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2026/02/16

Um presidente de galochas

Terminadas as votações, nas freguesias inundadas pelo mau tempo, confirmou-se a vitória do candidato social-democrata, António José Seguro, vencedor incontestável a 8 de Fevereiro. 

Nada que surpreenda, a não ser a esmagadora vitória, a maior de sempre da história da democracia, com mais de 3,5 milhões votos, mais do dobro do candidato fascista.

Esta é uma vitória, conseguida a pulso, de alguém em quem poucos acreditavam à partida (a começar pelo próprio partido do vencedor) que, na fase final, conseguiu galvanizar as forças democráticas contra o candidato populista de extrema-direita.

Se alguma conclusão há a extrair, é a existência de uma maioria sociológica democrática que, de resto, já era evidente na desproporcionalidade de votantes nos candidatos em disputa: 75% versus 25%. 

Uma boa notícia, que deve ser saudada por todos os democratas, em tempos de ascensão do populismo/fascismo que assola grande parte do Mundo Ocidental. 

Se a vitória de Seguro (em tempos de escuridão) pode significar uma "luz ao fundo do túnel", só o futuro dirá. Conhecido como um representante da ala "moderada" do PS, herdeira da famigerada 3ª via de Blair e Clinton, o novo presidente não terá uma tarefa fácil. Desde logo, na dificuldade pessoal em (auto) definir-se como de esquerda, num ciclo político em que a direita governa e tem maioria parlamentar. 

Depois, os seus problemas, não serão apenas de foro pessoal. À esquerda, o PS (do qual foi secretário-geral) está longe de recuperar da "travessia do deserto" que iniciou com a dupla derrota de Pedro Nuno Santos; enquanto, à direita, para além dos partidos da governação, existe agora uma terceira-força, que já é segunda em número de deputados.

Ou seja, Seguro terá de exercer a sua magistratura de influência, entre três forças teoricamente antagónicas, que continuarão a esgrimir argumentos na arena política nacional: um governo tentando chegar ao fim da legislatura e os partidos da oposição tentando evitá-lo, para poderem tirar dividendos da situação.

Para piorar este quadro, adivinha-se um período de recessão económica, em consequência dos custos (estimados em mais de €5000 milhões) com as reparações da tempestade e das cheias, que não deixarão de reflectir-se nas contas finais do défice.  

Para já, e citando o  célebre marquês, "há que tratar dos vivos e enterrar os mortos". Esta é a prioridade nacional. Perante a catástrofe, que assolou o país nas últimas semanas, qualquer aproveitamento seria voltar ao grau zero da popularidade dos políticos, que continua a andar pelas ruas da amargura.  

Esta situação, parece ter sido compreendida pelo futuro presidente que, mesmo antes de tomar posse, preocupou-se em avaliar os estragos. Portugal necessita de políticos que saiam dos gabinetes. Agora, necessitamos de um presidente que dê o exemplo e calce as galochas. 

 

2026/01/12

A Campanha


A menos de uma semana das eleições presidenciais, marcadas para o próximo dia 18, a imprevisibilidade é maior que nunca. 

Algumas coisas são, no entanto, previsíveis. Assim, e ao contrário de todas as presidenciais, haverá uma segunda volta. A excepção, foi em 1986, quando houve necessidade uma volta-extra, para apurar o vencedor, entre Mário Soares e Freitas do Amaral. 

Outra coisa previsível, é o número de candidatos com possibilidade de passar à 2a volta. São cinco neste momento. Os restantes, independentemente da votação final, não ultrapassarão a fasquia dos 5%, considerada insuficiente para almejar voos mais largos.  

Destes cinco, três ficarão pelo caminho, no próximo domingo. Porque todos têm, teoricamente, possibilidade de passar (a margem de erro entre o primeiro e quinto candidato não ultrapassa, neste momento, 4%) não são de prever desistências ou apelos ao "voto útil". Todos os candidatos afirmam a sua independência e desejo de passarem, sabendo que, no dia 8 de Fevereiro, haverá a decisiva "contagem de espingardas". Será então, que os "campos", vão definir-se. 

