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2024/12/04

Costa Desgosta

Na abertura do Circo da UE, em Kiev, Costa faz um flic flac à rectaguarda, com mortal encarpado à direita. Bravo!...
Ver aqui a reacção do público.

Costa fala em dia “duplamente simbólico” com instituições europeias juntas  em Kiev

2023/10/05

A "rentrée" (e agora, António?...)

 


É verdade que o Verão acabou, mas as temperaturas continuam altas. De acordo com as estatísticas, 2023 poderá vir a tornar-se o ano mais quente de sempre, desde que há registos. Para quem nega o aquecimento global, não será uma preocupação: a Terra é "plana" e o perigo de cairmos é mínimo. Se a Terra fosse redonda não nos aguentávamos de pé...

Provavelmente, deve-se a este Verão prolongado (calor excessivo e sol na moleirinha) as notícias que habitualmente fazem parte da "silly season". Entre nós, esta "estação", dura sempre mais umas semanas do que noutras latitudes. Podemos não ser bons a planificar, mas, em criatividade, ninguém nos bate...    

Só no "querido mês de Agosto", contei várias, que ocuparam dias a fio as primeiras páginas da imprensa de referência (!?) e foram abertura em todos os telejornais. Relembro as que me chamaram mais a atenção, não necessariamente por esta ordem:

Tivemos a visita do Papa (à qual escapei por um triz, já que me encontrava no estrangeiro); o beijo de Luís Rubiales, à jogadora da selecção espanhola de futebol; a petição pública, para mudar o nome proposto para o passadiço do rio Trancão; a observação de Marcelo ao decote de uma emigrante no Canadá; a proposta de aceitar estrangeiros nas forças armadas portuguesas; a transladação de Eça para o Panteão Nacional; não esquecendo, claro está, os fogos, a seca, a falta de água e as habituais queixas dos empresários do Algarve que, ao que parece, tiveram menos turistas portugueses...

Dirão, é sempre assim: quando não há pão, há que dar circo ao povo. Na falta de futebol...

Mas, com a mudança de estação (afinal, estamos no Outono) havia que celebrar a "rentrée", agendada para Setembro. Tivemos as "universidades" de Verão dos partidos, as festas do Pontal e do Àvante e (cereja em cima o bolo) as eleições regionais na Madeira que, para não fugir à tradição, deram a vitória ao PSD, partido que há mais de 40 anos governa o arquipélago. Nada que não se esperasse nesta ilha de caciques, ainda que desta vez sem maioria absoluta. A única novidade reside na aliança proposta pelo presidente eleito que, na falta de um deputado, preferiu aliar-se ao partido dos animais, para "não alimentar o crocodilo (leia-se, "Chega") que o podia comer"... Um cómico, o Albuquerque.

Já em Lisboa, a coisa "fia mais fino". Confrontado com a vaga de protestos que atravessa a sociedade portuguesa em áreas tão essenciais como a educação, a saúde ou a habitação, o governo continua a fazer "orelhas moucas" às reivindicações de professores, médicos e inquilinos, algumas das quais com anos de existência. Nunca o chamado "estado social" foi tão sistematicamente desvalorizado, pese embora os bons resultados na área financeira, com a descida da dívida pública (111% do PIB), controlo do défice orçamental (0,4%) e baixo desemprego (6%). Acrescente-se as previsões relativas ao turismo (20 milhões de visitantes/ano) mais o dinheiro arrecadado em impostos (IVA) e não é difícil perceber porque é que o ministro das finanças apresenta resultados na ordem dos 1700 milhões de excedente orçamental. Então, porque é com esta "almofada" financeira e os dinheiros do PRR (22 000 milhões) e dos programas europeus de coesão 2020 e 2030 (43 000 milhões), não se fazem investimentos públicos duradouros e estratégicos para o futuro? 

A resposta deu-a António Costa, esta semana, numa entrevista de duas horas às cadeias de televisão TVI e CNN: o governo não pode satisfazer as reivindicações dos professores (anos de salário em atraso, etc...), porque ia abrir um precedente relativamente a outras categorias de funcionários públicos (médicos, enfermeiros, oficiais de justiça, maquinistas, revisores, etc.) e o estado não tem dinheiro para todos. Acrescentou ainda que as variáveis não controláveis (pandemia, guerra, inflação) o obrigavam a conter despesas, já que por cada décima a menos no pagamento de juros da dívida o governo poupava 60 milhões de euros. Ou seja, a prioridade continua a ser o pagamento da dívida pública, ainda que a inflação não baixe  dos 5%, o que se traduz automaticamente no aumento do custo de vida, nomeadamente nas hipotecas das casas que, só este ano, aumentaram 20% em média! A situação no sector da habitação é de tal forma dramática que, pela primeira vez, milhares de inquilinos e jovens sem casa, desceram à rua em 24 cidades do país a exigir casas de renda acessível, uma exigência que não poderá ser satisfeita na próxima década. Como referiu uma conhecida cronista do "Público", a questão da habitação poderá significar o princípio do fim do governo de Costa. 

Que numa entrevista de duas horas, o primeiro-ministro (provavelmente devido ao guião imposto pelos entrevistadores) nunca tivesse mencionado os custos da guerra (inflação) para a população europeia em geral e para os portugueses em particular, é algo de extraordinário. Resta saber se por opção ou por esquecimento. E, no entanto, a guerra (esta guerra em particular) que se arrasta há mais de ano e meio sem fim à vista, só aproveita um dos actores: os EUA, que vendem armas em troca da futura reconstrução da Ucrânia, sem que sofram perdas humanas no terreno (no boots on the ground). Grande negócio!

Para Costa, nada disso interessa. Vamos organizar o campeonato do Mundo de Futebol 2030 e, se tudo correr bem, até Zelensky (esse grande "defensor do Ocidente") poderá chegar amanhã ao Porto, para participar na reunião do "Grupo de Arraiolos". Ora digam lá se isto não é um "milagre" para o governo?  Uma verdadeira festa. Já que não há pão, que venha o circo!


2023/07/22

Estado da Nação (o discurso do copo meio cheio)

Como é da tradição, realizou-se na Assembleia da República a última sessão antes de férias, subordinada à discussão sobre o Estado da Nação. Uma sessão, em jeito de balanço, onde o governo e a oposição avaliam o ano governamental que, agora, termina.

Um ritual anual sem surpresas, onde o governo costuma defender as suas escolhas políticas e a oposição critica as políticas seguidas. No fundo, algo que se pode resumir ao "copo meio cheio" governamental e ao "copo meio vazio" da oposição. Nada de novo aqui. 

