2026/08/10

Ceuta: a quem interessa a crise actual?

Mais de uma semana após os "acontecimentos" de Ceuta, torna-se cada vez mais claro a quem interessa explorar uma crise que, só aparentemente, é uma surpresa, conhecendo o histórico que, de há anos a esta parte, tem sido uma constante nas migrações africanas para a Europa.  

Pensar que as correntes migratórias - que sempre existiram - são um fenómeno recente ou a consequência do laxismo das instituições europeias é, obviamente, uma assumpção naive de quem nunca compreendeu ou quis compreender, as razões profundas das correntes migratórias que há séculos cruzam continentes. Um fenómeno milenário, a migração de populações que procuram um melhor lugar para as suas vidas, no passado e na actualidade, como é sabido...

No caso de Ceuta, o fenómeno só espantou pelo número de envolvidos, uma multidão (na sua maioria de nacionalidade marroquina), calculada em 70.000 pessoas, que tentou atravessar a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, situado em África. Dado que os migrantes vieram a nado, puderam entrar no enclave (território sob a juridição espanhola), pensando que essa via lhes garantia a entrada em Espanha. Esta é, pelo menos, a versão "oficial" da invasão. 

Acontece que Ceuta, sendo um enclave espanhol, tem um estatuto autónomo e não faz parte de Schengen, tratado subscrito por 19 países europeus, entre os quais Espanha. Dito de outro modo: entrar em Ceuta, não é o mesmo que entrar em Espanha, ou seja, não significa entrar na Europa. São necessários documentos válidos para passar a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol e, uma vez dentro, só com passaporte é possível atravessar para Espanha, onde o viajante é sujeito a novo controlo, uma vez que está  noutro continente. Simples na sua essência, demasiado complexo para os seguidores do Tik-Tok (maioritariamente analfabetos funcionais) que pensam que o que vêem é verdade... 

Na admira, pois, que as primeiras reacções tenham sido das "virgens ofendidas" do costume, que logo se apressaram a culpar o governo espanhol pelo sucedido (como é possível ter deixado entrar dezenas de milhares de pessoas em Ceuta?). 

Era expectável. A "internacional fascista" (Trump, Farage, Meloni, Abascal, Ventura...) apressou-se a culpar Sanchez, o maior empecilho europeu às políticas hegemónicas dos EUA (com fortes interesses económicos em Marrocos) e de Israel (que não perdoa a Sanchez, a crítica ao genocídio em Gaza), desta vez em conluio com o corrupto monarca de Marrocos, que em 2021 já tinha apoiado uma invasão semelhante.

Uma vergonha civilizacional, a que muitos políticos da extrema-direita europeia aderiram, pensando poder tirar dividendos da invasão de Ceuta e acenando com o espantalho da "invasão do continente pelos bárbaros do Sul" que, até ao momento, já terá provocado mais de 100 vítimas. 

Acontece que, dos 70.000 jovens que entraram e Ceuta, a esmagadora maioria já regressou a Marrocos. Os restantes são menores ou africanos oriundos de países do Sub-Sahara. Enquanto o  primeiro grupo aguarda o regresso às respectivas famílias em Marrocos; o segundo grupo, constituído maioritariamente por habitantes do Sudão, Yemen, Etiópia, Somália, Mali, etc., não é de imigrantes regulares, mas de refugiados que, dada a situação de guerra e devastação nos respectivos países, pode solicitar o estatuto de exilado político (como os portugueses, que recusaram a guerra colonial, fizeram).

Ou seja, a Espanha, de forma humanitária, cuidou de todos estes casos e resolveu, em pouco mais de uma semana, a maior parte dos problemas gerados pela invasão. 

Por isso, não têm razão aqueles que culpam o governo espanhol por ineficiência na proteção das fronteiras, face a esta invasão orquestrada a partir de Marrocos - através das redes sociais e promovida por intermediários mafiosos que, diariamente, lucram com o desespero de milhares de explorados. São estes os "negreiros" do Mundo actual que, com a cumplicidade de políticos hipócritas, como Meloni e Abascal, lucram com a ilegalidade da emigração clandestina.  É tempo de Bruxelas procurar uma solução conjunta para o problema e deixar de criticar um dos poucos dirigentes europeus, digno do epíteto de estadista que, ao contrário da maioria dos governantes europeus, não se esconde atrás de proclamações hipócritas. Chama-se Pedro Sanchez e é bom que se saiba. 

2026/08/05

Tanger: uma semana noutra cidade (2)

Para quem tem pouco tempo e deseja visitar locais fora da cidade, as melhores opções são as excursões, marcadas com antecedência, ou o táxi privado, que exige um acordo prévio com o condutor sobre o destino e o preço final. Não há taxímetro. A distância e a duração da viagem, são os únicos critérios. 

Porque a ideia era intercalar Tanger, com visitas a Asilah e Chefchouan/Tetuan, pedimos um táxi e, nos dias e horas aprazadas, lá estava o condutor à porta do hotel. 

Jallah, é um veterano com 40 anos de condução que, para além de conhecer o país como as suas mãos, fala 4 línguas (árabe, espanhol, francês e inglês) e utiliza um sinónimo para cada palavra que não compreendemos. Nascido e criado em Tanger, fala-nos da sua juventude, do clube onde praticou futebol e dos ídolos do jogo que ainda pratica e o apaixona. Um "expert", que conhece bem Ronaldo e a seleção portuguesa, mas prefere Lamine Yamal, de origem magrebina e recente campeão do Mundo. Para além do desporto-rei, é um profundo conhecedor dos locais que visitámos, com sugestões sobre os melhores percursos, os melhores mercados, as melhores lojas e os restaurantes onde melhor se come. Uma enciclopédia, o Jallah.

A primeira cidade, Asilah (Arzila, em português) é uma antiga praça forte portuguesa (1471-1550) na costa atlântica, a cerca de 45 minutos de Tanger. A Medina, dentro de muralhas e o brasão sobre o portão principal da vila (Bab Al Homar) recordam a passagem de Portugal por estas paragens. De um branco alvíssimo, intercalado por garridas cores, com predominância do azul, Asilah lembra a Ericeira, com os seus becos floridos e limpos, onde "pintores de domingo" expõem os seus quadros. Uma agradável surpresa.

