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2026/01/28

Debates Presidenciais (2)

Foi um debate fraco e demasiado longo para a importância que lhe quiseram dar.

A Seguro bastou fazer-se de "morto" e controlar as emoções (ele é bom nisso), enquanto Ventura esteve ao nível de arruaceiro a que nos habituou. 

Ainda bem que os debates terminaram. Já não há paciência para tanto disparate.  

Mais uma vez, pouco ou nada se falou de política internacional, como se Portugal fosse uma ilha isolada neste Mundo em convulsões. Ninguém sabe o que os candidatos pensam ou farão, em crises tão graves como a guerra na Ucrânia, a situação na Palestina, a política hegemónica dos Estados Unidos sob Trump, a posição de Portugal na UE e na NATO ou os acordos do Mercasul, para citar algumas questões pertinentes. 

Neste capítulo, a responsabilidade foi também dos jornalistas, mal preparados e atemorizados perante o chorrilho de asneiras e as interrupções do candidato de extrema-direita. 

Seguro vai ganhar (quem duvida?), mas não deixará de ser um candidato mole e sem chama. Dali não virão criticas a Montenegro. Já o primeiro-ministro terá de preocupar-se com Ventura, a maior ameaça à sua direita, agora que disputam o mesmo campo ideológico.

O candidato fascista perderá, mas o fascismo não desaparecerá ("O eterno retorno do fascismo", Rob Riemen, ed. Bizâncio, 2012).  Estamos avisados.  

2024/01/26

2024, o ano do pato

A menos de dois meses de eleições legislativas, marcadas para 10 de Março, na sequência da demissão de António Costa e posterior dissolução do parlamento decretada por Marcelo Rebelo de Sousa, as máquinas partidárias desdobram-se na elaboração das listas de deputados e na afinação dos programas que irão apresentar no decorrer das próximas semanas. 

Um ritual conhecido, que não parece entusiasmar grandemente o "homem da rua", mais preocupado com as contas a pagar ao fim do mês, com o estado dos serviços de saúde, com a falta de professores ou com a escassez de habitação a preços razoáveis. Um ciclo infernal, que parece ter-se agravado nos últimos anos, apesar de resultados assinaláveis conseguidos na redução da dívida pública, na contenção do défice, no aumento do turismo, ou na redução do desemprego. Um país a duas velocidades, onde os sucessos macro-económicos não conseguem disfarçar as desigualdades gritantes da sociedade portuguesa.

Sim, é verdade que o PS, após 8 anos de governação, conseguiu a proeza de diminuir a dívida de 132% para cerca de 100% do PIB (a maior baixa da zona euro), reduzir o défice a menos de 1% e manter um crescimento económico acima da média europeia. Também é verdade, que beneficiou de um crescimento exponencial do turismo, que voltou aos valores de 2019 (antes da pandemia) e conseguiu reduzir a taxa de desemprego para menos de 6%, uma das mais baixas da última década. Esta é a parte do "copo meio-cheio". 

A parte do "copo meio-vazio", está relacionada com o "estado social", que os sucessivos governos deixaram degradar, ao ponto dos mais diversos sectores (saúde, habitação, educação e transportes), serem hoje um foco de contestação permanente, dos utentes ao pessoal que os servem. Tudo parece funcionar mal: o atendimento personalizado, a crónica falta de pessoal nos diversos sectores, os tempos de espera nas consultas e nas repartições do estado, a escassez de bens de primeira necessidade (a habitação é dos mais gritantes exemplos), a manutenção da ferrovia ou os preços exigidos por serviços, completamente desajustados do poder de compra do cidadão médio. Um rol de insuficiências e completo desprezo pelos contribuintes, que pagam impostos europeus, mas auferem ordenados romenos. Não é pois de estranhar que as mais diversas corporações, dos médicos aos professores, dos oficiais da justiça aos polícias, protestem um pouco por todo o país. Como se esta situação não fosse já de si grave, parte dos jovens a que pomposamente chamam "a geração mais preparada de sempre", continua a abandonar o país (a uma média de 70.000/ano) como não se via desde os anos sessenta do século passado. 