Como seria de esperar, o primeiro-ministro aproveitou a sessão para fazer um balanço positivo da governação (como não?) pintando de cor "rosa" uma realidade suportada por indicadores macro-económicos, ainda que as melhorias demonstradas não se reflitam na economia real (a vida das pessoas comuns).  Sobre os números apresentados por António Costa, os indicadores não podiam ser mais favoráveis:

A Economia Portuguesa (PIB) cresce 1,8% e a OCDE estima que possa atingir os 2,7% em finais deste ano. Acima da média europeia.

O Défice Orçamental (1,4%) descerá a 0,4%, até final do ano.

A Dívida Pública (110% do PIB) descerá até 103% em 2023 e será inferior a 100% em 2024.  

O Desemprego, atingiu mínimos históricos e estabilizou nos 6,4%.

O Turismo, voltou aos níveis pré-pandemia e já representa 10,1% do PIB nacional.

As receitas dos Emigrantes, atingiram 3.678 milhões de euros (a segunda maior dos países da UE).

O PRR (Programa de Recuperação e Resiliência) aprovado em Junho de 2021, para apoiar as economias dos países europeus atingidos pela pandemia, atribuiu a Portugal 16,6 mil milhões (dos quais 13,9% em subvenções). Posteriormente o valor foi aumentado para 22 mil milhões, a executar até 2026.

O "Programa Europeu de Coesão 20-20" (26,89 mil milhões) está a ser realizado, tendo já sido aprovados 87% dos projectos.

O "Programa Europeu de Coesão 20-30" (22.996 mil milhões) que apoiará 12 projectos, será realizado entre 2021 e 2027. 

Ou seja, as "contas" nunca estiveram tão boas e, não fora a pandemia, a inflação e a guerra (variáveis externas que o governo não controla) e viveríamos no "melhor dos Mundos". 

Acontece que o cidadão comum, como o Pessoa, não percebe nada de contabilidade e está mais interessado nas contas caseiras. Dito de outro modo, quer saber como é que paga as suas despesas diárias: habitação, saúde, alimentação, educação, transportes e, já agora, entretenimento (a que muitas chamam cultura). E é aqui que a "ºporca torce o rabo". Neste ponto, a oposição, de um modo geral, tem razão, ainda que as soluções apresentadas possam ser diferentes de partido para partido.

Sectores-chave como a saúde, a educação, a habitação ou os transportes, aqueles que mais preocupam o "homem comum" (a maioria da população) estão em crise permanente. 

Na saúde, e apesar dos "ratios" (médicos por habitantes), estarem dentro da média europeia, faltam profissionais em quase todas as especialidades na maioria dos hospitais públicos do país. Com a pandemia as consultas externas e as operações foram proteladas e estão atrasadas anos! São diários os relatos dos utentes sem médico de família (1.6 milhões de portugueses!), apesar das promessas feitas pelo governo (em 2017) de solucionar este problema até 2024 (nos 50 anos do 25 de Abril!). Não será desta, já se percebeu.

Na educação, um dos calcanhares de Aquiles do partido que chegou a eleger a "educação como paixão", as políticas não podiam ser mais desastrosas. A melhor ilustração desta situação, é a (justa) luta dos profissionais do sector (professores e não só) que, desde 2008, vêm lutando pela dignificação da carreira. A falta de docentes é crónica e tende a piorar, devido ao envelhecimento da classe, enquanto as taxas de abandono escolar e maus resultados em disciplinas nucleares, são sintomas que não podem ser ignorados. Que faz o governo? Atira com dinheiro para cima dos problemas, acaba com os exames parciais e deixa cair a Matemática como exame obrigatório! O facilitismo, no seu melhor.

A habitação, um problema estrutural nas grandes cidades, piorou nas últimas décadas, devido à liberalização do sector (Lei de 2012) e ao aumento exponencial do turismo, que retirou milhares de casas do sector de arrendamento, para o Alojamento Local e AirB&b. Como a construção de novas casas para arrendamento, não acompanhou esta tendência, faltam casas no mercado e as rendas dispararam em flecha. A renda média em Lisboa, aumentou em 37,9% em Maio, por comparação com o período homólogo em 2022. No sector privado, o metro quadrado está ao preço de Paris ou Milão, com valores médios de €2453 para Lisboa, €1521 para o Porto, €1381 para Setúbal e €1336 para Faro (dados do Sapo). Que faz o governo? Anuncia o pacote "Mais Habitação", que prevê o arrendamento coercivo de casas devolutas e expropriações, a troco de rendas pagas pelo estado. Entretanto, a ministra do sector, veio anunciar, com ar cândido, a entrega de 320 novos fogos para famílias da "classe média" (o que quer que isso seja). São necessárias mais de 100 000 novas habitações (única forma de fazer baixar os preços) e o governo não consegue tomar medidas estratégicas para o sector. A inoperância total.

Finalmente, os transportes: depois de décadas de investimento em auto-estradas (a política do "betão") e desinvestimento na ferrovia (mais de 1000 km de via encerrados nos últimos 30 anos), o governo resolveu "meter mãos à obra" e anunciar dois grandes projectos nacionais, que passam por recuperar comboios e locomotivas desactivados (pondo-as ao serviço em linhas secundárias, entretanto electrificadas) e abrir um concurso para aquisição de novos comboios. Os projectos estão em curso e já mostram resultados, mas não resolvem o problema de fundo: a falta de linhas de comboios de alta-velocidade e composições adequadas. Acontece que o concurso internacional, entretanto aberto para a construção de 117 novas composições, ao qual concorreram 3 empresas (francesas, suíças e espanholas) corre o risco de ser impugnado devido aos critérios de pontuação do júri, criticados por todos os concorrentes! Uma trapalhada (mais uma!) que nos faz temer pela resolução de um problema que não estará resolvido antes de 2029! Entretanto, Portugal continua sem ligação ferroviária a Espanha, desde a pandemia, enquanto não abre o ramal Évora-Badajoz (80 km) em construção há dois anos. A Renfer (espanhola) já se candidatou a explorar a linha quando esta estiver concluída. É caso para dizer: que venham os espanhóis! 

Como se tudo isto não fosse suficiente, resta uma questão central: a economia cresce pouco e o dinheiro  não dá para tudo (não há "folgas orçamentais", diz Medina). Essa é, pelo menos, a explicação dos liberais do governo, para justificar os baixos salários. A população está a empobrecer, mas os números macro-económicos são bons... Logo, "lá mais para a frente", as pessoas (o homem comum) irão sentir o efeito da economia. Esta é, pelo menos, a tese de  Fernando Medina (Finanças), Álvaro Beleza (SEDES), Francisco Assis (CES) e Sérgio Sousa Pinto (jurista e deputado do PS), todos eles reputados socialistas e subscritores de um artigo de opinião, recentemente publicado num jornal de referência. Com "socialistas" destes, bem podemos esperar sentados.                   

