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2025/10/14

Ainda as Eleições Autárquicas (o que correu mal)

Câmara Municipal de Lisboa - Organizações - Portal Dados Abertos

Passaram dois dias sobre as eleições autárquicas e a discussão sobre os resultados continua. Não faltam as acusações mútuas, nomeadamente entre as diversas forças de esquerda, para justificar os resultados obtidos. É o caso de Lisboa, por definição a autarquia mais importante do país e onde a diferença entre a coligação mais votada (AD) e a segunda força (Frente de Esquerda) aumentou para 30.000 votos.     

Uma das explicações possíveis, para a derrota da esquerda em Lisboa, tem a ver com a alteração demográfica da população residente nos bairros históricos da cidade. 

Vejamos: 

Carlos Moedas (AD) ganhou as eleições nos bairros da classe média e média-alta (Ajuda, Alvalade, Areeiro, Avenidas Novas, Estrela, Lapa, Parque-Expo, Telheiras...) onde a população é mais estável, tem mais educação, é potencialmente mais rica e onde (ainda) não chegou o turismo de massas. 

Alexandra Leitão (Frente Esquerda) perdeu votos nos bairros populares (Alfama, Bairro-Alto, Bica, Castelo, Mouraria...) onde os residentes tradicionais são, maioritariamente, da classe média-baixa, tem menores rendimentos e votam, tradicionalmente, no PS e no PCP.   

Uma das causas, da mudança na votação, deve-se à progressiva "gentrificação" dos bairros históricos, que conduziu à expulsão de milhares de residentes para a periferia e a consequente perda de eleitores no centro da cidade. Um fenómeno recente, que aumentou exponencialmente na última década, devido à alteração da lei de arrendamento local (2012) que favoreceu a especulação imobiliária e o aparecimento de uma industria ligada a hotelaria e ao alojamento local, em tempos de "boom" turístico.

É pois, neste quadro (menos população residente nos bairros históricos) que a Frente de Esquerda e a CDU perderam votos, já que sem população não há votantes e os turistas, como sabemos, não votam.

Com ou sem alianças, a esquerda dificilmente poderia ganhar, a menos que João Ferreira (o melhor dos candidatos) tivesse integrado a lista de Alexandra Leitão, o que estava longe de ser garantido, como se verificou. Só que o PCP, provavelmente traumatizado com a má experiência da "Geringonça", preferiu não o fazer, apostando na preservação da sua "identidade" e optando por concorrer em pista própria.  

Desta forma, perderam os dois "blocos", a "Frente de Esquerda" (PS, BE, Livre e Pan) e a CDU (PCP e Verdes). Ganhou Moedas (AD, IL), certamente o pior presidente da câmara de Lisboa em 50 anos de democracia. Agora, só daqui a quatro anos...

 

2022/10/09

O DOC's está de volta!


Entre 6 e 16 de Outubro, está a decorrer a 20ª edição do DOC's Lisboa (Festival Internacional de Cinema) que mais uma vez regressa à capital lisboeta. 

Depois de dois anos de "menor visibilidade", devido à pandemia reinante, o DOC's regressa, com uma programação à altura da qualidade a que nos habituou, desde a sua criação, já lá vão uns bons vinte anos.

São mais de 300 documentários/filmes, entre obras em competição, primeiras obras, ciclos e retrospectivas diversas, que poderão ser vistos em sessões únicas e repetidas (a maior parte dos filmes), em salas tão diversas como o cinema S. Jorge, a Culturgest, a Cinemateca Portuguesa, o cinema Ideal, ou a sala Fernando Lopes, recentemente inaugurada e a funcionar na Universidade Lusófona. 

Como habitualmente, e para além dos filmes a concurso, divididos em duas secções distintas, respectivamente, "Competição Internacional" e "Competição Nacional", o Festival mantém as habituais secções: "Da Terra à Lua", "HeartBeat", "Riscos", "Verdes Anos", "Doc Alliance" e "Cinema de Urgência". 

Na secção "Retrospectivas",  destaque para o cinema de Carlos Reichenbach (Brasil) e para "A questão colonial" (esta, com enfoque nas guerras de libertação da Argelia e das ex-colónias portuguesas), em dois dos ciclos mais aguardados deste Festival. Para além dos filmes, haverá debates com os realizadores presentes, sobre as temáticas respectivas ("cinema novo" brasileiro em tempos de ditadura e lutas anti-coloniais em África). 

Outros menções, a atribuir pelo Festival, são o prémio para "Melhor Realizador", o prémio "Melhor Curta-Metragem até 40' ", prémio "Lugares de Trabalho e condições sociais", prémio "Práticas, Tradição e Património" e prémio "Fernando Lopes". Todos os filmes premiados receberão, para além do diploma respectivo, um prémio pecuniário como estímulo para futuras produções. 

Que escolher, entre tanta oferta, sabendo que a maior parte dos filmes não será distribuída e não voltará a passar no circuito comercial? Eis uma pequena lista de filmes, que não vimos e gostaríamos de ver: ""A Human Condition" (Louis Malle), "The Fire Within" (Werner Herzog), "I, a Negro" (Jean Rouch), "Mueda, Memória e Massacre" (Ruy Guerra), "Godard Cinema" (Cyrill Leuthy), ""Getúlio Vargas" (Ana Carolina Teixeira de Sousa), ""Lynch/OZ"  (Alexandre O. Philippe), "Invisible Hands" (Hugo Santos), "Everything will be OK" (Rithy Panh)...       

Entre estes títulos, não podemos deixar de destacar "Les mains invisibles" (Invisible hands), que passará no ciclo "Da Terra à Lua", do realizador português, residente em França, Hugo Santos. Uma sinopse possível: "Nos anos 1970, uma casa em Paris acolhia dezenas de desertores portugueses que se esquivavam à guerra colonial. Só os arquivos da polícia política portuguesa guardavam provas das suas actividades anti-coloniais. De personagem em personagem, reunindo testemunhos e imagens amadoras, reconstruo esta memória" (Hugo Santos).  

P.S. Declaração de interesses: porque conheci bem a casa referida no filme de Hugo dos Santos, não posso deixar de recomendar este documentário. A ver, desde logo. 

Bom Festival e Viva o Cinema! 

2018/09/20

Taxi Driver (15)


