1. Museo Casa Natal - Federico Garcia Lorca
    Data de 1977, a minha primeira e breve passagem por Granada.
    Da visita, guardo recordações de um gorada entrada no Alhambra e uma sessão tardia de flamenco para turistas, algures nas "cuevas" ciganas da cidade. Pelo meio, uma "paella" memorável. 
    Quarenta anos mais tarde, a oportunidade de voltar a esta cidade mítica, último reduto do domínio muçulmano na península ibérica, agora com propósitos mais bem definidos.
    Desde logo, visitar os "ex-libris" locais, a citadela La Alhambra (o monumento mais visitado de Espanha), o palácio del Generalife, a Catedral, a Capilla Real, o Palacio de La Madraza, o Corral del Carbón, o Bairro Albaicín, Sacromonte, o Paseo de Los Tristes, o Parque que rodeia a Horta de S. Vicente (onde viveu Federico Garcia Lorca) ou a "carmén" de Manuel de Falla, entre tantos outros.
    Este era o plano...
    Porque o tempo era escasso e, pelo meio, havia um fim-de-semana festivo, tornou-se difícil cumprir o sobrecarregado programa, tanto mais que muitos dos locais se encontravam encerrados ou apresentavam filas desencorajadoras para quem não podia esperar...
    Começámos pelo fim, neste caso as localidades de Fuente Vaqueros e de Valderrubio, nos arredores da cidade, onde Garcia Lorca viveu parte da sua infância e juventude. Em ambas, existem hoje casas-museu dedicadas ao poeta, que albergam parte do seu espólio e muito do mobiliário original, recuperados pela família. Foi, aliás, em Valderrubio, onde Lorca passou a juventude, que o dramaturgo escreveria a peça "A Casa de Bernarda Alba".
    Fuente Vaqueros, uma pequena vila de 4000 habitantes, dista apenas 17km de Granada. Saindo pela A92, em direção a Sevilha e, depois de passar o aeroporto, que ostenta o nome de Lorca, podemos ver as primeiras indicações na berma direita da estrada. Após um pequeno desvio, indicado pelo GPS, que obriga os visitantes motorizados a passar pelo cemitério (!?), fomos parar à Alameda  principal da  vila, o Paseo del Prado, onde se encontra uma fonte monumental, dedicada a Lorca. No outro extremo da Alameda, encontra-se a estátua do poeta que, de resto, dá o nome a ruas, escolas, creches e cafés de Fuente Vaqueros. O Museo Casa Natal - Federico Garcia Lorca, é a principal atracção da vila e, pela manhã, já havia turistas a rondar a porta, àquela hora fechada por estar a decorrer uma visita guiada no seu interior. Enquanto esperavámos pela nossa vez, aproveitámos para visitar El Museo de Fuente Vaqueros, uma antiga escola reconvertida, paredes meias com a Casa Natal.
    Inaugurado em 1986, o museu reuniu uma importante colecção de documentos, bibliografia e obras de arte, hoje referência imprescindível para investigadores e seguidores da vida e obra de Federico Garcia Lorca. Entre os mais significaticos, o manuscrito da conferência "Arquitectura del Cante Jondo", a versão argentina do guião "El Retablillo de Don Cristóbal", páginas soltas de "Mariana Pineda", arquivos pessoais, como os do espanholista Ian Gibson, do poeta Fernando Villalón, assim como obras de Dali, José Caballero, Benjamin Palencia e Manuel Ángeles Ortiz.     
    Em 1998, foi anexado ao museu, El Centro de Estudios Lorquianos, que alberga desde então a biblioteca e arquivo, para além de sala de exposições, concebida como espaço aberto a propostas inovadoras. Na sala das exposições temporárias, é possível ver uma reconstituição fotográfica dos locais de Granada, frequentados por Lorca nas décadas de '20 e '30, alguns dos quais já desaparecidos, como as duas casas onde viveu com a família. 
    De volta à Casa Natal, onde só é possível entrar com guia, fomos passando através das diferentes divisões que compõem a pequena habitação de dois pisos, onde nasceu e viveu o poeta até aos sete anos. Lá estava a cama original e o piano de parede, cedido pela irmã, no qual tocou e acompanhou a célebre Argentinita, para além de fotos e móveis originais, que foram recuperados pela família. No piso superior, hoje vazio, pudemos assistir a um filme de época, com imagens de Lorca durante uma digressão do grupo teatral "A Barraca", por ele fundado, para além de uma excelente exposição fotográfica, através da qual podemos seguir cronologicamente a história da família, que se fixou no vale de Granada, depois do pai de Lorca ter-se dedicado à cultura da beterraba, com a qual enriqueceu. As traseiras da casa, dão ainda para um pátio interior, onde existe um poço e um busto de Lorca, que serve de ex-libris às publicações da loja de "souvenirs", onde é possível comprar livros, discos e reproduções de cartazes da época. Indizível, a sensação de estar naquele lugar.
    Dado o adiantado da hora, deixámos para nova visita a povoação de Valderrubio, onde existe a outra casa-museu, pois ainda faltava Granada...
    Resta falar de Ian Gibson, académico irlandês, apaixonado por Espanha, cujos livros sobre Lorca (tema da sua tese de doutoramento) fazem dele um dos maiores especialistas da vida e obra do poeta andaluz. Foi ao ler Gibson, que (re)descobri Lorca. Um manancial de informação, onde a investigação jornalística, não dispensa a erudição, sempre presente em todos os seus livros. Para os interessados, recomendo "La represión nacionalista de Granada en 1936 y la muerte de Federico Garcia Lorca" (Ruedo Iberico: Paris, 1971), apreendido durante o regime de Franco e recentemente reeditado sob o título "El Asesinato de Garcia Lorca" (Ediciones B: Barcelona, 2018); "Vida, pasión y muerte de Federico Garcia Lorca, 1898-1936" (Ediciones B: Barcelona, 2016) e "Aventuras Ibéricas" (Ediciones B: Barcelona, 2017), entre outros.
