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2026/03/14

Foi você que pediu uma guerra?

Há duas semanas que o Médio-Oriente é palco de uma das mais devastadoras guerras em que a região tem sido pródiga. 

Desta vez, a razão invocada, para atacar o Irão, seria a alegada existência de capacidade nuclear daquele país. Dito de outro modo: o crescente programa de enriquecimento de urânio, levado a cabo pelo governo iraniano, faz suspeitar que o Irão possa fabricar bombas nucleares muito em breve e, com isso, ameaçar os países vizinhos. 

Esta é, pelo menos, a teoria de Netanyahu, que há mais de cinquenta anos se esforça por "provar" que o Irão está em vésperas de fabricar uma bomba para aniquilar Israel...Se é verdade ou não, ninguém pôde assegurar, ainda que os iranianos continuem a afirmar que o urânio enriquecido se destina a fins pacíficos e os israelitas (secundados pelos americanos), afirmem o contrário. 

Durante muitos anos a dúvida subsistiu, até que, no consulado de Obama, o presidente americano convenceu o Irão a assinar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (2015). Esta situação permitia a inspecção e controlo periódico da IAEA (Agência Internacional de Energia Atómica) às reservas de urânio iranianas. O "Mundo" pareceu aliviado, ainda que os ataques perpetrados contra Israel por parte dos "proxis" do Irão (Hamas, Hezbollah, Houthis...) fossem frequentes.

Com a chegada de Trump ao poder, o acordo EUA/Irão foi abandonado unilateralmente (2018) pelos EUA. A partir daí, o Irão sentiu-se "livre" para continuar com o programa de urânio, que dura até hoje. Ou seja, não foi o Irão que abandonou o Tratado de Não-Proliferação, pelo qual se obrigava a permitir inspecções da IAEA, mas o governo americano. 

Com o regresso de Trump ao poder, Netanyahu, a contas com um processo judicial (que pode levar à sua destituição e prisão por corrupção, além de um mandato de captura emitido pelo TIJ) viu aqui uma oportunidade para reiniciar a sua "velha" guerra e obsessão: derrotar os Ayatollas. Agora, com o apoio dos EUA. 

Em Junho passado, houve uma primeira tentativa para destruir as centrais iranianas, naquela que ficou conhecida pela "guerra dos 12 dias". De acordo com Trump, o ataque tinha corrido tão bem que as centrais nucleares tinham sido completamente "obliteradas" (!?). Não teria ficado "pedra sob pedra", pelo que levaria anos até o Irão ter capacidade para fabricar bombas atómicas...

Depois desta guerra, as partes voltaram ao diálogo e recomeçaram as conversações com vista a controlar os ímpetos belicistas iranianos. Eis senão, quando, durante as reuniões entre os EUA e o Irão para estabelecer um novo acordo, os EUA/Israel decidem iniciar uma guerra, a que o presidente americano chamou de "preventiva". Uma guerra ilegal, à margem do direito internacional e condenada pela maioria dos países democráticos. 

É aqui que estamos. 

Porque a situação, para além de perigosa, raia a insanidade dos actores envolvidos, vale a pena relembrar algumas das declarações dos responsáveis americanos, nas duas últimas semanas:  

28 de Fevereiro (Trump): "Eles nunca poderão ter uma arma nuclear. Nunca".       

2 de Março (Marc Rubio): "Os EUA foram informados que Israel estava a preparar um ataque ao Irão e decidiram atacar "preventivamente". 

3 de Março (Marc Rubio, perante a imprensa) "foram os EUA a pressionar Israel para atacar".   

3 de Março (Trump): "Nós esmagámos o inimigo. A capacidade de "drones" e mísseis do Irão foi completamente destruída".

9 de Março (Trump): " A marinha do Irão já não existe. A aviação não existe. Podem render-se ou lutar até não terem mais homens". Ao NYT, Trump declara que tinha 3 boas opções (interlocutores) para negociar a rendição, mas que, entretanto "já tinham morto o Ayatollah Khameney e mais 20 subalternos e não havia ninguém com quem negociar" (!?).

9 de Março (Trump): "Não há uma resposta concreta para o fim da guerra. Pode durar 2, 4, 5 ou 6 dias. Durará o tempo que for necessário. Temos a capacidade para continuar mais 5 semanas e é isso que faremos".  No mesmo dia, declara que "já ganhámos a guerra".

11 de Março (Trump): "A guerra está quase a acabar. Já não existem mais "drones". Quando eu quiser, pode acabar".

11 de Março (Trump): "Não queremos sair mais cedo do Irão. Temos de terminar o trabalho. Ainda não estamos prontos".

11 de Março (Peter Hegseth): "Cabe ao presidente decidir, se estamos no início, no meio ou no fim da guerra". 

13 de Março (Trump, à entrada para o seu helicóptero): "Quando termina a guerra? Não sei. Essa resposta não lhe posso dar..."

Sobre opiniões erráticas e contraditórias, estamos conversados. Pior, era difícil. Começaram a guerra, mas não sabem quando esta termina e qual o plano para o dia seguinte (!?). Resta aguardar pelo fim deste conflito que, entretanto, multiplicou por três (Ucrânia, Irão, Líbano...) e esperar que o Mundo não incendeie de vez. Já estivemos mais longe. 

 

(foto Tel Aviv, BBC)

2025/10/13

Gaza: o "acordo" imprevisível

O "acordo" para Gaza, proposto na passada semana por Donald Trump, começa a dar os primeiros passos. 

É cedo para extrair conclusões definitivas. Trata-se de um documento de 20 pontos, que prevê diversas fases, das quais a primeira (fim dos combates, recuo das tropas israelitas, libertação de reféns e de prisioneiros, entrada de ajuda humanitária) começou a ser implementada.

Estas, são as boas notícias. A assinatura do Acordo de Paz, hoje no Egipto, formalizará as boas intenções, acordadas entre Israel, o Hamas e os principais mediadores nesta crise (Egipto, Qatar e Turquia, sob a supervisão dos EUA). Como diria Shakespeare, "tudo bem, quando acaba bem"... 

Acontece que, dos 20 pontos que constam do "acordo", só os primeiros cinco estão a ser concretizados, o que sendo um sinal positivo, não garante o cumprimento dos restantes. Desde logo, porque o Hamas, parceiro improvável na futura administração de Gaza, continua a recusar a entrega das armas e, em nenhum dos pontos, está claramente explícita a criação de um futuro estado palestiniano, ainda que seja feita uma vaga referência a essa possibilidade (ponto 19). Depois, porque não sabemos quem vai fazer parte do próximo governo de Gaza: a Autoridade Palestiniana, que governa na Cisjordânia? Um governo de coligação, entre as diversas facções? Um governo de transição, composto por tecnocratas locais e estrangeiros? Haverá uma nova constituição e eleições livres? Quando? Finalmente, não sabemos nada sobre a forma como vai ser administrado o território de Gaza e quem serão os actores principais neste período de transição... Espera-se que organismos como a ONU, a Unesco, a UE e os Emirados Árabes, estejam na primeira linha de ajuda. Fala-se, ainda, num "comité" de reconstrução, coordenado por Tony Blair, personagem recusada por parte da comunidade internacional, devido à sua responsabilidade na invasão do Iraque e ao papel dos britânicos na criação do estado de Israel. Há coisas, que a memória não apaga.       

Entretanto, dois anos após bombardeamentos diários, o balanço em Gaza não podia ser mais devastador:

90% dos edifícios foram destruídos, entre os quais, hospitais, escolas, mesquitas e abrigos, tornando praticamente impossível a sobrevivência entre os destroços, sem água, electricidade e mantimentos suficientes, para alimentar mais de dois milhões de habitantes. 

Neste período, Israel foi responsável pela morte de 67.173 palestinianos, entre os quais 20.179 crianças, 10.427 mulheres, 4.813 idosos, 31.754 homens, para além de 169.780 feridos, 565 membros de ONGs, 376 funcionários da ONU, 254 jornalistas e milhares de vítimas, por identificar, que estarão ainda sob os escombros. Se não foi uma tentativa de genocídio, foi certamente um massacre, completamente desproporcionado e cujas principais vítimas foram civis inocentes, com a desculpa que os combatentes do Hamas se escondiam entre a população. Não estão aqui contabilizadas as vítimas israelitas, durante o ataque de 7 de Outubro de 2023, dos reféns falecidos em cativeiro e dos militares no terreno, que serão alguns milhares, certamente. 

Uma barbárie, longe de terminada, já que as sequelas de tal hecatombe se farão sentir por muitos anos em ambas as partes do conflito. Nada será como dantes e haverá sempre um antes e um depois do 7 de Outubro de 2023, ainda que esta história não tenha começado nesse dia, como muitos pretendem ao reescrevê-la.

A grande questão, neste momento, é saber até que ponto a proposta de "acordo" é para manter. Se é suficientemente sólida para levar a cabo a tarefa ciclópica, que é a resolução do problema palestiniano. Já foi tentado no passado e falhou sempre, mas não desapareceu por isso. Também não desaparecerá desta vez e só podemos desejar que a solução esteja mais próxima, mesmo que estejamos a anos da sua concretização. Se o "acordo", proposto por Trump, poder contribuir para melhorar a situação dos dois povos, melhor ainda. Se não, o futuro se encarregará de demonstrar que "meias soluções" nunca resolveram os grandes problemas. Quanto muito, adiam-nos. Só a criação de um estado palestiniano pode terminar com as hostilidades. É isso que a Comunidade Internacional aguarda há 77 anos.

2025/04/10

Trump ou a Máfia no poder


Se dúvidas houvesse, as recentes medidas do narciso psicopata (que governa os EUA) mostram até que ponto a insanidade do "homem" é perigosa para a Humanidade.

Diz e desdiz-se diariamente, conforme os ventos são de feição para as suas práticas mafiosas, que mais não pretendem do que controlar a economia (leia-se, dívida) com vista a salvaguardar o défice norte-americano que atingiu triliões de dólares na última década. 