2º dia de greve dos taxistas de Lisboa.
São 10h da manhã. Passo pela praça de táxis do bairro, deserta àquela hora.
Pára um táxi. O motorista abre o vidro e pergunta:
- Para onde vai?
Para Sete-Rios, respondo.
- Está bem, pode entrar...
Então, não está em greve?
- Estou e não estou...se fosse para a Baixa não ia, está para lá uma confusão dos diabos...
Pois deve estar e vai continuar, ao que percebi.
- Sim, são capazes de lá ficar o dia inteiro, mas isto não vai dar em nada...
Não? Então?
- Não vai dar em nada, porque há muitos interesses à mistura e há governantes metidos nisto.
Não me admirava nada...
- Olhe, o dono da Uber é o marido da Cristas, a filha do ministro do ambiente tem uma frota de 20 carros na Uber e até há donos de empresas de táxis que têm carros na Uber...Como é que isto pode dar resultado? Não viu o tempo que levaram a aprovar esta lei? Há dois anos que andam a discuti-la e só em Novembro é que vai ser promulgada. Claro que isto deve interessar a alguém...
Sim, há sempre interesses e "lobbies" pelo meio, já sabemos...
- Claro que há. E agora já não é só a Uber, entretanto apareceram mais duas empresas, a Cabify e uma francesa. Isto não pára...
Mas também existem noutros países...
- Pois existem, mas foram proibidas noutros. Ouça, os motoristas de táxi não são contra a Uber, apenas querem ser tratados de forma igual: mesmos direitos e obrigações. Eles podem circular desde que observem as mesmas regras: têm de pagar impostos, estacionar nas mesmas praças e fazerem cursos como nós fazemos. E devem ser estabelecidos máximos no número de viaturas...
As pessoas pensam que pagam menos indo com a Uber, mas não é verdade. Ainda esta semana apanhei uma senhora que me disse que foi a Cascais num carro da Uber, em tarifa dinâmica, e só pagou 40 euros. E eu disse-lhe que se tivesse ido de táxi, pagava 30! Porque no táxi só pagava o que o táximetro marcasse e indo com a tarifa dinâmica na Uber, esta cobra pela prioridade no serviço. Quanto mais serviços têm, mais os preços sobem... 
Estou de acordo, a legislação tem de ser mais apertada. Já há cidades que impuseram regras, como Barcelona, Copenhague e Berlim. A Uber não aceitou as condições e foi-se embora...
- Está a ver? É isso que os nossos governantes têm medo de fazer...está tudo "armadilhado"...
E quanto tempo é que pensa que este "braço de ferro" vai durar?
- Nunca se sabe, pode durar dias ou acabar já hoje, mas há carros a trabalhar...o problema é da legislação. Se houver regras é mais fácil para toda a gente. Já viu os "tuc-tucs"?
Os "tuc-tucs"?
- Sim, os "tuc-tucs". Não havia legislação e começaram a aparecer por todo o lado. Eram 200 e já são quase 600! A ideia inicial era haver 20 ou 30, que iam aos sítios onde os táxis não podem ir, como os castelos, miradouros e tal, mas agora andam por todo o lado. Até ao Cristo-Rei já vão!
Ao Cristo-Rei? Mas, podem passar na ponte?
- Podem, porque são motores com mais de 125cc.
Essa nunca tinha ouvido...
- Vale tudo. Com os protestos, a Câmara ainda fez uma lei para acabar com os motores a gasolina, por causa da poluição. Agora só com motores eléctricos. Mas, continuam a empatar o trânsito, a não pagarem impostos, não têm táximetros, fazem o preço que querem e exploram os turistas que nunca sabem quanto pagam no fim a corrida. A maior parte deles, nem as ruas de Lisboa conhecem...
Pois não, já não falando das informações erradas que dão, pois não têm formação.
- Qual formação, qual quê! Eu bem os vejo em Sintra. Vim de lá agora. Os táxis deixaram de ir ao Palácio, pois só ganham 5euros e eles vão lá cima por 5 euros por passageiro. Levam 6, são 30 euros. Trazem 6 para baixo, são mais 30 euros. Ao fim do dia, imagine quanto dinheiro é que ganham.
Imagino, imagino...
- É como lhe digo, não há lei nem roque nesta cidade...mas, isto não vai dar nada...
Bom, ficamos por aqui. Tenho de ir comprar bilhetes de comboio. E amanhã, já há táxis? Tenho de ir para o estrangeiro...
- Há, desde que não seja para o centro da cidade. Para o aeroporto já está tudo a funcionar.
Estou a ver. Continuação de boa luta!




2016/12/15

O Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa



Cumprindo o ritual mensal, dirigi-me no passado mês de Setembro à minha barbearia dos últimos vinte anos, a "Barbeiros Reunidos", situada ao fim da Calçada do Carmo, perto da Praça do Rossio. Uma barbearia antiga, algo decrépita, onde três diligentes barbeiros e duas "manicures", em idade de pré-reforma, atendiam com cumplicidade os habituais clientes. Ainda conheci a equipa original, constituida por cinco barbeiros que, nos "dias de brasa" do PREC, decidiram criar uma cooperativa. A cooperativa seria, entretanto, desfeita, mas o nome ficou.
Dos sócios originais, só o Sr. Alfredo ainda trabalhava. Era também o melhor profissional, ainda que raramente me cortasse o cabelo, pois estava sempre ocupado. Para não ter de esperar, optava pela primeira cadeira livre, o que me poupava bastante tempo. Em menos de meia-hora, estava despachado. Barba e cabelo por um preço, inalterado há mais de uma década, de 18euros.
Pouco passava das 17h. quando entrei na barbearia, vazia àquela hora. Literalmente. Nem clientes, nem "manicures", nem móveis. Nada. Apenas 5 cadeiras, outros tantos espelhos e 3 barbeiros, a conversarem entre si.
Perguntei se iam fazer obras e responderam-me que iam fechar.
- Vão de férias?
Não, vamos mesmo fechar. Definitivamente. O senhor vai ser o nosso último cliente. Pode escolher a cadeira...
- O quê? O negócio, vai assim tão mal?
Não, mas fizeram uma proposta ao Alfredo e ele aceitou o negócio...
- Mas, então, o que é que vão fazer?
Ele deve ir para o Algarve, onde tem uma casa. Eu ainda não sei, mas tenho uma irmã em Portimão, que ficou toda contente por eu deixar este trabalho (já o faço há 60 anos, sempre no Rossio) e o rapaz (apontando o elemento mais recente da equipa) não vai ter problemas, pois arranja sempre trabalho em qualquer lado...
- Nem quero acreditar. E os restantes inquilinos do prédio? Também se vão embora?
Não há mais inquilinos. O prédio está vazio e é património municipal. Para além de nós, só há aqui uma loja de telemóveis, que também terá de sair...
- Estou a perceber. Mais um hotel, com certeza, já há poucos na "baixa"...
Não, disseram-nos que vão fazer aqui o Museu da Conserva...
- O Museu da Conserva? Essa é boa...no Rossio?
Pois, é de um gajo da Murtosa, o mesmo que tem a "Loja das Enguias". Também já tem o "Museu da Cerveja" no Terreiro de Paço e aquela loja do "Pastel de Bacalhau com Queijo da Serra", na Rua Augusta...
- Inacreditável. Nem sei o que diga. 
Eu ainda não quero acreditar. Pensar que, amanhã, já não venho trabalhar...Há mais de 30 que trabalho com o Alfredo e há 60 que trabalho no Rossio. Só tenho vontade de chorar...
- Mas, então que idade tem?
Tenho 80, mas gosto do que faço e não sei fazer mais nada...e agora?
- Isso deve ser terrível, de facto, mas tem de ver o lado positivo das coisas. Vai receber uma indemnização e poderá gozar a reforma no Algarve...
É o que me diz a minha irmã: "vens para cá e podes ir à pesca"...
- Claro, parar é morrer. Já cumpriu a sua parte. Eu é que tenho de arranjar um novo barbeiro...
Cortado o cabelo, despeço-me dos três, enquanto recebo do Sr. Alfredo uma palavra de agradecimento: "obrigado por nos ter dado a preferência". Saio da barbearia, meio abananado pela notícia. 
Esta semana, amigas espanholas de longa data, que frequentemente visitam Lisboa, chamavam-me a atenção para as iluminações natalícias. Estavam muito impressionadas com a "profusão de luzes"...
No Rossio, parámos para os inevitáveis "selfies". À esquina da praça com a Calçada do Carmo, uma "loja" distinguia-se das demais. Em rigor, não é uma loja. É uma "barraca de feira", com muitas cores, carrosséis, música e uma roda gigante em miniatura. Lá dentro, de cartola e fardado de vermelho, um empregado convidava-nos a entrar para apreciar a colecção de latas de sardinhas do último século. Milhares de latas, ordenadas por décadas e agrupadas em cores garridas, que podem ser apreciadas e compradas a 5euros, cada. Há latas de sardinhas, de enxovas, de atum, de lulas e de cavala. Tudo em azeite virgem, claro. A "minha" barbearia tinha dado lugar ao "Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa".
       