    De vida e obra de Lorca, sabemos cada vez mais. Das condições da sua morte, nem tanto. Falta o mais importante: encontrar o corpo, supostamente enterrado, juntamente com outros republicanos, numa vala comum, algures entre Víznar e Alfacar, após ter sido fuzilado pelas tropas franquistas, no dia 17 de Agosto de 1936.

    "Desde entonces no sabemos nada, sino su propria muerte, el crimen por el que Granada vuelve a la Historia con un pabellón negro que se divisa desde todos los puntos del planeta"
    PABLO NERUDA, 1947 

      
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  2. Que Sevilha pode ser um lugar de boas surpresas, não é novidade para ninguém que conheça minimamente a cidade. De volta à capital andaluza, agora em missão mais "séria", oportunidade de o comprovar, se isso fosse ainda necessário...
    Tudo começou há uns meses atrás quando, em conversa informal, fomos confrontados com um convite inusado: o de apresentar, em forma de charla, uma panorâmica sobre a música popular portuguesa actual (vulgo MPP), que vem sendo feita por dezenas de compositores e intérpretes musicais, de há 50 anos a esta parte. A conversa seria integrada numa classe de alunos finalistas da Escola Superior de Artes Dramáticas (ESAD), que estudam artes performativas nas suas mais diversas vertentes (canto, teatro, mímica, dança ou música...).
    Aceite o desafio, e porque o tema era vasto e daria para um "trimestre", optámos por incidir o foco da nossa intervenção na geração dos chamados "cantautores" (sing-songwriters), uma vez que a denominação, cobria os "baladeiros" ou "cantores de protesto" (anteriores a 1974) e os "cantores de intervenção" ou "canto livre", surgidos com o "25 de Abril".
    Devo confessar, que poucas coisas me dão mais gozo do que seleccionar músicas e autores que fazem parte da banda sonora da minha vida. Se alguma coisa marcou a minha geração, foram as canções (datadas ou intemporais), que continuam a fazer parte da história da (nova) Música Popular Portuguesa. Restava a parte mais difícil: que músicas e autores escolher, para apresentar a uma classe heterógenea, constituida por alunos que nunca, ou raramente, teriam ouvido estas canções, ainda por cima num tempo limitado de duas horas?
    Após um fim-de-semana de tentativas várias, conseguimos alinhar 25 títulos que cobrem, "grosso modo", o período compreendido entre 1956 e 1982, respectivamente o ano das primeiras "Canções Heróicas" (gravadas pelo Coro da Academia de Amadores de Música, dirigido pelo maestro e compositor Lopes Graças); e o ano da edição de dois albuns seminais da MPP (os LPs "Ser Solidário/FMI" de José Mário Branco e "Por este Rio Acima", da Fausto Bordalo Dias). O primeiro, "encerrando", de algum modo, a fase da canção mais comprometida politicamente e, o segundo, inaugurando uma fase de grande criatividade, após o período mais politizado destes mesmos cantautores. Pelo meio, nomes como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Manuel Freire, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Tino Flores, GAC, Fausto e Vitorino.
    O tempo não deu para mais e muitos nomes ficaram de fora. Nada que tivesse impedido os presentes de manifestarem o seu apreço pela música oferecida, coisa que, de resto, é natural num país que nos deu cantautores como Paco Ibáñez, Luís Pastor, Patxi Andión, Lluís Lach ou Joan Manuel Serrat, para nomear alguns dos mais conhecidos.
    Por coincidência, actuava na cidade, Teresinha Landeiro, num ciclo de fado anualmente organizado pelo Lope de Vega, o mítico teatro sevilhano. Não podíamos faltar (noblesse oblige) também porque conhecemos a jovem fadista das noites de fado amador, então organizadas no centro cultural da "Fábrica Braço de Prata", em Lisboa, já lá vão 10 anos. Tinha, Teresinha, 14 anos...
    Dez anos mais tarde e dois albuns de originais depois, para além de actuações em salas prestigiadas como o CCB (Lisboa) e a Casa da Música (Porto), Teresinha confirmou todos os atributos que se adivinhavam há uma década atrás: uma fadista "puro sangue" que nada tem a provar, tal a maturidade do seu canto. Para quem estiver interessado, não deve perder as sextas à noite da "Mesa de Frades", em Alfama, onde ela actua regularmente.
    Finalmente, e porque Sevilha sem Flamenco é como Roma sem Papa, tanto procurámos que fomos bafejados pela sorte. Em cartaz, nessa mesma semana, um concerto organizado na sala Cero, um pequeno teatro de bolso que, pela primeira vez, em colaboração com Madrid e Granada, organiza um ciclo dedicado a Manuel de Falla (Musica de Cámara y Flamenco).
    Desta vez, o programa, ainda que sugestivo, era relativamente desconhecido para nós: Rocío Diaz (cantaora), Manolo Franco (guitarra) e Luisa Palicio (bailaora). Porque os concertos deste ciclo, são temáticos, este era dedicado à "Triana de Azulejo", uma evocação, suportada por magníficos diapositivos, das decorações típicas do famosos bairro sevilhano. Após uma curta, mas pedagógica introdução ao tema, por parte do organizador, pudemos assistir a hora e meia de excepcional qualidade e, fiel ao espírito de Falla, sem amplificação sonora. Aqui, o "cante" clássico, interpretado por Rocío, foi superiormente acompanhado pelo mestre Franco, um guitarrista de finíssimo recorte e técnica apuradíssima, a lembrar os grandes intérpretes da guitarra clássica espanhola. Uma nota final, para a bailaora (Palicio) que, pesem as poucas intervenções no concerto, mostrou uma técnica soberba, na tradição de uma arte, onde são incontáveis os génios da dança. Grande noite, a fechar uma estadia não menos memorável. 