A segunda viagem, bem mais longa, permitiu conhecer duas cidades distintas: Chefchouan e Tetuan, visitas obrigatórias em qualquer roteiro turístico. Chef ("olhar") Chouan ("os picos") é, consensualmente, considerada a cidade mais bonita de Marrocos. A duas horas de Tanger, encravada entre as montanhas do Rif, revela-se à medida que deixamos a costa e iniciamos a subida em direcção à cordilheira. Entramos no Marrocos profundo, agreste e duro como as suas gentes, envoltas em longos kaftans e chapéus berberes tradicionais, enfeitados com borlas de variadas cores. Uma festa para os olhos. Percorremos as ruas estreitas do mercado de vegetais e de fruta, onde os agricultores vendem os seus produtos, expostos em tapetes no solo. Enquanto Jallah avalia o preço das sementes e das cebolas, caminhamos ao acaso pelas vielas estreitas, no meio do souk local, maioritariamente pintadas de azul. Sobre o azul das habitações, há duas explicações: arrefece as casas e afasta os mosquitos. Faz sentido. Um espanto, Chefchouan.

Na viagem de regresso, visitamos Tetuan, uma cidade marcada pela longa permanência espanhola, visível na arquitectura andaluza, na igreja católica que domina uma das praças principais e nas ruelas estreitas do centro histórico. O palácio real, situado na praça central, encontrava-se encerrado por barreiras e polícias armados. Jallah, sempre atento, informa-nos que o rei devia estar a chegar, pois pernoitava na cidade, este ano escolhida para as cerimónias comemorativas da coroação. Não sabia quando chegava, mas costumava viajar de noite. Esta informação, seria confirmada mais tarde pelo zelo com que centenas de funcionários, equipados com longas vassouras, varriam (!?) a auto-estrada que liga Rabat a Tetuan. Para além dos agentes da polícia, estrategicamente dispostos ao longo da via, um mar de bandeiras vermelhas nacionais, ondulava em todas as rotundas. Um cenário a lembrar regimes onde o culto da personalidade ainda existe.

À medida que a confiança com Jallah crescia, as suas opiniões tornaram-se mais "soltas". Aponta para as aldeias isoladas do Rif e comenta: "ninguém se preocupa com estas populações. Se adoecem, não têm quem os trate. Não há médicos. Têm de chamar uma ambulância que os leve a Tetuan, pela qual pagam 500 Dirhams (cerca de 50 euros). Uma fortuna. O salário mínimo nacional (SIC) é de 3500 DAM (cerca de 350 euros), mas os polícias e os militares ganham mais (cerca 4500 DAM) e têm vantagens sociais". Ele próprio, ganha menos que o salário médio, mas tem gorjetas. É casado e tem quatro filhos, todos a estudar. A mulher, que teve cancro, perdeu a mobilidade num braço devido a um AVC e não pode trabalhar. "Lá em casa toda a gente tem de trabalhar. Digo sempre aos meus filhos que a mãe já não tem a energia que tinha e devem ajudá-la. Se estudarem e terminarem os cursos, posso arranjar-lhes um bom emprego. Conheço muitos empresários e eles ajudam-me. Tenho um filho que passa o dia a olhar para o telemóvel. A juventude actual não tem nada na cabeça"...

As conversas, tornam-se mais confidenciais: "O rei, só constrói auto-estradas e estádios de futebol. O pai só construia barragens. Nenhum deles pensou no povo. Espero que o príncipe, cuide mais da saúde e da educação. Já era bom. Marrocos, podia ser um país rico, pois temos tudo: clima, praia, turismo, agricultura...". 

Jallah é um taxista informado, fruto da sua experiência e contactos. Confirma alguns dados, que eu conhecia de leituras prévias: Marrocos tem cerca de 40 milhões de habitantes (38,7 segundo o último censo), dos quais 50% são jovens. A taxa de desemprego actual, ronda os 11%, mas é de 37% entre os jovens (15-24 anos de idade). Os licenciados são cerca de 20%. Não há empregos e isso explica as sucessivas vagas de emigração, principalmente de homens jovens. As maiores comunidades vivem em Espanha, França, Bélgica e Holanda. Na Holanda (que conheço bem) a comunidade marroquina, já é a maior com 430.000 residentes (2,4% da população). Dada a situação actual, a diáspora tenderá a aumentar.

Falamos da praia de Tanger, em frente ao Boulevard Mohamed VI, onde aos domingos famílias inteiras passam o dia, naquela que é uma das formas de convívio mais populares. Milhares de homens, mulheres e crianças, em alegre convívio com as suas toalhas, guarda-sóis e farnéis abundantes. Refiro a diferença entre as mulheres que entram "vestidas" para a água e as que usam fato de banho. Como é?

Jallah, ri-se e explica: "Em Marrocos, as mulheres não são obrigadas a andar de Burka ou de Hijab. Tenho duas filhas e elas andam vestidas como querem. As mulheres que tomam banho "vestidas", usam o que nós chamamos "burkini" (palavra formada a partir de burka+bikini). São feitos de um tecido especial, impermeável. Não se molham..."

Marrocos é um mosaico. De cores, odores e sensações. Todos os dias, a cada esquina. Um povo delicado, atencioso e prestável. Toda a gente sabe algumas palavras de espanhol ou francês, mas os mais jovens falam inglês com fluência. Uma sociedade pós-colonial, que não perdeu a sua identidade. 

No último dia, Jallah fez questão de nos levar ao aeroporto. A terceira "corrida" em 4 dias. Desfez-se em agradecimentos. Deixa-nos o seu número de telefone. Para a próxima, vamos comer a sua casa. A mulher faz um  óptimo couscous.

 

  

   


 

 

 

 

2026/08/03

Tanger: uma semana noutra cidade


Nada como sair uns dias da habitual "zona de conforto" e observar o país real à distância, mesmo quando esta não ultrapassa uma hora de voo de Lisboa. Desta vez, a escolha recaiu em Marrocos.

