dia do resto da nossa vida, ser também o primeiro dia do que resta do actual governo português. Dois em um, portanto.
Porque estas coisas andam todas ligadas, justifica-se a comemoração, a qual irá decorrer ao longo desta jornada: parlamentar, primeiro; lúdica, mais tarde.
Enquanto, na Assembleia, tudo parece decorrer de acordo com a "mise-en-scene" própria do momento, lembram-me os "mercados" que a Bolsa de Lisboa caíu hoje 3%, vá lá saber-se porquê...
Porque a História não se repete, vamos poder assistir a dois dias de apresentação do programa governamental, com o mais que provável "chumbo" por parte da oposição, agora maioritária no hemiciclo. Em si, um momento normal num regime parlamentar, que só espantará quem não está habituado a estas coisas da democracia.
Assim não parecem entender alguns "velhos do Restelo", acantonados, como sempre, num discurso tradicional e bafiento, a lembrar regimes de má memória, como aquele de que nos livrámos há quarenta anos. 
Não sabemos - ninguém sabe - que futuro terá um governo diferente. Especulações à parte, avaliar desde já (positiva ou negativamente) um ciclo, que se deseja novo, será sempre um exercício necessário, mas falho de experimentação, a qual terá de ser avaliada diariamente. É este o grande desafio, porventura o maior, neste difícil período da vida portuguesa.
Nada está ganho à partida e seria naíve pensar que tudo mudará, pela simples razão que outro poderá ser o governo. Mais importante do que os governos, são os regimes que os sustentam e nada prova que  o actual regime não esteja para durar. Logo, a margem de manobra será sempre curta. Desde já, em Portugal e, não menos importante, no espaço europeu no qual estamos inseridos. É nesta dualidade que o governo do futuro terá de actuar. Da sua capacidade e coesão interna, dependerá grandemente o seu sucesso governamental.
Lembramos: no passado dia 4 de Outubro, a maioria dos eleitores votou, inequivocamente, contra o modelo de austeridade levado a cabo nos últimos quatro anos. É tempo de mudar de políticas. Essa foi a mensagem e é com base neste pressuposto que os quatro partidos da esquerda parlamentar acordaram um programa de governo alternativo. Se, como se espera, o programa do governo actual, amanhã for chumbado, é altura de dar posse a um governo que, mais do que de alternância, seja essencialmente alternativo. Até porque, a tradição já não é o que era.    

domingo, novembro 08, 2015

Tautau

"Caíram as máscaras" é uma das frases mais fortes que li nestes últimos tempos, passo interessante neste processo de extinção do regime instituído pelo golpe de 25 de novembro. Passos Coelho, o epítome do mascarado, vai ficar, em curta nota de rodapé da História, como o homem que colocou o ponto final neste período.
Aparentemente surpreendidos, mas claramente embaraçados, num primeiro tempo até nos mais experimentados dos mascarados se notou um indisfarçável esgar de pânico. 
Momentaneamente recompostos, os mascarados tentam agora apanhar e recolocar as máscaras caídas. Mas é aqui que surge a surpresa.
Comentadores, actuais e ex-governantes, moços de recado e jornalistas de turno tentam, em desespero e enquanto mostram finalmente o rosto, recolocar a máscara tombada.
Ouvimos coisas espantosas, ditas com enorme convicção, como esta, por exemplo, de que a coligação de esquerda, vá-se lá saber por que desígnio perverso, se fez para se apoderar do poder ou esta outra supreendente premonição, lançada em registo grave a lembrar um shaman em estado de transe, de que o governo que vai emanar do acordo de esquerda vai governar para as eleições. 
Ou seja, os mascarados tentam agora colocar as máscaras... nos seus adversários. São eles, eram eles, sempre foram eles, afinal, os mascarados! 
Obrigado por estes momentos de stand up comedy, obrigado por esta tentativa de amenizar e de dar um ar "normal" a tudo isto. 
Mas não se livram do tautau...

segunda-feira, novembro 02, 2015

DOC's (parte 3)