2016/09/14

Taxi Driver (9)

Estação de Sta. Apolónia, fim de tarde. Não há táxis e a fila de clientes aumenta a olhos vistos. Ao fim de largos minutos de espera, surgem os primeiros carros. A barafunda do costume.
- Para a Buraca, sff...
Quer ir por onde? Por Alfama, ou por fora, ao longo do rio? Isto agora está tudo em obras,  de modo que tanto faz... Olhe, vamos andando, não é verdade? Logo se vê...
- Pois, as obras são mais que muitas...
Eu não sou contra haver obras, só não percebo porque têm de fazê-las todas ao mesmo tempo...
- De facto, é um pouco estranho...
Qual quê, vêm aí as eleições, não está a ver? São todos iguais...só se lembram da cidade quando querem votos! De mim, é que o Medina não leva voto. Nem de mim, nem da maior parte dos meus colegas...
- Sim, também será isso, mas ouvi as declarações do vereador do urbanismo e ele disse que tinha a ver com as licenças de construção, que têm de passar por um logo processo burocrático.
Pois, esse senhor só faz é disparates. Já viu como está o Marquês e a Avenida da Liberdade? Era para diminuir a poluição, mas o senhor acredita? Não se pode lá passar. Aquilo é um inferno. E vá lá que não vão mexer na 2ª circular, senão era um verdadeiro caos! Esta gente vive dentro dos gabinetes,  não fala com quem anda no trânsito e só faz asneira...
- É terrível, eu sei. Ainda por cima, Lisboa é uma cidade velha, com ruas estreitas e um centro histórico muito antigo. É difícil "mexer" na cidade, sem afectar a população...
Isso, era evidente. Estava tudo a cair aos bocados e há muitos anos que eram necessárias obras. Porquê, só agora?
- Também terá a ver com o aumento do turismo. Lisboa está na moda e é preciso dotar a cidade de meios que facilitem a vida aos visitantes, senão eles deixam de cá vir...
Vão deixar de vir, mais ano menos ano, ou pensa que isto dura sempre? Não se esqueça que os turistas vêm agora, porque a vida é barata e não há terrorismo. Isto são tudo turistas "pé descalço", que viajam nas "low-cost" e ficam em hotéis baratinhos. Quando se cansarem, voltam a ir para Espanha, para França e para esses países do Norte de África...
- Também terá a ver com isso, sim. A vida aqui ainda é relativamente barata e Portugal é um país calmo e bom para famílias com crianças. Isso é o que se lê e ouve dizer pelos estrangeiros. O problema é que, para atender esta invasão, estão a expulsar os moradores e os comerciantes das zonas históricas e a renovar os edifícios antigos, que rendem pouco, para transformá-los em hotéis baratos...
Mas, nunca chega! Não há dormidas para esta gente toda! Eu sei do que falo. Trabalho à noite e já levei várias famílias ao aeroporto para passarem lá a noite, porque não conseguiram arranjar dormidas na "baixa". Normalmente, quando as pessoas me pedem para ver se há hotéis, levo-as ali para Almirante Reis, onde há muitas pensões e hotéis baratos e está tudo cheio. Nem um quarto! Quando um está cheio, é porque está tudo cheio.
- É terrível, eu sei, fora os assaltos de que são vítimas. Mais de sessenta num só dia, vi esta semana na televisão...
Claro. Toda a gente se aproveita. Até os ladrões! Aqui há umas semanas, recebi uma chamada por telefone para ir buscar uma moça brasileira, que estava numa pensão ali para o Chile. Apareceu-me com uma grande mala e queria que eu lhe procurasse um hotel limpo...mostrou-me uma fotos que tinha tirado com o telemóvel e os lençóis estavam cheios de bichos pretos, que eu nunca tinha visto...ainda por cima, tinham-lhe pedido 600euros adiantados e ela não tinha papéis para comprovar. As pessoas querem ganhar dinheiro a todo o custo e alugam quartos sem condições. Isto é tudo à ganância! Também acabei por levá-la ao aeroporto e disse-lhe para fazer queixa à polícia.
- Faço ideia do que se passa por aí...
Nem calcula. Ainda a semana passada andei com uma senhora e a filha à procura de um hotel e, como não arranjámos, ela ofereceu-me 150euros para poder dormir lá em casa. Está a ver o desespero desta gente! Claro que recusei, até porque a minha casa é pequena e nem ia pedir dinheiro por uma dormida. Isto é o "salve-se quem puder"...
- Já aconteceu o mesmo noutras cidades, como Barcelona e Amsterdão, e tiveram de congelar as licenças de construção para hotéis. Em Berlim, até proíbiram os AirB&B...
Eu sei, eu sei...também viajo muito e todos os anos vou até ao estrangeiro. Nada desta bagunça que se vê aqui...isto é uma vergonha. Tudo a roubar!
- Fora o barulho e a poluição sonora, claro...
Eu sei...morei 10 anos na Mouraria e tive de sair de lá. Agora, moro no Bairro Alto, numa casa da Câmara. Sempre é melhor, mas também há barulho.
- Imagino, há barulho em todo o lado: no Bairro Alto, na Mouraria, em Alfama, no Cais do Sodré...
Pois é. Isto não tem conserto. Eu gostava era de morar fora de Lisboa. As casas na Buraca, são baratas?
- Já foram. Agora, as casas que vagam, são tão caras como em Lisboa. Mas, não há casas vagas...
Está a ver? Temos de ir viver para a província. Bem, chegámos...Desculpe lá a conversa, mas temos de falar com os clientes, não e verdade?
- É verdade. E faz muito bem.  



  

2016/01/04

Taxi Driver (3)

Para onde é que vamos?
- Para a Buraca, sff...
Tem algum caminho preferido?
- Talvez pelo Monsanto, há menos semáforos...
Terminou mais um dia de trabalho, não?
- Não, já não trabalho, no sentido formal do termo...
Ah... reformado... Também gostaria de estar assim, agora sou taxista...
- Então?
Tive de agarrar o que havia... a minha empresa foi à falência e tive de arranjar um táxi. Tenho dois filhos para criar. Estão ambos na faculdade, um com 19 e outro com 22. Alguém tem de ganhar dinheiro. A minha mulher trabalha e, até ver, tenho de ser taxista...
- Pois, não deve ser fácil. Ainda para mais há muita concorrência nos táxis...
Concorrência? Isto são tudo "curiosos" que vêm aqui estragar o negócio dos outros. Está cheio de oportunistas.
- Não há controlo?
Controlo? Ando aqui há seis meses e nunca fui controlado. Ninguém controla nada neste país...
- Lá isso, também é verdade... Isto está bom é para os banqueiros...
Lá está, para os banqueiros e para os políticos que estão feitos com os banqueiros. Veja lá na América, se o Madoff não apanhou centenas de anos! Centenas de anos! Ou na Islândia... onde deixaram falir os bancos.
- Certo. Fizeram eles muito bem.
Cá, mandam os gajos para casa com pulseiras, como o gajo do BPN, que pôs os bens todos em nome da mulher. Mas, a culpa também é deste povo que aceita tudo. O meu pai sempre me disse que Portugal era um país muito pequenino e que não sabíamos cuidar de nós. Tivemos aquele século dos Descobrimentos e nunca mais... vivemos sempre à custa de alguém: das colónias, agora da Europa...
- Sim, somos pouco letrados e críticos...
Lá está. Esta gente nova não se interessa por nada...os meus filhos, se eu não fôr acordá-los de manhã ficam a dormir. O mais novo, quando eu, hoje, saí de casa ainda ficou na cama...
- Também têm a vida mais facilitada...
Lá em casa, não. O meu mais velho só teve computador aos 18 anos. Se queria trabalhar num, ia para o meu escritório. Não pago extravagâncias, como aqueles pais que mandam os filhos para Espanha, embebedar-se no fim do curso. Não há para mim, não há para eles. É igual para todos...
- Acho muito bem...
Eu também tive o primeiro carro aos 18 anos, mas o meu pai tinha posses e eu ajudava-o a arranjar carros na oficina. Fazia serões a limpar as peças todas...e hoje ando aqui, a fazer nem sei bem o quê...
- Ainda por cima com esta crise e a falta de dinheiro...
Falta de dinheiro? Tem visto os debates? Veja lá a corrupção que para aí há...começa logo pelos impostos no mesmo ramo de actividade: se você dormir num hotel de 5 estrelas paga 6% de IVA, mas se for a um restaurante em frente, paga 23%! Acha isto bem? Só defendem os grandes grupos económicos...
- Sim, essa afirmação é do Paulo Morais, que também disse que 30% da economia não pagava impostos.
Pois não! 30% ou mais! Já viu para que dava esse dinheiro?...
- Imagino...para pagar reformas, por exemplo...
Sim, eu acho que esse senhor tem razão, mas não devia candidatar-se a presidente da república. Devia ir para o Ministério Público...
- Também acho que faria um bom lugar no MP.
Mas, julga que esta gente vai votar nele? Vão todos votar no Marcelo, porque o conhecem da televisão. Uns broncos. A mim não me enganam, vou votar no reitor da universidade.
- No Nóvoa?
Nesse. Um homem culto e de confiança.
- Bom, chegámos.
São €9,75. Bom ano para si.
- Bom ano.


