2026/05/22

Taxi Driver (47)

 Bom dia, para onde vamos? 

- Estação de Sete-Rios...

Já está calor. Ainda na semana passada chovia. Em dois dias, mudou o tempo...

- É natural. Estamos na Primavera. O tempo é mais instável. Este ano, vamos ter um Verão mais quente. 

Ai vamos, vamos...vem aí uma caloraça...

- Pois vem, e ainda estamos em Maio. Também já começaram os fogos. Isto, promete...

Os fogos...então não sabe que isso é um grande negócio? Ou acredita, nas notícias? 

- Também é um negócio, claro, mas não só. Tem a ver com a falta de prevenção atempada. O interior está deserto, as populações emigraram e só ficaram os velhos, não há rebanhos, as florestas não são limpas e, depois, quando chega o Verão, o mato está seco e é fácil incendiar-se ou incendiá-lo... 

Isso é tudo uma grande treta! Se não há fogos, as empresas de combate aos fogos não ganham dinheiro e têm de fechar. Ainda há pouco tempo li, que a maior empresa de avionetas e helicópteros, tem 500 pessoas empregadas! Quinhentas pessoas, para quê? 

- Sim, é possível. Se calhar estamos a falar da mesma empresa do cunhado do ministro... 

Imagine um táxi. Se eu não tiver clientes, tenho de ir à procura deles...uns dias corre melhor, outros, corre pior. Uns dias, dão para os outros. Com um empresa de helicópteros, é o mesmo. Se não há fogos, temos de ir arranjá-los! O combate aos fogos devia ser entregue à força aérea. O estado, devia tomar conta disto. 

- O problema, é que os aviões e os pilotos da força aérea, não estão equipados nem foram treinados para combater fogos. Têm de ser pilotos treinados para o efeito...

Mas, podiam ajudar com os conhecimentos no terreno. Eu sou da Guarda e a minha família tem terras no alto das serras. Quando há fogos, os bombeiros nem lá podem chegar. Se for de noite, pior um pouco. Limitam-se a esperar que arda e, na manhã seguinte, vão lá os helicópteros deitar água...

- Eu sei, temos de apostar mais na prevenção e menos no combate aos fogos. Fogos, haverá sempre, mas podemos diminuir a sua intensidade. Por exemplo, compensando os agricultores com dinheiro pela biomassa acumulada nos terrenos ardidos. Os donos das terras limpavam os terrenos e vendiam a madeira e o mato recolhido, às empresas de reciclagem que lhes pagava por hectare...

Ninguém já quer fazer isso. Sabe quanto custa limpar um hectare? Mais de 1000 euros! Quem é que tem dinheiro nas aldeias? Vão-se todos embora, para as cidades ou para o estrangeiro. Bem, fez a minha filha que emigrou há 16 anos...

- Tem uma filha emigrada? Em que país? 

Está na Suíça. No cantão francês, perto de Genéve.

- Ah, muito bem. E ela gosta? 

Gosta, claro. Ao princípio, foi difícil. Ainda tivemos de ajudá-la, porque não falava a língua e só lhe davam trabalhos sujos (limpezas em casas particulares, restaurantes, hotéis...), já sabe como é, os emigrantes, quando vão para o estrangeiro, sujeitam-se a tudo. 

- Sei, sei. Também estive emigrado...

Então, deve saber. Mas ela, tem uma grande força de vontade. Aqui era contabilista e não descansou enquanto não voltou à profissão dela. Estudou francês, fez um curso de contabilidade na Suíça e, passado pouco tempo, já tinha arranjado emprego numa firma e, entretanto, foi promovida e tudo. Casou com um português, tem dois filhos e nem quer ouvir falar de Portugal...

- Muito bem. Que idade tem a sua filha? 

Tem 36 anos. Uma "leoa"! Vem cá todos os anos de férias...

- E o senhor, já lá foi visitá-la? 

Já, sim senhor. Duas vezes. Gostei muito. Aquilo é que é um país civilizado! Nada que se compare ao nosso que é uma sujeira!

- Nada de comparável. Também conheço bem Genéve e parte do cantão francês. Um país simpático. 

Pois, mas para nós é difícil não ter cá a filha e eu já sou muito velho para emigrar... 

- Imagino. Bom, ficamos por aqui. Boa sorte e até um dia destes...

Bom dia e obrigado.