2024/09/20

Portugal 2.0

Tirando alguns, contributos que têm, de facto, interesse para a humanidade, sobretudo no domínio da ciência e das artes, o legado dos EUA no mundo é, sobretudo, de destruição. Os contributos positivos empalidecem perante a barbárie made in USA. Entre as bolhinhas de gás e as toneladas de aspartame das coca colas e quejandos e os cogumelos nucleares, fica um rasto de destruição soft e hard, que nos envergonha como espécie. Gradualmente, o “American way of life” estendeu-se aos quatro cantos do império. De alguns dos piores aspectos deste “way of life,” não muitos, mas alguns significativos, Portugal esteve preservado até há pouco tempo.

Depois do S. Valentim, do Halloween, dos doughnuts, dos jeans, dos sneakers, t-shirts e skates, do Portugal got talent e do bracinho pousado em cima do peito durante a execução do hino nacional, finalmente, os atentados nas escolas entraram-nos também pela porta adentro. Já ascendemos a este novo patamar civilizacional. Estamos na crista da onda. Apanhámos o comboio tarde, como é costume, felizmente, mas já viajamos nele. A alta velocidade chegou aqui primeiro..


Não é de admirar. A violência a que as crianças têm sido expostas desde tenra idade, dos aparentemente anódinos desenhos animados made in USA, até às brutalidades inacreditáveis exibidas em milhares de filmes, séries, no infotainement, esse conceito obsceno, e mesmo, pasme-se!, de muitos, aparentemente, inocentes videojogos — alguns dos quais são, na sua aparente inocência, de uma violência inaudita — teriam, mais cedo ou mais tarde, de permitir expor às escâncaras, as feridas que vão produzindo subtilmente. Esta nefanda americanização tem décadas. Intensificou-se, e de que maneira, infelizmente, nestes últimos anos, à medida que o império mostra sinais evidentes de decomposição, estrebucha e corre para frente na sua loucura assassina. 


A violência banalizou-se e a resolução de problemas a tiro, à facada ou à pedrada, tornou-se um meio de actuação, quase que se diria, legítimo. Os maus exemplos vêm, não de um povo "primitivo," mas de um povo que se pretende sofisticado, senhor da sua independência, pretenso farol da democracia e dos bons princípios. Séculos de civilização vão, assim, pelo cano abaixo, sem que a maioria das pessoas se pareça importar demasiado.


Tenho sugerido, frequentemente, a amigos e conhecidos de circunstância que façam este simples exercício: peguem no controlo remoto da televisão e façam uma passagem aleatória, rápida, pelos canais de filmes e séries, em momentos diferentes do dia. Repitam o exercício e tomem nota da quantidade de cenas desses breves flashs que contêm cenas com com armas, sangue ou pancadaria. Vão ficar surpreendidos. É inevitável que este massacre audiovisual deixe marcas. Juntem-lhe o massacre informativo, as condições de vida miseráveis, morais e materiais, em que a maior parte das pessoas vive hoje, as desigualdades, a mentira, a hipocrisia, o patético vazio da vidas da esmagadora maioria das pessoas, a desavergonhada barrage informativa (veja este exemplo, de hoje) e está criado o caldo de cultura para que surjam cenas como esta que se passou na escola da Azambuja. Não vai certamente ficar por aqui, agora que foi vencida a última barreira que “legitimou” esta acção infeliz.


Portugal 2.0! Os upgrades vão-se seguir, certamente, a um ritmo mais intenso do que o da saída de novos modelos do iPhone…

1 comentário:

rui mota disse...

A "cultura dominante" é uma abóbora.