Entretanto, Costa, o "optimista irritante", deixou os conselheiros de estado a falar sozinhos e viajou até à Nova-Zelândia, para assistir a um jogo da seleção portuguesa de futebol feminino. Consta que o Conselho de Estado, convocado por Marcelo, prossegue em Setembro. Por esta, é que a oposição não esperava... 

 

2023/04/03

Costa, o discurso de Calimero e a habitação

Na passada semana, o primeiro-ministro deu mais uma entrevista, agora por ocasião do 1º aniversário da tomada de posse do actual governo. Entre os diversos temas abordados, a habitação mereceu especial atenção, dada a crise no mercado de arrendamento e as medidas propostas pelo governo para combater a falta de casa nas principais cidades do país. 

Das várias medidas anunciadas, a limitação do número de licenças para AL (alojamento local) nos bairros de Lisboa e Porto (as cidades mais turísticas), assim como a obrigatoriedade dos senhorios colocarem as casas devolutas no mercado de arrendamento, foram as mais polémicas. Por outro lado, o governo espera poder construir centenas de novas casas ao longo da legislatura com as verbas do PRR, o que se afigura claramente insuficiente para as necessidades da população, nomeadamente os mais jovens que procuram casa e não têm meios de pagar as rendas exorbitantes pedidas por senhorios e fundos imobiliários abutres.

São muitos os factores que explicam a falta de casas nas principais cidades portuguesas (já que não faltam casas no interior). Desde logo a diminuição de novas construções (enquanto que, até à ultima década se construíam 800 000 casas a cada dez anos, na última década só se construiram 100 000); depois, o abandono de muitos prédios nos centros históricos, posteriormente adquiridos por fundos imobiliários que os transformaram em Alojamentos Locais com vista a rentabilizar imóveis para o turismo; finalmente, a nova Lei de Arrendamento, datada de 2012 (a famigerada "Lei Cristas") que veio liberalizar um sector que estava "congelado" há décadas. Como não se construiram casas em número suficiente, a procura tornou-se maior que a oferta e os donos dos prédios puderam especular com os preços. Actualmente, o valor do metro quadrado em Lisboa, está ao nível de cidades como Madrid ou Milão, com rendas médias de 900 euros nas principais cidades. Rendas incomportáveis para uma família portuguesa, já que os ordenados, em média, não ultrapassam os 1000 euros/mês.

De acordo com os números mais recentes, só em Lisboa e Porto, há 26 mil pedidos de casas municipais, enquanto as casas disponíveis são apenas 700! A grande Lisboa, a região mais afectada, concentra 70% das famílias em carência habitacional (in "Expresso" d.d. 24 de Março). 

Dramática, a situação da habitação, já que toda a gente percebe que, a curto prazo, não haverá uma solução estrutural para o problema. Seriam necessárias milhares de casas, como forma de baixar os preços no mercado de arrendamento. Ainda há dias, na televisão, Victor Reis (arquitecto especializado em urbanismo e reabilitação) dizia que as medidas, anunciadas pelo governo, não iam surtir efeito, pois não é com cinco mil ou dez mil casas que se resolve o problema. Eram necessárias cem mil, para haver efeito nos preços. Reis deu como exemplo a Suécia onde, nas décadas de setenta e oitenta, foram construídas 1 milhão de novas habitações, para resolver estruturalmente o problema de falta de casas. Obviamente que a Suécia é um país rico, mas esse é apenas um aspecto da questão. Na Suécia, como na maioria dos países desenvolvidos da Europa, pensa-se a longo prazo. Para além de ricos, os suecos são organizados. Por isso, também são ricos. Faz-se prevenção, em vez de reacção (o mal português). Quem pensa este país a 10 ou 15 anos? Ninguém.

Os principais partidos do poder (PS/PSD) estão mais interessados em agradar às suas clientelas do que em resolver os problemas reais da população. Os construtores civis (Mota-Engil, Teixeira Duarte, etc.) candidatam-se aos apoios para a construção e os governos contratam-nos, muitas vezes com ajustes directos. Como é sabido, a maior parte das obras públicas em Portugal "derrapam" (vá lá saber-se porquê...) sendo que uma percentagem dos custos reverte para as campanhas partidárias. A construção civil é, historicamente, o maior financiador dos partidos (em Portugal e não só...). É por isso que muitos governantes, quando deixam as suas funções, são convidados para as administrações das construtoras (ex: Ferreira do Amaral na Lusoponte, Jorge Coelho e Paulo Portas na Mota-Engil...). São as chamadas "portas giratórias". Trata-se de patrocinato (se me ajudares, eu protejo-te) ou, nas sábias palavras de Don Corleone: "I'll make you an offer that you can't refuse".

Foi contra este estado de coisas, que em diversas cidades do país, dezenas de milhares de pessoas (a maior parte jovens) desceram à rua, a exigir habitação a preços razoáveis, um direito consignado constitucionalmente. 

O mais ridículo disto tudo, foram, no entanto, as declarações de Moedas (um "tonto") que perante as manifestações em Lisboa, dizia aos jornalistas ser pela habitação, mas não concordar com manifestações ideológicas (como se ele não tivesse uma ideologia). Ainda hoje, num canal televisivo, outra comentadora afinava pelo mesmo diapasão, dizendo que a manifestação de Lisboa (durante a qual se verificaram algumas confrontações entre a polícia e os manifestantes), não era pela habitação, mas anti-capitalista (!?). Pois era. Não tinham percebido?      

2023/01/31

O país está melhor, mas os portugueses estão pior...

O governo comemorou um ano de existência e o primeiro ministro deu uma entrevista para assinalar a efeméride. Uma entrevista evasiva, onde o entrevistador de serviço se prestou ao papel de "caixa de ressonância" do PS.

Nada que espante, já que aos jornalistas cabe interrogar os políticos (governantes ou não) e a estes responderem de acordo. O problema é quando o entrevistado é uma "velha raposa" e o entrevistador um "soft", que faz perguntas e dá as respostas, o que sempre facilita o papel do convidado. 

Depois da maioria absoluta, conquistada há um ano (a segunda da história do Partido Socialista), nada fazia antever um ano tão atribulado para o governo, como este último que atravessámos. Se é certo que há variáveis que o governo não pôde controlar (pandemia, inflação, guerra na Ucrânia) outras há que lhe são favoráveis: o facto de ter obtido uma maioria confortável, ter 4 anos de governo pela frente e ter dinheiro para gastar (programas europeus de coesão 20/20 e 23/30, para além do PRR), num total de cerca de 60.000 milhões de euros, até 2029! Uma "pipa de massa"! 

