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2025/07/02

Da "transparência"...

Lemos e ouvimos, nos orgãos de comunicação social, que o primeiro-ministro se opõe à publicação de dados relativos à sua empresa "Spinumviva", conforme foi solicitado pela Entidade da Transparência. Luís Montenegro apelou para o Tribunal de Justiça e, agora, aguarda-se uma decisão do tribunal.  

Interrogado pelo Comunicação Social, sobre o princípio da "transparência", que deve ser apanágio de qualquer governante, Marcelo Rebelo de Sousa declarou não conhecer o processo, pelo que reservava a sua opinião para mais tarde... 

Começou o "jogo de sombras",  ilustrativo das teias existentes entre a política, os governantes, a justiça e seus cúmplices em Portugal.  

O problema é que a "opacidade" do regime não se circunscreve aos partidos políticos (os do "centrão" e os outros). A "opacidade" ou "falta de transparência", é uma herança cultural que atravessa toda a sociedade portuguesa. 

Vem do fascismo e, muito provavelmente, lá mais de trás (Inquisição?). 

Toda a gente faz um favor a toda a gente (chama-se "compadrio"). É esta reciprocidade, que torna o sistema "opaco". Todos os seus actores, têm "rabos de palha".  Por isso, não são "transparentes". O "clientelismo" é larvar na sociedade portuguesa e tornou-se um "modo de vida". Este é o drama.

Também por isso, mas não só, o populismo cresce. A população deixou de acreditar na classe política governante e essa é uma das fontes da actual insatisfação. Não é apanágio de Portugal, de resto, Basta olhar para a Espanha, onde os casos de corrupção atingiram o partido do poder (PSOE), se bem que o problema de Espanha aos espanhóis diga respeito. 

Neste contexto, não nos devemos admirar do surgimento de movimentos mais ou menos inorgânicos, que capitalizam a insatisfação das camadas mais ignorantes da população. Basta que apareça um demagogo a clamar por mais "justiça" (no caso concreto, o partido do tele-evangelista) para que os fiéis apareçam. Afinal, muitos deles, já frequentavam as igrejas evangélicas...

Não perceber estas coisas simples, num país onde a iliteracia funcional e a falta de cidadania são gritantes, pode ser fatal. Daí que os Montenegros da história, possam continuar impunes, enquanto aguardam julgamento...

 

2023/07/30

A Praga dos Louva-a-Deus

"Dirigiu-se de novo o SENHOR a Moisés: vai novamente fazer o teu pedido ao Faraó. No entanto, endurecerei o seu coração, assim como o dos seus acompanhantes, de forma a ter oportunidade de fazer mais milagres, demonstrando o meu poder, coisas que poderão contar aos vossos filhos e descendentes, descrevendo o que tem acontecido no Egipto, para que saibam que sou o SENHOR". 

Moisés e Aarão pediram nova audiência ao Faraó. "O SENHOR, Deus dos Hebreus, diz-te: "Até quando, recusareis submeter-vos a mim? Deixai ir o meu Povo para que me adore. Se recusares, amanhã cobrirei toda a nação de um espesso bando de gafanhotos" (Êxodo 10)

Não sabemos se foi mesmo assim, mas a história é boa e toda a gente a conhece.

Que o Faraó era "mau", ninguém duvida. Essa era, aliás, uma das características dos Faraós. Serem maus. Mas, onde há "maus", há "bons" e, onde não há, alguém vela por nós (os bons). Nos meus piores momentos, socorro-me sempre desta ideia: "não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe". Tem resultado.

Acontece que, nem nos piores pesadelos, imaginei ser alvo de uma "praga" a sério. Está a acontecer e não é brincadeira nenhuma. Experimentem ir à capital do reino por estes dias e vão perceber do que falo. 

Lisboa, que já era uma espécie de "Disneyland para remediados", tornou-se em poucos dias uma espécie de "Altar Ambulante", para jovens turistas. São turistas jovens, imberbes e asseados, que se vestem todos da mesma maneira e riem por tudo e por nada. Nunca percebi porque é que riem tanto. Parecem hienas. O problema não é rirem, o problema é serem mais de um milhão ao mesmo tempo, numa cidade de meio-milhão de habitantes, onde pouca coisa funciona bem.

Explicando melhor: a questão de fundo não é Portugal ter-se candidatado à organização das Jornadas Mundiais da Juventude (católica), o que em si nem é bom, nem é mau (antes pelo contrário). A questão é essa decisão ter sido proposta pelo patriarcado português, com a cumplicidade do principal representante da nação, o beato presidente Marcelo. Pior: a decisão (que implicava apoios significativos do estado) foi tomada à revelia da população (coisa a que já estamos habituados) e foi tornada pública durante as últimas "Jornadas", que tiveram lugar no Panamá em 2019. Ou seja, há quatro anos!

E o que foi feito durante esses quatro anos? Pouco, em relação ao tempo disponível, muito em relação aos prazos estabelecidos. É verdade que, pelo meio, houve uma pandemia, o que atrasou substancialmente os preparativos. Mas, também é verdade que o Vaticano concordou em adiar a data (inicialmente prevista para 2022) o que, de alguma forma compensou, o atraso. Também é verdade que a CML mudou de presidência em 2021, facto que o "Calimero" Moedas não se cansa de apregoar. Mas que raio, quatro anos!?

Também sabemos que o planeamento e o cumprimento de prazos, não são pontos fortes da cultura portuguesa. Somos bons a criar, maus a planear. Não foi diferente desta vez. A prova, foram os sucessivos anúncios, feitos já este ano (a seis meses do evento) com as dimensões do palco e os custos envolvidos, explicados por José Sá Fernandes (o "sempre em pé" de serviço), capaz de afirmar tudo e o seu contrário, que é para isso que servem os "peões de brega". Uma trapalhada sem nome, a que o cardeal (envergonhado, calcule-se!) veio pôr fim, reduzindo as dimensões e os custos da coisa, considerados exagerados para uma pobre nação, ainda para mais com uma dívida pública de 110% do PIB. O que diriam os pobres? 

Acontece que, a tão pouco tempo do evento, com as obras atrasadas, as alterações propostas e os prazos por cumprir, não parecia fácil a concretização do "happening". Não parecia fácil, mas nos momentos mais desesperados, há que ter fé. Fé num milagre. Afinal, o evento é patrocinado pela Igreja católica, o maior "fazedor de milagres" da História. Porque não, aqui? 

E foi nesta altura que a principal construtora do país, a Mota Engil, apresentou a "solução milagrosa": Cumprir os prazos é possível. Sai é mais caro! 

Como é que eu nunca me tinha lembrado disto?