No fundo, a mensagem subliminar, implícita neste "bullying" permanente, resume-se à icónica frase de Corleone: "I'll make you an offer you can´t refuse". Por outras palavras: "ou aceitam as minhas condições ou não vos garanto protecção". 

Um fdp da pior espécie que, no médio prazo, espera obter algumas vantagens (desvalorização do dólar e diminuição da dívida externa), mas que, no médio-prazo, irá perder. Por alguma razão, suspendeu as medidas (tarifas) anunciadas, por 90 dias, na esperança de (re)negociar os valores, entretanto perdidos em bolsa. A China foi o primeiro aviso, mas outros países e espaços económicos (UE) se seguirão. 

A questão central é saber até que ponto a reacção interna dos consumidores norte-americanos vai contribuir para a sua queda. Elon Musk (que não é propriamente um democrata) parece ter percebido o desastre e prepara-se para ser o primeiro rato a abandonar o navio. 

Tudo isto, porém, poderá demorar demasiado tempo e o tempo corre contra os democratas e os mercados (internos e externos) que se opõem a este regime (tecno)fascista. 

Os tempos mudaram e, a partir daqui, nada será como dantes. Esta é, para já, a única certeza. 

2025/03/06

Abanar a cauda...


Ainda nem uma semana passou sobre o polémico episódio da Sala Oval (em que Trump e Vance, "humilharam" Zelensky) e já as peças do dominó estratégico ocidental começaram a cair. As coisas nem sempre são o que parecem e, aparentemente, a realidade começa a impôr-se no continente europeu. 

Entretanto, Zelensky (que acaba de entregar o ouro ao bandido) está a prazo, mas toda a gente diz querer defendê-lo, mesmo quando a Ucrânia já perdeu a guerra. 

Percebe-se: é cada vez mais difícil à "troika" europeia (Van der Leyen, Costa e Kallas) defender o indefensável, depois de três anos de juras de fidelidade à "causa ocidental", sem que tenham conseguido progressos na frente de combate. Tudo isto era expectável, a partir do momento em que Biden anunciou, logo nos primeiros dias do conflito, que os EUA não queriam uma guerra com a Rússia, mas "apenas enfraquecê-la". Ou seja, sem um envolvimento dos "aliados" no terreno, a Ucrânia teria poucas possibilidades de suster a ofensiva russa. Está à vista.

E agora? Sem exército, com a economia dos seus principais membros (Alemanha, França e Itália) em crise e sem possibilidades de reconverter o modelo económico actual numa economia de guerra a curto prazo, os líderes da UE vieram pedir 800 mil milhões de euros aos cidadãos para comprar armas aos americanos! Grande negócio. 

Ou seja: Trump impôs a sua vontade a Zelensky e à Europa (que não conta para nada, a não ser para fazer negócios) enquanto assegura a exploração dos minerais ucranianos. Do outro lado, Putin ficará com o Donbass e com a Crimeia, ganhando o território ocupado. 

E a Europa? À Europa, resta obedecer e abanar a cauda...

2024/09/20

Portugal 2.0

Tirando alguns, contributos que têm, de facto, interesse para a humanidade, sobretudo no domínio da ciência e das artes, o legado dos EUA no mundo é, sobretudo, de destruição. Os contributos positivos empalidecem perante a barbárie made in USA. Entre as bolhinhas de gás e as toneladas de aspartame das coca colas e quejandos e os cogumelos nucleares, fica um rasto de destruição soft e hard, que nos envergonha como espécie. Gradualmente, o “American way of life” estendeu-se aos quatro cantos do império. De alguns dos piores aspectos deste “way of life,” não muitos, mas alguns significativos, Portugal esteve preservado até há pouco tempo.

Depois do S. Valentim, do Halloween, dos doughnuts, dos jeans, dos sneakers, t-shirts e skates, do Portugal got talent e do bracinho pousado em cima do peito durante a execução do hino nacional, finalmente, os atentados nas escolas entraram-nos também pela porta adentro. Já ascendemos a este novo patamar civilizacional. Estamos na crista da onda. Apanhámos o comboio tarde, como é costume, felizmente, mas já viajamos nele. A alta velocidade chegou aqui primeiro..


Não é de admirar. A violência a que as crianças têm sido expostas desde tenra idade, dos aparentemente anódinos desenhos animados made in USA, até às brutalidades inacreditáveis exibidas em milhares de filmes, séries, no infotainement, esse conceito obsceno, e mesmo, pasme-se!, de muitos, aparentemente, inocentes videojogos — alguns dos quais são, na sua aparente inocência, de uma violência inaudita — teriam, mais cedo ou mais tarde, de permitir expor às escâncaras, as feridas que vão produzindo subtilmente. Esta nefanda americanização tem décadas. Intensificou-se, e de que maneira, infelizmente, nestes últimos anos, à medida que o império mostra sinais evidentes de decomposição, estrebucha e corre para frente na sua loucura assassina. 


A violência banalizou-se e a resolução de problemas a tiro, à facada ou à pedrada, tornou-se um meio de actuação, quase que se diria, legítimo. Os maus exemplos vêm, não de um povo "primitivo," mas de um povo que se pretende sofisticado, senhor da sua independência, pretenso farol da democracia e dos bons princípios. Séculos de civilização vão, assim, pelo cano abaixo, sem que a maioria das pessoas se pareça importar demasiado.


Tenho sugerido, frequentemente, a amigos e conhecidos de circunstância que façam este simples exercício: peguem no controlo remoto da televisão e façam uma passagem aleatória, rápida, pelos canais de filmes e séries, em momentos diferentes do dia. Repitam o exercício e tomem nota da quantidade de cenas desses breves flashs que contêm cenas com com armas, sangue ou pancadaria. Vão ficar surpreendidos. É inevitável que este massacre audiovisual deixe marcas. Juntem-lhe o massacre informativo, as condições de vida miseráveis, morais e materiais, em que a maior parte das pessoas vive hoje, as desigualdades, a mentira, a hipocrisia, o patético vazio da vidas da esmagadora maioria das pessoas, a desavergonhada barrage informativa (veja este exemplo, de hoje) e está criado o caldo de cultura para que surjam cenas como esta que se passou na escola da Azambuja. Não vai certamente ficar por aqui, agora que foi vencida a última barreira que “legitimou” esta acção infeliz.


Portugal 2.0! Os upgrades vão-se seguir, certamente, a um ritmo mais intenso do que o da saída de novos modelos do iPhone…

2022/07/06

Nojos

O futuro está traçado. A aliança EUA-NATO-UE, o corolário hodierno da famosa Doutrina Monroe, vai partir os dentes neste conflito na Ucrânia, vai sofrer uma humilhante derrota e o mundo vai passar a viver sob uma outra ordem. É apenas uma questão de tempo. O que aí vem é, por enquanto, uma incógnita, que se tornará porvetura mais clara quando for lida nos compêndios de história do século XXII. 

Os mostradores das bombas de gasolina que pulsam e rodam de forma cada vez mais vertiginosa, assim marcando a negro o dia a dia dos automobilistas, não reflectem, nem de perto nem de longe, o trambolhão que o "Ocidente" (cf. esta interessante análise de Carlos Matos Gomes sobre este conceito) vai dar, à conta desta miserável aventura em que nos meteram. Mas esses mesmos mostradores das bombas, ao rodarem cada vez mais depressa, para da pistola da bomba sair cada vez menos combustível, constituem uma espécie de metáfora, se se quiser ver para além dos números, do entalanço em que estamos metidos e não podem deixar de nos fazer pensar no que aí vem. Todos deveriam refectir, com seriedade e serenidade, sobre o futuro. 

Uma coisa que, para já, se me afigura certa é que os povos não parecem estar preparados para a reviravolta que se avizinha. A Europa, em particular, revelou-se, em todo este processo, incrivelmente vulnerável. E Portugal, então, pelo filme a que vamos assistindo, está em riscos de se tornar um protectorado de uma multinacional qualquer ou um gigantesco Airbnb.

Bruxelas não é Washington

Há tarefas que, no imediato e se não nos quisermos resignar a uma postura passiva perante tudo o que se passa, parecem urgentes. A mais importante, a que deveria ser dada atenção imediata, é a da continuação desta União Europeia. Uma organização dirigida por zombies que usurparam os direitos democráticos dos europeus e se instalaram ilegalmente nesta coisa inenarrável a que chamam Comissão. É urgente responsabilizá-los pelas consequências que esta decisão de se juntarem à cobóiada vão ter na vida de todos nós, numa atitude de subserviência absolutamente escandalosa. Repare-se que nem na própria América se engole todo este cenário criado em torno do conflito da Ucrânia.

Segundo o Ron Paul Institute, 71% dos americanos não desejam que Biden se candidate a um segundo mandato. Segundo outra fonte, a percentagem de americanos que não querem que Biden se candidate a esse segundo mandato é extraordinariamente alta, quando comparada com os presidentes anteriores, ainda em primeiro mandato. Os americanos já estão a sentir na pele o fiasco absoluto desta política terrorista das sanções, ditada pelos cowboys da Casa Branca. Mas os americanos não parecem dispostos a tal sacrifício. Quem os poderá criticar...?

Biden tenta, em fuga para a frente, culpar Putin, junto da opinião pública americana, pela escalada da inflação, mas, como conclui ainda a análise do Ron Paul Institute, há um grande problema: "os americanos não acreditam nele. De acordo com uma pesquisa da Rasmussen no início deste mês, apenas 11% dos americanos acreditam na afirmação de Biden de que o presidente russo Vladimir Putin é o culpado pelos altos preços." 