Terminou mais uma edição do DOC's, o melhor festival português de cinema documental, com o anúncio e entrega dos respectivos prémios. Nas categorias Portuguesa, Internacional e Favorito do Público, destaque para "Rio Corgo" (longa-metragem portuguesa) da dupla Maya Kosa e Sérgio Costa (já aqui referenciado); "Il Solengo", da dupla italiana Rigo de Righi e Matteo Zoppis e "Phil Mendrix" de Paulo Abreu. Outros filmes (duplamente) premiados, foram "Dead Slow Ahead" de Mauro Herce (Espanha) e "Talvez Deserto, Talvez Universo" de Karen Akerman e Miguel Seabra Vasconcelos.
Dos títulos acima referidos, vimos "Phil Mendrix", um biopic sobre o legendário Filipe Mendes, guitarrista actual dos "Ena Pá 2000!" e dos "Irmãos Catita", que passou pelos históricos "Chinchilas" e "Roxigénio", dos anos sessenta e setenta. Após uma estadia no Brasil, onde residiu durante a década de '80, Filipe regressou a Portugal, para reiniciar uma carreira única, agora "rebaptizado" de Phil Mendrix, em homenagem ao ícone Jimi Hendrix. Excelente documentário, tanto do ponto de vista técnico (som e imagem) como musical, recheado de episódios humorísticos, dignos desta personagem única no meio musical português.
"Talvez Deserto, Talvez Universo", relata o quotidiano de um grupo de doentes mentais, numa ala do Hospital Júlio de Matos, utilizando o método da observação-participativa, onde a descrição e o respeito, pelos personagens filmados, são notáveis. Óptima fotografia e enquadramentos, num preto e branco enevoado, a sublinhar a ténue fronteira entre loucura e normalidade.
Dos ciclos temáticos, "I don't throw bombs, I make films" (da famosa citação de Fassbinder), apresentava uma das melhores selecções desta Mostra.  Destaque para "El Proceso de Burgos" (Imanol Uribe), um extenso e bem documentado filme, sobre o célebre processo contra 9 membros da ETA, acusados da morte do Comissário da Brigada Político-Social de Guipúzcoa (País Basco) em 1968. Pesem os inúmeros pormenores do julgamento, contados por todos os implicados, o documentário peca pela extensão e repetição de detalhes, numa sucessão de "talking-heads", algo monótona. Bem mais interessante, seria a trilogia "Afsan's Long Day" (The Young Man was...) de Naeem Mohaiemen, uma reflexão sobre os anos tumultuosos do Bengla-Desh pós-1971, em contraponto com o chamado "Outono Alemão" e as espectaculares acções da "Armada Vermelha" japonesa, quando o terrorismo internacional era transversal a diversas zonas do globo.
No mesmo ciclo, destaque para dois filmes italianos, o excelente "Colpire al Cuore" (Gianni Amelio) sobre um jovem em crise, desconfiado das relações do pai com uma amiga acusada de terrorismo; e a curta-metragem "Hipóteses sobre a morte de G. Pinelli" (Elio Petri), onde são encenadas 3 versões da morte do anarquista Pinelli, acusado do atentado da Piazza Fontana (Dezembro de 1969) e que, segundo a versão policial, teria saltado da janela da esquadra, o que lhe provocou a morte. O caso, que se tornou emblemático, denuncia as práticas da polícia italiana e é igualmente relatado num dos melhores filmes deste ciclo, "A Orquestra Negra", sobre o "complot fascista" organizado com o apoio da CIA na Itália dos anos sessenta.
Ainda sobre a mesma problemática, dois filmes alemães históricos: o primeiro, "Deutschland im Herbst" (com Rainer Werner Fassbinder, Bernhard Sinkel, Edgar Reiz, Volker Schlondorff e Wolf Biermann e.o.), sobre os dias que se seguiram ao assassinato, em 1977,  de Hanns-Martin Schleyer, às mãos do grupo Baader-Meinhof. Imagens que correram Mundo, desde o enterro do presidente da confederação dos patrões alemães, até à prisão dos terroristas e ao posterior anúncio da sua morte (alegadamente por suicídio) na prisão de Stammheim. O filme, que termina com imagens do funeral dos três terroristas, encontrados mortos nas suas celas, tenta articular e explicar um sentido para esta estratégia de luta, que caracterizou a extrema-esquerda europeia nos anos setenta; o segundo, "Die Bleierne Zeit" (Margarethe von Trotta), é uma encenação da relação das irmãs Meinhof (Marianne e Julianne) personalidades antagónicas, que permanecem unidas até ao trágico desenlance na prisão de Stammheim, após o qual, Julianne (jornalista), toma conta do filho da irmã e inicia uma investigação sobre as causas da morte de Marianne. Dois clássicos a ver e rever, sobre um dos períodos mais conturbados da história europeia recente. O DOC's 15, acabou, mas os documentários continuam. 

