Há duas semanas que o Médio-Oriente é palco de uma das mais devastadoras guerras em que a região tem sido pródiga.
Desta vez, a razão invocada, para atacar o Irão, seria a alegada existência de capacidade nuclear daquele país. Dito de outro modo: o crescente programa de enriquecimento de urânio, levado a cabo pelo governo iraniano, faz suspeitar que o Irão possa fabricar bombas nucleares muito em breve e, com isso, ameaçar os países vizinhos.
Esta é, pelo menos, a teoria de Netanyahu, que há mais de cinquenta anos se esforça por "provar" que o Irão está em vésperas de fabricar uma bomba para aniquilar Israel...Se é verdade ou não, ninguém pôde assegurar, ainda que os iranianos continuem a afirmar que o urânio enriquecido se destina a fins pacíficos e os israelitas (secundados pelos americanos), afirmem o contrário.
Durante muitos anos a dúvida subsistiu, até que, no consulado de Obama, o presidente americano convenceu o Irão a assinar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (2015). Esta situação permitia a inspecção e controlo periódico da IAEA (Agência Internacional de Energia Atómica) às reservas de urânio iranianas. O "Mundo" pareceu aliviado, ainda que os ataques perpetrados contra Israel por parte dos "proxis" do Irão (Hamas, Hezbollah, Houthis...) fossem frequentes.
Com a chegada de Trump ao poder, o acordo EUA/Irão foi abandonado unilateralmente (2018) pelos EUA. A partir daí, o Irão sentiu-se "livre" para continuar com o programa de urânio, que dura até hoje. Ou seja, não foi o Irão que abandonou o Tratado de Não-Proliferação, pelo qual se obrigava a permitir inspecções da IAEA, mas o governo americano.
Com o regresso de Trump ao poder, Netanyahu, a contas com um processo judicial (que pode levar à sua destituição e prisão por corrupção, além de um mandato de captura emitido pelo TIJ) viu aqui uma oportunidade para reiniciar a sua "velha" guerra e obsessão: derrotar os Ayatollas. Agora, com o apoio dos EUA.
Em Junho passado, houve uma primeira tentativa para destruir as centrais iranianas, naquela que ficou conhecida pela "guerra dos 12 dias". De acordo com Trump, o ataque tinha corrido tão bem que as centrais nucleares tinham sido completamente "obliteradas" (!?). Não teria ficado "pedra sob pedra", pelo que levaria anos até o Irão ter capacidade para fabricar bombas atómicas...
Depois desta guerra, as partes voltaram ao diálogo e recomeçaram as conversações com vista a controlar os ímpetos belicistas iranianos. Eis senão, quando, durante as reuniões entre os EUA e o Irão para estabelecer um novo acordo, os EUA/Israel decidem iniciar uma guerra, a que o presidente americano chamou de "preventiva". Uma guerra ilegal, à margem do direito internacional e condenada pela maioria dos países democráticos.
É aqui que estamos.
Porque a situação, para além de perigosa, raia a insanidade dos actores envolvidos, vale a pena relembrar algumas das declarações dos responsáveis americanos, nas duas últimas semanas:
28 de Fevereiro (Trump): "Eles nunca poderão ter uma arma nuclear. Nunca".
2 de Março (Marc Rubio): "Os EUA foram informados que Israel estava a preparar um ataque ao Irão e decidiram atacar "preventivamente".
3 de Março (Marc Rubio, perante a imprensa) "foram os EUA a pressionar Israel para atacar".
3 de Março (Trump): "Nós esmagámos o inimigo. A capacidade de "drones" e mísseis do Irão foi completamente destruída".
9 de Março (Trump): " A marinha do Irão já não existe. A aviação não existe. Podem render-se ou lutar até não terem mais homens". Ao NYT, Trump declara que tinha 3 boas opções (interlocutores) para negociar a rendição, mas que, entretanto "já tinham morto o Ayatollah Khameney e mais 20 subalternos e não havia ninguém com quem negociar" (!?).
9 de Março (Trump): "Não há uma resposta concreta para o fim da guerra. Pode durar 2, 4, 5 ou 6 dias. Durará o tempo que for necessário. Temos a capacidade para continuar mais 5 semanas e é isso que faremos". No mesmo dia, declara que "já ganhámos a guerra".
11 de Março (Trump): "A guerra está quase a acabar. Já não existem mais "drones". Quando eu quiser, pode acabar".
11 de Março (Trump): "Não queremos sair mais cedo do Irão. Temos de terminar o trabalho. Ainda não estamos prontos".
11 de Março (Peter Hegseth): "Cabe ao presidente decidir, se estamos no início, no meio ou no fim da guerra".
13 de Março (Trump, à entrada para o seu helicóptero): "Quando termina a guerra? Não sei. Essa resposta não lhe posso dar..."
Sobre opiniões erráticas e contraditórias, estamos conversados. Pior, era impossível. Começaram a guerra, mas não sabem quando esta termina e qual o plano para o dia seguinte (!?). Resta aguardar pelo fim desta guerra que, entretanto, se multiplicou por três (Ucrânia, Irão, Líbano...) e esperar que o Mundo não incendeie de vez. Já estivemos mais longe.
(foto Tel Aviv, BBC)