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  3. Na semana passada, descobri, por mero acaso, que três dos mais importantes documentos de identificação pessoal, tinham caducado, ou estavam em vias disso: o Cartão de Cidadão, que veio substituir, em 2009, o antigo Bilhete de Identidade; o Passaporte, renovável por períodos de 5 anos; o Cartão Europeu de Saúde, renovável a cada 3 anos e sempre útil em caso de doença ou acidente, quando se viaja dentro da União Europeia.
    Porque o seguro morreu de velho, comecei pelo princípio, que é como quem diz obter informação sobre a maneira mais rápida de resolver estes assuntos. Fui à NET e consultei o "site" E-Portugal, criado há cerca de 20 anos, durante o governo de António Guterres, naquela que foi anunciada como a "entrada de Portugal na era da digitalização", vulgo "Simplex".
    Data dessa época, a inauguração da 1ª Loja do Cidadão, em Lisboa, anunciada com "pompa e circunstância" pelo, então, primeiro-ministro. Resumidamente, a Loja do Cidadão (a que se seguiram outras, dentro e fora de Lisboa) alberga sob o mesmo tecto, serviços de atendimento tão diferentes como Cartão de Cidadão, Passaporte, Finanças, Impostos, Segurança Social, Cartão Europeu de Saúde, Contractos de Electricidade, Água, Gás, etc...
    A primeira Loja do Cidadão, abriu no Centro Comercial das Laranjeiras e, pouco tempo depois, abriria uma segunda Loja, situada no antigo edifício do cinema Éden, nos Restauradores. Foi nesta segunda Loja, que resolvi a maior parte dos meus problemas administrativos com o estado (impostos, cartão de cidadão, passaporte, etc...), até que (vá lá saber-se porquê) a Loja dos Restauradores encerrou. Foi, mais ou menos por essa altura que passou a ser possível agendar visitas pelo telefone. De acordo com a área residencial é, agora, possível marcar uma visita, para determinada data e hora, evitando, dessa forma, as filas para obter uma senha e aguardar (horas!) até ser atendido.
    Desta vez, e porque era urgente, optei pela marcação telefónica, julgando ser essa a forma mais rápida de resolver o problema. Para minha surpresa, foi-me comunicado que não havia vagas em toda a região de Lisboa, até ao dia 28 de Janeiro de 2020! Na dúvida, reservei uma visita para essa data e optei por dirigir-me a uma Loja do Cidadão de Lisboa, correndo o risco de lá chegar e não haver "senhas" para ser atendido no próprio dia.
    Aconselhei-me com amigos e um simpático taxista sugeriu-me a "Loja do Cidadão", no Alto da Boavista, em Lisboa, da qual nunca tinha ouvido falar. Lá fui, na passada segunda-feira, para tratar dos documentos necessários.
    A Loja está situada dentro de um Centro Comercial gigantesco, que é necessário atravessar até chegar às instalações de "design" moderno, que começam a ser semelhantes em todo o país. Tirei a senha para as Informações Gerais e esperei pela minha vez no Balcão do Cidadão. Uma vez atendido e depois de explicar o que me levava ali, a solícita empregada informou que podia pedir-lhe o Cartão Europeu de Saúde, o qual me seria enviado para casa, sem custos. Tratei desse assunto e passei a uma sala anexa, onde só tratam de Cartões de Cidadão e Passaportes. Tirei duas senhas e esperei pela minha vez. Após uma hora de espera, fui atendido no Balcão dos Passaportes. Apresentei o Passaporte, que caducava em Fevereiro e pedi a sua renovação. A funcionária ficou de imediato com o dito e, depois, de imprimir um formulário com os meus dados, mandou-me dirigir a uma das 4 máquinas disponíveis, onde teria de fazer uma fotografia tipo-passe e digitalizar as minhas impressões digitais, para além de uma assinatura, de acordo com as normas. Lá fui e para minha surpresa, depois da foto, o écran anunciava que a recolha de dados não tinha resultado (!?). Nova tentativa e a mesma resposta. Após 4 tentativas nessa máquina, a funcionária sugeriu que eu mudasse de máquina. Voltei a tentar tirar as fotos e nada. Após 3 tentativas, passei para a 3ª máquina onde, também não resultou! Perante o desespero da funcionária, alvitrei que ela chamasse um técnico. Foi quando ela confessou que aquilo estava sempre a acontecer (!?). Finalmente, tentámos a única máquina que eu não tinha experimentado e, aí, a foto resultou, mas ficou demasiado iluminada, o que provocava uma áurea sobre a minha cabeça. A funcionária não desarmou e foi buscar um chapéu de chuva, que abriu por cima de mim, para que a luz não se reflectisse na cabeça. Debalde. Tentei brincar com o assunto, alvitrando que talvez eu fosse um "vampiro" e a minha imagem não se reflectisse no espelho...Em desespero de causa, a funcionária não se atrapalhou: "não faz mal, tira-se a foto com um telemóvel!".
    O quê? Com um telemóvel?
    "Pois, não seria a primeira vez" e, virando-se para uma colega de balcão, "o fulana, empresta-me aí o teu telemóvel que tira melhores fotografias que o meu...". E, antes que eu pudesse reagir, encostou-me ao espaldar da máquina e tirou 4 fotos!
    E agora, se não ficou bem? Perguntei eu, ainda meio aparvalhado. "Deve ficar, mas se não ficar terá de vir cá outra vez", continuou ela numa "desportiva". Deve estar a brincar comigo, disse-lhe. E o meu passaporte antigo? "Esse pertence ao estado. Fica em nossa posse". Se fica em vossa posse, tem de o destruir aqui à minha frente, pois paguei 65euros por ele. "Muito bem", disse ela e fez dois orifícios no passaporte antigo. Paguei 65euros e recebi o comprovativo. "Dentro de seis dias úteis, estará pronto, isto se não tiver de repetir as fotos, claro", foi dizendo...