Mais, após dois anos de pandemia, o país voltou a ter o seu melhor ano de turismo desde 2019 e as perspectivas de crescimento do PIB (em comparação com o período homólogo) são positivas (6,8%). O desemprego continua em baixo (6,7%), a previsão da diminuição da dívida pública é de 122% para 114% do PIB e o deficit ronda os 1,5%. Acresce que a inflação média, apesar de alta (8,9%), revelou-se um "maná" para o governo, já que o IVA arrecadado nas transações comerciais, ajudou a "encher" os cofres do estado, o que permite ao governo mostrar um bom quadro macro-económico. Bom, se é assim (e é assim), porque é que o governo continua a falhar nas principais áreas sócio-económicas da governação? 

Lembremos: 

A saúde continua um caos (com falta de meios e pessoal especializado nos hospitais), o que tem obrigado ao encerramento de unidades de obstetrícia e pediatria, um pouco por todo o país; as filas, nas urgências, não diminuem e, para suprimir as faltas, o governo recorre à contratação de "tarefeiros", os quais são pagos muito acima da contratação colectiva acordada para o sector público;       

A educação, em crise de há dez anos a esta parte, atravessa mais um período turbulento com as maiores manifestações a nível nacional de que há memória, não se vendo fim à vista para a situação gerada; 

A habitação, nomeadamente nas grandes cidades, tornou-se impossível para a classe média, devido aos preços inflacionados por fundos imobiliários e estrangeiros (através dos famigerados "vistos gold"), para além da dificuldade em obter créditos e as taxas de juro praticadas;

Os transportes, nomeadamente a ferrovia, estão caducos, continuando por renovar vias importantes como a ligação a Espanha, da qual fomos isolados por iniciativa espanhola, após a pandemia; 

A nacionalização da TAP revelou-se um "fiasco" e só servirá para revendê-la (leia-se privatizá-la) caso seja recuperada em tempo e valores correspondentes;

As indemnizações milionárias (a administradores falhados) continuam na ordem do dia, não se compreendendo os valores pagos e a "dança de cadeiras" entre ex-CEOs e administradores do estado e empresas privadas;    

Finalmente, a "cereja em cima do bolo": os valores conhecidos para acolher as jornadas de Juventude da Igreja (leia-se Papa) completamente pornográficos, quando comparados com as necessidades vitais da população, após anos de privação e austeridade imposta pelas sucessivas crises a que fomos e estamos sujeitos (resgate, pandemia e inflação). 

Perante este quadro contraditório - com uma situação financeira controlada, uma maioria absoluta para quatro anos e dinheiro a rodos, por um lado; e a pobreza envergonhada, de uma população que ganha, em média, 1200 euros/mês, 25% da qual ganha menos do que 600 euros e 40% passa frio no Inverno - que diz Costa? 

Reconhece os momentos menos bons do último ano (mais de uma dezena de escândalos com ministros, secretários de estado e autarcas) que levaram à demissão do ministro Pedro Nuno Santos, do ex-autarca de Caminha e secretários de estado diversos. Reconhece problemas com o Ministro de Educação, a Ministra da Agricultura, João Cravinho e Fernando Medina, mas desculpa-se com o facto da justiça estar a fazer o seu papel e não caber à política influenciar os processos. 

Mais, diz que houve atrasos nalguns programas e investimentos, o que põe em risco as verbas europeias disponibilizadas para a sua conclusão, mas contrapõe que, apesar de todos estes percalços, o país está a crescer mais do que a média europeia e a situação financeira é estável...

Ou seja, o país está melhor, mas os portugueses vivem pior. Esta não lembrava ao careca. O Costa é um cómico. 


2022/07/06

Nojos

O futuro está traçado. A aliança EUA-NATO-UE, o corolário hodierno da famosa Doutrina Monroe, vai partir os dentes neste conflito na Ucrânia, vai sofrer uma humilhante derrota e o mundo vai passar a viver sob uma outra ordem. É apenas uma questão de tempo. O que aí vem é, por enquanto, uma incógnita, que se tornará porvetura mais clara quando for lida nos compêndios de história do século XXII. 

Os mostradores das bombas de gasolina que pulsam e rodam de forma cada vez mais vertiginosa, assim marcando a negro o dia a dia dos automobilistas, não reflectem, nem de perto nem de longe, o trambolhão que o "Ocidente" (cf. esta interessante análise de Carlos Matos Gomes sobre este conceito) vai dar, à conta desta miserável aventura em que nos meteram. Mas esses mesmos mostradores das bombas, ao rodarem cada vez mais depressa, para da pistola da bomba sair cada vez menos combustível, constituem uma espécie de metáfora, se se quiser ver para além dos números, do entalanço em que estamos metidos e não podem deixar de nos fazer pensar no que aí vem. Todos deveriam refectir, com seriedade e serenidade, sobre o futuro. 

Uma coisa que, para já, se me afigura certa é que os povos não parecem estar preparados para a reviravolta que se avizinha. A Europa, em particular, revelou-se, em todo este processo, incrivelmente vulnerável. E Portugal, então, pelo filme a que vamos assistindo, está em riscos de se tornar um protectorado de uma multinacional qualquer ou um gigantesco Airbnb.

Bruxelas não é Washington

Há tarefas que, no imediato e se não nos quisermos resignar a uma postura passiva perante tudo o que se passa, parecem urgentes. A mais importante, a que deveria ser dada atenção imediata, é a da continuação desta União Europeia. Uma organização dirigida por zombies que usurparam os direitos democráticos dos europeus e se instalaram ilegalmente nesta coisa inenarrável a que chamam Comissão. É urgente responsabilizá-los pelas consequências que esta decisão de se juntarem à cobóiada vão ter na vida de todos nós, numa atitude de subserviência absolutamente escandalosa. Repare-se que nem na própria América se engole todo este cenário criado em torno do conflito da Ucrânia.

Segundo o Ron Paul Institute, 71% dos americanos não desejam que Biden se candidate a um segundo mandato. Segundo outra fonte, a percentagem de americanos que não querem que Biden se candidate a esse segundo mandato é extraordinariamente alta, quando comparada com os presidentes anteriores, ainda em primeiro mandato. Os americanos já estão a sentir na pele o fiasco absoluto desta política terrorista das sanções, ditada pelos cowboys da Casa Branca. Mas os americanos não parecem dispostos a tal sacrifício. Quem os poderá criticar...?

