2021/06/06

Sevilha: notas soltas

Após quatro meses de confinamento severo, as fronteiras terrestres entre Portugal e Espanha, reabriram no passado mês de Maio. Oportunidade para um regresso à capital andaluza, ainda sem os turistas habituais, mas já vibrante na sua "movida" e na oferta cultural, sempre diversificada.

Desta vez, e entre as escolhas possíveis, optámos por música, teatro e artes plásticas. 

Logo a abrir, no dia 13 de Maio, um concerto memorável, a cargo da cantora Emma Alonso e do pianista José Manuel Vaquero (El Pájaro), subordinado ao título "De Buenos Aires a Paris". Uma viagem musical de excelência, servida por dois intérpretes de excepção, tanto nos respectivos instrumentos (voz e piano), como no repertório escolhido e na qualidade das interpretações. O concerto, organizado pela "Fúndación Tres Culturas", teve lugar no mítico Pavilhão de Marrocos, uma reprodução palaciana, digna das "mil e uma noites", construída para a Expo'92 e doada pelo governo marroquino à cidade. A Fundação, tem ali a sua sede e programa regularmente eventos musicais, desta vez subordinados ao tema "Diversidade Cultural". 

Uma hora mágica, o concerto de Emma e de Vaquero, que passaram em revista canções de Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Mikis Theodorakis, Astor Piazzolla, Kurt Weill, Tom Jobim, Edith Piaf e George Brassens, para além de duas "zambas" argentinas e um merengue venezuelano, para deleite da assistência. Um concerto para recordar, onde as vocalizações de Emma e os arranjos contidos, mas inovadores de Vaquero, se conjugaram para nos relembrar que, a boa música, quando bem interpretada, não morre nunca. 

Seguiu-se, dois dias mais tarde, uma visita ao teatro, para apreciar a peça "La Odisea de Magallanes-Elcano", no mítico "Lope de Vega",  a sala de visitas da cidade. "La Odisea", é fruto dos eventos de celebração do 5º Centenário da 1ª volta ao Mundo, que tem vindo a ser celebrado pelas autoridades espanholas de há dois anos a esta parte. Trata-se de uma co-produção da Junta de Andalucía, El Ayuntamiento de Sevilla, El Teatro Lope de Vega, certificado com o sêlo de qualidade da Comissão de Comemorações da 1ª volta ao Mundo  (Ministério da Cultura).

A peça, dirigida e encenada por Alfonso Zurro (director do Teatro Clássico de Sevilha), reproduz diversos episódios da épica viagem e foi escrita por oito dramaturgos e autores diferentes, sem seguir a cronologia dos factos. Muitos bons, alguns dos quadros, servidos por bons actores e meios técnicos (multimédia) a condizer. Os episódios, alternando entre o heróico, o burlesco e a traição, não esconde os ataques desabridos de Magalhães, nas Filipinas, que acabariam por lhe ser fatais. Seria o espanhol Elcano, a completar a viagem. Para a história, a epopeia da Circum-Navegação, que provou ser a Terra redonda.

Já nos derradeiros dias da visita, uma passagem pela Faculdade de Belas Artes, para apreciar a exposição "El Aire Habitado", do escultor francês, residente em Espanha,  Aurélien Lortet. Uma pequena, mas nem por isso menos interessante exposição, onde uma dúzia de objectos valem (e falam) por mil. Excelentes as suas criações (em madeira e metal) sobre temas tão diversos como o sonho, a alienação ou a repressão. A revisitar, este Lortet que, aparentemente, leva uma vida pacata em Carmona, a 30km de Sevilha...

Finalmente, um dos "pratos de resistência" deste périplo cultural sevilhano: um concerto de Luís Pastor, um dos mais conceituados "cantautores" do país vizinho, que já conhecíamos de diversas actuações em Portugal, onde tem sido convidado regular da Associação José Afonso. Desta vez, para apresentar o seu último trabalho discográfico "La Paloma de Picasso", um belíssimo disco, onde se fala da paz, mas também daqueles que a impedem, os tiranos de todas as latitudes e daqueles que os apoiam, uma constante da sua obra. Contemporâneo de Paco Ibañez, Lluis Llach, Joan Manuel Serrat, Carlos Cano e Patxi Andión (estes dois últimos, entretanto, falecidos) Luís Pastor, mantém uma óptima voz e um gosto apurado, como é facilmente detectável em números como "La Paloma de Picasso" (que dá o nome ao CD), "Los Hijos de España", "Verde Cabo de Mis Ojos" (uma homenagem a Cesária Évora), "Náufrago de Las Estrellas" (o meu número preferido), "Mariana Pineda" (com a colaboração da grande Carmen Linares) ou "Cambiar El Mundo" (com voz em "off" do ex-presidente uruguaio José Mujica). 

Um excelente concerto, que o cantor nos confidenciou esperar repetir em Portugal, onde virá no próximo mês de Setembro, a convite do Observatório da Canção de Protesto em Grândola. Lá o esperamos. 

2021/06/03

Da subserviência portuguesa (2)

Nunca mais aprendem, os nossos governantes.

Hoje, Portugal, deixou de pertencer à "green list" (lista verde) estabelecida pelo governo do Reino Unido para os turistas de ambos os países. Por outras palavras, Portugal voltou a ser um "país de risco" para os turistas britânicos (!?). Quem viajar de/para Portugal,  tem de fazer 2 (dois!) testes PCR e uma quarentena de 10 dias, quando entra/regressa ao Reino Unido. 

A partir de agora, os turistas britânicos de férias no "Allgarve", vão ter de sujeitar-se a estas regras, ou regressar mais cedo ao seu país, para evitarem a quarentena obrigatória. Muitos já estarão, neste momento, a fazer as malas e, outros, a cancelar as suas reservas de Verão. Como a medida é selectiva, poderão sempre marcar férias para Espanha, Croácia ou Grécia, que também têm sol e praia e maior escolha, logo mais baratas, em termos relativos.   

O director de turismo, da região algarvia, já veio lamentar-se (logo agora, que a região têm índices de ocupação a rondar os 90%) enquanto os empresários de hotelaria e de restauração algarvia, não escondem a sua indignação. Só falta o Augusto SS, que não deixará de aparecer em "prime time", para mostrar surpresa por tal decisão, menos de uma semana após nós termos sido tão generosos, a ponto de permitir uma final inglesa, com público inglês, em Portugal. Não se faz! Ainda por cima, ao mais "velho aliado"...

Moral desta triste história: "quem muito se agacha..."

2021/05/30

Da subserviência portuguesa

Episódio 1

TAP: Take Another Plane 

No passado dia 27 de Maio, fui impedido de embarcar num avião da TAP, que fazia o voo Sevilha-Lisboa.  Motivo: de acordo com a opinião das funcionárias (espanholas) que faziam o "check-in" no balcão da TAP, faltava-me um teste PCR, exigido na maior parte dos aeroportos internacionais. Formalmente, devia ser assim. Expliquei-lhes que, desde 1 de Maio último, as fronteiras entre Portugal e Espanha estavam abertas, por acordo entre os dois estados. Também expliquei que era cidadão português, que regressava ao meu país e que voava num avião da TAP, uma companhia portuguesa nacionalizada, paga pelos contribuintes portugueses, entre os quais me incluo. Em rigor, elas eram pagas com dinheiro público português. Disse isto tudo sem me rir e ficaram a olhar para mim, sem perceberem patavina. "O teste PCR, por favor", repetiam mecanicamente. Mostrei-lhes o teste PCR, feito em Lisboa há quinze dias atrás, necessário para entrar em Espanha e que a TAP não me pediu à partida de Lisboa. Também lhe mostrei o meu certificado da vacina completo (duas tomas de Pfizer) e o documento, fornecido pela DGS, sem o qual a companhia de aviação não me vendia o bilhete. Ou seja, ao preencher o formulário "online", a TAP (antes de vender o bilhete), alerta para o formulário de sanidade da DGS, que é necessário preencher para entrar no país. Imprimi tudo, enviei e paguei. As "señoritas" não estavam convencidas. Pedi-lhes para chamarem uma funcionária superior ou, na falta desta, entrar em contacto com o piloto a bordo (estávamos a meia hora do embarque) e ele que decidisse. Recusaram. Ali, em Espanha, mandavam elas...Respondi, que podiam mandar em Espanha, mas não mandavam em Portugal e muito menos em mim. Acrescentei (confesso que num tom de voz mais exaltado) que competia às autoridades portuguesas em Portugal, avaliar da minha sanidade e que eu faria um teste à entrada do meu país, caso este fosse exigido. Expliquei-lhes que elas estavam a violar um direito internacional e a impedir o regresso de um cidadão português ao seu país. "Que no, que no", elas sabiam e decidiam... 

Juntou-se uma terceira funcionária, enquanto se consultavam entre elas e os respectivos telemóveis, para avaliar das minhas objecções. Disse-lhes que queria fazer uma reclamação à TAP. Não podia ser, pois a TAP tinha encerrado o seu balcão no aeroporto de Sevilha e só o podia fazer pela NET (!?). "E quem me paga o prejuízo", perguntei? Só a TAP podia responder...Ao fim de mais de meia-hora de discussão, surge uma quarta personagem que, peremptória, afirma "no vas a embarcar, no vas a embarcar!".    

Nessa mesma tarde, graças à minha namorada espanhola, que me conduziu de automóvel até ao Algarve (150 km) pude ainda apanhar o comboio regional para Faro, onde cheguei a tempo de apanhar o último Intercidades para Lisboa. 

No dia seguinte, telefonei para a TAP e contei o sucedido a um assistente. Desfez-se em desculpas (sabe nestes tempos de pandemia, etc e tal...) e aconselhou-me a preencher o formulário de reclamação, onde podia escrever até 4000 caracteres. Já seguiu e estou à espera da resposta. Aproveitei para desancar a TAP e dizer-lhe que desta forma não há salvação para uma companhia que não protege os clientes e, ainda por cima, entrega a sua delegação a uma congénere espanhola, que se está positivamente a borrifar para Portugal. Como de resto, os espanhóis sempre fizeram em relação ao nosso país. 

Episódio 2

Futebol: A Final Europeia do Porto

Portugal, assistiu ontem, a mais um triste episódio de subserviência do nosso governo em relação ao turismo e à industria do futebol. O que se passou no Porto, é uma vergonha para todos: para o Governo, para o Presidente da República, para a Câmara Municipal do Porto e para a Federação Portuguesa de Futebol. 

Portugal não era obrigado a organizar a final da "Champions". Foi a FPF que se ofereceu à UEFA para organizar o jogo. Foi uma iniciativa do presidente da federação, com o aval do governo, claro. Acontece que, Portugal, não só organizou o jogo, como permitiu a entrada directa de 16500 "hooligans" ingleses no "Dragão", para além dos milhares que, sem bilhete, voaram para o Algarve e de lá assistiram ao jogo. Chegaram em mais de 50 voos "charter", a maior parte deles sem testes ou máscaras e passaram o dia todo a embebedar-se, como é habitual. No fim, bêbados que nem cascos, houve pancada da grossa entre as claques e ferimentos entre os polícias, que só hoje, de madrugada, puderam descansar. 

Perante a indignação geral e a polémica suscitada, Marcelo já veio comentar, naquele tom beatífico e hipócrita que o caracteriza, lamentando o sucedido e dizendo que temos de aprender com os erros (!?). Costa, o "habilidoso", não quis comentar e tentou passar entre os "pingos da chuva". A sonsa da Marianita (secretária de estado), veio hoje dizer que não podiam manter todos os adeptos dentro de uma "bolha" (do aeroporto para o estádio e regresso ao aeroporto) pois a maioria já estava espalhada pela cidade. O Cabrita, desta vez, não foi acusado de nada (estará perdido em combate?), enquanto Moreira, o presidente da CMP, veio dizer, que quem criticava o evento, não era amigo do Porto (!?). Sensivelmente, ao mesmo tempo, a policia de costumes, andava no parque do Casino Estoril, a controlar grupos de jovens que ali se juntam, para que estes não formassem grupos de mais de 6 pessoas e usassem máscaras sanitárias (!?). Extraordinário!