Para contrabalançar esta hemorragia de mão-de-obra qualificada, Portugal importa mão-de-obra barata estrangeira, que maioritariamente trabalha na hotelaria, restauração e agricultura, serviços que os portugueses (porque mais qualificados) se recusam a fazer. Sem eles, a economia portuguesa não poderia simplesmente funcionar. É graças a estes imigrantes, vindos de países tão diversos como o Brasil, Cabo-Verde, Ucrânia, Bangladesh, Paquistão ou Nepal, que a demografia (num país envelhecido como o nosso) é compensada por novos cidadãos, que ainda contribuem para o equilíbrio da Segurança Social (€1600 milhões em 2023). No entanto, nesta como noutras áreas, os governos portugueses seguem uma política laxista: convidam os estrangeiros a imigrarem para Portugal e procurar trabalho, sem lhes garantir qualquer tipo de garantias ou protecção. Muitos deles caem nas mãos de intermediários mafiosos, que aproveitando-se da sua vulnerabilidade (desconhecimento da língua e das leis) sujeitam-nos a condições infra-humanas e de verdadeira escravatura. 

É neste caldo cultural (crise social e económica que atinge cerca de metade da população activa) que surgem movimentos populistas como o Chega, um partido racista e xenófobo que, a exemplo de outros partidos congéneres europeus, fez das minorias imigradas (porque mais vulneráveis) o "bode expiatório" de todos os males da sociedade portuguesa. Começou por ser uma dissidência do PSD (partido de direita democrata), tornou-se um partido de protesto contra o "sistema" (ao qual sempre pertenceu), elegeu os ciganos como seu "ódio de estimação" e, porque ganhou visibilidade (mercê dos votos que entretanto granjeou), alargou a discriminação às minorias asiáticas muçulmanas. Um mentiroso compulsivo, o Ventura, sem qualquer ideia ou estratégia para o país, que se limita a seguir o guião dos populistas da extrema-direita internacional (Trump, Bolsonaro, Milei, Le Pen, Meloni, Wilders) a quem ninguém compraria um carro em segunda-mão. 

Até ver, o líder do Chega (um partido acéfalo que elege o "chefe" com maiorias albanesas) está a crescer. As últimas sondagens dão ao partido uma percentagem acima dos 16%. Poderá crescer mais, mas dificilmente será governo, dado que a direita mais tradicional (AD+IL) já declarou não querer governar com a extrema-direita (!?). Há, no entanto, razões para duvidar da política de alianças, caso as próximas eleições confirmem uma maioria de direita na Assembleia de República. Nesse caso, dificilmente Montenegro resistirá a governar, pois a alternativa é deixar de ser secretário-geral do partido. 

Um dilema para a AD, que só pode crescer à sua direita, agora ocupada pelo Chega. Como conciliar valores democráticos com ideias anti-democráticas? É verdade que o Chega, ainda não é "completamente" fascista. Mas, os sinais estão lá: um partido autocrático, onde o chefe é omnipotente nas suas decisões; a defesa da trilogia Deus, Pátria e Autoridade, usada até à exaustão por Ventura nos seus discursos; a simbologia utilizada (saudação romana dos nazis); as declarações xenófobas contra os estrangeiros (pobres) em Portugal; a defesa da Ordem, presente nos apoios às forças policiais através do sindicato Zero, que nunca escondeu a sua ideologia; o cerco à sede do PS no Rato, em clara violação da lei, etc. 

Não, o partido de Ventura, ainda não será "completamente fascista", mas, como nos ensinou Umberto Eco ("Como reconhecer o fascismo", Ed. Relógio de Água, 2017) em que identificava 14 características do "Ur Fascismo" ou "fascismo eterno", não é necessário ter todas as suas características. Se tiver algumas delas, é caso para desconfiar. No fundo, é como a história do pato: voa como um pato, grasna como um pato, tem penas de pato, se calhar é mesmo um pato... 

2021/01/07

A "Golpada"



Uma tentativa canhestra de Golpe de Estado, alimentada por um narcisista patológico e apoiada por milhões de atrasados mentais que, na impossibilidade de ganhar nas urnas, tentam subverter a democracia, através da violência, a única linguagem que entendem. 

Ora, como sabemos dos livros de História, uma das características do Fascismo (hoje, neo) sempre foi a violência. Qual o espanto? 

Que tenha sucedido na primeira democracia moderna, só prova que nenhum regime democrático está imune a "golpadas" destas. Seja nos Estados Unidos da América, no Brasil, em Portugal, em Espanha, na Itália, na Hungria, na Polónia ou, até mais a Norte, em sociedades mais civilizadas...