A acreditar nas últimas sondagens (saídas antes do início da Campanha), o candidato da extrema-direita (André Ventura) parecia ser o único com lugar "garantido" na 2a volta. Sendo assim, restam quatro candidatos, respectivamente Gouveia e Melo, Marques Mendes, António Seguro e Cotrim de Figueiredo, com possibilidades reais de disputar a "finalíssima". 

Com o início da Campanha, um factor importante parece estar a alterar o comportamento dos eleitores: o surgimento dos "tracking polls" que, diariamente, publicam uma sondagem feita numa população aleatória, de 200 pessoas. Todos os dias são interrogadas 200 pessoas diferentes, que substituem os 200 inquiridos mais antigos. Esta flutuação, nas intenções de voto, está a alterar o comportamento dos eleitores que, começam a admitir a passagem à 2a volta de António Seguro e Cotrim de Figueiredo, os candidatos menos votados após os debates. Contrariamente, figuras como Gouveia e Melo (durante muitos meses visto como vencedor incontestado) e Marques Mendes (candidato apoiado pelos partidos do governo) parecem estar a perder gás e correm o risco de nem sequer passar à volta seguinte. 

Tudo em aberto, pois, já que as diferenças percentuais entre estes candidatos se mantêm dentro da margem de erro. 

Esta semana, sairão as últimas e mais importantes sondagens (TSF, JN, Público, Católica) que, para além da sua maior fiabilidade, são publicadas a menos de 4 dias do escrutínio e podem decidir o voto da "última hora", a melhor sondagem de todas. 

Uma coisa é certa: de todas as campanhas realizadas, esta é a que tem maior número de candidatos e, provavelmente, os menos qualificados. Nenhum convence e nunca foi tão difícil escolher. Também, neste capítulo, Portugal não é diferente da maioria dos países europeus, onde a mediocridade é regra. Como diriam os franceses, é apenas "l'air du temps"...

 

2025/12/24

Debates

Terminaram os debates eleitorais. 

Vinte e oito no total, entre oito candidatos, que duraram mais de um mês. 

Em tempo de intervalo, para comer bacalhau e filhós natalícias, um balanço sucinto, enquanto se espera pela segunda parte (a campanha de rua).  

Primeira pergunta: foram úteis, os debates? 

Para quem tinha dúvidas e não sabia em quem votar (20% de indecisos), os debates podem ter contribuído para esclarecer as posições dos candidatos. De resto, à medida que os debates decorriam, o número de indecisos baixou consideravelmente (15%) o que pode indiciar uma maior certeza no voto. Pode, inclusive, indicar "dois tipos" de voto: um voto "útil" na primeira volta, com vista a assegurar a passagem do candidato com mais probabilidade de bater o candidato da extrema-direita (que ninguém deseja) e um voto claro na segunda volta, pela mesma razão: derrotar André Ventura.

Para quem tinha o voto definido, os debates não terão acrescentado muito. No fundo, trata-se de apoiar o candidato do partido em quem tradicionalmente confiamos. Desse grupo, poucos terão mudado de opinião. Houve, no entanto, algumas surpresas. 

A primeira surpresa, tem a ver com o almirante Gouveia e Melo que, muito antes de ter anunciado a sua candidatura, já era incensado por toda a imprensa como o melhor antídoto para "pôr ordem" nisto (!?). Compreende-se: depois de uma logística exemplar, que organizou durante dois anos a maior vacinação colectiva da história recente do país, quem não lhe estaria agradecido? 

Acontece que uma coisa são as intenções e outra é a prática. Aparentemente, o almirante acreditou nas suas capacidades de militar e, emproado e narciso como é, deve ter pensado que a coisa era fácil. Depois de ter ouvido individualidades, partidos e "irmandades" diversas, resolveu avançar com a confiança dos vencedores. Até aqui, tudo bem. 