Perguntas óbvias: porque é que o jogo não se disputou no Reino Unido, já que a partida era entre dois clubes ingleses? Porque é que os jogos em Portugal não podem ter público e um jogo da UEFA, pode? Porque é que os portugueses são obrigados a manter o distanciamento social, a usar máscara e gel e os ingleses, não? Porquê? 

Bom, a única explicação, que nos ocorre, é que o turismo e a industria de futebol, são mais importantes que a pandemia. Venham os turistas, espanhóis ou ingleses, pouco importa, desde que gastem e deixem cá o dinheiro, naquilo que sabemos fazer melhor: servir à mesa. 

Que os espanhóis, ou os ingleses, não nos deixem entrar no nosso país e no deles (e continuem a "cagar" em nós), não importa nada, desde que a restauração e a hotelaria, possam pagar as contas e as moratórias que aí vêm...

Uns tristes, estes gestores da coisa pública portuguesa, sem quaisquer princípios ou dignidade, sempre de mão estendida. Fracos perante os fortes (estrangeiros com dinheiro) e fortes perante os fracos (imigrantes ilegais a viverem em condições sub-humanas, por exemplo). 

Um nojo, tudo isto. Vão-se todos foder!     

      

2021/05/05

"Frutos Vermelhos" (2): Toda a gente sabe, mas ninguém faz nada...


Não há inocentes nesta história. A situação é conhecida há décadas. 

A imprensa escreveu sobre a situação, as televisões fizeram reportagens sobre o assunto, os autarcas da região sabem, a GNR sabe, a PJ sabe, a ASAE sabe, o SEF sabe, o MAI sabe e "last but not least", o governo todo, sabe. Então? Porque é que esta situação nunca foi resolvida?      

Porque as propriedades agrícolas da região (estufas e não só) dão muito dinheiro a ganhar aos proprietários dessas herdades, que continuam a comprar e a aumentar o perímetro das explorações, muitas delas criadas em regiões protegidas, sob a capa de "PINs" (Projectos de Interesse Nacional) manhosos,  autorizados através de PDM alterados, com a conivência das autarquias locais. Tudo isto já foi dissecado ao longo dos anos e qualquer pessoa, que visite a região, vê e conhece a situação. Os responsáveis políticos também e "fecham os olhos", como é habitual num país "faz de conta" (o que não se vê não existe).  

Não fora a pandemia e a necessidade de criar um "cordão sanitário" no concelho de Odemira e tudo continuaria como dantes (quartel-general em Abrantes). Uns pândegos, estes gestores da coisa pública.

E agora? Será que os responsáveis (políticos e não só) vão tomar medidas efectivas para controlar os "engajadores" e os empregadores locais, que se aproveitam desta legião de ilegais há décadas, sem que sejam punidos por isso? Será que os imigrantes ilegais (fala-se em 6.000 pessoas, num universo de 13.000 trabalhadores), vão ser legalizados para poderem continuar a trabalhar na agricultura? Será que vão passar a ter direitos iguais aos nacionais? Será que vão poder aceder a habitações condignas e deixar de viver em contentores, divididos com 4 e mais pessoas, onde a promiscuidade é total e o alojamento é descontado no salário, pelos intermediários (máfias) que trazem estes imigrantes para a Europa? Pode ser que sim. Pouca gente acredita. 

Só mesmo os portugueses, que nunca resolvem nada em tempo útil e só "acordam" para os problemas quando são com estes confrontados, parecem estar surpreendidos. Deve ser por isso, que o primeiro-ministro, mandou 4 ministros (quatro!) para a região, "mostrar a cara e dar o corpo às balas". Passou por lá o ministro da Defesa (da Defesa?), o ministro da Administração Interna (um tonto, que culpa sempre os outros pelos seus erros), a ministra da Agricultura (que ninguém sabia que existia) e a Secretária de Estado, responsável pelo Território (que teve o desplante de declarar que a situação era conhecida há anos e que já foi muito pior...). Vê-se e não se acredita. Mas, onde é que esta gente vive?...

Tudo isto aconteceu nos últimos dias e continua a alimentar a discussão nacional, em todos os canais televisivos e debates sobre o tema. Afinal, toda a gente sabia e tem uma solução para o assunto. Extraordinário.

Logo agora, que Portugal ocupa a presidência da União Europeia e vai organizar uma cimeira no Porto, sobre "Coesão Social na Europa". Azar dos Távoras. Que fazer?

Sugiro ao Augusto SS que, durante a permanência dos líderes europeus no nosso país, alugue um autocarro e leve a Merkel, o Macron e a Von der Leyen ao Sudoeste Alentejano, ver as estufas. Até já tenho um título para a excursão: "Visite Odemira, a Idade Média a 2 horas de Bruxelas!". Sucesso garantido. 

2021/05/02

"Frutos Vermelhos": A economia não pode parar...

No dia do trabalhador, nada mais obsceno do que ler e ver as reportagens diárias, sobre as condições em que vivem e trabalham os imigrantes asiáticos nas estufas do sudoeste alentejano. 

Para quem não sabe, Portugal é, a par de Espanha, um dos maiores exportadores de produtos hortícolas para a Europa do Norte. Especialmente apreciados, são os vegetais, os citrinos e os denominados "frutos vermelhos" (morangos, framboesas, etc...) que têm cada vez mais procura nos mercados internacionais e nos restaurantes do grandes "chefs". A razão, é simples: dadas as favoráveis condições climatéricas da região, que possibilitam mais de uma colheita anual, é possível manter os mercados do Norte (leia-se, países frios) abastecidos durante todo o ano, com produtos de qualidade, a preços competitivos. Até aqui, tudo bem. Onde há procura, a oferta deve adaptar-se. É "o mercado a funcionar", como gostam de repetir os adeptos do mercado livre.

Só que estas excepcionais condições, atraentes para quem compra e para quem vende, tem um senão. Só é rentável, porque assenta em condições de exploração dignas do Terceiro Mundo. 

Tomemos o exemplo das explorações de "frutos vermelhos" no Sudoeste Alentejano, onde existem mais de 100 herdades e estufas ao longo da costa, que abrangem as freguesias de Odemira, Sto. Teotónio, Almograve, Aljezur e Odeceixe. Há mais de 10 anos que funcionam, empregando, neste momento, uma população flutuante calculada em mais de 10.000 "apanhadores" sazonais. O que começou por ser um projecto de sucesso, apoiado com fundos europeus (a "Vitacress" é, apenas, o mais conhecido), rapidamente se tornaria um exemplo de más práticas laborais e ambientais, devido à sobre-exploração dos solos através de culturas intensivas, muitas delas criadas em zonas ambientais protegidas, ao arrepio dos PDM aprovados pelas autarquias da região. Nada que demovesse os proprietários locais, que descobriram ali a "galinha dos ovos de ouro". Nessa época, a maioria dos trabalhadores era ainda portuguesa. 

Após a crise económica de 2010, que obrigou mais de 400.000 portugueses a procurar trabalho noutras latitudes, os proprietários locais viram-se obrigados a contratar mão-de-obra estrangeira, disponível para trabalhos não-qualificados e sujeita a leis laborais arbitrárias, que os próprios desconheciam. Foi nesta altura em que começaram a aparecer os primeiros imigrantes de origem asiática (paquistaneses, bengalis, nepaleses e afegãos) que voltavam anualmente para fazer a temporada das colheitas. Poucos destes imigrantes residiam no país e a maior parte regressava ciclicamente na "apanha", depois de temporadas em Itália ou Espanha, onde trabalhavam em estufas similares. 

O que começou por ser um trabalho sazonal, tornar-se-ia um hábito, rapidamente aproveitado por engajadores sem escrúpulos, que angariam trabalhadores estrangeiros noutros países europeus com a promessa de trabalho certo e remunerado. O "modelo" é conhecido e praticado em toda a bacia mediterrânica, com destaque para a Itália (Saviani, no seu livro "Gomorra", fala disto) e em Espanha, onde a exploração nas estufas da Andaluzia é frequente motivo de denúncias na imprensa espanhola.

Actualmente, vivem e trabalham na região das estufas do Alentejo, mais de 10.000 imigrantes, a maior parte em regime sazonal. São trabalhadores temporários, que recebem 2,50euros por hora de trabalho (média de 400euros/mês) e que chegam a pagar por um beliche 120euros, num contentor dividido com 4 pessoas. Cozinham onde dormem, em condições sanitárias deploráveis. Muitos são ilegais e, por essa razão, não pagam segurança social. Todos eles são pagos pelos engajadores (intermediários) que gerem os salários atribuídos pelos empresários agrícolas. 

Para esta situação, que tem vindo a ser denunciada pela imprensa nacional e é do conhecimento geral, nunca foi encontrada uma solução condigna, até à semana passada. Isto aconteceu, quando o governo anunciou o fim do "estado de emergência" para todo o país, à excepção de meia-dúzia de freguesias, entre as quais Odemira, Sto. Teotónio e Aljezur. A razão, prende-se com o elevado número de contágios de Covid naquela região, muito acima da média nacional, o que fez disparar os sinais de alarme da Direcção Geral de Saúde. Porquê ali e não noutras regiões? Porque naquela zona, os contágios, devido à promiscuidade existente e à falta de condições sanitárias dos trabalhadores das estufas, são mais frequentes entre os trabalhadores e a população local com quem interagem. Porque os trabalhadores das estufas não utilizam o Serviço Nacional de Saúde, nunca são testados e raramente sabem que estão infectados. Dado o número de incidências detectado, o governo decidiu criar uma "cerca sanitária" para as freguesias mais atingidas. A partir de agora, os habitantes de Odemira e das vilas adjacentes (trabalhadores das estufas incluídos) estão impedidos de sair ou de entrar no concelho e são obrigados a um período de quarentena. Todos estes imigrantes passaram a ter direito a assistência médica gratuita e a uma habitação temporária, num complexo turístico da região, requisitado pelo governo para o efeito. 

A história não terminou aqui, dado que os proprietários da complexo turístico não concordaram com a medida governamental e recorreram para o Tribunal. Independentemente do resultado, uma coisa é certa; não fora a pandemia e, ainda hoje, os responsáveis políticos por esta vergonha civilizacional, não se tinham dignado a resolver um problema que nos devia envergonhar a todos. Há males que vêm por bem. 

No primeiro de Maio, hoje comemorado em honra dos trabalhadores, esta é a homenagem possível a todos os imigrantes que trabalham nas estufas do Alentejo.

(Imagem de Edvard Munch, Cadernos de Esboços, Punho com Martelo 1909-1910)

2021/04/25

O 25 de Abril e o SNS

 


Falar do 25 de Abril, nesta altura, leva forçosamente a ter de falar do SNS. Que nesta data fundadora pousa as suas raízes estruturais. 

Nem quero imaginar o que teriam sido os últimos meses se não houvesse SNS. Fundado e assente, ainda hoje, num espírito de resistência e de visão da sociedade, que já tinha dado provas antes da data revolucionária. Lembro-me de ver pessoal da saúde, incluindo muitos estudantes de medicina de então, ajudando, como voluntários e contra as manobras, a inacção e a vergonhosa incompetência do regime de então, durante episódios como as cheias de 1967 (ver aqui). Lembro também a criação do Serviço Médico à Periferia, o seu papel revolucionário, que, penso, de alguma forma prenunciou a criação do SNS (ver aqui.)

