2023/01/11

2023: Ano Novo, Vida Nova?

Começou o ano e, até ver, poucas novidades. 

A guerra não terminou, a inflação aumentou, o fascismo não morreu e a corrupção está viva e recomenda-se. Para piorar a situação, o vírus pandémico reapareceu na China, pelo que não tardará a chegar à Europa...

Sobre a primeira questão: só os ingénuos podiam pensar que uma operação de "conquista territorial" iria terminar em dias, ou mesmo em semanas. Já lá vai (quase) um ano e não se vê fim à vista. Pesem os milhares de milhões, investidos na "defesa do Ocidente," nem a Rússia de Putin desiste dos seus intentos imperialistas, nem a Ucrânia de Zelensky, consegue expulsar os invasores. No meio, uma Europa sem recursos energéticos, sem exército e sem estadistas, incapaz de fazer ouvir a sua voz nos Fora internacionais. Apesar das "boas intenções" e aparente "unidade na acção", que Von der Leyen, Borrell e Stoltenberg continuam a propagar, nada de essencial mudou. Basta seguir o comportamento de figuras como Órban ou Erdogan (o primeiro membro da UE e o segundo membro da NATO) para deixar de acreditar em actos de coesão e lealdade, vindos de dois autocratas que, de democratas, pouco têm. O primeiro, não respeita direitos constitucionais e continua a desafiar e a desrespeitar as regras democratas europeias, que lhe valeram várias repreensões e penalizações da Comissão; o segundo, continua a receber milhões de euros da UE, para impedir a passagem de refugiados para a Europa, enquanto faz negócios com Putin e oferece gás e petróleo russo à Europa (!?). Uns cómicos, uns e outros. Ou seja, nesta guerra, perdem todos: perde a Ucrânia (parcialmente ocupada e destruída); perde a Rússia (o povo russo, entenda-se) sujeita a uma guerra que não escolheu e confrontada com as sanções do Ocidente; perde a União Europeia (dependente de recursos energéticos e alimentares, agora mais difíceis de obter devido às contra-sanções russas). O único país (até ver) que parece ganhar com esta guerra, são os EUA, que vendem armamento, gás liquefeito, petróleo e cereais à Ucrânia e à Europa. Um negócio das arábias! Porque não há "almoços grátis", quando a guerra terminar, serão os norte-americanos que irão "reconstruir" a Ucrânia, com um programa já anunciado como novo "Plano Marshall" (plano de recuperação europeia, após a 2ª guerra mundial.) Também, aqui, nada de novo. Trata-se da aplicação da "Doutrina de Choque", experimentada noutras latitudes (Iraque, Haiti, Grécia, Tailândia, Alemanha de Leste, União Soviética, etc...) onde, após uma catástrofe (guerra, terramoto, tsunami), os "empreendedores" norte-americanos, utilizam a sua capacidade económica e logística, para ajudar a "reparar" os danos. Os empreiteiros fazem fila...      

Porque isto anda tudo ligado, temos mais inflação. Acontece que a inflação, notória antes da guerra, piorou com esta. É natural. Com a pandemia, os preços que estiveram artificialmente congelados (juros, moratórias, etc...), voltaram ao nível previsto e agora, devido às contra-sanções russas, junta-se a especulação habitual em tempos de crise. Entretanto, a presidente do BCE (Christine - j´adore Dior - Lagarde) já decretou um aumento de juros bancários de 2% e anunciou que a coisa não vai ficar por aqui. O pior, são as consequências económicas para o cidadão comum. Apanhado, literalmente, "entre-dois-fogos", perdeu, no último ano, mais de 15% de poder de compra (basta ir ao supermercado) e vê, todos os dias, as taxas Euribor, (calculadas no pagamento das suas hipotecas) subir centenas de euros por mês! Já as medidas, anunciadas pelo governo, para compensar a perda de poder de compra, mostram-se insuficientes, pois os anunciados aumentos de 5%, ficam muito abaixo da inflação prevista. Uma "pescadinha de rabo-da-boca", que os "crânios" das finanças, parecem não ser capazes de resolver. Aparentemente, não há dinheiro para tudo, dizem-nos (Portugal é um país pobre, patati, patatá...). É verdade. Mas, então, se somos pobres e não temos dinheiro para tudo, porque é que insistimos em salvar bancos falidos, aumentamos a nossa contribuição para a guerra (NATO), continuamos a pagar uma dívida odiosa (contraída pelo estado) e queremos à viva força manter o deficit abaixo de 1%?...

O fascismo está de volta. Nunca desapareceu, de resto. O último exemplo, veio do Brasil. Uma horda de bárbaros organizados e pagos pelos inimigos da democracia, resolveram assaltar o "planalto", onde se encontram os símbolos dos "três poderes" brasileiros (o político, o judicial e o legislativo). Um atentado terrorista, contra um governo sufragado e eleito democraticamente pelo Povo, invocando uma pretensa irregularidade que nunca existiu. De resto, as eleições brasileiras, foram amplamente escrutinadas por organismos internos e externos, que confirmaram a transparência de todo o processo. Só débeis mentais poderiam acreditar numa narrativa completamente falsa (as "fakes news" existem), que já tinha sido experimentada nos EUA, pelos acólitos de Trump (outro atrasado mental). Não vingou nos EUA, nem vingou no Brasil. Acontece que, ao contrário da sociedade americana - mais culta, com mais cidadania e mecanismos de transparência (transparency) e prestação de contas (accountability) - a democracia brasileira é frágil. A democracia tem apenas 37 anos e, numa sociedade pouca instruída, onde a desigualdade e os níveis de pobreza extrema são gritantes (33 milhões de pessoas com fome), a corrupção é transversal e a criminalidade mata 60 000 pessoas ao ano, torna-se mais difícil a gestão. Proliferam os interesses corporativos, infiltrados na corporação militar (veja-se a passividade da polícia e dos militares, durante o assalto aos edifícios governamentais), nos grandes agrários (agro-negócios do gado e soja) e nas igrejas evangélicas (populadas por débeis mentais). Estes são os principais bastiões de apoio do psicopata Bolsonaro. No domingo, pareciam "zombies", completamente possessos, espumando pela boca, enquanto eram conduzidos de volta para os autocarros que os transportaram para Brasília. Bolsonaro pode estar morto politicamente, mas o núcleo duro dos seus apoiantes não desapareceu. São fascistas e devem ser combatidos como tal. "Não podemos ser tolerantes com intolerantes", lembrava Popper. Lula e os democratas brasileiros que se cuidem. 

Finalmente, o jornal "Público" de hoje (11.01.23) "puxou" para a primeira página a notícia da detenção de um ex-autarca de Espinho, acusado de corrupção, tráfico de influências e lavagem de dinheiro (mais um!). Desta vez é do PSD. Qual a novidade? O problema é todos os partidos (do poder) terem "telhados de vidro." Por isso, protegem-se mutuamente. A questão da corrupção (é disso que estamos a falar) é transversal à sociedade portuguesa. Uma sociedade profundamente desigual, onde a pobreza, a iliteracia e o medo, continuam enraizados. Uma cultura de séculos, que não mudará por simples decreto ou alterações da constituição. No fundo, os partidos (os políticos) mais não são do que o "espelho" da nação. Se a "média" é má, porque é que os políticos haviam de ser melhores? É como falar de "ética republicana." O que é isso? Ética, tem-se ou não se tem. Não compreender isto e "esperar" que os "nossos" políticos sejam melhores que os da "direita" (ou vice-versa) é pensar que as diferenças ideológicas tornam os cidadãos mais honestos. Uma treta, claro. 

 

2022/12/21

Imagem real

 

A imagem que ilustra este artigo é real. É a de um troço do muro exterior de um conhecido hospital da capital do reino, Lisboa. O resto do muro, melhor, o resto das paredes exteriores e interiores deste hospital, tem "acabamento" semelhante. Lá dentro trabalham centenas de profissionais de saúde, que acolhem e tratam milhares de doentes. Parece que estamos numa qualquer cidade vítima de um daqueles bombardeamentos que a gente vê na televisão, pelos quais todos vertem lágrimas de crocodilo e os levam logo a ir pôr bandeirinhas no facebook. Entramos nestes pardieiros (são vários,) temendo o pior e, contudo, lá dentro somos recebidos com uma infinita doçura e com um grau de profissionalismo que comove.

Vergonhosa!!! Vergonhsa é como se pode classificar a acção dos sucessivos governos, relaxados, criminosos, que deixaram chegar isto a este ponto. Vergonhosa é como se pode classificar a atitude da esmagadora maioria dos dirigentes políticos, deputados, autarcas e também de uma data de servidores do Estado, que, pactuando com os governos relaxados e criminosos, andam há muito a montar uma campanha para vender saúde. Querem entregar ou preparam, alegremente, o caminho para entregar esse "negócio" aos "privados". Vergonhosa, é como se pode classificar a atitude de certos profissionais do sector, que fazem vista grossa a estas condições de trabalho, aproveitando para sacar o seu, pactuando assim com os governos relaxados e criminosos e com a esmagadora maioria dos dirigentes políticos, deputados, autarcas e de uma data de servidores do Estado. Vergonhosa é como se pode classificar a atitude de uma percentagem da população que embarca nisto, sem perceber o buraco em que se está a meter, pactuando assim objectivamente com os governos relaxados e criminosos e com a esmagadora maioria dos dirigentes políticos, deputados, autarcas e de uma data de servidores do Estadoe e certos profissionais do sector, numa espiral de loucura. Estão todos metidos no mesmo caldinho.

O bem mais precioso é a saúde, diz-se por aí, sem se pensar certamente no verdadeiro alcance destas palavras. Lá dentro a coisa não é assim tão arrepianteente badalhoca, mas este exterior dá-nos uma leitura clara sobre o que significa exactamente a palavra "saúde" e o grau de consideração que merecem os doentes e os seus cuidadores, em Portugal. Olhamos para estes exteriores e percebemos o que vai na alma deste país.

2022/11/18

Sob o signo do Zeca

 

A 18 de Novembro de 1987, foi criada a Associação José Afonso (AJA), cuja principal missão tem sido, para além da divulgação da obra poética e musical do cantor, a defesa dos princípios que sempre nortearam a sua intervenção cívica, enquanto canto-autor e cidadão engajado.   

Ao longo destes 35 anos, muitas foram as iniciativas levadas a cabo pela AJA, a maior parte das quais de índole cultural, um pouco por todo o país e no estrangeiro, onde o Zeca nunca deixou de ser uma referência. Uma destas iniciativas, é o concerto temático, em Novembro, que nos últimos anos homenageou Alípio de Freitas, Francisco Fanhais, Manuel Freire, Rui Pato e José Mário Branco, alguns dos "compagnons de route" de José Afonso.

