Mais de uma semana após os "acontecimentos" de Ceuta, torna-se cada vez mais claro a quem interessa explorar uma crise que, só aparentemente, é uma surpresa, conhecendo o histórico que, de há anos a esta parte, tem sido uma constante nas migrações africanas para a Europa.
Pensar que as correntes migratórias - que sempre existiram - são um fenómeno recente ou a consequência do laxismo das instituições europeias é, obviamente, uma assumpção naive de quem nunca compreendeu ou quis compreender, as razões profundas das correntes migratórias que há séculos cruzam continentes. Um fenómeno milenário, a migração de populações que procuram um melhor lugar para as suas vidas, no passado e na actualidade, como é sabido...
No caso de Ceuta, o fenómeno só espantou pelo número de envolvidos, uma multidão (na sua maioria de nacionalidade marroquina), calculada em 70.000 pessoas, que tentou atravessar a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, situado em África. Dado que os migrantes vieram a nado, puderam entrar no enclave (território sob a juridição espanhola), pensando que essa via lhes garantia a entrada em Espanha. Esta é, pelo menos, a versão "oficial" da invasão.
Acontece que Ceuta, sendo um enclave espanhol, tem um estatuto autónomo e não faz parte de Schengen, tratado subscrito por 19 países europeus, entre os quais Espanha. Dito de outro modo: entrar em Ceuta, não é o mesmo que entrar em Espanha, ou seja, não significa entrar na Europa. São necessários documentos válidos para passar a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol e, uma vez dentro, só com passaporte é possível atravessar para Espanha, onde o viajante é sujeito a novo controlo, uma vez que está noutro continente. Simples na sua essência, demasiado complexo para os seguidores do Tik-Tok (maioritariamente analfabetos funcionais) que pensam que o que vêem é verdade...
Na admira, pois, que as primeiras reacções tenham sido das "virgens ofendidas" do costume, que logo se apressaram a culpar o governo espanhol pelo sucedido (como é possível ter deixado entrar dezenas de milhares de pessoas em Ceuta?).
Era expectável. A "internacional fascista" (Trump, Farage, Meloni, Abascal, Ventura...) apressou-se a culpar Sanchez, o maior empecilho europeu às políticas hegemónicas dos EUA (com fortes interesses económicos em Marrocos) e de Israel (que não perdoa a Sanchez, a crítica ao genocídio em Gaza), desta vez em conluio com o corrupto monarca de Marrocos, que em 2021 já tinha apoiado uma invasão semelhante.
Uma vergonha civilizacional, a que muitos políticos da extrema-direita europeia aderiram, pensando poder tirar dividendos da invasão de Ceuta e acenando com o espantalho da "invasão do continente pelos bárbaros do Sul" que, até ao momento, já terá provocado mais de 100 vítimas.
Acontece que, dos 70.000 jovens que entraram e Ceuta, a esmagadora maioria já regressou a Marrocos. Os restantes são menores ou africanos oriundos de países do Sub-Sahara. Enquanto o primeiro grupo aguarda o regresso às respectivas famílias em Marrocos; o segundo grupo, constituído maioritariamente por habitantes do Sudão, Yemen, Etiópia, Somália, Mali, etc., não é de imigrantes regulares, mas de refugiados que, dada a situação de guerra e devastação nos respectivos países, pode solicitar o estatuto de exilado político (como os portugueses, que recusaram a guerra colonial, fizeram).
Ou seja, a Espanha, de forma humanitária, cuidou de todos estes casos e resolveu, em pouco mais de uma semana, a maior parte dos problemas gerados pela invasão.
Por isso, não têm razão aqueles que culpam o governo espanhol por ineficiência na proteção das fronteiras, face a esta invasão orquestrada a partir de Marrocos - através das redes sociais e promovida por intermediários mafiosos que, diariamente, lucram com o desespero de milhares de explorados. São estes os "negreiros" do Mundo actual que, com a cumplicidade de políticos hipócritas, como Meloni e Abascal, lucram com a ilegalidade da emigração clandestina. É tempo de Bruxelas procurar uma solução conjunta para o problema e deixar de criticar um dos poucos dirigentes europeus, digno do epíteto de estadista que, ao contrário da maioria dos governantes europeus, não se esconde atrás de proclamações hipócritas. Chama-se Pedro Sanchez e é bom que se saiba.
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