Biden tenta, em fuga para a frente, culpar Putin, junto da opinião pública americana, pela escalada da inflação, mas, como conclui ainda a análise do Ron Paul Institute, há um grande problema: "os americanos não acreditam nele. De acordo com uma pesquisa da Rasmussen no início deste mês, apenas 11% dos americanos acreditam na afirmação de Biden de que o presidente russo Vladimir Putin é o culpado pelos altos preços." 

Os americanos também não querem, segundo parece, uma recandidatura de Trump. Mas é bom lembrar que a actual política de Washington é exactamente igual à que foi seguida pelo presidente golpista. Vale a pena recordar o que dizia o seu anterior Secretário de Estado, Mike Pompeo e comparar com o que está a ser feito agora. E vale a pena perceber quais são exactamente as personagens que têm transitado de administração em administração, desde há longos anos, para levar a cabo o mesmo programa de desastre universal. Se não acredita, veja os nomes.

De Bruxelas, nem bom vento nem bom casamento

Bruxelas não é, de facto, Washington. O seguidismo dos dirigentes europeus ao discurso americano é incompreensível. Os americanos demonstram um compreensível sentido de conveniência que falta totalmente a Bruxelas. E a Doutrina Monroe justifica a postura americana. Mas o que ganha a Europa em continuar a papaguear o discurso  da invasão vinda das estepes que só pararia no Cabo da Roca, apimentada agora com uma ameaça amarela, quando na própria América esta narrativa parece já não estar a pegar? Numa demonstração da validade da expressão "ser mais papista que o papa," por estas bandas vamos assistindo ao espectáculo desgraçado que a Presidente da Comissão Europeia, prostrada de joelhos, dá todos os dias. Uma actuação nojenta, que nos faz (pelo menos a mim faz!) corar de vergonha. A todos nós que acreditámos no projecto europeu e andámos a embarcar, ingénua mas zelosamente, nesta trapaça absurda, neste travesti de eleições, a que chamam eleições europeias. Sobre o que nós e os nossos compadres europeus pensamos de tudo isto, o que vai na alma do europeu, nestes dias de ansiedade e de incerteza sobre o futuro, pouco se sabe. Dos americanos sabemos, ainda assim, que não estão a achar grande graça ao que se está a passar, e a festa nem sequer está a ser no quintal deles. O que justifica a posição da Europa perante este conflito?

Ainda faltará algum tempo para percebermos o que dirão os europeus sobre tudo isto. Mas quando, finalmente, acordarem para a realidade que têm e vão ter pela frente, vai ser tarde.

E Portugal?   

Se o que vai na mente dos europeus é uma incógnita, cá pelo burgo não sabemos o que pensam verdadeiramente os portugueses sobre este conflito, para além da conversa de café. Sabemos menos ainda sobre o que pensam sobre a actuação do Governo, nesta sua desfilada à rédea solta.

Falando de governo, permitam-me que exprima aqui, sobre esta matéria, um ponto de vista pessoal, num tom um pouco mais veemente, diria mesmo, escandalizado. A posição portuguesa em todo este caso mete nojo. O comportamento do Governo nesta matéria e, em particular, o do Primeiro Ministro António Costa, é um nojo. Politicamente, está arrrumado. O tirocínio para substituir a Ursula menor de nada lhe vai valer porque deixou de ter a iniciativa, anda totalmente a reboque dos acontecimentos, sem dar o mínimo sinal de uma visão própria, sem um pensamento estratégico, digno de nota e sem um comprtamento que indicie ter a força necessária para mudar o rumo da Europa.  O "estadista" foi a banhos. Não foi para isto que votei nele. A credibilidade política, interna e externa, perdeu-a Costa num aperto de mão em Kiev. E veja-se, por exemplo, aqui, o tipo de santinhos a quem Costa foi apertar a mão, em nome de todos nós.

Comprometida, sem possibilidade de um entendimento, está também uma solução para Portugal, à esquerda. A Ucrânia constitui um tiro no porta-aviões da esquerda portuguesa, sem possibilidade de reparação do rombo. Como se diria, em inglês, Costa é um has been. Tanto que prometia o mocinho, tanta ponte, tanto diálogo para tudo ter acabado assim. É uma pena. À direita o panorama, é certo, não é melhor, o que significa que Portugal é de quem o apanhar.

Nota profundamente negativa, pois, para a actuação do governo, que faz o favor de representar o papel de manequim na montra do imperialismo. Não foram mandatados para isso! Repito: não foram mandatados para isso. 

Não estamos perante uma emergência nacional, não corremos riscos de segurança interna, temos problemas estruturais (lembram-se dos famosos problemas estruturais?!), estruturalmente adiados, temos milhões para ajudar à festa da guerra, mas os tais problemas estruturais ficaram para as calendas. Corremos agora, isso sim, o risco de sermos apanhados pelo fogo cruzado. Nada justifica que os portugueses tenham sido colocados em perigo desta forma. A culpa é do governo. Se já na América poucos compram a ideia de uma opção entre o sacrifício em resposta a uma hipotética ameaça, que corre lá longe, ou uma vida decente, por cá temos de perguntar e exigir uma justificação séria a este governo sobre esta decisão de converter Portugal em potencial barraquinha de tiro ao alvo e os sacrifícios e os riscos que esta opção representa. Para quê?! O que raio passou na mente perversa destes irresponsáveis para transformar Portugal, de repente, em feira popular? O PS criou a ilusão que tem tudo controlado e não percebeu que está em risco de se afrancesar. Não percebe, por exemplo, que entrou naquela fase em que os seus princípios resvalam para a "quimera" e para a "ambiguidade," como referia Thibaut Rioufrey a propósito do PS francês, que conduziram este partido ao eclipse quase total.

Do PR, sempre igual a si próprio, nem vale a pena falar, mas vale, isso sim, a pena falar da AR. A prudência política, o respeito pelos eleitores e o simples sentido patriótico, deveriam ter ditado uma outra postura da AR e do seu sibilino presidente, perante este conflito, mais contida, mais consentânea com o preceito constitucional, que tivesse evitado o espectáculo nojento do passado mês de Abril. O PS revelou-se, mais uma vez, nesta como noutras ocasiões, um nojo. Traiu os eleitores que depositaram confiança total nas suas propostas e lhes compraram as cadeiras do poder, onde agora se sentam. 

Tristíssimo o espectáculo deprimente deste partido, a dobrar a cerviz perante os senhoritos da guerra. Enquanto a Constituição preceitua a "solução pacífica dos conflitos internacionais, a não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e a cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade," o que faz o governo da maioria? Oferece armas e junta-se ao coro internacional das fanfarronadas. De um país com tradição revolucionária na floricultura, esperava-se que fornecessem, ao menos, rosas, senhor! 