Infelizmente para ele, assim que começou a falar como candidato, "borrou" a pintura toda. Os poucos escritos, foram um acumular de "lugares comuns" (apelando à transparência e à intervenção presidencial, quem não?) tendo as entrevistas confirmado o vazio ideológico e cultural de um personagem saído da guerra fria. Restavam os debates, propriamente ditos e, logo aí, se notaram as suas debilidades. É verdade que melhorou à medida que os confrontos iam decorrendo, mas (à excepção do último debate com Marques Mendes), as coisas não lhe correram bem, o que aliás se reflecte nas sondagens, sempre a descer. Permanece, no entanto, como um dos potencias candidatos a passar à segunda volta.

A segunda surpresa, terá a ver com André Ventura, o candidato populista (leia-se, pantomineiro) que defende tudo e o seu contrário, a começar por desconhecer artigos elementares da Constituição, que diz jurar. Um perfeito embuste que, de resto, sempre declarou não querer ser presidente, mas primeiro-ministro (!?). Compreende-se: Ventura sabe que, no seu partido de "yes men", ninguém o pode substituir, pelo que só ele podia "segurar" o grupo de apoiantes, que vale 1.4 milhões de votos. Se obtiver mais de 20% de votos, estará na segunda volta. Só que, o líder do Chega perderá com qualquer adversário na segunda volta. Ninguém "acredita" nele como Presidente da República! 

Finalmente, a terceira surpresa: António José Seguro. Começou tarde a campanha, foi ignorado e desvalorizado por metade do PS (donde é oriundo) e chegou aos debates na posição de "underdog". Pouca gente acreditava num candidato "nem carne nem peixe", ainda para mais ausente da política há 10 anos.  No entanto, apresentou-se bem preparado e com discurso fluente, o que o fez crescer ao longo dos debates e lhe granjeou a quarta posição na "poule" final. Se as coisas continuarem a correr como até aqui, não é impossível conseguir os votos "úteis" (que faltam à "esquerda") para derrotar Ventura. 

Dos restantes candidatos, o mais bem classificado (Marques Mendes) esteve sempre entre os três mais votados, mas começou a perder gás, após os ataques de Ventura e Gouveia e Melo, sobre a sua idoneidade como advogado "lobista", da qual dificilmente se livrará. Relativamente aos candidatos dos pequenos partidos, nenhum deles é uma verdadeira alternativa presidencial. Nem à direita (Cotrim de Figueiredo) nem à esquerda (Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto) parecem reunir os apoios e os votos necessários para chegarem à segunda volta. 

Resumindo e concluindo: há, neste momento, quatro potenciais candidatos a passar à segunda volta, sendo Ventura o único que parece ter garantido esse lugar (ainda que perdendo depois). Qualquer dos restantes (Gouveia e Melo, António José Seguro e Marques Mendes) têm possibilidades reais de passar. Caso os votantes de "esquerda", queiram apostar em Seguro, terão de fazê-lo na primeira volta (engolindo o "sapo" necessário). Depois, será tarde. Uma escolha difícil, conhecendo os anti-corpos que Seguro tem no seu próprio partido, sem os votos do qual, dificilmente, passará.  

Vêm aí as campanhas (arruadas e comícios dos candidatos) que podem ajudar a clarificar a situação. Uma coisa é certa: nenhuma eleição presidencial teve tanta concorrência como esta, ainda que o nível médio dos candidatos seja sofrível, para não dizer medíocre. Faltam estadistas em Portugal e, se os há, eles não se apresentaram. Foi pena. O país necessita de vozes audíveis e clarificadoras. Ganhe quem ganhar, não se esperam grandes mudanças no futuro. Ainda não vai ser desta. 

2021/01/25

Eleições Presidenciais: O esperado e as surpresas

O resultado das eleições presidenciais, ontem realizadas, não deve surpreender os seguidores destas coisas, tanto mais que o vencedor estava anunciado há muito e a questão principal nunca se pôs em termos de quem podia ganhar a Marcelo, mas qual o candidato que mais hipóteses tinha de forçar uma segunda volta. Esta era a questão central.

Depois, havia outras questões secundárias, mas nem por isso menos importantes (em termos simbólicos), que era a de saber se, atrás de Marcelo, ficaria uma democrata (Ana Gomes) ou um populista de extrema-direita (André Ventura). 

