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2020/01/21

Taxi Driver (20)


Para onde vamos?
- Para o largo Camões. Mais exactamente para o cinema "Ideal", sabe onde fica?
Cinema "Ideal"? Nunca ouvi falar, mas se me disser onde é...
- É fácil, vai pelo Monsanto, Amoreiras, Largo do Rato, Principe Real e Rua do Loreto...o "Ideal" fica do lado direito, perto do Camões.
Estou a ver. Desculpe perguntar, mas conheço mal a cidade. Sou de Lamego e estou há pouco tempo em Lisboa; quando não sei, pergunto sempre aos clientes, mas a maior parte deles, dizem-me "ponha o GPS"...
- Não há problema, vamos lá ter, mesmo sem GPS.
Mas, diga-me lá, esse cinema "Ideal" é um cinema novo?
- Por acaso, não. É o cinema mais antigo de Lisboa. Foi fundado em 1904.
Não sabia. Eu gosto muito de cinema e de teatro. Sempre que posso, tento levar a minha filha, porque eu quero que ela também ganhe o gosto pela cultura.
- Acho muito bem. De pequenino é que se torce o pepino. Voltando ao cinema "Ideal", reabriu há 5 anos, depois de um longo período em que esteve encerrado. O seu primeiro nome foi "Salão Ideal" (até aos anos cinquenta). Depois, chamou-se "Cinema Ideal". Em 1976, voltou a fechar por um longo período. Reabriu em finais dos anos setenta, como sala de filmes pornográficos. Chamava-se, nessa época, "Cine-Paraíso". Voltou a encerrar e esteve devoluto durante muitos anos, até que o actual dono e exibidor (Pedro Borges, em parceria com a Casa da Imprensa) obteve um subsídio da Câmara de Lisboa e restaurou a sala, em 2014. É especializado em cinema português, cinema independente e filmes clássicos. Neste momento, tem 3 filmes em exibição, um dos quais é o famoso "Apocalypse Now",  que fez, agora, 40 anos...
Muito me conta. Ainda bem que sabe dessas coisas. Eu vou ver tudo. Também gosto muito de teatro musicado e, ainda há pouco tempo, fui ver uma peça do La Féria, que é muito bom encenador. Há quem diga mal dele, mas eu gosto muito do que ele faz. Quando a minha mãe vem a Lisboa, vamos sempre ao cinema ou ao teatro e até à ópera. Gosto muito de ópera...
- Pois, o La Féria...só vi uma peça encenada por ele, "As árvores morrem de pé" e fiquei surpreendido pela qualidade. Não esperava.
Pois é. Os portugueses têm coisas muito boas. Não é só na cultura. É o clima, a hospitalidade. Somos um povo muito bom e hospitaleiro. E a comida? Eu gosto muito de comer e sempre que posso vou a Lamego matar saudades...aqueles enchidos...
- Por acaso, não conheço Lamego, mas sim, são boas qualidades, essas que mencionou.
Ainda há pouco tempo levei aqui uma senhora brasileira que só dizia mal dos portugueses. Que os portugueses eram isto e aquilo...
- Bem, não têm muita moral para falar. No Brasil também haveria muita coisa a criticar. Talvez fosse uma apoiante do Bolsonaro...
Não era, não. Também me disse que ele era doido varrido.
- É pior que isso, mas foi eleito por mais de cinquenta milhões de brasileiros, que não devem ter percebido muito bem quem ele era ou, então, eram como ele...
É o que eu acho. Um doido, que só faz asneiras. E já agora, o que é que o senhor pensa do actual governo português?
- Do Costa? Bom, eu não sou adepto do Costa, mas comparando com o governo anterior parece-me bastante melhor.
Mas, o governo anterior tirou o país da bancarrota...
- É o que dizem. A verdade é que obrigou os portugueses a sacrifícios desnecessários, que atiraram milhares de pessoas para o desemprego e para a emigração. Só em 4 anos, saíram mais de 400.000 portugueses  do país. Uma verdadeira hemorragia. Sabia?
Eu tenho amigos e familiares em Lamego que foram para França e para Inglaterra.
- Pois foi. Portugal estava, de facto, muito mal, mas quando pedimos um empréstimo ao Banco Mundial, ao Banco Europeu e à Comissão~Europeia (78.000 milhões de euros), a chamada "Troika", impôs-nos um programa de austeridade financeira, que não obrigava a muitos dos sacrifícios impostos aos portugueses. O governo do Passos Coelho, foi muito para além da Troika. Privatizou as principais empresas portuguesas e foram feitos cortes brutais nas pensões, nas reformas, em salários e subsídios diversos. Até os vencimentos acima de uma determinada quantia (1500euros), pagaram uma taxa-extra de "solidariedade", que ainda não foi completamente reposta. Uma crise social e económica, sem paralelo...
É verdade, sim, mas e agora?
- Agora, este governo está a tentar repôr o poder de compra perdido nesses quatro anos e já conseguiu equilibrar as contas públicas. Conseguiu diminuir a dívida pública de 135.000 milhões de euros para 122.000 milhões, diminuiu o déficit de 4% para 0,2% e reduziu o desemprego de 17% para 6%. Nada mau.  Mas, claro, não é suficiente. Portugal é um país pobre, a economia cresce pouco e o dinheiro não chega para tudo. É como a história da "manta curta": puxa-se para a cabeça e destapa-se os pés, puxa-se para os pés e destapa-se a cabeça. Falta muito dinheiro para a saúde, para a educação, para a habitação e para os transportes, entre muitas outras coisas. Não está fácil. Mas, este governo, é claramente melhor do que o anterior, na minha opinião.
Percebo. Bom, estamos a chegar. E agora, vou pela Rua do Século ou pelo Princípe Real?
- Por onde quiser. Talvez pela Rua do Século. Depois, sobe a Calçada do Combro e já lá está...
Estou a ver que conhece bem a cidade...
- É do hábito. Também ando frequentemente de táxi. Conheço os percursos mais rápidos.
Já estamos na Rua do Loreto...e agora?
- Pode parar aí, à direita. Está a ver aquelas portas envidraçadas? O "Ideal" é ali.
Pronto, já sei onde fica. Muito obrigado pela conversa. Gosto sempre de falar com os meus clientes. E já sabe, não se esqueça de ir a Lamego, comer os nossos enchidos!
- Está prometido.