Afinal, era fácil. A prova, é estarmos a 48 horas do evento e tudo (parecer) estar preparado. "Chapeau"! Ainda dizem mal dos gestores portugueses. Más-línguas, é o que é.

O "Expresso" fez as contas:

"75,8% dos contratos identificados pelo "Expresso", foram celebrados por ajuste directo - mesmo contratos chorudos que em condições normais exigiriam um contrato público e o visto do Tribunal de Contas  (TdC), como a preparação dos terrenos na zona ribeirinha da Bobadela (no valor de 4,29 milhões adjudicado por Loures); ou a construção do altar-palco no Parque Tejo-Trancão, trabalho de 4,24 milhões que a Mota-Engil arrecadou à SRU, uma empresa municipal de Lisboa criada em 2004 e dedicada à reabilitação urbana. Todos estes ajustes directos - 147 no total - só foram possíveis graças ao Artigo 149º da Lei do Orçamento de Estado de 2022, aprovado pela maioria do governo e que alarga os montantes máximos de todos os contratos públicos feitos para a JMJ. Dessa forma, só 11% dos contratos analisados pelo Expresso (22) passaram por um concurso público; e apenas 24 (ou 12,4%) mereceram uma consulta prévia por parte das entidades públicas" (in Expresso, pg. 5, d.d. 28/7/23).  

"Há contratos de todo o tipo: seguranças privados e assessores para actividades várias, 95 mil euros pagos por Carlos Moedas à TVI para promover a cidade na televisão e em plataformas digitais ou os mais de 684 mil euros que o município de Oeiras deu há dias à promotora "Everything is New" para gerir a logística das actividades marcadas para o Passeio Marítimo de Algés - onde se realiza o festival NOS-Alive também da empresa de Álvaro Covões. Aliás, o município de Isaltino Morais está no topo dos mais gastadores: mais de um milhão de euros em 11 contratos. Além disso a GNR adquiriu geradores de energia no valor de quase 9,5 mil, o INEM avançou há poucos dias para a compra de 70 telemóveis por quase 15 mil euros e até o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM) gastou 3,5 mil euros por ajuste directo numa "caixa de embutidos personalizada para oferta a Sua Santidade, o Papa Francisco, lê-se no contrato" (ibidem).

"Tudo somado, esta é apenas uma fatia do bolo JMJ em comparação com as estimativas de custos avançadas nos últimos meses: o Governo estimou a sua parte em 30 milhões, Lisboa avançou com 35 milhões (mais 13,5 do que previa inicialmente) e Loures com 9 milhões. Mas, os custos agregados para o erário público com a visita do Papa, ainda não foram comunicados oficialmente por nenhuma das partes envolvidas, e o retorno para o país desse investimento também não" (ibidem). 

Ao ler esta história, veio-me à ideia o livro "Gomorra" de Roberto Saviani, onde este explica como é que a Máfia cresceu (em Itália e não só): foi através da construção civil, que possibilita a maior parte da traficância política, através de contratos por ajuste directo, para os quais há sempre uma explicação. A coisa funciona normalmente assim: o poder político contrata uma empresa de construção para um determinado trabalho. Esta atrasa a obra e exige mais dinheiro para poder terminá-la em tempo. O poder político paga o excesso (chama-se "derrapagem" no jargão). Mais tarde, a construtora compensa o partido através de uma doação (apoio a uma campanha eleitoral, por exemplo). Dessa forma, garante contratos futuros e novas doações. Na Sicília, onde tudo começou, chama-se extorsão ou chantagem. Em Portugal, país de brandos costumes, chama-se corrupção. É tudo uma questão de semântica. 

No fim, quem ri, são as hienas.   

2023/01/11

2023: Ano Novo, Vida Nova?

Começou o ano e, até ver, poucas novidades. 

A guerra não terminou, a inflação aumentou, o fascismo não morreu e a corrupção está viva e recomenda-se. Para piorar a situação, o vírus pandémico reapareceu na China, pelo que não tardará a chegar à Europa...

Sobre a primeira questão: só os ingénuos podiam pensar que uma operação de "conquista territorial" iria terminar em dias, ou mesmo em semanas. Já lá vai (quase) um ano e não se vê fim à vista. Pesem os milhares de milhões, investidos na "defesa do Ocidente," nem a Rússia de Putin desiste dos seus intentos imperialistas, nem a Ucrânia de Zelensky, consegue expulsar os invasores. No meio, uma Europa sem recursos energéticos, sem exército e sem estadistas, incapaz de fazer ouvir a sua voz nos Fora internacionais. Apesar das "boas intenções" e aparente "unidade na acção", que Von der Leyen, Borrell e Stoltenberg continuam a propagar, nada de essencial mudou. Basta seguir o comportamento de figuras como Órban ou Erdogan (o primeiro membro da UE e o segundo membro da NATO) para deixar de acreditar em actos de coesão e lealdade, vindos de dois autocratas que, de democratas, pouco têm. O primeiro, não respeita direitos constitucionais e continua a desafiar e a desrespeitar as regras democratas europeias, que lhe valeram várias repreensões e penalizações da Comissão; o segundo, continua a receber milhões de euros da UE, para impedir a passagem de refugiados para a Europa, enquanto faz negócios com Putin e oferece gás e petróleo russo à Europa (!?). Uns cómicos, uns e outros. Ou seja, nesta guerra, perdem todos: perde a Ucrânia (parcialmente ocupada e destruída); perde a Rússia (o povo russo, entenda-se) sujeita a uma guerra que não escolheu e confrontada com as sanções do Ocidente; perde a União Europeia (dependente de recursos energéticos e alimentares, agora mais difíceis de obter devido às contra-sanções russas). O único país (até ver) que parece ganhar com esta guerra, são os EUA, que vendem armamento, gás liquefeito, petróleo e cereais à Ucrânia e à Europa. Um negócio das arábias! Porque não há "almoços grátis", quando a guerra terminar, serão os norte-americanos que irão "reconstruir" a Ucrânia, com um programa já anunciado como novo "Plano Marshall" (plano de recuperação europeia, após a 2ª guerra mundial.) Também, aqui, nada de novo. Trata-se da aplicação da "Doutrina de Choque", experimentada noutras latitudes (Iraque, Haiti, Grécia, Tailândia, Alemanha de Leste, União Soviética, etc...) onde, após uma catástrofe (guerra, terramoto, tsunami), os "empreendedores" norte-americanos, utilizam a sua capacidade económica e logística, para ajudar a "reparar" os danos. Os empreiteiros fazem fila...      