O concerto deste ano, que será subordinado ao tema "A Música Tradicional Portuguesa na Obra de Zeca Afonso", contará e.o. com as presenças de Miguel Calhaz, Brigada Victor Jara, Janita Salomé e "Moçoilas". Data: 19 de Novembro, pelas 16horas no Fórum Lisboa, Avenida de Roma, 14. 

Também para este mês, está programada a apresentação do álbum "Com as Minhas Tamanquinhas" (1976) de há muito esgotado e que reaparece agora, numa edição da "Lusitanian Music", responsável pela reedição do catálogo da Orfeu. Participam na sessão e.o. Teófilo Duarte, Ruy Vieira Nery, Nuno Pacheco, Nuno Saraiva e Nuno Galopim.  Seguir-se-ão, no próximo ano, as edições dos restantes álbuns da Orfeu, respectivamente, "Enquanto há Força" (1977), "Fura, Fura" (1979) e "Fados de Coimbra" (1981). A sessão de apresentação do álbum "Com as minhas Tamanquinhas", está programada para o dia 27 de Novembro, pelas 16horas, na Casa da Cultura, em Setúbal. 

Finalmente, em Dezembro, sairá mais uma edição do livro "Textos e Canções", desta vez reeditado sob o nome "José Afonso - Obra Poética", que reúne a vasta obra do poeta-cantor, onde para além dos poemas cantados são incluídos outros poemas, alguns pela primeira vez. A edição é do "Relógio de Água" e a apresentação do livro contará com a presença e.o. de Jorge Abegão (responsável pela compilação e prefácio), Francisco Vale (orador), Ruy Vieira Nery (musicólogo), Sérgio Godinho (músico), Maria do Céu Guerra e Luís Lima Barreto (declamadores) e Catarina Anacleto (cello). Data: 8 de Dezembro, pelas 17horas, na Livraria Broteria, Rua São Pedro de Alcântara 3, em Lisboa.

Um mês, sob o signo de José Afonso. O Zeca. A não perder.

2022/10/31

Lula ou a vitória da democracia

foto EFE

Lula da Silva é, desde ontem, o novo presidente do Brasil.  

Foi preciso esperar até às 22.58h (hora portuguesa) para confirmar a vitória de Lula, naquelas que foram consideradas as eleições mais disputadas do país. No final, o resultado foi de 51% para Lula, contra 49% para Bolsonaro, o que corresponde, "grosso modo", a 2 milhões de votos de diferença entre os candidatos.

Apesar de não constituir propriamente uma surpresa, a vitória de Lula (prevista em todas as sondagens) era aguardada com alguma expectativa, já que as percentagens anunciadas situavam-se dentro da margem de erro. Esta dúvida, que persistiu até final, aumentou com o bom resultado conseguido por Bolsonaro na 1ª volta das presidenciais (muito acima do previsto) e pela polémica gerada sobre a fiabilidade das sondagens, contestadas pelo (ainda) actual presidente.       

Como previsto, à medida que os votos iam sendo contados, os estados mais populosos (S. Paulo, Rio, Minas, Bahia) começaram por dar mais votos a Bolsonaro, que se manteve à frente até cerca de 2/3 da contagem. A "virada" deu-se por volta das 22horas, quando estavam contabilizados cerca de 67% dos votos e Lula passou para a frente. A partir daí, a diferença foi-se acentuando e a vantagem do candidato do PT, nunca mais esteve em dúvida. A única questão, residia na diferença final, já que uma pequena margem de vantagem poderia dar argumentos a Bolsonaro para contestar os resultados. 

Não sendo 2% uma diferença expressiva, é uma vitória clara e indiscutível - por um se ganha, por um se perde - obtida de forma legal e limpa, pesem as acusações (infundadas) dos mais fanáticos apoiantes de Bolsonaro, que não se conformam com a derrota do "mito". Após o resultado ser conhecido, o presidente remeteu-se a um silêncio, que dura há 20 horas, o que alguns analistas interpretam como a sua incapacidade de justificar uma derrota, para a qual não tem saída airosa. Outra interpretação é, à imagem de Trump, esperar que os seus acólitos venham para a rua protestar contra os resultados e aproveitar-se do caos instalado para tentar atrasar e, no limite, impedir a nomeação de Lula. Há ainda uma terceira leitura possível: contra membros da família Bolsonaro, correm diversos processos por corrupção e implicação noutros crimes (Marielle), pelos quais o "clã" poderá ter de responder em tribunal. Uma vez terminada a presidência e, sem a imunidade de que gozam nos cargos, poderão mais facilmente ser acusados.

Já em relação a Lula, qual Ajax renascido das cinzas, esta é a vitória da coragem e da resiliência que sempre mostrou ao longo da vida. Um "animal político", que influenciou e moldou o Brasil dos últimos 40 anos. Pesem todas as vicissitudes porque passou e apesar das acusações que continuam a ser-lhe feitas, Lula não se deixou quebrar pelo desânimo, nem nunca desistiu. Voltou, com a força da razão, quiçá mais sábio, sabendo que tem pela frente uma tarefa ciclópica: a de "unir os brasileiros" e de voltar a "pôr o Brasil no mapa". Tem a seu favor a experiência acumulada e o carisma inato, que fazem dele o mais popular líder político de toda a América Latina. Não por acaso, os líderes das principais potências mundiais - Biden, Macron, Putin, Xi Jinping, Sunak, Mori, Sanchez, Von der Leyen - apressaram-se a reconhecer a vitória. Todos eles sabem ser mais fácil negociar com um país democrático, do que com um país "pária" (o Brasil de Bolsonaro), isolado pela comunidade internacional. Da mesma forma que no passado, esse será o maior trunfo de Lula. Se puder (e souber) usá-lo, este terceiro mandato poderá tornar-se o seu maior legado. O Brasil espera por ele.

2022/10/20

Brasil: democracia versus barbárie

 

Faltam 10 dias para a 2ª volta das eleições presidenciais brasileiras. 

De acordo com a maioria dos analistas e institutos de opinião, o debate do passado domingo, entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, saldou-se por um "empate técnico", o que não permite extrair grandes conclusões para as eleições do próximo dia 30. O debate teve uma primeira parte de nível bastante aceitável, resvalando, na segunda, para as habituais acusações "ad hominem", que não contribuíram para elevar a discussão. De facto, ambos os candidatos pareceram bem preparados, com um Lula mais desenvolto, usando a sua experiência política e poder de comunicação que sempre o caracterizou; e um Bolsonaro, mais hirto e em pose militar, com as mãos atrás das costas, que teve de socorrer-se de uma cábula para defender os seus argumentos. As críticas de Lula, centraram-se fundamentalmente nas políticas de educação, na gestão da pandemia e na desflorestação da Amazónia, durante a actual legislatura; enquanto as críticas de Bolsonaro, tiveram como alvo o tema da corrupção durante os governos de Lula, de que foram exemplos maiores o "mensalão" e o "lava jato", como se previa. Até aqui, poucas novidades. 

Esta parece ser, também, a opinião da maioria da população, a avaliar pelas sondagens posteriores ao debate e publicadas esta semana pelo IPEC e pela Data Folha, dois dos principais centros de sondagem no Brasil. Assim, com base na sondagem do IPEC (efectuada entre 15 e 17 de Outubro últimos) Lula terá agora 50% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro terá 43% (na primeira volta, estas percentagens foram, respectivamente, de 48% e 43%). Ou seja, Lula, depois do debate, terá aumentado ligeiramente a sua vantagem para 7 pontos percentuais. Já na sondagem da Data Folha, publicada hoje (19 de Outubro) as percentagens são de 50% para Lula e 44% para Bolsonaro (uma diferença de 6 pontos). Para além destes votos, há ainda a considerar 5% de votos nulos e 2% de votantes, que não sabem e/ou desconhecem em quem votar. 

Resumindo: os votos em Lula mantêm-se constantes (a rondar os 49%) enquanto os votos em Bolsonaro, (depois de um crescimento surpreendente, relativamente às sondagens pré-eleitorais) parecem ter atingido o seu valor máximo (a rondar os 44%). A percentagem dos votantes, que não mudam de opinião, mantém-se estável: 93%. A dúvida parece estar, agora, nos 7%, que ainda não decidiram em quem votar. É neste grupo, com cerca de 10 milhões de eleitores, que ambos os candidatos se concentram, pois dele pode depender a vitória no dia 30. Uma coisa é certa: mesmo que Lula ganhe, como previsível, Bolsonaro terá a maioria no Senado e no Congresso, o que não facilitará a vida do próximo governo. É prevendo este desfecho, que ambos os candidatos se desdobram, esta semana, em múltiplas acções eleitorais de última hora, para tentar conquistar o voto dos indecisos. Lula, mantém o apoio do Nordeste, da população mais pobre, do mundo cultural e do eleitorado feminino; enquanto Bolsonaro, tem o apoio da maioria das seitas evangélicas, dos ruralistas e dos militares, os chamados três BBBs (Bíblia, Boiada e Bala),  tradicionalmente os grupos populacionais mais despolitizados e conservadores do país.     

De Lula, todos sabemos que foi operário metalúrgico, sindicalista, fundador do PT, candidato perdedor em três eleições presidenciais e ganhador noutras duas. Durante os seus mandatos (2002-2010) muita coisas boas e más aconteceram. Desde logo, as políticas sociais e educacionais, que tiraram da miséria extrema 40 milhões de brasileiros e permitiram aos mais desfavorecidos estudar e tirar cursos superiores, contribuindo para a qualidade de vida do brasileiro médio e aumentando o PIB nacional, como nunca até aí. O Brasil tornou-se uma das dez economias mais competitivas do Mundo e acedeu ao excelso clube do G20, fazendo parte dos BRICs de sucesso. Lula saiu do governo com uma taxa de popularidade de 87% e, só não foi eleito pela terceira vez, porque a constituição não o permite. Há, no entanto, um lado escuro nesta história de sucesso, devido às acusações de corrupção, que lhe custaram diversos processos judiciais e, inclusive, a prisão. Sobre este candidato, que muitos preconizavam morto politicamente, escreveu esta semana, André Lamas Leite, cronista do "Público": "O "cadáver político" que esteve 20 meses preso e que - digamo-lo com frontalidade - não se duvida que tenha cometido os crimes pelos quais foi condenado transitoriamente, beneficiou messianicamente de Sérgio Moro - oportunista obcecado, agora senador, e que mercadejou o seu cargo por uma breve passagem pela pasta da Justiça - que, assim, se transformou, suprema ironia, no desfibrilhador "lulista"". Ou seja, apesar de todos os revezes, Lula renasce das cinzas, graças ao seu principal acusador no processo Lava Jato. "Bolsonaro, não teve o engenho de transformar os 87% de aprovação, com que Lula abandonou a presidência em cinzas, mesmo após as condenações judiciais" (Leite, André Lamas: in "Público" d.d. 4/10/22).