Estamos avisados.

 

2020/05/18

Nove semanas noutra cidade: Vírus, Populismos e Alternativas


À entrada da décima semana de "confinamiento", imposto a 14 de Março, a Espanha iniciou uma descalada progressiva das suas medidas mais radicais. Uma longa marcha de isolamento e frustrações, salpicada de episódios dramáticos e caricatos, dada a imprevisibilidade e desconhecimento dos contágios existentes. Desde a subvalorização inicial, até ao pânico generalizado, devido à sobrecarga dos serviços hospitalares e à falta de material sanitário, houve de tudo um pouco. Os números de infeccionados e falecidos dispararam nas primeiras semanas, tendo atingido cifras alarmantes, só ultrapassadas pelas de Itália, o primeiro país europeu a sofrer os efeitos da pandemia do Coronavírus.
Pouco a pouco, as coisas foram-se estabilizando e, no início de Maio, começaram a surgir os primeiros sinais da famosa curva de "achatamento".  
A Espanha, que há poucas semanas ainda era o país com mais infectados a nível mundial, caiu, entretanto, para a 3ª posição do "ranking", com 277.678 casos, tendo sido ultrapassada pelos EUA e pela Rússia, com 532.861 e 290.678 casos, respectivamente.
Atrás dos nossos vizinhos, registe-se o 4º lugar do Reino Unido (246.406 infectados) e o 5º lugar do Brasil (244.135 infectados). Portugal, agora, em 26º lugar no "ranking" mundial, regista um total de 26.209 infectados e 1.231 falecidos (120 por milhão de habitantes), de acordo com o "worldometer" de hoje.
Se extrapolarmos estes números para a totalidade de infectados a nível mundial (4.845.102), verificamos que os EUA são "responsáveis" por 1/9 do total das infecções e que o Brasil para lá caminha, com 1/18 dos casos registados. Pese embora a dimensão e número de habitantes de ambos os países, os maiores do continente americano, a verdade é que os problemas relacionados com a rápida expansão da epidemia, não se devem apenas às suas características físicas e demográficas. Os problemas actuais dos EUA e do Brasil devem-se, em primeiro lugar, aos seus governantes, Trump e Bolsonaro, exemplos maiores da desgovernação populista que rege parte do continente americano.
Eles representam a cara e a coroa da "moeda" populista actual, ainda que possamos reconhecer características similares em ambos: impreparação total para o cargo, ignorância absoluta dos mais elementares princípios de governação, visão retrógrada e negacionista da ciência, ideologia nacionalista e proteccionista, reaccionarismo primário em questões civilizacionais como o racismo, a xenofobia, a misoginia, a igualdade de género, defensores do liberalismo mais selvagem, etc.
Há, no entanto, diferenças consideráveis entre ambos. Em recente entrevista, Glenn Greenwald (prémio Pulitzer e fundador da agência noticiosa Brasil-Intercept, que dirige a partir do Rio de Janeiro) declarou não gostar da comparação entre Trump e Bolsonaro. O segundo, estará mais próximo do ditador Duterte (Filipinas) e do general Si-Si (Egipto), do que de Trump. Pela ideologia e pelo modelo de sociedade que defende.
Trump não tinha uma ideologia. Era um empresário de sucesso, que queria fazer negócios proveitosos para si e para os EUA. Ao contrário, Bolsonaro, um medíocre militar de carreira, que passou décadas no congresso brasileiro sem nunca ter apresentado um projecto-lei, tinha 30 anos de ideologia fascista. Trump sempre teve uma política anti-estrangeiros e criticou a Europa por deixar entrar refugiados. Trump nunca fala sobre comunismo, mas apoia líderes europeus como Le Pen, que é contra os refugiados e contra os muçulmanos, Bolsonaro, sempre fala contra os comunistas (ideologia da guerra fria) elogiando a ditadura militar e os seus torcionários de 1964-1985.