Os americanos também não querem, segundo parece, uma recandidatura de Trump. Mas é bom lembrar que a actual política de Washington é exactamente igual à que foi seguida pelo presidente golpista. Vale a pena recordar o que dizia o seu anterior Secretário de Estado, Mike Pompeo e comparar com o que está a ser feito agora. E vale a pena perceber quais são exactamente as personagens que têm transitado de administração em administração, desde há longos anos, para levar a cabo o mesmo programa de desastre universal. Se não acredita, veja os nomes.

De Bruxelas, nem bom vento nem bom casamento

Bruxelas não é, de facto, Washington. O seguidismo dos dirigentes europeus ao discurso americano é incompreensível. Os americanos demonstram um compreensível sentido de conveniência que falta totalmente a Bruxelas. E a Doutrina Monroe justifica a postura americana. Mas o que ganha a Europa em continuar a papaguear o discurso  da invasão vinda das estepes que só pararia no Cabo da Roca, apimentada agora com uma ameaça amarela, quando na própria América esta narrativa parece já não estar a pegar? Numa demonstração da validade da expressão "ser mais papista que o papa," por estas bandas vamos assistindo ao espectáculo desgraçado que a Presidente da Comissão Europeia, prostrada de joelhos, dá todos os dias. Uma actuação nojenta, que nos faz (pelo menos a mim faz!) corar de vergonha. A todos nós que acreditámos no projecto europeu e andámos a embarcar, ingénua mas zelosamente, nesta trapaça absurda, neste travesti de eleições, a que chamam eleições europeias. Sobre o que nós e os nossos compadres europeus pensamos de tudo isto, o que vai na alma do europeu, nestes dias de ansiedade e de incerteza sobre o futuro, pouco se sabe. Dos americanos sabemos, ainda assim, que não estão a achar grande graça ao que se está a passar, e a festa nem sequer está a ser no quintal deles. O que justifica a posição da Europa perante este conflito?

Ainda faltará algum tempo para percebermos o que dirão os europeus sobre tudo isto. Mas quando, finalmente, acordarem para a realidade que têm e vão ter pela frente, vai ser tarde.

E Portugal?   

Se o que vai na mente dos europeus é uma incógnita, cá pelo burgo não sabemos o que pensam verdadeiramente os portugueses sobre este conflito, para além da conversa de café. Sabemos menos ainda sobre o que pensam sobre a actuação do Governo, nesta sua desfilada à rédea solta.

Falando de governo, permitam-me que exprima aqui, sobre esta matéria, um ponto de vista pessoal, num tom um pouco mais veemente, diria mesmo, escandalizado. A posição portuguesa em todo este caso mete nojo. O comportamento do Governo nesta matéria e, em particular, o do Primeiro Ministro António Costa, é um nojo. Politicamente, está arrrumado. O tirocínio para substituir a Ursula menor de nada lhe vai valer porque deixou de ter a iniciativa, anda totalmente a reboque dos acontecimentos, sem dar o mínimo sinal de uma visão própria, sem um pensamento estratégico, digno de nota e sem um comprtamento que indicie ter a força necessária para mudar o rumo da Europa.  O "estadista" foi a banhos. Não foi para isto que votei nele. A credibilidade política, interna e externa, perdeu-a Costa num aperto de mão em Kiev. E veja-se, por exemplo, aqui, o tipo de santinhos a quem Costa foi apertar a mão, em nome de todos nós.

Comprometida, sem possibilidade de um entendimento, está também uma solução para Portugal, à esquerda. A Ucrânia constitui um tiro no porta-aviões da esquerda portuguesa, sem possibilidade de reparação do rombo. Como se diria, em inglês, Costa é um has been. Tanto que prometia o mocinho, tanta ponte, tanto diálogo para tudo ter acabado assim. É uma pena. À direita o panorama, é certo, não é melhor, o que significa que Portugal é de quem o apanhar.

Nota profundamente negativa, pois, para a actuação do governo, que faz o favor de representar o papel de manequim na montra do imperialismo. Não foram mandatados para isso! Repito: não foram mandatados para isso. 

Não estamos perante uma emergência nacional, não corremos riscos de segurança interna, temos problemas estruturais (lembram-se dos famosos problemas estruturais?!), estruturalmente adiados, temos milhões para ajudar à festa da guerra, mas os tais problemas estruturais ficaram para as calendas. Corremos agora, isso sim, o risco de sermos apanhados pelo fogo cruzado. Nada justifica que os portugueses tenham sido colocados em perigo desta forma. A culpa é do governo. Se já na América poucos compram a ideia de uma opção entre o sacrifício em resposta a uma hipotética ameaça, que corre lá longe, ou uma vida decente, por cá temos de perguntar e exigir uma justificação séria a este governo sobre esta decisão de converter Portugal em potencial barraquinha de tiro ao alvo e os sacrifícios e os riscos que esta opção representa. Para quê?! O que raio passou na mente perversa destes irresponsáveis para transformar Portugal, de repente, em feira popular? O PS criou a ilusão que tem tudo controlado e não percebeu que está em risco de se afrancesar. Não percebe, por exemplo, que entrou naquela fase em que os seus princípios resvalam para a "quimera" e para a "ambiguidade," como referia Thibaut Rioufrey a propósito do PS francês, que conduziram este partido ao eclipse quase total.

Do PR, sempre igual a si próprio, nem vale a pena falar, mas vale, isso sim, a pena falar da AR. A prudência política, o respeito pelos eleitores e o simples sentido patriótico, deveriam ter ditado uma outra postura da AR e do seu sibilino presidente, perante este conflito, mais contida, mais consentânea com o preceito constitucional, que tivesse evitado o espectáculo nojento do passado mês de Abril. O PS revelou-se, mais uma vez, nesta como noutras ocasiões, um nojo. Traiu os eleitores que depositaram confiança total nas suas propostas e lhes compraram as cadeiras do poder, onde agora se sentam. 

Tristíssimo o espectáculo deprimente deste partido, a dobrar a cerviz perante os senhoritos da guerra. Enquanto a Constituição preceitua a "solução pacífica dos conflitos internacionais, a não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e a cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade," o que faz o governo da maioria? Oferece armas e junta-se ao coro internacional das fanfarronadas. De um país com tradição revolucionária na floricultura, esperava-se que fornecessem, ao menos, rosas, senhor! 

Por outro lado, também a actuação de uma parte da oposição, que diz, servilmente, amen a tudo isto ou se cala oportunisticamente, não pode senão ser classificada de outro nojo. Uma outra, reduzida, parte da oposição, que cavou por culpas políticas próprias o seu isolamento e revela total incapacidade de ter voz de combate, está encostada, inutilmente, a uma retórica que a ninguém impressiona. Mais outro nojo. Não pela posição neste caso específico, que sempre me pareceu correcta, mas pela inabilidade política que a levou a ficar aquém dos mínimos olímpicos e a revelar a sua debilidade preocupante, quando era tão necessário que fizesse agora voz grossa e tivesse algum peso específico. 

Estamos, pois, metidos num enorme molho de bróculos. Os portugueses irão certamente gozar o verão, finalmente, depois de dois anos de confinamento. Quando voltarem, logo se vê.


PS- Já depois de concluído este artigo, ficámos a saber que o Boris the Animal foi despedido e que, por agora, o PM se livrou de uma moção de censura. Ça bouge!

2022/05/25

Da Guerra (das guerras...)

Passaram três meses sobre o início da guerra na Ucrânia e não se vê fim à vista. Pior, muitos analistas e estrategas destas coisas, pensam, inclusive, que o conflito pode durar semanas, meses ou até anos... Uma catástrofe de dimensões incalculáveis. Independentemente do resultado final ("vitória" de um dos lados, impasse no avanço das tropas no terreno ou um acordo tácito, para evitar perdas maiores e salvar, de alguma forma, a "face") todas as opções estão, neste momento, em aberto. 

Ainda que soubéssemos que, numa guerra (qualquer guerra!), "a primeira vítima é sempre a verdade", não podemos deixar de criticar a forma acéfala, como a maioria da Comunicação Social em Portugal (há excepções, claro) acompanha o conflito. Desde logo, na falta de imagens da guerra real (não há "acompanhamento" da maior parte das acções militares, por parte de jornalistas, como nas guerras do Golfo, por exemplo...) e, depois, pela impossibilidade de verificar os dados apresentados por Moscovo e por Kiev. Uns, não fornecem dados (quantos mortos, quantas perdas de material, etc...); e outros, dão dados sobre as perdas do inimigo o que, não sendo uma originalidade, é sempre difícil de confirmar. A acreditar em organismos de estratégia militar no Ocidente (UK, EUA), haverá hoje cerca de 300 000 soldados a combater (mais ou menos, 150 000 de cada lado). Desse total, já teriam perecido cerca de 10% dos combatentes. Ou seja, a acreditar nesta estimativa, terão perecido cerca de 30 000 soldados russos e ucranianos, até este momento (por comparação, 3 vezes mais do que soldados portugueses na guerra colonial, que durou 13 anos!). Não estão aqui contabilizados os civis de ambos os lados (dezenas de milhar?), as perdas materiais (tanques, canhões, carros de combate, aviões, helicópteros...) e, claro está, o património destruído (cidades inteiras), avaliado em milhares de milhões de euros! Finda a guerra, a "reconstrução" exigirá um novo "Plano Marshall" (palavras dos dirigentes da UE) que ninguém saberá ainda quanto custará e quem irá pagar. Os "empreiteiros" do costume, já estão na fila, para os chorudos contratos.