Esta foi a terceira visita ao país magrebino, tão perto e, no entanto, "tão longe", como os dramáticos acontecimentos dos últimos dias vieram comprovar. Porque o calor africano não convidava a grandes incursões pelo Sul do país, a opção escolhida foi a costa norte (sul Mediterrânico), mais precisamente a cidade portuária de Tanger. Os dados meteorológicos consultados indicavam temperaturas máximas de 29º durante o dia, com noites cálidas de 21º em média o que, comparativamente com Lisboa, onde a temperatura ultrapassava os 40º naquela semana, mais parecia um verdadeiro "oásis" no deserto...    

Vista da janela do riad (uma bela mansão privada, convertida em hotel de charme) a costa espanhola observava-se a olho nu, já que a distância entre os dois continentes não ultrapassa os 30km. Ao início do dia, ainda envolta no nevoeiro matinal e, à medida que o Sol sobe, deixando adivinhar os recortes da acidentada costa andaluza. É, porém, ao final da tarde, que a luz reflectida no azul marítimo, tem o seu o apogeu, tingindo o céu de uma cor rosácea que tudo ilumina e tanto impressionou pintores e escritores europeus que aqui procuraram motivos para a sua inspiração. Percebe-se bem porquê.

De todas as cidades marroquinas, Tanger é, sem dúvida, a mais europeia. Por aqui passaram fenícios, romanos, franceses e espanhóis, deixando marcas indeléveis nas construções e hábitos ancestrais que ainda hoje perduram: na urbanização, nos jardins e nos bairros, cuja toponímia não engana: Place de France, Café Paris, Boulevard Pasteur, Alliance Française, Instituto Cervantes, Hospital Espanhol, Igreja Católica Espanhola... A privilegiada situação geográfica permite-lhe, ainda hoje, controlar a entrada e saída do tráfico marítimo entre o Mediterrâneo e o Atlântico, coisa que o governo marroquino explora a contento, agora mais do que nunca, dado o conflito de Ormuz.  

A cidade (cerca de 1,3 milhões) divide-se em duas áreas distintas: o centro histórico, do qual faz parte a Medina (cidade antiga) e, dentro desta, o Kasbah, (citadela, tradicionalmente habitada por famílias poderosas); e a cidade pós-colonial (la ville nouvelle) de construções recentes, hotéis e largas avenidas, onde se encontram as lojas de marca, bancos, museus, etc. De Tanger, parte ainda a primeira linha de TGV, recentemente inaugurada e que, por altura do próximo campeonato mundial de futebol, deve terminar em Casablanca, onde, neste momento está a ser construído o maior estádio do Mundo (115.000 espectadores). 

Porque o lado "moderno", tende a ser parecido em todo o Mundo, a nossa atenção e tempo foram essencialmente dedicados às incursões na cidade antiga, onde as ruas sinuosas e labirinticas não raramente nos confundiam os passos. Sempre me perdi, sempre me achei. Há um princípio, no entanto: as ruas que sobem, conduzem às portas da Medina (antigas torres guardadas, que eram encerradas durante a noite); as ruas que descem, conduzem às praças e ao comércio ao ar livre, os souks. É nestes maravilhosos mercados, onde tudo se vende e tudo se regateia, que o pulsar do quotidiano da cidade mais se sente. Também é na Medina, que encontrámos os melhores restaurantes e patisseries, de comer e chorar por mais... 

Em Tanger, visitámos diversos museus (Ibn Battuta, Museu de Arte Moderna, Villa Harris), com excelentes exposições de pintura e fotografia, anunciadas por toda a cidade. A cinemateca e o cinema Roxy, famoso pelo festival anual, exibem diariamente filmes legendados, oriundos dos mais diversos países. No bairro francês (quartier français), encontrámos duas das mais icónicas livrarias da cidade: Librairie des Colonnes e Les Insolites, visitadas pelos grandes nomes da literatura mundial. Foi na segunda, que deparámos com um livro do "nosso" cineasta João César Monteiro. Uma agradável surpresa. Mesmo em francês, não resistimos em trazê-lo. 

Que mais referir nestas notas, necessariamente impressionistas, de uma visita marcante? A vibração da cidade, a delicadeza das pessoas, a hospitalidade contagiante, as noites amenas, os programas de jazz da Radio Tanger ao entardecer, o chá de menta, os gatos...milhares de gatos de todos os tamanhos e cores, esquálidos e famintos, implorando por comida nos portais das casas. Eles são um dos ex-libris da cidade, verdadeiros resistentes numa sociedade onde a pobreza material não apaga a dignidade de uma população jovem, que ainda acredita em dias melhores, num país com futuro, apesar dos seus corruptos governantes.        

    

2026/05/22

Taxi Driver (47)

Observatório Nacional da Desertificação (OND)

Bom dia, para onde vamos? 

- Estação de Sete-Rios...

Já está calor. Ainda na semana passada chovia. Em dois dias, mudou o tempo...

- É natural. Estamos na Primavera. O tempo é mais instável. Este ano, vamos ter um Verão mais quente. 

Ai vamos, vamos...vem aí uma caloraça...

- Pois vem, e ainda estamos em Maio. Também já começaram os fogos. Isto, promete...

Os fogos...então não sabe que isso é um grande negócio? Ou acredita, nas notícias? 

- Também é um negócio, claro, mas não só. Tem a ver com a falta de prevenção atempada. O interior está deserto, as populações emigraram e só ficaram os habitantes mais velhos. Não há rebanhos, as florestas não são limpas e, depois, quando chega o Verão, o mato está seco e é fácil incendiar-se ou incendiá-lo... 

Isso é tudo uma grande treta! Se não há fogos, as empresas de combate aos fogos não ganham dinheiro e têm de fechar. Ainda há pouco tempo li que a maior empresa de avionetas e helicópteros tem 500 pessoas empregadas! Quinhentas pessoas, para quê? 

- Sim, é possível. Se calhar estamos a falar da mesma empresa do cunhado do ministro... 

Imagine um táxi. Se eu não tiver clientes, tenho de ir à procura deles... uns dias corre melhor, outros, corre pior. Uns dias dão para os outros. Com um empresa de helicópteros, é o mesmo. Se não há fogos, temos de ir arranjá-los! O combate aos fogos devia ser entregue à força aérea. O estado devia tomar conta disto. 

