2025/10/14

Ainda as Eleições Autárquicas (o que correu mal)

Câmara Municipal de Lisboa - Organizações - Portal Dados Abertos

Passaram dois dias sobre as eleições autárquicas e a discussão sobre os resultados continua. Não faltam as acusações mútuas, nomeadamente entre as diversas forças de esquerda, para justificar os resultados obtidos. É o caso de Lisboa, por definição a autarquia mais importante do país e onde a diferença entre a coligação mais votada (AD) e a segunda força (Frente de Esquerda) aumentou para 30.000 votos.     

Uma das explicações possíveis, para a derrota da esquerda em Lisboa, tem a ver com a alteração demográfica da população residente nos bairros históricos da cidade. 

Vejamos: 

Carlos Moedas (AD) ganhou as eleições nos bairros da classe média e média-alta (Ajuda, Alvalade, Areeiro, Avenidas Novas, Estrela, Lapa, Parque-Expo, Telheiras...) onde a população é mais estável, tem mais educação, é potencialmente mais rica e onde (ainda) não chegou o turismo de massas. 

Alexandra Leitão (Frente Esquerda) perdeu votos nos bairros populares (Alfama, Bairro-Alto, Bica, Castelo, Mouraria...) onde os residentes tradicionais são, maioritariamente, da classe média-baixa, tem menores rendimentos e votam, tradicionalmente, no PS e no PCP.   

Uma das causas, da mudança na votação, deve-se à progressiva "gentrificação" dos bairros históricos, que conduziu à expulsão de milhares de residentes para a periferia e a consequente perda de eleitores no centro da cidade. Um fenómeno recente, que aumentou exponencialmente na última década, devido à alteração da lei de arrendamento local (2012) que favoreceu a especulação imobiliária e o aparecimento de uma industria ligada a hotelaria e ao alojamento local, em tempos de "boom" turístico.

É pois, neste quadro (menos população residente nos bairros históricos) que a Frente de Esquerda e a CDU perderam votos, já que sem população não há votantes e os turistas, como sabemos, não votam.

Com ou sem alianças, a esquerda dificilmente poderia ganhar, a menos que João Ferreira (o melhor dos candidatos) tivesse integrado a lista de Alexandra Leitão, o que estava longe de ser garantido, como se verificou. Só que o PCP, provavelmente traumatizado com a má experiência da "Geringonça", preferiu não o fazer, apostando na preservação da sua "identidade" e optando por concorrer em pista própria.  

Desta forma, perderam os dois "blocos", a "Frente de Esquerda" (PS, BE, Livre e Pan) e a CDU (PCP e Verdes). Ganhou Moedas (AD, IL), certamente o pior presidente da câmara de Lisboa em 50 anos de democracia. Agora, só daqui a quatro anos...

 

1 comentário:

Carlos A. Augusto disse...

A obrigação do PS era de ganhar votos ao eleitorado da AD, não ao da CDU. E aí, a Alexandra Leitão não esteve, simplesmente, à altura. Dirira mesmo que foi um desastre. Foi completamente neutralizada pelo Moedas. O João Ferreira fez uma excelente campanha e o resultado reflecte-o. Atirar as culpas deste resultado para outras candidaturas é sacudir a água do capote. O PS é uma tristeza.