P.S. Durante o Festival, fomos informados da morte do cineasta José Fonseca e Costa. Um desaparecimento, de algum modo anunciado, dado o estado de saúde do realizador nas últimas semanas. O cinema português perdeu uma referência e um autor de filmes marcantes, onde se destacam "O Recado", "Os Demónios de Alcácer-Quibir", "Kilas, o mau da fita", "Sem Sombra de Pecado", "Balada da Praia dos Cães", "Cinco Dias, Cinco Noites" e "A Mulher do Próximo". O cinema e, por extensão, a cultura portuguesa, estão de luto. A nossa homenagem.     


terça-feira, outubro 27, 2015

No DOC's, o documentário está vivo e recomenda-se



Bons filmes, na edição deste ano do DOC's, a montra por excelência do cinema documental internacional em Portugal.
Cinco dias e onze filmes depois, o balanço é francamente positivo, a confirmar as melhores expectativas. Depois do excelente "Bella e perduta", que inaugurou o festival, um fim-de-semana recheado de obras marcantes, entre as quais deve ser destacado o profundo e denso "Listen to me Marlon" (Stevan Riley), montado a partir de mais de 400 cassetes áudio, vídeos e DVDs, que Marlon Brando gravou ao longo de décadas. Um manancial de informações, sobre a personalidade do "maior actor da história do cinema", relatadas na primeira pessoa, onde se cruzam entrevistas, depoimentos, intimidades e excertos dos filmes "Um Eléctrico Chamado Desejo" "Julio César", "Há Lodo no Cais", "Guys and Dolls", "Mutiny on the Bounty","O Último Tango", "O Padrinho" ou "Apocalypse Now", a provar, como frisou Scorsese, que "no cinema, há um tempo antes e depois de Brando".
Interessantes, são os filmes portugueses "Portugal, um dia de cada vez"  e "Rio Corgo", respectivamente das duplas João Canijo/Anabela Moreira e Maya Kosa/Sérgio Costa, sobre o Portugal profundo (ambos os filmes foram rodados em Trás-os-Montes) que, de algum modo, podem ser completados com a trilogia "As mil e uma noites" de Gomes, actualmente em exibição no circuito comercial. Um país periférico, com pessoas magníficas, que nos remetem para uma realidade surreal, longe dos centros urbanos do litoral. Magníficas personagens, que os realizadores se limitam a acompanhar num quotidiano árduo, mas povoado de sonhos, traduzidos em imagens inesquecíveis. Bons filmes, a meio caminho entre o documentário e a ficção, num género que, a cada dia que passa, parece ganhar mais adeptos em Portugal.
Um dos documentários mais marcantes, integrado na retrospectiva "I don't Throw Bombs, I make films",  foi a longa metragem "L'Orchestre Noire" (Jean-Michel Meurice), uma reconstituição dos inquéritos, realizados ao longo de 20 anos sobre os atentados em Itália, nos fins dos anos '60, que levaram à acusação da extrema-esquerda naquele país. Uma colaboração entre serviços secretos italianos e a CIA, inspirada no golpe dos coronéis gregos de 1967. Não é fácil obter material sobre complots fascistas, documentados pelos seus próprios cérebros e executantes, mas o nível e a profundidade do inquérito jornalístico, levado a cabo neste filme, são arrepiantes. Uma lição a reter, agora que o golpe de estado institucional parece estar na moda na Grécia e em Portugal.     
Outra retrospectiva, merecedora de atenção, é dedicada a Zelimir Zilnik (Sérvia), do qual é exibida a obra integral. Desconhecido entre nós, Zilnik é autor de mais de 50 fimes, entre curtas e longas metragens documentais e ficção. A filmar desde os anos '60 do século passado, o realizador, nascido na ex-Yugoslávia de Tito é, provavelmente, o maior documentarista vivo dos Balcãs. Vimos, até agora, 4 dos seus filmes: uma curta metragem a preto e branco sobre folclore local, um filme de ficção-científica sobre o "socialismo" Titista e dois filmes de uma trilogia, cuja personagem principal é Kenedi Hasan, um cigano bósnio expulso da Alemanha que procura integrar-se e ajudar outros ex-emigrantes nos subúrbios de Belgrado. Docu-dramas, filmados com as vísceras, a roçar o "cinema verité" dos anos sessenta e setenta, quando o cinema era maior que a vida. O realizador está em Lisboa a acompanhar o ciclo e apresenta todos os filmes. Um personagem, Zilnik.
Perdido, entre dezenas de títulos, uma pequena preciosidade, "A Tragédia de um Homem Ridículo" de Bernardo Bertolluci. Datado de 1981, o filme relata o rapto do filho de um ex-partizan, industrial de queijo, com o fim de obter dinheiro para fins terroristas. Excelentes actuações de Tonazzi, Aimée e Morante, filmado na região de Parma, num colorido deslumbrante.
O Festival ainda vai a meio e o melhor está para vir...  