Finalmente, o nível de abstenção que, em tempos de pandemia, podia comprometer o próprio acto eleitoral. Marcelo, que "não dá ponto sem nó", chegou a aventar a hipótese de uma 2ª volta, caso a participação eleitoral fosse baixa, o que impediria o vencedor de conseguir os almejados 50% + 1, necessários para  uma vitória à primeira.

Em termos globais, as votações nos principais candidatos, não estiveram muito longe das sondagens publicadas nas últimas semanas: Marcelo (60,7%), Ana Gomes (12,97%), André Ventura (11,9%), João Ferreira (4,32%), Tiago Mayan (3,22%) e Vitorino Silva (2,94%), cumpriram os mínimos esperados. As abstenções atingiram 60,51% o que, sendo imenso, ficou abaixo das piores estimativas. Também aqui, não houve propriamente surpresas, para mais se tivermos em conta o período de confinamento que atravessamos. 

Primeira conclusão: venceram as forças democráticas (88%) que derrotaram as forças anti-democráticas (11,9%).

Segunda conclusão: os dois primeiros classificados (Marcelo e Ana Gomes) concorreram sem o apoio dos seus partidos o que, no caso de Marcelo, não era necessário, pois o presidente recebeu votos de todos os quadrantes políticos. Já Ana Gomes, que se apresentou como candidata à revelia do seu partido, seria ignorada pela direcção do PS, que escolheu apoiar Marcelo, o candidato preferido do primeiro-ministro. 

Terceira conclusão: os partidos de esquerda (PCP, BE) concorreram com candidaturas próprias (João Ferreira e Marisa Matias) abdicando de uma convergência à esquerda (que podia passar por um apoio a Ana Gomes) o que lhes foi fatal. Foram os grandes perdedores da noite.

Quarta conclusão: o bom resultado, conseguido pelo candidato "anti-sistema", não deve surpreender, já que todas as projecções apontavam nesse sentido. Mais surpreendente, foram as percentagens obtidas nos distritos de Portalegre, Évora e Beja, onde tradicionalmente o PCP tem mais apoiantes e onde Ventura ficou à frente dos comunistas. 

Quinta conclusão: Tiago Mayan, o candidato da Iniciativa Liberal, conseguiu melhor resultado do que o partido a que pertence, o que pode indicar uma subida (relativa) dos "liberais" no futuro. 

Sexta conclusão: em termos globais, pode dizer-se que a "direita" (a democrática e a autoritária) ganhou estas eleições e que a "esquerda" foi a grande derrotada. Porque se trataram de eleições presidenciais, onde as candidaturas são uni-pessoais e os militantes são livres de votarem em candidatos da sua preferência, os resultados de ontem dificilmente poderão ser extrapolados para eleições futuras, sejam as autárquicas sejam as legislativas. De resto, já depois de apurados os votos, a RTP/Católica apresentou uma sondagem feita à boca das urnas, sobre eleições legislativas. À pergunta "se houvesse eleições legislativas hoje, em que partido votaria?", responderam 4000 entrevistados: PS 35%, PSD 23%, Chega 9%, BE 8%, IL 7%, CDU 6%, Pan 2%, CDS 2%, Livre 1%. De acordo com esta sondagem, a Esquerda teria 52% dos votos e a Direita 41%, o que possibilitaria uma nova coligação maioritária de esquerda no parlamento.  

Sétima conclusão: votos como os de Ana Gomes, por exemplo, não servirão de muito no futuro, já que o seu espaço de acção diminuiu dentro do PS, onde os anti-corpos gerados são agora maiores. Já o voto em Ventura, serviu para testar a popularidade do líder num partido uni-pessoal, criado à sua imagem. Ventura, que tinha prometido demitir-se da liderança do partido (caso ficasse atrás de Ana Gomes), cumpriu a promessa para (no minuto seguinte) anunciar recandidatar-se, caso fosse esse o desejo dos militantes...Já vimos este "filme" em qualquer lado (Sá Carneiro, Cavaco Silva, etc...) pelo que nem sequer é original. Muito usado por ditadores em potência, que se apresentam como líderes insubstituíveis (Berlusconi, Conti, Chavez, Salvini, Wilders, Baudet...).       

