2015/01/22

Não tens seguro, morres nas urgências!

O PR na inauguração do Hospital da Luz


O caos instalado nos serviços hospitalares atingiu, esta semana, uma situação sem paralelo na história recente do país.
Desde o início do ano, faleceram já 8 pessoas nas urgências, foram registradas mil mortes a mais (comparativamente ao mesmo período do ano passado) enquanto, na maior parte das urgências dos hospitais, os tempos de espera chegaram a atingir dez, quinze e vinte horas em média.
É isto normal?
Pesem as explicações avançadas pelos responsáveis de serviço (ministro e secretário de estado da saúde) relativamente ao Inverno rigoroso, ao aumento de doenças infecciosas entre os idosos e à falta de profissionais de saúde em número suficiente, a verdade é que estas coisas planificam-se e, se a organização do SNS já deixava a desejar antes da actual crise, é uma evidência que os serviços pioraram em toda a linha.
Desde logo, pelo encerramento de centros de saúde e serviços ambulatórios de proximidade, que permitiam, em casos menos graves, o tratamento imediato sem recorrer às urgências de um hospital. Depois, pela sub-dimensão dos próprios hospitais, claramente a "rebentar pelas costuras", como é o caso dos hospitais de Faro, Almada ou Amadora-Sintra (este projectado para 200.000 utentes e que hoje atende mais de 500.000/ano). Finalmente, a falta de profissionais de saúde (médicos e enfermeiros), provocada pela reforma antecipada dos primeiros e pela emigração dos segundos, devido ao desemprego crescente no país. 
Sem cuidados primários perto de casa (o que obriga os doentes a irem às urgências hospitalares), sem hospitais suficientes (com capacidade para atender os casos urgentes) e sem pessoal especializado em número suficiente, não nos devemos admirar que a situação tenha atingido o ponto de ruptura.
O que sobra?
Os hospitais privados, para onde muitos dos médicos do SNS se transferiram em part-time, a existência de um seguro médico, sem o qual não se é atendido nestes hospitais e o pagamento de diárias que atingem dois salários mínimos nacionais.
Bem podem os responsáveis da tutela apregoar que o planeamento foi feito, mas que as condições anormais explicam o caos existente.
A verdade é que esta situação, já de si grave, piorou de forma dramática nos últimos anos. A causa deve ser procurada no programa de austeridade imposto pela Troika, que quis à viva força reduzir nas despesas da saúde, como se o economicismo fosse critério, neste sector fundamental.
Os resultados - catastróficos - estão à vista e nada nos garante que os indicadores conhecidos não venham a piorar, agora que as previsões climatéricas se mantêm e os meios para pagar a saúde deixaram de existir. Tens dinheiro ou seguro de saúde, vais para um hospital privado, sem filas de espera; não tens dinheiro e dependes do Serviço Nacional de Saúde, ficas à porta e morres no corredor.
Uma vergonha sem nome, um governo que trata desta forma os seus cidadãos.