sexta-feira, outubro 23, 2015

O DOC's está de volta!



Teve ontem início e durará até ao próximo dia 1 de Novembro, a 13ª edição do "DOC's", a maior e mais importante Mostra de Cinema Documental em Portugal.
Da sessão de abertura, para além dos agradecimentos habituais e das palavras (auto) elogiosas dos organizadores, registamos a exibição do excelente filme "Bella e perduta", do jovem realizador Pietro Marcello, uma bela alegoria à Itália actual, onde os factos reais se confundem com personagens e imagens oníricas, que não desdenhariam uma fábula de La Fontaine.
Grande abertura, presenciada por uma assistência maioritariamente jovem (o futuro está aí), que não poupou aplausos durante e após a sessão.
O festival está de volta, com exibições em simultâneo nas salas da Culturgest, Cinema City (Campo Pequeno), S. Jorge, Cinemateca e Cinema Ideal, com exposições e projecções multimédia no Museu de Electricidade em Belém.
Na impossibilidade de citar o programa em detalhe, destacamos os filmes da Competição Internacional e da Competição Portuguesa (a concurso) e os habituais ciclos temáticos, este ano com os nomes sugestivos de "Riscos" (da responsabilidade de Manuel Augusto Seabra); a retrospectiva dedicada ao realizador Zelimir Zilnik (presente no festival com uma "master class"); a retrospectiva "I don't throw bombs, I make films - Terrorismo, Representação"; foco "Grécia"; "Heart Beat"; "Cinema de Urgência"; "Verdes Anos" e "Doc Alliance". São dezenas de grandes e pequenos filmes, documentários e docu-dramas, onde a realidade se confunde com a ficção, a maior parte em estreia absoluta no nosso país, que reflectem e enquadram os grandes temas da actualidade.
Porque as sessões são inúmeras e o tempo é escasso, só resta adquirir o livro-programa e comprar os bilhetes para as sessões respectivas, antes que esgotem. Estão avisados. O "DOC's" está de volta e o programa deste ano é um "must". Ver aqui.       

Qual a surpresa?