Para o bem e para o mal, a Ucrânia e a Rússia, vão continuar no mesmo sítio e a ter de partilhar fronteiras. Obviamente que só negociações poderão conduzir a um "status-quo" aceite pelas partes beligerantes, com concessões de ambos os lados. A não acontecer isso, todos sairemos pior no fim desta tragédia: desde logo o povo ucraniano (a principal vítima); a Rússia (metida num beco sem saída, que conduzirá ao seu isolamento internacional); e, finalmente, a Europa (leia-se UE) que, sem exército próprio e no meio de uma crise económica (inflação) e energética (dependência da Rússia), sairá sempre prejudicada e mais dependente deste conflito. A única grande potência ganhadora é, neste momento, os EUA (que vende armas, petróleo, gás e cereais à Europa) sem dar um tiro, ou sacrificar homens no terreno. Grande negócio. Tudo, em nome da "democracia", claro está. Ou seja, três "blocos" políticos em crise, que lutam entre si por um lugar entre as grandes potências, nesta guerra pelo controlo geoestratégico das riquezas do planeta. Enquanto isso, a China, a única potência verdadeiramente emergente, parece não tomar posição, num silêncio ensurdecedor, que vale mais do que mil palavras. 

Resta Portugal, um país periférico, sem política externa, sempre a reboque das decisões tomadas em Bruxelas e Washington, sejam estas boas para o país ou não. Neste quadro e na tentativa de mostrar "serviço", a visita de Costa a Kiev - para mais com promessas de ajuda de 250 milhões de euros (empréstimo, doação?) à Ucrânia, quando em Portugal não há médicos de família para 1 milhão de portugueses, onde 2 milhões de cidadãos vivem com 540 euros por mês e não existe habitação condigna para dezenas de milhares de habitantes - foi lamentável. Por outro lado, o ministro Cravinho (outra desilusão) veio confirmar a intenção de Portugal aumentar para 2%, a sua contribuição para a NATO: qualquer coisa como 4000 milhões de euros do PIB. Isto para não falar sobre a sua declaração de se opor à venda do clube Chelsea (do Chelsea?), como parte das sanções aos oligarcas russos (!?). É pena haver sempre dinheiro para a guerra (armamento) e "nunca haver dinheiro" para a saúde, a educação ou a habitação em Portugal. Uns tristes, estes políticos que nos governam. 

Sim, a guerra, continua a ser um bom negócio. Principalmente para quem decide, mas não combate, ao contrário dos que combatem, mas não podem decidir.

2021/09/01

Do período clássico ao período barraca

A imagem clássica: o comboy (também conhecido como o “mocinho”, no Brasil), no fim da fita, cavalgava em direcção à luz do Sol, depois de derrotar os “maus”, sorriso sereno e espírito de missão cumprida. Banda sonora heróica, a fechar a cena. 

A imagem actual: o major general Donahue, no fim da fita, o último cowboy a sair do Vietname, perdão, do Afeganistão, “return to sender”, pela calada da noite, furtivo, câmara de infravermelhos. A banda sonora de fecho é dada pela voz do novo patrão talibã, que diz que se cá voltares levas um tiro nos cornos! Com as armas que cá deixaste! 

Yahooooo!!!

2021/01/19

EUA: Aftermath


Em vésperas da tomada de posse do presidente Joe Biden, a cidade de Washington mais parece uma fortaleza, do que a moderna capital de um estado liberal e democrático, como são os Estados Unidos da América. Não é caso para menos. Depois da invasão do Capitólio do passado dia 6, levada a cabo por milhares de manifestantes, instigados por um presidente paranóico que se recusou reconhecer a derrota nas urnas, as autoridades nacionais (após informações fornecidas pelo FBI) puseram em marcha a maior operação de segurança em cerimónias congéneres: para além das barreiras e sebes, levantadas em redor dos edifício do congresso, foram mobilizados 25.000 elementos da Guarda Nacional, parte dos quais já dorme permanentemente dentro do Capitólio. Os moradores de Washington não se lembram de uma coisa assim e teremos de recuar a 1871 (Guerra Civil) para encontrar medidas similares em cerimónias oficiais.

Como chegámos aqui,  é a pergunta que todos fazem, dentro e fora do país, onde foi fundada a primeira democracia dos tempos modernos. Uma sociedade assimétrica, caracterizada por uma cultura de violência estrutural, primeiro dos colonos europeus contra os seus habitantes originais (os índios de diversas etnias) e, mais tarde, contra outros povos e países, um pouco por todo o planeta, sempre que os seus interesses geo-estratégicos são ameaçados. É esta, a par dos feitos e conquistas, a História do país mais poderoso do Mundo, hoje em decadência económica, mas ainda suficientemente forte, militarmente, para impor a sua lógica de "xerife" mundial. 

Como todos os impérios, também o americano já conheceu dias melhores e, fatalmente, irá perdendo influência, agora que novos actores surgem na arena política e económica mundial. É a "lei da vida dos impérios" e a História está cheia de exemplos, dos Gregos aos Romanos, dos Otomanos aos Britânicos, não esquecendo Portugal e Espanha, os impérios dominantes nos séculos XV e XVI. 

A cronologia é extensa, mas, resumidamente, podemos afirmar que a duração média dos impérios, ao longo da História, oscila entre os 100 e 150 anos. Segue-se a decadência, seja por factores externos como invasões, epidemias, cataclismos naturais (como aconteceu com as civilizações Inca, Maia e Asteca, na América do Sul); seja por implosão dos próprios regimes (caso da ex-URSS) incapazes de renovação interna e a consequente degeneração dos modelos adoptados.

O caso recente da presidência de Trump (depois de oito anos de Obama) ainda que em contra-ciclo, insere-se na onda populista (de direita) que atravessa grande parte do Mundo Ocidental: dos Estados Unidos ao Brasil, da Hungria à Polónia, do Reino Unido à Itália, todos estes países são, ou foram, em dado momento, governados por partidos cujos líderes partilham de uma ideia comum: a oposição ao que eles apelidam de "sistema". 

Porque o "sistema" é, por definição, o modelo de sociedade que estes líderes rejeitam, a pergunta que se impõe é: qual o modelo de sociedade que os populistas têm em mente? Consultados os seus programas e ouvidas as suas proclamações, é fácil concluir que (quase todos eles) afinam pela mesma diapasão, a saber: todos são contra a corrupção (quem não é?); todos defendem uma sociedade de pessoas de "bem" (de preferência, homens de cor branca); todos têm um bode expiatório, a quem culpam pelos males da sociedade (negros e imigrantes na América, estrangeiros na Hungria e em Itália, imigrantes e argelinos em França, muçulmanos e marroquinos na Holanda, ciganos em Portugal, negros e índios no Brasil). Todos, em maior ou menor grau, têm discursos sexistas, homofóbicos e xenófobos; todos exercem um poder autocrático, não permitindo vozes discordantes dentro dos seus partidos; quando chegam ao poder, rapidamente tentam silenciar os orgãos independentes, como a Justiça e a Imprensa e (pormenor importante) raramente criticam ou atacam os poderosos que controlam e (mais) corrompem as sociedades onde vivem. Nalguns países, chegam a defender a pena de morte e a prisão perpétua, assim como a liberdade de porte de arma e a existência de milícias populares, ao arrepio do estado de direito; desrespeitam as Constituições existentes e pedem uma "nova ordem" política. Ou seja, sabemos o que detestam, mas raramente obtemos respostas concretas sobre o modelo de sociedade que propõem, ainda que possamos adivinhar o que desejam. 

Num recente artigo, "O presidente que tornou a verdade irrelevante" (NRC-Handelsblad, 15/1/21) o jornalista Bas Blokker, faz um balanço do mandato de Donald Trump e o que fica após a sua passagem pela Casa Branca. O resumo é devastador e, ainda que a maior parte dos factos sejam conhecidos da opinião pública, rememorá-los agora, torna mais claro (se ainda fosse preciso) a personalidade do homem que incitou os seus seguidores a invadirem o Congresso, para impedirem a confirmação de um acto eleitoral, legalizado por todas as instâncias jurídicas e políticas do país. 

Alguns números, citados no artigo: segundo o "fact-checking" publicado pelo "The Washington Post", Trump teria mentido (ou afirmado não-verdades) mais de 30 000 vezes, em todo o seu mandato (em  "twitters", nas conferências de imprensa, em entrevistas e em discursos, dentro e fora do país). Não é caso único, claro: todos os presidentes anteriores, mentiram: Richard Nixon (Watergate), Billy Clinton ("affaire" com a estagiária), W. Bush Jr. (armas de destruição maciça no Iraque), mas como Trump não há memória.

A carreira política de Trump começou com uma mentira, não sendo pois de admirar que terminasse com outra: a negação da vitória de Biden, que recusou validar, acusando os democratas de fraude eleitoral, mesmo depois dos votos por correspondência terem sido recontados e validados. O mesmo, já tinha acontecido, relativamente a Obama. Em 2011, quando não era ainda candidato pelos Republicanos, acusou Obama de não ter a nacionalidade americana e de ter nascido em África. Mentira, claro. Obama nasceu no Hawai, um estado americano. Também afirmou à imprensa ter enviado uma equipa ao Hawai investigar as origens de Obama (quando o seu advogado lhe lembrou que não podia provar isso, ele respondeu que o que interessava era a notícia sair nos jornais. Depois, as pessoas não se lembravam de mais nada). Relativamente ao doutoramento de Barak, na prestigiada universidade de Harvard, Trump afirmou que tinha sido obtido por "discriminação positiva". Também disse que Obama tinha vindo do nada e não era ninguém, pois não o conheciam na escola. Interrogados os alunos das escolas, frequentadas por Obama, todos se lembravam dele como bom aluno. Mais uma mentira. 

Em 1455 dias de presidência, Trump teria mentido 30 529 vezes (média de 21 vezes ao dia!).  

Logo no primeiro dia da presidência, mentiu, através do seu acessor de imprensa, ao declarar que tinha havido mais público na sua tomada de posse, do que na tomada de posse de Obama, em 2008. As fotos que circularam por esses dias nas redes sociais e nos jornais, desmentem categoricamente tal afirmação. 

42% foi a média da sua popularidade nos anos que esteve na Casa Branca. Teve a mais baixa taxa de todos os presidentes, depois de 1945, quando o Instituto Gallup iniciou as sondagens 

Retirou apenas 3200 militares do Afeganistão, Iraque e Somália, apesar de afirmar que iria retirar todos os militares dessas guerras, que ainda continuam. Mais uma mentira.