Oitava conclusão:  Os fracos resultados de João Ferreira e de Marisa Matias, ainda que por razões diferentes, devem obrigar os partidos a que pertencem (PCP e BE) a reflectir sobre temas e políticas de unidade que esses mesmos temas podem gerar no futuro. Para o PCP, a sua incapacidade em lidar com temas fracturantes, é notória (eutanásia, aborto, adopção, touradas) para não falar no apoio a regimes ditatoriais como a Coreia do Norte, Angola, Russia ou a Venezuela, que alienam o partido das gerações mais jovens. O resultado de Marisa Matias, terá mais a ver com a posição do Bloco na votação do último OE e a transferência de votos do BE para Ana Gomes (voto útil), que impediu o 2º lugar de Ventura.

Para Marcelo, o vencedor incontestado, a tarefa não se afigura fácil: o governo (minoritário) do PS, está a braços com a maior crise epidémica, económica e social do seu mandato. Ao falhar uma "2ª geringonça",  o governo hipotecou a possibilidade de um acordo à esquerda. À direita, Marcelo também não tem alternativa, já que a direita está agora mais fragmentada que nunca e refém do um partido anti-sistema, com o qual ninguém parece querer governar. As trapalhadas do governo sucedem-se e não é improvável que a legislatura não chegue ao fim. Nesse caso, haveria de novo eleições, um cenário que ninguém, à excepção do Chega, deseja. Adivinha-se um segundo mandato difícil e mais interventivo.

Finalmente, a organização: não se compreende que continuemos a votar pessoalmente e a perder horas em filas, para mais numa situação de pandemia, que recomendava um maior distanciamento e regras sanitárias apertadas. Porque não instituir o voto por correspondência e alargar o período eleitoral por mais do que um dia? Ou introduzir o voto electrónico que, de resto, já foi testado no passado? Depois: o boletim de voto, tinha 8 candidatos. O primeiro candidato do boletim, nem sequer tinha obtido as 7500 assinaturas necessárias para a sua legalização, mas tinha o seu nome e foto impressa no boletim! Custava muito mandar imprimir novos boletins de voto?

Seguem-se, no Outono, as eleições autárquicas. Até lá, resta-nos o combate à pandemia e as suas consequências. A prioridade das prioridades. Para o presidente e para o governo. 

2021/01/23

Eleições Presidenciais: contas (im)prováveis

Em dia de reflexão, as reflexões possíveis sobre umas eleições atípicas que, no último mês, mobilizaram os portugueses - candidatos e votantes - para mais um acto eleitoral. 

Desde logo a especificidade destas eleições, em meio de uma pandemia que, inevitavelmente, vai influenciar o resultado, dado o nível de abstenção esperado. O próprio presidente da república admitiu, esta semana, não ser improvável uma segunda volta, caso a percentagem de votantes seja inferior a 30%. Percebe-se o receio de Marcelo: se a abstenção ficar acima de 70%, é bastante provável que haja uma distorção das percentagens previstas e, nesse caso, o candidato mais votado (o próprio Marcelo) pode não atingir os 50%+1, necessários para eleger um presidente à primeira volta. A única vez que tal aconteceu foi em 1986, quando Soares e Freitas do Amaral necessitaram de uma segunda volta para apurar o vencedor. Todos os restantes presidentes (Eanes, Sampaio, Cavaco) ganharam sempre à primeira volta as eleições que disputaram, da mesma forma que todos (inclusive Soares) fizeram dois mandatos (dez anos no total). 