Cavaco Silva fez exactamente o que se esperava, mas excedeu-se nas suas considerações. 
Fez exactamente o que se esperava, ao indigitar Passos Coelho, líder do partido ganhador das ultimas eleições para formar governo. Pode discutir-se esta opção, mas não viola o espírito da Constituição e aceita-se do ponto de vista formal (o presidente convoca, normalmente, o líder do partido mais votado, tendo em conta a leitura que faz dos resultados eleitorais).
Excedeu-se nas suas considerações, ao criticar os partidos de esquerda (com maioria parlamentar) e sugerir que não viabilizaria um governo composto por forças políticas críticas da austeridade imposta por Bruxelas.
Com estas considerações, o presidente não só deixou de ser independente em relação às forças e aos projectos políticos em discussão - favorecendo descaradamente a força partidária (PSD) a que pertence - como criou uma crise institucional desnecessária, sabendo que um governo minoritário de direita tem os dias contados e cairá à primeira moção de confiança no Parlamento.
Perante esta situação de facto, restam apenas dois cenários possíveis:
Ou o presidente convida António Costa (líder do 2º partido mais votado) para formar governo; ou mantém um governo minoritário, em gestão corrente, sem qualquer hipótese de tomar decisões e aprovar oçamentos, provocando eleições antecipadas, que nunca poderão ter lugar antes de Junho de 2016. Ou seja, o país "pára" durante 8 meses!
Um imbróglio de todo o tamanho, provocado por um presidente teimoso, ideologicamente retrógado e destituído de qualquer autoridade moral para continuar em funções. Um personagem autoritário e salazarento, que recusa em aceitar os princípios básicos de uma democracia adulta.
Qual a surpresa? 

 

Lições

Aparentemente as instituições democráticas estão a funcionar. O Povo Português pronunciou-se nas eleições, os partidos negoceiam alternativas no quadro dos resultados eleitorais, o PR atribui, em cumprimento do seu papel constitucional, a incumbência de formar governo a quem, no seu entender, melhor poderá cumprir essa função. Se o entendimento das suas funções poderia ser outro, se o comportamento do PR se afigura mais ou menos distante do que imaginamos ser um comportamento digno e correcto, se a sua decisão poderia recair noutra figura, são questões cuja discussão deve ser feita, mas que não têm qualquer relevância para o funcionamento das instituições democráticas. Estas instituições têm rostos e foram sufragadas por sucessivas eleições. 
Cabe agora à AR pronunciar-se sobre a decisão presidencial, dando continuidade aos mecanismos democráticos consagrados na Constituição. É ela a bitola. 
E assim se completa o ciclo.
As lições que interessa verdadeiramente reter no rescaldo de todo este processo são, sobretudo, duas.
Em primeiro lugar, o que esperar para a Democracia portuguesa quando observamos o comportamento inqualificável dos sectores políticos, a quem foi justamente atribuída a missão de formar governo? Ouvindo-os, somos subitamente levados numa viagem ao passado, em que os donos do poder de então não se coibiam de amesquinhar, caluniar, denegrir, violentar e até matar quem a eles se opusesse. Só falta largar os cães e os canhões de água ou reconverter as salas da Rua António Maria Cardoso ou da Rua do Heroismo novamente em locais de tortura e morte. Deveria envergonhar qualquer democrata, de esquerda ou de direita, o tipo de argumentos que foi utilizado nestes últimos dias contra uma solução de esquerda para o Parlamento. Enquanto se comemorava alegremente a data simbólica do filme Back to the Future, em Portugal foi tempo de Back to the Past. 
A Democracia anda distraída. As velhas forças obscuras estão, imagine-se, bem vivas e prontas a atacar a qualquer momento. Parecem aguardar um pretexto apenas. O que o comportamento da direita nestes últimos dias nos vem provar é que, para ela, a Democracia não é um valor. Daí a soltar os jagunços vai um passo.
Em segundo lugar, pela mesma ordem de razões, nenhum verdadeiro democrata se poderá sentir isento de culpas por termos chegado a este ponto, após mais de 40 anos de regime democrático. Há diálogos que estão a falhar ou nem sequer foram encetados, mitos que estão por desmascarar, forças poderosas que estão por aniqulilar, a esquerda esqueceu as gerações que nasceram após o 25 de abril. 
A esquerda tem uma notória incapacidade de diálogo, colabora activamente na perpetuação de mitos inventados e perpetuados pela direita, esqueceu-se tragicamente de denunciar, sem medos nem ambiguidades, os crimes do fascismo aos mais novos, de lhes ensinar o que é a Democracia, e serve-se das mesmas forças que a manipulam e condicionam, seguindo porventura a velha ideia do "se não podes vencê-los". Um caso particularmente grave, que merece destaque, é o da imprensa. 
Não há uma imprensa de esquerda em Portugal. A esquerda, agentes políticos activos e sectores de da população que a dizem seguir, estão totalmente comprometidos com uma imprensa de que são vítimas. Fazem-na e consomem-na sem pudor. Portugal é hoje uma gigantesca realidade virtual, construída com a acção diligente de uns, que a fazem, e a complacência estúpida e criminosa de outros, que a consomem.
As "máscaras caíram", como li por aí. A isso deve seguir-se uma implacável limpeza de balneário. Há gente absolutamente indigna alapada na esquerda que, é o momento, tem que ser desmascarada sem piedade. Mas, mais importante, a alternativa de esquerda tem de ser vivida sem ambiguidades e sem alienação de responsabilidades. 
É um futuro diferente aquele pelo qual devemos lutar, não um passado maquilhado. 

