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2024/04/24

25 de Abril, sempre!


 

Grândola vila morena, Terra da fraternidade  

O povo é quem mais ordena, Dentro de ti ó cidade

 

Dentro de ti ó cidade,  O povo é quem mais ordena 

Terra da fraternidade, Grândola vila morena

 

Em cada esquina um amigo, Em cada rosto igualdade

Grândola vila morena, Terra da fraternidade

 

Terra da fraternidade, Grândola vila morena

Em cada rosto igualdade, O povo é quem mais ordena

 

À sombra de uma azinheira, Que já não sabia a idade

Jurei ter por companheira, Grândola a tua vontade

 

Grândola a tua vontade, Jurei ter por companheira

A sombra de uma azinheira, Que já não sabia a idade 


Autor: José Afonso

2024/02/23

O José Afonso, da nossa memória

Na madrugada de 23 de fevereiro de 1987, fui acordado, em Amsterdão, por um telefonema de Lisboa. Era o Carlos Neves, um ex-camarada do exílio. Atendi, ainda estremunhado, e perguntei-lhe se aquilo eram horas de acordar uma pessoa...

"O Zeca morreu", foi a sua lacónica resposta. 

Depois de uma curta conversa, para saber pormenores do sucedido, passei a informar alguns músicos que, por coincidência, estavam alojados em minha casa. Na véspera, tínhamos organizado um concerto na sala "Paradiso" de Amsterdão, com o guitarrista Pedro Caldeira Cabral, a Brigada Victor Jara e a "Rusga da Serra D'Arga" (integrados no projecto "Portugal: Roots and Time") e uma parte dos intervenientes estava alojada em casas particulares.  

Lembro-me bem do efeito da notícia, que muitos de nós receava poder acontecer a qualquer momento, dado o estado de saúde do cantor, já conhecido de todos.

Seguiram-se as mais diversas histórias, contadas por quem de perto conviveu, no palco e na vida, com o Zeca. Das memórias, então evocadas, recordo um traço comum: a influência do seu exemplo e do seu legado, em todos nós.

Essa, é, de resto, a melhor homenagem que lhe podemos prestar: continuar, hoje, a divulgar a obra e o homem, em todas as suas vertentes - musical, poética e cívica.

No ano de todas as comemorações, José Afonso é, hoje, consensual e um nome incontornável. Sempre foi. Agora, mais do que nunca. Por isso, não o esquecemos. 

2023/06/17

Celebrando José Afonso (De Ouvido e Coração)

"A primeira vez que nos lembramos de ter escutado "De Ouvido e Coração" - concerto interpretado e comentado por Amílcar Vasques-Dias - terá sido nas instalações da "Fábrica Braço de Prata", espaço de inovação e experimentalismo lisboeta, já lá vão uns bons anos.

Revimo-lo muitas vezes, em lugares tão improváveis como a "Sala de Espelhos" do Palácio Foz em Lisboa, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, na Livraria "Ler Devagar" em Alcântara, no Festival Badasom em Badajoz, no Convento dos Remédios em Évora, no Coliseu de Lisboa, na Amstelkerk em Amsterdão, na Holanda (país onde o projecto teve início), na Praça do Giraldo em Évora e, mais recentemente (2022), na "Casa Verdades de Faria" no Estoril. 

Da primeira audição guardamos a memória de um concerto íntimo, numa sala forrada a madeira e livros e de dois músicos de excepção: o Amílcar Vasques-Dias, compositor e pianista que conheci na Holanda e o violinista Luís Pacheco Cunha, parceiro de sempre neste projecto. 

A surpresa e o entusiasmo foram tais que, nessa mesma noite, concordámos em apresentar o concerto numa sessão pública em Setúbal, o que viria a acontecer no Dia Mundial da Música, no Salão Nobre da Câmara Municipal. Um acontecimento, desta vez presenciado por dezenas de amigos do Zeca, quiçá pouco habituados a adaptações clássicas e contemporâneas da obra do cantor, desde sempre mais identificado com a música popular portuguesa. 

O sucesso foi imediato, pelo que repetir o concerto em Lisboa seria uma questão de meses. Dessa vez, numa parceria com a Livraria "Ler Devagar", em sala esgotada para o efeito. Outros concertos se seguiriam, dentro e fora do país, entre os quais deve ser realçado o do Coliseu de Lisboa, dado o simbolismo da data evocativa dos 40 anos da passagem do Zeca por aquela sala. 