    Restava o Cartão de Cidadão. Mais uma hora de espera e digitalização das impressões digitais. Já não tirei fotografias, não fosse a máquina recusar-se outra vez. Paguei 18 euros e perguntei quando estaria pronto? "Não sabemos", respondeu a funcionária, sorrindo de simpatia. Perdão? Como não sabem? "A gente aqui, nunca sabe. Quem manda, são os serviços. Depende do trabalho acumulado. Pode demorar uma semana, ou mais. Nunca menos". E agora? Não tenho documentos e não sei quando os vou receber?..."Pois, também não podemos ajudá-lo". E se eu tiver de me identificar? "Mostra o recibo comprovativo do pagamento". E se for viajar, pensa que alguém reconhece um recibo de pagamento? "Pois, não sei...", continuava ela sorrindo.
    Desisti. Tinha passado 3 horas na Loja do Cidadão, tratado de 3 cartões de identificação, não possuia nenhum válido e acabara de pagar 83euros. Mais "simplex" que isto, era impossível.
    Uma coisa, é certa: Kafka existe e vive em Portugal...   
       
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  4. Hoje é um dia fodido.
    Morreu um amigo e companheiro de longa data.
    Dos chamados "insubstituíveis", ainda que saibamos que os cemitérios estão cheios de pessoas invulgares.
    Já lá vão mais de 50 anos. Estávamos em 1968 e eu vivia há dois anos em Amesterdão, onde me tinha exilado, por recusar a guerra colonial. Naquela época, eram poucos os portugueses exilados na Holanda. A maior parte, colaborava com o Angola Comité, uma organização holandesa que apoiava os movimentos de libertação africanos e denunciava a guerra colonial. O Angola Comité pediu-nos ajuda na divulgação e organização de uma sessão sobre a guerra em África. Necessitavam de um português que cantasse umas canções de teor político. Os poucos cantores exilados, viviam todos em França e alguém (Isabel) lembrou-se de um amigo que tinha conhecido na faculdade. Chamava-se José Mário Branco e cantava em Paris. Contactámo-lo e ele aceitou o convite.
    Lembro-me, como se fosse hoje, da sua primeira actuação. Foi na Aula Magna, da Universidade de Amesterdão, onde o Zé Mário, rouco de constipado, cantou "A Ronda do Soldadinho" que, só mais tarde seria gravada e distribuida, com a ajuda do Angola Comité. Uma epifania.
    Acompanhei a sua fase de exílio à distância, ainda que fosse adquirindo todos os discos, entretanto editados, desde as "Cantigas d'Amigo" (1969), até ao seminal "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (1971), uma pedrada no "charco" da cinzenta música popular portuguesa, a que se seguiu "À Margem, de certa maneira" (1973).
    Voltaria a encontrá-lo no pós-25 de Abril, já em Lisboa, primeiro no GAC, do qual foi co-fundador e, mais tarde, no grupo de teatro "A Comuna" onde, para além de actor, foi responsável pela música da peça "A Mãe", que "comprei" através de um "crowdfunding". 
    Em 1976, o Zé Mário voltaria a Amesterdão, para cantar no âmbito de uma "Semana Portuguesa", organizada pela comunidade local na Mozes en Aronkerk, uma igreja protestante, que apoiou durante anos a causa dos refugiados portugueses.
    Seguiram-se gravações e actuações memoráveis que, por estes dias, serão lembradas em obituários de circunstância ("Ser Solidário/Solitário", "FMI", "A Noite", "Correspondências", "Ao Vivo em 1997", "Resistir é Vencer"...).  Em Amesterdão, onde eu continuava, era mais difícil vê-lo ao vivo, mas, sempre que havia oportunidade, lá o contactávamos para mais uma sessão. Aconteceu, pela terceira vez, em Dezembro de 1984, quando o convidámos para participar numa "festa natalícia" das associações portuguesas locais. Aproveitámos a sua passagem pela cidade para filmá-lo durante a actuação, onde gravámos a canção "Eu vim de longe", que viria a fazer parte da banda sonora de um filme que estávamos a fazer para a televisão holandesa.
    Data de 1989, a sua última passagem pela Holanda. No âmbito de uma digressão organizada pelo "Círculo de Cultura Portuguesa", que abrangeu Amesterdão, Roterdão e Haia, voltaria a cantar, agora ao lado de Carlos do Carmo e António Pinho Vargas. Canções de sempre, tão actuais então como na época em foram escritas. Foi um privilégio ter produzido tais concertos.
    Voltaríamos a entrevistá-lo, em 1993, na sua casa em Lisboa, para um documentário da VPRO, uma emissora de televisão holandesa. Dessa vez não cantou, mas falou de música, política e não só...
    Anos mais tarde, após o meu regresso a Portugal, voltei a reencontrar o Zé Mário. Primeiro, no Teatro da Trindade, onde ele gravaria o celebrado duplo-album "Ao Vivo em 1997". Três sessões memoráveis, cujo ambiente está bem testemunhado na gravação. Outra, após um concerto para comemorar Abril, organizado no Coliseu dos Recreios (2008). Nessa noite, foi o último a cantar e esperou até às 3horas da madrugada para poder fazê-lo. No regresso, deu-me "boleia". Estava "mais morto que vivo", nas suas próprias palavras. Tinham-no feito esperar, mais de 6 horas, nos camarins do Coliseu...
    A última vez que nos encontrámos, foi em Grândola onde, em Outubro de 2018, foi lançado o CD "Grândola (para sempre)", uma colectânea de versões internacionais da canção popularizada por José Afonso. O Zé Mário foi lá falar sobre a produção do "Cantigas do Maio" em Paris e das peripécias que envolveram a gravação da "Grândola". Uma aula.