quinta-feira, outubro 15, 2015

Os dados estão lançados?



Semana e meia após as eleições e apurados que estão os votos da emigração (4 deputados) sabemos, finalmente, como vai ser constituída a nova Assembleia da República:
Coligação PàF (PSD/CDS) 107 mandatos, correspondentes a 38,4% dos votos.
Esquerda Parlamentar (PS/BE/CDU/PAN) 123 mandatos, correspondentes a 52,16% dos votos.
Ou seja, a coligação PàF ganhou as eleições por ter sido o partido mais votado, mas arrisca-se a não poder governar, a menos que o presidente da república nomeie Passos Coelho para formar um governo minoritário; enquanto a esquerda parlamentar, apesar de ter a maioria dos votos, só poderá governar, caso os partidos que a compõem cheguem a um acordo programático e sejam convidados a formar governo pelo presidente da república.
Cenários:
1) Cavaco Silva convida Passos Coelho a formar governo (minoritário), sabendo de antemão que este terá pouco tempo de vida e que, muito provavelmente, cairá na próxima legislatura, obrigando a novas eleições, a menos que os votos da ala direita do PS viabilizem o OE.
2) Cavaco convida António Costa a formar governo (maioritário), com apoio dos partidos de esquerda, mas com a vida dificultada pelas pressões internas da ala direita do PS e das pressões externas da Europa.
Em qualquer dos cenários, a decisão está nas mãos do presidente que, em fim de mandato, deixará sempre para o seu sucessor o ónus da dissolução do parlamento e a convocação de novas eleições.  Vaticínio: sabendo não ser possível um governo de "inspiração presidencial" (leia-se "bloco central")  e sendo conhecidas as suas inclinações partidárias, fácil é concluir qual vai ser a escolha de Cavaco Silva:
a) Dificilmente nomeará um governo de esquerda
b) Provavelmente indigitará Passos Coelho como 1º ministro
c) Deixará a aprovação, ou o derrube do governo, nas mãos do parlamento. Dessa forma não trairá a direita (à qual pertence) e não será obrigado a dissolver o parlamento por já não ter poderes para tal. Essa missão caberá, daqui a seis meses, ao próximo presidente da república. Por essa altura, Cavaco, de consciência tranquila, estará provavelmente a gozar a sua reforma.
Who cares?

segunda-feira, outubro 05, 2015

E agora, António?