Depois, a pandemia em si, que nas últimas semanas atingiu números impensáveis há um mês e tornou Portugal o país do Mundo com mais mortes por milhão de habitantes (!?). Perante tal quadro, seria avisado adiar estas eleições ainda que, do ponto de vista formal, tal não fosse possível sem alterar a Constituição, o que, desde logo, se revelou uma impossibilidade de calendário. É, portanto, em clima de estado de excepção (próximo do estado de calamidade) que as eleições vão disputar-se amanhã. Com vista a reduzir as filas de votantes e os perigos de contágio implícitos, foi possível aderir ao "voto antecipado", no qual participaram cerca de 250.000 votantes, que já votaram no passado dia 17. De mal a menos. Como sempre acontece nestas coisas feitas em "cima do joelho", os votantes do passado fim-de-semana esperaram horas nas filas para poderem votar, o que não abona em favor da organização. Porque não prolongar a votação por dois dias (sábado e domingo, por exemplo)? 

Para além da pandemia, outra das razões que podem contribuir para a pouca participação, é o facto do vencedor ser conhecido antecipadamente. Marcelo Rebelo de Sousa é, de há muito, o político mais popular do país e, não por acaso, foi o último a anunciar a sua candidatura, pois sabe não necessitar de fazer campanha para ganhar estas eleições. Basta-lhe "estar". De resto, também aqui se repete a história: todos os presidentes, depois do 25 de Abril, foram reeleitos.

Finalmente, a campanha eleitoral, que decorreu ao longo de um mês e constou de duas partes distintas: os debates e as acções públicas, ao ar livre e em espaços confinados. Foi uma campanha atípica, como não podia deixar de ser, onde rapidamente se perceberam as tendências predominantes. Nos debates, em que os candidatos tentaram em 30 minutos (15 para cada lado) apresentar as suas ideias; e nas acções, onde não havia contraditório e as posições ficaram mais claras. 

Os debates

Foram "mornos" e pouco motivadores. Entre um presidente em funções, experiente em evitar provocações (Marcelo) e as arruaças de um candidato sem ideias, que fez da provocação a sua arma (Ventura), restavam cinco candidatos democratas, três dos quais representantes de forças partidárias (Marisa Matias, João Ferreira e Tiago Mayan) e dois independentes (Ana Gomes e Vitorino Dias). Mais do que apurar "vencedores", ainda que nalguns momentos a clarividência de Marcelo tenha sido evidente, a sensação que ficou, foi a da maior parte dos candidatos, terem um discurso mais próximo de um candidato a 1ª ministro do que um candidato a presidente da república. Pelos vistos, nem todos conheciam os poderes atribuídos pela Constituição. Neste campo, o único candidato que propôs alterar a Constituição (para limitar os poderes do Parlamento) foi o candidato da extrema-direita que, como todos os ditadores em potência, não gosta de ser escrutinado....Já ouvimos este discurso em qualquer lado.

As campanhas 

Foram esparsas e confinadas, o que não aumentou a interesse pelo acto eleitoral. Marcelo (vencedor antecipado) deixou praticamente de fazer campanha de rua, limitando-se a aparecer em lugares ou cerimónias escolhidas, enquanto os restantes candidatos procuraram um contacto mais pessoal, ainda que reduzido em participantes. Foram utilizados mais meios tecnológicos (plataformas "zoom" e outras) o que permitiu abrir o leque de participantes, mas nem tudo correu bem. Ter trazido a campanha para a rua, ajudou, no entanto, a melhor compreender a mensagem e o comportamento dos candidatos. Isso foi mais visível na campanha de Ana Gomes (a candidata democrata, mais bem posicionada, depois de Marcelo) e na campanha de André Ventura, que usou e abusou da demagogia habitual, para chamar as atenções dos incautos. Aparentemente, o "tiro saiu-lhe pela culatra", seja pelas manifestações de repúdio que encontrou em Serpa, Coimbra, Évora e Setúbal (foi o único candidato vaiado), seja pela perda nas intenções de voto, onde seria ultrapassado por Ana Gomes, que recolhe desta forma os dividendos do "voto útil" de outras candidaturas democratas. 

Chegados aqui, resta-nos esperar por domingo. De acordo com a maioria das sondagens, publicadas na última semana, os resultados não devem afastar-se muito do quadro abaixo. Isto, no que respeita o lugar dos candidatos. 