Já no combate à pandemia, mostraram-se ambos irresponsáveis e incompetentes na gestão da crise sanitária, começando por ignorar o vírus, depois desvalorizando o perigo de infecção para, finalmente, terem um comportamento errático, que está na origem das centenas de milhares de mortos em poucas semanas. Um filme de terror, longe de terminar e que, para além das nefastas consequências para a saúde pública, causou a maior quebra do PIB e as maiores taxas de  desemprego, em ambos os países. A crise sanitária e social acabou por "infectar" a política e as demissões não se fizeram esperar: diversos conselheiros e secretários de estado, na Casa Branca; e a demissão de dois ministros da saúde e um da justiça, no Planalto. A cotização bolsista caiu a pique e os índices de popularidade de Trump e Bolsonaro estão, agora, pelas ruas da amargura. Para o primeiro, tudo se joga nas eleições, agendadas para Novembro. Para o segundo, que ainda mantém cerca de 30% de apoiantes, só resta organizá-los para manter o poder (as "camisas negras" do regime) ou ser deposto pelos militares que o apoiam. Nenhuma dos dois é alternativa para os seus países. 
Ao contrário, uma alternativa progressista, foi esta semana anunciada pelo DIEM25 e The Sanders Institute (fundado em 2017, por Jane Sanders, esposa do senador Democrata norte-americano Bernie Sanders) que apelaram a uma frente comum contra o autoritarismo. A Internacional Progressista pretende actuar em três planos: fomentar a mobilização social, despoletar a reflexão intelectual e promover a difusão de novas ideias progressistas, através de uma rede de meios de comunicação. Entre os "media" que aderiram a este projecto, figuram a norte-americana "The Nation", a italiana "Internazionale",  a francesa "Mediapart", a polaca "Krytyka Polityczna" e outras como "Africa is a country", "Brasil Wire", Lausane Collective" e "The Wire Índia". Entre os seus porta-vozes mais conhecidos, figuram Noam Chomsky, Naomi Klein, Yanis Varoufakis, Katrin Jakobsdóttir, Elizabeth Gomez Alcorta, Rafael Correa, Fernando Haddad, Celso Amorim, Álvaro Garcia Linera, Gael Garcia Bernal, Arundhati Roy, Srecko Horvat e Carola Rackete.
Uma palavra final, para três figuras públicas desaparecidas esta semana que, na política, na antropologia e no cinema, marcaram a minha existência: Julio Anguita, José Cutileiro e Michel Piccoli.
De Julio Anguita, guardo a imagem de um dirigente político progressista, culto e humanista, dirigente máximo do PC espanhol e fundador do partido IU (Esquerda Unida), que dirigiu até deixar a política activa, em 2000. Após a transição para a democracia, Anguita foi o primeiro alcaide comunista eleito em Espanha, por Córdoba, sua cidade natal, que governou entre 1979 e 1986. O seu mandato, valeu-lhe o cognome de "Califa Vermelho". Das suas múltiplas intervenções, ficará para sempre o memorável discurso "Anti-Sistema", pronunciado durante uma homenagem a José Saramago, na Extremadura (1999) que, por estes dias, se tornou viral nas redes sociais. Um personagem incontornável.
De José Cutileiro (ex-embaixador da UE), recordo o meu primeiro ano de Antropologia (1972), quando o professor e especialista do Mediterrâneo, Jeremy Boissevain, me sugeriu o livro "A Portuguese Rural Society", de um autor português, que eu não conhecia. Foi o primeiro livro de antropologia portuguesa que li e permanece, até hoje, como uma das melhores monografias da disciplina. Está publicado em português, sob o título "Ricos e Pobres no Alentejo". Perdeu-se um excelente antropólogo, ganhou-se um elogiado diplomata.
Finalmente, Michel Piccoli - monstro sagrado do cinema francês - e intérprete maior de filmes inolvidáveis como "Le Mépris", "La Belle de Jour", "La Grande Bouffe", "Belle Toujours", "Il Papa", entre tantos. Soubemos, hoje, da sua morte. Mais um ícone da século XX que se vai.
É assim a vida, que continua, apesar de tudo.

