2007/12/07

Circo Darfur

O circo chegou à cidade. Depois do "Soleil", que voltará em Abril, foi agora a vez do "Kadhafi", que já não víamos há alguns anos. Lá mais para o Natal, e como manda a tradição, será a vez do "Grande Circo de Pequim". Lisboa está na moda e tendas não faltam. É o que se chama uma cidade cosmopolita. A "comunicação social", excitadíssima, dá grandes planos da "tenda" de S. Julião da Barra à procura da "cacha" que faz vender jornais. Na televisão, os números não são menos impressionantes: mais de 50 chefes de estado, outros tantos primeiro-ministros e ministros do estrangeiro, 22 hotéis e 5.000 refeições diárias. Custos: 10 milhões de euros, não previstos no Orçamento de Estado. Brown não vem, mas veio Mugabe, que vende muito mais jornais. Coitado do Eduardo dos Santos, cuja notoriedade como ditador é ainda inferior à do Robert. Ainda por cima vai para um hotel de cinco estrelas, bem menos exótico do que uma tenda onde servem chá de menta.
Sobre os direitos humanos, pouca gente fala. O Zé Manel de Bruxelas ainda tentou "puxar pelos galões", ao lembrar que tinha apoiado os movimentos de libertação africanos, mas a vertigem circense quer espectáculo e está-se a marimbar para os direitos humanos. A crise humanitária no Sudão não faz parte da agenda de trabalhos. Já que não há pão, ao menos haja circo. E circo vai haver. Pelo menos durante o fim-de-semana, lá para os lados do Parque das Nações. Cá fora, entre "outdoors" que lembram o Darfur, o repórter de serviço pergunta a um cidadão anónimo: "Já ouviu falar do Darfur?". O homem responde afirmativamente. "Sabe o que é?". "Sei. Não é aquele grande armazém francês, que vende roupas e coisas assim?".