Sábado de madrugada, após uma noite de fados na Mouraria.
Dirigimo-nos, eu e a minha hóspede de nacionalidade holandesa, para a Rua do Bem Formoso, também conhecida pela artéria mais multicultural de Lisboa, àquela hora já com poucas lojas de serviço abertas. A ideia era comprar uma garrafa de água, coisa aparentemente simples. Não conseguimos à primeira e tivemos de atravessar a Bem Formoso no sentido ascendente, até ao Largo do Intendente, que continuava animado. Após os "sightseeings" da praxe (no caso a instalação da Joana de Vasconcelos e a fábrica da viúva Lamego) lá conseguimos comprar a desejada garrafa a preço multicultural...Regressamos, agora através da Almirante Reis, à procura de um táxi. A minha amiga, queixa-se de uma dor na perna, entretanto desmesuradamente inchada e optamos por procurar uma farmácia para medir a tensão. Tudo fechado. De farmácias abertas, nem sinal.
Já na praça Martim Moniz, o almejado táxi. Entramos e enquanto relato ao taxista a dificuldade de encontrar uma farmácia aberta, este diz-nos que àquela hora só na farmácia em S. Mamede, a única que está aberta 24horas por dia. Para lá nos dirigimos. A porta estava fechada, mas o letreiro dizia "aberta". Após umas campainhadas, apareceu o farmacêutico. Fala através do intercomunicador e recusa-se a abrir a porta (!?). Teremos de ir a outra farmácia, diz-nos. Há uma à entrada do largo do Rato. Também aberta 24horas sobre 24horas.
Dirigimo-nos ao Rato. De facto, a farmácia exibia o letreiro "aberta", mas estava fechada. Mesma cena. O farmacêutico recusa-se a abrir a porta, invocando medidas de "segurança", enquanto aponta para uma câmara de televisão postada estrategicamente por cima da sua cabeça. Julgo estar num filme de ficção científica. Dirijo-me ao homem e explico-lhe que ele só tem de medir a tensão à minha amiga. O farmacêutico olha-me com ar aparvalhado e diz-nos não saber mexer no aparelho de medir a tensão que é novo (!?). Aconselha-nos a ir às urgências do hospital S. José, pois pode ser um problema cardiovascular...Volto ao táxi e peço ao motorista para inverter a marcha. Teríamos de ir às urgências. Passava da uma da madrugada, quando demos entrada no hospital de S. José.
Nas urgências, o ambiente habitual de um sábado à noite: muitas gente jovem, alguns comas alcoólicos e um jovem esmurrado. Àparte isso, três ou quatro casais, aparentemente em sofrimento controlado. O jovem que nos atendeu, falava inglês e foi solicito e prático. Depois de fazer fotocópias dos documentos da minha amiga, chama-lhe a atenção para o facto do cartão de seguros internacional dela, se encontrar caducado desde 2011...Ups, ela nunca tinha reparado nisso! "No problem", sossegou-a o funcionário. Como se tratava de serviço público, ela só pagaria 18euros pela consulta e, depois, quando chegasse à Holanda, tinha de pedir um cartão novo e enviar-lhe rapidamente uma fotocópia, para ele substituir a fotocópia deste, por uma actualizada. De outra forma, teria de pagar 180euros...
Dirigimos-nos depois para o gabinete de triagem onde, após ouvirem a história clínica, lhe deram uma pulseira de cor-verde. Restava esperar...
Eram 7horas da manhã, quando saímos do hospital de São José. Nos intervalos, a minha amiga, foi vista duas vezes, a primeira por uma médica de clínica geral que lhe fez um exame sumário e, mais tarde, por um médico ciurgião cardiovascular, que sugeriu o seu envio para outra unidade hospitalar dentro do complexo do S. José, para ser sujeita a um teste intravenoso. Foi levada numa ambulância, enquanto eu fiquei à espera. Uma hora mais tarde, voltava com um relatório e uma receita passada pelo médico. Teria de mostrar o relatório ao médico de família, quando voltasse à Holanda e seguir a medicação. Aparentemente, tudo em ordem.
Voltámos à recepção, onde o jovem que nos tinha atendido, continuava de turno. A minha amiga entrega-lhe o relatório do médico e pergunta quanto deve. O funcionário, abre o seu melhor sorriso, enquanto imprime um recibo e diz: "18euro".
"That cheap"? Pergunta admirada a minha amiga.
"Yes. More sheep than in Australia"!...
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2017/06/29
2015/01/22
Não tens seguro, morres nas urgências!
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| O PR na inauguração do Hospital da Luz |
O caos instalado nos serviços hospitalares atingiu, esta semana, uma situação sem paralelo na história recente do país.
Desde o início do ano, faleceram já 8 pessoas nas urgências, foram registradas mil mortes a mais (comparativamente ao mesmo período do ano passado) enquanto, na maior parte das urgências dos hospitais, os tempos de espera chegaram a atingir dez, quinze e vinte horas em média.
É isto normal?
Pesem as explicações avançadas pelos responsáveis de serviço (ministro e secretário de estado da saúde) relativamente ao Inverno rigoroso, ao aumento de doenças infecciosas entre os idosos e à falta de profissionais de saúde em número suficiente, a verdade é que estas coisas planificam-se e, se a organização do SNS já deixava a desejar antes da actual crise, é uma evidência que os serviços pioraram em toda a linha.
Desde logo, pelo encerramento de centros de saúde e serviços ambulatórios de proximidade, que permitiam, em casos menos graves, o tratamento imediato sem recorrer às urgências de um hospital. Depois, pela sub-dimensão dos próprios hospitais, claramente a "rebentar pelas costuras", como é o caso dos hospitais de Faro, Almada ou Amadora-Sintra (este projectado para 200.000 utentes e que hoje atende mais de 500.000/ano). Finalmente, a falta de profissionais de saúde (médicos e enfermeiros), provocada pela reforma antecipada dos primeiros e pela emigração dos segundos, devido ao desemprego crescente no país.
Sem cuidados primários perto de casa (o que obriga os doentes a irem às urgências hospitalares), sem hospitais suficientes (com capacidade para atender os casos urgentes) e sem pessoal especializado em número suficiente, não nos devemos admirar que a situação tenha atingido o ponto de ruptura.
O que sobra?
Os hospitais privados, para onde muitos dos médicos do SNS se transferiram em part-time, a existência de um seguro médico, sem o qual não se é atendido nestes hospitais e o pagamento de diárias que atingem dois salários mínimos nacionais.
Bem podem os responsáveis da tutela apregoar que o planeamento foi feito, mas que as condições anormais explicam o caos existente.
A verdade é que esta situação, já de si grave, piorou de forma dramática nos últimos anos. A causa deve ser procurada no programa de austeridade imposto pela Troika, que quis à viva força reduzir nas despesas da saúde, como se o economicismo fosse critério, neste sector fundamental.
Os resultados - catastróficos - estão à vista e nada nos garante que os indicadores conhecidos não venham a piorar, agora que as previsões climatéricas se mantêm e os meios para pagar a saúde deixaram de existir. Tens dinheiro ou seguro de saúde, vais para um hospital privado, sem filas de espera; não tens dinheiro e dependes do Serviço Nacional de Saúde, ficas à porta e morres no corredor.
Uma vergonha sem nome, um governo que trata desta forma os seus cidadãos.
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