Anunciou 453 milhas do muro que faz fronteira com o México, mas destas, só 80 milhas foram realmente construídas, já em finais de mandato. As restantes 373, foram reparações e aumentos no muro existente. 

750 dólares, foi a quantia paga em impostos, nos anos 2016 e 2017, de acordo com a sua declaração fiscal publicada pelo "New York Times". 

Durante o seu mandato, Trump esteve ausente 298 dias, para jogar golfe, na sua propriedade da Florida. 

Apesar de declarar não usar dados contra os seus adversários, obtidos no estrangeiro, tentou convencer o presidente Zelesky (Ucrânia) a comprometer o filho de Biden, num negócio que nunca se efectuou e foi desmentido pelo próprio presidente ucraniano. 

A célebre "Trump Tower", foi anunciada na sua inauguração, em 1988, como tivesse 68 andares. Na realidade só tinha 58. 

 Enfim, a lista é infindável, e tornar-se-ia exaustivo, repeti-la. Como afirmou um dos seus biógrafos, "Trump não tornou a mentira, verdade; ele tornou a verdade, irrelevante". Não importava que fosse mentira ou "bluff", o importante é que as pessoas acreditassem.

Porque mentia Trump? A sua sobrinha Mary Trump, no livro "Too Much is Never Enough", explica que Trump mentia para fugir às críticas do pai, que o castigava por ele ser muito burro. Era o mais tonto dos quatro irmãos. Mentia, para provar que era melhor, do que na realidade era. Numa entrevista em directo ao NRC, Mary declarou que toda a família sabia que ele era um tonto: "O homem nunca lia um livro. Toda a gente sabia disso. Não tinha nada na cabeça. Ele é um tonto, mas é o "nosso" tonto". 

O seu narcisismo patológico, fez dele um mentiroso compulsivo, que desdenhava dos adversários, despedia colaboradores que o criticavam, ofendia mulheres e minorias, discriminava negros e mexicanos, proibia a imigração de muçulmanos e refugiados e apoiava movimentos supremacistas brancos, como aqueles que, juntamente com fundamentalistas cristãos e negacionistas, invadiram, no passado dia 6, o Congresso em Washington. Nas últimas eleições teve 74 milhões de votantes a apoiá-lo (contra 77 milhões de Biden), que acreditaram até ao fim que ele estava a dizer a verdade. Depois de tanta mentira, acabou por sofrer dois processos de "impeachment", o segundo dos quais ainda decorre.

Trump saiu, mas o "trumpismo" não morreu. Está enraizado nos milhares de americanos, que sentem não fazer parte do "sistema" (os "descartáveis" nas palavras de Hillary Clinton em 2016): os menos letrados, os rurais, que na sua maioria não possuem a escolaridade média e que, nas últimas décadas, foram ultrapassados por mulheres letradas, pelas minorias étnicas e pelos imigrantes mais classificados. Americanos de uma América profunda, que se sentem ameaçados pelo desemprego, pois o seu trabalho foi deslocado para outros países de mão-de-obra barata e por "robots" que ocupam, hoje, o seu lugar. São estas populações, na margem do "welfare state", que sentem ter perdido o "combóio da História" e esperam agora por um novo líder, que as convença a acreditar nas suas palavras. Mesmo que estas sejam mentira. 

2020/04/19

Duas semanas noutra cidade (10): Modelos, Medos e Medidas Avulsas

photo NYTimes
A disseminação do coronavírus, agora de forma constante em todo o hemisfério Norte, obrigou a maior parte dos governos a tomarem medidas de acordo que, para além de sanitárias, reflectem o cariz de cada regime.
Depois do alarme ter soado na China (23 de Janeiro, n.r.), seguiu-se uma rápida reacção dos países limítrofes (Coreia do Sul, Taiwan, Japão...) que, alertados para o perigo de contaminação grave, rapidamente puseram em prática modelos sanitários, de detecção e prevenção, eficazes. Decisivo neste combate, foi o sistema de vigilância digital dos cidadãos que permitiu, em tempo real,  identificar quem estava infectado e avisar potenciais contaminados. Não é só na China, (portanto um estado totalitário) que os cidadãos são controlados no seu quotidiano. Também em sociedades asiáticas mais democráticas, o controlo digital é praticado, de forma semelhante, há muitos anos.
Em Taiwan, o estado envia simultaneamente a todos os cidadãos um SMS para localizar as pessoas que tiveram contactos com infectados e para informar sobre os lugares e edifícios onde houve pessoas contagiadas. Ainda numa fase inicial, Taiwan utilizou uma ligação dos diversos dados para localizar possíveis infectados em função das viagens que tinham realizado.
Na Coreia do Sul, quem se aproxima de um edifício onde tenha estado um infectado, recebe um sinal de alarme através de um "app", especial criado para o Coronavírus. Todos os lugares, onde havia infectados, estão registrados nesta aplicação. Não se tem muito em conta a protecção de dados nem a esfera privada. Em todos os edifícios da Coreia foram instaladas câmaras de vigilância em cada andar, em cada escritório, em cada loja. É praticamente impossível a movimentação em espaços públicos sem ser filmado por uma câmara de vídeo. Com os dados do telefone móvel e do material filmado por vídeo, pode criar-se o perfil de movimento completo de um infectado. Os movimentos de um infectado, são todos publicados. Nos escritórios do ministério coreano da saúde, existem pessoas, chamadas "trackers" que, dia e noite, não fazem outra coisa do que visionar o material filmado por vídeo para completarem o perfil do movimento dos infectados e localizar as pessoas que tenham tido contacto com estas.
Outra diferença fundamental, entre a Ásia e a Europa, são, sobretudo, as mascarilhas protectoras. Na Coreia do Sul, não há praticamente pessoas, que saiam à rua, sem mascarilhas respiratórias especiais, capazes de filtrar o ar do vírus. Não são as habituais mascarilhas quirocirúrgicas, mas mascarilhas protectoras especiais, com filtros, também usadas pelos médicos que tratam os infectados. Nas primeiras semanas, após o alarme, o tema prioritário na Coreia foi a distribuição massiva de máscaras à população. Perante as longas filas de espera nas farmácias, os governantes tomaram medidas radicais: foram construídas, à pressa, novas máquinas para fabricá-las. Aparentemente, com sucesso. Existe, inclusive, um "app", que indica quais as farmácias mais próximas que dispõem de máscaras.
Assim que souberam do vírus na China, as 4 fábricas farmacêuticas existentes, receberam dinheiro e autorização do governo, para fabricarem "kits" de teste. No pico da crise, chegaram a ser testados 20.000 cidadãos por dia. Para analisar os testes, foram criados 56 laboratórios especiais. As pessoas eram testadas nos hospitais ou em clínicas de proximidade, em casa e dentro dos próprios carros. Os infectados foram isolados em casa e o resto da população pode prosseguir a sua vida. Mais importante ainda, os sul-coreanos não esperaram por ajudas exteriores e fabricaram todo o material de que necessitavam em fábricas nacionais. O único país que fez mais testes do que a Coreia do Sul, foi a Alemanha (60.000/diários), graças a um bom sistema sanitário de prevenção e à capacidade industrial de que o país dispõe.
Na maioria dos países europeus e após um período de subvalorização da crise, o número de infectados e mortes disparou, tendo atingido números impensáveis há dois ou três meses, ainda que, comparativamente, o número de falecidos devido às gripes anuais, seja maior.
Dois meses após terem sido detectados os primeiros casos na Europa (Itália), o número de mortes por coronavírus continua a crescer nos países mais industrializados, sem que se veja um fim à vista: Itália (23.227), Espanha (20.453), França (19.323), UK (15.464), Bélgica (5.683), Holanda (3.684)...
Por outro lado, as medidas de contenção tomadas em cada país, divergem na sua aplicação e nos instrumentos postos à disposição pelos respectivos governos e serviços sanitários.
Uma das falhas, parece residir na capacidade de responder em tempo (material e logisticamente) a uma epidemia nova e com estas dimensões. Um dilema que atravessa a maioria dos países europeus, como bem exemplificou Erdad Balci, no semanário holandês HP/DeTijd do passado dia 23 de Março: "A Holanda, com a sua economia do conhecimento e o seu sector de serviços, viu-se reduzida a um país em vias de desenvolvimento, que tem de pedir materiais simples para que os seus súbditos não morram. É tempo de acordar". Utilizando a metáfora do "cavalo de competição que ganha sempre e que, por isso, continua a correr depois de perder...", o articulista prossegue: "na passada quarta-feira, chegou uma avião de mercadorias a Schipol, com um carregamento de 80.000 máscaras sanitárias vindas da China. Os chineses ofereceram as máscaras, porque tinhamos necessidade. Grande alegria à chegada das paletes, com direito a fotografia da tripulação chinesa e aplausos dos presentes. O carregamento gratuito é o espelho em que nos devemos mirar. Para obter uma coisa tão simples como máscaras orais, a Holanda teve de pedir a uma potência estrangeira que, na primeira oportunidade, também acaba com a nossa "open society" (em inglês, no texto). A chegada das máscaras, é o mesmo tipo de ajuda para o desenvolvimento, que um poço de água num aldeia africana. Sabíamos, há meses, da existência do vírus, mas não conseguimos fabricar máscaras para nos protegermos!". A razão, explica Balci, reside num factor muito simples: o desmantelamento progressivo da industria no Ocidente e a transferência de investimentos para a China e países límitrofes, onde a mão-de-obra é barata e os operários obedientes. Só que, agora, estamos todos nas mãos dos chineses. Esta constatação, leva-nos a outro tipo de questões que a crise epidémica levantou.
A pandemia põe à prova os regimes políticos em todo o Mundo.
A rivalidade entre USA e China, está a ser vista como uma competição entre dois modelos políticos opostos: A democracia e o autoritarismo. Qual deles respondeu melhor a esta crise e qual dos dois vai prevalecer depois da crise?
A China foi o primeiro país a registrar o contágio do Covid19. Em Novembro de 2019, ocorreu o primeiro caso em Wuhan, na província de Ubei, que seria abafado até começarem a correr notícias de que o médico que tinha detectado o vírus - Li Weng Lian - tinha sido afastado e, posteriormente, falecido devido à infecção, que alastrou em pouco mais de um mês. Em Janeiro deste ano, a China confirmava a epidemia e informava a OMS. As nações ocidentais não podem declarar que não sabiam da existência deste vírus.
Trump, como sempre, seguiu uma politica errática. Começou por fechar as fronteiras e abandonou o palco internacional, acusando a China de ser responsável pela disseminação do vírus, que apelidou de "vírus chinês". Xi Jinping seguiu uma política assertiva. Abre a China ao Mundo e quer ocupar o vazio deixado pelos EUA na liderança global.
A ideia que daqui resulta é a de que o autoritarismo é mais eficaz que a democracia e sairá reforçado desta crise.
Nesta crise, encontramos três componentes, que correspondem "grosso modo" a três tipos de regime  diferentes:
1) O Autoritarismo: do qual o melhor exemplo é a China. Começou por negar o problema, depois tentou escondê-lo, impedindo o médico de denunciar a doença, no que perdeu um mês que pode ter sido decisivo no combate à epidemia. Finalmente, tomou medidas draconianas e, uma vez controlado o surto,  fez aproveitamento político. Foi eficaz na resposta. Venceu o vírus (ainda que não saibamos se os números são exactos), enviou ajuda, material sanitário e médicos, para os países mais atingidos (Itália e Espanha). É o líder mundial desta crise.
2) As Democracias governadas por Populistas: Trump, Bolsonaro, Boris Johnson. Começaram por ridiculizar a gravidade da doença ("é só uma gripezinha", dizia Bolsonaro) contribuindo para a desinformação e adiando as soluções. Desvalorizaram o papel da ciência e as opiniões de médicos, em nome de uma suposta superioridade étnica. Finalmente, foram forçados a reagir, tarde e a más horas. Hesitaram entre o valor da vida humana e os interesses económicos.    
O resultado não foi o melhor. Em apenas quatro semanas, os EUA atingiram já os 40.000 mortos (metade das quais no estado de Nova Yorque) e os 30 milhões de desempregados (20% da força de trabalho). A maior percentagem dos últimos 10 anos!
Do Brasil, nem vale a pena falar: Bolsonaro, o pior presidente da história brasileira, continua a passear-se entre os seus adeptos, tão mentecaptos como ele e, entretanto, despediu o ministro da saúde, por este ousar criticar a sua gestão nesta crise. O país é um barril de pólvora, com milhões de pessoas a viver em condições infra-humanas nas favelas do Rio e São Paulo, para além dos 200.000 presos, confinados em prisões sobrelotadas. O caos é tão grande que os militares (chefiados por Mourão, vice-presidente) estão à beira de forçar uma demissão (por "impeachment" ou acordo) de Bolsonaro e da sua família, o que não augura grande futuro para o país.
Entre os populistas, há ainda quem se aproveite dos poderes de excepção para reforçar a autocratização do regime. É o caso de Orban (Hungria) que aproveitou a epidemia, para decretar o "estado de excepção" por tempo indeterminado. Quem desobedecer pode apanhar 5 anos de prisão! A Hungria passou a ser a primeira ditadura na União Europeia.
3) As Democracias Liberais: umas mais cedo, outras mais tarde, todas levaram o problema a sério e tomaram decisões com base na ciência, ainda que os "confinamentos" (lockdowns) sejam diferentes de pais para país. Os mais liberais (Suécia, Finlândia, Noruega, Holanda, etc...) optaram por um sistema semi-aberto, onde os cidadãos são responsáveis pelo seu comportamento; enquanto outros (Portugal, Espanha, Itália...) seguem guiões mais tradicionais e prolongaram os estados de excepção até à primeira quinzena de Maio.
Uma coisa, parece certa. Depois da pandemia, nada ficará como dantes. Resta saber se para melhor. Os indicadores, para já, são péssimos. Primeiro, assustaram as pessoas com o vírus e, agora, assustam-nas com a próxima crise económica. Como bem explicou Naomi Klein em "A Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo do desastre", o sistema aproveita-se do medo, causado por crises (económicas, humanitárias ou outras) para manipular e reforçar o seu poder. Nuvens negras no horizonte.