Nesta altura da vida do País é bom lembrar a importância do SNS e a sua actuação durante esta crise. Uma actuação exemplar, reconhecida por muitos, mas talvez ainda não tão amplamente valorizada quanto seria justo que fosse. De tão mal tratado, o SNS banalizou-se. Porquê? Talvez a Democracia precise de dar uma resposta a esta pergunta.

É preciso repensar constantemente a Democracia. É fundamental sublinhar que o SNS é uma das mais importantes conquistas de Abril, incompatível, ou melhor, só possível, com a instauração da Democracia. Sem ela não haveria SNS. É bom lembrar isto.

25 de Abril sempre!

2021/04/06

Monólogos da Vacina (2)

Mensagem SMS: 

COVID19: RUI, vacinação 09/04/2021, as 16.18h. em pav. mu. rita borralho. Responda:

SNS.NUMERO UTENTE. SIM/NAO até 06 ABR. Ex: SNS.......SIM

Respondo, de acordo com as indicações. Recebo nova mensagem, a comunicar que o contacto tinha falhado. Tentei, mais duas vezes. Sem êxito. O sistema, não aceita a minha mensagem. 

Telefonei para o número COVID19, do Serviço Nacional de Saúde (SNS), para explicar a situação. Pedem-me autorização para gravar a chamada (premir 1). Primo 1 e pedem-me para escolher 2 (vacinas). Primo 2 e dão-me música...

Ao fim de uns minutos, ouço uma gravação: "Dado estarem todas as linhas ocupadas, não podemos atender a sua chamada. Tente mais tarde".  Tentei mais duas vezes. Sem sucesso. Desisto do SNS.

Experimento o Centro de Saúde (CS) da minha área. Pedem-me autorização para gravar a chamada (premir 1). Após uns segundos, uma gravação: "A sua chamada está em lista de espera. Se não quiser esperar, tente mais tarde". Tento mais tarde. Ao fim de duas tentativas, desisto do CS. 

Decido ir ao Centro de Saúde, que dista 500m de minha casa. À porta, sou recebido por um "segurança". Explico-lhe a situação (tenho de confirmar a data e a hora da minha vacina e os serviços não aceitam a minha mensagem). "Óptimo". Põe-me as mãos nos ombros e sossega-me: "No stress". Não estou "stressado", respondi. Olha-me e diz: "Tem aí o seu telemóvel? Eu mostro-lhe já como se faz...". Lê a mensagem que recebi e a minha resposta e diz: "falhou o contacto, que estranho...". Concordo, mas não estranho. 

Volta a pôr-me as mãos nos ombros e repete: "No stress", vai lá no dia e na hora marcada e mostra o seu telemóvel. É atendido na hora. Vai tudo correr bem. Parabéns!".

Despeço-me e volto para casa. Perdi duas horas. Não resolvi nada. Ganhei o dia. Sem "stress".

2021/03/18

Eleições na Holanda: Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes

Como previsto, os holandeses votaram na estabilidade. Esta é a principal conclusão a extrair do resultado das eleições de ontem, que deram (mais uma vez) a vitória ao maior partido governamental VVD (Liberais de Direita) e aos seus parceiros governamentais da última legislatura, D'66 (Liberais Progressistas), CDA (Democratas-Cristãos) e CU (Cristãos Reformadores). Ou seja, cerca de 50% da votação total, correspondentes a 78 lugares no parlamento (150 lugares). 

Em linhas gerais, podemos concluir que a Direita Democrática e Conservadora, ganhou, aumentando globalmente a sua votação; que a Esquerda, na sua totalidade, perdeu; e que a Extrema-Direita, racista, xenófoba, e negacionista, apesar de uma ligeira subida, ficará afastada do poder.   

Estes resultados estão em linha com as sondagens dos últimos dias, ainda que o governo cessante se tenha demitido há dois meses, devido a um escândalo de subsídios sociais, indevidamente retirados a milhares de famílias, a maioria das quais com apelidos estrangeiros. Quando foi revelado o relatório sobre este escândalo, o governo Rutte (VVD) assumiu a responsabilidade na gestão do episódio, salvando desta forma a "honra do convento" e,  provavelmente, um resultado menos positivo nestas eleições. 

Esta foi, de resto, uma campanha morna, com debates medíocres, como aquele entre o primeiro-ministro cessante Rutte (VVD) e o líder do principal partido da oposição Geert Wilders (PVV), um xenófobo racista, cujo programa se resume à proibição do Islão e à expulsão de imigrantes muçulmanos. Num período, em que os cidadãos do país estão mais preocupados com a actual pandemia e com o programa de vacinação, trazer para o debate eleitoral questões etnico-culturais, só por mera chicana política. Isso mesmo, parece ter percebido o eleitorado, que apostou na continuidade e numa certa segurança que lhe oferecem os políticos do "mainstream". 

Um dos temas que esteve ausente dos debates, foi a Europa, assim como a estratégia europeia para controlar a pandemia (vacinação) e a saída da crise económica e social que se seguirá. A Holanda que, juntamente com os chamados "países frugais" (Finlândia, Austria e Suécia), é um dos países que mais ferozmente se opôs à mutualização da dívida pública dos estados-membros - forma de entreajuda encontrada para ajudar os países mais atingidos pela crise sanitária (Itália, Espanha, etc.) - acabaria por concordar com o "fundo de ajuda" proposto por Von der Leyen (750.000 milhões de euros) ainda que este montante esteja sujeito à aprovação dos respectivos parlamentos e ao escrutínio posterior da sua aplicação em cada país. A proposta, já aprovada na generalidade, está também sujeita à aprovação final do parlamento europeu.   

Outra das questões que continuam a dominar a opinião pública holandesa, são as medidas de confinamento impostas ("recolher obrigatório" a partir das 22h, por exemplo) um "unicum", num país que não conhecia tal medida, desde a ocupação nazi durante a última guerra. Esse foi, de resto, um dos tópicos centrais da campanha eleitoral do FvD, um jovem partido, de extrema-direita populista, criado à imagem do seu líder (Baudet) e dos seus seguidores "anti-sistema" (!?), na linha do negacionismo Trumpista e Bolsonarista de outras latitudes. 

A esquerda na sua totalidade (PvdA, SP e Groenlinks) não conseguiu mais do que 16% dos votos, correspondendo a 26 deputados, provavelmente a maior surpresa destas eleições, após os bons resultados obtidos recentemente pelo Groenlinks (Verdes). Já o PvdA, um dos partidos históricos da democracia holandesa (fundador do estado social) continua longe dos resultados obtidos nas décadas de setenta, oitenta e noventa, quando os trabalhistas governaram no país. 

Confrontado com as perguntas dos jornalistas e os números da sua vitória (abaixo do previsto), o primeiro-ministro cessante (Rutte) concordou com algumas críticas sobre as políticas seguidas (aumento de impostos, cortes no sector social e na saúde) e prometeu maior empenho num futuro gabinete, que liderará pela 4ª vez consecutiva, a mais longa presidência da história holandesa do pós-guerra.

Hoje mesmo, começaram as conversações entre os dois partidos da coligação mais votados (VVD e D'66) com vista à formação de um novo governo. Como é tradição, um processo que pode durar meses.

Resultados Eleitorais (principais partidos com assento parlamentar): 

VVD (Liberais de Direita)          22,1% (35 deputados)

D'66 (Liberais Progressistas)      14,8% (23 deputados)

PVV (Extrema-Direita)               10,9% (17 deputados)

CDA (Democratas-Cristãos)         9,8%  (15 deputados)

PvdA (Sociais-Democratas)          6,%    (9 deputados)

SP (Extrema-Esquerda)                 6%     (9 deputados

FvD (Populistas de Direita)           3,8%  (8 deputados)

GroenLinks (Verdes)                      3,5% (8 deputados) 

PvdD (Partido para os Animais)    3,2% (6 deputados)

CU (Cristãos Reformadores)          3%    (5 deputados)                               

Nota: Estes são os partidos com maior representação parlamentar. O futuro parlamento holandês, saído destas eleições, passará a incorporar 17 partidos no total. A totalidade dos deputados é de 150. Para obter uma maioria qualificada, são necessários 76 deputados.

2021/03/14

Em Brasília, a Terra é "plana"...

Desde 2019 que o Brasil é governado por um fascista. Não é a primeira vez. A última tinha sido durante a ditadura militar, entre 1964 e 1988. De então para cá, muitos foram os presidentes que governaram o país, o maior do continente sul-americano. Todos eles, democratas, como Fernando Henrique Cardoso, Lula Inácio da Silva, Dilma Rousseff, entre outros. Dilma Rousseff (2011-2016) foi, inclusive, a primeira mulher a ser eleita presidente em toda a América do Sul. 

O Brasil era, à época, um país respeitado, não só pela sua democracia (a maior do continente), mas também pelos seus programas de inclusão social, lançados ainda durante o governo de Lula da Silva (2002-2010) e pela sua robusta economia, a 7ª maior do Mundo. Os índices sociais e económicos dessa década, eram referidos como exemplo para os países em vias de desenvolvimento (Brics). Sem admiração, o país passou a integrar o G'20 (o "forum" dos países mais desenvolvidos do Mundo) e conquistou a simpatia internacional.

As coisas começaram a "derrapar" no primeiro mandato de Dilma (2011-2014). Erros cometidos com o modelo de desenvolvimento social e económico seguido (o PIB chegou a ter uma contracção de 9% e o desemprego a atingir 11% da população activa), num contexto de crise financeira mundial (sub-prime) e de despesas acrescidas (provocadas pela organização do Campeonato do Mundo de Futebol 2014 e pelos Jogos Olímpicos 2016), contribuiriam para a queda de popularidade do seu governo. 

Seria, no entanto, no segundo mandato de Dilma (2014-2016) que a situação se extremou. O anúncio de um aumento nas tarifas de transportes (enquanto o país gastava fortunas em eventos desportivos) para além da acusação de má gestão (a alegada "pedalada fiscal"), levariam os seus detractores (maioritariamente brancos da classe média) a pedir a impugnação do cargo (impeachment), moção que seria levada a votação no Congresso a 17 de Abril de 2016.

O que se passou nesse dia, está ainda na memória de todos os que puderam presenciar em directo a mais bizarra e degradante sessão vista num parlamento. Uma sessão, que pode ser considerada um "case study" em demagogia e manipulação nos parlamentos democráticos, tal a ignorância e virulência demonstradas pelos seus participantes: de deputados evangélicos histéricos a "maçons" desbragados, passando por militares saudosistas da ditadura e corruptos de diversa plumagem, todos eles representantes das forças mais retógradas do país, houve de tudo um pouco. Foi nessa histórica (e histérica) sessão que vi, pela primeira vez, Jair Bolsonaro, um obscuro deputado e ex-militar na reserva, conhecido pelas suas simpatias com a ditadura militar. A sua declaração de voto, em que elogiou o maior torcionário do regime militar, o coronel Carlos Ustra, o responsável máximo pelas torturas infligidas a Dilma Rousseff, revelaram ao Mundo o seu lado mais pulha. O resto, é História. Dilma acabaria por ser demitida (em Agosto de 2016) para ser substituída por um personagem cinzento, o vice-presidente Temer, o "mordomo", que se limitou a marcar presença, sem que hoje em dia alguém se lembre de um acto seu. 

Com a prisão de Lula, acusado num processo polémico, montado pelo juíz Moro para o afastar das eleições de 2018, o caminho para a eleição de Bolsonaro, o candidato da direita, ficou mais livre. Ganharia as eleições com 55% dos votos, apoiado pelas forças mais conservadoras e reaccionárias do Brasil: os evangélicos, os ruralistas e os militares. 