Porque isto anda tudo ligado, temos mais inflação. Acontece que a inflação, notória antes da guerra, piorou com esta. É natural. Com a pandemia, os preços que estiveram artificialmente congelados (juros, moratórias, etc...), voltaram ao nível previsto e agora, devido às contra-sanções russas, junta-se a especulação habitual em tempos de crise. Entretanto, a presidente do BCE (Christine - j´adore Dior - Lagarde) já decretou um aumento de juros bancários de 2% e anunciou que a coisa não vai ficar por aqui. O pior, são as consequências económicas para o cidadão comum. Apanhado, literalmente, "entre-dois-fogos", perdeu, no último ano, mais de 15% de poder de compra (basta ir ao supermercado) e vê, todos os dias, as taxas Euribor, (calculadas no pagamento das suas hipotecas) subir centenas de euros por mês! Já as medidas, anunciadas pelo governo, para compensar a perda de poder de compra, mostram-se insuficientes, pois os anunciados aumentos de 5%, ficam muito abaixo da inflação prevista. Uma "pescadinha de rabo-da-boca", que os "crânios" das finanças, parecem não ser capazes de resolver. Aparentemente, não há dinheiro para tudo, dizem-nos (Portugal é um país pobre, patati, patatá...). É verdade. Mas, então, se somos pobres e não temos dinheiro para tudo, porque é que insistimos em salvar bancos falidos, aumentamos a nossa contribuição para a guerra (NATO), continuamos a pagar uma dívida odiosa (contraída pelo estado) e queremos à viva força manter o deficit abaixo de 1%?...

O fascismo está de volta. Nunca desapareceu, de resto. O último exemplo, veio do Brasil. Uma horda de bárbaros organizados e pagos pelos inimigos da democracia, resolveram assaltar o "planalto", onde se encontram os símbolos dos "três poderes" brasileiros (o político, o judicial e o legislativo). Um atentado terrorista, contra um governo sufragado e eleito democraticamente pelo Povo, invocando uma pretensa irregularidade que nunca existiu. De resto, as eleições brasileiras, foram amplamente escrutinadas por organismos internos e externos, que confirmaram a transparência de todo o processo. Só débeis mentais poderiam acreditar numa narrativa completamente falsa (as "fakes news" existem), que já tinha sido experimentada nos EUA, pelos acólitos de Trump (outro atrasado mental). Não vingou nos EUA, nem vingou no Brasil. Acontece que, ao contrário da sociedade americana - mais culta, com mais cidadania e mecanismos de transparência (transparency) e prestação de contas (accountability) - a democracia brasileira é frágil. A democracia tem apenas 37 anos e, numa sociedade pouca instruída, onde a desigualdade e os níveis de pobreza extrema são gritantes (33 milhões de pessoas com fome), a corrupção é transversal e a criminalidade mata 60 000 pessoas ao ano, torna-se mais difícil a gestão. Proliferam os interesses corporativos, infiltrados na corporação militar (veja-se a passividade da polícia e dos militares, durante o assalto aos edifícios governamentais), nos grandes agrários (agro-negócios do gado e soja) e nas igrejas evangélicas (populadas por débeis mentais). Estes são os principais bastiões de apoio do psicopata Bolsonaro. No domingo, pareciam "zombies", completamente possessos, espumando pela boca, enquanto eram conduzidos de volta para os autocarros que os transportaram para Brasília. Bolsonaro pode estar morto politicamente, mas o núcleo duro dos seus apoiantes não desapareceu. São fascistas e devem ser combatidos como tal. "Não podemos ser tolerantes com intolerantes", lembrava Popper. Lula e os democratas brasileiros que se cuidem. 

Finalmente, o jornal "Público" de hoje (11.01.23) "puxou" para a primeira página a notícia da detenção de um ex-autarca de Espinho, acusado de corrupção, tráfico de influências e lavagem de dinheiro (mais um!). Desta vez é do PSD. Qual a novidade? O problema é todos os partidos (do poder) terem "telhados de vidro." Por isso, protegem-se mutuamente. A questão da corrupção (é disso que estamos a falar) é transversal à sociedade portuguesa. Uma sociedade profundamente desigual, onde a pobreza, a iliteracia e o medo, continuam enraizados. Uma cultura de séculos, que não mudará por simples decreto ou alterações da constituição. No fundo, os partidos (os políticos) mais não são do que o "espelho" da nação. Se a "média" é má, porque é que os políticos haviam de ser melhores? É como falar de "ética republicana." O que é isso? Ética, tem-se ou não se tem. Não compreender isto e "esperar" que os "nossos" políticos sejam melhores que os da "direita" (ou vice-versa) é pensar que as diferenças ideológicas tornam os cidadãos mais honestos. Uma treta, claro. 

 

2021/03/14

Em Brasília, a Terra é "plana"...

Desde 2019 que o Brasil é governado por um fascista. Não é a primeira vez. A última tinha sido durante a ditadura militar, entre 1964 e 1988. De então para cá, muitos foram os presidentes que governaram o país, o maior do continente sul-americano. Todos eles, democratas, como Fernando Henrique Cardoso, Lula Inácio da Silva, Dilma Rousseff, entre outros. Dilma Rousseff (2011-2016) foi, inclusive, a primeira mulher a ser eleita presidente em toda a América do Sul. 

O Brasil era, à época, um país respeitado, não só pela sua democracia (a maior do continente), mas também pelos seus programas de inclusão social, lançados ainda durante o governo de Lula da Silva (2002-2010) e pela sua robusta economia, a 7ª maior do Mundo. Os índices sociais e económicos dessa década, eram referidos como exemplo para os países em vias de desenvolvimento (Brics). Sem admiração, o país passou a integrar o G'20 (o "forum" dos países mais desenvolvidos do Mundo) e conquistou a simpatia internacional.

As coisas começaram a "derrapar" no primeiro mandato de Dilma (2011-2014). Erros cometidos com o modelo de desenvolvimento social e económico seguido (o PIB chegou a ter uma contracção de 9% e o desemprego a atingir 11% da população activa), num contexto de crise financeira mundial (sub-prime) e de despesas acrescidas (provocadas pela organização do Campeonato do Mundo de Futebol 2014 e pelos Jogos Olímpicos 2016), contribuiriam para a queda de popularidade do seu governo. 

Seria, no entanto, no segundo mandato de Dilma (2014-2016) que a situação se extremou. O anúncio de um aumento nas tarifas de transportes (enquanto o país gastava fortunas em eventos desportivos) para além da acusação de má gestão (a alegada "pedalada fiscal"), levariam os seus detractores (maioritariamente brancos da classe média) a pedir a impugnação do cargo (impeachment), moção que seria levada a votação no Congresso a 17 de Abril de 2016.