De Bolsonaro, sabia-se pouco até ter chegado ao Planalto, mas os quatro anos que leva à frente do governo, chegam e sobram para fazer o retrato da criatura. O que sabemos de Bolsonaro? Sabemos que: "Bolsonaro acha bem os cidadãos terem em casa armas de uso militar. Na primeira campanha presidencial, em 2018, disse que "Uma arma, mais que defender a nossa vida, defende a nossa liberdade". Agora, na segunda campanha, descreveu-se como "Um presidente que defende a legitima defesa e o armamento para o cidadão de bem". "E digo a vocês: povo armado jamais será escravizado". Desde que chegou ao governo, assinou um decreto a facilitar a venda de armas. Em 2018, havia 350 mil armas registadas em nome de "coleccionadores, atiradores e caçadores". Em 2022, há 1 milhão. Os brasileiros compram hoje uma média de 1300 armas por dia". Entretanto, a criminalidade no país, cresceu para 63.000 vítimas por ano. "Bolsonaro não acredita na ciência. Em 2020 disse que o Covid-19 era "uma gripezinha" e que os brasileiros não apanhavam doenças. No Orçamento do Governo Federal de 2021, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações, teve um corte de 30%, o maior de todos. O segundo maior corte foi na Educação e o terceiro no Ambiente. O Brasil, registou 700.000 mortes por Covid, uma das maiores percentagens do Mundo". "Bolsonaro não acredita na importância da Amazónia. Em 2019, disse que "é uma falácia dizer que a Amazónia é património da humanidade" e que "é um equívoco dizer, como atestam os cientistas, que a Amazónia, a nossa floresta, é o pulmão do Mundo". Nos anos do governo Bolsonaro, a desflorestação na Amazónia brasileira cresceu 56,6%" (Reis, Bárbara: in "Público" d.d. 8/10/22). Podermos ainda falar da misoginia. Bolsonaro, pai de três mulheres, disse que teve uma filha assim "Dei uma fraquejada e veio uma mulher", da homofobia (disse "Seria incapaz de amar um filho homosexual: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo", ou do racismo (disse que "os índios estão a ficar seres humanos como nós" e fala do peso dos negros em arrobas, medida para pesar gado)" (Ibidem).  

Perante tal cenário, e uma vez afastados os restantes concorrentes políticos (que ficaram pelo caminho na primeira volta e hoje se perfilam ao lado de um dos candidatos) só resta aos brasileiros votar num dos finalistas. Acontece, que estas eleições, as mais importantes no período pós-ditadura militar, não são apenas entre Lula ou Bolsonaro. Estas eleições, são sobre dois projectos antagónicos, dos quais dependerá em grande parte o futuro próximo do Brasil. Na realidade, as eleições brasileiras são entre a Democracia e a Barbárie.             

2022/10/11

Taxi Driver (25)

 

Bom dia, para onde vamos? 

-Para o Rossio. É preciso pôr a máscara? 

Não, já ninguém põe isso. Mas se quiser pôr...

- De facto, já quase ninguém usa, mas como é um transporte público...

Eu deixei de usar. Claro que se for num hospital ou num espaço pequeno, por muito tempo, é melhor ter cuidado. E depois, as vacinas, há quem tome e quem não tome. O senhor já tomou?

- Eu tomei já 4 doses e 2 contra a gripe. Melhor é impossível.

Então, está melhor que eu. Só tomei 3 doses, mas conheço pessoas que nunca tomaram e não morreram e outras que tomaram e morreram...

- Certo. Tem a ver com muitos factores: imunidade, patologias associadas, idade, estilo de vida, sei lá...

Isso mesmo. Há países, onde as pessoas morrem aos milhões. Também tem a ver com os cuidados de saúde...

- Claro. Só nos Estados Unidos morreram milhões, devido aos negacionismo e a Trump, que negava a ciência. O mesmo aconteceu no Brasil, com Bolsonaro, onde, oficialmente, morreram mais de 700.000 pessoas. Um crime.

Oficialmente, diz bem. Sabem eles bem, quem morreu de Covid, nesses países...bastava ver as valas abertas nos cemitérios...

- Uma coisa é certa, é sempre melhor estar vacinado. Se não houvesse vacinas, teriam morrido muitos mais. 

Claro. Veja só os milhares de operações e consultas que ficaram por fazer, durante a pandemia. Os hospitais só tratavam do COVID. As outras patologias, ficavam para trás...

- Sim, ainda hoje os serviços não recuperaram. Fiz, há pouco tempo, diversos exames pelo SNS e só paguei 25 euros. Claro que tive de esperar 3 meses, para fazê-los todos. Se os tivesse feito pelo privado, podia fazê-los no mesmo dia, por 300 ou mais euros...

Uma vergonha, a saúde em Portugal. Em vez de ajudarem os mais necessitados, mandam as pessoas todas para o privado, pois é aí que estão os lucros...

- Exactamente. É o "sistema americano", que está divido em "Medicare" (para quem tem seguro de saúde) e o "Medicaid" (para quem não tem). Calcula-se que, 40% do sistema de saúde em Portugal, já está nas mãos do privado. 

Está a ver? Como é possível isso? E anda este governo a prometer "mundos e fundos"... Ainda agora me deram uma esmola de 250 euros (meia pensão), mas para o ano vão congelar tudo. Este Costa é um mentiroso. A mim já não me engana mais...

- Pois, mas o PS nunca enganou ninguém...

Mas, em quem é que devemos votar? Ninguém se aproveita. Qualquer dia, deixo de votar...

- Isso, não resolve nada. Se não votarmos, ainda será pior, pois podem governar à vontade...

O problema é que não são só os partidos que são maus. Isto é tudo uma quadrilha. Depois, põem no governo os amigos e os familiares e fica tudo em "família". O mesmo se passa nas empresas e nos bancos. Só há trabalho garantido para os amigos...

- Certo. As clientelas e o nepotismo, são um cancro da sociedade portuguesa. 

Não é só na sociedade portuguesa. Veja lá na Rússia ou na Coreia do Norte. Quem não estiver de acordo, vai para a prisão ou é morto. Até no estrangeiro, matam os opositores. Não viu aquele programa na televisão sobre as esquadras chinesas no estrangeiro? Para que servem?

- Por acaso vi. Em Portugal, detectaram três dessas "esquadras". Segundo a reportagem, há dezenas em todo o Mundo. Destinam-se a identificar os opositores do regime e a devolvê-los à China, ou a fazer chantagem, exercendo represálias sobre os familiares na China...

E o senhor acredita nisso? 

- Não me custa a acreditar. São ditaduras, é mais fácil controlar a dissidência...

Pois é. Mas aqui, vivemos em democracia e os aldrabrões incriminados, como esse Salgado e o Sócrates, andam à vontade há oito anos e continuam a aguardar julgamento. Eles protegem-se uns aos outros. Têm dinheiro e bons advogados e nunca mais são julgados...

- É verdade. A justiça em Portugal, perdeu toda a credibilidade. Demasiadas garantias. Mas, prefiro assim. Em caso de dúvida, temos de defender a "presunção de inocência". O problema é a demora dos processos. Uma justiça lenta, é terrível. 

Claro, o que é preciso é julgá-los e depois logo se vê. Se forem culpados, devem ir para a prisão. 

- Não podia estar mais de acordo. Ficamos aqui. 

São €9,85. Obrigado pela conversa. 

 

(Imagem: Témis, Museu Arqueológico Nacional de Atenas)

2022/10/09

O DOC's está de volta!


Entre 6 e 16 de Outubro, está a decorrer a 20ª edição do DOC's Lisboa (Festival Internacional de Cinema) que mais uma vez regressa à capital lisboeta. 

Depois de dois anos de "menor visibilidade", devido à pandemia reinante, o DOC's regressa, com uma programação à altura da qualidade a que nos habituou, desde a sua criação, já lá vão uns bons vinte anos.

São mais de 300 documentários/filmes, entre obras em competição, primeiras obras, ciclos e retrospectivas diversas, que poderão ser vistos em sessões únicas e repetidas (a maior parte dos filmes), em salas tão diversas como o cinema S. Jorge, a Culturgest, a Cinemateca Portuguesa, o cinema Ideal, ou a sala Fernando Lopes, recentemente inaugurada e a funcionar na Universidade Lusófona. 

Como habitualmente, e para além dos filmes a concurso, divididos em duas secções distintas, respectivamente, "Competição Internacional" e "Competição Nacional", o Festival mantém as habituais secções: "Da Terra à Lua", "HeartBeat", "Riscos", "Verdes Anos", "Doc Alliance" e "Cinema de Urgência". 

Na secção "Retrospectivas",  destaque para o cinema de Carlos Reichenbach (Brasil) e para "A questão colonial" (esta, com enfoque nas guerras de libertação da Argelia e das ex-colónias portuguesas), em dois dos ciclos mais aguardados deste Festival. Para além dos filmes, haverá debates com os realizadores presentes, sobre as temáticas respectivas ("cinema novo" brasileiro em tempos de ditadura e lutas anti-coloniais em África). 

Outros menções, a atribuir pelo Festival, são o prémio para "Melhor Realizador", o prémio "Melhor Curta-Metragem até 40' ", prémio "Lugares de Trabalho e condições sociais", prémio "Práticas, Tradição e Património" e prémio "Fernando Lopes". Todos os filmes premiados receberão, para além do diploma respectivo, um prémio pecuniário como estímulo para futuras produções. 

Que escolher, entre tanta oferta, sabendo que a maior parte dos filmes não será distribuída e não voltará a passar no circuito comercial? Eis uma pequena lista de filmes, que não vimos e gostaríamos de ver: ""A Human Condition" (Louis Malle), "The Fire Within" (Werner Herzog), "I, a Negro" (Jean Rouch), "Mueda, Memória e Massacre" (Ruy Guerra), "Godard Cinema" (Cyrill Leuthy), ""Getúlio Vargas" (Ana Carolina Teixeira de Sousa), ""Lynch/OZ"  (Alexandre O. Philippe), "Invisible Hands" (Hugo Santos), "Everything will be OK" (Rithy Panh)...       

Entre estes títulos, não podemos deixar de destacar "Les mains invisibles" (Invisible hands), que passará no ciclo "Da Terra à Lua", do realizador português, residente em França, Hugo Santos. Uma sinopse possível: "Nos anos 1970, uma casa em Paris acolhia dezenas de desertores portugueses que se esquivavam à guerra colonial. Só os arquivos da polícia política portuguesa guardavam provas das suas actividades anti-coloniais. De personagem em personagem, reunindo testemunhos e imagens amadoras, reconstruo esta memória" (Hugo Santos).  