2019/07/31

Criadores e Criaturas

Maus de Art Spiegelman
Que o Mundo pode ser um lugar perigoso, já sabíamos há muito tempo.
Provavelmente, desde que o homem é "sapiens" e iniciou a luta pelo seu território.
Com altos e baixos, a História foi-se fazendo, sempre de maneira diferente, mas nem por isso menos surpreendente, uma vez que a História (em princípio) não se repete. Ou melhor, como dizia o filósofo, repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa.
Tudo isto, a propósito da recente "onda" de ditadorzecos, uns exercendo o poder de facto e outros aspirando a tal, que têm surgido um pouco por todo o lado. O processo vem de trás, mas o "Brexit", a eleição de Trump e a ascensão dos populismos na Europa, são sinais inequívocos desta tendência regressiva. Juntem-se, a estes exemplos, a China de Xi Jinping, onde o poder é exercido com mão de ferro; a autocracia mal disfarçada de Putin; a democracia musculada de Erdogan; a demência de Duterte; ou o regime proto-fascista de Bolsonaro, para termos uma ideia do que pensam e fazem tais persongens.
Ainda que tenham características comuns, a verdade é que o poder de uns (Trump, Xi, Putin...) é incomensuravelmente maior do que outros, os quais representam um perigo regional, que não deve ser subestimado. Estão neste caso, Erdogan, Duterte, Maduro ou Bolsonaro.  
Como chegámos aqui?, é uma pergunta recorrente, feita pelos mais diversos analistas. As causas são várias, pois nem todos os países foram confrontados com o mesmo tipo de problemas que poderão estar na origem de tal fenómeno: dos efeitos da recente crise económico-financeira, ao terrorismo internacional, passando pela crise dos refugiados e emigrantes (ligada à islamofobia e ao racismo crescente), são múltiplas as explicações para o recrudescimento do autoritarismo, da xenofobia e da "supremacia branca", que existe em todos os regimes populistas mencionados.
Em artigo recente, Nuno Severiano Teixeira ensaia uma explicação para o ataque a que as democracias estão, actualmente, sujeitas: "Mas, sejam quais forem as razões, uma coisa é certa: a liberdade e a democracia estão sob assalto e globalmente em retrocesso. Mais: se olharmos para esse retrocesso, uma coisa parece evidente: a queda das democracias já não é o que era. Dantes, caíam de um só golpe, súbita e estrondosamente, à força de armas. Era o tempo dos golpes de Estado. Hoje, caem lenta e silenciosamente. Na verdade, não caem, vão caindo, à medida que os incumbentes usam os mecanismos democráticos para subverter a própria democracia - isto é, as democracias já não caem pelo método violento do derrube, mas sim pelo método incremental da erosão" (in "Público", d.d. 31.7.19).
Se dúvidas houvesse, bastava olhar para o que se passa nos Estados Unidos - portanto, uma democracia consolidada - onde o populista Trump faz diariamente discursos racistas e apelos à expulsão de congressistas de origem estrangeira (ele, cuja família é de origem escocesa!) entre ataques descabelados ao reverendo Al Shappton, por este ousar criticá-lo; ou, mais a Sul, o que se passa no Brasil - uma democracia desde 1985 - onde o mentecapo Bolsonaro protege garimpeiros que querem destruir o Amazonas e as comunidades índigenas, enquanto continua a negar a existência da ditadura militar, que governou o país durante 21 anos!
Porque as democracias não são todas iguais, diria que Trump (sendo mais perigoso) é mais controlável, devido ao sistema de "checks and balances" existente na democracia americana; Já Bolsonaro (um ex-militar ignaro e fascistóide) é suportado por uma bancada de evangélicos, ruralistas e militares, que detém a maioria num congresso, onde as leis são aprovadas através da compra de votos.  
Uma coisa é certa: todos estes personagens - criadores e criaturas - sairão de cena, mais cedo ou mais tarde. Quanto mais não seja, pela inevitabilidade da morte. Também, porque, aos períodos de autoritarismo, sempre sucedem períodos de democracia. Ninguém, em consciência (a menos que seja masoquista) deseja viver em ditadura. O apelo da liberdade, será sempre mais forte.  

2019/03/28

O eterno retorno do fascismo (6)


