Bom dia, para onde vamos?
- Estação de Sete-Rios...
Já está calor. Ainda na semana passada chovia. Em dois dias, mudou o tempo...
- É natural. Estamos na Primavera. O tempo é mais instável. Este ano, vamos ter um Verão mais quente.
Ai vamos, vamos...vem aí uma caloraça...
- Pois vem, e ainda estamos em Maio. Também já começaram os fogos. Isto, promete...
Os fogos...então não sabe que isso é um grande negócio? Ou acredita, nas notícias?
- Também é um negócio, claro, mas não só. Tem a ver com a falta de prevenção atempada. O interior está deserto, as populações emigraram e só ficaram os velhos, não há rebanhos, as florestas não são limpas e, depois, quando chega o Verão, o mato está seco e é fácil incendiar-se ou incendiá-lo...
Isso é tudo uma grande treta! Se não há fogos, as empresas de combate aos fogos não ganham dinheiro e têm de fechar. Ainda há pouco tempo li, que a maior empresa de avionetas e helicópteros, tem 500 pessoas empregadas! Quinhentas pessoas, para quê?
- Sim, é possível. Se calhar estamos a falar da mesma empresa do cunhado do ministro...
Imagine um táxi. Se eu não tiver clientes, tenho de ir à procura deles...uns dias corre melhor, outros, corre pior. Uns dias, dão para os outros. Com um empresa de helicópteros, é o mesmo. Se não há fogos, temos de ir arranjá-los! O combate aos fogos devia ser entregue à força aérea. O estado, devia tomar conta disto.
- O problema, é que os aviões e os pilotos da força aérea, não estão equipados nem foram treinados para combater fogos. Têm de ser pilotos treinados para o efeito...
Mas, podiam ajudar com os conhecimentos no terreno. Eu sou da Guarda e a minha família tem terras no alto das serras. Quando há fogos, os bombeiros nem lá podem chegar. Se for de noite, pior um pouco. Limitam-se a esperar que arda e, na manhã seguinte, vão lá os helicópteros deitar água...
- Eu sei, temos de apostar mais na prevenção e menos no combate aos fogos. Fogos, haverá sempre, mas podemos diminuir a sua intensidade. Por exemplo, compensando os agricultores com dinheiro pela biomassa acumulada nos terrenos ardidos. Os donos das terras limpavam os terrenos e vendiam a madeira e o mato recolhido, às empresas de reciclagem que lhes pagava por hectare...
Ninguém já quer fazer isso. Sabe quanto custa limpar um hectare? Mais de 1000 euros! Quem é que tem dinheiro nas aldeias? Vão-se todos embora, para as cidades ou para o estrangeiro. Bem, fez a minha filha que emigrou há 16 anos...
- Tem uma filha emigrada? Em que país?
Está na Suíça. No cantão francês, perto de Genéve.
- Ah, muito bem. E ela gosta?
Gosta, claro. Ao princípio, foi difícil. Ainda tivemos de ajudá-la, porque não falava a língua e só lhe davam trabalhos sujos (limpezas em casas particulares, restaurantes, hotéis...), já sabe como é, os emigrantes, quando vão para o estrangeiro, sujeitam-se a tudo.
- Sei, sei. Também estive emigrado...
Então, deve saber. Mas ela, tem uma grande força de vontade. Aqui era contabilista e não descansou enquanto não voltou à profissão dela. Estudou francês, fez um curso de contabilidade na Suíça e, passado pouco tempo, já tinha arranjado emprego numa firma e, entretanto, foi promovida e tudo. Casou com um português, tem dois filhos e nem quer ouvir falar de Portugal...
- Muito bem. Que idade tem a sua filha?
Tem 36 anos. Uma "leoa"! Vem cá todos os anos de férias...
- E o senhor, já lá foi visitá-la?
Já, sim senhor. Duas vezes. Gostei muito. Aquilo é que é um país civilizado! Nada que se compare ao nosso que é uma sujeira!
- Nada de comparável. Também conheço bem Genéve e parte do cantão francês. Um país simpático.
Pois, mas para nós é difícil não ter cá a filha e eu já sou muito velho para emigrar...
- Imagino. Bom, ficamos por aqui. Boa sorte e até um dia destes...
Bom dia e obrigado.