Partimos de um cálculo simples: somámos as percentagens, de cada candidato, apuradas pelas quatro principais sondagens publicadas (RTP/Público/Católica, SIC/ISCTE/ICS, TVI/Pitagórica/Observador e TSF/JN/DN) e dividimos o total de cada um, por 4. Os resultados, deste inquérito "caseiro", foram:

Marcelo Rebelo de Sousa - 61,5%

Ana Gomes - 14%

André Ventura - 10%

João Ferreira - 4,9%

Marisa Matias - 4,2%

Tiago Mayan - 3,1% 

Vitorino Dias - 1,5% 

Vale o que vale, mas podia ser pior...

Até lá e para quem possa votar: máscara, gel, caneta e cartão de cidadão, bastam. 

Votem! 

2016/01/24

Campanha alegre...

Ao meio-dia, tinham votado 15,8% dos recenseados portugueses. Fraquinho, fraquinho...
Há seis minutos, que estou a assistir em 6 canais (seis!) a uma entrevista de Marcelo Rebelo na mesa de voto de Celorico da Beira. De longe, o candidato que falou mais tempo e em mais canais em simultâneo. Em directo, nos telejornais das 13horas. Com mais de meio-dia para votar, se isto não é propaganda descarada, não sei o que é...

2016/01/23

Reflexão

Ao contrário da opinião generalizada, os dados não estão lançados, mesmo quando os media portugueses levaram o "candidato da televisão" ao colo.
Num país pouco dado a mobilizações e onde as taxas de abstenção rondam os 50%, não será diferente desta vez.
As razões para que tal suceda são, de resto, conhecidas: iliteracia generalizada, ignorância profunda sobre os verdadeiros problemas do país, admiração bacoca pelos símbolos do entretenimento a que temos direito e medo, "muito medo", do desconhecido. Ora, como bem sabemos, os povos (os portugueses não são excepção) são conservadores por natureza. Preferem votar no que já conhecem, a votarem na mudança. É natural. Há quem lhe chame "instinto de sobrevivência".
Acontece que, no quadro actual das relações do poder em Portugal, não há muitas escolhas, ou alternativas, possíveis: ou se vota no "status quo" - o modelo experimentado em Portugal nos últimos quatro anos; ou se arrisca mudar o modelo, com todos os riscos daí inerentes. Não se trata, sequer, de alterar o regime, porque esse parece de pedra e cal.
Um primeiro passo, frágil e arriscado é certo, foi tentado em Novembro que, de tão recente, não permite (ainda) extrair conclusões apressadas. O caminho é estreito, mas os sinais estão lá. Assim consigam os gestores da coisa pública, levar este barco a bom porto e muita coisa poderá mudar. Para melhor, espera-se.
Depois, há as presidenciais.
Ainda que não sejam eleições comparáveis e, muito menos, possam ser consideradas uma 2ª volta das legislativas, a recente campanha permitiu esclarecer algumas coisas importantes:
Desde logo, a emergência de dois ou três nomes, não totalmente desconhecidos, cujas propostas deixaram antever uma nova forma de fazer política, diferente daquela experimentada até agora. Depois, a clarificação, no campo da esquerda, de quem estava (ou não) verdadeiramente interessado na mudança. Nesse sentido, o surgimento de duas correntes distintas dentro do PS, foi clarificador e, nesse sentido, benéfico. Finalmente, a comprovação, à direita, que não é necessário uma máquina partidária oleada para eleger um candidato, pois, com os principais jornais e canais televisivos a apoiar, até "sabonetes se vendem". Numa sociedade de consumo, a publicidade, compensa.
Amanhã, saberemos, quem ganha. Ou melhor: amanhã, saberemos se há segunda volta ou não.
Em qualquer dos casos, só dois candidatos poderão passar à fase seguinte: Marcelo e Nóvoa.
Porque hoje, é "dia de reflexão" (uma lei completamente desactualizada na era digital), abstenho-me de dar a minha opinião.
Porque penso, e espero, haver uma 2ª volta, deixo já explícito qual será o meu candidato nessa altura: Sampaio da Nóvoa.