Os recentes actos eleitorais, em países como Espanha e Holanda, respectivamente para o parlamento andaluz e para a 1ª câmara dos Países-Baixos, confirmaram uma tendência europeia dos últimos anos: o crescimento de partidos populistas de direita, fora do "mainstream" partidário, que defendem ideias nacionalistas, proteccionistas, xenófobas, racistas e anti-feministas. Têm, ainda em comum, serem formações oriundas da direita tradicional (conservadora, cristã e liberal), que acusam de fazerem parte do "sistema" ao qual, afirmam, não pertencer (!?).
É o caso do VOX (Espanha), fundado em 2013 por dissidentes do PP, que acusam de estar minado pela corrupção e de ser pouco firme na questão catalã, considerada uma ameaça para a unidade nacional. Após um período de hibernação e de pouca expressão nacional (elegeu 1 deputado provincial), o VOX cresceria 20% em 2017, devido ao atentado terrorista em Barcelona e ao processo independentista catalão. Embalado por este êxito e aproveitando a realização de eleições intercalares na Andaluzia, o novo partido surgiria na praça pública com um programa "renovado", que expressa bem a ideologia que defende: condena o aborto, condena o matrimónio de pessoas do mesmo sexo, é contra a exumação dos restos mortais de Franco, é contra a Lei de Memória Histórica (que denuncia os crimes do franquismo), é contra o islão, a favor de imigração por quotas, contra o multiculturalismo, defende a centralização do estado e o nacionalismo espanhol. Com este programa, apresentou-se às eleições regionais de Dezembro último, tendo conquistado 10% dos votos e eleito 12 deputados para o parlamento andaluz. Esta votação, permite-lhe apoiar a coligação de direita (PP-Ciudadanos) que, desta forma, passou a ter maioria no parlamento regional.
Já na Holanda, o Forum voor Democratie (FvD), surgido em 2016 a partir de um "think tank" de inspiração neoliberal, conquistou 13 dos lugares em disputa para a 1ª câmara holandesa, tornando-se o partido mais votado nas recentes eleições de 20 de Março. Entre 2017, quando elegeu dois deputados para o parlamento nacional, e 2019, conheceu diversas purgas, devido à saída de alguns membros prominentes, que acusaram o partido de ser pouco democrático. Hoje, o FvD, está fortemente centralizado à volta da figura carismática do seu líder e ideólogo, T. Baudet, um filósofo de formação, cujo programa, defende menos dinheiro para as questões climatéricas, menos imigração, menos Islão, corte nos impostos, sobre as doações e as rendas, alterações radicais no ensino obrigatório, expansão das forças armadas, privatização da emissora nacional pública e reforma do sistema eleitoral. O FvD, é ainda pró-Nexit (saída da União Europeia), defende uma cultura de referendo, quer mais controlo fronteiriço e proibição do véu islâmico. Um programa populista de direita, que conquistou votos de uma grande franja eleitoral, nomeadamente da população mais idosa e dos descontentes com a política de imigração holandesa, esta semana posta em causa com um atentado terrorista cometido na ante-véspera das eleições. Contrariamente ao solicitado pelo governo (suspensão da campanha eleitoral, num país em luto), o FvD viu aqui uma oportunidade para granjear mais votos, tendo sido o único partido a fazer campanha no dia seguinte ao atentado. Entre oportuno e oportunista, que venha o diabo e escolha...
Após diversas vitórias, ainda que parciais, em países democráticos como o Reino Unido, a França, a Suécia e na Austria, na Polónia e na Hungria (onde são governo), os partidos populistas de extrema-direita, crescem na Europa onde, apenas Portugal e Irlanda, são agora as excepções.
Da Russia de Putin, à Turquia de Erdogan, das Filipinas de Duterte à Venezuela de Maduro, passando pela América de Trump e pelo Brasil de Bolsonaro, a democracia está em retrocesso e não se trata de uma opinião. Estas são, de resto, as conclusões do último relatório Freedom in the World, publicado no passado mês, pela Freedom House, uma organização independente, sem fins lucrativos, que publica anualmente um relatório sobre o estado da democracia no Mundo.
Em 2018, 68 países desceram nos índices de liberdade, enquanto apenas 50 subiram. Desceram a Hungria (suspensa pelo Parlamento Europeu por não respeitar os direitos humanos), a Sérvia, a Polónia, a Nicarágua e o Uganda. Subiram, a Etiópia, a Malásia e Angola, entre outros.
Não é o fim do Mundo, mas é bom saber reconhecer os sinais. O fascismo, ainda que sob outras designações, está em marcha e ignorá-lo pode ser fatal.      
          