Entretanto, o concerto "cresceu" em duração e em execução musical, agora mais coeso e ágil, acrescido da expressividade da "cantaora" Esther Merino, uma revelação para todos nós. Com este trio, estivemos na Holanda, em sessão organizada pela agência local "Q.Art", numa igreja de Amsterdão (Amstelkerk), onde o êxito não seria menor. De volta ao país de origem, o projecto foi enriquecido com a voz da cantora lírica Natasa Sibalic e, pontualmente, com intérpretes do "cante" alentejano. 

Ver e ouvir "De Ouvido e Coração" hoje, continua a ser uma experiência única, porque irrepetível na sua riqueza harmónica e melódica, só ao alcance de intérpretes de excepção. A recriação da grande música de José Afonso conhece, desta forma, a dimensão que sempre lhe esteve subjacente e à qual não tínhamos tido, até agora, acesso. Entre música erudita, canto lírico, jazz e flamenco, o concerto reinventa os grandes temas de Afonso, mantendo-se fiel à matriz original. Temas como "A mulher da Erva", "Que amor não me engana" ou "Cantar Alentejano" (Catarina Eufémia), para citar alguns exemplos, constituem verdadeiras pérolas de um acervo inesgotável. 

Faltava a edição discográfica. Esta foi sendo burilada, em momentos únicos, ao longo de uma década, até à versão final. Agora, com os convidados especiais, Ricardo Ribeiro e Carlos Guilherme, que se associaram ao projecto original. Para que todos os que conhecem a música de José Afonso e o concerto "De Ouvido e Coração" possam desfrutar desta simbiose única: a de uma grande música interpretada por grandes músicos. O resultado está aí, nesta gravação que arriscamos em apelidar de histórica. Regozijemo-nos, pois".*

* (texto original, incluído no livrete do CD).

 

2022/11/18

Sob o signo do Zeca

 

A 18 de Novembro de 1987, foi criada a Associação José Afonso (AJA), cuja principal missão tem sido, para além da divulgação da obra poética e musical do cantor, a defesa dos princípios que sempre nortearam a sua intervenção cívica, enquanto canto-autor e cidadão engajado.   

Ao longo destes 35 anos, muitas foram as iniciativas levadas a cabo pela AJA, a maior parte das quais de índole cultural, um pouco por todo o país e no estrangeiro, onde o Zeca nunca deixou de ser uma referência. Uma destas iniciativas, é o concerto temático, em Novembro, que nos últimos anos homenageou Alípio de Freitas, Francisco Fanhais, Manuel Freire, Rui Pato e José Mário Branco, alguns dos "compagnons de route" de José Afonso.

O concerto deste ano, que será subordinado ao tema "A Música Tradicional Portuguesa na Obra de Zeca Afonso", contará e.o. com as presenças de Miguel Calhaz, Brigada Victor Jara, Janita Salomé e "Moçoilas". Data: 19 de Novembro, pelas 16horas no Fórum Lisboa, Avenida de Roma, 14. 

Também para este mês, está programada a apresentação do álbum "Com as Minhas Tamanquinhas" (1976) de há muito esgotado e que reaparece agora, numa edição da "Lusitanian Music", responsável pela reedição do catálogo da Orfeu. Participam na sessão e.o. Teófilo Duarte, Ruy Vieira Nery, Nuno Pacheco, Nuno Saraiva e Nuno Galopim.  Seguir-se-ão, no próximo ano, as edições dos restantes álbuns da Orfeu, respectivamente, "Enquanto há Força" (1977), "Fura, Fura" (1979) e "Fados de Coimbra" (1981). A sessão de apresentação do álbum "Com as minhas Tamanquinhas", está programada para o dia 27 de Novembro, pelas 16horas, na Casa da Cultura, em Setúbal. 

Finalmente, em Dezembro, sairá mais uma edição do livro "Textos e Canções", desta vez reeditado sob o nome "José Afonso - Obra Poética", que reúne a vasta obra do poeta-cantor, onde para além dos poemas cantados são incluídos outros poemas, alguns pela primeira vez. A edição é do "Relógio de Água" e a apresentação do livro contará com a presença e.o. de Jorge Abegão (responsável pela compilação e prefácio), Francisco Vale (orador), Ruy Vieira Nery (musicólogo), Sérgio Godinho (músico), Maria do Céu Guerra e Luís Lima Barreto (declamadores) e Catarina Anacleto (cello). Data: 8 de Dezembro, pelas 17horas, na Livraria Broteria, Rua São Pedro de Alcântara 3, em Lisboa.