Como era previsível, a coisa só podia correr mal. Bolsonaro, para além de fascista, é um calhau, sem qualquer educação ou preparação para o cargo. As suas "boutades" são de antologia e já fazem parte do anedotário nacional. É difícil escolher um só defeito: é autoritário, racista, machista, misógino, homofóbico e negacionista. Nega as alterações climáticas e autoriza a devastação da mata amazónica, o que lhe tem valido criticas de toda a comunidade internacional. Discrimina os índios, hoje cada vez mais confinados em reservas, onde são sujeitos a "queimadas" provocadas por fazendeiros, criadores de gado e de plantações de soja. É adepto do porte de arma, invocando a defesa pessoal dos cidadãos contra a criminalidade existente, que só tem aumentado desde que chegou ao poder. Diz combater a corrupção (a sua maior acusação contra Lula) mas levou toda a família para o governo e dois dos seus filhos já foram acusados de peculato e de participação em crimes, como a da activista Marielle, no Rio de Janeiro.

O modo como "gere" a actual crise pandémica, é a maior prova da sua imbecilidade. Começou por negar o perigo do vírus, apelidando-o de "gripezinha" e "resfriado", coisas sem importância. Passou meses sem usar máscara ou distanciamento social, apelidando de "maricas", quem mostrava medo de ser contaminado. Devido às suas políticas negacionistas, o país entrou em crise sanitária profunda e, nalgumas regiões (Manaus), as populações não recebem suficiente oxigénio e morrem por asfixia. Hoje, o Brasil, é o 2º país com maiores índices de contágio e mortes a nível mundial, só ultrapassado pelos EUA, respectivamente: 11.439.250 / 9,52% e 30.055.349 / 25,01%. O número de mortes, ultrapassou esta semana pela primeira vez 2.000 casos, num dia apenas! Uma catástrofe sem procedentes, só possível num país governado por um louco. Está em curso um verdadeiro genocídio no Brasil, denunciado pelas organizações de saúde internacionais. Entretanto, criticado à esquerda e à direita, Bolsonaro, tem-se refugiado no seu ministro de saúde, o militar Pazuello, outro ignorante como ele. Provavelmente, este virá a ser substituído, já que o "mito" necessita de ganhar as eleições em 2022 e precisa de um "bode expiatório" para justificar as suas políticas de extermínio. Perante a desobediência de alguns governadores estaduais (S. Paulo, por exemplo) que decretaram planos de confinamento para evitar mais contágios, o fascista ameaça com tanques e exército nas ruas, como forma de obrigar os governadores a obedecerem. Pior, é impossível.

Como afirmou, esta semana, o ex-presidente Lula, entretanto ilibado das acusações de Moro num processo ilegal, a Terra não é plana. Nunca foi. A Terra é redonda! 

 

2021/03/12

Desconfinamento: um país "a conta-gotas"...


Na ausência de Marcelo Rebelo de Sousa, em visita ao Vaticano e à Casa Real Espanhola -  tradicionalmente as suas primeiras visitas ao estrangeiro, após a tomada de posse (!?) -  coube a António Costa a missão de comunicar ao país o tão aguardado plano de "desconfinamento", anunciado para o dia 11 de Março. 

Convém lembrar que, desde Março de 2020, o país já conheceu 12 períodos de confinamento, sendo o actual o mais severo de toda a Europa, juntamente com a Irlanda que, no entanto,  não encerrou as escolas.  

E o que tinha para anunciar, ontem, o primeiro-ministro?

Que, depois de ouvir os especialistas e aconselhar-se com o presidente da república, o governo tinha chegado à conclusão que o país começará a "desconfinar" a partir da próxima segunda-feira, dia 15 de Março. Isto, porque o índice de transmissibilidade (Rt) actual, é de 0,8% (abaixo do Rt 1, o índice máximo aceite). No caso de Portugal, ainda que o número de infectados nas UCI's esteja a diminuir diariamente, ainda estamos longe dos 120 doentes por 100.000 habitantes, que o governo considera o "ratio" ideal.

Criticado à esquerda e à direita, pela má gestão da crise pandémica em Dezembro, o governo optou, desta vez, por "desconfinar" devagarinho, (a "conta-contas" na expressão de Costa), não vá o Diabo tecê-las. Teremos assim, um "desconfinamento" lento e progressivo, que durará até 4 de Maio, se tudo correr como previsto... 

O plano actual, deste 13º confinamento (!?),  prevê 4 fases (de 15 dias cada), ao fim das quais será avaliada a passagem à fase seguinte, de acordo com um cronograma estabelecido por prioridades: primeiro as creches + o ensino básico; os barbeiros, cabeleireiros e similares (?); o pequeno comércio e as livrarias. Depois, todas as outras actividades (cinemas, teatros, restaurantes, hotelaria, recintos desportivos, festivais, fronteiras, etc.) até Maio. Para avaliar da passagem à fase seguinte, foi estabelecido um sistema "semáforo": verde, amarelo e vermelho. Assim, a cor "verde" permite passar à fase seguinte, a cor amarela implica deixar tudo como está e, a cor "vermelha", obriga a voltar à primeira fase. Isto, por regiões, uma novidade em relação ao primeiro confinamento do ano passado, quando todo o país era abrangido pelas mesmas regras. 

Acontece que, como todos os planos, este baseia-se num "plano ideal", segundo o princípio que as coisas vão correr pelo melhor. Mas, como poderão as coisas correr bem, se não são feitos "testes" suficientes e "rastreios", à população? Como poderão as coisas correr bem, se não estão a chegar as vacinas prometidas, em tempo útil, comprometendo, desde logo, o plano de vacinação nacional (que apontava para 70% da população vacinada, até meados de Agosto?). Como poderá, desta forma, ser assegurada a tão propagada "imunidade de grupo", antes do próximo Outono, quando está prevista uma 4ª vaga da pandemia? E, depois, mesmo que essa percentagem seja atingida, quem pode garantir a imunidade (aqui ou na Europa), quando 2/3 do planeta ainda nem sequer começou com a vacinação? Mais: como saber quem está vacinado ou não? Só com uma prova. Que tipo de prova? um cartão sanitário. Há quem lhe chame "passaporte sanitário". Um eufemismo para controlar os viajantes entre estados e continentes. Dito de outro modo: quem não tiver um passaporte sanitário (prova de que está vacinado contra o Covid19) não poderá entrar em determinados países. Sabendo que a maioria dos países africanos e sul-americanos (e não só) ainda não dispõe da vacina e que só lá para 2023 ou 2024 a poderão obter, podemos imaginar a consequência para os cidadãos de países do Hemisfério Sul: só poderão entrar na Europa, ou na América do Norte, se tiverem um passaporte sanitário...

Isto leva-nos a outras questões, relacionadas com a vacina. Certamente, com a melhor das intenções, na linha do "espírito frugal" que sempre caracterizou protestantes luteranos e calvinistas, a senhora Von der Leyen, resolveu fazer uma compra de vacinas por "atacado" (com o intuito de baixar o preço por unidade) para os 27 países membros da União Europeia. Só que, não foram estes, mas os países mais ricos e que estiveram dispostos a abrir os "cordões à bolsa" (entre outras razões, porque também foram aqueles que financiaram a investigação farmacêutica) a comprar toda a produção das grandes fábricas (Pzifer, Moderna, etc...) antes da Europa. Só assim se explica, que os EUA, o Reino Unido ou Israel, por exemplo, no mesmo período de tempo (10 semanas) já tenham vacinado, respectivamente 1/3, 1/4 e  metade das suas populações, quando a maior parte dos países europeus nem sequer 10% da população conseguiu vacinar! O mais estranho (ou talvez não) é não haver muita gente a denunciar este estado de coisas (há excepções, claro) quando o escândalo é por demais evidente e os políticos responsáveis não são chamados a "prestar contas" (accountability) sobre coisas tão evidentes como esta. Portugal (actualmente na presidência rotativa da União Europeia) tem aqui uma oportunidade para fazer ouvir a sua voz sobre tal situação. Será desta vez que Costa ousará "dar um murro na mesa" ou passará, mais uma vez, ao lado, interessado como está na famigerada "bazuca", que parece ser a panaceia para todos os males da nação?

2021/03/08

Desconfinamento: do Oito ao Oitenta...

Os especialistas do INFARMED, reuniram e divulgaram hoje os últimos números da Pandemia e as possíveis consequências para um (des)confinamento a curto prazo. Todos os indicadores, em todas as faixas etárias, melhoraram significativamente. 

Resumindo: Portugal, que há um mês atrás detinha (em números relativos) os piores números de infectados e mortes a nível mundial, passou a ter o RT (Risco de Transmissão) mais baixo da Europa: 0,74%! 

O país regista hoje mais 365 novos casos e 12 mortes, o valor mais baixo dos últimos seis meses. Pelo 24º dia consecutivo, o número de pessoas em UCI (Unidades de Cuidados Intensivos) diminuiu para 342 pessoas (-12). O número médio de internados continua a decrescer e aproxima-se dos 200 casos diários, uma fasquia considerada segura para começar o desconfinamento. A manter-se tal média, os especialistas prevêem que, em finais de Março, haverá cerca de 120 internados nas UCIs. Uma boa notícia.

Na posse de tais dados, o governo, tomará esta semana uma decisão sobre o modelo de desconfinamento a seguir. Certo é que será lento e em fases (quantas, não se sabe).

De acordo com opiniões, entretanto ouvidas, poderá haver uma primeira fase (a partir de 15 de Março), quando serão abertas as escolas do 1º ciclo (infantis e primárias); Uma segunda fase (a partir da Páscoa), quando serão abertas as escolas do 2º ciclo e o ensino superior (nesta fase, poderá haver uma abertura selectiva de pequenos comércios, como barbeiros, cabeleireiros e afins, ou esplanadas de restaurantes). Seguir-se-á uma terceira fase, para o restante comércio e actividades paralelas (ginásios, etc...). Finalmente, uma quarta-fase, para eventos desportivos e festivais ao ar livre...

Todas estas opiniões/sugestões não passam, no entanto, de especulações sujeitas à aprovação e confirmação por parte do governo, que ainda não se pronunciou sobre fases e/ou datas de desconfinamento. O anúncio oficial, será feito no próximo dia 11 de Março. Até lá só podemos (des)esperar...

2021/02/23

Eram sete da manhã...

...Quando o telefone tocou, em minha casa, naquela segunda-feira, dia 23 de Fevereiro de 1987. 

Na véspera, o Círculo de Cultura Portuguesa na Holanda, em colaboração com a Cooperativa Cultural Etnia, tinha organizado o último de 3 concertos integrados no projecto "Roots & Time" (música de raiz rural e urbana), na mítica sala do "Paradiso" em Amsterdão, perante uma assistência entusiasta, maioritariamente composta por holandeses.

Do programa, faziam parte a "Rusga da Serra D'Arga" (música do Alto-Minho), a "Brigada Victor Jara" (nova música tradicional portuguesa) e Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa), para além de uma palestra, a cargo do etnomusicólogo Domingos Morais e uma exposição itinerante sobre música tradicional portuguesa.     

Após o concerto, ainda houve tempo para uma demorada confraternização e as despedidas da última hora, já que a caravana regressava a Portugal no dia seguinte. Porque nem todos os convidados pernoitavam no hotel, alguns tiveram de ficar em casas particulares. Foi o caso de dois membros da Rusga da Serra D'Arga e dos responsáveis da cooperativa Etnia (Mário Alves e Antonieta Brandão), que pernoitariam em minha casa. À última hora, surgiria ainda o João Nabais, vindo de Bruxelas, que não quis perder a oportunidade de presenciar o espectáculo. Também ele, dormiria no sofá. 