O que se passou nesse dia, está ainda na memória de todos os que puderam presenciar em directo a mais bizarra e degradante sessão vista num parlamento. Uma sessão, que pode ser considerada um "case study" em demagogia e manipulação nos parlamentos democráticos, tal a ignorância e virulência demonstradas pelos seus participantes: de deputados evangélicos histéricos a "maçons" desbragados, passando por militares saudosistas da ditadura e corruptos de diversa plumagem, todos eles representantes das forças mais retógradas do país, houve de tudo um pouco. Foi nessa histórica (e histérica) sessão que vi, pela primeira vez, Jair Bolsonaro, um obscuro deputado e ex-militar na reserva, conhecido pelas suas simpatias com a ditadura militar. A sua declaração de voto, em que elogiou o maior torcionário do regime militar, o coronel Carlos Ustra, o responsável máximo pelas torturas infligidas a Dilma Rousseff, revelaram ao Mundo o seu lado mais pulha. O resto, é História. Dilma acabaria por ser demitida (em Agosto de 2016) para ser substituída por um personagem cinzento, o vice-presidente Temer, o "mordomo", que se limitou a marcar presença, sem que hoje em dia alguém se lembre de um acto seu. 

Com a prisão de Lula, acusado num processo polémico, montado pelo juíz Moro para o afastar das eleições de 2018, o caminho para a eleição de Bolsonaro, o candidato da direita, ficou mais livre. Ganharia as eleições com 55% dos votos, apoiado pelas forças mais conservadoras e reaccionárias do Brasil: os evangélicos, os ruralistas e os militares. 

Como era previsível, a coisa só podia correr mal. Bolsonaro, para além de fascista, é um calhau, sem qualquer educação ou preparação para o cargo. As suas "boutades" são de antologia e já fazem parte do anedotário nacional. É difícil escolher um só defeito: é autoritário, racista, machista, misógino, homofóbico e negacionista. Nega as alterações climáticas e autoriza a devastação da mata amazónica, o que lhe tem valido criticas de toda a comunidade internacional. Discrimina os índios, hoje cada vez mais confinados em reservas, onde são sujeitos a "queimadas" provocadas por fazendeiros, criadores de gado e de plantações de soja. É adepto do porte de arma, invocando a defesa pessoal dos cidadãos contra a criminalidade existente, que só tem aumentado desde que chegou ao poder. Diz combater a corrupção (a sua maior acusação contra Lula) mas levou toda a família para o governo e dois dos seus filhos já foram acusados de peculato e de participação em crimes, como a da activista Marielle, no Rio de Janeiro.

O modo como "gere" a actual crise pandémica, é a maior prova da sua imbecilidade. Começou por negar o perigo do vírus, apelidando-o de "gripezinha" e "resfriado", coisas sem importância. Passou meses sem usar máscara ou distanciamento social, apelidando de "maricas", quem mostrava medo de ser contaminado. Devido às suas políticas negacionistas, o país entrou em crise sanitária profunda e, nalgumas regiões (Manaus), as populações não recebem suficiente oxigénio e morrem por asfixia. Hoje, o Brasil, é o 2º país com maiores índices de contágio e mortes a nível mundial, só ultrapassado pelos EUA, respectivamente: 11.439.250 / 9,52% e 30.055.349 / 25,01%. O número de mortes, ultrapassou esta semana pela primeira vez 2.000 casos, num dia apenas! Uma catástrofe sem procedentes, só possível num país governado por um louco. Está em curso um verdadeiro genocídio no Brasil, denunciado pelas organizações de saúde internacionais. Entretanto, criticado à esquerda e à direita, Bolsonaro, tem-se refugiado no seu ministro de saúde, o militar Pazuello, outro ignorante como ele. Provavelmente, este virá a ser substituído, já que o "mito" necessita de ganhar as eleições em 2022 e precisa de um "bode expiatório" para justificar as suas políticas de extermínio. Perante a desobediência de alguns governadores estaduais (S. Paulo, por exemplo) que decretaram planos de confinamento para evitar mais contágios, o fascista ameaça com tanques e exército nas ruas, como forma de obrigar os governadores a obedecerem. Pior, é impossível.

Como afirmou, esta semana, o ex-presidente Lula, entretanto ilibado das acusações de Moro num processo ilegal, a Terra não é plana. Nunca foi. A Terra é redonda! 

 

2020/01/23

Corrupção: do "Luanda Leaks" ao "Portugal links"