Um mês, sob o signo de José Afonso. O Zeca. A não perder.

2021/02/23

Eram sete da manhã...

...Quando o telefone tocou, em minha casa, naquela segunda-feira, dia 23 de Fevereiro de 1987. 

Na véspera, o Círculo de Cultura Portuguesa na Holanda, em colaboração com a Cooperativa Cultural Etnia, tinha organizado o último de 3 concertos integrados no projecto "Roots & Time" (música de raiz rural e urbana), na mítica sala do "Paradiso" em Amsterdão, perante uma assistência entusiasta, maioritariamente composta por holandeses.

Do programa, faziam parte a "Rusga da Serra D'Arga" (música do Alto-Minho), a "Brigada Victor Jara" (nova música tradicional portuguesa) e Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa), para além de uma palestra, a cargo do etnomusicólogo Domingos Morais e uma exposição itinerante sobre música tradicional portuguesa.     

Após o concerto, ainda houve tempo para uma demorada confraternização e as despedidas da última hora, já que a caravana regressava a Portugal no dia seguinte. Porque nem todos os convidados pernoitavam no hotel, alguns tiveram de ficar em casas particulares. Foi o caso de dois membros da Rusga da Serra D'Arga e dos responsáveis da cooperativa Etnia (Mário Alves e Antonieta Brandão), que pernoitariam em minha casa. À última hora, surgiria ainda o João Nabais, vindo de Bruxelas, que não quis perder a oportunidade de presenciar o espectáculo. Também ele, dormiria no sofá. 

Penso que ninguém ouviu o telefone tocar, naquela madrugada. Perante a insistência da chamada, lembro-me de ter despertado e, meio a a dormir, ter passado por cima dos vários hóspedes distribuídos pela casa. Provavelmente, alguém do hotel a confirmar a hora da partida do avião, pensei...

Afinal, era o Carlos Neves, ex-exilado e companheiro de aventuras na Holanda, entretanto regressado a Portugal. Ainda imaginei que ele queria saber como tinha corrido o concerto na véspera e perguntei "isto são horas de acordar as pessoas?"... 

"Morreu o Zeca" foram as suas primeiras palavras. 

Seguiram-se os pormenores e as perguntas habituais de ocasião. Sabíamos que o Zeca se encontrava gravemente doente e esperava-se o pior desfecho a qualquer momento. A última vez que actuara na Holanda (1981) já eram visíveis as dificuldades em palco e, dois anos mais tarde, actuaria pela última vez em Portugal.  A conversa estendeu-se aos restantes hóspedes, entretanto acordados. 

Nessa manhã, o tema da conversa seria apenas um: José Afonso e o seu legado. Sobre o cantor, com quem a maioria dos presentes tinha convivido, ouvimos as inúmeras estórias, agora renovadas. As estórias e a história da canção popular, que nunca mais seria a mesma depois do Zeca, o mais importante e simbólico renovador da música portuguesa do último século. 

Passaram, entretanto, 34 anos. Agora que o estado português se prepara para classificar a obra de José Afonso, como Património Cultural de Portugal, resta-nos registar a efeméride e lembrar o cantor, o músico, o poeta, o andarilho e o cidadão, nome maior da Liberdade que comemoramos há 46 anos.

Obrigado, Zeca.