P.S. Declaração de interesses: porque conheci bem a casa referida no filme de Hugo dos Santos, não posso deixar de recomendar este documentário. A ver, desde logo. 

Bom Festival e Viva o Cinema! 

2022/10/03

XXII Bienal: em Sevilha, o Flamenco está vivo!

 

Decorreu, durante todo o mês de Setembro, mais uma edição da Bienal de Flamenco, o maior e mais prestigioso evento dedicado à arte "jonda" que, de há dois séculos a esta parte, apaixona os melómanos e estudiosos de todo o Mundo. 

Após a edição de 2020, condicionada pela pandemia reinante, em que a maior parte dos concertos foram  limitados a metade da sua assistência habitual, a Bienal voltou, quiçá mais pujante que nunca, com dezenas de espectáculos de "cante",  "toque" e "baile", o tripé sob o qual assenta o género musical mais popular de Espanha. 

Com nomes sonantes no programa, entre os quais a Cia. Eva y Yerbabuena,  Olga Pericet, Vicente Amigo, Gerardo Núñez, Israel Galván, La Tremendita, Niño de Elche, Marina Heredia, Segundo Falcón, La Macanita, Rafael Carrasco, Pastora Galván y Marina Marín, Manuela Carrasco, Bolita, Mayte Martín, Rocío Molina (com Niño de Elche), era difícil escolher. Dificuldades de datas e bilhetes esgotados com antecedência, impediram uma selecção mais abrangente, ainda que o critério de qualidade estivesse garantido à partida. 

Lá fomos, munidos de entradas para três concertos, que não podiam desiludir: o guitarrista Vicente Amigo, a "cantaora" Mayte Martín e a "bailaora" Rocío Molina, esta com um convidado especial, o iconoclasta Niño de Elche.

Regressado a Sevilha, após um largo período de ausência, Vicente Amigo (Córdoba) voltou ao nível dos seus melhores dias: versátil, intimista e arrojado, nos variados "palos", que executou com a mestria que lhe conhecemos. Reportório renovado e clássicos que todos sabem de cor. Um guitarrista a um tempo clássico e moderno, que sabe agradar aos mais aficionados e ao público em geral. Poucos são os guitarristas que esgotam La Maestranza, a sala de visitas de Sevilha e Vicente Amigo voltou a consegui-lo. Depois de uma introdução clássica, em que interpretou um "medley" de "soleás", "seguiriyas" e "bulerías", Amigo iniciou uma viagem pelos seus temas mais conhecidos, culminando com a homenagem à arte do toureio, dedicada a um famoso lidador de Sevilha. Passou em revista temas do seu último álbum "Memoria de los sentidos", entre os quais "Requiem Coral" (uma homenagem a Paco de Lucía), aqui numa interpretação contida, mas dramática de Rafael de Utrera. Com Amigo, estiveram mais sete acompanhantes, entre músicos, "cantaores" e "bailaores", todos de qualidade ímpar. Destaque para o "cantaor" Rafael Usero Vilches (Rafael de Utrera), excelente nas interpretações mais dramáticas e Antonio Molina Redondo (El Choro), magnífico na sua curta mas rigorosa intervenção de "baile". 

Outra "cantaora", que acompanhamos há mais de 25 anos e que nunca desilude, é Mayte Martín (Barcelona) uma das vozes e presenças mais apreciadas no circuito flamenco. Mayte, não tem apenas uma boa voz, mas uma presença que o público e a crítica especializada sabem reconhecer. Lá estivémos todos, num Lope de Vega cheio até ao tecto, para acompanhá-la nas duas horas que duraram a actuação, pontuada por momentos de pura magia, em que nem uma mosca se ouvia na velhinha sala de Sevilha. Uma actuação a todos os títulos brilhante, em que interpretou, com igual desenvoltura, os "palos" mais clássicos. De destacar, aqueles em que foi acompanhada pelo guitarrista José Gálvez, num dos momentos mais solenes do concerto. Não faltaram outros temas e incursões por géneros não-flamencos e dois "encores", respectivamente, o celebrado  "S.O.S.", do seu álbum de estreia "Muy Frágil" e a "Milonga del Solitario" do argentino Atahualpa Yupanqui, ambos cantados com a mestria que lhe conhecemos. Mayte Martín está no topo da carreira e arriscamos a dizer que, das vezes que a vimos ao "vivo" esta foi, sem dúvida, a sua melhor actuação. Brilhante.     

Finalmente, um dos espectáculos mais aguardados desta Bienal: "Carnación" (estreia nacional), uma criação de Rocío Molina (Málaga), "bailaora" e "dansaora", reconhecida pela sua abordagem à dança flamenca contemporânea e de fusão, que a tornaram famosa no circuito da arte. Desta vez, rodeada de um elenco notável, entre os quais, o conhecido El Niño de Elche (voz), Pepe Benitez (piano, electrónica, programações), Maureen Choi (violinista), Calude Alemán (soprano) e ProyectoeLe (coro). Pese embora a encenação operática, em que as luzes, o som e as cores dominaram, o espectáculo pecou por falta de ritmo, aliado a uma duração que nos pareceu excessiva, dado o desafio - difícil - a que Molina se propôs. Uma performance de quase duas horas, com muito de teatro pós-dramático, "bondage" e provocação, em que todos os intérpretes se expuseram ao limite. Nada que não tivéssemos visto em companhias de dança contemporânea (Pina Bausch, Teresa De Keersmaeker) com a diferença de que, aqui, a "mensagem" não passou. Acresce que, de Flamenco, houve muito pouco (afinal, o tema da Bienal), salvo um "martinete", interpretado a preceito por El Niño de Elche e um bailado soberbo de Molina, num despique furioso com a violinista Choi, certamente dois dos momentos mais conseguidos de "Carnación". Como em todas as experiências, a inovação não agradou a todos. Entre espectadores meio bocejantes, que pediam "mais baile" e fãs incondicionais, que não regatearam aplausos no final, ficou uma sensação de vazio, difícil de interpretar. Nem toda a crítica local gostou do espectáculo e o diário "El Mundo", considerou-o mesmo o "pior da Bienal"...

A Bienal terminou, mas o Flamenco continua. Hoje, mais vivo que nunca, renovando-se com intérpretes de excepção, que prosseguem com a arte "jonda", um género musical universal.                

2022/09/26

Itália ou o eterno retorno do fascismo

 


Pela primeira vez, desde a 2ª guerra mundial, a Itália tem um governo de extrema-direita. 

A grande vencedora da noite, Giorgia Meloni (neta de Mussolini) tratou logo de dizer que não era fascista como o avô (estas coisas não têm de ser genéticas). De facto, o neo-fascismo, que é disso que se trata, já não necessita de "botas cardadas" para governar (até ver...). Por enquanto, só o símbolo do partido "Irmãos de Itália" é o mesmo do partido do patriarca. A continuidade, ora aí está...  

À Meloni não faltam "pomodori": tem carisma, é autoritária, fala aos gritos, é contra os burocratas de Bruxelas, quer unir a Itália e devolvê-la aos italianos, quer governar com toda a gente, não quer mais imigrantes, refugiados e minorias a viver à custa do estado, defende uma baixa geral de impostos, é contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, como não podia deixar ser, o seu lema é "Deus, Pátria e Família".

Num célebre ensaio (Como reconhecer o fascismo) Umberto Eco enumera aquelas que considera as principais características do movimento original. São catorze no total, por isso o autor adverte: 

"O termo fascismo adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos e poder-se-á sempre reconhecê-lo como fascista. Retire-se ao fascismo o imperialismo, e teremos Franco e Salazar; retire-se o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescente-se ao fascismo italiano um anti-capitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescente-se o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julius Evola. Apesar desta confusão, considero que será possível indicar uma lista de características típicas do que poderei chamar de "Ur-Fascismo" ou "fascismo eterno". Estas caracteríticas não podem ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou de fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista" (Eco, Umberto: "Como reconhecer o fascismo", Ed. Relógio de Água, 2017).      

Eco escreveu a partir da sua experiência na Itália de Mussolini. Nasceu em 1932, quando o regime estava no auge e, desde então, muita coisa mudou. No entanto, as suas observações sobre o tema mantém-se actuais, já que o fascismo (nas suas diversas formas) volta sempre e não é um fenómeno típico de países do Sul. 

Essa é, também, a opinião do especialista Rob Riemen, que à questão dedicou vários escritos. No seu livro "O eterno retorno do fascismo", este filósofo holandês dá como exemplo um partido do seu próprio país: 

"Nos Países Baixos, Geert Wilders e o seu Partido da Liberdade (PVV), são os protótipos do fascismo contemporâneo e, enquanto tal, não são senão as consequências políticas lógicas de uma sociedade pela qual todos somos responsáveis. O fascismo contemporâneo resulta, mais uma vez, de partidos políticos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivaram um niilismo complacente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo dos negócios, de mass media que preferem ser ventríloquos do público em vez do seu espelho crítico São estas as elites corrompidas que alimentam o vazio espiritual, contribuindo para uma nova expansão do fascismo" (Riemen, Rob: "O eterno retorno do fascismo", Ed. Bizâncio, 2012).    

Voltando às eleições italianas: não penso que a coligação de extrema-direita que ganhou as eleições (constituída pelos "Irmãos de Itália" da Meloni, pela "Liga" de Salvini e pela "Forza Italia" de Berlusconi), possa governar durante muito tempo. Os egos e as contradições internas são demasiado grandes, apesar de alguns pontos em comum. A Itália é um membro demasiado importante para a União Europeia (a 3ª maior economia, o 2º país mais industrializado e a maior dívida pública da União), pelo que não deixará de estar atenta às exigências deste governo. Tudo depende, agora, de Bruxelas. Os "partidos Meloni" só crescem onde as democracias são fracas (é do livros). Por outro lado, a Hungria de Orbán (outro neo-fascista) já foi apelidada de país não-democrático pela própria Comissão Europeia e penalizada por isso. A questão de fundo é: se a Hungria (membro de pleno direito da União Europeia) não é democrata e não respeita o estado de direito, o que está a fazer na UE? 

Quando os regimes democráticos não se respeitam, não nos devemos admirar do crescimento dos partidos que, aproveitando-se da democracia, a querem destruir por dentro. Estamos avisados.

2022/09/25

"Indian Summer"

"Outubro quente, traz o diabo no dente" (provérbio português) 

De acordo com o calendário, começou o Outono. Para trás, o mais quente mês de Julho do século, a habitual seca e os fogos de Agosto, para além de uma "silly season" trivial, não fora a morte da monarca inglesa de maior longevidade no cargo. 

