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2014/07/03

O mar é reciclável?

Facebook que nos diz? Folha de rosto, do rosto, que rosto? 
O meu ou o do planeta diário?
Punheta-umbigo ou cosmos?
Teatro do eu ou do mundo?
É como se nos dessemos a ver quando nos vemos num espelho?
Mas damo-nos a ver em charme decaído ou maquilhado, cores ou desenhos ou na bruta, assim mesmo, como a Gabriela que nasceu assim? 
Num espelho que está fora de nós mas também naquele espelho que está dentro? 
É uma coisa de ir atrás do impensado, de ir atrás do que vai à frente, de ceder ao imediato que nos preenche desse nada que enche? 
E que significa o gosto e o comentário e as aplicações que seguem o sistema, a reprodução da estrutura desigual na economia, a democracia como a face visível e disponível do mundo do financismo, o parlamentarismo liberal burguês que reduz a política ao jogo mediatizado da alternância? 
E o dia-a-dia como pura funcionalidade, o corpo mecânico, a cabeça pura química neuronal da actividade fabril mental? 

E o pensamento, que espaço tem que não seja o já pensado? 
Há criação por aqui? 

E o não gosto tem espaço? 
Não é logo entendido como autoexclusão? 
A não empatia cola o quê a quê se só descola? 
Não somos obrigados a uma simpatia online que passa por cavalheirismo, feminino – que será?-, e masculino, no meio de um voyeurismo dominante, massivo e que trabalha subliminarmente as atitudes como gestos quase impensados do fluxo da (in)consciência fluindo? 
Pezinhos de lã no trato e subterraneamente um infinito mercado negro de tudo um pouco: tráficos vários, publicidades omnipresentes, o corte de cabelo da estrela, o champô que arrasa a caspa inimiga e faz um futuro escalpe de sonho na reforma sempre imaginado lazer infinito, o banco preferido de depósitos e taxas paradisíacas em directo na ilha com a tal, o tal, que se escolheu na anedota, de modo personalizado, educado, em voz baixa e adocicada neutra, como os bancos tratam os clientes, pois claro, e a brilhantina no horizonte como um sol a pôr-se ao contrário, nascendo de se pôr, mais os ténis de marca e aço invisível resistente e propulsor, o peito musculado em ginásio ao preço da uva mijona de euros que compensam na dureza dos abdominais de sonho, boa relação preço qualidade, ficas cliente-contente, e que atrai todos o tipo de garinas e garinos, de varinas e chichisbéus, como quase moscas vão à luz mortal que rompe do peito olímpico do atleta e inunda o mundo, as férias do craque seladas com um beijo russo semidespido que obrigam a dar um beijo no mesmo tipo de aparthotel quando formos casal instante, quecaqueda, mais pedofilia por certo e também as múltiplas e inovadoríssimas indústrias da dependência, tóxica e outras, as narrativas do governo bem mentidase mantidas, a vídeo-pornografia de híper-primeiros planos do material sem ecrã para os tamanhos dos materiais e outras variantes e o mais que seja que por aí adiante faça parte da ilimitável capacidade mutante da voracidade mercantil do capitalismo real no dia-a-dia não opcional – afinal, estar vivo, não é opção, opção é mesmo estar morto.

Nada tem de original esta engrenagem. Ela é um conjunto de operações que já fazíamos: a confissão ou notícia de qualquer coisa, o anúncio desesperado, a página dos óbitos, a bunda comerciada, a notícia confessional, pessoal ou acontecimento, a adesão ou recusa dessa coisa num regime que identifica uma tendência de grupo instante – ou mais regular – e a possibilidade do debate de ideias, o mais difícil e menos vulgar. 

Na realidade o que submerge a tanto navegar é mesmo a viagem, não se vai de um porto a outro através da superação inteligente da radical presença dos escolhos, as rochas reais, os baixios, mas também os Adamastores – em novo gostava de dizer Adapastores, aliás como gostava de dizer Minetauro. Navega-se parado no pesadelo de um mar de pânicos, muitos gostos são cliques, gestos mecânicos e estão ao alcance do não esforço – é assim a vida nos céus e é deste modo que os deuses têm uma vida algodoada, fofinha – que palavra … – como se diz: a existência em peluche não chega muitas vezes ao mar encrespado da autoconsciência de si, isso exige fundo, como aquele a que o furo artesiano vai buscar a água que já não há. 