2019/08/01

José Afonso: nos 90 anos do seu nascimento


Se fosse vivo, José Afonso faria hoje 90 anos.
Se outra razão não houvesse, a efeméride serviria para lembrar o genial compositor, cujo legado constitui, de há muito, uma obra incontornável do património artístico e cultural português.
Assim o entendem os milhares de subscritores da petição, hoje entregue ao governo, para que este reconheça e classifique, a obra do cantor, Património Cultural de Portugal. Uma iniciativa da Associação José Afonso (AJA) sediada em Setúbal que, em menos de um mês, reuniu 11500 assinaturas para este fim. Um passo mais, no reconhecimento do homem e da sua obra, agora que a figura parece ter conseguido um consenso que nunca obteve em vida. São assim, os clássicos. A qualidade sobrevive ao passar do tempo. A sua intemporalidade será sempre o melhor critério para avaliá-la.
Também por isso, torna-se urgente a reedição da obra discográfica de José Afonso, hoje dispersa por diversas editoras e cujas edições continuam (parcialmente) esgotadas. Uma lacuna difícil de explicar, não fora vivermos em Portugal, um país que não prima pelo reconhecimento dos seus melhores e onde a mentalidade reinante complica o óbvio.
A falta de albuns originais, contudo, não tem impedido admiradores e intérpretes, de recriarem uma obra que, de tão prolífera, continua a gerar versões onde a genialidade das composições é uma constante. Escolhemos um exemplo, ao acaso, porventura menos conhecido do grande público, a canção "Benditos ", que fala por si. Afinal, esta é a melhor forma de evocar José Afonso. Enquanto a sua a obra for divulgada, podemos estar seguros de que não desaparecerá.     
Muito continua a acontecer, portanto. Desde logo, este fim-semana, um pouco por todo o país, onde estão programadas sessões evocativas da efeméride, organizadas pelos núcleos da AJA de Setúbal, Grândola, Almada, Porto, Aveiro e Tavira, que contarão com a participação de dezenas de intérpretes que desta forma se associam à data.
Em Lisboa, a sessão constará do lançamento do livro-disco "José Afonso (ao vivo)", constituida por um livro,  um LP e dois CDs, com gravações inéditas de dois concertos realizados em Coimbra (1968) e Carreço (1980), recentemente recuperadas e editadas pela Tradisom. A sessão contará com a presença de Adelino Gomes, autor do texto e José Moças, responsável pela edição. A parte musical será assegurada pelas cantoras Filipa Pais e Maria Anadon e pelo cantor Zeca Medeiros, que serão acompanhados por David Zaccaria (guitarra).
A sessão de Lisboa, tem lugar no próximo dia 3 de Agosto, pelas 16h. na sede da AJA, situada na Rua de São Bento, 170.
Lá estaremos.

2019/02/23

(Ainda) José Afonso


Sobre o Zeca, já quase tudo foi dito. Mas, nunca será tudo dito, enquanto pudermos ler e escutar o seu legado, por aí espalhado, através dos poemas e canções, uns por ele, outros por outros cantados.
Será, assim, mais uma vez, hoje, no dia em que passam 32 anos sobre o seu desaparecimento. É na sede, do núcleo de Lisboa, da Associação José Afonso. Desta vez a cargo da poetisa Olinda Beja, que será acompanhada pelo guitarrista Luís d'Almeida.
A AJA fica situada na Rua de São Bento, 170 em Lisboa e a sessão terá início às 18horas.

2018/08/23

"Silly Season" na SPA


Com o calor a apertar e o território nacional em "alerta vermelho", todos os cuidados são poucos. Os corpos ressentem-se e os neurónios não são excepção. Quando, ao calor, se juntam fenómenos paranormais, a coisa pode tornar-se perigosa. Sabemos que a "silly season" é, por definição, a época do ano mais propícia ao disparate e às notícias absurdas, mas esta é verídica e foi avançada por pessoas respeitáveis. A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) propôs, esta semana, a transladação do corpo de José Afonso para o Panteão Nacional. A razão, invocam, é o contributo desta figura maior da cultura portuguesa na história recente de Portugal e a homenagem que o país lhe deve prestar, colocando-o ao lado das "figuras prestigiadas" da nação, naquele que é o "sarcófago institucional" por definição.  Independentemente do que pode (ou não) significar o Panteão Nacional nos dias que correm, só a ideia faria o Zeca sorrir...
De facto, só quem não o conheceu poderia fazer tal proposta, mas — e isso é o mais estranho — o presidente actual da SPA (José Jorge Letria) conviveu com o cantor e conheceu-o bem melhor do que a maior parte dos seus contemporâneos. Certamente, animado pelas "melhores intenções" (agora que se fala em transladar Mário Soares e Sá Carneiro para o Panteão), o comunicado da SPA adiantava que caberia à família de José Afonso a última palavra e assim foi. Entrevistada pela TSF, Zélia Afonso (viúva do Zeca), limitou-se a declarar o óbvio: que seria a família a decidir em conformidade. Como era expectável, a família emitiu um comunicado onde rejeitava a proposta, "dado que José Afonso nunca quis receber qualquer homenagem em vida e tinha deixado bem expresso onde queria ser sepultado (campa rasa no cemitério de Setúbal), pelo que seria cumprida a sua vontade."
Assunto encerrado?
Aparentemente, não.
Instado a comentar, José Jorge Letria, declarou que a opinião da família de José Afonso não era determinante para a proposta da SPA. Como?
Mas, esta história bizarra parece não ter terminado aqui. Hoje mesmo, algumas das reacções críticas à proposta da SPA, foram simplesmente "apagadas" das páginas do FB, com a alegação que os "posts" publicados não se enquadravam na política da textos seguida pela rede "online" (!?).
Ora, como não acreditamos em bruxas, mas continuamos a pensar que elas existem, só há uma explicação "lógica" para este desatino: alguém (quem?) denunciou os autores das publicações e o "algoritmo" censurou os textos. Outra hipótese, que não deve ser descartada, é a própria SPA ter sido a instigadora da censura. Não queremos acreditar, mas que é estranho, é.
Pelos vistos, José Afonso, apesar de morto, ainda incomoda muita gente. E isso é bom.

