2008/07/22

Karadzik

A prisão de Radovan Karadzik, um dos criminosos de guerra mais procurados da actualidade, veio pôr fim a um período de onze longos anos, em que as mais inverosímeis histórias sobre a sua fuga fizeram manchete na imprensa internacional. Desde a permanência na sua casa de Pale, donde nunca teria saído, até à protecção de monges ortodoxos em mosteiros da Bósnia profunda, passando por inúmeros disfarçes, dos quais o de padre teria sido o mais usado, Karadzik soube sempre escapar a uma perseguição que muitos julgavam poder não terminar nunca. Ainda ontem, aquando do anúncio da sua detenção, corriam duas versões sobre a forma como esta teria ocorrido: enquanto a versão oficial relatava um "raid" da polícia nos subúrbios de Belgrado, onde Karadzik, supostamente, vivia; a versão do seu advogado referia a passada sexta-feira, como o verdadeiro dia da detenção, após o ex-líder sérvio ter sido reconhecido num transporte público da capital...Também de mitos é feita a vida dos criminosos.
Bem mais importante que a lenda é, no entanto, a realidade sofrida pela população muçulmana da Bósnia, sujeita a uma das maiores operações de limpeza étnica de que há memória na Europa do pós-guerra e da qual os mais dramáticos exemplos foram o cerco de Sarajevo (1992-95) e o genocídio de 8000 homens muçulmanos friamente executados em Srebrenica (1995). Por detrás destas operações esteve o demente psiquiatra e poeta nacionalista que ontem foi, finalmente, preso. Será agora, como tudo indica, entregue ao tribunal Internacional de Haia para ser julgado. Não é ainda o fim da história e muitas lágrimas terão de correr nas faces das mães e viúvas de Srebrenica, até a sentença final ser declarada. Como referia o poeta uruguayo Mario Benedetti, a propósito da prisão de Pinochet na cidade de Londres: (ainda estamos longe da justiça) "pero, algo és algo"...

4 comentários:

Carlos A. Augusto disse...

O mais incrível em tudo isto é o facto do homem ter levado, segundo se escreve por aí, ao longo de todos estes anos, uma "vida normal" nas barbas dos serviços todos, apenas disfarçado com as barbas dele...
(Ver foto _tirada na passada 5ª feira!- de uma conferencia de imprensa com a sua participação aqui...
http://www.theglobeandmail.com/servlet/story/RTGAM.20080722.wkaradzic0722/BNStory/International/home?cid=al_gam_mostview
Grande serviços "secretos"!!!

Rui Mota disse...

Temos de concordar que o "disfarçe" era genial. Mas, ninguém acredita que sem a ajuda da população local e o laxismo das forças internacionais. ele teria escapado este tempo todo. O mesmo, relativamente a Mladic, o seu "homem de mão" e executor dos 8000 muçulmanos em Srebrenica. Só quem não viu as imagens da época (gravadas para a posteridade no filme "Cry from the Grave") que passaram no DOC's de Lisboa, pode aceitar estas versões pífias da ONU. Resta saber se ele viverá o suficiente para ser condenado, pois o Milosevic morreu antes de tempo...

Rini Luyks disse...

Falando sobre Srebrenica: vi uma notícia que afinal a Republika Srpska ainda vai acusar a Holanda (tantos anos depois) por causa do papel muito duvidoso do batalhão holandês das Nações Unidas (UNPROFOR) que podia ter evitado os massacres (estava lá para defender os civis). Um grande tabu na Holanda!

Rui Mota disse...

Vivia na Holanda quando se deu o massacre de Srebrenica e lembro-me bem do embaraço do governo holandês da altura. Ouvi bastantes depoimentos e vi diversos documentários sobre o massacre, dos quais "Cry from the Grave" e "Srebrenica, 10 anos depois", do mesmo realizador britânico, foram premiados em Amsterdão.
Em ambos os filmes, podem ser vistas imagens do responsável holandês pelas tropas da UN, o general Korremans, que capitula na rendição e entrega todos os homens bósnios em idade militar, a Mladic. Eram 8000 e foram todos mortos. Era impossível Korremans não saber o destino que lhes estava traçado. Era possível evitá-lo? Não sabemos. Este foi o drama e é o tabu holandês. Wim Kok soube extrair as suas conclusões e demitiu-se, por este caso, em 2000. É uma opção.
De Korremans e do ministro dos negócios estrangeiros da época (Verhoeven) nada se ouviu...