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2020/03/28

Carta de um vírus em vilegiatura

Genoma do do coronavirus, 2019-nCoV de Wuhan (Instituto Pasteur)
Viva, estou a falar-te daqui do meio do muco que enche os alvéolos pulmonares de um tipo qualquer — não faço ideia quem seja.
É mais um.
Não me consegues ver, mas eu vejo-te muito bem.
Não me consegues ver, não nos consegues ver, mas nós estamos a ver-vos e somos muitos.
Somos, aliás, cada vez mais. Vamos sendo cada vez mais. Graças a ti e à tua estupidez.
Estamos a fazer exactamente aquilo que muitos de vocês fazem: a lutar pela sobrevivência, seja de que maneira for.
Mas temos uma enorme vantagem sobre vocês.
Tu, mesmo com os teus poderosos microscópios, mesmo com os teus sofisticados sequenciadores, não atinas comigo.
Eu já te tirei o retrato. De corpo inteiro.
E já percebi tudo o que me interessa sobre ti.
Mesmo que, aparentemente, tenhas sobre mim a vantagem de uma vida mais longa e os recursos que resultam do carácter poliforme do teu organismo, não tens hipótese comigo.
Nós fazemos rigorosamente apenas o que é necessário, unimo-nos, multiplicamo-nos e reproduzimo-nos mais depressa do que tu poderás alguma vez fazer. Somos mais ligeiros, mais simples e menos dados a distracções do que tu.
Estamos totalmente focados na nossa tarefa.
E estamos por todo o lado.
À espreita.
À primeira oportunidade vamo-nos agarrar a cada superfície do teu ambiente, a cada peça da tua roupa, vamos pousar em cada ponto do teu corpo, vamo-nos infiltrar por cada um dos teus tecidos, vamo-nos meter por cada um dos teus poros, furar as paredes de cada uma das tuas células. Vamos andar pacientemente à procura de cada uma dessas entradas. A nossa vida consiste em aprender como.
Só fazemos isso. Temos tempo.
Tu não.
O tempo que andas a perder com discussões inúteis, é o tempo que nós vamos aproveitar para te aniquilar. Não sobrará um único de vós.
Estavas talvez à espera de um meteoro? Algo vindo do além? Um “castigo” de uma qualquer divindade, dessas que vocês gostam de criar para vos consolar nas vossas frustrações?
Pois, não te canses mais.
Nós já aqui estamos.
Mesmo ao teu lado. Não nos viste?
Estamos aqui mesmo.
À espreita. 


A vigiar as tuas células.

Não vai sobrar um único de vocês.
E tu estás a ajudar, felizmente. Oh se estás!
A cada dia que passa, verifico que a tua ajuda é preciosa. Nem sei o que faria sem ela…
Tudo o que podias fazer de errado, fizeste-o no passado e continuas a fazê-lo agora. Estragaste tudo à tua volta. Mas, sobretudo, estragaste aquilo que te trouxe ao ponto em que estás — os teus laços com os outros.
Que bom que andem agora todos às cotoveladas!
Juntos, tu com os outros, sois imbatíveis. Mas, felizmente, fizeste tudo para quebrar esses laços. És tão estúpido!
E eu estou tão feliz por o seres.
Porque isso facilita imensamente a minha tarefa.
E traz cada vez mais lutadores para o meu exército.
Exército, sim.
Porque é, de facto, uma guerra que aqui estamos a travar. Mas tu vais perdê-la!
Repara como consigo liquidar já, sem qualquer dificuldade, os mais velhos. É canja. Consegui perceber logo isso.
Mas, não te iludas! Tu, falo contigo, jovem, vais a seguir!
Vou continuar a aprender e, em breve, nem os que ainda estão para nascer vão sobrar. A estupidez não vos vai permitir ter tempo para perceber como é que nós vos vamos liquidar a todos, com toda a  facilidade, velhos, novos ou fetos.
A estupidez não escolhe idades, e a tua idade não vai, de facto, ser impedimento para eu concluir a minha tarefa.
Nem há locais ou situações privilegiadas para te defenderes de mim.
Não deixaremos de cumprir o nosso destino. E tu? Qual é o teu?

Nós, tu e eu, estamos intimamente ligados, desde os tempos mais remotos. Os nossos destinos parecem desde sempre ligados. Não penses, portanto, que te vais livrar facilmente de mim.
Seja onde for, seja quem for, mais hora menos hora, repito: não vai sobrar um único de vocês!

