2025/12/24

Debates

Terminaram os debates eleitorais. 

Vinte e oito no total, entre oito candidatos, que duraram mais de um mês. 

Em tempo de intervalo, para comer bacalhau e filhós natalícias, um balanço sucinto, enquanto se espera pela segunda parte (a campanha de rua).  

Primeira pergunta: foram úteis, os debates? 

Para quem tinha dúvidas e não sabia em quem votar (20% de indecisos), os debates podem ter contribuído para esclarecer as posições dos candidatos. De resto, à medida que os debates decorriam, o número de indecisos baixou consideravelmente (15%) o que pode indiciar uma maior certeza no voto. Pode, inclusive, indicar "dois tipos" de voto: um voto "útil" na primeira volta, com vista a assegurar a passagem do candidato com mais probabilidade de bater o candidato da extrema-direita (que ninguém deseja) e um voto claro na segunda volta, pela mesma razão: derrotar André Ventura.

Para quem tinha o voto definido, os debates não terão acrescentado muito. No fundo, trata-se de apoiar o candidato do partido em quem tradicionalmente confiamos. Desse grupo, poucos terão mudado de opinião. Houve, no entanto, algumas surpresas. 

A primeira surpresa, tem a ver com o almirante Gouveia e Melo que, muito antes de ter anunciado a sua candidatura, já era incensado por toda a imprensa como o melhor antídoto para "pôr ordem" nisto (!?). Compreende-se: depois de uma logística exemplar, que organizou durante dois anos a maior vacinação colectiva da história recente do país, quem não lhe estaria agradecido? 

Acontece que uma coisa são as intenções e outra é a prática. Aparentemente, o almirante acreditou nas suas capacidades de militar e, emproado e narciso como é, deve ter pensado que a coisa era fácil. Depois de ter ouvido individualidades, partidos e "irmandades" diversas, resolveu avançar com a confiança dos vencedores. Até aqui, tudo bem. 

Infelizmente para ele, assim que começou a falar como candidato, "borrou" a pintura toda. Os poucos escritos, foram um acumular de "lugares comuns" (apelando à transparência e à intervenção presidencial, quem não?) tendo as entrevistas confirmado o vazio ideológico e cultural de um personagem saído da guerra fria. Restavam os debates, propriamente ditos e, logo aí, se notaram as suas debilidades. É verdade que melhorou à medida que os confrontos iam decorrendo, mas (à excepção do último debate com Marques Mendes), as coisas não lhe correram bem, o que aliás se reflecte nas sondagens, sempre a descer. Permanece, no entanto, como um dos potencias candidatos a passar à segunda volta.

A segunda surpresa, terá a ver com André Ventura, o candidato populista (leia-se, pantomineiro) que defende tudo e o seu contrário, a começar por desconhecer artigos elementares da Constituição, que diz jurar. Um perfeito embuste que, de resto, sempre declarou não querer ser presidente, mas primeiro-ministro (!?). Compreende-se: Ventura sabe que, no seu partido de "yes men", ninguém o pode substituir, pelo que só ele podia "segurar" o grupo de apoiantes, que vale 1.4 milhões de votos. Se obtiver mais de 20% de votos, estará na segunda volta. Só que, o líder do Chega perderá com qualquer adversário na segunda volta. Ninguém "acredita" nele como Presidente da República! 

Finalmente, a terceira surpresa: António José Seguro. Começou tarde a campanha, foi ignorado e desvalorizado por metade do PS (donde é oriundo) e chegou aos debates na posição de "underdog". Pouca gente acreditava num candidato "nem carne nem peixe", ainda para mais ausente da política há 10 anos.  No entanto, apresentou-se bem preparado e com discurso fluente, o que o fez crescer ao longo dos debates e lhe granjeou a quarta posição na "poule" final. Se as coisas continuarem a correr como até aqui, não é impossível conseguir os votos "úteis" (que faltam à "esquerda") para derrotar Ventura. 

Dos restantes candidatos, o mais bem classificado (Marques Mendes) esteve sempre entre os três mais votados, mas começou a perder gás, após os ataques de Ventura e Gouveia e Melo, sobre a sua idoneidade como advogado "lobista", da qual dificilmente se livrará. Relativamente aos candidatos dos pequenos partidos, nenhum deles é uma verdadeira alternativa presidencial. Nem à direita (Cotrim de Figueiredo) nem à esquerda (Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto) parecem reunir os apoios e os votos necessários para chegarem à segunda volta. 

Resumindo e concluindo: há, neste momento, quatro potenciais candidatos a passar à segunda volta, sendo Ventura o único que parece ter garantido esse lugar (ainda que perdendo depois). Qualquer dos restantes (Gouveia e Melo, António José Seguro e Marques Mendes) têm possibilidades reais de passar. Caso os votantes de "esquerda", queiram apostar em Seguro, terão de fazê-lo na primeira volta (engolindo o "sapo" necessário). Depois, será tarde. Uma escolha difícil, conhecendo os anti-corpos que Seguro tem no seu próprio partido, sem os votos do qual, dificilmente, passará.  

Vêm aí as campanhas (arruadas e comícios dos candidatos) que podem ajudar a clarificar a situação. Uma coisa é certa: nenhuma eleição presidencial teve tanta concorrência como esta, ainda que o nível médio dos candidatos seja sofrível, para não dizer medíocre. Faltam estadistas em Portugal e, se os há, eles não se apresentaram. Foi pena. O país necessita de vozes audíveis e clarificadoras. Ganhe quem ganhar, não se esperam grandes mudanças no futuro. Ainda não vai ser desta.