- O problema, é que os aviões e os pilotos da força aérea, não estão equipados nem foram treinados para combater fogos. Têm de ser pilotos treinados para o efeito...

Mas, podiam ajudar com os conhecimentos no terreno. Eu sou da Guarda e a minha família tem terras no alto das serras. Quando há fogos, os bombeiros nem lá podem chegar. Se for de noite, pior um pouco. Limitam-se a esperar que arda e, na manhã seguinte, vão lá os helicópteros deitar água...

- Eu sei, temos de apostar mais na prevenção e menos no combate aos fogos. Fogos, haverá sempre, mas podemos diminuir a sua intensidade. Por exemplo, compensando os agricultores com dinheiro pela biomassa acumulada nos terrenos ardidos. Os donos das terras limpavam os terrenos e vendiam a madeira e o mato recolhido às empresas de reciclagem que lhes pagava por hectare...

Ninguém já quer fazer isso. Sabe quanto custa limpar um hectare? Mais de 1000 euros! Quem é que tem dinheiro nas aldeias? Vão-se todos embora, para as cidades ou para o estrangeiro. Bem fez a minha filha que emigrou há 16 anos...

- Tem uma filha emigrada? Em que país? 

Está na Suíça. No cantão francês, perto de Genéve.

- Ah, muito bem. E ela gosta? 

Gosta, claro. Ao princípio, foi difícil. Ainda tivemos de ajudá-la, porque não falava a língua e só lhe davam trabalhos sujos (limpezas em casas particulares, restaurantes, hotéis...), já sabe como é, os emigrantes, quando vão para o estrangeiro, sujeitam-se a tudo. 

- Sei, sei. Também estive emigrado...

Então, deve saber. Mas ela tem uma grande força de vontade. Aqui era contabilista e não descansou enquanto não voltou à profissão dela. Estudou francês, fez um curso de contabilidade na Suíça e, passado pouco tempo, já tinha arranjado emprego numa firma e, entretanto, foi promovida e tudo. Casou com um português, tem dois filhos e nem quer ouvir falar de Portugal...

- Muito bem. Que idade tem a sua filha? 

Tem 36 anos. Uma "leoa"! Vem cá todos os anos de férias...

- E o senhor, já lá foi visitá-la? 

Já, sim senhor. Duas vezes. Gostei muito. Aquilo é que é um país civilizado! Nada que se compare ao nosso que é uma sujeira!

- Nada de comparável. Também conheço bem Genéve e parte do cantão francês. Um país simpático. 

Pois, mas para nós é difícil não ter cá a filha e eu já sou muito velho para emigrar... 

- Imagino. Bom, ficamos por aqui. Boa sorte e até um dia destes...

Bom dia e obrigado. 

2026/03/27

Generais de sofá (a guerra lá longe...)

Agora que a guerra parece estar "na moda", não há bicho careto que não venha aos estúdios televisivos mostrar a sua sapiência em geoestratégia e armamento sofisticado, coisas só ao alcance de mentes esclarecidas, que não se cansam de afirmar que a guerra está por um fio e que os vencedores serão (quem duvida?) os combatentes do "bem". 

Chamam-lhe "comentadores" e há-os de todas as matizes e plumagens. Uma coisa, parecem ter em comum: os combatentes do "mal" são, invariavelmente, russos, muçulmanos ou chineses, que também não são de fiar. Bons mesmo, são os americanos, mesmo quando sabemos que já provocaram centenas de guerras desde que existem como nação e que têm mais de 800 bases militares espalhadas pelo Mundo. Tudo para defender a democracia e a paz, claro.

Já os portugueses sempre foram anti-russos (48 anos de fascismo deixaram marcas). Acresce que os portugueses saíram dos fascismo, mas o fascismo não saiu da cabeça dos portugueses. Faz sentido: não basta mudar a Constituição para passarmos a ser democratas. Estas coisas são culturais e levam gerações a mudar. 

Com as recentes crises (subprime, covid, guerras...) a situação agravou-se e os velhos "fantasmas" voltaram, agora apelidados de "populistas" (um eufemismo para neo-fascistas mascarados de revoltados contra o sistema). Nada de muito novo aqui, já que o fascismo volta sempre, ainda que nem sempre seguindo os mesmos métodos. 

De todos os "combatentes pela liberdade", os militares são um grupo à parte. Destacam-se os generais, uma "casta" privilegiada, que raramente dá o corpo às balas, mas que manda os jovens para a frente da batalha, morrer em nome da pátria (!?).   

De há quatro anos a esta parte (Ucrânia) que os canais televisivos, estão enxameados de "experts" militares, para nos explicar a arte da guerra. Uns, porque dela nunca saíram e sofrem de stress pós-traumático (o Lobo Antunes explica); outros, porque têm pouca utilidade na vida civil e, já que não podem ganhar as estrelas de generalato nos campos de batalha, tentam compensar a inactividade com comentários no sofá. 

É fazer as contas: 4 anos de guerra (já são 3 guerras, entretanto...) a comentar diariamente os avanços das "tropas russas", pagos em avenças chorudas, sempre dá um bom pecúlio. 

E ainda dizem que a guerra não compensa...

2026/03/14

Foi você que pediu uma guerra?

Há duas semanas que o Médio-Oriente é palco de uma das mais devastadoras guerras em que a região tem sido pródiga. 

Desta vez, a razão invocada, para atacar o Irão, seria a alegada existência de capacidade nuclear daquele país. Dito de outro modo: o crescente programa de enriquecimento de urânio, levado a cabo pelo governo iraniano, faz suspeitar que o Irão possa fabricar bombas nucleares muito em breve e, com isso, ameaçar os países vizinhos. 

Esta é, pelo menos, a teoria de Netanyahu, que há mais de cinquenta anos se esforça por "provar" que o Irão está em vésperas de fabricar uma bomba para aniquilar Israel...Se é verdade ou não, ninguém pôde assegurar, ainda que os iranianos continuem a afirmar que o urânio enriquecido se destina a fins pacíficos e os israelitas (secundados pelos americanos), afirmem o contrário. 