A menos que…

A menos que, para meu azar, resolvas emendar a mão. E percebas que, sem vocês, nós também não vamos longe e que isto é uma guerra que, nem nós poderíamos ganhar sem a vossa existência. É que nós precisamos de vocês, mas vocês não precisam de nós, para nada.
Já viste?
O que estás a fazer então?
O que andas para aí a fazer, a perder tempo em vez de restabeleceres os teus laços com os outros? De trabalhares para os outros, como trabalhas para ti?
Talvez assim me conseguisses ver, finalmente,
Talvez assim conseguisses virar o desfecho desta fatalidade.
Mas, por enquanto, apenas eu te vejo a ti.
Não me consegues ver, a mim, é verdade, mas consegues ver os outros, teus semelhantes, à tua volta.
Repara como estão vivos. Repara como, no fundo, querem todos continuar vivos como nós.
Pensas que algum desses, que vês à tua volta, quer morrer às minhas mãos?
Oh que ingénuo! Todos querem o mesmo que tu.
A única diferença entre vocês, é que pensas que só tu tens o poder de escapar às consequências da minha luta pela sobrevivência. Que te vais safar. Mas, como te disse antes, não vais. Só terás o poder de te veres livre de mim se assumires que o não podes fazer contando apenas contigo.
Eu sou muito mais esperto que tu. A minha luta por permanecer vivo resume-se, simplesmente, a criar mais de nós. Por outro lado, repara, não há, entre nós, velhos e novos, pretos e brancos, ricos e pobres, do norte ou do sul. Somos muitos, somos rigorosamente iguais e, graças a ti, seremos sempre quantos formos necessários para sobreviver. É por isso que somos imbatíveis.
Cada um de vocês que tu, com a tua estupidez, sacrificas à minha determinação, é alguém que não vais poder substituir. Que te poderia ajudar. Alguém diferente. Alguém que te poderia talvez ajudar precisamente por ser diferente. É nisso que reside o teu poder, não vês?!
Nós estamos todos focados no mesmo objectivo e cada um de nós que tomba será substituído, à tua custa, por alguém exactamente igual a mim, com a mesma determinação, o mesmo propósito e a mesma sanha por te sugar o último traço do teu ADN.
Eu estou focado e só me interessa uma coisa. Cada um de nós que desaparece é substituído por uma multidão de outros, que toma o nosso lugar e se junta aos outros nesse propósito. É o nosso foco que mantém, justamente as nossas fileiras em crescimento. É o nosso foco, único, que nos dá a força de que precisamos. O teu foco enfraquece-te.
Vê os que estão à tua volta. Ou melhor, ouve-os! Ouve-os, a sério. Ouve-os como ouvias quando andavas a dar os teus primeiros passos nesta Terra. Eles dizem tudo o que é preciso saber para mudar o rumo das coisas e tu já não sabes ouvi-los.
Talvez ainda haja tempo. Mas apressa-te porque eu viajo ligeiro. Quase nada pode impedir o meu desígnio.
Eu e os meus irmãos temos a simplicidade das coisas que perduram, que se adaptam, que resistem. Vimos de longe. Temos o foco, o espaço e todo o tempo do mundo..
E tu?

2020/03/21

Comunicar em tempo de pandemia


Vivemos uma situação sem precedentes a nível mundial. Não, não me refiro ao famigerado vírus. Vírus, como chapéus, há muitos e a situação terá, mais tarde ou mais cedo, uma solução. O que me preocupa é que o mundo (não é aqui Benavente, Portugal ou a Europa, é o Mundo!) está neste momento metido em casa. Quem não está em casa, imagino, serão os marginais das sociedades modernas, os nómadas, eremitas, desterrados, velhos, loucos ou insociáveis, mais ou menos tradicionais, que já não contavam, e continuam a não contar, para o jogo perverso da globalização. As ruas das cidades, pelo que se consegue ver, estão desertas. Aquela imagem dos animais contidos entre baias, nas grandes unidades pecuárias, segregados e imobilizados, somos agora nós.

Estamos, cada cidadão, cada contribuinte, cada indivíduo, cada família mononuclear, mais ou menos hip, confinados, em todo o mundo, ao espaço trancado das nossas casas, com os movimentos rigorosamente controlados. É por bem, dizem. Será, concedo. Mas esta situação tem os contornos e carrega um tremendo potencial de abuso, comparada com a qual distopias como o Big Brother ou High Chancellor Adam Sutler, do V for Vendetta, pareceriam meninos de coro a cantar "The hills are alive!"