(continua)

2019/07/08

Viva o futebol!


O futebol (quem diria...?!) e, sobretudo, uma mulher deram uma lição política cujas proporções serão certamente ainda difíceis de contabilizar. Mas que tudo isto vai fazer estragos, vai!!! Dificilmente passaria pela cabeça de alguém que o futebel (quem diria...?!), muito menos o futebol feminino e, ainda por cima, a Megan Rapinoe iriam ter este papel.
Aguardo expectante pelos próximos tweets do Trump...

2019/03/20

Brasil-EUA: quando os "bons espíritos" se encontram


Contrariamente ao que tem sido a tradição de anteriores presidentes brasileiros, a primeira visita ao estrangeiro de Jair Bolsonaro, não foi à Argentina, mas aos Estados Unidos da América.
Faz sentido. Bolsonaro nunca escondeu a sua admiração por Trump, o seu ídolo.
Agora que o Brasil necessita de abrir-se ao exterior, para cativar investimentos em áreas nevrálgicas para a sua economia, nada melhor que o "amigo americano", para garantir o apoio e a cooperação de que o pais precisa.
Mas, Bolsonaro e Trump comungam outras coisas, para além de interesses económicos. Ambos são particularmente broncos, desprovidos de qualquer experiência ou visão política; não se lhes conhece uma ideia positiva, sobre questões prementes para o planeta, como o desarmamento ou o clima; ambos governam por "tweets" e usam "fake news", através das quais espalham o ódio, que é a "marca de água" de todos os seus discursos; ambos são apoiados pelas facções mais retrógadas da sociedade, desde o "Tea Party" e os "Wasp" (que defendem a supremacia branca na América), até às seitas evangélicas e os ruralistas, que pululam no Brasil; ambos são profundamente racistas e xenófobos, seja contra os negros e imigrantes (Trump), seja contra os negros e índios (Bolsonaro); ambos são notórios misóginos e criticam os movimentos de emancipação das mulheres; ambos defendem o uso de armas por civis.
Não admira, pois, que a sua estratégia, seja semelhante.
O alvo é o mesmo: fanatizar os grupos dominantes na sociedade, assustar o adversário, mobilizar os deserdados. A abordagem, também é a mesma: gerar bolsas de ódio contra indivíduos ou colectivos. Os temas escolhidos, são idênticos: queremos andar armados, a família está sob ataque (ideologia de género), os imigrantes aproveitam-se das facilidades das nossas sociedades e ficam com os nossos empregos.
Quando Bolsonaro foi eleito, em finais do ano passado, muitos analistas duvidavam que pudesse ser tão cretino, ao ponto de pôr em prática as ideias que defendeu antes das eleições. Um atentado, de que foi vítima durante a campanha eleitoral, poupou-o à humilhação nos debates, para os quais não estava manifestamente preparado. Um tosco, o Jair.
Nessa altura, as opiniões dividiram-se sobre o caminho que o presidente poderia seguir, quando fosse eleito: manter-se coerente com o seu discurso, contra tudo e contra todos, correndo o risco de ficar isolado; negociar com as bancadas dos sectores que o apoiam no Congresso, os tradicionais três "Bs" (Bala, Boi e Bíblia); ou decidir, de acordo com as matérias em discussão, tentando "surfar a onda" conforme os temas e os apoios. 
Menos de três meses decorridos sobre a tomada de posse, a presidência de Bolsonaro não podia ter sido mais errática. A tal ponto que, Olavo de Carvalho, um dos ideólogos do populismo brasileiro, já veio avisar que, caso o governo não melhore, o Brasil corre sérios riscos de um golpe militar. Lembremos, que os militares, têm 8 ministros no actual governo, mais de 1/3 do total de governantes. Os casos começam a ser muitos e demasiado graves para passarem em claro: Bolsonaro (a exemplo de Trump, de resto), começou por levar a família para o governo. Um dos filhos (governador do Rio) foi, entretanto, associado às mílicias para-militares, acusadas de matarem Marielle Franco, há um ano atrás. Os alegados assassinos, já foram presos, faltando esclarecer quem foram os mandantes. O outro filho, que faz parte do governo, depois do pai ter anunciado a proclamação da Lei de Porte de Armas, foi o primeiro a exibir uma arma, em vídeo divulgado nas redes sociais. O pai, não lhe ficou atrás e declarou, após o morte dos alunos da escola em Suzano, que dormia com uma arma debaixo da almofada. Não contente com isto, divulgou um vídeo de índole pornográfica, sobre os "desmandos" do carnaval carioca, que pode valer-lhe um "impeachment". Frequentemente, as suas declarações são emendadas pelos assessores e, não raro, os ministros têm de vir desculpá-lo pelas "gaffes" cometidas. Pior, era impossível.
Conforme escreve o "El País" de hoje: "Quando o presidente assinou um decreto para facilitar a posse de armas no Brasil, a professora Marilene Umizu, escreveu numa rede social: "Estamos a favor do porte de livros, que é a melhor arma para salvar os cidadãos na educação". No dia 13 de Março, a professora Marilene, era um dos sete corpos crivados de balas no solo da escola estatal Professor Raul Brasil, em Suzano, na região de São Paulo. Bolsonaro não é o responsável directo pelo massacre. Não premiu o gatilho. Mas, deve ser responsabilizado por apertar todos os dias o gatilho com as suas palavras e actos, perante 200 milhões de brasileiros, como fez durante a campanha em que imitava uma arma com os dedos".
Um dos seus assessores, Mayor Olímpio, chegou ao desplante de declarar que "se os professores estivessem armados, podia ter-se evitado a tragédia". Entretanto, o filho mais velho de Bolsonaro, senador eleito, já apresentou o primeiro projecto-lei: A autorização para instalar fábricas civis de armas e munições.
É este Brasil que convive com o genocídio da juventude (negros na maioria, as principais vítimas) e um índice de criminalidade de 63.000 mortos por ano (a maior do Mundo), para além do silêncio que continua a pairar sobre mais de 200 mortos desaparecidos durante a ditadura militar.
Nas conversações entre Bolsonaro e Trump, não foram estabelecidos acordos, mas intenções. Sobre instalação de uma base americana em Maranhão, sobre privatizações que facilitem a entrada de capital americano no país e uma política mais flexível de taxas aduaneiras, o que obrigará o Brasil a "abrir mão" do seu proteccionismo, em troca de entrada na OMC, na OCDE e, quem sabe, na NATO (!?). 
Não é pois de admirar que Bolsonaro, após o encontro com Trump, tenha declarado à Fox News que estava em sintonia com o presidente americano e que os imigrantes deviam ser impedidos de entrar no país, pois muitos deles eram criminosos.
É verdade. Os índios, que o digam!