Na semana de todas as revelações, as notícias sobre o caso angolano (vulgo "Luanda Leaks"), sucedem-se a ritmo estonteante. 
Hoje mesmo, chegou a Lisboa o Procurador-Geral da República de Angola (Hélder Pitta Groz), para encontrar-se com a sua homóloga portuguesa, com quem abordará o "caso Isabel dos Santos" e as suas ramificações em Portugal.
O caso conta-se em meia-dúzia de linhas: Isabel dos Santos, filha do ex-presidente angolano Eduardo dos Santos, empresária de sucesso e considerada a mulher mais rica de África, foi constituída arguida num mega-processo em Angola onde, juntamente com outras personalidades do regime, foi acusada por crimes de gestão danosa, peculato, tráfico de influências e branqueamento de capitais, enquanto administradora da Sonangol (empresa petrolífera angolana). A sua fortuna, avaliada em mais de 3.000 milhões de dólares, está hoje dispersa por vários continentes: da África à Europa, passando pela Russia e pelo Médio-Oriente, onde possui interesses económicas e património pessoal, com residências em Luanda, Lisboa, Londres, Malta, Mónaco e Dubai. Em Portugal, são conhecidas as suas participações de capital na NOS, Efacec, Sonae, Eurobic, Galp e Comunicação Social, para além de investimentos diversos em projectos imobiliários. Juntamente com a filha de Eduardo dos Santos, foram constituídos arguidos, os portugueses Mário Leite Silva (braço-direito da empresária), Sarju Raikundalia (ex-administrador financeiro da Sonangol), Paula Oliveira (amiga de Isabel dos Santos e administradora da operadora NOS) e Nuno Ribeiro da Cunha (assessor do Eurobic). Todos eles se encontram fora de Portugal, neste momento.
De acordo com o PGR angolano, a acusação partiu da denúncia do sucessor de Isabel dos Santos, à frente da petrolífera estatal angolana, Carlos Saturnino. Foram constituidos outros arguidos, nas alegadas transferências fraudulentas para o Dubai.
Nada que nos deva surpreender no país onde, durante décadas, governou a família Dos Santos, uma das mais sinistras cleptocracias do continente africano. Que a filha primogénita do (ex)presidente tivesse sido eleita para herdar a fortuna do pai, era expectável. Que a maioria do povo angolano, continue a viver em condições de miséria extrema, enquanto os seus governantes gastam o dinheiro do país nas chiques lojas de Lisboa, é vergonhoso.
E o que é que isto tem a ver com Portugal?
Acontece que, dadas as relações especiais entre os dois países, Angola sempre foi um parceiro preferencial dos governos portugueses: durante a ditadura, como colónia e, após o 25 de Abril, como país de cooperação, investimento e emprego. Foi assim durante décadas e, nos últimos anos (devido à crise social e económica que Portugal atravessou entre 2011 e 2014), aumentou de importância, passando Angola a funcionar (de novo) como país de emigração e oportunidades.
Foi nesta última década, que os investiments angolanos em Portugal aumentaram, com incidência nas telecomunicações (NOS), industria de cabelagem (Efacec), banca (Eurobic), distribuição (Sonae), petrolífera (Galp) e comunicação social (Cofina).  O empório de Isabel dos Santos cresceu exponencialmente e Lisboa passou a ser uma plataforma privilegiada para os seus negócios, com sede na Avenida da Liberdade.
Nada disto se consegue sem dar nas vistas e há muito que o jornalismo de investigação vinha alertando para esta história de sucesso. Finalmente, e após anos de investigação, o Consórcio Internacional de Jornalistas (120 jornalistas de 20 países), publicou um relatório baseado em 750.000 documentos, onde a fortuna de Isabel e as suas aplicações foram escrutinadas.
Fala-se de corrupção e, como sabemos, para haver corrupção tem de haver corruptores e corrompidos. A "lavagem" do dinheiro angolano em Portugal, só podia ter sido feita com a cumplicidade de parceiros portugueses (políticos, banca, empresários, escritórios de advogados, etc.). É aqui que a PGR portuguesa poderá ter um papel, já que o processo angolano a Angola diz respeito.
Nem de propósito, saiu hoje o relatório anual da "Transparency International" o organismo da ONU que analisa a percepção da corrupção a nível internacional.
São 180, os países escrutinados. No topo da lista (leia-se, "menos corruptos") estão a Dinamarca, a Finlândia, a Suécia, a Noruega, para além da Nova Zelândia, Suiça, Singapura, Países-Baixos, Luxemburgo e Alemanha. Como é habitual, de resto. Já no fim da lista, estão os "mais corruptos", a Guiné-Bissau, a Coreia do Norte, a Venezuela, a Guiné Equatorial, o Sudão, o Afeganistão, o Iémen, a Síria, o Sudão e a Somália (países ditactoriais ou estados-pária, atingidos por guerras civis e calamidades várias).
E como estamos de corrupção em Portugal?
No último ano não se registaram melhorias no combate à corrupção em Portugal, segundo o ìndice da Transparência Internacional. De acordo com os dados de 2019, o país piorou 2 pontos, apesar de se manter na mesma posição do ano passado (30ª lugar), ficando novamente aquém da média da Europa Ocidental.
De acordo com o presidente português da "Transparência e Integridade" (João Paulo Batalha), "para além de promessas reiteradas e discursos de ocasião, não tem havido em Portugal uma verdadeira mobilização da classe política contra a corrupção". Para Batalha, "falta coragem política para implementar uma estratégia robusta, capaz de prevenir e combater eficazmente a corrupção, o que não se consegue com declarações de intenção".
Resta esperar que a divulgação dos dados, respeitantes a Isabel dos Santos, possa contribuir para o desmantelamento da impunidade com que esta  "lavandaria" operava em ambos os países. Nunca é tarde para começar. Ainda estamos no início...

2019/05/11

Joe "babe" boy


Na semana em que os directores executivos dos quatro maiores bancos portugueses, anunciavam ser inevitável ter de cobrar taxas pelo uso do Multibanco, um dos personagens que mais tem lucrado com a banca era ouvido numa Comissão Parlamentar, para explicar a dívida de quase 1000 milhões a esses mesmos bancos, um dos quais, a CGD, o banco do estado.
Que o homem é um "gangster" já toda a gente sabia. Bastava ler a sua biografia e o modo como enriqueceu. Um "chico-esperto", na gíria local. Acontece, que os "chico-espertos" só chegam a determinadas posições, ajudados por outros, normalmente mais influentes ainda. Chama-se a isto patrocinato e consiste na troca de favores destinados a manter o poder recíproco, segundo a velha fórmula "faço-te uma oferta que não podes recusar" (D. Corleone). A partir daí, é sempre a subir...
Até que um dia se descobre a "tramóia" e é o cabo dos trabalhos. Foi o que aconteceu agora. Dadas as imparidades existentes na maioria dos bancos portugueses (quatro dos quais foram à falência, provocando um "rombo" de 20.000 milhões na economia portuguesa!), alguém se lembrou de publicar a lista de devedores da Caixa Geral de Depósitos, da qual fazia parte, em lugar de destaque,  o "comendador" Joe Berardo. Como tudo isto aconteceu, é fácil de perceber: o homem (Joe para os amigos) pedia dinheiro emprestado aos bancos, com o qual comprava acções dos mesmo bancos, as quais serviam de caução para novos empréstimos, e assim por diante. Ou seja, o dinheiro nunca faltava, as dívidas aumentavam e o "comendador", levava uma vida de "lord". Mais, devido ao respeito que lhe tinham, agraciaram-no com uma "comenda" (porquê?) e até lhe cederam um espaço (museu Berardo) no CCB, onde está exposta a sua colecção de arte (avaliada em 800 milhões de euros) em regime de "comodato". Para além disso, o estado português comprometeu-se a doar 500 milhões de euros/ano, durante dez anos, à Fundação Berardo, para que esta pudesse renovar a sua colecção. É o que se chama um negócio leonino.
Agora que o homem foi confrontado com o arresto dos seus bens por dívidas aos bancos, viemos a saber (pelo próprio) que ele - pessoalmente - não deve nada a ninguém (!?). Isto, porque quem deve é a Fundação Berardo e outros organismos que, entretanto, foram sendo criados, em nome dos quais ele comprava as acções e pedia os empréstimos. O estado pode processar a Fundação e fazer um arresto dos bens desta, menos os quadros, que não podem ser considerados bens da Fundação, dado estarem emprestados ao estado...
E agora? Mesmo que Joe seja preso (o que duvido), temos de perceber que a sua ascensão e aceitação pelo "jet set" nacional, só foi possível dadas as relações de subserviência e bajulação que os "pares" lhe prestaram. Políticos e banqueiros. Os mesmos que, depois de terem "acreditado" no "comendador", exigem agora o seu dinheiro de volta. Se não o recuperarem, ninguém irá preso por má gestão. Pelo contrário, continuarão alegremente a prevaricar e a enriquecer, agora através de uma taxa, cobrada aos depositantes, pelo uso do Multibanco. A máfia lusitana, em todo o seu esplendor.