Ora, neste altura, a única coisa que mantém os “globalizados” juntos são as as comunicações. Não foram os telemóveis, os tablets e os computadores e, assim isolados, estávamos agora todos mergulhados numa escuridão e numa ignorância mais profundas que na Idade das Trevas. Na situação actual, de confinamento e isolamento forçados, numa dimensão e em circunstâncias nunca antes vistas, qualquer luz que se acenda nesta escuridão tem unicamente como suporte estes sistemas de comunicação. Mais do que simples objecto de desejo, por vezes, abusivamente omnipresente, este é o fino fio que nos liga presentemente a todos. É por ele que escrevo e é por ele que me lêem. É ele que vai garantindo as liberdades e um verdadeiro, mas geralmente pouco valorizado, exercício da democracia. Vencer as barreiras da comunicação é hoje um poder que já só parcialmente se mantém nas mãos de elites. Hoje está nas mãos de todos nós, mesmo que o exerçamos por vezes de forma pouco competente e que desse imenso poder não nos demos verdadeira conta. Não são as visitas virtuais, as leituras, os passatempos, músicas e outros “entretenimentos” que nos propõem para preencher este vazio forçado, que nos manterão ligados à realidade, mas a possibilidade de exprimir os nossos sentimentos livremente, de nos reunirmos, e, nesta altura, a troca de informações, o contacto com família e amigos, a possibilidade — que a publicidade e algum uso inapropriado fazem, por vezes, parecer insuportavelmente banal — de estar presente à distância. O vírus manté-nos à distância, o tal fino fio vence-a.

Lembremos, contudo, a morte do mensageiro. Lembremos as bombas nos emissores. Hoje ela pode ser substituída por uma simples ordem para premir um botão virtual.

O direito à livre circulação de informação, o direito à reunião e a liberdade de comunicação continuam, neste quadro de excepção, tão importantes como o direito ao trabalho e a um sustento digno, face a uma eventual crise que o vírus desencadeie — crise, de resto, cujos contornos não nos estão a ser bem explicados, mas isso é outro assunto. O direito à livre expressão e à circulação de informação é tão básico e vital como o acesso à energia eléctrica ou à água.
As tentativas de atropelo já começaram, mas por enquanto ainda sabemos o que vai acontecendo e podemos transmiti-lo aos outros e reagir. Imagine-se se a transmissão é cortada.

Se ficarmos sem comunicações (e os estados de excepção, dêem-lhe o nome que derem, têm uma enorme tendência para resvalar nisso) seremos náufragos, isolados, perdidos num qualquer oceano, sem qualquer contacto e com o nosso poder de acção seriamente cerceado. De facto, sozinhos em casa, não saberemos o que se passa lá fora, sem o acesso à infraestrutura de comunicações. Hoje ainda sabemos o que nos contam, beneficiamos das  conclusões que disso podemos tirar, da discussão que disso podemos (ainda) ter, uns com os outros. Neste momento não há testemunhas oculares. Mas, se nos tiram essa capacidade de comunicar e de exercer o nosso inalienável direito de nos organizarmos (organizar É comunicar!) estamos liquidados.

Por muito que tentem pintar o quadro de outras cores, não estamos em guerra. Não há segredos a defender, pelo contrário! Não há tácticas e estratégias de guerra para implementar, não há espiões, não há gente fardada e armada a querer invadir-nos as fronteiras. Nesse sentido, a metáfora da guerra usada por alguns governantes, é totalmente despropositada. Há um vírus. Uma doença que a todos atinge. A guerra pretende aniquilar, destruir e silenciar. A doença precisa de cura para os atingidos. Aquilo que se espera e exige hoje, pois, é solidarieadade e transparência totais.

Vivemos num estado democrático. Temos por isso que velar para que a infraestrutura de comunicações esteja disponível, tal como os outros serviços e direitos essenciais, e o seu uso responsável seja garantido durante este período de excepção sanitária. Se necessário for, com a sua nacionalização temporária e disponibilização gratuita. Comunicar, em tempo de excepção, não é um jogo online, é uma prerrogativa, da qual não podemos, em qualquer circunstância, abrir mão e que tem de ser garantida pelo Governo que elegemos.