2017/02/22

Memórias do Zeca


Passam, esta semana, 30 anos sobre o desaparecimento de José Afonso.
Sobre o cantautor mais importante da música popular portuguesa, já (quase) tudo foi escrito.
Restam as inúmeras estórias pessoais, daqueles que com ele tiveram o privilégio de contactar.
Lembro-me da primeira vez que o ouvi, nos idos anos sessenta, em tertúlia de amigos, ali para os lados de Alvalade, em casa do único de nós que possuia gira-discos. A canção, que não nos cansávamos de escutar, intitulava-se "Os Vampiros". Como era possível alguém escrever e cantar tal texto num tempo marcado pela censura?
Posteriormente, durante um curto período em que trabalhei numa discográfica, eu próprio vendi clandestinamente muitos EPs onde estava incluída a canção, proibida pelo regime. Do Zeca, ninguém sabia ao certo, ou melhor, dizia-se que vivia em Moçambique, onde leccionava.
Mais tarde, já no estrangeiro, onde me tinha entretanto exilado, recebi todos os LPS do Dr. José Afonso, enviados religiosamente pela família, no dia do meu aniversário.
Teria de esperar até ao dia 28 de Setembro de 1974 - quando o Zeca cantou pela primeira vez na Holanda - para o conhecer pessoalmente. Falámos durante o intervalo daquela que se revelou ser uma sessão histórica (dados os acontecimentos desse dia em Lisboa) e ficámos "amigos".
Entre 1974 e 1981, o Zeca voltaria por mais 4 vezes à Holanda, tendo actuado nas cidades de Utrecht, Haia, Amsterdão (2 vezes) e Nijmegen. Tive o privilégio de organizar a maior parte destas sessões, algumas delas "heróicas", muitas vezes em condições sofríveis, que só a boa vontade do cantor e o despojamento que o caracterizava, tornaram possíveis. Porque, na maior parte das vezes, eram concertos organizados em colaboração com organizações holandesas solidárias com a "revolução portuguesa", lembro-me sempre do Zeca sublinhar esse facto e dizer "éh, pá, se tivéssemos mais holandeses destes em Portugal, a revolução já estava feita...".
Entre 1981 e 1986, os nossos encontros passaram a ter lugar em Portugal, quando o cantor já não viajava, devido à doença que, entretanto, o tinha atingido.
Recebi a notícia da sua morte, na madrugada do dia 23 de Fevereiro de 1987 após um memorável concerto do guitarrista Pedro Caldeira Cabral e da Brigada Victor Jara, na sala "Paradiso" em Amsterdão. A mesma sala, onde o Zeca tinha actuado 6 anos antes. Senti que, nesse dia, se fechava um ciclo da vida portuguesa, aquele que mais intimamente me ligava à utopia de Abril.  
Do seu legado, para além da música e da poesia, resta-nos o exemplo cívico de cidadão empenhado e solidário, na oposição à ditadura e a todas as formas de opressão e injustiça que sempre combateu. O reconhecimento desta atitude perante a vida, grangeou-lhe amigos (muitos) e alguns inimigos, mas a importância do seu exemplo ganhou novos contornos e é hoje mais consensual que nunca. Por isso, o Zeca, apesar de ter partido, continua entre nós e continua a ser lembrado todos os dias, ainda que, de forma mais especial, na data de hoje.
Porque 2017 é um ano especial, estão programados diversos eventos e actividades ao longo de todo o ano. A Associação José Afonso, elaborou um programa subordinado ao título "José Afonso: 30 anos, trinta concertos", que levará a sua música a trinta cidades e localidades diferentes entre Fevereiro e Dezembro. No lançamento desta iniciativa, foi apresentada a publicação "AJA: 30 anos", onde são passados em revista os 30 anos da Associação. Para o dia 25 de Abril está programada a inauguração de um Memorial José Afonso, que ficara situado no Jardim das Francesinhas, ao lado da Assembleia da República em Lisboa. Finalmente, a AJA, com o apoio da SPA, irá reeditar o LP "República", gravado ao vivo em Itália, em 1975, durante um concerto de solidariedade com o jornal português do mesmo nome. Para que a memória não esmoreça. 
 