2016/03/16

Quem condena quem?

A corrupção, que é endémica na sociedade brasileira (o país ocupa a 78ª posição no índice "transparency" da ONU), sempre existiu antes e durante o consulado do PT.
Lula, ao aceitar a nomeação para um cargo de super-ministro (mesmo que inocente das acusações que lhe são feitas), só fará aumentar as suspeitas existentes e não se libertará do cerco.
E isto é mau para a democracia.
O Brasil, como os restantes "BRICs", depois de uma década de crescimento económico sem paralelo na história, entrou numa crise profunda: social, económica, na inflação, no desemprego e, como sempre, na corrupção, que é hoje transversal a toda a sociedade.
Se Dilma for afastada por "impeachment", quem a vai substituir? O vice-presidente acusado, ele também, de corrupção? O presidente da Assembleia, o "maior" corrupto? E quem a vai julgar? Tribunais e juízes, provavelmente tão corruptos como os demais? Ou a polícia, conivente com o crime organizado, como é do conhecimento público?
Quem tem moral para condenar quem?
Este é, provavelmente, o maior dilema da sociedade brasileira, que deixou de acreditar em soluções democráticas. Ora, quando se deixa de acreditar nas instituições, abre-se caminho para outras "pulsações".
Estamos a assistir a uma situação, onde tudo se conjuga para a chamada "tempestade perfeita". Em tempo de crise moral e social, os apelos a soluções autoritárias, aumentam. É da história e já assistimos a este filme no passado.
Também eu quero acreditar, que o tempo dos "generais" já passou, mas o "populismo" (outra das características da América Latina) está ainda bem presente (ver países vizinhos onde a "democracia musculada" vai fazendo o seu caminho...)
As reacções da apelidada "classe média branca", vistas da Europa, parecem típicas de um grupo social descaracterizado e sem grande consciência social. Com medo do presente e sem alternativa política. Não se manifestavam há dois anos atrás, mas, agora, parecem ter todos "descoberto" a corrupção (!?). Uma fuga em frente?
Provavelmente, não sofrem tanto com a corrupção, como fazem crer (também eles beneficiam dos privilégios advindos das desigualdades, do racismo e da estratificação social existente naquele país).
Não tenho certezas. Temo o pior, mas quero acreditar que a democracia acabará por vencer.
Com eleições democráticas, claro. 

2014/12/05

Da Transparência

Rodrigo Gatinho/Portugal.gov.pt


O Índice de Percepção de Corrupção 2014, esta semana divulgado pela ONG Transparency International, confirma a mediana classificação de Portugal, apesar de uma ligeira melhoria (dois lugares) relativamente a 2013.
Portugal ocupa, agora, o 31º lugar, numa lista de 175 países avaliados, onde os primeiros 5 lugares são, respectivamente, ocupados pela Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Suécia e Noruega.
No fim da lista, estão, como habitualmente, o Afeganistão (172º), o Sudão (173º), a Somália e a Coreia do Norte (174º).
O índice permite ainda avaliar o nível de corrupção nos países de língua portuguesa, onde Cabo Verde (42º) é, de novo, o mais bem classificado, e Angola e a Guiné-Bissau (161º) os piores da lista.
É isto bom ou mau?
Num ano em que os casos de suspeita de corrupção activa e passiva na sociedade portuguesa foram alvo de noticias quase diárias (BES, Vistos Gold, Duarte Lima, Sócrates, etc.) só é de espantar que a classificação de Portugal tenha melhorado. Não podemos, no entanto, esquecer que o índice é elaborado a partir de dados reunidos no ano transacto, pelo que, em 2015, a classificação poderá bem ser outra.
Também aqui, as opiniões se dividem: os arautos do "politicamente correcto" viram nesta melhoria um sinal do "copo meio-cheio", enquanto os "arautos da desgraça", só vêem "copos meio-vazios".
Acontece que estes índices, com todas as suas limitações, são um misto de relatórios fornecidos pelas delegações nacionais da Transparency International, da análise dos processos judiciais por corrupção e da observação empírica da realidade, pelo que a soma destas três variáveis é determinante para avaliar do nível de transparência em cada país.
Sendo assim, convém relembrar algumas verdades incontornáveis, que permitem aferir da relativa justeza de tais índices. Em primeiro lugar, as razões porque os países mais bem classificados são, normalmente, países escandinavos e/ou anglo-saxónicos: são todos eles, sem excepção, países onde a tradição democrática está mais enraizada, a educação é maior e a orientação religiosa (protestantismo) desenvolveu uma ética de responsabilidade (accountability), meritocracia, rigor, austeridade e cidadania, que exigem maior transparência dos seus cidadãos.
No fundo da lista, os países onde nada disto funciona: são, todos eles, sem excepção, países onde não há democracia (ditaduras ou estados-párias), onde a ignorância é maior e a orientação religiosa (fundamentalista) fomenta o clientelismo, o nepotismo, o suborno e a corrupção. Logo, onde há menos transparência.
No meio da tabela, estão países (como Portugal) que nas últimas décadas têm vindo a sair desta espiral de regimes autoritários e onde a desigualdade, a pobreza e a ignorância, continuam a ser factores impeditivos da construção de sociedades mais justas e equitativas, como é desejável.
Não nos devemos, portanto, admirar que os países onde há maior transparência, são aqueles onde há mais igualdade, mais educação e maior participação, portanto mais democracia. É tão simples como isto e ignorá-lo será sempre fatal.  