O falecimento de Isabel II e a cobertura das exéquias fúnebres por parte da comunicação social portuguesa, atingiu níveis inimagináveis e provavelmente nunca vistos (falo por mim, que vejo televisão desde 1957). Os diferentes canais, desde a circunspecta RTP, às televisões de cabo SIC, TVI, CNN e CMTV, não se pouparam a esforços (e, presume-se, orçamentos) para enviar os seus mais reputados "pivots" ao Reino Unido: de Balmoral a Saint James, passando por Windsor e Westminster, lá estiveram todos, a Clara, o José Rodrigues e o Nuno Santos, atropelando-se, ao sol e à chuva, para nos dar a imagem que faltava, pois o "serviço público" é isto: "dar ao público o que ele deseja ver", mesmo quando não havia nada para mostrar. Patéticos, alguns dos comentários de jornalistas experimentados, que não se cansaram de repetir os quilómetros e as horas passadas nas filas, por todos aqueles que quiseram prestar a última homenagem à rainha. Eram mais de sete quilómetros de fila, talvez oito, arriscava um com maior rigor...Chama-se a isto, em jargão jornalístico, "encher chouriços". Mas, não foi apenas a televisão portuguesa que exagerou. No dia do funeral, contei 22 canais de televisão em todo o Mundo, que cobriam o acontecimento, China incluída. É obra!

Com a mudança de estação, entrámos naquilo que os anglo-saxónicos apelidam de "Indian Summer" (verão indiano), uma designação que terá a sua origem na mitologia dos nativos americanos. Segundo a lenda, o sangue dos ursos mortos filtra-se pelos solos e viaja através das raízes para as folhas das árvores, colorindo-as de vermelho, a cor dominante das copas durante os meses de Outubro e Novembro no continente norte-americano. Outra explicação, tem origem no mito indiano, segundo o qual os meses de Outono correspondem à principal temporada de caça, devido às suaves temperaturas desta época do ano, quando os animais selvagens são atraídos para fora dos seus esconderijos e são mais fáceis de caçar. Na Europa, chamamos a este interregno "Dias de São Martinho", santo cujo dia é celebrado a 11 de Novembro. São dias de transição suave, algures entre os últimos calores de Verão e as primeiras chuvas do Outono, sem vento e de temperatura amena. No entanto, todos sabemos que, lá mais para a frente, virá a tempestade. Não será diferente desta vez, pois as nuvens acumulam-se no horizonte e nem todas serão obra da natureza. 

A maior "tempestade", que influencia e paralisa meio Mundo, é sem dúvida a guerra Russia-Ucrânia, iniciada há, precisamente, sete meses. Um desastre de dimensões incalculáveis, desde logo a nível humano, para além dos prejuízos materiais e da destruição massiva que atinge sobretudo a Ucrânia e o seu martirizado povo. Sete meses passados e apesar dos desejos expressos pela maioria dos comentadores (há quem lhes chame "wishful thinking") a verdade é que a guerra decide-se no terreno e, provavelmente, irá prolongar-se para além do Outono. Este é um cenário que pode convir à Rússia (cada vez mais isolada no plano internacional, devido às sanções aplicadas pela UE e pelos EUA) que dispõe de reservas de gás e petróleo das quais dependem os países do Norte e do Centro da Europa, que não hesitará em usar como "moeda de troca" nesta guerra de contra-sanções. De resto, alguns dos países que aprovaram as sanções (Áustria, Hungria, Republica Checa, e.o.) continuam a comprar e a pagar em rublos o gás russo de que necessitam, fazendo jus ao princípio "negócios, primeiro!". Resta saber o que restará da "unidade europeia", nesta guerra que só interessa às grandes potências (EUA e Rússia) quando o "Verão indiano" terminar e o Inverno começar. Nessa altura, as bandeirinhas azuis e amarelas nas janelas, poderão começar a desaparecer.

Outra "tempestade" previsível, é a crescente influência dos partidos populistas de extrema-direita (de tendência fascista) que, ontem na Suécia (e hoje, em Itália) poderão vir a integrar governos de regimes democráticos, depois de terem conseguido votações expressivas que rondam os 20% nas eleições legislativas de ambos os países. Este crescimento exponencial, torna-os parceiros ideais da direita tradicional e conservadora que, desta forma, poderá governar e implementar medidas protecionistas, xenófobas e anti-imigração, normalmente sempre mais difíceis de pôr em prática. Se, na Suécia, o tema da segurança foi central durante toda a campanha (devido ao aumento da criminalidade no seio das comunidades imigrantes nas últimas duas décadas); já, em Itália, os principais lemas defendidos pela assumida candidata fascista (neta de Mussolini) foram "a família, a pátria e a religião", a par da imigração e dos refugiados, temas centrais em todas as campanhas (de Salvini, ex-governante e cujo partido integra o actual bloco nacionalista ao "regressado" Berlusconi, o populista-mor do reino, que apoia Putin, o que o coloca numa posição ambígua perante o eleitorado italiano. Resta acrescentar que Putin "himself", tem sido um dos principais apoiantes dos movimentos populistas e de extrema-direita na Europa e nos EUA (Trump), numa estratégia que visa enfraquecer os países do bloco ocidental. Tudo "bons rapazes", portanto.    

Resta a crise social e económica, propriamente dita, que veio para ficar. Chama-se "inflação" e já cá estava antes da guerra e do crescimento dos partidos populistas de direita na Europa. Nos EUA atingiu os 8,3% nos últimos dias e, na zona euro, ronda os 7%. Portugal não foge à regra e apesar do crescimento económico anunciado para o próximo ano (6,5%), a verdade é que partimos de valores mais baixos, pelo que o crescimento real é, proporcionalmente, inferior. Na realidade, e apesar do anúncio feito por António Costa (de que todas as pensões e reformas abaixo dos 705euros, iriam receber um bónus de 50%) os pensionistas e reformados portugueses, vão perder esse aumento em 2023 e 2024, já que os valores das pensões deixarão de ser indexados à inflação, como tem sido regra até agora. Dito de outro modo: o governo prepara-se para congelar os aumentos das pensões e reformas no futuro, o que significará de facto uma perda do poder de compra real nos anos que aí vêm. Chama-se a isto "dar com uma mão e tirar com a outra"...

Mas, nem tudo são más notícias. Nos EUA, Trump foi acusado pelo Departamento de Justiça de fuga ao fisco e de sonegar documentos secretos da Casa Branca, encontrados na sua mansão da Florida. A acusação, e provável condenação, poderá significar o fim das suas ambições políticas e a perda de direitos nas próximas eleições, o que não deixa de ser uma boa coisa. Também Steve Bannon (ideólogo da Alt-Right, promotor de movimentos de extrema-direita na Europa e ex-assessor de Trump) foi acusado de corrupção e apropriação de bens angariados na campanha eleitoral, tendo-se entregado à justiça. Outra boa coisa, portanto. 

Finalmente, o Brasil. Do outro lado do Atlântico, chegam boas notícias: a uma semana das eleições, as sondagens (de todos os quadrantes) dão Lula como provável vencedor, com uma diferença de 14 pontos sobre Bolsonaro (47% versus 33%). A confirmarem-se estes números, será necessária uma 2ª volta, já que nenhum dos candidatos atingirá a maioria absoluta (50+1) necessária para poder governar. Depois de quatro anos de gestão danosa e conflituosa com o eleitorado brasileiro, o actual presidente, um tosco fascista, sem qualquer preparação para governar, poderá ser afastado e, inclusive, acusado por crimes de peculato e envolvimento em crimes sob investigação. A grande incógnita, parece residir na influência que os grupos evangélicos (70% do eleitorado de Bolsonaro) têm nestas eleições. Independentemente das simpatias pessoais, o que está em jogo no Brasil é muito mais do que uma simples disputa entre dois candidatos. Trata-se da escolha entre democracia e fascismo, o que não é coisa pouca. Vai Brasil!

Nunca o Outono pareceu tão quente.

2022/09/17

Allgarve

 

Tenho uma relação de amor-ódio com o Algarve. Passo a explicar:

Lembro-me, como se fosse hoje, da minha primeira visita, nos anos sessenta do século passado, já lá vão uns bons 60 anos...Desde então, muita coisa mudou, como seria natural. Uma coisa porém, provavelmente a mais importante, não sofreu alterações: o clima mais ameno do país, a luminosidade deslumbrante, a costa marítima - rochosa a Barlavento, suave a Sotavento - as areias finíssimas, a temperatura do mar, a reserva natural da Ria Formosa, a gastronomia excelente, onde o peixe e o marisco são reis imbatíveis, a arquitectura de influência árabe, a proximidade com Espanha, para além de tantas outras razões para continuar a gostar desta província. É sempre um prazer renovado voltar e não é difícil perceber porque é que tantos estrangeiros optaram por se fixar definitivamente nesta região. Um pequeno paraíso em território português.  

Esta é a imagem do Algarve que mantenho e que, ao longo dos anos, com maiores ou menores intervalos, venho comprovando: seja por razões profissionais, seja por razões turísticas.

A frequência das visitas nos últimos anos, aguçou o meu apetite pelas coisas boas e tornou-me mais exigente perante as coisas más, que um turista acidental tem tendência a subvalorizar e a considerar parte da "colour locale" que, aos seus olhos, as torna mais aceitáveis. Um bom exemplo, são os serviços: medíocres, a roçar o péssimo, quando comparados com outras regiões mais a Norte do país. 

Estamos em finais de Agosto em Tavira (portanto um concelho com cerca de 30.000 residentes), onde a população flutuante triplica nos meses de Verão. Chegados à cidade, depois de quase 3 horas de auto-estrada, procuramos um restaurante no centro, para almoçar. São 14.30h em ponto. Entramos no primeiro, com o original nome "A Romana - pizzaria" enquanto nos preparamos para encomendar algo. O empregado (brasileiro) dirige-se solicito à nossa mesa e pergunta o que desejamos. 

"Comer algo rápido", retorqui sem olhar para o cardápio. "A esta hora, só servimos "take away". "Como, não podemos comer? Mas, as cozinhas estão abertas e são 14.30h...". "Sim, podem comer, mas não aqui. Podem encomendar e ir comer para outro lado" (!?). Olho para o homem com vontade de o esganar e pergunto se há outro restaurante próximo. "Veja aqui ao lado, no "Olinda"...