    
 

2015/09/28

Dez dias noutra cidade


Amsterdão é, por estes dias, uma espécie de Disneyland do Norte da Europa. Dezenas de milhares de turistas de armas e bagagens (leia-se smartphones e trolleys) em punho, na procura do lugar mítico para o último selfie. Nada a que não estejamos habituados em Lisboa, em ritmo acelerado de gentrificação europeia. Se em Julho e Agosto já era mau, Setembro não é melhor e, para pior, já basta assim...
Porque, para além das férias, outros programas culturais se anunciavam em Setembro, lá fomos, na esperança de (re)descobrir a Amsterdão desconhecida que habita em todos nós e tentar conciliar a aventura com cultura...
Desta vez, o evento prometia: "De ouvido e coração", um concerto dedicado à obra de José Afonso, comentado e interpretado por Amilcar Vasques Dias (piano), Luís Pacheco Cunha (violino) e a "cantaora" Esther Merino. Um projecto com quatro anos de "estrada", que temos vindo a seguir e a admirar em lugares tão díspares como Lisboa (3 vezes), Setúbal, Évora, Badajoz e, agora, Amsterdão.
Nenhum dos concertos foi igual (nisso residirá a riqueza do projecto) e as modificações nele introduzidas apenas realçam a diversidade da música do Zeca. Desta vez, Esther cantou 3 canções (uma nana de Lorca e "Canção de Embalar" e "Cantar Alentejano" de Afonso) e Cunha teve "direito" a um "medley", onde brilhou em "Canto da Primavera", "Cantiga do Monte" e "A Formiga no Carreiro". Para o Amilcar, o resto do programa, sempre acompanhado das curtas e pedagógicas intervenções (desta vez em holandês!) a que nos habituou. O concerto terminaria com "Grândola", um encore apropriado, cantado "à capela" por Fernando Lameirinhas, artista português residente na Holanda.
Duas horas, de puro gozo e deleite, intervaladas por uma desnecessária "koffie pauze", aproveitada para rever caras amigas. Tudo isto numa velha igreja de madeira renovada (Amstelkerk) onde, num passado não muito longínquo, os (então) refugiados portugueses, apoiados por organizações holandesas de solidariedade, denunciavam a guerra colonial levada a cabo pelo governo fascista de Salazar e Caetano.
Só faltou o Zeca. Como ele gostaria de ter ali estado, a ouvir a sua música recriada e tocada por três artistas de excepção. Mas, a música é eterna e universal. O CD do concerto está já anunciado e, no ar, a promessa de uma nova digressão, desta vez alargada  a outras capitais europeias. A organização estará, de novo, a cargo da Q.Art (eventos) coordenada pela nossa compatriota Teresa Pinto.
Melhor início de férias, era impossível. A chuva, que caía após o concerto, não esfriou o ânimo para os próximos dias... 


  

2014/03/26

Cantar Grândola 40 anos depois


O concerto "Cantar Grândola, 40 anos depois",  realiza-se no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 28 de Março de 2014 e é organizado pela Associação José Afonso com a colaboração da Casa da Imprensa. Pretende-se evocar o espectáculo que há 40 anos se realizou na mesma sala e no qual a canção GRÂNDOLA VILA MORENA, de José Afonso, seria escolhida pelos militares como uma das senhas para o desencadear das operações do 25 de Abril. 
O espectáculo de 29 de Março de 1974, organizado pela Casa da Imprensa para entregar os prémios com que anualmente distinguia personalidades da área cultural, adquiriu o significado de um acto de resistência à ditadura, com a sala do Coliseu lotada com cerca de cinco mil pessoas vigiadas por um forte dispositivo policial. As autoridades tentaram impedir a sua realização que, só na própria noite, foi autorizado, mas com a proibição de diversas canções como "Venham mais cinco", "O que faz falta", "Menina dos olhos tristes e "A morte saiu à rua".
Estranhamente, os censores autorizaram "Grândola Vila Morena", o que seria aproveitado por José Afonso e todos os participantes no palco, para a entoarem em uníssono, no que foram acompanhados pelo público presente. Na assistência, alguns dos militares que preparavam o 25 de Abril, aperceberam-se da força mobilizadora da canção, tendo-a escolhido como segunda senha da operação militar que poria fim ao regime dictatorial. O resto, é história.
Para comemorar a data, foram convidados cantores, nacionais e estrangeiros, de várias áreas musicais, entre participantes no concerto de há 40 anos, "companheiros de estrada" do Zeca e intérpretes da sua obra que, numa sessão que se prevê histórica, irão evocar a efeméride. 
O concerto está esgotado, mas o evento merece ser assinalado. Que a voz não nos esmoreça!  