2011/01/24

A vitória da mediocridade

Não constituiram propriamente uma surpresa os resultados de ontem. Há muito tempo que as sondagens indicavam Cavaco Silva como o mais provável vencedor destas eleições. O facto de se recandidatar a um lugar que ocupa há cinco anos, a popularidade decorrente da passagem por diversos lugares de estado nos últimos 30 anos e o apoio de toda a direita parlamentar, garantiam-lhe, à partida, uma vitória fácil. Se juntarmos a estes dados, o facto de não haver uma candidatura alternativa forte que pudesse congregar toda a oposição, melhor se percebem as razões da sua reeleição. E, no entanto... nem tudo foram rosas para o presidente.
Desde logo, o facto de lutar contra cinco candidatos que, desde o início, o elegeram como principal inimigo. Depois, as suas, nunca bem explicadas, ligações ao "clan" do BPN e o favorecimento daí resultante, na compra das acções pessoais, por um preço estabelecido pelo presidente do banco falido. Finalmente, a questão da troca da propriedade no Algarve, numa urbanização onde, mais uma vez, vivem alguns dos sinistros personagens do BPN, só veio adensar as suspeitas. Junte-se a isto, a sua reconhecida incapacidade de comunicar, refugiando-se em respostas evasivas, sempre que era posto perante perguntas incómodas, acabou com o mito. Ou seja, pela primeira vez, o presidente em exercício foi escrutinado de uma forma a que não estava habituado e não soube lidar com a pressão. É verdade que ganhou, ainda que com menos meio milhão de votos relativamente a 2006 e num cenário recorde de abstenção e votos em branco, factores que não devem ser desvalorizados. Numa situação de crise social e económica profunda e sem alternativas à esquerda, os eleitores apostaram na "continuidade", segundo a velha máxima, "para pior já basta assim".
Cavaco ganhou, é certo, mas a sua imagem de homem "impoluto" e "acima de qualquer suspeita" nunca mais será a mesma. Ele sabe isso e os seus discursos ressabiados na noite de ontem confirmaram-no. Dificilmente poderá falhar, agora que foram reveladas informações que o comprometem para o futuro.
Sobre os outros candidatos, pouco há a dizer. Alegre foi sempre um candidato sem crença e os apoios envergonhados do seu partido apenas confirmaram uma derrota previamente anunciada. Nobre, apesar do discurso populista que chegou a raiar o patético em algumas situações, acabou por beneficiar da desilusão alegrista e do sentimento anti-partidos existente na população, conseguindo o melhor resultado relativamente ás expectativas com que começou. Francisco Lopes foi igual a si mesmo e segurou o eleitorado comunista, único objectivo da sua candidatura, enquanto os restantes dois candidatos - José Manuel Coelho e Defensor de Moura - foram essencialmente representantes regionalistas que nunca conseguiram ultrapassar a sua condição de "outsiders".
Uma última palavra sobre o problema técnico-informativo verificado nas mesas de votos, demasiado grave para passar em claro. Em condições normais, num país normal, tal anomalia faria rolar cabeças. Que o principal responsável do CNE viesse alegremente declarar, perante as câmaras de televisão, que as informações estavam disponíveis na NET e que bastava enviar um SMS para aceder à informação, é de uma cretinice a toda a prova. A maioria da população portuguesa não dispõe de computador pessoal e muitos daqueles que possuem um telemóvel têm dificuldade em usar os SMS. Resta acrescentar que muitos dos votantes são pessoas idosas e desistiram de votar quando compreenderam que tinham de deslocar-se a Juntas de Freguesia localizadas em bairros diferentes. Aparentemente, a forma mais fácil teria sido enviar uma carta a todos os recenseados com as necessárias informações. A operação custaria cerca de 1 milhão de euros. Foi este argumento economicista e mesquinho que impossibilitou centenas de pessoas de votar. Com tal sobranceria, não é de admirar que os cidadãos não se revejam neste estado. Também, por esta razão, estas foram eleições medíocres.