Dirigimo-nos para o local indicado, uma esplanada a abarrotar de turistas, a 50 metros de distância. Sentamo-nos. Uma empregada solícita (inglesa) pede desculpa pelo seu mau português e pergunta o que queremos. "Algo rápido, para não perder muito tempo", respondo. "Muito bem, vá lendo a carta, que eu volto já". Desaparece no interior do restaurante. Passados uns minutos, volta com ar consternado e anuncia no seu melhor português: "Lamento, mas a cozinha já está fechada". Olho para ela e chamo a atenção para a hora. São14.40h...

"Nem ao menos uma salada ou uma omelete?". "Nada. Só bebidas...". Mudo de registo e digo-lhe no meu melhor inglês: "A senhora não tem culpa nenhuma, mas diga ao seu patrão que estamos no Algarve, a região mais turística de Portugal e que ele, se quer ganhar dinheiro, tem de fazê-lo nos meses de Verão...". Olha para mim, com ar compreensivo e responde: "You´re probably right, but I won't tell him that..."

Saímos em desespero, até encontrar um "cyber café" aberto onde, para além dos computadores, uma impressora e uma colecção de CDs respeitável, serviam "snacks" e refeições ligeiras. Eram exactamente 15h e, na esplanada, todas as mesas estavam ocupadas. Lá dentro, numa cozinha improvisada, um sujeito de meia-idade cozinhava algo parecido com um hamburguer. Ao ver-nos, perguntou com ar meio desesperado: "O que desejam?". "Comer! Pode ser uma salada para ser mais rápido", retorqui eu, com uma ar ainda mais desesperado. Abana a cabeça e diz: "Estou sozinho, tenho uma lista de clientes lá fora à espera. Vão ter de esperar 45 minutos"...". Aceitamos e enquanto escolhíamos uma salada de frango para dois, não resisto a perguntar-lhe: "Mas, está sozinho, porquê? Não há empregados?". O homem encolhe os ombros e, com ar resignado, diz: "Ninguém quer trabalhar. Os ordenados são baixos, os impostos são altos e o pessoal jovem não gosta de trabalhar na restauração, porque o dia não lhes "rende". Têm de trabalhar em dois turnos. Preferem ir para a praia e viver do subsídio de desemprego"...Perante tão eloquente resposta, fico sem argumentos. A verdade é que a taxa de desemprego é relativamente baixa (menos de 6%), mas no Verão e no Algarve, em particular, não devem faltar candidatos para o sector do turismo, responsável por 10% do PIB nacional (leio, na imprensa portuguesa, que os hotéis algarvios estão com uma ocupação de 93% e que, só no mês de Julho, o aeroporto de Faro registou 1,8 milhões de passageiros!).

Dias mais tarde e após uma boa experiência gastronómica num restaurante da zona ribeirinha, voltamos ao local para repetir a dose. O empregado reconhece-nos e diz-nos que a esplanada está cheia e há clientes à espera. Olho para o interior, vazio, onde uma televisão gigante transmite uma partida de futebol e esboço o meu melhor sorriso:"não faz mal, nós podemos ficar lá dentro...". "Lá dentro, não dá. Faz muito calor, por causa da cozinha, ali ao lado...". Não desisto e tento mais uma vez: "Nós esperamos...". "Não vai dar", diz o homem, com uma expressão de Buster Keaton. "Só temos uma placa na cozinha e leva muito tempo a cozinhar. Tente num restaurante mais adiante. Também são bons e baratos..."(!?). 

Perante tanto "entusiasmo" em fazer negócio, nem sei que pensar. Será que os algarvios já descobriram a fórmula da plena felicidade (trabalhar, quando apetece?). Se é assim, presto-lhes a minha homenagem. 

Os transportes são um capítulo à parte: os autocarros (vulgo "buses") ainda vão funcionando, mas apenas nas ligações internacionais. Dentro da província, são um pesadelo. À noite não existem e, a partir das 19h deixam simplesmente de funcionar (ex: carreira Faro-Loulé). O mesmo se passa com o comboio: só existe uma linha férrea, a ligação entre Lagos e Vila Real de Santo António (menos de 200 quilómetros) que demora hora e meia a percorrer. O serviço de automotoras existente, velho de 50 anos, pára em todas as estações e tem de fazer um compasso de espera em Faro, onde aguarda que chegue a automotora em sentido contrário, pois só existe um carril. Um sistema caduco, que já existia em 1974, quando recomecei as minhas visitas à região, nessa época ainda chamada de Algarve. As automotoras estão a cair do "tripé" e não devem ser lavadas há anos, tal a quantidade de graffitis nas carruagens. Na estação de Faro, o caos nas horas de ponta (chegadas dos comboios oriundos de Lisboa) é diário. Das quatro bilheteiras existentes, nunca vi mais de duas a funcionar em simultâneo. As filas para comprar bilhetes, são frequentes e não existem écrans numa língua estrangeira, que elucidem os turistas sobre os horários. Os anúncios sobre as chegadas e partidas dos diferentes comboios são feitos em português, através de uma aparelhagem sonora que não prima pela clareza. A maior parte dos funcionários, de idade avançada, não fala outra língua, para além do português. Só existe uma toilette pública (unisexo) onde, para entrar, há que pagar um euro. A alternativa é entrar no bar da estação e pedir a chave do WC, mas a empregada só a dá a quem consumir algo. Percebe-se, mas não é funcional. Podia ser no Burundi. É assim tão difícil construir lavabos modernos e funcionais para ambos os sexos numa das plataformas? Que raio, o Algarve é o nosso principal destino turístico e gera milhões de lucros anuais!   

Enfim, a lista de queixas é longa e de cansativa leitura. Há diferenças, no entanto: agora, chama-se "Allgarve" (Europe's most ocidental point), continua "very typical", funciona mal, mas ainda é "charming"...

2022/07/16

O próximo alvo

   

A publicação electrónica AbrilAbril assinala hoje, como seu "número do dia," que "com 329 votos a favor e 101 contra, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou o projecto de lei do orçamento para a Defesa, relativo ao ano fiscal de 2023, que contempla 840 mil milhões de dólares para despesas militares!

O número até custa a imaginar. Para ter uma noção da sua grandeza, ajudará dizer que o PIB português, estimado para 2022, é de 260 mil milhões de dólares. Ou seja, o PIB português é equivalente a cerca de um terço do orçamento americano aprovado para a defesa. Recorde-se que, actualmente, o orçamento americano é de 750 mil milhões, o da China 237 mil milhões, o da Arábia Saudita 67.6 mil milhões, o da Índia 61 mil milhões, o do Reino Unido 55.1 mil milhões, o da Alemanha 50 mil milhões, o do Japão 49 mil milhões. Só depois vem a Rússia com 48 mil milhões, parte dos quais vai servir, certamente, para cumprir aquele desígnio —que muitos, certamente, inspirados pelos prodígios de Tom Cruise exibidos na série Mission Impossible, acreditam ser uma possibilidade real— de transformar a Europa num quintal russo. O orçamento para a defesa russo, 41.5 mil milhões, é, praticamente, o mesmo da França. Lá vai a França tentar anexar a Rússia...  

(O quê?! Já tentou e arrependeu-se?! A sério?! Quando?! Não dei por nada. E os franceses é que entraram por Portugal a dentro, queimaram, pilharam, violaram, roubaram?! O quê??! E ninguém chamou a atenção do ministro da defesa? Que escândalo...

Agora vem a América aumentar a parada com mais 100 mil milhões de dólares. Só este aumento é equivalente ao dobro de todo o orçamento russo para a defesa. Toma e embrulha!

O que me faz imensa confusão (digo-o com toda a sinceridade e com uma certa tristeza) é continuar a ver os americanos (incluindo muitos autoproclamados democratas), completamente alienados, a reclamar um retorno aos "valores" e a um estatuto de exemplo para o mundo, sem perceberem que são os "valores" deles que levaram o mundo, justamente, ao estado caótico em que nos encontramos hoje e à iminência de novo conflito mundial. Retorno a quê, então?! Também me faz confusão que tantos europeus não vejam isso, mas isso é outra conversa.

Um mundo de valores em manifesto estertor de morte, facto que ainda assim não chega para comover os americanos e que continua a embalar os europeus para uma viagem segura até aos Cuidados Intensivos. Há dias assisti a um programa do David Letterman a entrevistar o Obama. A certo ponto dos seus monólogos, evocavam o senador John Lewis e o triste episódio da Edmund Pettus Bridge. Os dois, massajando o ego um do outro, tu és o maior, não, tu é que és! Lá iam enchendo a boca com os valores da "democracia," da sua defesa e da necessidade de a América voltar a ser um exemplo para o "mundo," conceito dentro do qual já imaginam,  certamente, incluir a Lua, Marte e todos os exoplanetas entretanto descobertos ou a descobrir pela sonda James Webb. Há por aí muito mundo a explorar...

Nem uma única palavra de autocrítica. Esquecendo os dois —enquanto o show continuava, cinicamente, para gáudio do auditório indígena— as intervenções militares ordenadas por Obama no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Iémen, Somália e Paquistão. Um Obama autcomplacente, que invoca os valores da paz, mas foi incapaz de largar a guerra quando teve o poder para isso. Um pouco como aquela situação patética da lei das armas. Morre gente, crianças e adultos são vítimas do direito ao tiro ao alvo constitucional, todos no final derramam lágrimas de crocodilo, mas ninguém muda a porca da lei. Porque a lógica é essa: a do confronto belicoso interno, permanente, sustentado mais ou menos a tiro, e a sua exportação como uma  forma de manter o seu estatuto da nação, estatuto em que, pelos vistos, todo partilham e todos nele se revêem. Já nem falo do miserável caso Julian Assange, que teve os seus piores contornos durante o mandato de Obama e levou à sua actual e desgraçada situação. Com a complacência do aliado RU, claro, esquecidos e perdoados que foram os prejuízos causados pelo embaraçoso episódio do porto de Boston... 

Faz confusão que esse senador John Lewis, que levou porrada e foi preso por simplesmente encabeçar um movimento para o direito de voto, apareça a dizer que Obama foi o melhor presidente que a América teve. Não foi. Não se entende a lógica. Não se pode criticar o défice democrático, como Obama faz nesse programa, e ficar paralisado na resolução desse problema. Na América ou em Portugal.

Toma lá agora 840 mil milhões de dólares, para manter os valores da "democracia americana." Os americanos descobriram o Viagra verde...

2022/07/14

Clima, Fogos e Prevenção

Ligo a televisão e vejo o primeiro-ministro no centro operacional da ANPC (Autoridade Nacional de Protecção Civil) a falar sobre a maior calamidade natural que, anualmente, atinge o país: os fogos. 

António Costa repete, pela enésima vez, o óbvio: as condições climatéricas são excepcionalmente adversas nesta época do ano: as altas temperaturas, aliadas à baixa humidade e vento forte, são um "cocktail" explosivo, que podem provocar uma faísca, o suficiente para alimentar um incêndio de grandes proporções, durante dias. Por isso, apela à consciência dos portugueses. 