    Uma semanas antes, tinha estado na Associação José Afonso, para falar do seu último CD, uma compilação de inéditos, gravados entre 1967-1999. Sala "à pinha", para ouvir histórias inéditas. Às tantas, alguém lhe perguntou quando é que voltava aos palcos. Ao que ele respondeu: "O que tinha para dizer, está nos discos. Comprem os discos e ouçam-nos". O homem insistiu: "É pá, há sempre motivos para cantar...", ao que o cantor retorquiu "Pois há, pá, mas eu não tenho paciência para concertos tipo missa, com isqueiros e telemóveis a acender e a apagar. Agora, não tenho assunto, mas, se fôr preciso, lá estarei de novo". O outro insistiu: "Mas, não tens mesmo assunto?". "Não, pá, o que é queres? Que eu suba para cima do palco e comece a cantar "não tenho assunto, não tenho assunto, não tenho assunto?...Não dá".
    E agora?
    Agora, não sei como terminar este texto. Acho que fui eu que fiquei sem assunto. Restam-me os discos e as memórias. Só posso estar agradecido. 
    Obrigado, Zé Mário!          

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  5. As eleições espanholas, do passado domingo, trouxeram poucas surpresas relativamente às projecções avançadas ao longo dos últimos meses. No essencial, podemos dizer que o "bloco" dos partidos de "esquerda" (PSOE, Unidas-Podemos, Más País, ERC, PNV...) e o "bloco" dos partidos de "direita" (PP, Cds, VOX...) mantiveram as mesmas percentagens, ou seja, um (relativo) equilíbrio em termos parlamentares. O grande vencedor da noite, acabaria por ser o VOX (extrema-direita), que mais do que duplicou o número de deputados (52), enquanto o grande perdedor, seria o "Ciudadanos" (Liberais) com uma derrota histórica (perdeu 47 deputados), o que levou o seu líder (Albert Rivera) a demitir-se.
    Estes resultados, não contribuiram para clarificar o impasse em que se encontra a política do país vizinho, já que o vencedor das eleições (PSOE) não conseguiu atingir uma maioria absoluta ou, sequer, suficientemente confortável, para poder constituir governo. Isso mesmo percebeu Sanchéz que, apesar de vencer, perdeu votos e deputados, o que deitaria por terra a estratégia gizada pelos socialistas, que pensaram poder sair reforçados destas eleições. Depois de meses de discussões estéreis, entre Sanchéz e Iglesias, sem conseguirem chegar a um acordo sobre questões como a Catalunha ou a divisão de ministérios, a ameaça do VOX (leia-se fascismo) parece ter surtido algum efeito nas suas mentes. Só assim se explica o acordo, ontem firmado, pelos dois líderes. Nesse sentido, podemos dizer que há males que vêm por bem...
    Mas, ainda não estamos lá. Juntos, o PSOE e o Unidas-Podemos têm, agora, 155 deputados (120+35), o que não chega para atingir a maioria absoluta no Parlamento (176 deputados). Faltam, portanto, 21 votos. Teoricamente, os dois partidos podem governar, já que detém mais votos do que a direita junta. Acontece que, em caso de se formar uma coligação negativa no parlamento (como aconteceu em Portugal com Sócrates em 2011 ou Passos Coelho em 2015), o governo pode cair. A acontecer tal situação, o VOX seria o principal beneficiário, agora que os votos dos Ciudadanos parecem ter sido transferidos para o partido de Abascal e o PP (88 lugares), o maior partido da oposição, poder ser uma alternativa governamental.
    Tudo depende da capacidade negociadora de Sanchéz, que terá de fazer concessões a outros partidos de esquerda, única forma de atingir os almejados 21 deputados de que necessita. Um bico-de-obra.
    Comparando com a situação portuguesa, não deixa de ser curiosa a afirmação de António Costa, há alguns meses atrás, quando as sondagens davam ao partido socialista percentagens próximas da maioria absoluta. Em entrevista ao "Expresso", perante a pergunta se contava com o BE para governar, o primeiro-ministro português afirmou taxativamente que o BE nunca seria governo, pois a experiência, em Espanha, mostrava a instabilidade de um governo com o Unidas-Podemos.
    Ele há cada uma...
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  6. Na recta final, a 19ª edição do DOCs continua a apresentar muitos e bons documentários.
    Dos filmes vistos, destaque para o ciclo "Verdes Anos", onde são exibidas primeiras obras e obras de jovens autores em início de carreira.
    Dois portugueses, "Simulacro" e "Casa na Praia", respectivamente de Duarte Maltez e Teresa Folhadela e dois estrangeiros, "Não nos representam" de Irene Muñoz Martin (Espanha) e "A Family Tale" de Claudia Ciepiel (Dinamarca), foram as nossas escolha desta semana.
    Ainda que os meios (e experiência) dos jovens realizadores, sejam condicionantes a ter em conta, a verdade é que a qualidade dos filmes apresentados era bastante desigual.
    Interessante, o documentário de Maltez, ainda que curto (9'), no qual, através de uma montagem rápida e nervosa, o autor mostra diversos excertos da sociedade de consumo, numa crítica implícita à volatilidade dos dias.
    Menos interessante, pareceu-nos o filme de Teresa Folhadela, um típico produto de finalista, onde a autora nos mostra imagens de uma família (a sua) algures na Foz do Porto. Imagens, sem qualquer comentário, onde os personagens vão passando em frente à câmara, enquanto os dias passam, entre refeições, passeios na praia e um simpático cão...
    Bem diferente, foi o filme de Muñoz Martin que, para além dos meios ao dispôr (desde logo expresso no tempo e na qualidade das imagens) tinha uma pergunta que percorria todo o filme: quem nos representa? Os manifestantes do movimento 15M, Franco, os actores contratados, as pinturas de Goya ou o cinema do real? Um documentário de qualidade, a mostrar uma maturidade bem longe dos trabalhos (necessariamente incipientes) de um finalista de Belas Artes. Finalmente, o filme de Ciepiel: um contido, mas belo ensaio sobre a família e a morte de um ente querido (o pai) em imagens sóbrias, que lembram Bergman e a austera tradição luterana.
    Um dos filmes mais aguardados desta edição, a estrear brevemente no circuito comercial português, era "The Brink" (Alison Klayman), sobre a ascensão da nova-direita americana.