Penso que ninguém ouviu o telefone tocar, naquela madrugada. Perante a insistência da chamada, lembro-me de ter despertado e, meio a a dormir, ter passado por cima dos vários hóspedes distribuídos pela casa. Provavelmente, alguém do hotel a confirmar a hora da partida do avião, pensei...

Afinal, era o Carlos Neves, ex-exilado e companheiro de aventuras na Holanda, entretanto regressado a Portugal. Ainda imaginei que ele queria saber como tinha corrido o concerto na véspera e perguntei "isto são horas de acordar as pessoas?"... 

"Morreu o Zeca" foram as suas primeiras palavras. 

Seguiram-se os pormenores e as perguntas habituais de ocasião. Sabíamos que o Zeca se encontrava gravemente doente e esperava-se o pior desfecho a qualquer momento. A última vez que actuara na Holanda (1981) já eram visíveis as dificuldades em palco e, dois anos mais tarde, actuaria pela última vez em Portugal.  A conversa estendeu-se aos restantes hóspedes, entretanto acordados. 

Nessa manhã, o tema da conversa seria apenas um: José Afonso e o seu legado. Sobre o cantor, com quem a maioria dos presentes tinha convivido, ouvimos as inúmeras estórias, agora renovadas. As estórias e a história da canção popular, que nunca mais seria a mesma depois do Zeca, o mais importante e simbólico renovador da música portuguesa do último século. 

Passaram, entretanto, 34 anos. Agora que o estado português se prepara para classificar a obra de José Afonso, como Património Cultural de Portugal, resta-nos registar a efeméride e lembrar o cantor, o músico, o poeta, o andarilho e o cidadão, nome maior da Liberdade que comemoramos há 46 anos.

Obrigado, Zeca.

2021/02/16

Pandemia: avanços e recuos

Há um ano atrás, o Covid19 ainda não tinha chegado a Portugal. Seis meses mais tarde, e apesar de todas as vicissitudes conhecidas, o país orgulhava-se de ter um dos melhores "ratios" de internados/mortes, por milhão de habitantes, em toda a Europa. O "milagre português", como chegou a ser apelidado pela imprensa estrangeira, deveu-se fundamentalmente a três ou quatro medidas atempadas: confinamento severo (que incluiu escolas, recintos desportivos e espectáculos em geral); encerramento de fronteiras e suspensão de todas as actividades não essenciais. Factores aleatórios, como a situação geográfica, a diminuição de turismo em fim de estação ou um clima mais ameno, contribuíram para este sucesso, mas não explicam tudo. O medo, perante um vírus desconhecido para o qual não eram conhecidos antídotos e o "respeitinho", inculcado ao longo de décadas no espírito dos portugueses, fez o resto. 

Embalados pelo "sucesso" desta campanha e convencidos que o pior já tinha passado, os portugueses voltaram a fazer o que sempre fizeram no Verão: férias e praia. Diga-se, em abono da verdade, que também o governo contribuiu para a euforia geral, já que Portugal se candidatou a tudo o que era prova desportiva internacional (Fase Final da Taça dos Campeões Europeus, Grandes prémios de Fórmula 1 e de Motos no Algarve...) certamente na esperança de obter receitas extraordinárias, num ano de pandemia. Como se tudo isto não chegasse, descurámos a 2ª vaga, anunciada desde Janeiro do passado ano pela OMS, quando o vírus foi detectado na China. 

Como previsto, a segunda vaga chegou e, para nosso "azar", mais cedo do que esperávamos. Pior: não só chegou mais cedo, como continuava a não haver uma vacina que pudesse limitar os danos. Estávamos em Novembro e o aumento exponencial de infectados e de mortes era já um dado adquirido. Perante as projecções conhecidas, que fez o governo? Anunciou um novo confinamento, mas "suave": Ao contrário do primeiro, que teve 25 excepções, este segundo teria 52, as escolas manter-se-iam abertas e haveria computadores para todos os alunos que necessitassem de seguir as classes em casa. Um confinamento, pensado para um mês, que obrigaria a um sacrifício inicial, mas seria compensado com uma abertura na época natalícia, quando as famílias estão juntas "para oferecer prendas e comer o bacalhau e o bolo-rei"... Já a nível internacional, não haveria limitações e toda a gente (emigrantes incluídos) podia visitar Portugal por esses dias...

O que se passou, entretanto, é conhecido: com a abertura de fronteiras e a ausência de testes nos aeroportos, aumentaram os contágios, agora também provocados por estirpes novas (a inglesa, a brasileira e a Sul-Africana), para as quais não sabemos se, as vacinas existentes, são efectivas. Junte-se a este cenário, uma das populações mais envelhecidas da Europa, as temperaturas excepcionalmente baixas de Janeiro (o Inverno mais frio dos últimos 20 anos!), num país onde a maioria das casas são mal isoladas e temos aqui reunidos os ingredientes para a chamada "tempestade perfeita": o número de incidências, atingiu proporções catastróficas, com picos diários de 15.000 infectados e 305 mortos, um "record" mundial em termos relativos!   

Perante tal calamidade, "soaram as campainhas" no governo. Portugal pediu ajuda ao estrangeiro, para colmatar as insuficiências de pessoal qualificado, no que foi correspondido pela Alemanha, França e Luxemburgo, que já enviaram equipas médicas para a área de Lisboa. Entretanto, também a Áustria se mostrou disponível para receber doentes portugueses e outros países poderão seguir-se. No terreno, os hospitais montaram tendas de rastreio e tratamento diferenciado, agora que os doentes Covid foram separados dos restantes. 

Resta falar das vacinas: as da Pfizer, começaram a chegar em Dezembro e, desde o dia 27 desse mês, que a população prioritária (idosos com mais de 80 anos, residentes em lares e pessoal sanitário) começou a ser vacinada. De acordo com os números apresentados até ontem (15/2) teriam sido recebidas 694 800 doses, com as quais foram vacinadas 533 070 pessoas. Meio milhão de vacinas em 51 dias dá uma média aproximada de 10 000 vacinas diárias (1ª e 2ª dose). A manter-se tal ritmo, no fim do ano terão sido vacinados cerca de 3 650 000 portugueses (1/3 da população), quando a meta anunciada pelo governo é de 7 milhões de portugueses vacinados até ao fim do Verão (o que corresponde aos tais 70% necessários para atingir a "imunidade de grupo"). A justificação do governo, para uma tão baixa percentagem de vacinados nestas primeiras 7 semanas, deve-se à falta de vacinas. Um problema de produção/distribuição das farmacêuticas, que não têm cumprido com os contratos feitos com a UE. Acresce que Portugal comprou uma quantidade menor de vacinas a que tinha direito (quota de cada país) e parte das vacinas excedentes foram para França e para a Alemanha. Por outro lado, países como Israel, compraram directamente às farmacêuticas, ainda que a um preço mais elevado (a troco do fornecimento de dados dos seus pacientes aos fornecedores), o que lhe permitiu vacinar metade da população em 6 semanas. É caso para dizer "o barato, sai caro"...

Outra questão que parece não reunir consenso é o do encerramento/abertura das escolas. Os professores/pedagogos são unânimes em reconhecer que o ensino presencial é sempre preferível ao ensino à distância. Até porque nem toda a gente tem computador em casa e, quando tem, muitas vezes não tem "rede" que lhe permita seguir as aulas "online". Acontece com frequência no interior de Portugal. Acresce que muitos dos computadores prometidos não chegaram aos interessados. Por outro lado, o encerramento das escolas nas últimas três semanas, parecem ter contribuído para uma redução significativa dos contágios. Os números demonstram isso: após o "pico" de Janeiro, as incidências têm vindo a diminuir significativamente e ontem já totalizavam 4482 internados e 90 mortes, respectivamente. Uma queda de mais de 70%. Algo é algo.   

Estamos em plena 3ª vaga e todos os especialistas dizem que virá uma quarta, lá mais para o fim do ano. No início de um processo que se prevê longo e difícil, muita coisa pode e deve ser melhorada. Desde logo, a preparação atempada, o tal planeamento que continua a ser uma pecha portuguesa. Com plano, podemos falhar; sem plano, falhamos de certeza. Para que da próxima vaga, possa correr melhor. 

2021/01/25

Eleições Presidenciais: O esperado e as surpresas

O resultado das eleições presidenciais, ontem realizadas, não deve surpreender os seguidores destas coisas, tanto mais que o vencedor estava anunciado há muito e a questão principal nunca se pôs em termos de quem podia ganhar a Marcelo, mas qual o candidato que mais hipóteses tinha de forçar uma segunda volta. Esta era a questão central.

Depois, havia outras questões secundárias, mas nem por isso menos importantes (em termos simbólicos), que era a de saber se, atrás de Marcelo, ficaria uma democrata (Ana Gomes) ou um populista de extrema-direita (André Ventura). 

Finalmente, o nível de abstenção que, em tempos de pandemia, podia comprometer o próprio acto eleitoral. Marcelo, que "não dá ponto sem nó", chegou a aventar a hipótese de uma 2ª volta, caso a participação eleitoral fosse baixa, o que impediria o vencedor de conseguir os almejados 50% + 1, necessários para  uma vitória à primeira.

Em termos globais, as votações nos principais candidatos, não estiveram muito longe das sondagens publicadas nas últimas semanas: Marcelo (60,7%), Ana Gomes (12,97%), André Ventura (11,9%), João Ferreira (4,32%), Tiago Mayan (3,22%) e Vitorino Silva (2,94%), cumpriram os mínimos esperados. As abstenções atingiram 60,51% o que, sendo imenso, ficou abaixo das piores estimativas. Também aqui, não houve propriamente surpresas, para mais se tivermos em conta o período de confinamento que atravessamos. 

Primeira conclusão: venceram as forças democráticas (88%) que derrotaram as forças anti-democráticas (11,9%).

Segunda conclusão: os dois primeiros classificados (Marcelo e Ana Gomes) concorreram sem o apoio dos seus partidos o que, no caso de Marcelo, não era necessário, pois o presidente recebeu votos de todos os quadrantes políticos. Já Ana Gomes, que se apresentou como candidata à revelia do seu partido, seria ignorada pela direcção do PS, que escolheu apoiar Marcelo, o candidato preferido do primeiro-ministro. 

Terceira conclusão: os partidos de esquerda (PCP, BE) concorreram com candidaturas próprias (João Ferreira e Marisa Matias) abdicando de uma convergência à esquerda (que podia passar por um apoio a Ana Gomes) o que lhes foi fatal. Foram os grandes perdedores da noite.

Quarta conclusão: o bom resultado, conseguido pelo candidato "anti-sistema", não deve surpreender, já que todas as projecções apontavam nesse sentido. Mais surpreendente, foram as percentagens obtidas nos distritos de Portalegre, Évora e Beja, onde tradicionalmente o PCP tem mais apoiantes e onde Ventura ficou à frente dos comunistas. 

Quinta conclusão: Tiago Mayan, o candidato da Iniciativa Liberal, conseguiu melhor resultado do que o partido a que pertence, o que pode indicar uma subida (relativa) dos "liberais" no futuro. 

Sexta conclusão: em termos globais, pode dizer-se que a "direita" (a democrática e a autoritária) ganhou estas eleições e que a "esquerda" foi a grande derrotada. Porque se trataram de eleições presidenciais, onde as candidaturas são uni-pessoais e os militantes são livres de votarem em candidatos da sua preferência, os resultados de ontem dificilmente poderão ser extrapolados para eleições futuras, sejam as autárquicas sejam as legislativas. De resto, já depois de apurados os votos, a RTP/Católica apresentou uma sondagem feita à boca das urnas, sobre eleições legislativas. À pergunta "se houvesse eleições legislativas hoje, em que partido votaria?", responderam 4000 entrevistados: PS 35%, PSD 23%, Chega 9%, BE 8%, IL 7%, CDU 6%, Pan 2%, CDS 2%, Livre 1%. De acordo com esta sondagem, a Esquerda teria 52% dos votos e a Direita 41%, o que possibilitaria uma nova coligação maioritária de esquerda no parlamento.  

