2025/12/04

Taxi Driver (44)

Um verdadeiro marco, político e universal. Jafar Panahi, diretor de FOI  APENAS UM ACIDENTE, para a New York Magazine. Nos cinemas a partir de  quinta-feira. Um Lançamento MUBI em parceria com a

Boa tarde. Até é para admirar não haver nenhum táxi na praça... 

- De facto. Já aqui estou há mais de 20 minutos. Vamos para a Augusto Aguiar, mais precisamente para o "Corte Ingles".

Hoje, o trânsito nem está muito mau. O pior, é na Praça de Espanha (no rádio, ouve-se música clássica). 

- Pois, costuma ser. Dezembro é mês de compras e as pessoas guardam tudo para a última hora...

É tudo ao mesmo tempo: são as compras, os carros na cidade e o próprio "Corte Ingles", que atrai muita gente, para não falar nos cinemas...

- Por acaso, vou para um dos cinemas, mas estou com tempo. Ainda falta meia-hora...

Também gosto de cinema, mas nunca vou às salas do "Corte Ingles". Prefiro o Nimas ou o Ideal. Têm melhor programação. Ou, então, a RTP2.

- Eu também prefiro o Nimas e o Ideal. Raramente vejo cinema no "Corte Ingles", a menos que esteja em exibição um filme que me interessa especialmente.

Então, o que vai ver, se não é indiscrição?...

- Vou ver o último filme do Jafar Panahi, um realizador iraniano de que gosto muito. Conhece?

Ah, "Foi só um acidente"! Esse ainda não vi, mas vi outros filmes dele, "Táxi", "Ursos não há"...Muito bom. Só está em exibição nesta sala? 

- Deve estar no Ideal, que distribui os seus filmes através da Midas.

Ir ao Ideal, para mim, é um pouco complicado. Fica no centro da cidade e é difícil arranjar lugar para o carro. Prefiro ir à Cinemateca, onde há sempre bons filmes...

- Também sou sócio (amigo) da Cinemateca. As sessões são baratas. Não há melhor, para ver os clássicos. E depois, sempre ajudamos um bom projecto.  

Na RTP2 e na RTP-Memória, também passam muitos clássicos. Vi há pouco tempo um ciclo do Pasolini, onde passaram o "Accattone" e o "Mamma Roma", que não conhecia...

- Ah, sim, com a Anna Magnani. Um clássico. Já vi, vai para uns bons anos. Pasolini, sempre!

Também passaram um ciclo do Fassbinder, de que gostei muito. Viu?

- O ciclo de Fassbinder não vi, mas conheço quase toda a sua cinematografia. Muito bom, claro. 

E houve, há pouco, um ciclo do Visconti. Ainda vi "A Terra Treme" (La Terra Trema). Já viu? 

- Sim, claro. O Visconti é o meu realizador italiano preferido. Vi todos os seus filmes.

Há, cada vez, menos salas e menos bons filmes. Se não forem as plataformas ou a cinemateca...

- Pois é. O cinema já teve melhores dias. O pessoal, agora, vai mais ao cinema para comer pipocas...

É por isso que eu detesto ir às salas do "Corte Ingles"...só o cheiro!

- Estamos de acordo. Bom, parece que estamos a chegar...

Está a ver o trânsito? Indo pela Praça de Espanha, nunca mais saímos daqui... Proponho irmos pela Avenida de Berna, contornamos a Gulbenkian e deixo-o do outro lado, mesmo em frente ao Corte Ingles. Está de acordo? Assim, não perde a sessão das quatro e meia...

- Certo. Vamos lá, então. 

Boa tarde e bom filme! 

2025/12/02

Uma Safra Vergonhosa

Repentinamente, o país real "descobriu" uma rede de tráfico humano, existente na região de Beja, dirigida por elementos da GNR e da PSP, que controlavam e exploravam uma comunidade imigrante calculada em cerca de 500 pessoas! 

Grande escândalo, como é natural, com direito às parangonas habituais dos jornalistas de serviço, que só descobrem coisas visíveis a "olho nu", quando a polícia decide intervir e, mesmo esta, só após denúncia de um dos familiares das próprias forças de ordem (!?).

Tudo isto era previsível, mas como os portugueses são lentos a reagir e a prevenção não faz parte da cultura nacional, sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, íamos ser confrontados com um aumento da imigração ilegal, agora que a Lei de Imigração foi alterada e proibida a entrada a imigrantes que procuram trabalho.      

Ou seja, a partir do momento em que o actual governo, para agradar à extrema-direita, decidiu revogar a Lei do governo anterior, sabíamos que o fluxo imigratório não iria abrandar, mas tornar-se ilegal, já que os patrões continuam a necessitar de mão-de-obra nos sectores onde os portugueses não querem trabalhar. Um maná para as máfias, portuguesas e estrangeiras, que operam entre as comunidades imigrantes e para os patrões que, deste modo, mais facilmente podem explorar os estrangeiros sem papéis e sem direitos. 

A situação denunciada (centenas de trabalhadores rurais, a viver em condições sub-humanas, controlados e chantageados por elementos policiais) é por demais vergonhosa para passar em claro. Tudo isto existe há anos e não faltaram avisos de organismos diversos, que denunciam as práticas mafiosas na região. Trata-se de extorsão e exploração de uma população, calculada em dezenas de milhares de imigrantes, a maioria de origem asiática, que sazonalmente trabalha na agricultura e nas estufas do Baixo-Alentejo. De resto, basta ir a Beja ou a qualquer localidade limítrofe (Odemira, São Teotónio, Aljezur, Vila Nova de Mil Fontes...), para confirmar o óbvio: extensões de estufas, a perder de vista, donde saem e entram imigrantes que trabalham de sol a sol, na apanha de frutos vermelhos. Um trabalho sujo e mal pago, para a qual não há trabalhadores, o que obriga os empresários locais a contratar imigrantes, dispostos a aceitar as condições oferecidas (salários miseráveis, alojamentos colectivos em condições deploráveis e desprovidos de qualquer apoio ou segurança social, etc.). A escravatura moderna, num país da União Europeia. 

Acontece, que não há inocentes nesta história. Desde logo, os donos das herdades, que beneficiam deste regime de sub-contratação ilegal, o que lhes permite pagar salários abaixo da lei; depois, os "intermediários" (neste caso, os próprios policiais) que, a coberto da cumplicidade gerada, fornecem os empresários de mão-de-obra dócil e desconhecedora dos seus direitos; os proprietários de imóveis devolutos, que ganham fortunas com o aluguer de colchões amontoados em habitações sem condições da salubridade; os comerciantes da zona, que nunca fizeram tanto negócio e, por último, as próprias forças de segurança, que conhecem e "fecham os olhos" à ilegalidade, dado que muitos deles beneficiam da situação. Resta acrescentar, que os autarcas da região não são menos inocentes e que organismos como a AIMA ou a ASAE, não estão isentos de responsabilidade. Uma verdadeira "conspiração de silêncio", que parece não incomodar toda esta gente, beneficiária de um "negócio" escabroso, que nos devia envergonhar a todos. Mas, não. O governo assobia para o lado, o MP iniciou um inquérito com vista a apurar responsabilidades e, entretanto, a GNR já libertou a maior parte dos suspeitos que aguardam julgamento em liberdade provisória. O costume, num país de "brandos costumes", que se indigna com "burkas" (inexistentes na sociedade portuguesa), mas prefere fechar os olhos à exploração a que são sujeitos aqueles que fazem os trabalhos que recusamos fazer. No fundo, um país de ignorantes cobardes, que saíram do fascismo, a ideologia da qual nunca se libertaram.