2014/11/22

Os bancos maus e os capuchinhos vermelhos



Parece que ainda não é desta que acabaram as surpresas neste ano pós-Troika.
Mal refeitos das notícias que conduziram à detenção dos implicados no caso dos vistos "gold" - e consequente demissão do ministro Miguel Macedo - surge-nos agora a notícia da detenção, para inquérito, do ex-primeiro ministro José Sócrates, aparentemente suspeito de crimes de corrupção e branqueamento de capitais. Temos de concordar que, tais notícias, ainda para mais na mesma semana, não são coisas triviais num país de "brandos costumes" como Portugal.
Das duas, uma: ou existem fortes índicios que levaram à detenção de todos estes personagens e, nesse caso, nada a estranhar, pois a justiça estará a funcionar; ou, dada a razia que as detenções do grupo de onze suspeitos dos "vistos" causou na coligação governamental (leia-se PSD-CDS), poderá estar em curso uma acção contrária por parte do ministério da justiça, com o fim de desacreditar o maior partido da oposição (PS), agora que António Costa surge à frente nas intenções de voto...
Ambas as hipóteses são válidas e, como têm vindo a comentar os "tudólogos" de serviço nos diversos canais televisivos, é ainda muito cedo para extrair conclusões apressadas. Se, no caso dos "vistos gold", as acusações parecem fundamentadas; no caso da detenção de Sócrates, esta terá a ver com ligações do suspeito a uma empresa de Leiria, alvo de investigações prévias, para além de fluxos de avultadas somas de dinheiro através da sua conta bancária. Como diria o outro, "isto anda tudo ligado" e não será de estranhar que os próximos dias nos tragam notícias, porventura, ainda mais sensacionais.
Uma coisa parece certa: depois dos escândalos bancários  do BPN, do BPP e do BES, dos vistos "gold" e, agora, da prisão (pela primeira vez) de um ex-primeiro-ministro, aparentemente ligado a negócios menos transparentes, Portugal começa a tornar-se um lugar cada vez menos recomendável.
Nada que nos surpreenda. Contrariamente à generalidade das opiniões, que continuam a ver nos actores políticos e nos principais partidos governamentais os únicos responsáveis por este clima de suspeição generalizada, pensamos que há um mal maior, transversal a toda a sociedade portuguesa. E, da mesma forma que não há corruptores sem haver corrompidos, também não poderá haver apenas políticos corruptos sem que alguém se deixe, por eles, corromper ou vice-versa. Isso mesmo está implícito nas mais diversas investigações, levadas a cabo sobre esta matéria e reflectidas nos índices publicados anualmente pela Organização do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (PNUD). Uma simples consulta ao "ranking" a partir de 1990 (ano em que o IDH foi pela primeira vez publicado) permite-nos constatar o óbvio: Portugal caíu 10 lugares na lista de corrupção mundial, depois de ter ocupado a 23ª posição, a sua melhor classifcação de sempre. O nosso país ocupa, agora, a 33ª posição no índice "Transparência" (ver mais aqui), uma das piores entre os países europeus. Não vale a pena olhar para o lado. Algo está, realmente, podre no reino da Dinamarca e não chega chamar pelo lobo mau, para desculpar as maldades do capuchinho. Esta é uma situação potencialmente explosiva e mal vai uma sociedade onde a descrença é geral e o estado perdeu a credibilidade.  
      

2012/07/17

Diz-me como conduzes, dir-te-ei qual é o grau de corrupção no teu país

Já alguma vez pensou nisto: o comportamento ao volante reflectirá os níveis de corrupção existentes no país? Não quero fazer extrapolações abusivas, nem criar ligações entre texto e imagem que davam jeito, mas podem ser precipitadas.
Lá que isto dá, contudo, que pensar, ah! lá isso dá...
Ora leia aqui este artigo "World’s Worst Traffic Jam" e conclua por si próprio. Eu fui ver uns dados comparados sobre acidentes rodoviários e condução em Portugal e já tenho uma ideia...



(a foto foi "picada" do blog A Nossa Terrinha)

2012/06/22

"Relvas quis favorecer empresa de Passos Coelho"




Uma história sórdida descrita neste video e aqui neste artigo. O mais engraçado, no caso do video, é ver a outra a tentar defender o indefensável. As cambalhotas que ela dá para mascarar o argumento central de Helena Roseta...

2011/11/30

Estranhos silêncios

É paradigmático que o grande problema da vida nacional, a corrupção, tenha estado totalmente ausente do debate sobre o OE2012. Nem uma medida do governo, nem uma proposta da oposição. Nada! Trata-se, pois, de um tema tabu.
Se olharmos para os números da corrupção em Portugal, se nos recordarmos que há quem diga que a corrupção é a origem da presente crise, não podemos senão concluir que se trata de um problema central  e que, nesse caso, o silêncio é estranho.
Enquanto o tema da corrupção não for discutido e o problema não for objecto de resoluções sérias é certo que este país nunca irá passar desta mediocridade permanente que a todos corrói.
Queria somente lembrá-lo aqui...

2011/11/21

Corrupção: a dimensão do problema

O programa da TVI24 Olhos nos Olhos abordou o tema da corrupção no nosso País. O programa contou com a presença de Paulo Morais da associação Transparência e Integridade. Ficámos a saber que em Portugal, apesar dos 37 anos de regime democrático, da separação de poderes e da proliferação de organismos fiscalizadores de toda a ordem, a corrupção aumentou. Ficámos a saber de leis que geram favorecimentos nas grandes negociatas com o Estado, como se fazem e quem as faz. "As leis são deliberadamente confusas (...), feitas por escritórios de advogados a que pertencem os deputados que depois as votam," afirmou Paulo Morais. "A crise está ligada à corrupção, não tenho dúvida," afirmou ainda. "A constituição do BPN é matéria que devia ser investigada de alto a baixo," acrescentou.
A gente ouve tudo aquilo, pasma e interroga-se. Como é possível termos chegado a este ponto? Como é possível que isto se tenha tornado num fenómeno quase banal? Como é possível que, tendo em conta os mecanismos de que, apesar de tudo, dispomos para combater esta chaga, não exista em Portugal um único condenado por corrupção? Como é possível que estas denúncias, feitas assim publicamente, de forma directa e clara,  não suscitem reacções oficiais imediatas dos órgãos com responsabilidade directa nesta matéria?!
Como é possível que tenhamos pobres, "novos pobres", Banco Alimentar, Misericórdias, Igreja, etc, etc, a distribuir os restos dos ricos (enriquecidos à custa de toda esta situação nojenta) e estes à solta, enquanto chafurdam na gamela da corrupção, rindo-se certamente de tudo isto, e, quem sabe até, contribuindo, para assim disfarçar ou calar as suas más consciências...? Como é possível ouvir certas figurinhas do Estado dizer que aí vêm tempos piores e "futuros pobres" sem lhes ouvir antes falar de uma iniciativa sequer para acabar com este escândalo, uma das causas principais da crise? Como?!!

2010/04/23

Da justiça na República da Pera Rocha

Ironicamente, no mesmo dia em que a Assembleia da República discutia as propostas-lei do combate à corrupção apresentadas pelos partidos à esquerda do hemiciclo, um juíz do Tribunal da Relação de Lisboa ilibava Domingos Névoa da tentativa de corrupção sobre um vereador da Câmara de Lisboa. Lembremos que Névoa, presidente da BragaParques, foi apanhado em pleno acto de corrupção activa pelo advogado Ricardo Sá Fernandes, a quem ofereceu 200.000euros para que o irmão deste (José Sá Fernandes) deixasse de interferir no negócio dos terrenos da Feira Popular.
Este acórdão, que não é passível de recurso, abre um precedente gravíssimo na já de si débil credibilidade da justiça portuguesa e confirma o que sempre se soube: Portugal é um país de corruptos e a justiça é cumplice desta bagunça geral.
Moral desta (triste) história: tivesse Sá Fernandes aceite os duzentos mil euros e nada disto se sabia. Estão a ver como a vida pode ser fácil? Deixem-se corromper que o crime compensa, é a mensagem.