Sétima conclusão: votos como os de Ana Gomes, por exemplo, não servirão de muito no futuro, já que o seu espaço de acção diminuiu dentro do PS, onde os anti-corpos gerados são agora maiores. Já o voto em Ventura, serviu para testar a popularidade do líder num partido uni-pessoal, criado à sua imagem. Ventura, que tinha prometido demitir-se da liderança do partido (caso ficasse atrás de Ana Gomes), cumpriu a promessa para (no minuto seguinte) anunciar recandidatar-se, caso fosse esse o desejo dos militantes...Já vimos este "filme" em qualquer lado (Sá Carneiro, Cavaco Silva, etc...) pelo que nem sequer é original. Muito usado por ditadores em potência, que se apresentam como líderes insubstituíveis (Berlusconi, Conti, Chavez, Salvini, Wilders, Baudet...).       

Oitava conclusão:  Os fracos resultados de João Ferreira e de Marisa Matias, ainda que por razões diferentes, devem obrigar os partidos a que pertencem (PCP e BE) a reflectir sobre temas e políticas de unidade que esses mesmos temas podem gerar no futuro. Para o PCP, a sua incapacidade em lidar com temas fracturantes, é notória (eutanásia, aborto, adopção, touradas) para não falar no apoio a regimes ditatoriais como a Coreia do Norte, Angola, Russia ou a Venezuela, que alienam o partido das gerações mais jovens. O resultado de Marisa Matias, terá mais a ver com a posição do Bloco na votação do último OE e a transferência de votos do BE para Ana Gomes (voto útil), que impediu o 2º lugar de Ventura.

Para Marcelo, o vencedor incontestado, a tarefa não se afigura fácil: o governo (minoritário) do PS, está a braços com a maior crise epidémica, económica e social do seu mandato. Ao falhar uma "2ª geringonça",  o governo hipotecou a possibilidade de um acordo à esquerda. À direita, Marcelo também não tem alternativa, já que a direita está agora mais fragmentada que nunca e refém do um partido anti-sistema, com o qual ninguém parece querer governar. As trapalhadas do governo sucedem-se e não é improvável que a legislatura não chegue ao fim. Nesse caso, haveria de novo eleições, um cenário que ninguém, à excepção do Chega, deseja. Adivinha-se um segundo mandato difícil e mais interventivo.

Finalmente, a organização: não se compreende que continuemos a votar pessoalmente e a perder horas em filas, para mais numa situação de pandemia, que recomendava um maior distanciamento e regras sanitárias apertadas. Porque não instituir o voto por correspondência e alargar o período eleitoral por mais do que um dia? Ou introduzir o voto electrónico que, de resto, já foi testado no passado? Depois: o boletim de voto, tinha 8 candidatos. O primeiro candidato do boletim, nem sequer tinha obtido as 7500 assinaturas necessárias para a sua legalização, mas tinha o seu nome e foto impressa no boletim! Custava muito mandar imprimir novos boletins de voto?

Seguem-se, no Outono, as eleições autárquicas. Até lá, resta-nos o combate à pandemia e as suas consequências. A prioridade das prioridades. Para o presidente e para o governo. 

2021/01/23

Eleições Presidenciais: contas (im)prováveis

Em dia de reflexão, as reflexões possíveis sobre umas eleições atípicas que, no último mês, mobilizaram os portugueses - candidatos e votantes - para mais um acto eleitoral. 

Desde logo a especificidade destas eleições, em meio de uma pandemia que, inevitavelmente, vai influenciar o resultado, dado o nível de abstenção esperado. O próprio presidente da república admitiu, esta semana, não ser improvável uma segunda volta, caso a percentagem de votantes seja inferior a 30%. Percebe-se o receio de Marcelo: se a abstenção ficar acima de 70%, é bastante provável que haja uma distorção das percentagens previstas e, nesse caso, o candidato mais votado (o próprio Marcelo) pode não atingir os 50%+1, necessários para eleger um presidente à primeira volta. A única vez que tal aconteceu foi em 1986, quando Soares e Freitas do Amaral necessitaram de uma segunda volta para apurar o vencedor. Todos os restantes presidentes (Eanes, Sampaio, Cavaco) ganharam sempre à primeira volta as eleições que disputaram, da mesma forma que todos (inclusive Soares) fizeram dois mandatos (dez anos no total). 

Depois, a pandemia em si, que nas últimas semanas atingiu números impensáveis há um mês e tornou Portugal o país do Mundo com mais mortes por milhão de habitantes (!?). Perante tal quadro, seria avisado adiar estas eleições ainda que, do ponto de vista formal, tal não fosse possível sem alterar a Constituição, o que, desde logo, se revelou uma impossibilidade de calendário. É, portanto, em clima de estado de excepção (próximo do estado de calamidade) que as eleições vão disputar-se amanhã. Com vista a reduzir as filas de votantes e os perigos de contágio implícitos, foi possível aderir ao "voto antecipado", no qual participaram cerca de 250.000 votantes, que já votaram no passado dia 17. De mal a menos. Como sempre acontece nestas coisas feitas em "cima do joelho", os votantes do passado fim-de-semana esperaram horas nas filas para poderem votar, o que não abona em favor da organização. Porque não prolongar a votação por dois dias (sábado e domingo, por exemplo)? 

Para além da pandemia, outra das razões que podem contribuir para a pouca participação, é o facto do vencedor ser conhecido antecipadamente. Marcelo Rebelo de Sousa é, de há muito, o político mais popular do país e, não por acaso, foi o último a anunciar a sua candidatura, pois sabe não necessitar de fazer campanha para ganhar estas eleições. Basta-lhe "estar". De resto, também aqui se repete a história: todos os presidentes, depois do 25 de Abril, foram reeleitos.

Finalmente, a campanha eleitoral, que decorreu ao longo de um mês e constou de duas partes distintas: os debates e as acções públicas, ao ar livre e em espaços confinados. Foi uma campanha atípica, como não podia deixar de ser, onde rapidamente se perceberam as tendências predominantes. Nos debates, em que os candidatos tentaram em 30 minutos (15 para cada lado) apresentar as suas ideias; e nas acções, onde não havia contraditório e as posições ficaram mais claras. 

Os debates

Foram "mornos" e pouco motivadores. Entre um presidente em funções, experiente em evitar provocações (Marcelo) e as arruaças de um candidato sem ideias, que fez da provocação a sua arma (Ventura), restavam cinco candidatos democratas, três dos quais representantes de forças partidárias (Marisa Matias, João Ferreira e Tiago Mayan) e dois independentes (Ana Gomes e Vitorino Dias). Mais do que apurar "vencedores", ainda que nalguns momentos a clarividência de Marcelo tenha sido evidente, a sensação que ficou, foi a da maior parte dos candidatos, terem um discurso mais próximo de um candidato a 1ª ministro do que um candidato a presidente da república. Pelos vistos, nem todos conheciam os poderes atribuídos pela Constituição. Neste campo, o único candidato que propôs alterar a Constituição (para limitar os poderes do Parlamento) foi o candidato da extrema-direita que, como todos os ditadores em potência, não gosta de ser escrutinado....Já ouvimos este discurso em qualquer lado.

As campanhas 

Foram esparsas e confinadas, o que não aumentou a interesse pelo acto eleitoral. Marcelo (vencedor antecipado) deixou praticamente de fazer campanha de rua, limitando-se a aparecer em lugares ou cerimónias escolhidas, enquanto os restantes candidatos procuraram um contacto mais pessoal, ainda que reduzido em participantes. Foram utilizados mais meios tecnológicos (plataformas "zoom" e outras) o que permitiu abrir o leque de participantes, mas nem tudo correu bem. Ter trazido a campanha para a rua, ajudou, no entanto, a melhor compreender a mensagem e o comportamento dos candidatos. Isso foi mais visível na campanha de Ana Gomes (a candidata democrata, mais bem posicionada, depois de Marcelo) e na campanha de André Ventura, que usou e abusou da demagogia habitual, para chamar as atenções dos incautos. Aparentemente, o "tiro saiu-lhe pela culatra", seja pelas manifestações de repúdio que encontrou em Serpa, Coimbra, Évora e Setúbal (foi o único candidato vaiado), seja pela perda nas intenções de voto, onde seria ultrapassado por Ana Gomes, que recolhe desta forma os dividendos do "voto útil" de outras candidaturas democratas. 

Chegados aqui, resta-nos esperar por domingo. De acordo com a maioria das sondagens, publicadas na última semana, os resultados não devem afastar-se muito do quadro abaixo. Isto, no que respeita o lugar dos candidatos. 

Partimos de um cálculo simples: somámos as percentagens, de cada candidato, apuradas pelas quatro principais sondagens publicadas (RTP/Público/Católica, SIC/ISCTE/ICS, TVI/Pitagórica/Observador e TSF/JN/DN) e dividimos o total de cada um, por 4. Os resultados, deste inquérito "caseiro", foram:

Marcelo Rebelo de Sousa - 61,5%

Ana Gomes - 14%

André Ventura - 10%

João Ferreira - 4,9%

Marisa Matias - 4,2%

Tiago Mayan - 3,1% 

Vitorino Dias - 1,5% 

Vale o que vale, mas podia ser pior...

Até lá e para quem possa votar: máscara, gel, caneta e cartão de cidadão, bastam. 

Votem! 

2021/01/19

EUA: Aftermath


Em vésperas da tomada de posse do presidente Joe Biden, a cidade de Washington mais parece uma fortaleza, do que a moderna capital de um estado liberal e democrático, como são os Estados Unidos da América. Não é caso para menos. Depois da invasão do Capitólio do passado dia 6, levada a cabo por milhares de manifestantes, instigados por um presidente paranóico que se recusou reconhecer a derrota nas urnas, as autoridades nacionais (após informações fornecidas pelo FBI) puseram em marcha a maior operação de segurança em cerimónias congéneres: para além das barreiras e sebes, levantadas em redor dos edifício do congresso, foram mobilizados 25.000 elementos da Guarda Nacional, parte dos quais já dorme permanentemente dentro do Capitólio. Os moradores de Washington não se lembram de uma coisa assim e teremos de recuar a 1871 (Guerra Civil) para encontrar medidas similares em cerimónias oficiais.

Como chegámos aqui,  é a pergunta que todos fazem, dentro e fora do país, onde foi fundada a primeira democracia dos tempos modernos. Uma sociedade assimétrica, caracterizada por uma cultura de violência estrutural, primeiro dos colonos europeus contra os seus habitantes originais (os índios de diversas etnias) e, mais tarde, contra outros povos e países, um pouco por todo o planeta, sempre que os seus interesses geo-estratégicos são ameaçados. É esta, a par dos feitos e conquistas, a História do país mais poderoso do Mundo, hoje em decadência económica, mas ainda suficientemente forte, militarmente, para impor a sua lógica de "xerife" mundial. 

Como todos os impérios, também o americano já conheceu dias melhores e, fatalmente, irá perdendo influência, agora que novos actores surgem na arena política e económica mundial. É a "lei da vida dos impérios" e a História está cheia de exemplos, dos Gregos aos Romanos, dos Otomanos aos Britânicos, não esquecendo Portugal e Espanha, os impérios dominantes nos séculos XV e XVI. 