 

2013/09/08

Foi você quem pediu uma guerra?

Barack Obama, certamente o mais prematuro Nobel da história da Academia Sueca, prepara-se para um ataque punitivo e cirúrgico à Síria, como retaliação pelas vítimas das armas químicas, causadoras de milhares de mortos entre a população civil. Não sabemos se as armas, proibidas pelas convenções internacionais, terão sido usadas pelo regime de Assad ou pelos rebeldes que o combatem, uma vez que os peritos da ONU, enviados para o terreno, ainda não divulgaram as conclusões da investigação em curso.
Também não parece haver grande apoio da parte da população americana, que é maioritariamente contra e, muito menos da Europa, que continua dividida sobre esta questão. O governo inglês, tradicionalmente o maior aliado das aventuras americanas no Médio-Oriente, viu a sua proposta ser chumbada pelo parlamento daquele país e, na Alemanha,  Merkel, certamente mais preocupada com as eleições, adiou a decisão para quando houver um mandato claro das Nações Unidas. Só Hollande parece, neste momento, apoiar inequivocamente Obama, mas também tem a população francesa contra.
Na recente cimeira do G20 em S. Petersburgo, o presidente americano tentou mais um “tour de force” junto de Putin, mas a Rússia, tradicional aliada da Síria, não lhe fez a vontade e pediu provas inequívocas sobre o uso das armas pelo governo de Assad, coisa que os EUA não têm...Vem agora a Sra. Ashford, uma espécie de ministra dos negócios-estrangeiros da UE, declarar que há um acordo de princípio assinado por 11 países europeus, no sentido de  apoiar a decisão de Obama em bombardear a Síria.
Entretanto, em Washington, o Nobel da Paz não desiste da sua ideia pacificadora e reiterou a vontade de ir para a guerra, mesmo que de forma unilateral, agora apoiado numa decisão positiva (que carece de ser rectificada) do Congresso.
Ou seja: queira a ONU ou não, queiram os principais aliados dos EUA ou não, queiram a maioria dos países da UE ou não, queiram as próprias populações da região ou não, nada parece demover o governo americano de levar por diante esta ideia fixa: punir o governo sírio  de forma exemplar. Não será uma guerra convencional, no sentido em que não haverá soldados americanos no terreno, mas haverá bombardeamentos cirúrgicos durante um tempo limitado, que pode ir de 2 a 3 meses. Acho sempre fantásticas estas previsões dos altos militares do Pentágono, que sabem como as guerras devem começar, mas nunca pensaram como estas podem acabar. Logo se verá, deve ser o espírito da coisa...
Pensava que os americanos tinham aprendido algo com as recentes fiascos no Iraque e no Afeganistão, mas, pelos vistos, “the smell of napalm in the morning” é mais forte do que a realidade. Como dizia alguém por estes dias, em Damasco, “o presidente Obama subiu a uma árvore e não sabe como descer dela”. É uma boa imagem.
De lamentar apenas que estas almas, sempre tão caridosas e pacíficas, não se tenham lembrado das armas químicas que foram usadas pelos mais diferentes regimes, a começar pelos americanos no Vietnam, por Sadam Hussein (então apoiado pelos EUA) na guerra contra o Irão ou, mais recentemente, na faixa de Gaza, por Israel, num ataque com bombas de fósforo. Onde estava o Nobel da Paz, nessas ocasiões? 

2012/08/06

Há 67 anos...

 

A 6 de Agosto de 1945, faz hoje portanto 67 anos, os E.U.A. lançaram a bomba atómica sobre Hiroshima. A bomba foi carinhosamente chamada de Little Boy. Seguiu-se a bomba sobre Nagasaki. Um crime hediondo, mil vezes repudiado, mas nunca expiado. 
O pior da espécie humana é, quanto a mim, a hipocrisia e o cinismo. Não há nada pior do que isto. O que a América mostrou, com este crime fria e deliberadamente executado, com esta Little Boy e a Fat Man que se lhe seguiu, foi este seu lado mais obscuro, que tanto avanço tecnológico e civilizacional não conseguiu contrariar. A sofisticação tecnológica e os avanços na organização da sociedade não foram suficientes para produzir outra resposta que não fosse a morte imediata de cerca de 250 000 pessoas, a maioria civis, e a morte lenta de mais uns largos milhares, posteriormente, devido aos efeitos da radiação. A resposta da sofisticada América ao conflito foi e continua a ser premir o gatilho. Não há nada de sofisticado nisto.
Hoje mesmo, uma sonda americana, a Curiosity, chegou a Marte com sucesso. "O mais sofisticado laboratório móvel que alguma vez aterrou noutro planeta" como referiu o presidente dos EUA. Quanto à sofisticação não tenho dúvidas e quanto à organização que a sociedade americana demonstra para conseguir esta proeza, também não me restam dúvidas.
Vamos é ver para que serve tudo isto. Vamos ver se no futuro, como há 67 anos, Curiosity doesn't kill the cat...

2011/10/07

Ainda a Apple

Ler tudo aquilo que tem sido publicado sobre a morte de Steve Jobs e sobre a sua obra na Apple, não deixa de me dar, em certos casos, uma imensa vontade de rir.
Lembro-me quando em 1983 (creio que terá sido nessa altura, não o posso confirmar com precisão) eu e o meu querido amigo Pedro M. Freitas nos deslocámos a uma loja que ficava ali para as bandas da Av. João Crisóstomo para ver uma novidade que me descreviam como "bombástica". Era o Apple Lisa. Lembro-me do Pedro ter imediatamente começado a sonhar com as possibilidades que um computador deste tipo oferecia para as suas arquitecturas e eu imaginava futuros sonoros que, não muito tempo depois, se começaram a poder concretizar de uma forma sólida e acessível, graças à Apple. O sonho era possível para mim e para o Pedro. Continuamos irmanados nesse sonho.
Lembro-me também que nos tempos que se seguiram, muita desta gente que hoje tece loas a Steve Jobs, criticava a Apple por produzir computadores que pareciam brinquedos caros, com voz fininha, penugem e a cheirar a puberdade, ao contrário dos "compatíveis" que falavam grosso, tinham barba rija e pelos no peito. Usar computadores a sério era usar "Pc's" e homem que era homem usava DOS. Em vão a gente tentava explicar que alguns dos "defeitos" da Apple acabavam por ser virtudes. O sistema operativo era inovador (a metáfora, computers as theatre...), bastante mais blindado, mais fácil de usar, mais intuitivo e o facto de só correr nos Macs era uma vantagem porque tornava a sua operação mais fluida e menos sujeito às incompatabilidades de que sofriam os "compatíveis". O utilizador de Pc's olhava para nós com ar de comiseração e lá seguia na dele, enquanto nós seguíamos na nossa.
Até que um dia chegou uma coisa chamada "windows"... Uma vergonha tão grande que, segundo creio, foi retirado do mercado após uma primeira tentativa de o comercializar. Só lá para uma versão mais adiantada a Microsoft teve a lata de o voltar a colocar no mercado. Os valentes utilizadores do DOS exultavam com a possibilidade de fazer agora coisas que os utilizadores dos Mac's faziam há anos. Como utilizar um rato, por exemplo... Lembro-me das sessões de tortura que foram as primeiras tentativas de usar um rato num PC.
O "windows" era uma cópia descarada, mal enjorcada e retardada do Mac OS original, que já levava, nesta altura, um avanço ainda maior, proporcionado por muitas versões e aperfeiçoamentos que o foram tornando cada vez mais fácil de usar e eficiente. Só o preconceito impediu durante anos que determinadas aplicações informáticas comuns corressem no sistema operativo Macintosh. O preconceito ou o medo de que funcionassem melhor, como se veio depois a confirmar.
A verdade é que, eu pessoalmente, em quase 30 anos de utilização de produtos da Apple, nunca tive um vírus, um "crash", ou um problema de incompatibilidades ou dificuldades de instalação de periféricos, para além dos que me foram causados por "nabice" minha ou incompetência da EDP... O melhor sistema operativo, as melhores e mais inovadoras aplicações sempre foram as dos Macs. Para já não falar na sua beleza e na sua sempre exigente e comprovada correcção ergonómica.
Um outro aspecto que não tem sido suficientemente valorizado é que a inovação do conceito Apple criou ferramentas que inspiraram novas actividades e revolucionaram outras. Os Macs "inventaram" o desktop publishing. O mundo da multimédia e o seu potencial como nova ferramenta pedagógica e de escrita, estavam já presentes num simples processador de texto como o MacWrite e no, certamente já esquecido,  mas importantíssimo HyperCard. O tão badalado iPad é um longínquo herdeiro desta aplicação comercializada em 1987. Até as análises de DNA só eram possíveis em plataformas Apple.
E nem vale a pena falar no espantoso NeXT.
No princípio poucos compreendiam a visão de Jobs, o desígnio da Apple e o rumo que ele queria imprimir à companhia. Os primeiros produtos da Apple não foram propriamente estrondosos sucessos comerciais. Mas, a lógica da marca foi-se tornado clara, os cépticos foram-se muito lentamente rendendo e a Apple acabou por chegar à posição dominante que é a sua hoje. São todos estes, velhos utilizadores e outros recém convertidos, que agora lamentam o desaparecimento do homem que inspirou tudo isto.
Mas, creio que é forçoso reconhecê-lo, a Apple perdeu. Nesta querela  entre a lógica de uma informática ubiquitária, útil, para todos, e uma informática secreta, para informáticos e generais... ganharam os generais. A Apple perdeu tempo, recursos e energias e perdemos,  também, todos nós, com isso. A lógica sem compromissos da Apple foi durante muito tempo subjugada pela lógica badalhoca da Microsoft.
Hoje a situação inverteu-se. Mas, hoje também há quem pergunte para onde vai a América, agora que a inovação mora noutras paragens e os seus líderes empresariais e trabalhadores mais criativos desaparecem, ou migram para novas paragens, e a sua capacidade de inovação parece desvanecer-se no tsunami do caos económico. Talvez a estéril querela entre estes dois conceitos de aplicação de uma área em que os EUA dominaram —sem rival à altura, mas na tal lógica da badalhoquice— ajude a explicar um pouco a situação que por lá se vive hoje. A Apple acabou por ganhar, mas talvez tarde demais para que o seu país de origem possa colher dividendos sérios.
Mas, que dá vontade de rir ver muita desta gente a fazer o panegírico de um personagem que verdadeiramente nunca compreenderam (imaginem o dr. Cavaco!!) e continuam a não compreender, lá isso dá...