Lembrei-me de uma aranha em peluche, mas que aconteceu às aranhas para serem menos interessantes que os dinossauros de um ponto de vista lúdico-industrial? Preguiças já há, sem o cheiro, é como as doninhas fedorentas, são amorosas, mas extirpado o cheiro – assim são animais de leito, como os furões e furoas. E os ouriços, coitadinhos, esborrachados nas bermas de lentos, sob a velocidade crescente do automóvel de nova marca e cilindrada. 

Tantas perguntas, outras respostas nas respostas que se compram a pronto. 

As aranhas são de carnaval, para meter medo sazonal, não se pode pedir a uma aranha que dê a pata? Uma tarantola rosa é no entanto um amor de muitas patas e pode dar uma a uma a quem a amestrar – ora aí está uma licenciatura interessante.

Vêem-se muitas coisas nestas folhas de rosto, desde verdadeiras antecipações noticiosas a posições que os média nunca publicariam e vêem-se também escritas originais, mesmo de alcance artístico, muito raras mas reais, até se assiste a actos criativos no meio dos não actos do puro fluxo – um rio não para e quando para morre, faz-se-lhe o funeral, vende-se o leito em turismo acidental, catástrofe ambiental. Recicla-se o mar?

Mas essas coisas observam-se no quadro de todas as outras, porventura sendo dominantes aquelas que estruturam o voyeurismo e o narcisismo hedonista, mesmo um certo drama doméstico em primeiro plano – o primeiro plano é mais real do que o plano de conjunto, a importância da ruga e das olheiras leva a palma da atenção afectiva ao plano de conjunto, a estares como mobília entre mobílias. Precisas do drama para te sentires viva, a adrenalina emotiva cria a sensação de que afinal a vida não está parada, pelo contrário anda a centenas de pulsação instante – no resto esquece, isto é, qualquer um se pode ausentar de si mesmo para uma zona da consciência que fica standby. Qualquer coisa do género. Será assim? Chama-se alienação, ser preenchido por esse outro, mesmo pelo grande outro normativo. Brecht falava do grande costume. Numa era de entropias calculadas parecia não ser assim, parecia que a desordem assaltara tudo, mas não é assim, a ordem dos poderes nunca foi tão forte de capacidade totalitária, nunca o poder controlou a ideia de ser individual de uma forma tão capaz de produzir rebanhos miméticos uns dos outros, com a décalage das línguas e das riquezas entre as nações.   

Quando alguém escreve tenho o olho inchado ou que o cão acordou triste e foi ao analista veterinário, seja pedo-canino-neurologista ou psiquiatra-canino e analista, ou mesmo psicãonalista, está a eleger a absoluta irrelevância como drama e a assumir que, num mesmo espaço, pode habitar o bordado de retalhos e o rapto das meninas nigerianas. Esta é a característica fundacional do esquema: no momento em que podemos ser livres - o que significa libertarmo-nos e não propriamente pensar que como escravos somos livres e que portanto liberdade é o que nos passar na bola e se atira cá para fora como quem tira uma nódoa da alma – e podemos, o modo de uso de uma estrutura que pode ser o instrumento disso, acaba por regrar o seu contrário na medida em que nivela as coisas pelo menos qualificado mental massivo híper-controlado e estabelece o vulgar, de modo absoluto, como máximo denominador comum. 

Esta é uma questão. E que nos diz? Diz-nos que esta engrenagem reproduz o mundo exterior, é reflexo da estrutura dominante, a tal que engendra a reprodução sistémica da desigualdade extremada produzida pelo capitalismo actual e suas estruturações reflexas na totalidade do REAL – há uma aliança entre o sistema financista e as performances de todo o tipo, para-publicitárias e publicitárias, que surfam de modo incontinente o ecrã das aparências seja pela via da insignificância que se assume como fim do sentido em pose, seja pela via da insignificância que é directamente mercantil. 

Neste mundo de peluches e desacontecimentos – a resistência do núcleo duro do mesmismo é enorme, tem um potencial militarizado impensável – o que é verdade é que os verdadeiros dramas estão aí mas que o modo de os pensar – e tratar formalmente, é inevitável e é um combate constante – de os colocar em itálico, quase submerge no conjunto complexo e totalitário das poluições do imediatismo pseudo-espontâneo do impensado comum. E é assim que as casinhas dos botões são lindinhas e em cada uma sorri um botão de felicidade, com os seus dois olhos abertos ao devir. 

E o BUTÃO é uma monarquia linda de se turistar, como o mar português, um de caravelar na mente e agora o outro, para semear turismo também. Com sede na Berlenga. 

