Para quem tem pouco tempo e deseja visitar locais fora da cidade, as melhores opções são as excursões, marcadas com antecedência, ou o táxi privado, que exige um acordo prévio com o condutor sobre o destino e o preço final. Não há taxímetro. A distância e a duração da viagem, são os únicos critérios.
Porque a ideia era intercalar Tanger, com visitas a Asilah e Chefchouan/Tetuan, pedimos um táxi e, nos dias e horas aprazadas, lá estava o condutor à porta do hotel.
Jallah, é um veterano com 40 anos de condução que, para além de conhecer o país como as suas mãos, fala 4 línguas (árabe, espanhol, francês e inglês) e utiliza um sinónimo para cada palavra que não compreendemos. Nascido e criado em Tanger, fala-nos da sua juventude, do clube onde praticou futebol e dos ídolos do jogo que ainda pratica e o apaixona. Um "expert", que conhece bem Ronaldo e a seleção portuguesa, mas prefere Lamine Yamal, de origem magrebina e recente campeão do Mundo. Para além do desporto-rei, é um profundo conhecedor dos locais que visitámos, com sugestões sobre os melhores percursos, os melhores mercados, as melhores lojas e os restaurantes onde melhor se come. Uma enciclopédia, o Jallah.
A primeira cidade, Asilah (Arzila, em português) é uma antiga praça forte portuguesa (1471-1550) na costa atlântica, a cerca de 45 minutos de Tanger. A Medina, dentro de muralhas e o brasão sobre o portão principal da vila (Bab Al Homar) recordam a passagem de Portugal por estas paragens. De um branco alvíssimo, intercalado por garridas cores, com predominância do azul, Asilah lembra a Ericeira, com os seus becos floridos e limpos, onde "pintores de domingo" expõem os seus quadros. Uma agradável surpresa.
A segunda viagem, bem mais longa, permitiu conhecer duas cidades distintas: Chefchouan e Tetuan, visitas obrigatórias em qualquer roteiro turístico. Chef ("olhar") Chouan ("os picos") é, consensualmente, considerada a cidade mais bonita de Marrocos. A duas horas de Tanger, encravada entre as montanhas do Rif, revela-se à medida que deixamos a costa e iniciamos a subida em direcção à cordilheira. Entramos no Marrocos profundo, agreste e duro como as suas gentes, envoltas em longos kaftans e chapéus berberes tradicionais, enfeitados com borlas de variadas cores. Uma festa para os olhos. Percorremos as ruas estreitas do mercado de vegetais e de fruta, onde os agricultores vendem os seus produtos, expostos em tapetes no solo. Enquanto Jallah avalia o preço das sementes e das cebolas, caminhamos ao acaso pelas vielas estreitas, no meio do souk local, maioritariamente pintadas de azul. Sobre o azul das habitações, há duas explicações: arrefece as casas e afasta os mosquitos. Faz sentido. Um espanto, Chefchouan.
Na viagem de regresso, visitamos Tetuan, uma cidade marcada pela longa permanência espanhola, visível na arquitectura andaluza, na igreja católica que domina uma das praças principais e nas ruelas estreitas do centro histórico. O palácio real, situado na praça central, encontrava-se encerrado por barreiras e polícias armados. Jallah, sempre atento, informa-nos que o rei devia estar a chegar, pois pernoitava na cidade, este ano escolhida para as cerimónias comemorativas da coroação. Não sabia quando chegava, mas costumava viajar de noite. Esta informação, seria confirmada mais tarde pelo zelo com que centenas de funcionários, equipados com longas vassouras, varriam (!?) a auto-estrada que liga Rabat a Tetuan. Para além dos agentes da polícia, estrategicamente dispostos ao longo da via, um mar de bandeiras vermelhas nacionais, ondulava em todas as rotundas. Um cenário a lembrar regimes onde o culto da personalidade ainda existe.
À medida que a confiança com Jallah crescia, as suas opiniões tornaram-se mais "soltas". Aponta para as aldeias isoladas do Rif e comenta: "ninguém se preocupa com estas populações. Se adoecem, não têm quem os trate. Não há médicos. Têm de chamar uma ambulância que os leve a Tetuan, pela qual pagam 500 Dirhams (cerca de 50 euros). Uma fortuna. O salário mínimo nacional (SIC) é de 3500 DAM (cerca de 350 euros), mas os polícias e os militares ganham mais (cerca 4500 DAM) e têm vantagens sociais". Ele próprio, ganha menos que o salário médio, mas tem gorjetas. É casado e tem quatro filhos, todos a estudar. A mulher, que teve cancro, perdeu a mobilidade num braço devido a um AVC e não pode trabalhar. "Lá em casa toda a gente tem de trabalhar. Digo sempre aos meus filhos que a mãe já não tem a energia que tinha e devem ajudá-la. Se estudarem e terminarem os cursos, posso arranjar-lhes um bom emprego. Conheço muitos empresários e eles ajudam-me. Tenho um filho que passa o dia a olhar para o telemóvel. A juventude actual não tem nada na cabeça"...
As conversas, tornam-se mais confidenciais: "O rei, só constrói auto-estradas e estádios de futebol. O pai só construia barragens. Nenhum deles pensou no povo. Espero que o príncipe, cuide mais da saúde e da educação. Já era bom. Marrocos, podia ser um país rico, pois temos tudo: clima, praia, turismo, agricultura...".
Jallah é um taxista informado, fruto da sua experiência e contactos. Confirma alguns dados, que eu conhecia de leituras prévias: Marrocos tem cerca de 40 milhões de habitantes (38,7 segundo o último censo), dos quais 50% são jovens. A taxa de desemprego actual, ronda os 11%, mas é de 37% entre os jovens (15-24 anos de idade). Os licenciados são cerca de 20%. Não há empregos e isso explica as sucessivas vagas de emigração, principalmente de homens jovens. As maiores comunidades vivem em Espanha, França, Bélgica e Holanda. Na Holanda (que conheço bem) a comunidade marroquina, já é a maior com 430.000 residentes (2,4% da população). Dada a situação actual, a diáspora tenderá a aumentar.
Falamos da praia de Tanger, em frente ao Boulevard Mohamed VI, onde aos domingos famílias inteiras passam o dia, naquela que é uma das formas de convívio mais populares. Milhares de homens, mulheres e crianças, em alegre convívio com as suas toalhas, guarda-sóis e farnéis abundantes. Refiro a diferença entre as mulheres que entram "vestidas" para a água e as que usam fato de banho. Como é?
Jallah, ri-se e explica: "Em Marrocos, as mulheres não são obrigadas a andar de Burka ou de Hijab. Tenho duas filhas e elas andam vestidas como querem. As mulheres que tomam banho "vestidas", usam o que nós chamamos "burkini" (palavra formada a partir de burka+bikini). São feitos de um tecido especial, impermeável. Não se molham..."
Marrocos é um mosaico. De cores, odores e sensações. Todos os dias, a cada esquina. Um povo delicado, atencioso e prestável. Toda a gente sabe algumas palavras de espanhol ou francês, mas os mais jovens falam inglês com fluência. Uma sociedade pós-colonial, que não perdeu a sua identidade.
No último dia, Jallah fez questão de nos levar ao aeroporto. A terceira "corrida" em 4 dias. Desfez-se em agradecimentos. Deixa-nos o seu número de telefone. Para a próxima, vamos comer a sua casa. A mulher faz um óptimo couscous.