Por outro lado, também a actuação de uma parte da oposição, que diz, servilmente, amen a tudo isto ou se cala oportunisticamente, não pode senão ser classificada de outro nojo. Uma outra, reduzida, parte da oposição, que cavou por culpas políticas próprias o seu isolamento e revela total incapacidade de ter voz de combate, está encostada, inutilmente, a uma retórica que a ninguém impressiona. Mais outro nojo. Não pela posição neste caso específico, que sempre me pareceu correcta, mas pela inabilidade política que a levou a ficar aquém dos mínimos olímpicos e a revelar a sua debilidade preocupante, quando era tão necessário que fizesse agora voz grossa e tivesse algum peso específico. 

Estamos, pois, metidos num enorme molho de bróculos. Os portugueses irão certamente gozar o verão, finalmente, depois de dois anos de confinamento. Quando voltarem, logo se vê.


PS- Já depois de concluído este artigo, ficámos a saber que o Boris the Animal foi despedido e que, por agora, o PM se livrou de uma moção de censura. Ça bouge!

2020/09/13

Cucú...

Há várias palavras que me vêm à mente quando penso no recente episódio do apoio do Primeiro Ministro António Costa à candidatura do presidente de um clube de futebol. Nenhuma delas é simpática. Fiquemos por três das mais benignas: vergonha, irresponsabilidade e traição. 
Quando António Costa se candidatou ao cargo de Secretário Geral do seu partido fui um dos que passou por todo aquele processo de inscrição no PS para poder votar nas eleições abertas que o conduziram a esse cargo. Não sou dessa área política e nunca estive militantemente envolvido nela. Tenho, aliás, as mais sérias reservas em relação ao PS. Mas o trauma causado pelo Coelho et al era imenso e numa perspectiva democrática e de esquerda, o PS parece ser um partido que tem um papel importante a desempenhar. Entendi então — eu e, pelo que sei, muita gente como eu — que a unidade de esquerda é um valor absolutamente vital e que, nesse contexto, Costa parecia a pessoa indicada para a promover. Aquele primeiro mandato correu inegavelmente bem. A fasquia também não estava muito alta, é certo, tal foi o descalabro do governo anterior. Mas mesmo com a fasquia baixa haveria sempre a possibilidade de passar por baixo, o que não foi o caso. Este segundo mandato começou mal. A pandemia veio pôr a capacidade do governo e da oposição à prova. Se é certo que a oposição foi igual a si própria, ie, um desastre, do PS esperar-se-ia muito mais. A oportunidade oferecida pela crise para criar condições de reequilíbrio e retoma foi vergonhosamente desperdiçada. Nem a pseudo indignação perante as atitudes criminosas dos dirigentes de alguns países europeus nem a bravata da "bazuca" podem esconder a falta de golpe de asa, a submissão aos grandes interesses e a condescendência para com as forças que teimam em conduzir o mundo para o cataclismo final. O governo PS tem sido um desastre que se tem, a pouco e pouco, aproximado daquele partido que nos habituámos a ver envolvido com a direita, no regabofe a que eufemisticamente se chamou de "arco da governação." A reaproximação de algumas figuras particularmente sinistras do PS, a que ultimamente temos assistido e as públicas provas de dissensão interna vêm provar que a deriva era real e não uma fantasia. Não era, afinal, fruto de uma qualquer teoria da conspiração mal enjorcada. A provocação insuportável feita agora aos partidos da coligação informal de esquerda, que foi feita a propósito do OE, não é uma tentativa de estabelecer um compromisso realista, é uma chantagem miserável, mais um episódio naquele processo de meter o socialismo na gaveta, que infelizmente parece ter dado novamente à Costa... Passámos da terceira via para a via Vieira. Uma vergonha tudo isto, portanto, em nome do chuto na bola... 

Mais do que o exercício de um direito que assistiria a Costa, como cidadão, não fosse ele Primeiro Ministro, esta inclusão na "comissão de honra" de um candidato à direcção de uma agremiação do chuto na bola cava um fosso brutal na sociedade portuguesa. A "futebolização" do processo político é um erro trágico. O futebol tem peso, é certo, mas terá efeitos em todas as direcções. Afasta os adeptos dos outros clubes e não é sequer unânime dentro do seu clube. Tudo isto seria mau em qualquer altura, porque a responsabilidade sagrada de um dirigente político é construir a unidade do povo que serve e contribuir para a preservar. Mas num momento como este, essa responsabilidade é ainda maior, porque o que ele está a pedir repetidamente aos portugueses é que não se esqueçam disso. Só juntos vamos conseguir ultrapassar a "crise," ouvimos dizê-lo até à exaustão. Perdeu agora toda a autoridade para o fazer e colocou com isso o povo que serve numa situação de risco. Ele é o chefe de um executivo que tem responsabilidades na condução de uma política que por mais bem gizada que estivesse tecnicamente (e aí também há inúmeras razões de queixa,) necessitaria sempre de uma coesão total do país para ter sucesso. Imagine-se o que é um tipo qualquer de outro clube se recusar a usar máscara ou, infectado, a obedecer a uma imposição de quarentena porque o Costa é "lampião"... O pior que nos poderia acontecer era entramos em autogestão. Mas as portas estão escancaradas para que isso aconteça. Uma irresponsabilidade, portanto, em nome do chuto na bola... 

Quando fomos fazer aquela inscrição no PS para conduzir António Costa ao cargo de Primeiro Ministro, fizemo-lo em prol da ideia de Democracia e numa perspectiva de esquerda. Democracia e esquerda! O contrato era este: preservar os princípios da Democracia numa perspectiva de esquerda, assente em ideais de esquerda, humanistas e de solidariedade social. Esta atitude do Primeiro Ministro põe em causa este combate e fere o nosso contrato. O futebol é um campo de divisão. Enfraquece, estupidamente, o combate ao criar condições para afastar dele os cidadãos, em vez de os congregar. E começa logo por afastar gente de outros clubes e, até muita gente dentro do seu clube, que não se identifica com o candidato que ele apoia. As consequências de tudo isto vão certamente ser desastrosas para o regime democrático, na perspectiva de um pensamento de esquerda. Não foi isto que nos levou a apoiá-lo. Trata-se, portanto, de um traição aquilo para que António Costa arrastou aqueles que atraiu em 2015. Em nome do chuto na bola... 