Durante muitos anos a dúvida subsistiu, até que, no consulado de Obama, o presidente americano convenceu o Irão a assinar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (2015). Esta situação permitia a inspecção e controlo periódico da IAEA (Agência Internacional de Energia Atómica) às reservas de urânio iranianas. O "Mundo" pareceu aliviado, ainda que os ataques perpetrados contra Israel por parte dos "proxis" do Irão (Hamas, Hezbollah, Houthis...) fossem frequentes.

Com a chegada de Trump ao poder, o acordo EUA/Irão foi abandonado unilateralmente (2018) pelos EUA. A partir daí, o Irão sentiu-se "livre" para continuar com o programa de urânio, que dura até hoje. Ou seja, não foi o Irão que abandonou o Tratado de Não-Proliferação, pelo qual se obrigava a permitir inspecções da IAEA, mas o governo americano. 

Com o regresso de Trump ao poder, Netanyahu, a contas com um processo judicial (que pode levar à sua destituição e prisão por corrupção, além de um mandato de captura emitido pelo TIJ) viu aqui uma oportunidade para reiniciar a sua "velha" guerra e obsessão: derrotar os Ayatollas. Agora, com o apoio dos EUA. 

Em Junho passado, houve uma primeira tentativa para destruir as centrais iranianas, naquela que ficou conhecida pela "guerra dos 12 dias". De acordo com Trump, o ataque tinha corrido tão bem que as centrais nucleares tinham sido completamente "obliteradas" (!?). Não teria ficado "pedra sob pedra", pelo que levaria anos até o Irão ter capacidade para fabricar bombas atómicas...

Depois desta guerra, as partes voltaram ao diálogo e recomeçaram as conversações com vista a controlar os ímpetos belicistas iranianos. Eis senão, quando, durante as reuniões entre os EUA e o Irão para estabelecer um novo acordo, os EUA/Israel decidem iniciar uma guerra, a que o presidente americano chamou de "preventiva". Uma guerra ilegal, à margem do direito internacional e condenada pela maioria dos países democráticos. 

É aqui que estamos. 

Porque a situação, para além de perigosa, raia a insanidade dos actores envolvidos, vale a pena relembrar algumas das declarações dos responsáveis americanos, nas duas últimas semanas:  

28 de Fevereiro (Trump): "Eles nunca poderão ter uma arma nuclear. Nunca".       

2 de Março (Marc Rubio): "Os EUA foram informados que Israel estava a preparar um ataque ao Irão e decidiram atacar "preventivamente". 

3 de Março (Marc Rubio, perante a imprensa) "foram os EUA a pressionar Israel para atacar".   

3 de Março (Trump): "Nós esmagámos o inimigo. A capacidade de "drones" e mísseis do Irão foi completamente destruída".

9 de Março (Trump): " A marinha do Irão já não existe. A aviação não existe. Podem render-se ou lutar até não terem mais homens". Ao NYT, Trump declara que tinha 3 boas opções (interlocutores) para negociar a rendição, mas que, entretanto "já tinham morto o Ayatollah Khameney e mais 20 subalternos e não havia ninguém com quem negociar" (!?).

9 de Março (Trump): "Não há uma resposta concreta para o fim da guerra. Pode durar 2, 4, 5 ou 6 dias. Durará o tempo que for necessário. Temos a capacidade para continuar mais 5 semanas e é isso que faremos".  No mesmo dia, declara que "já ganhámos a guerra".

11 de Março (Trump): "A guerra está quase a acabar. Já não existem mais "drones". Quando eu quiser, pode acabar".

11 de Março (Trump): "Não queremos sair mais cedo do Irão. Temos de terminar o trabalho. Ainda não estamos prontos".

11 de Março (Peter Hegseth): "Cabe ao presidente decidir, se estamos no início, no meio ou no fim da guerra". 

13 de Março (Trump, à entrada para o seu helicóptero): "Quando termina a guerra? Não sei. Essa resposta não lhe posso dar..."

Sobre opiniões erráticas e contraditórias, estamos conversados. Pior, era difícil. Começaram a guerra, mas não sabem quando esta termina e qual o plano para o dia seguinte (!?). Resta aguardar pelo fim deste conflito que, entretanto, multiplicou por três (Ucrânia, Irão, Líbano...) e esperar que o Mundo não incendeie de vez. Já estivemos mais longe. 

 

(foto Tel Aviv, BBC)

2026/02/28

Taxi Driver (46)

Cheias deixam rasto de destruição em Leiria

- Para a Buraca, sff.

Por onde quer ir?

- Talvez pelo Rato. Pela Ferreira Borges, parece-me difícil, está em obras... 

Pela Ferreira Borges, nem pensar. Nunca mais de lá saímos. Vamos tentar pelo Rato, concorda?

- De acordo. É sexta-feira, nunca se sabe...

É obras por todo o lado. Agora, até a D. Carlos 1º está em obstruída, por causa do metro. Isto nunca mais acaba. Quanto mais tempo demorarem as obras, mais dinheiro custam e mais gente ganha com isso...

- É a tradição portuguesa. Tudo demora mais tempo que o previsto e custa mais dinheiro do que o orçamentado. Somos bons a criar, mas não sabemos gerir. 

É verdade. Se for um alemão a montar um móvel e não tiver o parafuso certo, já não o monta. Mas, se for um português, arranja sempre uma solução. Desenrascamos...

- Não é bem assim. O que se passa é que os alemães são mais organizados e fazem bem aquilo em que se especializaram. A nossa cultura é geral, mas não somos especialistas em nada. Por outro lado, temos opinião sobre tudo. 

É verdade. No Verão passado eu e a minha mulher fizemos férias na Dinamarca e parecia que estávamos num jardim. Tudo organizado e limpo, as pessoas felizes e simpáticas, até o tempo estava óptimo e havia pessoas na praia. Quero lá voltar. Aquilo sim, é um país organizado. Gostámos muito. 

- Conheço bem. Onde esteve? 

Fomos de carro e estivemos em Copenhagen e em Aarhus, onde temos amigos. Também andámos no barco que faz a travessia. Muita gente a andar de bicicleta...aquilo é outra vida. Não se vê stress...