2012/05/28

Na rota do Zeca

Entre as inúmeras celebrações que decorrem em 2012 para assinalar os 25 anos da morte de José Afonso, uma deve ser destacada pela originalidade e qualidade dos seus intérpretes. Refiro-me ao concerto "De ouvido e coração", um projecto do compositor e pianista Amilcar Vasques Dias, anunciado para ser apresentado este fim-de-semana em Évora. Lá fomos, na esperança de ouvir os músicos e cantora principais, Vasques Dias (piano), Luís Cunha (violino) e Esther Merino ("cantaora") que, habitualmente, fazem parte do programa. Desta vez, havia convidados: a cantora lírica Natasa Sibalic (Sérvia) e o "cantador" local Joaquim Soares, que participavam pela primeira vez no concerto. Depois, o lugar, o magnífico Mosteiro dos Remédios, onde está sediada a Associação Musical "Ebora Mvsica" que, desde 1987, vem organizando e apresentando programas de formação musical na área dos grandes mestres polifonistas da Sé de Évora. A Associação dá ainda formação na área de instrumentos de cordas, sopros e teclas, organiza oficinas de Canto Gregoriano e ciclos de concertos nos Claustros e na Igreja, onde "De ouvido e coração" estava incluído. Desde o primeiro tema, "Vejam bem", a assistência, que enchia por completo a Igreja dos Remédios, percebeu estar em presença de um concerto especial. Esse sentimento aumentaria nos temas seguintes, com "Coro da Primavera", "Ó que janela tão alta" e "A Mulher da Erva", para culminar no celebrado "Venham mais Cinco". Seria com a primeira interpretação de Esther Merino, em "Nana del Caballo Grande", um tema de Garcia Llorca a anteceder a "Canção de Embalar" de José Afonso, que os presentes explodiram num aplauso intenso. A partir daí, o concerto estava ganho e a genialidade da música de Afonso, ganhava outra dimensão. Temas como "Menino de Oiro" e "Balada de Outono", interpretados respectivamente pelo cantador alentejano Joaquim Soares e pela cantora lírica Natasa Sibalic, comprovaram a excelência do reportório afonsino. Quando Esther voltou para interpretar "Cantar Alentejano" (Catarina Eufémia) a canção mais dramática de toda a sessão, muitos dos presentes choravam lágrimas de emoção. O concerto terminou formalmente ali, mas os seus ecos permanecerão no Convento por muito tempo. Hoje, no regresso a casa, não pude deixar de pensar no Zeca e de como ele gostaria de ter ouvido a sua música neste lugar.

2011/07/15

Badajoz à vista...