Tudo isto é tão bazaroco que a única explicação possível que encontro é esta: António Costa está cansado, farto do cargo, deve ter arranjado já um tacho qualquer numa dessas instituições internacionais, onde todos eles acabam, quer provocar eleições e pôr-se ao fresco. Poderá também estar a precipitar uma crise no próprio PS. Porque se é certo que o PS é necessário à Democracia, também é verdade que o PS é necessário... ao PS. Uma coisa é garantido: vai à vida dele. Outra coisa garantida: com o meu voto e o meu empenho, os Costas deste mundo não vão de certeza voltar ao poleiro.

2020/07/27

A morte de Bruno Candé Marques


António Silva - Lusa
foto António Silva - Lusa

Infelizmente, Marcelo, oportunista, calou-se em relação a este caso. Teve mais que tempo para se demarcar claramente. Mas não, preferiu o silêncio. 
No capítulo da necrofilia, nestes últimos dias, o PR visitou o túmulo de Amália Rodrigues, lamentou, e bem, a morte de um bombeiro, lamentou, e bem,  a morte de Luís Filipe Costa. Mas calou esta morte. E, contudo, politicamente, esta a mais significativa.
Não interessa quantos filhos o Bruno tinha ou se o alegado assassino tinha 70 ou 80 anos. É um crime sem classificação, seja qual for a sua motivação ou causas. Uma perturbação da ordem pública com consequências perigosíssimas. Depois daquela reacção dos fascistas, devia ter respondido de imediato. 
Também lamento que António Costa se tenha limitado a mandar um segunda linha "repudiar" o acto.
Não consigo encontrar justificação para estas meias tintas. Andam todos a fintar os acontecimentos e os acontecimentos, assim, vão acabar por os fintar a eles e, por arrasto, a todos nós.
Lembro-me da reacção imediata e corajosa de condenação, inequívoca, sem dó nem piedade, de Jacinda Arden, na N. Zelândia, quando aquele assassino cometeu aquela loucura com transmissão directa, via FB. 
Resultou, aliás, disso uma tomada de medidas políticas enérgicas na hora! 
Dir-me-ão: é diferente. Pergunto: é?  Repito: é?!
Não há justificação para este silêncio. Nesta nossa sociedade não podemos tolerar coisas destas, seja qual for o motivo que lhes está na origem. 
O beijoqueiro do Marcelo esqueceu-se disso... Tudo o resto é colaboração.

2015/08/18

Tiro de rajada


O PS anda a dar sucessivos tiros no pé há anos. Não tem remédio.
A arma esteve sempre em modo tiro a tiro. Mas neste momento está em modo de rajada.
António Costa está, a escassas semanas das eleições, a exercer um papel de embrulho que não posso deixar de considerar, no mínimo, perturbante.
E ao embrulho falta-lhe tudo, até um lacinho mais janota para disfarçar...
Pessoalmente, acho que António Costa não percebeu, afinal, patavina do filme que esteve a ver. Pessoalmente, estou profundamente chocado.
Temos pela nossa frente um desastre anunciado.

2014/11/12

Esperteza Saloia



Lisboa está, definitivamente, na moda.
Não passa uma semana, sem que sejamos confrontados com artigos e reportagens elogiosas sobre a capital portuguesa em tudo o que é publicação estrangeira. Isto, para não falar nos prémios que anualmente são autorgados à excelência turística de Lisboa: pela localização, pela hospitalidade, pelos bairros históricos, pelo Fado, pelo eléctrico 28, pela gastronomia, por Pessoa e pelo pastel de nata. Ainda bem.
Depois dos anos cinzentos do antigo regime, onde tudo era proibido, incluindo pisar a relva dos jardins e beijar turistas no Rossio, os lisboetas libertaram-se e fizeram da sua cidade - certamente uma das mais bonitas do planeta - um lugar bastante mais aprazível para viver.
Pesem as dificuldades inerentes a uma cidade antiga de séculos, da estrutural falta de meios financeiros e da arquitectura "pato bravo", que por aí ainda pulula, a verdade é que a Lisboa de hoje é completamente diferente da Lisboa de há 40 anos. Para melhor.
Não é pois, de admirar, que, após um longo período de relativo "esquecimento" - quando Portugal não fazia parte das rotas turísticas, nem existiam voos e hotéis "low-cost" - o nosso país comece, agora, a ser "descoberto" por uma nova geração de viajantes os quais, para além da praia, também desejam conhecer outras culturas. Óptimo.
Acresce que, numa altura em que a crise social e económica se instalou definitivamente, depois de uma intervenção externa que nos vai custar décadas de recuperação, o país passou também a ser conhecido por outras razões, nomeadamente a de ser um país pobre, logo atractivo para especuladores e visitantes, por ser barato. É natural. 
É por isso que o actual governo criou o "golden card", um visto de residência para estrangeiros que invistam meio-milhão de euros no país (na compra de uma casa, por exemplo); e, agora, o famigerado "euro", com que o presidente da CML se propõe taxar todos os turistas que desembarquem na Portela e todos aqueles que em Lisboa queiram dormir...Para quem ficar mais de uma noite, há descontos a partir dos 7 euros (!?). A argumentação usada para tal despaupério, é que essas receitas extras vão permitir a recuperação de edifícios degradados da cidade, já que o governo faz o mesmo, no OE, através da apelidade "taxa verde", com o imposto sobre os combustíveis. Brilhante.
A imaginação desta gente, não tem, realmente limites...
Conheço dezenas de cidades capitais da Europa e não sei de nenhuma onde exista tal taxa. Dizem-me que em Itália (where else?) há cidades como Veneza, Florença e Roma, onde é cobrada uma taxa suplementar aos turistas estrangeiros (!?). É possível. Logo por azar, a Itália, um país que não prima propriamente pela transparência das suas práticas institucionais, como se depreende de uma rápida consulta ao índice sobre a corrupção publicado anualmente pelo PNUD.
Agora que Lisboa está, finalmente, na rota dos principais operadores turísiticos e cruzeiros internacionais, a Câmara Muncipal de Lisboa quer criar um imposto para os viajantes de avião e para quem queira pernoitar uma, ou mais noites, na cidade. E os portugueses, que vêm de fora? Ou os portugueses que têm de utilizar a Portela, mas depois viajam para Fornos de Algodres? E porque é que os estrangeiros devem pagar um preço diferente dos cidadãos nacionais? Só porque são estrangeiros?
Esta gente não se enxerga. O edil Costa deu mais um tiro no pé e ainda não percebeu que, desta forma, não atrai mais turistas para Lisboa, mas, simplesmente, dá uma má imagem da capital no estrangeiro. A polémica já começou e não é caso para menos. Uma desgraça, estes gestores da coisa pública. Imagine-se, quando chegarem ao governo...
  