P.S. "Apocalypse Now" (final cut) continua tão bom como as versões anteriores... 

2019/09/16

Bom Cinema na Rentrée


Já se chamou Salão Ideal, Cinema Ideal, Cine Camões e Cine-Paraíso. É a sala de cinema mais antiga de Lisboa (1904) e está situada na Rua do Loreto, ao Camões. Após o 25 de Abril, chegou a exibir filmes pornográficos e, depois desse período, fechou por tempo indeterminado. Em 2014, graças à iniciativa da Midas Filmes (uma distribuidora e exibidora de filmes independentes), reabriu totalmente renovado, tornando-se o melhor cinema de Arte (a par do Nimas) da cidade. Da programação do novo Ideal, destaque para o cinema independente, para o cinema português e para filmes clássicos, em cópias restauradas. Dispõe ainda de uma óptima videoteca, com filmes distribuidos pela Midas, uma tentação para cinéfilos endinheirados.
Nesta nova temporada, as expectativas não foram defraudadas e a programação tem excedido as melhoras expectativas. Depois de "Os olhos de Orson Welles" (2018), um bióptico da autoria de Mark Cousins, historiador e cineasta (autor de uma das melhores histórias de cinema que conhecemos), tivemos a reposição do épico "Ran" (1985) de Akira Kurosawa, agora em cópia restaurada e o aguardado "Once upon a time in...Hollywood" (2019), o último "opus" de Quentin Tarantino.
Mal recuperados da "rentrée", eis-nos perante um novo dilema. Que filme ver, dos três actualmente em exibição: "Vem e Vê" do russo Elem Klimov (1985) em cópia restaurada, "Santiago, Itália" (2018) de Nanni Moretti, "Dôr e Glória" (2019) de Pedro Almodóvar?
Dado já conhecermos o último Almodóvar, de uma sessão em Sevilha, optámos por dois filmes em sessões contínuas, respectivamente o filme russo (prémio do Festival de Tróia de 1985) e pelo último Moretti.
Ainda que versem realidades diferentes - a resistência contra a invasão nazi na Bielorussia e o acolhimento de refugiados chilenos pela Itália, durante a ditadura de Pinochet - a pertinência da luta contra o fascismo ganha, desta forma, nova actualidade. 
"Vem e Vê", é o último filme realizado pelo russo Elem Klimov (1933-2003), que chegou a primeiro-secretário da União dos Cineastas Soviéticos, durante o período da Perestroika. O filme, que ganhou o Festival de Moscovo desse ano, é já considerado um dos grandes filmes de guerra de sempre. "É um dos mais brutais, alucinantes e desencantados filmes de guerra jamais realizados, inspirado directamente na resistência bielorussa às tropas alemãs em 1943 e no massacre de 628 aldeias ao abrigo da política nazi do "espaço vital" com que Hitler queria conquistar o Leste", escreveu sobre o filme o crítico Jorge Mourinha (Ipsilon). Através dos olhos de Florya, um jovem de 15 anos, incorporado à força no exército para combater as tropas nazis, o espectador segue as peripécias de um contigente de resistentes bielorussos, durante alguns dias em 1943, quando a Grande Guerra Patriótica ainda estava longe do fim. Imagens devastadoras, filmado a partir da experiência pessoal da família do realizador, ainda que sem o glamour dos grandes filmes do género que haviam de seguir-se (Deer Hunter, Apocalypse Now, The Thin Red Line...). Imperdível.
O último filme de Moretti é, simultaneamente, uma homenagem ao governo de Allende e à Itália dos anos setenta, que acolheu nas instalações da sua embaixada em Santiago mais de 250 chilenos que ali procuraram asilo e protecção. Através de sensíveis, mas divertidas, entrevistas a alguns dos intervenientes desta saga, como o embaixador italiano à época, o realizador Patrício Gutzman ("A Batalha do Chile", "Salvador Allende", "Nostalgia da Luz") e Horácio Salinas, fundador e líder do grupo "Inti-Illimani", Moretti força o contraditório com dois esbirros de Pinochet, actualmente presos, que continuam a defender a sua inocência. Grande parte destes chilenos, voltaram ao Chile, após anos de exílio. Alguns permaneceram e ainda hoje continuam a viver em Itália, um dos países que melhor recebeu estes exilados. Quando a solidariedade europeia para com os refugiados não era uma palavra vã e a Itália podia orgulhar-se dos seus governantes. Esta é, provavelmente, a crítica implícita de Moretti ao governo de Salvini.
Resumindo, dois grandes filmes, que na realidade são três, já que o último Almodóvar é considerado o seu melhor filme em anos e (pasme-se!) até Antonio Banderas tem uma grande interpretação, que lhe valeu o prémio do melhor actor no último Festival de Cannes.