Nada como sair uns dias da habitual "zona de conforto" e observar o país real à distância, mesmo quando esta não ultrapassa uma hora de voo de Lisboa. Desta vez, a escolha recaiu em Marrocos.
Esta foi a terceira visita ao país magrebino, tão perto e, no entanto, "tão longe", como os dramáticos acontecimentos dos últimos dias vieram comprovar. Porque o calor africano não convidava a grandes incursões pelo Sul do país, a opção escolhida foi a costa norte (sul Mediterrânico), mais precisamente a cidade portuária de Tanger. Os dados meteorológicos consultados indicavam temperaturas máximas de 29º durante o dia, com noites cálidas de 21º em média o que, comparativamente com Lisboa, onde a temperatura ultrapassava os 40º naquela semana, mais parecia um verdadeiro "oásis" no deserto...
Vista da janela do riad (uma bela mansão privada, convertida em hotel de charme) a costa espanhola observava-se a olho nu, já que a distância entre os dois continentes não ultrapassa os 30km. Ao início do dia, ainda envolta no nevoeiro matinal e, à medida que o Sol sobe, deixando adivinhar os recortes da acidentada costa andaluza. É, porém, ao final da tarde, que a luz reflectida no azul marítimo, tem o seu o apogeu, tingindo o céu de uma cor rosácea que tudo ilumina e tanto impressionou pintores e escritores europeus que aqui procuraram motivos para a sua inspiração. Percebe-se bem porquê.
De todas as cidades marroquinas, Tanger é, sem dúvida, a mais europeia. Por aqui passaram fenícios, romanos, franceses e espanhóis, deixando marcas indeléveis nas construções e hábitos ancestrais que ainda hoje perduram: na urbanização, nos jardins e nos bairros, cuja toponímia não engana: Place de France, Café Paris, Boulevard Pasteur, Alliance Française, Instituto Cervantes, Hospital Espanhol, Igreja Católica Espanhola... A privilegiada situação geográfica permite-lhe, ainda hoje, controlar a entrada e saída do tráfico marítimo entre o Mediterrâneo e o Atlântico, coisa que o governo marroquino explora a contento, agora mais do que nunca, dado o conflito de Ormuz.
A cidade (cerca de 1,3 milhões) divide-se em duas áreas distintas: o centro histórico, do qual faz parte a Medina (cidade antiga) e, dentro desta, o Kasbah, (citadela, tradicionalmente habitada por famílias poderosas); e a cidade pós-colonial (la ville nouvelle) de construções recentes, hotéis e largas avenidas, onde se encontram as lojas de marca, bancos, museus, etc. De Tanger, parte ainda a primeira linha de TGV, recentemente inaugurada e que, por altura do próximo campeonato mundial de futebol, deve terminar em Casablanca, onde, neste momento está a ser construído o maior estádio do Mundo (115.000 espectadores).
Porque o lado "moderno", tende a ser parecido em todo o Mundo, a nossa atenção e tempo foram essencialmente dedicados às incursões na cidade antiga, onde as ruas sinuosas e labirinticas não raramente nos confundiam os passos. Sempre me perdi, sempre me achei. Há um princípio, no entanto: as ruas que sobem, conduzem às portas da Medina (antigas torres guardadas, que eram encerradas durante a noite); as ruas que descem, conduzem às praças e ao comércio ao ar livre, os souks. É nestes maravilhosos mercados, onde tudo se vende e tudo se regateia, que o pulsar do quotidiano da cidade mais se sente. Também é na Medina, que encontrámos os melhores restaurantes e patisseries, de comer e chorar por mais...
Em Tanger, visitámos diversos museus (Ibn Battuta, Museu de Arte Moderna, Villa Harris), com excelentes exposições de pintura e fotografia, anunciadas por toda a cidade. A cinemateca e o cinema Roxy, famoso pelo festival anual, exibem diariamente filmes legendados, oriundos dos mais diversos países. No bairro francês (quartier français), encontrámos duas das mais icónicas livrarias da cidade: Librairie des Colonnes e Les Insolites, visitadas pelos grandes nomes da literatura mundial. Foi na segunda, que deparámos com um livro do "nosso" cineasta João César Monteiro. Uma agradável surpresa. Mesmo em francês, não resistimos em trazê-lo.
Que mais referir nestas notas, necessariamente impressionistas, de uma visita marcante? A vibração da cidade, a delicadeza das pessoas, a hospitalidade contagiante, as noites amenas, os programas de jazz da Radio Tanger ao entardecer, o chá de menta, os gatos...milhares de gatos de todos os tamanhos e cores, esquálidos e famintos, implorando por comida nos portais das casas. Eles são um dos ex-libris da cidade, verdadeiros resistentes numa sociedade onde a pobreza material não apaga a dignidade de uma população jovem, que ainda acredita em dias melhores, num país com futuro, apesar dos seus corruptos governantes.