2015/11/02

DOC's (parte 3)



Terminou mais uma edição do DOC's, o melhor festival português de cinema documental, com o anúncio e entrega dos respectivos prémios. Nas categorias Portuguesa, Internacional e Favorito do Público, destaque para "Rio Corgo" (longa-metragem portuguesa) da dupla Maya Kosa e Sérgio Costa (já aqui referenciado); "Il Solengo", da dupla italiana Rigo de Righi e Matteo Zoppis e "Phil Mendrix" de Paulo Abreu. Outros filmes (duplamente) premiados, foram "Dead Slow Ahead" de Mauro Herce (Espanha) e "Talvez Deserto, Talvez Universo" de Karen Akerman e Miguel Seabra Vasconcelos.
Dos títulos acima referidos, vimos "Phil Mendrix", um biopic sobre o legendário Filipe Mendes, guitarrista actual dos "Ena Pá 2000!" e dos "Irmãos Catita", que passou pelos históricos "Chinchilas" e "Roxigénio", dos anos sessenta e setenta. Após uma estadia no Brasil, onde residiu durante a década de '80, Filipe regressou a Portugal, para reiniciar uma carreira única, agora "rebaptizado" de Phil Mendrix, em homenagem ao ícone Jimi Hendrix. Excelente documentário, tanto do ponto de vista técnico (som e imagem) como musical, recheado de episódios humorísticos, dignos desta personagem única no meio musical português.
"Talvez Deserto, Talvez Universo", relata o quotidiano de um grupo de doentes mentais, numa ala do Hospital Júlio de Matos, utilizando o método da observação-participativa, onde a descrição e o respeito, pelos personagens filmados, são notáveis. Óptima fotografia e enquadramentos, num preto e branco enevoado, a sublinhar a ténue fronteira entre loucura e normalidade.
Dos ciclos temáticos, "I don't throw bombs, I make films" (da famosa citação de Fassbinder), apresentava uma das melhores selecções desta Mostra.  Destaque para "El Proceso de Burgos" (Imanol Uribe), um extenso e bem documentado filme, sobre o célebre processo contra 9 membros da ETA, acusados da morte do Comissário da Brigada Político-Social de Guipúzcoa (País Basco) em 1968. Pesem os inúmeros pormenores do julgamento, contados por todos os implicados, o documentário peca pela extensão e repetição de detalhes, numa sucessão de "talking-heads", algo monótona. Bem mais interessante, seria a trilogia "Afsan's Long Day" (The Young Man was...) de Naeem Mohaiemen, uma reflexão sobre os anos tumultuosos do Bengla-Desh pós-1971, em contraponto com o chamado "Outono Alemão" e as espectaculares acções da "Armada Vermelha" japonesa, quando o terrorismo internacional era transversal a diversas zonas do globo.
No mesmo ciclo, destaque para dois filmes italianos, o excelente "Colpire al Cuore" (Gianni Amelio) sobre um jovem em crise, desconfiado das relações do pai com uma amiga acusada de terrorismo; e a curta-metragem "Hipóteses sobre a morte de G. Pinelli" (Elio Petri), onde são encenadas 3 versões da morte do anarquista Pinelli, acusado do atentado da Piazza Fontana (Dezembro de 1969) e que, segundo a versão policial, teria saltado da janela da esquadra, o que lhe provocou a morte. O caso, que se tornou emblemático, denuncia as práticas da polícia italiana e é igualmente relatado num dos melhores filmes deste ciclo, "A Orquestra Negra", sobre o "complot fascista" organizado com o apoio da CIA na Itália dos anos sessenta.
Ainda sobre a mesma problemática, dois filmes alemães históricos: o primeiro, "Deutschland im Herbst" (com Rainer Werner Fassbinder, Bernhard Sinkel, Edgar Reiz, Volker Schlondorff e Wolf Biermann e.o.), sobre os dias que se seguiram ao assassinato, em 1977,  de Hanns-Martin Schleyer, às mãos do grupo Baader-Meinhof. Imagens que correram Mundo, desde o enterro do presidente da confederação dos patrões alemães, até à prisão dos terroristas e ao posterior anúncio da sua morte (alegadamente por suicídio) na prisão de Stammheim. O filme, que termina com imagens do funeral dos três terroristas, encontrados mortos nas suas celas, tenta articular e explicar um sentido para esta estratégia de luta, que caracterizou a extrema-esquerda europeia nos anos setenta; o segundo, "Die Bleierne Zeit" (Margarethe von Trotta), é uma encenação da relação das irmãs Meinhof (Marianne e Julianne) personalidades antagónicas, que permanecem unidas até ao trágico desenlance na prisão de Stammheim, após o qual, Julianne (jornalista), toma conta do filho da irmã e inicia uma investigação sobre as causas da morte de Marianne. Dois clássicos a ver e rever, sobre um dos períodos mais conturbados da história europeia recente. O DOC's 15, acabou, mas os documentários continuam. 

P.S. Durante o Festival, fomos informados da morte do cineasta José Fonseca e Costa. Um desaparecimento, de algum modo anunciado, dado o estado de saúde do realizador nas últimas semanas. O cinema português perdeu uma referência e um autor de filmes marcantes, onde se destacam "O Recado", "Os Demónios de Alcácer-Quibir", "Kilas, o mau da fita", "Sem Sombra de Pecado", "Balada da Praia dos Cães", "Cinco Dias, Cinco Noites" e "A Mulher do Próximo". O cinema e, por extensão, a cultura portuguesa, estão de luto. A nossa homenagem.     