A cronologia é extensa, mas, resumidamente, podemos afirmar que a duração média dos impérios, ao longo da História, oscila entre os 100 e 150 anos. Segue-se a decadência, seja por factores externos como invasões, epidemias, cataclismos naturais (como aconteceu com as civilizações Inca, Maia e Asteca, na América do Sul); seja por implosão dos próprios regimes (caso da ex-URSS) incapazes de renovação interna e a consequente degeneração dos modelos adoptados.

O caso recente da presidência de Trump (depois de oito anos de Obama) ainda que em contra-ciclo, insere-se na onda populista (de direita) que atravessa grande parte do Mundo Ocidental: dos Estados Unidos ao Brasil, da Hungria à Polónia, do Reino Unido à Itália, todos estes países são, ou foram, em dado momento, governados por partidos cujos líderes partilham de uma ideia comum: a oposição ao que eles apelidam de "sistema". 

Porque o "sistema" é, por definição, o modelo de sociedade que estes líderes rejeitam, a pergunta que se impõe é: qual o modelo de sociedade que os populistas têm em mente? Consultados os seus programas e ouvidas as suas proclamações, é fácil concluir que (quase todos eles) afinam pela mesma diapasão, a saber: todos são contra a corrupção (quem não é?); todos defendem uma sociedade de pessoas de "bem" (de preferência, homens de cor branca); todos têm um bode expiatório, a quem culpam pelos males da sociedade (negros e imigrantes na América, estrangeiros na Hungria e em Itália, imigrantes e argelinos em França, muçulmanos e marroquinos na Holanda, ciganos em Portugal, negros e índios no Brasil). Todos, em maior ou menor grau, têm discursos sexistas, homofóbicos e xenófobos; todos exercem um poder autocrático, não permitindo vozes discordantes dentro dos seus partidos; quando chegam ao poder, rapidamente tentam silenciar os orgãos independentes, como a Justiça e a Imprensa e (pormenor importante) raramente criticam ou atacam os poderosos que controlam e (mais) corrompem as sociedades onde vivem. Nalguns países, chegam a defender a pena de morte e a prisão perpétua, assim como a liberdade de porte de arma e a existência de milícias populares, ao arrepio do estado de direito; desrespeitam as Constituições existentes e pedem uma "nova ordem" política. Ou seja, sabemos o que detestam, mas raramente obtemos respostas concretas sobre o modelo de sociedade que propõem, ainda que possamos adivinhar o que desejam. 

Num recente artigo, "O presidente que tornou a verdade irrelevante" (NRC-Handelsblad, 15/1/21) o jornalista Bas Blokker, faz um balanço do mandato de Donald Trump e o que fica após a sua passagem pela Casa Branca. O resumo é devastador e, ainda que a maior parte dos factos sejam conhecidos da opinião pública, rememorá-los agora, torna mais claro (se ainda fosse preciso) a personalidade do homem que incitou os seus seguidores a invadirem o Congresso, para impedirem a confirmação de um acto eleitoral, legalizado por todas as instâncias jurídicas e políticas do país. 

Alguns números, citados no artigo: segundo o "fact-checking" publicado pelo "The Washington Post", Trump teria mentido (ou afirmado não-verdades) mais de 30 000 vezes, em todo o seu mandato (em  "twitters", nas conferências de imprensa, em entrevistas e em discursos, dentro e fora do país). Não é caso único, claro: todos os presidentes anteriores, mentiram: Richard Nixon (Watergate), Billy Clinton ("affaire" com a estagiária), W. Bush Jr. (armas de destruição maciça no Iraque), mas como Trump não há memória.

A carreira política de Trump começou com uma mentira, não sendo pois de admirar que terminasse com outra: a negação da vitória de Biden, que recusou validar, acusando os democratas de fraude eleitoral, mesmo depois dos votos por correspondência terem sido recontados e validados. O mesmo, já tinha acontecido, relativamente a Obama. Em 2011, quando não era ainda candidato pelos Republicanos, acusou Obama de não ter a nacionalidade americana e de ter nascido em África. Mentira, claro. Obama nasceu no Hawai, um estado americano. Também afirmou à imprensa ter enviado uma equipa ao Hawai investigar as origens de Obama (quando o seu advogado lhe lembrou que não podia provar isso, ele respondeu que o que interessava era a notícia sair nos jornais. Depois, as pessoas não se lembravam de mais nada). Relativamente ao doutoramento de Barak, na prestigiada universidade de Harvard, Trump afirmou que tinha sido obtido por "discriminação positiva". Também disse que Obama tinha vindo do nada e não era ninguém, pois não o conheciam na escola. Interrogados os alunos das escolas, frequentadas por Obama, todos se lembravam dele como bom aluno. Mais uma mentira. 

Em 1455 dias de presidência, Trump teria mentido 30 529 vezes (média de 21 vezes ao dia!).  

Logo no primeiro dia da presidência, mentiu, através do seu acessor de imprensa, ao declarar que tinha havido mais público na sua tomada de posse, do que na tomada de posse de Obama, em 2008. As fotos que circularam por esses dias nas redes sociais e nos jornais, desmentem categoricamente tal afirmação. 

42% foi a média da sua popularidade nos anos que esteve na Casa Branca. Teve a mais baixa taxa de todos os presidentes, depois de 1945, quando o Instituto Gallup iniciou as sondagens 

Retirou apenas 3200 militares do Afeganistão, Iraque e Somália, apesar de afirmar que iria retirar todos os militares dessas guerras, que ainda continuam. Mais uma mentira.

Anunciou 453 milhas do muro que faz fronteira com o México, mas destas, só 80 milhas foram realmente construídas, já em finais de mandato. As restantes 373, foram reparações e aumentos no muro existente. 

750 dólares, foi a quantia paga em impostos, nos anos 2016 e 2017, de acordo com a sua declaração fiscal publicada pelo "New York Times". 

Durante o seu mandato, Trump esteve ausente 298 dias, para jogar golfe, na sua propriedade da Florida. 

Apesar de declarar não usar dados contra os seus adversários, obtidos no estrangeiro, tentou convencer o presidente Zelesky (Ucrânia) a comprometer o filho de Biden, num negócio que nunca se efectuou e foi desmentido pelo próprio presidente ucraniano. 

A célebre "Trump Tower", foi anunciada na sua inauguração, em 1988, como tivesse 68 andares. Na realidade só tinha 58. 

 Enfim, a lista é infindável, e tornar-se-ia exaustivo, repeti-la. Como afirmou um dos seus biógrafos, "Trump não tornou a mentira, verdade; ele tornou a verdade, irrelevante". Não importava que fosse mentira ou "bluff", o importante é que as pessoas acreditassem.

Porque mentia Trump? A sua sobrinha Mary Trump, no livro "Too Much is Never Enough", explica que Trump mentia para fugir às críticas do pai, que o castigava por ele ser muito burro. Era o mais tonto dos quatro irmãos. Mentia, para provar que era melhor, do que na realidade era. Numa entrevista em directo ao NRC, Mary declarou que toda a família sabia que ele era um tonto: "O homem nunca lia um livro. Toda a gente sabia disso. Não tinha nada na cabeça. Ele é um tonto, mas é o "nosso" tonto". 

O seu narcisismo patológico, fez dele um mentiroso compulsivo, que desdenhava dos adversários, despedia colaboradores que o criticavam, ofendia mulheres e minorias, discriminava negros e mexicanos, proibia a imigração de muçulmanos e refugiados e apoiava movimentos supremacistas brancos, como aqueles que, juntamente com fundamentalistas cristãos e negacionistas, invadiram, no passado dia 6, o Congresso em Washington. Nas últimas eleições teve 74 milhões de votantes a apoiá-lo (contra 77 milhões de Biden), que acreditaram até ao fim que ele estava a dizer a verdade. Depois de tanta mentira, acabou por sofrer dois processos de "impeachment", o segundo dos quais ainda decorre.

Trump saiu, mas o "trumpismo" não morreu. Está enraizado nos milhares de americanos, que sentem não fazer parte do "sistema" (os "descartáveis" nas palavras de Hillary Clinton em 2016): os menos letrados, os rurais, que na sua maioria não possuem a escolaridade média e que, nas últimas décadas, foram ultrapassados por mulheres letradas, pelas minorias étnicas e pelos imigrantes mais classificados. Americanos de uma América profunda, que se sentem ameaçados pelo desemprego, pois o seu trabalho foi deslocado para outros países de mão-de-obra barata e por "robots" que ocupam, hoje, o seu lugar. São estas populações, na margem do "welfare state", que sentem ter perdido o "combóio da História" e esperam agora por um novo líder, que as convença a acreditar nas suas palavras. Mesmo que estas sejam mentira. 

2021/01/16

Confinamento Suave (here we go again...)

Portugal está, desde ontem, mais uma vez "confinado". Um confinamento esperado, já que a maioria dos países europeus, da vizinha Espanha à longínqua Suécia, seguem o mesmo padrão de comportamento.

É natural. De acordo com a ciência médica, só será atingida a "imunidade de grupo", quando 70% do grupo-alvo estiver infectado (ou vacinado). Um longo caminho a percorrer, portanto.

Aquando da primeira "vaga" de contágios no Ocidente (Março do ano passado), alguns países tentaram adquirir essa imunidade, através da chamada "imunidade do rebanho" (herd's immunity). É o caso da Suécia, durante muitos meses considerada a "nação-modelo" que todos invejavam, ou a Holanda e o Reino Unido e, no outro lado do Atlântico, os EUA e o Brasil. Entre "intelligent lockdown" e negativismo anti-científico, os respectivos governos tentaram tudo para conciliar o inconciliável: saúde e economia. Ainda que toda a gente "ache" que a saúde é mais importante, a verdade é que sem economia (para as pessoas) não há saúde e vice-versa. Uma "pescadinha de rabo na boca". Portugal, nesses primeiros meses, esteve relativamente bem, com poucos infectados e poucas mortes. A explicação para o "milagre português" (como chegou a ser apelidado pela imprensa internacional), prende-se essencialmente com o relativo isolamento do país (fora dos circuitos internacionais), fim-da-época turística e desertificação do interior, o que dificultou uma rápida propagação do vírus. O célere encerramento das escolas e a proibição de eventos desportivos e culturais, contribuíram para o bom desempenho do sistema de saúde, que nunca atingiu o estado de sobrecarga de outros países como a Itália, a Espanha, a França, ou a Bélgica, neste período.   

Entretanto, e logo nessa fase, a Europa foi avisada pela China (onde o vírus foi detectado pela primeira vez) que, a esta 1ª vaga, se seguiria uma segunda, quiçá mais mortífera. Esta 2ª vaga, surgiria no Outono, quando as temperaturas baixassem no Hemisfério Norte e as populações, mais vulneráveis, fossem atingidas pela pandemia. 

E que fez a maioria dos países, Portugal inclusive?  Relaxaram, após 3 meses de "stress pós-traumático", provocado pelo confinamento obrigatório. Foram (também fui) de férias, pensando que o sol e o mar "limpavam" tudo. No intervalo, baixaram as defesas e não se prepararam devidamente (a prevenção, lá está) para a anunciada 2ª vaga. 

Como previsto, a 2ª vaga chegou em fins de Setembro, ainda que tenha abrandado ligeiramente em Novembro. Perante tal resultado ("achatamento" da curva), os governantes portugueses exultaram, optando por manter o confinamento, mas só até ao Natal. Nessa quadra, as famílias poderiam reunir-se de novo, em pequenos núcleos para comer o bacalhau e o bolo-rei do costume, pois o Natal é uma tradição e a "tradição ainda é o que era"...