- A quem o diz. Vivi muitos anos na Holanda e há muitas semelhanças entre os dois países. São ambos países pequenos, mas com populações educadas. Por isso são ricos e bem organizados. Tem a ver com a educação e disciplina no trabalho.

Deve ser isso. Aqui as pessoas são mais individualistas. Já viu como os portugueses andam no trânsito? Parece uma luta de vida ou de morte. Ninguém respeita ninguém. Eu moro em Benfica e tenho um vizinho em frente que, quando chega a casa, estaciona o carro atravessado para ocupar dois lugares. O outro lugar é para a mulher quando chega do emprego! Só pensam neles. 

- É verdade, mas, lá está: a educação e a urbanidade não são o nosso forte... 

Vou-lhe contar outra história: fiz diálise durante muitos anos e o SNS pagava-me o táxi para ir ao hospital. Também ia lá um casal, ambos fazerem diálise. Como o táxi era pago, em vez de irem os dois num só táxi, ia cada um no seu! Isto, faz algum sentido? 

- Pois...não sabia que o SNS pagava táxis...

Até paga ambulâncias para fora da cidade. Uma vez, não pude fazer a diálise aqui em Lisboa e pagaram-me a ambulância para ir ao Porto. Já imaginou quanto é que aquilo custou? 

- Deve ter sido no tempo das "vacas gordas" do SNS. Agora, até os partos são feitos em ambulâncias...

Nada funciona. Já viu os estragos destas últimas semanas. Tudo destruído. Agora dizem que a Europa vai ajudar, mas nunca vai chegar.

- Pois não. A UE tem um fundo para catástrofes naturais, que anda à volta de 3% do PIB. No nosso caso, será qualquer coisa como 6.000 milhões de euros. Não chega sequer para a região de Leiria...

Ainda por cima, é das zonas mais industriais do país, com milhares de empresas exportadoras. E agora?

- Um drama. Para os empresários, mas também para os trabalhadores, que ficam sem salário. É preciso um plano nacional. 

Se demorarem tanto tempo, como a planear o novo aeroporto, nunca mais vão reconstruir nada. Há um aeroporto em Beja, que não é utilizado e está ali às moscas. Bastava construir uma linha de comboio até Lisboa e, depois, até ao Algarve e podia ser um motor de desenvolvimento para toda a região. Quando fui a Londres, desembarcámos no aeroporto de Tunstead, que fica a mais de uma hora da cidade. Qual é o problema?

- Sim, conheço o aeroporto do Beja. Tem a maior pista do país, mas faltam infraestruturas. Um aeroporto, não é só uma pista e uma hangar para aviões e passageiros. De acordo com os especialistas, não se justifica construir um aeroporto nacional em Beja, porque isso exigiria uma cidade de 50.000 pessoas que justificasse tal obra. Não é rentável. Londres tem outra dimensão. 

Nunca mais saímos da cepa torta, é o que é! O senhor ainda é mais pessimista do que eu...

- Eu? Nem por isso. Basta comparar. Podíamos ser um pequeno paraíso, mas não sabemos governar-nos. É pena. 

Pois é, mas há gente que se governa bem...

- Eu sei, eu sei. 

(foto Diário de Leiria)

2026/02/16

Um presidente de galochas

Terminadas as votações, nas freguesias inundadas pelo mau tempo, confirmou-se a vitória do candidato social-democrata, António José Seguro, vencedor incontestável a 8 de Fevereiro. 

Nada que surpreenda, a não ser a esmagadora vitória, a maior de sempre da história da democracia, com mais de 3,5 milhões votos, mais do dobro do candidato fascista.

Esta é uma vitória, conseguida a pulso, de alguém em quem poucos acreditavam à partida (a começar pelo próprio partido do vencedor) que, na fase final, conseguiu galvanizar as forças democráticas contra o candidato populista de extrema-direita.

Se alguma conclusão há a extrair, é a existência de uma maioria sociológica democrática que, de resto, já era evidente na desproporcionalidade de votantes nos candidatos em disputa: 75% versus 25%. 

Uma boa notícia, que deve ser saudada por todos os democratas, em tempos de ascensão do populismo/fascismo que assola grande parte do Mundo Ocidental. 

Se a vitória de Seguro (em tempos de escuridão) pode significar uma "luz ao fundo do túnel", só o futuro dirá. Conhecido como um representante da ala "moderada" do PS, herdeira da famigerada 3ª via de Blair e Clinton, o novo presidente não terá uma tarefa fácil. Desde logo, na dificuldade pessoal em (auto) definir-se como de esquerda, num ciclo político em que a direita governa e tem maioria parlamentar. 

Depois, os seus problemas, não serão apenas de foro pessoal. À esquerda, o PS (do qual foi secretário-geral) está longe de recuperar da "travessia do deserto" que iniciou com a dupla derrota de Pedro Nuno Santos; enquanto, à direita, para além dos partidos da governação, existe agora uma terceira-força, que já é segunda em número de deputados.

Ou seja, Seguro terá de exercer a sua magistratura de influência, entre três forças teoricamente antagónicas, que continuarão a esgrimir argumentos na arena política nacional: um governo tentando chegar ao fim da legislatura e os partidos da oposição tentando evitá-lo, para poderem tirar dividendos da situação.

Para piorar este quadro, adivinha-se um período de recessão económica, em consequência dos custos (estimados em mais de €5000 milhões) com as reparações da tempestade e das cheias, que não deixarão de reflectir-se nas contas finais do défice.  

Para já, e citando o  célebre marquês, "há que tratar dos vivos e enterrar os mortos". Esta é a prioridade nacional. Perante a catástrofe, que assolou o país nas últimas semanas, qualquer aproveitamento seria voltar ao grau zero da popularidade dos políticos, que continua a andar pelas ruas da amargura.  

Esta situação, parece ter sido compreendida pelo futuro presidente que, mesmo antes de tomar posse, preocupou-se em avaliar os estragos. Portugal necessita de políticos que saiam dos gabinetes. Agora, necessitamos de um presidente que dê o exemplo e calce as galochas. 

 

2026/01/28

Debates Presidenciais (2)

Foi um debate fraco e demasiado longo para a importância que lhe quiseram dar.

A Seguro bastou fazer-se de "morto" e controlar as emoções (ele é bom nisso), enquanto Ventura esteve ao nível de arruaceiro a que nos habituou. 