2015/10/27

No DOC's, o documentário está vivo e recomenda-se



Bons filmes, na edição deste ano do DOC's, a montra por excelência do cinema documental internacional em Portugal.
Cinco dias e onze filmes depois, o balanço é francamente positivo, a confirmar as melhores expectativas. Depois do excelente "Bella e perduta", que inaugurou o festival, um fim-de-semana recheado de obras marcantes, entre as quais deve ser destacado o profundo e denso "Listen to me Marlon" (Stevan Riley), montado a partir de mais de 400 cassetes áudio, vídeos e DVDs, que Marlon Brando gravou ao longo de décadas. Um manancial de informações, sobre a personalidade do "maior actor da história do cinema", relatadas na primeira pessoa, onde se cruzam entrevistas, depoimentos, intimidades e excertos dos filmes "Um Eléctrico Chamado Desejo" "Julio César", "Há Lodo no Cais", "Guys and Dolls", "Mutiny on the Bounty","O Último Tango", "O Padrinho" ou "Apocalypse Now", a provar, como frisou Scorsese, que "no cinema, há um tempo antes e depois de Brando".
Interessantes, são os filmes portugueses "Portugal, um dia de cada vez"  e "Rio Corgo", respectivamente das duplas João Canijo/Anabela Moreira e Maya Kosa/Sérgio Costa, sobre o Portugal profundo (ambos os filmes foram rodados em Trás-os-Montes) que, de algum modo, podem ser completados com a trilogia "As mil e uma noites" de Gomes, actualmente em exibição no circuito comercial. Um país periférico, com pessoas magníficas, que nos remetem para uma realidade surreal, longe dos centros urbanos do litoral. Magníficas personagens, que os realizadores se limitam a acompanhar num quotidiano árduo, mas povoado de sonhos, traduzidos em imagens inesquecíveis. Bons filmes, a meio caminho entre o documentário e a ficção, num género que, a cada dia que passa, parece ganhar mais adeptos em Portugal.
Um dos documentários mais marcantes, integrado na retrospectiva "I don't Throw Bombs, I make films",  foi a longa metragem "L'Orchestre Noire" (Jean-Michel Meurice), uma reconstituição dos inquéritos, realizados ao longo de 20 anos sobre os atentados em Itália, nos fins dos anos '60, que levaram à acusação da extrema-esquerda naquele país. Uma colaboração entre serviços secretos italianos e a CIA, inspirada no golpe dos coronéis gregos de 1967. Não é fácil obter material sobre complots fascistas, documentados pelos seus próprios cérebros e executantes, mas o nível e a profundidade do inquérito jornalístico, levado a cabo neste filme, são arrepiantes. Uma lição a reter, agora que o golpe de estado institucional parece estar na moda na Grécia e em Portugal.     
Outra retrospectiva, merecedora de atenção, é dedicada a Zelimir Zilnik (Sérvia), do qual é exibida a obra integral. Desconhecido entre nós, Zilnik é autor de mais de 50 fimes, entre curtas e longas metragens documentais e ficção. A filmar desde os anos '60 do século passado, o realizador, nascido na ex-Yugoslávia de Tito é, provavelmente, o maior documentarista vivo dos Balcãs. Vimos, até agora, 4 dos seus filmes: uma curta metragem a preto e branco sobre folclore local, um filme de ficção-científica sobre o "socialismo" Titista e dois filmes de uma trilogia, cuja personagem principal é Kenedi Hasan, um cigano bósnio expulso da Alemanha que procura integrar-se e ajudar outros ex-emigrantes nos subúrbios de Belgrado. Docu-dramas, filmados com as vísceras, a roçar o "cinema verité" dos anos sessenta e setenta, quando o cinema era maior que a vida. O realizador está em Lisboa a acompanhar o ciclo e apresenta todos os filmes. Um personagem, Zilnik.
Perdido, entre dezenas de títulos, uma pequena preciosidade, "A Tragédia de um Homem Ridículo" de Bernardo Bertolluci. Datado de 1981, o filme relata o rapto do filho de um ex-partizan, industrial de queijo, com o fim de obter dinheiro para fins terroristas. Excelentes actuações de Tonazzi, Aimée e Morante, filmado na região de Parma, num colorido deslumbrante.
O Festival ainda vai a meio e o melhor está para vir...  

2015/10/23

O DOC's está de volta!



Teve ontem início e durará até ao próximo dia 1 de Novembro, a 13ª edição do "DOC's", a maior e mais importante Mostra de Cinema Documental em Portugal.
Da sessão de abertura, para além dos agradecimentos habituais e das palavras (auto) elogiosas dos organizadores, registamos a exibição do excelente filme "Bella e perduta", do jovem realizador Pietro Marcello, uma bela alegoria à Itália actual, onde os factos reais se confundem com personagens e imagens oníricas, que não desdenhariam uma fábula de La Fontaine.
Grande abertura, presenciada por uma assistência maioritariamente jovem (o futuro está aí), que não poupou aplausos durante e após a sessão.
O festival está de volta, com exibições em simultâneo nas salas da Culturgest, Cinema City (Campo Pequeno), S. Jorge, Cinemateca e Cinema Ideal, com exposições e projecções multimédia no Museu de Electricidade em Belém.
Na impossibilidade de citar o programa em detalhe, destacamos os filmes da Competição Internacional e da Competição Portuguesa (a concurso) e os habituais ciclos temáticos, este ano com os nomes sugestivos de "Riscos" (da responsabilidade de Manuel Augusto Seabra); a retrospectiva dedicada ao realizador Zelimir Zilnik (presente no festival com uma "master class"); a retrospectiva "I don't throw bombs, I make films - Terrorismo, Representação"; foco "Grécia"; "Heart Beat"; "Cinema de Urgência"; "Verdes Anos" e "Doc Alliance". São dezenas de grandes e pequenos filmes, documentários e docu-dramas, onde a realidade se confunde com a ficção, a maior parte em estreia absoluta no nosso país, que reflectem e enquadram os grandes temas da actualidade.
Porque as sessões são inúmeras e o tempo é escasso, só resta adquirir o livro-programa e comprar os bilhetes para as sessões respectivas, antes que esgotem. Estão avisados. O "DOC's" está de volta e o programa deste ano é um "must". Ver aqui.       

2015/09/09

Taxi Driver



- Para onde vai?
Rossio.
- Está com sorte, hoje não há táxis p'ra ninguém...
Então?
- Foram todos para a manifestação, contra a Uber...
Contra quem?
- A Uber, o serviço privado de táxis que apareceu em Lisboa. Mas, a gente conhece-os a todos. No aeroporto, já não param e a polícia tem os números das matrículas todas, para não deixar que eles façam lá serviço. Já deu porrada e tudo. Em França, até lhes queimam os carros, não leu?...
Sim, vagamente, mas afinal qual é a diferença entre os táxis normais e a Uber?...
- Ora bem, são uns finaços, cheios da "bago", que compram mercedes prateados, de 7 lugares e sem táximetro. Depois, têm ar condicionado, perfume, água engarrafada para os "camones" e pedem-lhe uma milena para irem até Cascais... Assim, também eu...
Se é assim... devem protestar... mas, porque é que não melhoram os serviços de táxis?
- Isso é que era bom! Como é que o senhor quer que melhorem os táxis, se há 3.600 táxis em Lisboa e só 500 é que andam todo o dia cheios? E quem paga a factura, quem é?
Mas, deve ser possível melhorar as condições, ou não?
- Melhorar as condições? Deve estar a brincar comigo! Se tiver para aí uns 80 mil "parados" no Banco, ainda pode ir ao registo, pedir um alvará, que custa uns 60 ou 70 mil e ficar em casa a viver dos rendimentos. Arranja um chauffeur para guiar o carro, dá-lhe 40% do lucro e os trocos da caixa. Assim, ainda vá que não vá... mas quem pode fazer isso?
Não sabia que o alvará era tão caro...
- Ah, pois é, por isso está tudo na falência. Esta merda vai rebentar toda. Há táxis a mais na praça e agora ainda vêm para aí os Ubers roubar-nos o negócio.
Então e o que me diz dos Tuk-Tuks?
- É pá, nem me fale disso. Os "monhés" meteram cá os triciclos e agora são mais que as mães. Mais de trezentos, só em Lisboa. Tudo gajada "séria". Não têm licença, não têm taximetro, é só poluição e bloqueiam o trânsito todo. Dizem aos "camones" que levam 10 euros para os levar ao castelo, metem 5 no triciclo e, quando chegam lá cima, são 10 euros a cada um!  Só numa viagem, do Terreiro do Paço ao castelo, já ganharam 50 "mocas" numa hora. Assim, também eu!
Sim, os tuck-tucks são uma praga, concordo. Mas, se calhar a culpa não é só deles, mas de quem não legislou uma lei para este tipo de transporte, a Câmara Municipal, o Turismo de Lisboa...
- Pois claro! Tá-se mesmo a ver. Mas, o senhor diga lá com franqueza: há alguma coisa que funcione neste país?...Estes gajos só pintam as passadeiras quando chegam as eleições. Já viu as "zebras" todas pintadinhas de branco? Ah, pois é, os votos...
E a que horas passa a manifestação?
- Já começou. Estão lá em cima na Duque de Palmela e agora vão descer a Avenida. Está a ver ali a "bófia"? Já estão a pôr os "palitos" para cortarem o trânsito... Vamos, mas é, pirar-nos por aqui, senão tenho de deixá-lo no Marquês e tem de ir a pé... Olhe ali, os "camones" a fazerem sinal! Hoje não andam de táxi. Vão na Uber, palhaços!
E para onde vai a manifestação?
- Para o Ministério da Justiça. Eu não posso ir lá, senão os meus colegas vêem que eu não aderi e cortam-me às postas. Andei todo o dia fora do centro, para poder ganhar uns "cobres"...
Bom, estamos quase. Pode parar aí na praça do Rossio...
- Ok. Aqui está bem? São 6.75. Tá ver, baratinho... cá o "mangas" sabe fugir deles...
Obrigado, olhe já tem aqui duas clientes à espera (japonesas).
- Para onde é que vão (em português)?
Avenue Libertat, diz uma delas.
- Avenida? Devem estar é malucas! No possível. Vão a pé, que faz bem às perninhas...