Apesar do reforço de medidas, tomadas após os grandes incêndios de 2017 (Pedrogão, etc...) que causaram 112 vítimas mortais, a situação está, hoje, mais controlada, existem mais meios humanos e materiais e, praticamente, não tem havido vítimas mortais.  Tudo isto é verdade e deve ser assinalado, pois - há que reconhecer - alguma coisa foi feita nestes últimos anos. 

Costa, também não se esqueceu de enumerar o aquecimento global e as causas exógenas, que não podemos controlar. No caso particular do Mediterrâneo, as altas temperaturas, aliadas à baixa humidade e os ventos fortes, são uma constante no Verão, como noutras latitudes com clima semelhante, como é o caso da Califórnia ou da Austrália, para citar dois exemplos que sempre vêm à baila. 

Hoje é o dia mais quente do século (46,2 graus) e mais de metade do país está sob alerta vermelho. Não chove há meses e as barragens a Sul do Tejo estão praticamente secas. Não estão previstas grandes alterações a curto prazo e os meteorologistas alertam-nos para a repetição de ciclos de calor cada vez mais frequentes nos próximos anos.

Portanto, temos aqui um problema (estrutural) que, nas palavras do primeiro-ministro, nunca poderá ser evitado. Haverá sempre fogos, mas há que prevenir, para não ter de remediar. Para remediar (combater os fogos) estão cá os bombeiros e os sapadores de serviço. Também há mais meios materiais (aviões, helicópteros e o sistema de alarme Siresp), nos quais foram investidos milhões de euros, ainda que pareçam nunca ser suficientes. Portanto, é difícil fazer mais com os meios disponíveis (Costa dixit).  

Claro que há outras questões a montante. Por exemplo, no campo da prevenção, a limpeza da floresta privada é da responsabilidade dos proprietários. Mas, como saber a quem pertencem as propriedades?  Costa faz a pergunta retórica, enquanto aponta para o écran do computador de uma funcionária:

"Então, diga-me lá, se eu quiser saber quem são os donos das terras nesta região, o que devo fazer"? Resposta da funcionária: "Terá de perguntar no Cadastro Predial do distrito, onde estão os registos de Propriedade. Mas, neste caso, será difícil de saber. Estamos no Alto-Minho, uma região de minifúndio e os  cadastros a Norte do Tejo, estão todos desactualizados" (!?). 

Ouve-se e não se acredita.  

Não resisto a contar uma história pessoal: em 1979, no âmbito do Curso de Antropologia Cultural, fiz o meu trabalho de campo (fieldwork) em Trás-os-Montes. O objecto de estudo, estava relacionado com práticas comunitárias (utilização de baldios, e.o.) no distrito de Montalegre, região do Barroso. Durante três meses, vivi numa aldeia próxima (Cambezes do Rio) onde observava e recolhia os dados que necessitava e, uma vez por semana, deslocava-me a Montalegre para consultar os cadastros de propriedade rústica, ali registados. Ao fim do estágio e perante a disparidade entre a informação prestada e os registos existentes, perguntei ao engenheiro agrónomo, que supervisionava o meu trabalho, onde é que podia obter informação mais fidedigna. Estávamos em Setembro e o homem, solicito, perguntou-me se eu podia voltar a Portugal em Janeiro de 1981. Nessa altura, já deviam ser conhecidos os dados do Censo Nacional (recolhidos no início de cada década) e podia confrontar os dados pessoais com os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE). Assim fiz e, alguns meses mais tarde, em conversa com um funcionário do INE, em Lisboa, este confirmou os meus receios: os dados existentes, não eram completamente fiáveis, dado que a maioria dos cadastros datava do século XIX, quando muitas das propriedades foram registadas e, desde então, as escrituras não eram actualizadas. Os descendentes herdavam os terrenos e, muitas vezes, trocavam-nos por outros, sem fazer qualquer registo oficial. Também eram frequentes as desavenças entre familiares por causa das heranças e os processos levavam anos a serem resolvidos em tribunal. Muita gente, desistia.

Quarenta e três anos depois, os cadastros de propriedade a Norte do Tejo, continuam desactualizados. Como é possível responsabilizar o proprietário de um terreno, por limpar, se continuamos sem saber quem é o seu dono?... 

(Nota - A imagem é de O Cadastro e a Propriedade Rústica em Portugal de Paula C S Ribeiro)

2022/07/06

Nojos

O futuro está traçado. A aliança EUA-NATO-UE, o corolário hodierno da famosa Doutrina Monroe, vai partir os dentes neste conflito na Ucrânia, vai sofrer uma humilhante derrota e o mundo vai passar a viver sob uma outra ordem. É apenas uma questão de tempo. O que aí vem é, por enquanto, uma incógnita, que se tornará porvetura mais clara quando for lida nos compêndios de história do século XXII. 

Os mostradores das bombas de gasolina que pulsam e rodam de forma cada vez mais vertiginosa, assim marcando a negro o dia a dia dos automobilistas, não reflectem, nem de perto nem de longe, o trambolhão que o "Ocidente" (cf. esta interessante análise de Carlos Matos Gomes sobre este conceito) vai dar, à conta desta miserável aventura em que nos meteram. Mas esses mesmos mostradores das bombas, ao rodarem cada vez mais depressa, para da pistola da bomba sair cada vez menos combustível, constituem uma espécie de metáfora, se se quiser ver para além dos números, do entalanço em que estamos metidos e não podem deixar de nos fazer pensar no que aí vem. Todos deveriam refectir, com seriedade e serenidade, sobre o futuro. 

Uma coisa que, para já, se me afigura certa é que os povos não parecem estar preparados para a reviravolta que se avizinha. A Europa, em particular, revelou-se, em todo este processo, incrivelmente vulnerável. E Portugal, então, pelo filme a que vamos assistindo, está em riscos de se tornar um protectorado de uma multinacional qualquer ou um gigantesco Airbnb.

Bruxelas não é Washington

Há tarefas que, no imediato e se não nos quisermos resignar a uma postura passiva perante tudo o que se passa, parecem urgentes. A mais importante, a que deveria ser dada atenção imediata, é a da continuação desta União Europeia. Uma organização dirigida por zombies que usurparam os direitos democráticos dos europeus e se instalaram ilegalmente nesta coisa inenarrável a que chamam Comissão. É urgente responsabilizá-los pelas consequências que esta decisão de se juntarem à cobóiada vão ter na vida de todos nós, numa atitude de subserviência absolutamente escandalosa. Repare-se que nem na própria América se engole todo este cenário criado em torno do conflito da Ucrânia.

Segundo o Ron Paul Institute, 71% dos americanos não desejam que Biden se candidate a um segundo mandato. Segundo outra fonte, a percentagem de americanos que não querem que Biden se candidate a esse segundo mandato é extraordinariamente alta, quando comparada com os presidentes anteriores, ainda em primeiro mandato. Os americanos já estão a sentir na pele o fiasco absoluto desta política terrorista das sanções, ditada pelos cowboys da Casa Branca. Mas os americanos não parecem dispostos a tal sacrifício. Quem os poderá criticar...?

Biden tenta, em fuga para a frente, culpar Putin, junto da opinião pública americana, pela escalada da inflação, mas, como conclui ainda a análise do Ron Paul Institute, há um grande problema: "os americanos não acreditam nele. De acordo com uma pesquisa da Rasmussen no início deste mês, apenas 11% dos americanos acreditam na afirmação de Biden de que o presidente russo Vladimir Putin é o culpado pelos altos preços." 

Os americanos também não querem, segundo parece, uma recandidatura de Trump. Mas é bom lembrar que a actual política de Washington é exactamente igual à que foi seguida pelo presidente golpista. Vale a pena recordar o que dizia o seu anterior Secretário de Estado, Mike Pompeo e comparar com o que está a ser feito agora. E vale a pena perceber quais são exactamente as personagens que têm transitado de administração em administração, desde há longos anos, para levar a cabo o mesmo programa de desastre universal. Se não acredita, veja os nomes.

De Bruxelas, nem bom vento nem bom casamento

Bruxelas não é, de facto, Washington. O seguidismo dos dirigentes europeus ao discurso americano é incompreensível. Os americanos demonstram um compreensível sentido de conveniência que falta totalmente a Bruxelas. E a Doutrina Monroe justifica a postura americana. Mas o que ganha a Europa em continuar a papaguear o discurso  da invasão vinda das estepes que só pararia no Cabo da Roca, apimentada agora com uma ameaça amarela, quando na própria América esta narrativa parece já não estar a pegar? Numa demonstração da validade da expressão "ser mais papista que o papa," por estas bandas vamos assistindo ao espectáculo desgraçado que a Presidente da Comissão Europeia, prostrada de joelhos, dá todos os dias. Uma actuação nojenta, que nos faz (pelo menos a mim faz!) corar de vergonha. A todos nós que acreditámos no projecto europeu e andámos a embarcar, ingénua mas zelosamente, nesta trapaça absurda, neste travesti de eleições, a que chamam eleições europeias. Sobre o que nós e os nossos compadres europeus pensamos de tudo isto, o que vai na alma do europeu, nestes dias de ansiedade e de incerteza sobre o futuro, pouco se sabe. Dos americanos sabemos, ainda assim, que não estão a achar grande graça ao que se está a passar, e a festa nem sequer está a ser no quintal deles. O que justifica a posição da Europa perante este conflito?

Ainda faltará algum tempo para percebermos o que dirão os europeus sobre tudo isto. Mas quando, finalmente, acordarem para a realidade que têm e vão ter pela frente, vai ser tarde.

E Portugal?   

Se o que vai na mente dos europeus é uma incógnita, cá pelo burgo não sabemos o que pensam verdadeiramente os portugueses sobre este conflito, para além da conversa de café. Sabemos menos ainda sobre o que pensam sobre a actuação do Governo, nesta sua desfilada à rédea solta.

Falando de governo, permitam-me que exprima aqui, sobre esta matéria, um ponto de vista pessoal, num tom um pouco mais veemente, diria mesmo, escandalizado. A posição portuguesa em todo este caso mete nojo. O comportamento do Governo nesta matéria e, em particular, o do Primeiro Ministro António Costa, é um nojo. Politicamente, está arrrumado. O tirocínio para substituir a Ursula menor de nada lhe vai valer porque deixou de ter a iniciativa, anda totalmente a reboque dos acontecimentos, sem dar o mínimo sinal de uma visão própria, sem um pensamento estratégico, digno de nota e sem um comprtamento que indicie ter a força necessária para mudar o rumo da Europa.  O "estadista" foi a banhos. Não foi para isto que votei nele. A credibilidade política, interna e externa, perdeu-a Costa num aperto de mão em Kiev. E veja-se, por exemplo, aqui, o tipo de santinhos a quem Costa foi apertar a mão, em nome de todos nós.