Ainda bem que os debates terminaram. Já não há paciência para tanto disparate.  

Mais uma vez, pouco ou nada se falou de política internacional, como se Portugal fosse uma ilha isolada neste Mundo em convulsões. Ninguém sabe o que os candidatos pensam ou farão, em crises tão graves como a guerra na Ucrânia, a situação na Palestina, a política hegemónica dos Estados Unidos sob Trump, a posição de Portugal na UE e na NATO ou os acordos do Mercasul, para citar algumas questões pertinentes. 

Neste capítulo, a responsabilidade foi também dos jornalistas, mal preparados e atemorizados perante o chorrilho de asneiras e as interrupções do candidato de extrema-direita. 

Seguro vai ganhar (quem duvida?), mas não deixará de ser um candidato mole e sem chama. Dali não virão criticas a Montenegro. Já o primeiro-ministro terá de preocupar-se com Ventura, a maior ameaça à sua direita, agora que disputam o mesmo campo ideológico.

O candidato fascista perderá, mas o fascismo não desaparecerá ("O eterno retorno do fascismo", Rob Riemen, ed. Bizâncio, 2012).  Estamos avisados.  

2026/01/19

Democracia versus Autoritarismo

Os resultados das eleições presidenciais, não constituem propriamente uma surpresa. Passaram à 2ª volta, os candidatos que, ao longo da campanha, foram apontados como os finalistas mais prováveis. 

Se houve surpresa, foi nas percentagens finais, já que a maioria das sondagens sempre colocou Ventura à frente de Seguro, o que se revelou ser um erro de "percepção". Resta saber, se dos entrevistados, se das empresas de sondagens, ou de ambos...

Para esta, aparente, discrepância, poderá haver várias explicações: o número de candidatos, que tornou esta eleição a mais disputada de sempre; a alta percentagem de indecisos, ate às vésperas da eleição; e a consciência do perigo de uma vitória do candidato fascista. 

Pesem todos os prós e contras, o resultado de ontem não pode deixar de agradar aos democratas que, não se revendo na personalidade e nas ideias de Seguro (contra mim, falo), não deixaram de congratular-se por esta primeira vitória da democracia. Apesar disso, este resultado, sendo importante, poderá não ser suficiente. Nada está garantido, ainda que a dinâmica de vitória e os apoios, possam crescer a partir de agora. 

Contas feitas, Seguro tem agora, para além dos 31% da sua campanha, mais 5% dos pequenos partidos de esquerda e grande parte dos votos de Marques Mendes, de Gouveia e Melo e, quem sabe (?), de muito boa gente da Iniciativa Liberal, que não se revê necessariamente no fascismo de Ventura e das franjas mais liberais da AD e da IL. Tudo somado, certamente suficiente para obter 50% dos votos na 2ª volta. 

Já Ventura, apesar de ter mantido os votos do seu grupo-alvo (23,5%, a votação máxima do partido), poderá crescer à direita, agora mais dividida que nunca e pressionada perante o perigo de deixar crescer demasiado o Chega. Será realista pensar que (o Chega) pode crescer até aos 30% ou 35%... 

Estranho, ou talvez não, foi o "silêncio ensurdecedor" do primeiro-ministro e das candidaturas de Marques Mendes e de Gouveia e Melo, relativamente ao endosso de votos na 2ª volta. Era de esperar mais clarificação nas suas opiniões. Afinal, o que está em causa, é defender a eleição de um candidato democrata versus um candidato autoritário. Será que têm dúvidas?...

Faltam três semanas para a próxima ronda e nada está garantido. Para Montenegro, a ideia de ter um presidente da área "socialista", não deve "assustar" mais do que ter um presidente fascista. Ventura já disse ao que vem e tudo fará para canibalizar o PSD e tornar-se o líder da direita portuguesa. Já de Seguro, um representante da "3ª Via", pouco há a temer. Com ele, o governo, poderá "dormir" tranquilo... 

2026/01/12

A Campanha


A menos de uma semana das eleições presidenciais, marcadas para o próximo dia 18, a imprevisibilidade é maior que nunca. 

Algumas coisas são, no entanto, previsíveis. Assim, e ao contrário de todas as presidenciais, haverá uma segunda volta. A excepção, foi em 1986, quando houve necessidade uma volta-extra, para apurar o vencedor, entre Mário Soares e Freitas do Amaral. 

Outra coisa previsível, é o número de candidatos com possibilidade de passar à 2a volta. São cinco neste momento. Os restantes, independentemente da votação final, não ultrapassarão a fasquia dos 5%, considerada insuficiente para almejar voos mais largos.  

Destes cinco, três ficarão pelo caminho, no próximo domingo. Porque todos têm, teoricamente, possibilidade de passar (a margem de erro entre o primeiro e quinto candidato não ultrapassa, neste momento, 4%) não são de prever desistências ou apelos ao "voto útil". Todos os candidatos afirmam a sua independência e desejo de passarem, sabendo que, no dia 8 de Fevereiro, haverá a decisiva "contagem de espingardas". Será então, que os "campos", vão definir-se. 

A acreditar nas últimas sondagens (saídas antes do início da Campanha), o candidato da extrema-direita (André Ventura) parecia ser o único com lugar "garantido" na 2a volta. Sendo assim, restam quatro candidatos, respectivamente Gouveia e Melo, Marques Mendes, António Seguro e Cotrim de Figueiredo, com possibilidades reais de disputar a "finalíssima". 

Com o início da Campanha, um factor importante parece estar a alterar o comportamento dos eleitores: o surgimento dos "tracking polls" que, diariamente, publicam uma sondagem feita numa população aleatória, de 200 pessoas. Todos os dias são interrogadas 200 pessoas diferentes, que substituem os 200 inquiridos mais antigos. Esta flutuação, nas intenções de voto, está a alterar o comportamento dos eleitores que, começam a admitir a passagem à 2a volta de António Seguro e Cotrim de Figueiredo, os candidatos menos votados após os debates. Contrariamente, figuras como Gouveia e Melo (durante muitos meses visto como vencedor incontestado) e Marques Mendes (candidato apoiado pelos partidos do governo) parecem estar a perder gás e correm o risco de nem sequer passar à volta seguinte. 