Não é preciso ser bruxo, para adivinhar o que se seguiu. Quinze dias depois das festas e dos jantares familiares, o número de infectados disparou exponencialmente. Portugal passou de 3000 infectados, em finais de Novembro, para 10 600 em 16 de Janeiro (a maior taxa de incidência mundial!) e já é o quarto país em número de mortos (por milhão de habitantes). Consequentemente, o número de mortos também aumentou e já ultrapassa os 160 diários, uma das maiores percentagens europeias. Os serviços hospitalares estão à beira da ruptura, casos dos hospitais públicos da região de Lisboa, Torres Vedras, Évora, Santarém, Coimbra, Porto, Braga, Viana do Castelo, enquanto na morgue de Lisboa, os cadáveres se amontoam. Um cenário dantesco, que nos remete para a Itália e a Espanha, dos primeiros meses da pandemia. 

É neste quadro, que o governo, apesar das promessas anteriormente feitas de que não haveria um confinamento igual ao de 2020, se viu obrigado a decretar um novo estado de excepção. Desta vez, por 30 dias. Chamou-lhe "suave", como o cigarro de boa memória, para não assustar o pessoal. Em comparação com 2020 (quando 70% das pessoas chegaram a estar confinadas), nestes primeiros dias do ano novo, apenas 39% das pessoas ficaram em casa (dados da DGS). 

A boa notícia, é que as primeiros carregamentos de vacinas (da Pfizer) já começaram a chegar. Na primeira quinzena deste ano, foram vacinadas 100 000 pessoas (1% da população). A manter-se esta média, no fim do ano haverá 2,4 milhões de portugueses vacinados (25% da população). Ou seja, um terço dos 70% necessários para atingir a tal imunidade de grupo...Até lá, o "rebanho" tuge e não muge. Por comparação, Israel já vacinou cerca de 2,5 milhões da sua população e espera, em três meses, ter toda a população (9 milhões) vacinada. Toda a população, à excepção dos palestinianos (!?), acrescente-se... Também o Reino Unido já vacinou 2 milhões de cidadãos e tem uma das maiores percentagens de vacinados no mesmo período de tempo.

Porque parte do comércio se manterá aberto (há 52 excepções à regra) e ninguém percebe os critérios adoptados, o pessoal continua a sair e a consumir nos centros comerciais, pois sem consumo não há economia e sem esta...

Pior: os critérios são tão "suaves" que, em comparação com Espanha, onde me obrigaram a fazer um teste PCR quando cheguei ao aeroporto de Sevilha (e ameaçaram-me de multa, por não ter feito um teste 72h. antes),  ninguém me controlou quando voltei a Lisboa. Nem a mim, nem a nenhum passageiro. Somos uns "bacanos"...

Não há de ser nada, é a "consigne". 

2021/01/07

A "Golpada"



Uma tentativa canhestra de Golpe de Estado, alimentada por um narcisista patológico e apoiada por milhões de atrasados mentais que, na impossibilidade de ganhar nas urnas, tentam subverter a democracia, através da violência, a única linguagem que entendem. 

Ora, como sabemos dos livros de História, uma das características do Fascismo (hoje, neo) sempre foi a violência. Qual o espanto? 

Que tenha sucedido na primeira democracia moderna, só prova que nenhum regime democrático está imune a "golpadas" destas. Seja nos Estados Unidos da América, no Brasil, em Portugal, em Espanha, na Itália, na Hungria, na Polónia ou, até mais a Norte, em sociedades mais civilizadas...

Estamos avisados.

 

2021/01/02

Carlos do Carmo, o maior do (fado) "maior"



Começou mal, o ano. 

Com a morte de Carlos do Carmo (1939-2021) desaparece o mais emblemático intérprete da canção de Lisboa e, certamente, uma das suas melhores vozes. Para muitos, o maior intérprete masculino do Fado e aquele que (a par de Amália) maior reconhecimento teve no estrangeiro. A sua carreira, sabiamente gerida, prolongou-se por 57 anos. Entre 1963, ano da primeira gravação em disco e 2020, um ano depois do último concerto em Lisboa, gravou centena de fados e canções, algumas das quais são já parte do património nacional. Quem nunca ouviu e troteou os fados "Loucura", "Por morrer uma andorinha", "Fado da Saudade", "Gaivota", "O Cacilheiro", " Canoa", "Os Putos", "Lisboa, Menina e Moça", "Um Homem na Cidade", ou o "Fado do Campo Grande"?...

Dono de um timbre e dicção inconfundíveis, Carlos do Carmo foi, para além de intérprete de excepção, um esteta preocupado com a dignificação do Fado e a sua renovação. Entre os muitos artistas e poetas que cantou, merecem referência especial Ary dos Santos, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Vitorino de Almeida, Vasco da Graça Moura, José Afonso, José Saramago, Manuel Alegre, António Lobo Antunes e Maria do Rosário Pedreira.  

Actuou nas mais prestigiosas salas do Mundo, no Olympia em Paris, no Canecão no Rio de Janeiro, na Alte Oper Frankfurt, no Concertgebouw em Amsterdão, no Vredenburg em Utrecht. Ganhou o Prémio Goya para a melhor canção no filme "Fados de Saura" (2008) e o Grammy Latino (2014), pela sua carreira. Destaque, ainda, para inúmeros prémios e condecorações, para além do prémio SPA, prémio José Afonso, diversos Globos de Ouro e as Ordens de Comendador da Ordem do Infante, Grande Oficial da Ordem de Mérito, Chaves da Cidade de Lisboa e Medalha de Mérito Cultural.

Penso ter começado a gostar de Fado, com Carlos do Carmo. Mais exactamente, em 1970, quando recebi como prenda de anos na Holanda (onde vivia) um EP, gravado ao vivo, com apenas 3 canções: "Pedra Filosofal", "A Voz que tenho" e "Menino de Oiro". O cantor era acompanhado por uma orquestra e as letras cantadas em tons de fado-canção. Uma aproximação ao fado tradicional que eu desconhecia e que, durante muito tempo, acompanharam as minhas noites de exílio. Foi já depois do 25 de Abril que vi, pela primeira vez, o cantor. Estávamos em 1976 e Carlos do Carmo representou Portugal no Festival de Eurovisão que, nesse ano, teve lugar em Haia. No dia seguinte ao Festival, a Embaixada Portuguesa, ofereceu uma recepção em Amsterdão, onde o fadista cantou para a comunidade portuguesa residente naquele país. Uma revelação. Tornei-me fã. 

No ano seguinte, seria editado "Um Homem na Cidade", por muitos considerado o seu disco mais emblemático e que revolucionaria a linguagem do Fado. Já em 1978, em férias, confirmei a sua popularidade, durante um Festival de Música de Intervenção, no histórico Clube Atlético de Campo de Ourique. Sala à "cunha" para ver e ouvir Mário Viegas, José Mário Branco e o GAC, Fausto, Vitorino, Samuel e Carlos do Carmo. No meio de canções revolucionárias, os fados de Carlos do Carmo seriam os mais aplaudidos da sessão. Um cantor todo-terreno. 

Os anos oitenta, marcariam a internacionalização da sua carreira. Em Dezembro de 1980, Carlos do Carmo e o grupo "Trovante", são convidados para actuarem no auditório da Vrije Universiteit de Amsterdão. No intervalo do concerto, chega-nos a notícia do assassinato de John Lennon. Nos bastidores, gera-se uma consternação absoluta. No regresso ao palco, o fadista alude ao assassinato do ex-Beatle. Aplausos da sala e mais uma actuação memorável. Outras se seguiriam naquele país, onde regressava amiúde.

Em 1989, o Círculo de Cultura Portuguesa na Holanda, em colaboração com a Cooperativa Cultural Etnia, produz o espectáculo "Portugal: a raiz e o tempo", dedicado à música urbana.  Do programa, constava uma comunicação, a cargo de Eduardo Paes Mamede e um concerto interpretado por Carlos do Carmo (fado), José Mário Branco (canção de intervenção) e António Pinho Vargas (jazz). No total, doze músicos em palco, que actuaram em Amsterdão, Haia e Roterdão. Quatro dias de cumplicidades e amizades fortalecidas. 

Em inícios dos anos noventa, Carlos do Carmo voltaria à Holanda, para actuar em diversos casinos do país. À excepção de alguns funcionários do Consulado de Amsterdão, não havia portugueses na sala do Lido, em Amsterdão. A produção, dessa vez, ficou a cargo de um empresário francês. 

Estamos em 1995. No último ano da minha permanência na Holanda, recebo um telefonema do Vredenburg (Utrecht), uma das salas mais prestigiadas do país: Anneke van Dijk, a programadora de música ligeira, queria organizar um ciclo de Fados, mas não conhecia ninguém,  para além de Amália, que já lá tinha actuado. Preferia um fadista masculino, mas podiam ser dois...Sugiro Carlos do Carmo e um jovem, em início de carreira, Camané. Ela aceita. Seis meses depois, regresso definitivamente a Portugal. Estabelecidos os contactos e firmados os respectivos contratos, Carmo e Camané, partem para a Holanda onde, em Outubro de 1996, inauguram o ciclo de Fados do Vredenburg, que se prolongaria por  mais de dez anos. No dia do concerto, impaciente, apanho o avião para a Holanda onde assisto a mais um concerto memorável. Não podia perder a oportunidade...

Em 1997, por ocasião do 1º da primeira edição do "Festival Ibero-Langue D'Oc" (Portugal, Espanha e Occitania) em Toulouse, desloco-me a convite da organização, para falar sobre música popular portuguesa. Para além das comunicações, havia música das regiões representadas. O representante português era (who else?) Carlos do Carmo. Surpresa mútua e ocasião para festejarmos e pensar num novo projecto. 

A ocasião, surgiria em Junho de 2000, no âmbito de um encontro Luso-Brasileiro, organizado pelo Inatel na FIL de Lisboa. Encarregaram-me de programar a parte musical da sessão. Sugeri o Carlos do Carmo. O presidente do Instituto "franziu o sobrolho" e perguntou se o Carlos era "caro" e se "ainda" era do Partido Comunista...Respondi que não sabia ao certo, mas tratava-se de um fadista de qualidade e a qualidade paga-se. Convencido, o homem, anuiu. Como era esperado, mais um concerto memorável. No fim, o Carlos, visivelmente satisfeito, confidenciava-me que nunca tinha sido convidado pelo Inatel (foi preciso eu trabalhar na instituição, para que isso pudesse acontecer). Bom, valeu a pena, pensei...

Em 2003, voltávamos a encontrar-nos, agora no Museu do Fado, em Lisboa, por ocasião de uma exposição sobre os seus 40 anos de carreira. Um marco. Seguir-se-ia novo encontro, em 2006, no âmbito do filme "Fados de Carlos Saura", onde seria apresentado o projecto do filme do mesmo nome. Anos mais tarde, foi a vez da Candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade (UNESCO), que comemorámos juntos nas instalações do museu, em 2011. Em 2013, voltaria a encontrá-lo, desta vez, nos Jerónimos, num concerto ao ar livre, comemorativo dos 50 anos de carreira.  

A última vez que o vi cantar, foi no Teatro Thalia, durante o velório do pintor Júlio Pomar, de quem chegou a gravar um fado. Uma singela homenagem, onde apenas interpretou duas canções. 

Quando, em Fevereiro de 2019, anunciaram o seu último concerto (para 9 de Novembro desse ano), tentei arranjar bilhete. Debalde. O Coliseu esgotou com 10 meses de antecedência. Era expectável. Resta o vídeo, recentemente editado e transmitido, por estes dias, na televisão. 

Surge agora, a notícia da sua morte. Uma perda imensa, de um amigo e companheiro de múltiplas aventuras. Estamos todos mais pobres. Resta o seu legado.

Obrigado, Carlos.