2015/04/23

O "Indie" está de volta


Tem hoje início, mais uma edição do festival de cinema independente "Indie", uma das mais emblemáticas e importantes mostras cinematográficas em Portugal.
As sessões, que decorrerão em diferentes salas da capital, terão este ano lugar no cinema S. Jorge (sala principal do Festival), no cinema Ideal, na Culturgest e na Aula Magna da cidade universitária.
Entre as inúmeras obras, este ano apresentadas, destaque para a noite de abertura com 3 sessões especiais: na sala do S. Jorge o filme "Around the world in 50 concerts" da realizadora holandesa Heddy Honigman, conhecida de outras edições do festival; um concerto ao vivo, pelo Alis Ubbo Ensemble, que interpretará alguns dos temas mais marcantes da história do cinema e o filme de culto "Buzzard" de Joel Potry Kus, que passará no cinema Ideal.
Outro dos filmes mais aguardados desta edição é "The black power mixtape 1967-1975" de Gorang Hugo Olsson, relatado pela voz de Lauryn Hill, sobre os efeitos da descolonização sobre os povos indígenas, nas décadas de 60 e 70 do século passado. O filme passará na Aula Magna de Lisboa.
Destaque ainda para a produção nacional "Capitão Falcão", baseado na célebre Banda Desenhada sobre o capitão fascista do mesmo nome e para os filmes portugueses "O medo à espreita" de Marta Pessoa, sobre as marcas que o antigo regime deixou nos suspeitos de colaborarem com a PIDE; o documentário "Rabo de Peixe", sobre a localidade açoreana do mesmo nome, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel; o filme "Cinzas e Brasas", o mais recente filme do aclamado documentarista Manuel Mozos; e o aguardado documentário "A arte da luz tem 20.000 anos" de João Botelho, sobre as gravuras do vale do Côa.
"State of Art" é o nome da secção especial do festival, organizada em colaboração com o Tampere Film Festival (Finlândia) e o VIS - Vienna Nieuw Independent Shorts (Austria), onde são mostrados filmes dos festivais destes países.
O "Indies" deste ano terá ainda uma secção especial dedicada à música "Wackers Open Air" (3 D) para ver com óculos especiais. Um verdadeiro "happening"! 
Manoel de Oliveira, recentemente falecido, será igualmente alvo de uma homenagem especial, que engloba algumas das suas obras mais marcantes.
Enfim, tudo bons motivos para ir ao "Indie", que está de volta para animar os dias e as noites dos cinéfilos portugueses. Para mais detalhes da programação, consultar o "site" do festival.

2014/11/12

Esperteza Saloia



Lisboa está, definitivamente, na moda.
Não passa uma semana, sem que sejamos confrontados com artigos e reportagens elogiosas sobre a capital portuguesa em tudo o que é publicação estrangeira. Isto, para não falar nos prémios que anualmente são autorgados à excelência turística de Lisboa: pela localização, pela hospitalidade, pelos bairros históricos, pelo Fado, pelo eléctrico 28, pela gastronomia, por Pessoa e pelo pastel de nata. Ainda bem.
Depois dos anos cinzentos do antigo regime, onde tudo era proibido, incluindo pisar a relva dos jardins e beijar turistas no Rossio, os lisboetas libertaram-se e fizeram da sua cidade - certamente uma das mais bonitas do planeta - um lugar bastante mais aprazível para viver.
Pesem as dificuldades inerentes a uma cidade antiga de séculos, da estrutural falta de meios financeiros e da arquitectura "pato bravo", que por aí ainda pulula, a verdade é que a Lisboa de hoje é completamente diferente da Lisboa de há 40 anos. Para melhor.
Não é pois, de admirar, que, após um longo período de relativo "esquecimento" - quando Portugal não fazia parte das rotas turísticas, nem existiam voos e hotéis "low-cost" - o nosso país comece, agora, a ser "descoberto" por uma nova geração de viajantes os quais, para além da praia, também desejam conhecer outras culturas. Óptimo.
Acresce que, numa altura em que a crise social e económica se instalou definitivamente, depois de uma intervenção externa que nos vai custar décadas de recuperação, o país passou também a ser conhecido por outras razões, nomeadamente a de ser um país pobre, logo atractivo para especuladores e visitantes, por ser barato. É natural. 
É por isso que o actual governo criou o "golden card", um visto de residência para estrangeiros que invistam meio-milhão de euros no país (na compra de uma casa, por exemplo); e, agora, o famigerado "euro", com que o presidente da CML se propõe taxar todos os turistas que desembarquem na Portela e todos aqueles que em Lisboa queiram dormir...Para quem ficar mais de uma noite, há descontos a partir dos 7 euros (!?). A argumentação usada para tal despaupério, é que essas receitas extras vão permitir a recuperação de edifícios degradados da cidade, já que o governo faz o mesmo, no OE, através da apelidade "taxa verde", com o imposto sobre os combustíveis. Brilhante.
A imaginação desta gente, não tem, realmente limites...
Conheço dezenas de cidades capitais da Europa e não sei de nenhuma onde exista tal taxa. Dizem-me que em Itália (where else?) há cidades como Veneza, Florença e Roma, onde é cobrada uma taxa suplementar aos turistas estrangeiros (!?). É possível. Logo por azar, a Itália, um país que não prima propriamente pela transparência das suas práticas institucionais, como se depreende de uma rápida consulta ao índice sobre a corrupção publicado anualmente pelo PNUD.
Agora que Lisboa está, finalmente, na rota dos principais operadores turísiticos e cruzeiros internacionais, a Câmara Muncipal de Lisboa quer criar um imposto para os viajantes de avião e para quem queira pernoitar uma, ou mais noites, na cidade. E os portugueses, que vêm de fora? Ou os portugueses que têm de utilizar a Portela, mas depois viajam para Fornos de Algodres? E porque é que os estrangeiros devem pagar um preço diferente dos cidadãos nacionais? Só porque são estrangeiros?
Esta gente não se enxerga. O edil Costa deu mais um tiro no pé e ainda não percebeu que, desta forma, não atrai mais turistas para Lisboa, mas, simplesmente, dá uma má imagem da capital no estrangeiro. A polémica já começou e não é caso para menos. Uma desgraça, estes gestores da coisa pública. Imagine-se, quando chegarem ao governo...
  