Tudo em aberto, pois, já que as diferenças percentuais entre estes candidatos se mantêm dentro da margem de erro. 

Esta semana, sairão as últimas e mais importantes sondagens (TSF, JN, Público, Católica) que, para além da sua maior fiabilidade, são publicadas a menos de 4 dias do escrutínio e podem decidir o voto da "última hora", a melhor sondagem de todas. 

Uma coisa é certa: de todas as campanhas realizadas, esta é a que tem maior número de candidatos e, provavelmente, os menos qualificados. Nenhum convence e nunca foi tão difícil escolher. Também, neste capítulo, Portugal não é diferente da maioria dos países europeus, onde a mediocridade é regra. Como diriam os franceses, é apenas "l'air du temps"...

 

2026/01/05

Taxi Driver (45)

Está "livre"?

- Sim, para que lado vai?

Para a Buraca.

- Bom, estava a pensar ir jantar, mas entre lá. Ainda há pessoas dentro do Shopping? Já são 8horas...

Há, mas eu venho do cinema e as sessões terminam mais tarde.

- Alguma coisa de interesse em cartaz?

 Alguns filmes interessam, sim. Mas são poucos, nesta época.

- Eu para mim, só musicais. Tenho visto quase todos. Ainda estou à espera de um bom sobre o Freddie Mercury...

Dos "Queen"? Parece que há um filme biográfico, com um actor parecido...

- Ninguém imita o Freddie! Já vi bons filmes sobre o Dylan, o Springsteen, mas o Freddie é inimitável.

Sim, acredito que seja difícil, mas arranja-se sempre um bom actor ou cantor que o faça. Já vi bons filmes sobre cantores norte-americanos e europeus e eram bastante bons.  

- Conhece o Léo Ferré? Conhece com certeza... 

Conheço, claro. Tenho discos e vídeos dele e até o vi ao vivo duas vezes. 

- No Coliseu? Também, estive lá...

Por acaso, vi-o no estrangeiro. Na Holanda, na década de oitenta...

 - Que sorte! Quem é que viu mais?

- Sei, lá, grupos famosos da altura...os Stones, os Pink Floyd, os The Band, os Beachboys, o Dylan, os Chicago...

- Desculpe lá a pergunta. E tem discos dessa gente toda? 

Tenho, claro. Entre LPs e CDs, mais de dois mil. Perdi a conta...

- Isso vale uma fortuna...

Talvez, nunca avaliei a discografia...

- Sabe qual o artista que tem o "record" mundial de vendas? Veja lá se adivinha...

Talvez a cantora norte-americana da moda...

- A Taylor Swift? Está perto. Não, quem continua a vender mais é o Elvis. Sabia? 

Não me surpreende, mas não sabia, não...

- E tem LPs do Elvis? E, já agora, do Johnny Cash?  

 Por acaso, tenho. Não muitos, mas os mais antigos. A melhor fase de ambos. 

- E dos Emerson Lake and Palmer? E do Jethro Tull, também? E dos Crosby, Stiil and Nash? São muito difíceis de encontrar...

 Por acaso, tenho deles todos. Um ou dois de cada grupo, no máximo...

- Já percebi. O senhor é como eu. Um coleccionador.  Desculpe lá, só mais uma pergunta: também tem o "White Album" dos Beatles? Não se arranja...

Por acaso, tenho. Tenho a maior parte dos discos dos Beatles. Todos em LP.

- E tem a certeza que não quer vender esse? 

A certeza absoluta. 

- Pronto, não faz mal. Eu faço sempre esta pergunta. Nunca se sabe. Há tempos, em conversa com uma senhora, ela disse-me que tinha uma coleção de LPs em casa e que queria desfazer-se deles. Fui lá ver, mas, a maior parte, eram de música clássica. Não valem nada. Comprei-lhe a colecção toda de Pop/Rock. A 5euros cada. Um bom negócio! Para ela e para mim. Está a ver?...

Estou a perceber. Boa noite e bons negócios. 

2026/01/03

2026: O Inverno do nosso descontentamento

Não começou bem o ano. 

Para quem, ainda há três dias, fazia votos de paz no Mundo, Trump (who else?) encarregou-se de desfazer as poucas ilusões que restavam. 

O ataque, esta madrugada, à Venezuela, um país soberano (ainda que governado por um autocrata), deve ser objecto de condenação e repúdio por todas as forças democráticas internacionais, única forma de salvaguardar o que resta do direito internacional e das instituições que asseguram o cumprimento das suas leis. 

Acontece que o Mundo mudou e não foi para melhor. A chegada ao poder de autocratas como Trump, fortaleceu outras ditaduras que, por sua vez, vêem na eleição do presidente americano, a validação das suas próprias políticas de expansão. O caso mais notório é o de Israel, que continua impunemente a ocupar territórios e a matar indiscriminadamente civis, num dos maiores genocídios cometidos no pós-guerra. 

O Mundo unipolar acabou. As grande potências (leia-se, ditaduras) preparam-se para dividir o Mundo em zonas de influência, com vista a dominar o controlo e exploração das riquezas fundamentais para a sua dominação. Os EUA voltaram à "doutrina Monroe" e preparam-se para "libertar" a América Latina de influências estrangeiras; em troca, Trump "oferece" a Ucrânia a Putin, que continua a sua expansão imperialista para Ocidente; enquanto a China, ficará com o Pacífico e, mais cedo ou mais tarde, anexará Taiwan. 

Resta saber, como foi possível raptar Maduro da Venezuela sem cumplicidades internas e, eventualmente, do apoio implícito de outros governos, informados previamente da operação...  

Da Europa, como de costume, nada de relevante a assinalar, à excepção das declarações de Kallas, a "tonta" de serviço, que se apressou a condenar o governo de Maduro, como se o facto, de ele ser um ditador, pudesse justificar o ataque a um país soberano. Já de Rangel, certamente desaparecido em combate, nada de significativo como de costume, salvo a pífia declaração de que a comunidade portuguesa emigrada na Venezuela, está sã e a salvo. Antes assim...

Bem vindos a 2026!