    O filme acompanha o antigo estratega da Casa Branca, Steve Bannon, nas eleições intercalares nos Estados Unidos e nos seus esforços de mobilização dos partidos de extrema-direita, para ganhar assentos nas eleições para o Parlamento Europeu de Maio de 2019. Ainda que não revele nada que não saibamos, o filme de Klayman é um bom "road-movie", sobre um homem reaccionário, mas inteligente, que parece ter uma única missão na vida: construir um movimento de extrema-direita a nível internacional. Esta "nova direita" (de ideias velhas) dispõe de muito dinheiro (ex-presidente da Goldman Sachs, milionários chineses no exílio, doadores anónimos) dispostos a financiar pessoas pouco recomendáveis: Farage (UK), De Winter (Bélgica), Salvini (Itália) ou Marine Le Pen (França). Para já, estes republicanos da Alt-Right, perderam as intercalares nos EUA, o que impedirá Trump de construir o muro na fronteira do México, símbolo maior da América proteccionista (economia para os americanos). Depois e apesar dos contactos na Europa (onde vive num castelo próximo de Roma) Bannon não parece convencer todos os nacionalistas convocados para um jantar em Londres. Estes precisam de dinheiro e de uma ideia comum. Qual? Os imigrantes, os refugiados? O guru americano faz-lhes uma proposta: o "nacionalismo económico". Um conceito "apelativo", que já foi experimentado na Alemanha da Krupp, Daimler-Benz e Hugo Boss. Na altura chamava-se "nacional-socialismo". O nazismo, para os mais distraídos. Por alguma razão, o filme começa com imagens do campo de extermínio de Auschwitz. O "sistema perfeito", nas palavras de Bannon. O homem é sinistro.
    O DOCs termina este fim-de-semana. Hoje serão entregues os prémios dos filmes a concurso. Com esta edição, termina igualmente o consulado de Cíntia Gil, a dinâmica directora do Festival nos últimos 10 anos, responsável por uma equipa de mais de 50 voluntários, que organizam o melhor festival de cinema em Portugal. A partir do próximo ano, Cíntia Gil, irá coordenar o festival de Leeds, onde a esperam novos desafios. O DOCLISBOA, esse, continua. Até para o ano!
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  7. Como é da tradição, em Outubro, voltou o DOC's.
    Na sua 19ª edição, o mais importante Festival de Cinema Documental em Portugal, apresenta, uma vez mais, um programa rico e variado nas suas diversas vertentes. Do documentário puro e duro aos filmes mais experimentais, dos novos realizadores aos nomes consagrados, da produção nacional aos filmes a concurso, o DOCs afirmou-se ao longo dos últimos anos como um evento incontornável, este ano com mais de 300 obras em estreia e em retrospectiva, organizadas em blocos temáticos, onde não são esquecidos os mais novos, para além dos painéis e "workshops" com a presença dos realizadores convidados.
    Nesta edição, destaque para a secção "Retrospectiva", com um ciclo dedicado à realizadora libanesa Jocelyne Saab e o ciclo "Ascensão e queda do Muro - O cinema alemão de Leste" (filmes realizados na ex-DDR entre 1946 e 1991).
    Regressam as secções "Riscos" (documentário e experimentalismo); "Da terra à Lua" (discriminação, racismo e colonialismo); "Heart Beat" (sobre música e músicos); "Cinema de urgência" (Habitação, Fascismo no Brasil, Jornalismo Independente); "Verdes Anos" (jovens realizadores); "Competição Internacional" e "Competição Nacional".
    Dos documentários, entretanto vistos, destaque para o filme de abertura "Longa Noite" de Eloy Enciso (Galiza), sobre as memórias da ditadura franquista. Um belo filme, ainda que algo contemplativo e sombrio, onde os intérpretes recitam trechos clássicos da poesia, teatro e literatura espanhola, para além de cartas do exílio e da prisão, sobre os anos negros da repressão na Galiza.
    Na segunda sessão, integrada no ciclo "Descolonizar a Memória", dois excelentes documentários sobre o colonialismo português e o colonialismo belga em África. O primeiro documentário, "A Story from Africa" de Billy Woodberry (USA), é uma impressionante reconstrução a partir de arquivos fotográficos  de uma ocupação do exército português do território do povo Cuamato no Sul de Angola, em 1907. O segundo documentário "Palimpsest of the Africa Museum" de Matthias de Groof (Bélgica) acompanha as discussões em torno da renovação do Museu Real da África Central na Bélgica e da possibilidade da sua descolonização. Dois poderosos documentos, que nos remetem para a Memória Histórica e de como esta pode ser preservada, agora com o olhar que as descolonizações  permitem. Ambos os autores estiveram presentes no debate que se seguiu às projecções.
    A maior surpresa do dia, seria, no entanto, o excelente filme "Prazer, Camaradas!" de José Filipe Costa (Portugal). Uma comédia, onde se fala de temas sérios, como relações de produção, relações entre géneros, solidariedade e sexualidade, numa cooperativa agrícola da Azambuja, nos conturbados anos do PREC.  José Filipe Costa, realizador do polémico "Linha Vermelha", onde revisitava o documentário "Torre Bela", do alemão Thomas Harlan, volta assim ao tema da obra anterior.
    "Prazer, Camaradas!" desenrola-se depois do 25 de Abril de 1974, numa época em que muitos estrangeiros vinham para Portugal ajudar no trabalho agrícola, dar consultas médicas e aulas de planeamento familiar. O realizador serviu-se de um jogo teatral, com recursos à dramatização, interpretado por habitantes da região, com base em documentos da época. Um estilo "sui-generis" que, a espaços, lembra Miguel Gomes (O meu querido mês de Agosto, Tabu, 1001 noites...) ou, nas cenas de maior erotismo, o jugoslavo Dusan Makavejev (WR: os mistérios do organismo) quando o realizador lê trechos da obra de Wilhem Reich...
    Bons filmes no DOCs, como é habitual, que continua até ao próximo domingo, dia 27. 