2014/10/21

Outono quente, cinema brilhante



Não se podem queixar os cinéfilos portugueses neste reinício da temporada, agora que as salas da capital iniciaram a sua programação habitual. Assim, ao correr da pena, eis alguns dos filmes mais marcantes, actualmente em exibição em Lisboa:
Ciclo dedicado ao indiano Satyajit Ray, com a apresentação de seis títulos da sua vasta obra, todos em versão restaurada, no cinema Nimas.
"Festival do Cinema Francês", a decorrer em diversas salas onde, entre outros, passam as duas últimas obras de Alain Resnais (recentemente falecido) e o novo filme de Mathieu Amalric.
A continuação da saga alemã "Heimat" (partes 1 e 2) de Edgar Reitz, agora em versão cinematográfica, no cinema Monumental.
A 12ª edição do Festival Internacional de Cinema (DOC's) com sede na Culturgest e sessões, e. o, no S. Jorge e na Cinemateca, a decorrer até ao próximo domingo.
Permanecem ainda, em cartaz, os filmes portugueses, "Os Maias", de João Botelho e "Os gatos não têm vertigens" de António Pedro-Vasconcelos e, para o próximo mês, já se anuncia o Festival de Cinema Estoril-Lisboa, este ano com surpresas várias, entre as quais o semiótico e activista Chomsky e o jornalista, exilado na embaixada colombiana em Londres,  Assange (!?)...
Entre a vasta escolha, e porque o tempo não dá para tudo, algumas impressões, necessariamente breves sobre alguns dos filmes vistos: de Satyajit Ray, o mestre do cinema indiano, os clássicos "A Grande Cidade" (1963) e "Charulata" (1964), obras maiores deste ciclo, onde, de forma magistral, Ray analisa as contradições da sociedade indiana pós-colonial, em retratos críticos, mas sempre humanos, nos quais os dramas individuais são, muitas vezes, resolvidos pela tolerância e o amor entre os personagens. Magníficos quadros de uma sociedade de classes, onde as castas e a crítica mordaz ao ex-colonizador e seus costumes, são subtilmente introduzidos ao longo de histórias admiravelmente filmadas. Se o cinema é a "arte de contar histórias em imagens", Ray é o seu paradigma.
Depois, a grande festa que é o DOCs, hoje um dos melhores festivais de cinema documental europeu, com obras inéditas, que constituem o núcleo central da sua programação e ciclos temáticos, que incluem obras de renome em reposição. Destaque para a retrospectiva do documentarista holandês, Johan van der Keuken, do qual são exibidos 23 títulos, num dos maiores ciclos desta Mostra. Revimos "De weg naar het Zuiden" (O caminho para o Sul) de 1981, uma longa reflexão (143') sobre as relações sociais e económicas entre o Norte e o Sul: de Amsterdão, ao Cairo, passando por Paris, a região do Drome, os Alpes e Roma, num filme "on the road" que permanece actual, apesar dos anos, entretanto, decorridos. Na próxima quarta-feira, dia 22, haverá uma mesa-redonda na Culturgest (14.30h.) sobre o significado da obra de Van der Keuken (um dos grandes documentaristas do século, nas palavras do director da Cinemateca) que contará com a presença da viúva e colaboradora (sonoplasta) do realizador.
Ainda no âmbito do DOC´s, vimos um bom filme francês "Brûle La Mer" (2014) de Nathalie Nambot e Maki Berchache, sobre a odisseia deste último, um jovem tunisino que, após a "Revolução do Jasmin", decide ir ter com um primo a Paris onde, após variadas e traumáticas experiências, opta por regressar ao seio da família. Filme iniciático que, mais do que relatar a vivência dos emigrantes ilegais em França, mostra de modo introspectivo o processo de libertação e auto-conhecimento de um jovem emigrante árabe.
Finalmente, duas obras seminais do "free cinema" britânico, corrente inglesa surgida na década de cinquenta, respectivamente "Together" (1956) de Lorenza Mazzetti e "We are the Lambeth Boys" (1959) de Karel Reisz que, conjuntamente com Tony Richardson e Lindsay Anderson, foram os nomes mais importantes desta geração. Trata-se de dois pequenos documentários de 50', filmados a preto e branco, sobre a Londres dos anos cinquenta, fortemente influenciados pelo realismo italiano da década anterior.
Para quem tiver tempo e disposição (o filme dura 338 minutos!), não podemos deixar de recomendar o filme "Mula sa Kung ano ang noon" (From what is before) de 2014, do filipino Lav Diaz, já considerado um dos filmes do ano. Apesar de Diaz continuar a ser um desconhecido em Portugal, ele é, muito justamente, considerado um dos grandes directores da actualidade. Ver os filmes de Diaz (não raramente abaixo das 4 horas de projecção) é sempre uma experiência devastadora. A não perder!
E pronto, por aqui ficamos, que as próximas sessões começam dentro de momentos...

2014/10/14

A vaga de fundo do edil Costa

Imagem Diário Digital
Há coisas que nunca mudam na sociedade portuguesa. Há quem lhe chame tradição e há quem lhe chame laxismo. Também há quem lhe chame incompetência.
Depois da "época dos fogos", que se inicia normalmente em Junho e dura até Setembro, entrámos na "época das cheias", que se inicia em Outubro e dura até ao fim do Inverno.
Nada que não saibamos, acostumados como estamos a estas constantes da vida. Sempre foi assim, desde que temos memória, portanto deve ser inevitável. Há que sofrer e esperar que a "maré vaze"...
Vem este arrazoado todo a propósito das últimas inundações em Lisboa que, mais uma vez, atingiram parte significativa da capital, como de resto já tinha acontecido há três semanas atrás. Relembramos: entre as 15h30 e as 16h (meia hora!) de ontem foram registadas inundações em Benfica, São Domingos de Benfica, Olivais, Misericórdia, Parque das Nações, Estrela, Alvalade, Santa Clara, Campolide, Ajuda, Sto. António, Xabregas, Aeroporto, Calçada de Carriche, Túneis da Avenida João XXI e do Campo Grande, Rua das Pretas, Rua da Prata, Praça do Comércio, Rua Dr. Augusto Castro, Estações do Metro do Rossio, de Sete-Rios e de Chelas. Esqueci-me de alguma coisa? Será isto normal?
Como também é da tradição, logo surgiram as inevitáveis justificações: a maré cheia do Tejo que impede a água das chuvas de correr para o rio e provoca inundações na "baixa", a falta de avisos da meteorologia e as inevitáveis sarjetas, "mães" de todos os males desta cidade ribeirinha.
Acontece que, desta vez, a maré do Tejo estava baixa e a meteorologia tinha avisado (alerta laranja).
Então o que falhou? De acordo com diversos vereadores da Câmara Municipal, o que se mantém são as "inundações, problemas de obstrução das sarjetas, sumidouros e colectores; falta de investimento na rede de esgotos; plano de drenagem pronto desde 2007 por implementar; impermeabilização excessiva dos solos; incorrecto planeamento urbano, etc...". Todo um programa, portanto. 
Já nem sequer vou invocar os sábios avisos do arquitecto Ribeiro Teles que, de há décadas a esta parte, vem alertando para o perigo de construção em leito de cheias, do alastramento do betão por toda a cidade ou da falta de árvores e jardins que permitam uma melhor drenagem das terras.      
Também não quero culpar António Costa, que chegou há sete anos à Câmara, quando este fenómeno das inundações fazia, há muito, parte da paisagem. Mas, alguma coisa deve estar mal e alguma coisa deve ser possível fazer. Desde logo, prevenção, que é a melhor forma de evitar o desastre anunciado. Vivi 30 anos em Amsterdão, uma cidade de canais, 3 metros abaixo do nível do mar do Norte e nunca lá vivi nenhuma cheia. Portanto, é possível. Como foi possível solucionar os problemas da estação de metro do Terreiro de Paço que, devido às infiltrações de águas do Tejo, esteve fechada dez anos. Finalmente, chamaram engenheiros hidráulicos holandeses e eles resolveram o problema.
Custa dinheiro? Pois custa, mas custa muito mais pagar aos sucessivos empreiteiros portugueses que arrecadam milhões de lucros, em "derrapagens orçamentais" destas obras públicas que todos temos de pagar.
Não sei se o actual presidente da Câmara de Lisboa chegará alguma vez a primeiro-ministro, mas, a avaliar pelas inundações que, continuamente, atingem Lisboa, é cada vez mais provável que seja ele o primeiro a ser atingido pela vaga de fundo que estava a criar...  