2018/05/16

O hooliganismo, filho do populismo


O que se passou ontem, em Alcochete, não tem classificação possível.
Foi, desde logo, um acto bárbaro e terrorista, praticado por um grupo de delinquentes que, em grupo e disfarçados, agrediram atletas de um clube em plena academia de treino.
Trata-se, sem dúvida, de um acto criminoso, perpetrado nas "barbas" da comunicação social, que estava presente e "condescendeu" em abandonar as instalações, sob a ameaça dos "hooligans". Desde logo, matéria para averiguação policial que, entretanto, já prendeu e levou a tribunal mais de uma vintena de implicados que se encontram em prisão preventiva. Resta, agora, aguardar pelas suas declarações e procurar perceber o que esteve por detrás desta acção colectiva, pois o acto em si indicia ter havido uma preparação prévia, o que aponta para uma "organização do terror".
Depois, e esta não é uma matéria de somenos, onde há grupos organizados há líderes, pelo que caberá à polícia esclarecer este ponto, pois podemos estar em presença de algo mais sofisticado do que uma simples claque de futebol. Não seria a primeira vez que uma claque tivesse sido infiltrada por elementos de extrema-direita (vulgo neo-nazis) um fenómeno frequente no Norte europeu e que, em Portugal, não tem tido a dimensão de outros países.
Aqui chegados, e esta é uma tarefa dos associados do clube em causa, devemos questionar-nos sobre o comportamento leviano (a roçar a psicopatia) de um presidente, que se tornou um verdadeiro incendiário das próprias hostes, qual Nero a quem só parece interessar ver "Roma a arder".
A personalidade tem antecedentes e há tratados sobre o perfil psicológico destes demagogos e populistas, que não hesitam em criar o caos para, na confusão gerada, melhor poderem exercer o seu autoritarismo. Pelos vistos, a loucura compensa e os referendos organizados só fortaleceram a legitimação do cargo. Se os sócios apoiam, é porque deve estar certo, é o raciocínio.
Finalmente: independentemente da investigação e (espera-se) pena exemplar aplicada aos prevaricadores e consequente "limpeza" dos orgãos sociais do clube, vítima destes personagens, é de esperar que as autoridades (o estado português) aproveite a ocasião para "limpar" o sujo mundo do futebol e, de uma vez para sempre, termine com esta vergonha, ainda que a tarefa não pareça fácil. Na Inglaterra e na Holanda, que foram confrontados com este fenómeno, foi possível, logo deve ser possível, também, em Portugal. Assim haja vontade e coragem política.   
  
       