2014/10/14

A vaga de fundo do edil Costa

Imagem Diário Digital
Há coisas que nunca mudam na sociedade portuguesa. Há quem lhe chame tradição e há quem lhe chame laxismo. Também há quem lhe chame incompetência.
Depois da "época dos fogos", que se inicia normalmente em Junho e dura até Setembro, entrámos na "época das cheias", que se inicia em Outubro e dura até ao fim do Inverno.
Nada que não saibamos, acostumados como estamos a estas constantes da vida. Sempre foi assim, desde que temos memória, portanto deve ser inevitável. Há que sofrer e esperar que a "maré vaze"...
Vem este arrazoado todo a propósito das últimas inundações em Lisboa que, mais uma vez, atingiram parte significativa da capital, como de resto já tinha acontecido há três semanas atrás. Relembramos: entre as 15h30 e as 16h (meia hora!) de ontem foram registadas inundações em Benfica, São Domingos de Benfica, Olivais, Misericórdia, Parque das Nações, Estrela, Alvalade, Santa Clara, Campolide, Ajuda, Sto. António, Xabregas, Aeroporto, Calçada de Carriche, Túneis da Avenida João XXI e do Campo Grande, Rua das Pretas, Rua da Prata, Praça do Comércio, Rua Dr. Augusto Castro, Estações do Metro do Rossio, de Sete-Rios e de Chelas. Esqueci-me de alguma coisa? Será isto normal?
Como também é da tradição, logo surgiram as inevitáveis justificações: a maré cheia do Tejo que impede a água das chuvas de correr para o rio e provoca inundações na "baixa", a falta de avisos da meteorologia e as inevitáveis sarjetas, "mães" de todos os males desta cidade ribeirinha.
Acontece que, desta vez, a maré do Tejo estava baixa e a meteorologia tinha avisado (alerta laranja).
Então o que falhou? De acordo com diversos vereadores da Câmara Municipal, o que se mantém são as "inundações, problemas de obstrução das sarjetas, sumidouros e colectores; falta de investimento na rede de esgotos; plano de drenagem pronto desde 2007 por implementar; impermeabilização excessiva dos solos; incorrecto planeamento urbano, etc...". Todo um programa, portanto. 
Já nem sequer vou invocar os sábios avisos do arquitecto Ribeiro Teles que, de há décadas a esta parte, vem alertando para o perigo de construção em leito de cheias, do alastramento do betão por toda a cidade ou da falta de árvores e jardins que permitam uma melhor drenagem das terras.      
Também não quero culpar António Costa, que chegou há sete anos à Câmara, quando este fenómeno das inundações fazia, há muito, parte da paisagem. Mas, alguma coisa deve estar mal e alguma coisa deve ser possível fazer. Desde logo, prevenção, que é a melhor forma de evitar o desastre anunciado. Vivi 30 anos em Amsterdão, uma cidade de canais, 3 metros abaixo do nível do mar do Norte e nunca lá vivi nenhuma cheia. Portanto, é possível. Como foi possível solucionar os problemas da estação de metro do Terreiro de Paço que, devido às infiltrações de águas do Tejo, esteve fechada dez anos. Finalmente, chamaram engenheiros hidráulicos holandeses e eles resolveram o problema.
Custa dinheiro? Pois custa, mas custa muito mais pagar aos sucessivos empreiteiros portugueses que arrecadam milhões de lucros, em "derrapagens orçamentais" destas obras públicas que todos temos de pagar.
Não sei se o actual presidente da Câmara de Lisboa chegará alguma vez a primeiro-ministro, mas, a avaliar pelas inundações que, continuamente, atingem Lisboa, é cada vez mais provável que seja ele o primeiro a ser atingido pela vaga de fundo que estava a criar...  

2014/09/29

A derrota dos néscios

Seguro conseguiu dar um tiro no pé e, ao mesmo tempo, o tiro... fez ricochete e saiu pela culatra. Não era tarefa fácil, mas, Tó Zé, por uma vez acertaste na mouche!
Outra forma de ver o que se passou seria afirmar que as eleições de ontem permitiram-nos assistir a este fenómeno, verdadeiramente prodigioso, totalmente improvável e seguramente invulgar: ao contrário do que seria normal, é o Seguro que é desta feita obrigado a pagar uma enorme franquia por um acidente em que, ainda por cima, ele é dado como culpado.
Dito ainda de outro modo: Seguro contava com um Portugal que, como ele, não pensa, terá feito fé nos que pensam que pensam por ele e enganou-se.
Ou, finalmente, para citar Augusto Santos Silva, naquele seu jeito Terminator III, "O povo não é tão néscio como os néscios o pintam..."

2009/07/29

Um Falso Debate

Se alguma surpresa houve no "debate", entre os principais candidatos à presidência da Câmara de Lisboa, essa foi a (relativa) vitória de Pedro Santana Lopes. Mesmo eu que, não votando em Lisboa, pensava que Costa ia meter o "menino guerreiro" no bolso, fiquei espantado com a vitalidade deste último. O homem é de borracha. Um verdadeiro "sempre em pé". O pior é que é capaz de ganhar e a culpa nem é dele. Como é possível apostar num candidato que apoia o negócio leonino dos contentores no porto de Lisboa, a terceira travessia no Tejo (que vai trazer mais 40.000 carros diários para a cidade), defende a saída do aeroporto da Portela e diz que diminuiu a dívida, quando esta apenas passou dos credores para a Banca? Pior, na maior parte dos temas, Santana mostrou muito mais conhecimento dos "dossiers" e da cidade que o seu opositor.
Como bem notou um dos comentadores, após o debate, a discussão não teve a ver com dívidas e túneis, mas com o futuro de ambos os políticos: para Santana, uma derrota pode significar mais uma travessia do deserto. Para Costa, as contas são outras. Ele sabe que pode substituir Sócrates, caso este perca as eleições legislativas que se realizam duas semanas antes.
Uma entrevistadora mais acutilante, teria feito a ambos uma pergunta muito simples: os senhores que "gostam" tanto de Lisboa, se perderem as eleições o que fazem? Ficam como vereadores ou vão-se embora?
Essa era a pergunta que eu, se votasse em Lisboa, gostaria de ver respondida.

2009/07/14

Transparência

António Costa anunciou ontem, formalmente, a sua recandidatura à Câmara de Lisboa. Muito bem, está no seu direito. Como António Costa é, simultaneamente, comentador político no programa televisivo "A Quadratura do Círculo", aguarda-se uma explicação sobre esta duplicidade de funções, pois não é expectável que faça propaganda eleitoral num programa onde é suposto comentar a actualidade nacional. A bem da transparência.