2010/04/13

Notícias do Taguspark

Afinal, parece que houve mesmo corrupção passiva. Pelo menos, foi essa acusação que o MP deduziu contra Rui Pedro Soares (o jovem quadro promissor da PT, lembram-se?), Américo Thomati e João Carlos Silva. Vá lá, ilibaram o Figo, pois ser "pesetero" não é necessariamente sinónimo de corrupção. Acontece cada coisa...

2010/03/25

O crime compensa

Lê-se e não se acredita.
Ricardo Sá Fernandes (advogado) foi condenado a pagar 13.000 euros a Domingos Névoa (empresário) por ter chamado corruptor ao presidente da Bragaparques.
Névoa, que tentou corromper o irmão de Sá Fernandes, a troco de dezenas de milhares de euros (está gravado), teve de pagar pelo seu crime 5.000 euros. Grande negócio.
Digam lá se isto não dá vontade de rir?

2009/11/25

Cinco dias noutra cidade

É sempre bom sair de Portugal. Ao contrário do meu companheiro de blogue que vê "potencialidades" portuguesas no futebol, a minha experiência do estrangeiro só confirma o atraso contínuo do nosso pais em relação às nações mais desenvolvidas da Europa. Esta é uma tendência de décadas e pode ser observada por simples observação empírica da realidade. As estatísticas, de que fala o Carlos Augusto, sublinham uma triste evidência: a de um país - o nosso - que no seu quotidiano dá cada vez mais sinais de pobreza em contraste com os sinais exteriores de riqueza de uns quantos. Basta um simples passeio pelo centro histórico de Amsterdão - cidade onde vivi 30 anos e que continuo a visitar regularmente - para nos apercebermos disso. Das pessoas às casas, do trato pessoal à eficiência dos serviços, tudo funciona melhor, num país com a superfície do Alentejo e uma das maiores densidades populacionais do Mundo. Sim, também lá há pobreza (relativa), corrupção (noticiada) e racismo (nem sempre disfarçado). Mas, a qualidade do quotidiano para os seus cidadãos é, sem dúvida, superior e o "stress" (eventualmente maior numa sociedade competitiva e inovadora como a holandesa) é compensado pela eficácia e pragmatismo de um estado que há muito compreendeu que do bem-estar da população depende um maior desenvolvimento do país. Dir-me-ão: é um país mais rico e por isso é mais fácil distribuir a riqueza. Certamente. Mas, à excepção do gás no mar do Norte, não se lhe conhece outras matérias-primas de relevo. O resto, a agricultura, a industria, o comércio e as novas tecnologias, são tudo produto do mesmo: mais educação e formação cívica numa sociedade onde a ética não é uma palavra vã. Também, por essa razão, há menos corrupção e a riqueza é mais bem distribuida. Parece simples, mas não é. Enquanto os portugueses - dos governantes aos governados - não conseguirem interiorizar os princípios básicos que devem reger uma sociedade mais justa e igualitária, a "face oculta" do nosso triste quotidiano não vai melhorar. Nem daqui a uma geração...

2009/11/12

Goodfellas (2)

Os bons realizadores não gostam de sequelas. Não por acaso, Scorsese, não quis fazer uma continuação de "Tudo Bons Rapazes". A primeira história é sempre a mais bem contada. O mesmo não parece acontecer com o caso "Face Oculta", que não pára de nos surpreender. Já deixou de ser um "caso" e passou a ser uma "saga". Uma coisa é certa: à medida que nos aproximamos da "cabeça do polvo", começam a surgir dificuldades na investigação.
O senhor Monteiro (PGR) empurra para o senhor Nascimento (STJ) que, por sua vez, diz não ter poder para ouvir "escutas" que incluem o primeiro-ministro, pelo que as cassetes devem ser destruídas, enquanto o senhor Marinho (OA) já veio atacar o sistema e os senhores Júdice e Rebelo de Sousa vieram lançar dúvidas na suspeita investigação. O senhor Nascimento, com o gabinete cheio de cassetes que não pode utilizar como prova, não sabe para que lado se há-de virar e já exigiu tirar o processo ao senhor Monteiro, enquanto a oposição exige esclarecimentos e o governo diz que a oposição está a misturar a política com a justiça... Onde é que eu já vi este filme?
Por este andar, ainda vamos ver o processo arquivado por falta de provas e os "dossiers" deitados ao lixo. Ou à sucata, que é onde os "cadáveres incómodos" são mais facilmente triturados. Se bem me lembro, no "Goodfellas," um dos "gangsters" acabava por ser emparedado vivo...
Não haverá por aí alguém que queira escrever este argumento e enviá-lo ao Scorsese? Pode ser que ele veja potencialidades nesta história lusitana e faça a tal sequela. Material não falta.

2009/11/06

Goodfellas

A acreditar na notícia que esta semana faz manchete nos principais orgãos de informação, estamos perante mais um caso de corrupção em que o nosso país parece ter-se especializado nas últimas décadas. Nada que nos deva espantar. Há corrupção em todo o Mundo e Portugal não é excepção. De resto, os "amaciadores" da opinião pública já vieram sossegar-nos uma vez que, até prova em contrário, todos os suspeitos são inocentes. Onde é que eu já ouvi isto?
Acontece que alguns dos indiciados, neste recente crime de "tráfico de influências", são exactamente os mesmos cuja nefasta influência no tráfego da Fundação que dirigiam, levou à sua demissão do governo. Estávamos em 2001 e, desde então, muitos carros devem ter passado pelas estradas portuguesas. Alguns, ainda lá devem andar, outros deixaram de circular e foram abatidos ao activo, ou mais prosaicamente, deram entrada em depósitos de sucata. Um bom negócio, a sucata. Juntamente com o tratamento de lixos tóxicos e orgânicos, um apetecível "nicho de mercado", para utilizar o jargão dos nossos economistas da Universidade Independente.
Algumas travessias do deserto e oito anos mais tarde, eis que os mesmos nomes reaparecem, agora ligados a um sucateiro de Aveiro que, para além de carcassas de automóveis, também negociava em carris de ferro. A coisa ia de vento em popa e, não fora uma investigação policial da PJ e algumas gravações telefónicas comprometedoras, estava para durar. Agora parece que um dos "alegados" intermediários ("brokers" no jargão siciliano) queria uma percentagem que, dizem as más línguas, seria apenas de 10.000 euros. É a nossa sina. Pequeninos, até no pedir. Se ao menos fosse uma quantia que se visse! Razão tinha o Scorsese, tudo bons rapazes...