2017/03/12

Eleições holandesas: teste ao populismo



No ano de todas as eleições, a Europa terá o seu primeiro grande teste de 2017 na Holanda, onde, no dia 15 de Março, haverá eleições legislativas.  
Depois dos resultados, algo surpreendentes, do "Brexit" e da vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas, as atenções viram-se agora para a Europa que conhecerá, este ano, três actos eleitorais considerados determinantes para o futuro europeu: na Holanda, em França e na Alemanha, todos países fundadores da União.   
No fundo, trata-se de saber se os resultados do Reino Unido e dos EUA, ainda que por razões diferentes, confirmam (ou não) uma tendência internacional que muitos apelidam de populismo, neste caso de direita.
Pesem as especificidades de cada país e os temas dominantes das respectivas campanhas eleitorais, existem traços comuns possíveis de identificar: desde logo, o apelo ao proteccionismo económico em resposta à liberalização dos mercados (que conduziu ao aumento das desigualdades, fruto de desinvestimento nas sociedades ocidentais e da deslocação do capital para países de mão-de-obra barata) com o consequente aumento do desemprego interno (é o caso dos EUA); depois, o apelo ao nacionalismo, como resposta ao crescente centralismo e burocracia do "diktat" de Bruxelas, em cujos métodos grande parte dos países membros não se revêem (são os casos do UK, França e da Holanda); finalmente, o medo do terrorismo islâmico, potenciado pelas recentes vagas de refugiados de países muçulmanos em guerra (como é o caso na UK, França, Holanda e Alemanha).
Não é, pois, de admirar, que em todos estes países, tenham surgido políticos de verbo fácil e discurso demagógico que "cavalgam a onda" da insatisfação (e ignorância) de uma parte significativa das populações, desiludidas por anos de promessas e há muito desconfiadas das "elites" que os governam, a quem acusam de as terem descartado.
Em tempos de incerteza social e competividade no mercado de trabalho (ao qual, muitos destes deserdados da riqueza nacional já não voltam, por serem preteridos por estrangeiros e pela globalização actual) fácil é arranjar "bodes expiatórios", agora que os refugiados chegados à Europa recebem auxílio e são mais um factor da pressão social existente. Juntem-se os atentados dos últimos anos em França, na Bélgica e na Alemanha, todos eles perpretados por residentes nesses países (ainda que com nacionalidade europeia) e temos assim reunidos os elementos para uma "tempestade perfeita". Líderes como Farage no Reino Unido, Le Pen em França ou Wilders na Holanda, são apenas três exemplos desta corrente nacionalista e proteccionista, anti-União e islamofóbica, que ganhou espaço na arena política. Todos eles usam os estrangeiros como moeda de troca, acusando os seus governos de os acolher e proteger, em detrimento dos nacionais, assim como todos eles agitam o espantalho do terrorismo islâmico, como prova última dos perigos inerentes à entrada de mais muçulmanos no espaço europeu.
O discurso xenófobo não se limita, de resto, aos países citados, mas a outros países membros da União Europeia, como a Hungria e a Polónia, onde governos de direita já alteraram as constituições e construiram muros para evitar a entrada de refugiados, numa clara subversão dos valores democráticos e humanistas que deviam prevalecer na Europa. Resta acrescentar, que o actual fenómeno nacionalista e populista na Europa, também foi sendo alimentado por politicas erráticas e pressupostos falsos, dos quais não podem ser excluídos os partidos e governos sociais-democratas que, nas últimas duas décadas, vêem pactuando com as políticas de compromisso que contribuiram para a despolitização e exclusão crescente de grande parte das populações nestes países.
A três dias das eleições holandesas, as possibilidades do partido PVV (extrema-direita, islamofóbica) ser o partido mais votado, são praticamente as mesmas do VVD (liberais de direita, actualmente no governo) que, até este fim-de-semana, tinha uma ligeira vantagem nas intenções de voto. Os grandes penalizados, serão os partidos da esquerda, o PvDA (Partido Trabalhista) e o SP (Socialistas), assim como o D'66 (centristas). O CDA (Democrata-Cristão), ainda que bem posicionado, deve ficar fora do pódio vencedor. Resta acrescentar, que o PvDA e o CDA, partidos que historicamente têm feito parte da governação, foram os "construtores" do Estado Social na Holanda, hoje parcialmente desmantelado pela austeridade e pelos cortes orçamentais dos últimos anos, o que pode explicar muito da insatisfação na sociedade holandesa. Neste contexto, o partido GROENLINKS (Esquerda Verde) uma coligação formada nos anos '90 pelo Partido Comunista, pelo Partido Pacifista e pelo Partido Reformador, a subir exponencialmente nas sondagens, pode tornar-se um dos partidos mais votados nestas eleições, com grande probabilidade de entrar no próximo governo. Uma coisa, parece certa: independentemente de ser (ou não) o mais votado, o partido de Wilders - que este fim-de-semana pode ter ganho novo alento devido aos incidentes entre a comunidade turca e a polícia holandesa de Roterdão - não deverá entrar para o governo. Os restantes partidos já declararam não querer governar com este partido xenófobo e islamofóbico. Dada a composição do actual parlamento (150 lugares) que pode vir a eleger 14 bancadas partidárias, é de esperar um longo período de formação governamental, cujo gabinete poderá ser composto por 4 ou mais partidos.
Na próxima quarta-feira, saberemos mais.

2013/03/28

Memórias do Subdesenvolvimento

Alguém imagina um país europeu, onde todos os canais de televisão têm, em permanência, políticos (comentadores) nos seus programas a comentar a actualidade política na qual eles próprios são parte interessada? Eu não conheço nenhum. A excepção é Portugal.
Reparem só: Marques Mendes (ex-ministro), Bagão Félix (ex-ministro), Jorge Coelho (ex-ministro), Francisco Louçã (ex-deputado), todos na SIC; Marcelo Rebelo de Sousa (ex-deputado),  Pedro Santana Lopes (ex-primeiro-ministro), Francisco Assis (ex-deputado), Fernando Rosas (ex-deputado), todos na TVI; Morais Sarmento (ex-ministro), José Sócrates (ex-primeiro-ministro), todos na RTP. Esqueci-me de algum? 
E os comentadores, propriamente ditos? Bem, esses também lá estão e são, claro, em maior número.  Mas, nesse caso, que estão eles lá a fazer, se os políticos controlam o espaço público e privado das estações que os contrataram como profissionais de opinião?  A única explicação é o clientelismo endémico de que padecem as sociedades subdesenvolvidas, onde as relações de patrocinato são um traço característico do atraso cultural em que estas sociedades ainda se encontram. 
As coisas são o que são e, enquanto não mudarmos esta mentalidade, não há estratégias de desenvolvimento que nos valham.