À excepção do crescimento exponencial do BE, os resultados destas eleições não surpreenderam.
A coligação governamental ganhou, mas sem maioria absoluta (como era esperado).
O PS perdeu ingloriamente (sem conseguir melhorar os resultados de Seguro).
A CDU, apesar de menos votos que o BE, aumentou a percentagem, cresceu em votos e em deputados, sendo agora o 4º partido na AR (o que pode indiciar o fim da "era" Jerónimo).
A entrada do PAN na AR, sendo interessante, não altera o equílibrio de forças no Parlamento. 
Posto isto, que conclusões (necessariamente provisórias) há que retirar?
Os portugueses, descrentes da política, voltaram a abster-se em percentagem significativa (43%) e, entre um mal (conhecido) e um futuro (desconhecido), optaram pela coligação governamental, ainda que esta tenha recebido menos 700.000 votos do que nas últimas eleições.
Para esta votação, terão contribuido diversos factores, entre os quais o "fantasma" da governação Sócrates, o efeito Syriza e alguns indicadores positivos, entre os quais o regresso de Portugal aos mercados e os juros da dívida aos níveis mais baixos de sempre.  
E agora?
Cenários possíveis:
1) Cavaco, impossibilitado de convocar eleições, irá convidar a Passos Coelho (PàF) a formar governo. Este não tem maioria absoluta no parlamento e não poderá governar em minoria, a menos que a oposição se abstenha.
2) Cavaco convida o 2º partido mais votado (PS) a formar governo. Costa, debilitado pela derrota, poderá tentar convencer os partidos à sua esquerda (BE e PCP) a apoiá-lo, mas dificilmente conseguirá, dadas as exigências de ambos os partidos.
3) O impasse pode eternizar-se, o que conduzirá, inevitavelmente, à convocação de novas eleições. Estas só poderão realizar-se, após a eleição do novo presidente da república (Janeiro de 2016) e nunca antes de Março...
Tudo ficou menos claro e a crise não acabou.
Caminhamos para uma situação à "grega", já que não é expectável que Costa viabilize um novo governo PSD/CDS e, menos ainda, que consiga entendimento à sua esquerda (BE/PCP).
De todos os partidos, o PS foi aquele que sofreu maior derrota. Será no interior desse partido que iremos assistir às maiores clivagens entre as facções existentes. É tudo menos certo que António Costa se mantenha como líder por muito mais tempo, pelo que será necessário um congresso clarificador, após as eleições presidenciais. Se Marcelo concorrer e ganhar, o PS poderá mesmo "implodir" e tornar-se uma espécie de PASOK à portuguesa.
Não está fácil a vida política portuguesa, mas entre o pântano actual e a incerteza futura, venha a clarificação.    

O filme que o PS não está a ver...


domingo, outubro 04, 2015

Apontamentos eleitorais

São 17h. e ligo a televisão na procura de informações actualizadas.
Num canal informativo, a par das notícias do dia, leio em roda-pé que, até às 16h. de hoje, teriam votado 44,38% dos recenseados (correspondente a mais de 4 milhões de portugueses). É bom, é mau? A notícia, em roda-pé, acrescenta que votaram mais 2,4% do que à mesma hora em 2011...
Apesar do mau tempo a Norte do Tejo, do caos nalgumas mesas de voto (MiraFlores, por exemplo), e dos jogos de futebol desta tarde, a vontade de participar não parece ter esmorecido entre os portugueses.
Algumas coisas, no entanto, parecem estranhas: amigos meus (emigrantes) que habitam na Holanda e estão registrados no mesmo endereço há dezenas de anos, não receberam este ano o boletim de voto. E agora?  Podem ainda votar? Como, se esta noite são já conhecidos os resultados?
E a "bagunça" (que ainda decorre neste momento) nas mesas de voto de MiraFlores, que levaram muitas pessoas a abandonarem o local? Dizem que é devido à alteração do nome e do número de novas freguesias, entretanto unificadas...mas, então, tiveram um ano para actualizar os cadernos e não conseguiram? Porquê? Na era da tecnologia, isto é assim tão difícil? Então, as Finanças não enviam avisos de cobrança a toda gente, mesmo àqueles que não têm dívidas? Se há deveres, tem de haver direitos, certo?
E esta coisa de manter os jogos de futebol, no dia de eleições? Não podiam ter antecipado os jogos todos para ontem?
Mas, agora somos todos parvos, ou quê?