Comprometida, sem possibilidade de um entendimento, está também uma solução para Portugal, à esquerda. A Ucrânia constitui um tiro no porta-aviões da esquerda portuguesa, sem possibilidade de reparação do rombo. Como se diria, em inglês, Costa é um has been. Tanto que prometia o mocinho, tanta ponte, tanto diálogo para tudo ter acabado assim. É uma pena. À direita o panorama, é certo, não é melhor, o que significa que Portugal é de quem o apanhar.

Nota profundamente negativa, pois, para a actuação do governo, que faz o favor de representar o papel de manequim na montra do imperialismo. Não foram mandatados para isso! Repito: não foram mandatados para isso. 

Não estamos perante uma emergência nacional, não corremos riscos de segurança interna, temos problemas estruturais (lembram-se dos famosos problemas estruturais?!), estruturalmente adiados, temos milhões para ajudar à festa da guerra, mas os tais problemas estruturais ficaram para as calendas. Corremos agora, isso sim, o risco de sermos apanhados pelo fogo cruzado. Nada justifica que os portugueses tenham sido colocados em perigo desta forma. A culpa é do governo. Se já na América poucos compram a ideia de uma opção entre o sacrifício em resposta a uma hipotética ameaça, que corre lá longe, ou uma vida decente, por cá temos de perguntar e exigir uma justificação séria a este governo sobre esta decisão de converter Portugal em potencial barraquinha de tiro ao alvo e os sacrifícios e os riscos que esta opção representa. Para quê?! O que raio passou na mente perversa destes irresponsáveis para transformar Portugal, de repente, em feira popular? O PS criou a ilusão que tem tudo controlado e não percebeu que está em risco de se afrancesar. Não percebe, por exemplo, que entrou naquela fase em que os seus princípios resvalam para a "quimera" e para a "ambiguidade," como referia Thibaut Rioufrey a propósito do PS francês, que conduziram este partido ao eclipse quase total.

Do PR, sempre igual a si próprio, nem vale a pena falar, mas vale, isso sim, a pena falar da AR. A prudência política, o respeito pelos eleitores e o simples sentido patriótico, deveriam ter ditado uma outra postura da AR e do seu sibilino presidente, perante este conflito, mais contida, mais consentânea com o preceito constitucional, que tivesse evitado o espectáculo nojento do passado mês de Abril. O PS revelou-se, mais uma vez, nesta como noutras ocasiões, um nojo. Traiu os eleitores que depositaram confiança total nas suas propostas e lhes compraram as cadeiras do poder, onde agora se sentam. 

Tristíssimo o espectáculo deprimente deste partido, a dobrar a cerviz perante os senhoritos da guerra. Enquanto a Constituição preceitua a "solução pacífica dos conflitos internacionais, a não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e a cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade," o que faz o governo da maioria? Oferece armas e junta-se ao coro internacional das fanfarronadas. De um país com tradição revolucionária na floricultura, esperava-se que fornecessem, ao menos, rosas, senhor! 

Por outro lado, também a actuação de uma parte da oposição, que diz, servilmente, amen a tudo isto ou se cala oportunisticamente, não pode senão ser classificada de outro nojo. Uma outra, reduzida, parte da oposição, que cavou por culpas políticas próprias o seu isolamento e revela total incapacidade de ter voz de combate, está encostada, inutilmente, a uma retórica que a ninguém impressiona. Mais outro nojo. Não pela posição neste caso específico, que sempre me pareceu correcta, mas pela inabilidade política que a levou a ficar aquém dos mínimos olímpicos e a revelar a sua debilidade preocupante, quando era tão necessário que fizesse agora voz grossa e tivesse algum peso específico. 

Estamos, pois, metidos num enorme molho de bróculos. Os portugueses irão certamente gozar o verão, finalmente, depois de dois anos de confinamento. Quando voltarem, logo se vê.


PS- Já depois de concluído este artigo, ficámos a saber que o Boris the Animal foi despedido e que, por agora, o PM se livrou de uma moção de censura. Ça bouge!

2022/06/23

Assim se vê...a força da CP!

Para o mês de Junho, a CP (Companhia Ferroviária Portuguesa), anunciou uma greve intermitente de maquinistas, a nível nacional. Porque a greve se anunciava "intermitente", temi o pior. Já bastam as greves "constantes" que, normalmente, só prejudicam os trabalhadores que compram passes mensais e perdem o dinheiro investido à cabeça, quanto mais "intermitentes"...

Porque necessitava de viajar de comboio para Faro, resolvi comprar o bilhete com alguma antecedência e dirigi-me à bilheteira de Sete-Rios, para tentar perceber o conceito de "intermitente". 

IDA

Conforme receava, apenas uma das duas bilheteiras funcionava e a fila (maioritariamente constituída por turistas) ultrapassava as três dezenas de pessoas. Após meia-hora de espera, sou atendido. 

- Estão em greve de zelo?

Não. Estamos em greve. 

- Estão em greve? Mas a bilheteira está a funcionar...

A greve é dos maquinistas.

- Não estou a perceber. Os maquinistas estão em greve, os comboios não funcionam e os senhores vendem bilhetes? 

É como vê. Para onde vai? 

- Quero ir, depois de amanhã, para Faro e desejo um bilhete para o comboio das 10.14h.    

Se quiser eu vendo-lhe o bilhete, mas não prometo que haja comboio...

- Bonito serviço. E agora, que me aconselha? 

O senhor é que sabe. Pode ir sempre de autocarro. Ou vir nesse dia e aguardar pelo comboio...

- Estou a perceber. A greve é "intermitente" e pode ser que esse comboio funcione. Arrisco.

Comprei o bilhete e voltei para casa, onde espero dois dias, enquanto sigo a greve da CP pelas notícias. Entretanto, pessoa amiga em Faro, ia-me informando da dificuldade que tinha em regressar a Lisboa, dado que alguns comboios tinham sido cancelados. Fazia sentido: dia 13 (segunda) foi feriado em Lisboa e muita gente aproveitou a "ponte" de três dias para ir até à praia. Nada melhor do que uma greve durante um fim-de-semana prolongado. De resto, há uma tradição de greves à sexta e à segunda, em Portugal, o que não deixa de ser curioso... 

No dia aprazado (13) fui, com uma hora de antecedência, para a estação. Comprei o jornal e esperei pelo comboio. Com 10 minutos de atraso, chega o dito e pude embarcar normalmente. 

VOLTA

Nove dias mais tarde, eis-me de regresso a casa. Chego à estação de comboios de Faro, onde apenas duas das três bilheteiras existentes estão a funcionar. Uma fila de nacionais e turistas espera pacientemente, de mochilas às costas, pela sua vez. Só há uma fila, que se divide, à medida que as bilheteiras vão ficando livres. Quando chega a minha vez, dirijo-me à bilheteira da esquerda, que tinha ficado livre. A funcionária ignora-me, deixa a bilheteira aberta e dirige-se a uma secretária, onde inicia uma série de telefonemas, enquanto confere a papelada com ajuda de uma máquina de calcular. 

Aguardo pacientemente, ao mesmo tempo que a bilheteira do lado, continua a vender bilhetes. Passaram mais de 5 minutos e a funcionária continuava alegremente a conversar pelo telefone. Impaciente, bato no vidro e chamo-lhe a atenção para o facto de continuar à espera, já que a bilheteira não tinha sido encerrada. Olha-me irritada e faz-me sinal que devo passar para a outra fila. Respondo negativamente, uma vez que ela não tinha encerrado a bilheteira, pelo que continuava de serviço e eu não ia passar à frente dos outros passageiros na fila da direita.

Desvia o olhar e continua a conferir documentos, enquanto fala ao telefone com alguém. Torno a bater no vidro e, já irritado, chamo a atenção para o facto da bilheteira continuar aberta e ela não ter avisado ninguém, nem colocado o aviso de "encerrado" na bilheteira. Nem responde. Dada a urgência, passo para a fila do lado, onde uma gentil japonesa deixa que eu passe à sua frente. Dirijo-me ao funcionário, que me olha com os olhos esbugalhados e compro o bilhete, não sem antes pedir o livro de reclamações e protestar contra a forma como a companhia, de que ele faz parte, não ter a mínima consideração pelos passageiros e fazer greves por direitos, mas raramente cumprir deveres. Aproveito para fazer o discurso sobre a falta de cultura de "civil servant" (funcionário público) que é inexistente em Portugal. O homem (era brasileiro...) olha para mim, com ar desconsolado, passa-me o livro de reclamações e, enquanto escrevo a queixa, continua a emitir o bilhete, após o que me pergunta: "E o senhor, vai desejar número de contribuinte na factura?". 

 

2022/06/12

Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades

 


Mão amiga chamou-me a atenção para um livro recente sobre Churchill e apontou-me este artigo sobre a controversa figura. Parece não merecer contestação que, como refere o artigo citado "A Grã-Bretanha entrou na guerra, afinal, porque enfrentava uma ameaça existencial e não, principalmente, porque discordava da ideologia nazista."

Mas, entrou!

Uma "geringonça" ainda mais improvável, que uniu um anticomunista, meio racista, um trafulha, inspirador dos imperialistas hodiernos e o rebitador da "cortina de ferro," derrotou o palhaço do bigodinho,  E quando vejo agora a von der Leyen a pousar sorridente ao lado do Zelensky, tremo. E quando me lembro dos Edwards e outras figuras do género —"aristo-fascistas," como lhes chamam no artigo — volto a tremer. Este quadro está hoje bastante mais carregado.


 

E, pergunto-me: onde poderemos encontrar na Europa de hoje um Churchill que bata o pé aos novos Edwards, que por aí pululam, apesar das enormidades, das atrocidades que aquele cometeu noutros sítios, em nome do Império e de uma ideologia duvidosa, que não escondia a sua origem de classe? Certamente que não no Largo do Rato...

É que entre o pintor falhado e o comediante da treta e as respectivas entourages, há mais perturbantes semelhanças do que se pensa, mas ninguém com a estatura do controverso Churchill. Pousar junto a qualquer uma dos protagonistas deste conflito, fora da mesa da negociação, não augura nada de bom. Os pintores falhados tiveram o fim que mereciam. Mas o que fazer a estes comediantes da treta que agora dominam a engrenagem?  Repare-se que os mandantes, esses, continuam, então como agora, a ser exactamente os mesmos.

Que estamos à beira de uma catástrofe, já deu para perceber.