2011/08/15

À deriva

Nunca o marxismo, na sua tendência grouchista, foi tão pertinente. No registo do pensamento marxista-grouchista há, recordar-se-ão, aquele célebre telegrama enviado à direcção do exclusivíssimo Friar's Club de Beverly Hills, em que Groucho Marx pede a demissão porque, justificava ele, "não quero pertencer a um clube que me aceita como membro."

O ministro das finanças alemão diz-se contra o que ele chama de "apoio ilimitado" aos países afectados pela crise da dívida soberana. Diz-se também contra as chamadas eurobonds. A França ajuda à missa. Em contraponto, parecem existir sectores do governo alemão que admitem as eurobonds. A Itália aperta o cinto. A Espanha tenta acertar na fivela. Em Inglaterra surgem vozes preocupadas. Os efeitos da propagação da crise da dívida irão certamente repercurtir-se seriamente neste país. As reformas operadas em Inglaterra, mesmo com esta fora da zona euro, correm o sério risco de esbarrar contra a evolução da crise da moeda única. A Inglaterra está, por tabela, em risco de ter de calçar os motins e deslizar por aí fora.

O desafio para a Europa não está na forma de lidar com a dívida dos Estados Unidos, mas na inabilidade da Europa "Desunida" para resolver a sua própria crise. Ninguém parece estar a salvo, o perigo de desagregação é iminente. Mesmo assim, ninguém parece conseguir entender-se. A imagem que fica é a de uma Europa totalmente à deriva. Entretanto, George Soros e outras vozes sugerem que a Grécia e Portugal deviam sair da zona euro.

A Europa aceitou Portugal, Grécia e Irlanda como membros dos seu Friar's Club. Está porventura na hora de levar a tese marxista-grouchista mais longe: estes países não deveriam permanecer num clube que os aceitou como membros. Sair agora seria, para nós, um acto de higiene elementar. Uma espécie de triunfo dos "pigs".

A saída provocaria, estou certo, um debate sério, externo e interno, em claro contraste com a falta de debate sobre a entrada e sobre o pecado original da falta de democracia do projecto europeu. A saída permitiria ouvir os europeus sobre o que pensam sobre a Europa, sobre o euro, sobre os alargamentos passados e futuros (se é que pensam alguma coisa), sobre a sua noção de "comunidade". A saída levaria, estou certo, a reflectir  sobre o modo como vai sobreviver a Desunião Europeia, agora que o poder mora lá longe, agora que é mais claro o modo como a Europa alicerçou a sua riqueza, agora que a América tem mais com que se preocupar, agora que a vantagem cultural europeia se esvaiu.

2011/05/03

Uma história mal contada

De acordo com as informações divulgadas pelo governo americano, o inimigo nº 1 dos EUA terá sido morto ontem durante um "raid" da unidade especial de fuzileiros "Navy Seals", numa operação militar que durou 40 minutos e acabou 11 horas mais tarde, no mar alto, com o funeral de Bin Laden. Muito profissional.
Vamos admitir que tudo se passou como relatado nos jornais. Porque é que os EUA não produziram, até agora, provas insofismáveis da morte de Bin Laden?
Três hipóteses:
1) A operação correu bem (neutralização de Bin Laden) e o governo americano aguarda apenas o melhor momento (campanha eleitoral de Obama) para divulgar as provas que possui.
2) A operação correu mal (morte de Bin Laden) e o governo americano necessita de construir uma versão mais verosímil para a opinião pública.
3) Bin Laden estaria morto há muito tempo e havia que "matá-lo" em tempo útil (antes da retirada do Afeganistão).
Pois não faz sentido que os EUA soubessem (desde Agosto) que Bin Laden vivia naquela casa e os serviços secretos paquistaneses o não soubessem. Da mesma forma que não faz sentido que esta operação fosse feita à revelia do governo paquistanês, que teria sempre de ser informado do que ia passar-se. Também não se percebe a pressa em desfazerem-se do corpo, prova última de que tinham capturado a presa mais desejada. Fizeram-no no passado com Che Guevara (exposto ao Mundo em 1967 na Bolívia) e, mais recentemente, com os filhos de Sadam depois de terem sido mortos e com o próprio Sadam Hussein, a sair de um esconderijo e a ser analisado por um médico no Iraque.
Sabemos que os tempos e os governos (americanos) são outros. Mas, também sabemos que, desde 2001, Bin Laden não era visto e que a sua influência na estrutura do Al Qaeda era considerada diminuta, seja porque estava em fuga, seja porque estava morto...
Se não estava morto, foi agora morto. Ou, como bem lembrou um comentador televisivo, pode estar vivo e a ser interrogado, mas será sempre morto. Por isso, os EUA podem ter avançado a história do corpo lançado ao mar a partir de um porta-aviões, pois ninguém o poderá refutar.
A CIA o criou, a CIA o matou. End of story.

Adenda: ler, a propósito deste caso, o artigo de Tariq Ali, publicado no "The Guardian" online com o título: "Bin Laden'dead: Why killing the goose?" (na coluna à direita do blogue), onde este autor explica porque Bin Laden ainda não tinha sido entregue pelo governo paquistanês.

2010/11/20

Há mais vida para além da NATO

Preparada com meses de antecedência, a Cimeira da NATO encerra em Lisboa um ciclo iniciado em 1949. Criada em plena "Guerra Fria", com o objectivo de defender os interesses aliados, a NATO funcionou sempre como elemento dissuador do poderio militar soviético organizado em redor do Pacto de Varsóvia. Com a implosão do Bloco de Leste, e consequente derrota do modelo socialista russo, a organização levou tempo a posicionar-se num Mundo que deixara de ser bipolar para tornar-se multipolar. Durante mais de uma década os militaristas americanos pensaram que eram donos do Mundo. O "11 de Setembro" e as guerras longínquas que se seguiram - Afeganistão e Iraque - obrigaram a organização que, supostamente, fora criada para defender os países do eixo Norte Atlântico, a deslocar-se para regiões que não controlava. Os resultados estão longe de satisfazer os estrategas do Pentágono e os tradicionais aliados europeus têm cada vez mais dificuldade em acompanhar as aventuras expansionistas americanas, vítimas da sua própria ignorância. Há muito que o inimigo principal deixou de ser a Russia e os inimigos actuais não estão organizados em pactos militares apoiados em exércitos tradicionais. Como constatam os politólogos de sofá, o inimigo é hoje "transversal" (está em todos os continentes e em nossa casa) e não pode ser apenas combatido com bombardeamentos massivos ou divisões militares blindadas. Os fiascos do Iraque e do Afeganistão, comprovaram uma lição que a História já nos tinha ensinado. Mais cedo, ou mais tarde, um exército tradicional estrangeiro, por mais bem preparado que esteja, perde sempre contra uma guerrilha nacionalista bem organizada. Foi assim na Coreia, na Indochina, na Argélia, no Vietnam, nas colónias portuguesas de África ou, mais recentemente, no Iraque e, tudo indica, no Afeganistão.
Perante a evidência dos factos, restava à NATO acabar ou mudar. À falta de melhor alternativa (os EUA não abdicam do apoio dos aliados e a Europa não dispõe de exército próprio) restava a mudança. É esta nova era que agora se inicia em Lisboa. Resta saber se a "guerra psicológica" e conquista da opinião das populações afegãs, que a NATO se propõe fazer, dará alguns frutos. Com o histórico conhecido (nove anos de lutas infrutíferas e o apoio a líderes corruptos como Karzai) não é de esperar mudanças significativas naquela região.
Uma coisa é certa: Lisboa voltará, amanhã, a ser uma cidade mais livre e sem a paranóia securitária que caracterizou este fim-de-semana. Os seus cidadãos poderão concentrar-se nos verdadeiros problemas que afligem a sociedade portuguesa; esses, sim, preocupantes para o nosso futuro imediato. Porque há mais vida depois da cimeira...