            
        
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  8. Na Catalunha, a crise política atingiu (novo) ponto alto na semana que hoje termina.
    Particularmente, a noite de sexta para sábado, foi de violência extrema, com centenas de feridos, entre as forças policiais e os manifestantes, para além dos presos, calculados em mais de uma centena. Só na cidade de Barcelona, os prejuízos causados pela destruição foram de mais de 2 milhões de euros. Também nas principais cidades catalãs, como Tarragona, Lleida ou Vic, as manifestações não foram menores. Em dia de greve geral na Catalunha, a marcha dos catalães independentistas (em direcção a Barcelona) atingiu mais de 525.000 participantes, a acreditar nos números policiais.
    Nada de novo, numa das regiões mais agitadas do continente europeu que, ciclicamente, manifesta o seu descontentamento contra o poder centralista de Madrid e defende mais autonomia (independência?) do território catalão.
    É assim, pelo menos, desde o século XVII, quando Portugal (re)conquistou a sua independência a Espanha, à custa do esmagamento das pretensões catalãs, que Filipe III temia perder para o rei de França, aliado daquele povo espanhol. Podia ter sido ao contrário, caso a coroa espanhola tivesse virado as suas atenções para Portugal e a Catalunha se tivesse tornado uma nação independente, como sabemos...
    Durante os meus anos de exílio, trabalhei com diversos catalães (alguns refugiados da ditadura fraquista) e todos me lembravam este facto, sempre em sãos convívios de solidariedade ibérica. Nunca me esquecerei deles e, quanto mais não fosse, só por isso, sinto uma "dívida" e simpatia pela luta dos povo catalão que nunca disfarcei. Também sei que o sentimento independentista na região, não é geral. A sociedade catalã (7 milhões de habitantes) está profundamente dividida quanto a esta questão e, a acreditar nas últimas sondagens (datadas de Julho), se houvesse um referendo oficial, a maioria da população (53%), seria contra a independência. A questão, é que nunca houve um referendo oficial e a constituição espanhola (datada de 1978) não o permite. Seria necessário alterar a constituição, o que obriga a uma maioria de 2/3 no Parlamento, uma fasquia até agora impossível de obter. Felipe Gonzáles (PSOE) não o conseguiu na década pós-franquista, quando a Espanha estava mais focada em consolidar a jovem democracia e em aderir ao Mercado Comum; Aznar, na linha franquista e conservadora que sempre dominou o PP,  nem de tal queria ouvir falar e a última tentativa de conceder uma maior autonomia à Catalunha (que não a independência) data de 2007, quando Zapatero iniciou conversações e fez propostas nesse sentido. Nos governos de Rajoy, a questão voltou à "estaca zero" e, em 2010, quando as exigências voltaram às ruas catalãs, as condições impostas pelo PP foram tantas (42 artigos da Constituição) que tornaram impossíveis quaisquer desbloqueamentos da situação. Nos últimos dez anos, com altos e baixos, as contestações a Madrid não têm diminuído. Destas, o último acto (falhado) foi o referendo de 1 de Outubro de 2017. A partir dai, a história é conhecida: reacção autoritária de Rajoy, que accionou o famigerado artigo 155 (retirando o controlo da Catalunha ao governo regional) e a repressão em massa, que se saldou por centenas de prisões e julgamentos dos principais responsáveis pelo acto de desobediência civil contra o poder central. Alguns desses responsáveis (Puidgemont, etc...) conseguiram fugir, exilando-se em diversos países europeus, tendo sido julgados à revelia. Outros governantes (12) permaneceram em Espanha e continuam presos. Foram estes 12 políticos presos que, esta semana, foram condenados a penas, que vão de 9 a 13 anos de prisão. Esta é a causa próxima das últimas manifestações e da violência verificadas esta semana na Catalunha, tudo indicando que vão continuar.
    Perante este quadro, que alguns já chamam de pré-guerra civil, o governo minoritário de Sanchez (PSOE), actualmente em campanha para ganhar as próximas eleições de 10 de Novembro, adoptou uma posição cautelosa e formal, apoiando a decisão do Tribunal Supremo e distanciando-se assim das pretensões independentistas. Sanchez pensa, desta forma, agradar ao Rei e conter o desgaste à direita, onde o PP, os Ciudadanos e o VOX, são a favor da unidade espanhola e estão a subir nas sondagens. À esquerda, o Podemos ensaiou uma posição conciliadora, ao declarar que a decisão judicial não resolve o problema (que é político), enquanto os pequenos partidos, das Baleares ao País Basco, para não falar dos catalães, querem uma solução mais democrática e descentralizadora. Pelo menos, o direito a referendar esta questão, que seria uma concessão (não isenta de perigos) às pretensões das regiões autónomas.
    Um impasse total, numa questão que tem séculos e que não parece solucionável com os actuais actores políticos. Para bem da Catalunha, de Espanha, e da própria Europa, criatividade precisa-se, agora que os movimentos nacionalistas e xenófobos ganham terreno, numa União Europeia desprestigiada e onde o apelo ao proteccionismo é transversal a mais países. 
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  9. São já conhecidos os resultados da Emigração.
    Como é da tradição, os dois principais partidos, dividiram entre si o número de deputados: 2 para o PS (um pela Europa e outro pelo Resto do Mundo) e 2 para o PSD (um pela Europa e outro pelo Resto do Mundo).
    Contas feitas, o PS obteve um total de 36,34% dos votos (correspondente a 108 deputados)  e o PSD um total de 27,76% (correspondente a 78 deputados). Os restantes partidos não elegeram qualquer deputado. Confirma-se, deste modo, a vitória do PS, ainda que sem a maioria absoluta (ficaram a faltar 8 deputados).
    Antecipando-se a estes resultados, António Costa lembrou que "os portugueses gostaram da "Geringonça" e desejam a continuidade da actual solução política, agora com um PS mais forte" (discurso da noite eleitoral). 