2012/12/23

O Mundo, tal como o conhecemos, está a acabar

Lisboa, quatro e meia da tarde. À saída da estação do Rossio cruzo-me com uma mulher de idade, bem vestida, que me interpela. “Se eu disponho de um momento?”, pergunta-me... Respondo-lhe afirmativamente e ela, puxando-me para o lado, mostra-me um saco de plástico com duas ou três camisas: “Se eu quero comprar uma?”... Não sei que responder e digo-lhe que não necessito de camisas. Puxa-me pelo braço e desfaz-se em lágrimas. Não tem dinheiro, tem uma pequena reforma e o marido está num lar que ela tem de pagar. Não sabe como há-de sobreviver e tem de pagar todas as despesas. Insiste que eu lhe compre a camisa. Após segunda recusa, confessa que nunca pensou ter de fazer tal coisa e está desesperada. “Onde é que vamos parar? O que é que nos está a acontecer?”
Tento consolá-la e digo algumas palavras de circunstância, sem estar muito certo do que se estava a passar. Estabelece-se um curto dialogo. Enquanto falamos, noto-lhe o desespero estampado na cara. Chora convulsivamente. Consigo acalmá-la e ela, já mais conformada, tenta vender-me a camisa pela última vez. Há dignidade na sua pobreza e sinto-me culpado de algo para que não contribui. Despedimo-nos e ela agradece-me, desejando-me boa sorte. À distancia, olho uma última vez para trás e vejo-a entrar na estação à procura de alguém a quem consiga vender a peça de roupa. Provavelmente do seu marido, que não a pode usar...
Não posso deixar de pensar na profecia Maya. O Mundo não acabou ontem, é verdade, mas, para demasiados portugueses, o mundo a que estavam habituados deixou de existir.
A avaliar pelas previsões mais optimistas, tudo será pior em 2013.
Recentemente, o líder do partido grego Syriza, a propósito da situação de intervenção a que estão sujeitos os dois países, dizia que “o Portugal de amanhã, será a Grécia de hoje”. Referia-se à situação de extrema pobreza para a qual foram atirados milhares de gregos nos últimos anos. Uma miséria extrema, que atingiu a classe média, hoje obrigada a procurar comida nos contendores de lixo em Atenas. A degradação humana, na Europa que construiu o estado social.
Algo de terrível nos está a acontecer e a paralisia é má conselheira. Quando se perde a dignidade, não há camisa que cubra a nossa vergonha. É essa a maior miséria.

2009/07/09

Portugal de outra era

A vereadora Helena Roseta da CML criticou anteontem o facto de não haver um plano para combater o ruído na cidade. A crítica saúda-se e a preocupação pelo problema assinala-se.
Afinal ninguém liga nenhuma a este assunto. E, contudo, o problema do ruído continua a ser apontado como a disfunção ambiental número um (não só em Lisboa!). Helena Roseta revelou numa conferência de imprensa, onde apresentava os resultados de um estudo feito sobre o "repovoamento" da cidade com novos habitantes, que “há quem desista de morar na cidade por causa do excesso de barulho.” Roseta critica o vereador do pelouro porque anda a “apresentar o mapa do ruído da cidade há dois meses, mas não tem plano de acção.”
Repito: o alerta saúda-se e a preocupação assinala-se, mas tudo isto é escasso.
Quando, um dia, algum responsável político (seja a que nível for, local, regional ou central) for capaz de se debruçar sobre o problema do ruído, demonstrar sensibilidade e compreensão pelo que está em causa, apresentar um plano efectivo para tratar deste assunto e tiver capacidade para obter resultados, então sim, Portugal terá entrado numa nova era de modernidade, de verdadeira convivência democrática, será uma sociedade desenvolvida, onde prevalece o respeito pelos nossos valores comuns. Não a conversa bacoca dos ancestrais “heróis do mar”, mas algo de mais profundo, capaz de gerar os laços que podem fazer deste grupo de "galáticos" que é Portugal, uma equipa!
A solução do problema do ruído está nos antípodas de tudo o que é a prática política e social neste Portugal contemporâneo. Neste sentido, falar de "combate ao ruído excessivo" é alvejar um problema crucial,  paradigmático, que tem efeitos noutros aspectos da nossa vida colectiva. Tentar resolver o problema do ruído a sério, reflecte um novo olhar sobre o nosso mundo. Não parece, mas é...
O ruído não é um problema efémero. A solução das disfunções do ambiente sonoro não toleram improvisos de conjuntura, implica participação e um verdadeiro exercício democrático. Exige meios técnicos, jurídicos e financeiros, certamente, mas também sentido de responsabilidade, cultura do respeito, sensibilidade, visão abrangente, capacidade de criação de laços de solidariedade colectiva e, por tudo isto, autoridade para eliminar os mitos patetas que povoam a cabeça das pessoas sobre esta matéria. 
Actuar nesta área implica conhecer a fundo a natureza e a complexidade do problema. Implica saber do que se fala. Implica saber o que é ser humano. Não dá para improvisar e atamancar: mal a solução improvisada ou atamancada é implementada o problema volta de novo a surgir, ainda mais assanhado. As soluções levianas, concebidas para calar conjunturalmente as bocas das vítimas, custam caro a quem as tenta e são trágicas para quem lhes tem que sofrer as consequências.
Ao escrever o parágrafo acima parece que estou a descrever um manual da prática política contemporânea...
Ora, um ambiente sonoro desequilibrado é intolerável. E atinge todos. Não é um problema sectorial que só diz respeito a um grupo específico. É como a mosca do poema do António Aleixo. Todos necessitamos de um ambiente sonoro equilibrado. As pessoas sentem-no, sobretudo, quando deixam de o poder disfrutar. 
O reequilíbrio do ambiente sonoro não é matéria (só) do foro da engenharia e da medicina, (só) do foro cultural, (só) do foro afectivo, ou (só) do foro da comunicação. É mais do que isso e exige atributos que os responsáveis políticos não têm.
Será que estão mesmo dispostos a resolver o problema?
Uma plano para reduzir o "excesso de ruído" é muito mais do que meia dúzia de slogans para ganhar mais uns votos. Querem saber uma coisa? O ruído é mesmo um problema e a sua solução é mesmo um desafio. Mas implica uma atitude perante todo o nosso ambiente envolvente totalmente nova. Tão simples quanto isto...