Realiza-se por estes dias a 4ª edição do festival transfronteiriço "Badasom", um acrónimo de "som de Badajoz", que tem como tema central o Flamenco e o Fado. Trata-se de uma iniciativa da Junta Extremena e do Ayuntamento de Badajoz, patrocinada pelos cafés Delta, do português Nabeiro. O festival tem um orçamento global de 350.000euros sendo o custo das entradas de 6euros para o teatro e 10euros para o auditório.
Lá estivemos, este ano, para rever Esther Merino, uma "cantaora" extremena, que tem a particularidade de cantar José Afonso em...português. Descobrimos esta intérprete espanhola no Palácio Foz de Lisboa, onde se deslocou recentemente a convite de Amilcar Vasques Dias, compositor e pianista, de quem já conheciamos o reportório e que é, normalmente, acompanhado pelo violinista Luís Cunha.
Quando o desafio surgiu, nem hesitámos. Badajoz está a duas horas de caminho e poder rever, ao vivo, este trio de luxo, era um privilégio.
O Festival desenrola-se em dois espaços distintos da cidade, o teatro López de Ayala e o auditório Ricardo Carapeto para os grandes concertos. Um programa de luxo, o do "Badasom", onde em edições anteriores passaram nomes como Mariza, Camané e Cristina Branco, do lado português e Carmen Linares, Miguel Poveda, El Cigala, Vicente Amigo e Enrique Morente do lado espanhol.
Este ano, o Festival tem como tema a figura de "Porrina de Badajoz", um "cantaor" extremeno que mereceu as honras da primeira noite, a cargo de Ramón, "El Português". Seguiu-se uma noite no terraço do Teatro Ayala onde, a par de um jantar volante, pudemos desfrutar de uma noite de "cante" (ao luar), na qual participava Esther Merino que interpretou LLorca, Afonso (Cantar Alentejano) e diversos "palos" flamencos. Uma força da natureza, a Esther, que acaba de ganhar o prémio da melhor "cantaora" revelação do ano. Canta bem todos os estilos e a "seguiriya" com que nos brindou permaneceria um dos pontos altos da noite. O outro seria "Cantar Alentejano", acompanhado ao piano e violino, onde a técnica, aliada à expressividade e dramatismo que só uma grande intérprete pode ter, foi notável. Merino acaba de ser anunciada para actuar no Festival Flamenco de Lisboa, com data marcada para 16 de Setembro, no Coliseu. A todos aqueles que pensam que de Espanha "nem bom vento, nem bom casamento", posso desde já garantir que uma coisa boa vem de certeza: o flamenco!
O programa do "Badasom" continua hoje, com Estrella Morente e Joana Amendoeira, terminando amanhã com "Tomatito" e "El Guadiana". Já não podem dizer que não sabiam...

2009/08/03

Como se fora seu filho

Se fosse vivo, José Afonso teria feito ontem oitenta anos.
Uma afeméride, que a Câmara de Grândola vem assinalando de há dois anos a esta parte através de um programa subordinado ao título "Como se fora seu filho".
Do programa deste ano, composto por um colóquio, uma exposição e um concerto, destaque para este último que ontem se realizou no auditório Cine Granadeiro, recentemente reaberto, após renovação.
Lá estivemos, para escutar Cristina Branco e um quarteto de jazz, que apresentou o projecto "Abril" dedicado à obra do Zeca.
Canções e refrões de sempre que os "grandolenses" conhecem de cor e que um dia o poeta, sem imaginar o futuro, lhes dedicou com gratidão. Chegou a vez da "vila morena" retribuir. Como se fora a um filho seu.

2009/07/06

Memorial

No passado fim-de-semana, esteve entre nós uma delegação constituida por catorze catalães, membros da Asociacion LiberPress, com sede em Girona. O motivo da visita foi a atribuição do prémio anual com que esta associação "distingue a título póstumo uma personalidade que tenha lutado pela dignidade e os direitos humanos e cujo percurso de vida possa servir de exemplo à sociedade". A LiberPress foi criada em 1999 e o 1º Prémio Memorial, instituido em 2008, foi concedido à fotógrafa, de origem húngara, Gerda Taro (mulher de Frank Capra), falecida em 1937 num acidente perto de Madrid. O segundo Prémio Memorial foi, este ano, outorgado a José Afonso.
A delegação da LiberPress, chefiada pelo seu presidente Carles McCragh e o presidente da Deputation de Girona, Eric Vibert, visitou ainda a campa de José Afonso em Setúbal, onde procedeu à entrega simbólica da placa que assinala o Prémio. Estiveram presentes, para além de amigos do cantor, a filha Helena Afonso, Francisco Fanhais e Adelino Gomes, na qualidade de presidentes da Direcção e da Assembleia-Geral da AJA e Maria das Dores Meira, presidente da Câmara de Setúbal. A notícia detalhada e as fotos da homenagem podem ser vistas no sítio da associação.
Esta foi a primeira vez que visitei a última morada do Zeca, com quem tive o privilégio de conviver durante muitos e bons anos. Enquanto ali estivemos não pude deixar de pensar nas manifestações de pesar que amanhã, por todo o Mundo, acompanharão um grande ídolo da Pop, recentemente falecido e justamente homenageado no seu país. Como bem notou Adelino Gomes, no improviso que fez, nem só de barulho se fazem as homenagens. O silêncio do cemitério de Setúbal convida-nos à reflexão sobre a mais importante mensagem do Zeca. A mensagem da solidariedade. Também por isso, resolvi escrever este pequeno "post" que mais pretensão não tem do que lembrar os artistas portugueses que tão mal tratamos. Em Setúbal, no passado sábado, todos nós nos sentimos um pouco mais espanhóis.