    Acontece que o PS optou por governar sózinho, o que sendo um dos cenários possíveis, causou alguma estranheza nos meios afectos à "Geringonça".
    O que se passou, entretanto?
    Do PCP, sabíamos que só muito dificilmente repetiria a "experiência", dadas as críticas internas ao posicionamento do partido na "Geringonça", algumas das quais foram sendo tornadas públicas ao longo dos últimos dias. A pesada derrota eleitoral, teria contribuido para esta decisão.
    Do BE, sabíamos que estaria disponível para uma 2ª "Geringonça", ainda que houvesse algumas "linhas vermelhas" que não podiam ser ultrapassadas. A estagnação do partido, em número de deputados, não ajudou à negociação.  
    Com os restantes partidos de esquerda (Livre e PAN), o PS nunca poderia contar para constituir uma maioria qualificada.
    Perante tal cenário, percebe-se a decisão do PS, ainda que seja a mais arriscada: em caso de uma "coligação negativa" na AR, o governo pode cair, como aconteceu com o governo de Sócrates em 2011.
    Costa (um optimista) parece estar confiante em que tal não acontecerá, ao garantir a abstenção dos partidos da esquerda nas votações orçamentais, o que lhe permitiria chegar ao fim da legislatura...
    Em último caso, poderá sempre "virar-se" para a direita que, neste momento, se prepara para eleger novos líderes. Se isso no CDS é uma certeza, no PSD, é tudo menos certo. Caso Rui Rio se mantenha, Costa sabe ter ali um "aliado" em potência, que pode facilitar-lhe a vida em caso de necessidade.  Não seria a primeira vez, de resto...
    A estabilidade da situação interna, só por si, não é uma garantia de uma governação estável. Há variáveis que o governo português não poderá controlar (estagnação económica a nível europeu, guerra comercial entre EUA e China, preço do petróleo nos mercados, Brexit, etc...) que podem pesar no melhor ou pior desempenho da governação. Nessa altura, veremos se a solução "um governo, um partido" foi a melhor.
    Para já, os nomes escolhidos para o próximo executivo, são praticamente os mesmos, o que indica uma aposta na continuidade dos governantes. Resta saber se haverá continuidade nas políticas. Essa é a questão
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  10. Terminada a contagem dos votos no continente (ainda faltam apurar os votos da emigração) o balanço corresponde em larga medida às projecções da Universidade Católica para o Público/RTP, de há anos a esta parte a mais fiável no universo das sondagens portuguesas.
    Contas feitas, o PS ganhou (como se esperava) sem maioria absoluta; a direita tradicional (PSD/CDS) perdeu (como se esperava) com um dos piores resultados de sempre; o BE consolidou o número de deputados (como se esperava), ainda que tenha perdido votos; a CDU (PCP/PEV) perdeu votos e deputados (como se esperava), confirmando a descida das ultimas 4 eleições; o PAN cresceu (como se esperava), duplicando os seus votos. Surpresas (relativas) foram as votações no "Livre" (Esquerda Verde), na  "Iniciativa Liberal" (Neo-Liberais) e no "Chega" (Extrema-Direita) que conseguiram, pela primeira vez, eleger um deputado. Desta forma, o Parlamento passará a contar com 9 partidos, um "unicum" na democracia portuguesa.
    Resumindo, a esquerda em conjunto (PS, BE, CDU, Livre) obteve 138 deputados num total de 230, o que corresponde a uma maioria confortável de 54%.
    Com estes números, António Costa não terá dificuldade em governar à esquerda (ou à direita), ainda que no discurso da vitória tenha claramente manifestado a sua preferência por uma solução de esquerda, eventualmente alargada ao Livre e ao PAN.
    A confirmar-se esta solução,  não é certo que o PS necessite dos mesmos intervenientes da primeira "Geringonça", para aprovar medidas e/ou orçamentos específicos, sendo certo que (sem o PCP) só o Bloco de Esquerda lhe permitirá obter uma maioria na AR (125 votos em 230),
    Já o PCP não parece acreditar na reedição da "Geringonça", o que se compreende dada a perda constante de votos, desde que passou a apoiar o governo PS, o que pode ser interpretado como uma das razões para a sua queda.
    Permanece, assim, em aberto, a solução de um governo minoritário (PS), com acordos pontuais em matérias que necessitem de maiorias qualificadas. No limite, bastará que os partidos de esquerda se abstenham nas votações, para que as propostas governamentais passem no parlamento, já que o PS sózinho tem mais votos do que a direita toda junta...
    Dos três novos partidos, o "Livre" é o mais antigo e aquele que apresenta melhores pergaminhos. Rui Tavares, o seu fundador, foi deputado europeu entre 2009 e 2014 e só por uma "unha negra" não entrou para o Parlamento em 2015. A "Iniciativa Liberal", é um partido de cariz neo-liberal, apoiado pelo jornal "Observador", pelo "Compromisso Portugal" e pelo grupo "5.7", um "thinktank" criado pelo deputado M. Morgado (PSD). No fundo, uma tentativa de criar algo sem tradições no panorama político português, um partido de cariz liberal "puro e duro", que não disfarça os seus tiques de "capitalismo selvagem", bem mais próximo do "Chega" (xenófobo e racista) do que muitos pensarão. Será à sua volta, que a direita mais extrema irá reconstruir-se, agora que o dinheiro parece não faltar  e os contactos com Steve Bannon (o guru de Trump) já existem, como os seus líderes admitiram.
    Uma última palavra para a abstenção (45%), a maior de sempre em eleições legislativas, uma velha pecha, ainda que, pela primeira vez, os emigrantes tenham sido recenseados automaticamente, o que contribui para mais votos em números absolutos.
    Seguem-se, agora, as audiências com o PR e as conversações habituais entre partidos, que ajudarão a perceber qual o modelo de governo que se seguirá: minoritário, em coligação ou apoiado por outros partidos. Costa tem a "faca e o queijo" na mão.       
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