2014/05/10

MERDRE SUR CALDAS, o peido invisível


O Pacheco, Luís, andou aos caracóis nas Caldas, para comer, quer dizer, comia caracóis - passou no Lisbonense, Hotel, umas férias sem factura nem dívida, errância libertinada, à solta, um dia de fartura e pontapé no cu, em epílogo.
Os caracóis fazem boca para a cerveja, mas os caracóis era o que o Pacheco dava às crias depois de sair do ninho e caçar onde caracolassem, nas estepes caldenso-gaieirenses, matagal de bermas da estrada.
O Pacheco cervejaria? Quer dizer, tudo vale se a alma não é pequena e a sede aumenta e tal. À falta de tinto era sabido que era desportista, embarcava na distância entre o tinto e a canha, o fino, a imperial, o príncipe, o que queiram. Tinha mais que bom feitio, estômago. Se há crise não conheceu outra dívida que não fosse a vida. Era um tipo que, mesmo leninista - a foice no caixão mais o martelo por paixão ao Lenine (clicando vem o brasileiro das cantigas) - era sem medida, inclassificável tanto quanto inarrumável. Não se pode dizer o mesmo de muitos, precavidos e estrategos da sua própria táctica existencial, carreiristas ou mesmo casados por conveniência, como nos negócios reais - de realeza.
Ora ocorreu-me e não é uma ignição (os incêndios são mais para o verão) que a Merdre que ele, Pacheco, aplica a Caldas é do Jarry. Merdre diz Ubu. O Pacheco sonhou-se Rei dos Caracóis, contando com os próprios ossos em paisagem, a ver se eram os que sobravam por estar em pé e se neles os caracóis fariam ninho.
Sei que nada justifica o que colateral é essencial, o que é dizer que a vida de qualquer outro merece uma atenção total - muitos, egocentrados, sem abandonar o útero que os tem para sempre, por preguiça em renda e oportunismo matricial, não percebem: acham que são eles o centro e que todos lhes devem o que eles não cessam de roubar, inadvertidamente, claro, até são boa gente.
Não me move nenhum tipo de idolatria pelo Pacheco, não se pode seguir um pulha mesmo que este faça o pleno dos afectos e tenha graça para esbanjar, mais que qualquer marketing indutor, daqueles que convertem a qualquer moda por razões de troca sócio-estatutária - fazes a madeixa, a tatuagem, pões os saltos muito mais altos, mesmo coturnos.
Outra coisa é a literatura e mesmo o talento (que será? Vem da moeda?), talvez, talento dioptrióptico, espesso filtro de vidro antes de encontrar o real, o que permite ir mais ao fundo que ir à superfície, coisa mais de panorâmicas.
Só agora topei que a porra da Merdre era dupla, a ubuesca e a olfactiva. Em Caldas Sur Merdre, capital do caralho de louça, cheira a merda, quer dizer, a Merdre e não estamos a falar da sua gente institucional, cujo cheiro é certamente indiferencial, mesmo o anal chEira a burocracia comum, institucional global, a reunião, a aconchego sob tecto, a inauguração mecenática parola com BCP ou outra narcotraficância branqueadora.
O camarada Pacheco, bisexual de um só cartão partidário, seu multibanco fora os democratas mais moderado-existenciais, percebeu a ambiguidade da coisa: entre a sulfurosa e olfactiva força da terrenidade subterrânea e a sofisticação termal, perdida na memória, só uma palavra era possível, MERDRE. O francês, o R que canta, dá ao vernáculo luso um toque que faz o glamour do sítio e das gentes. Na verdade é como diz o Carlos B : podemos descuidar-nos que ninguém sabe quem foi. Assim o prevaricador prevarica em paz, a emissão peidal é dos censos e coisa de estatística. Fadada, para a coisa ser perfeita, a plataforma electrónica e análise swotttt. What é que vocês pensam?

2014/05/04

YES GIRL OU DA FIDELIDADE CANINA E INSTITUCIO-ANAL

A Cão deputa. Em Lisboa. Na terra não deputa, demanda ansiosamente deputar fora dela mentindo nela o que for necessário para parecer que deputa o que se supõe se depute longe dela – deputam cada vez menos por lá e traficam cada vez mais com o próprio lugar mas também praticam todo o tipo de serviços necessários à seita partidária, de alto abaixo da escala. E particularmente o que for útil ao chefe imediato e ao chefe de topo. 
Com a verdade polida ao momento e algum hálito mastigado fora, mesmo fumado no fumo alheio se necessário, aparece bem montada em qualquer sela: a sua utilidade vem de um saber escuteiro, das catequeses e do ranço que tempera o seu servilismo arrivista, o sorriso gravado na pele como máscara, o hálito polido nos dentes saídos com a graxa das simpatias circunstanciais. 
O que é renda serviçal a mantém à tona. Se for necessária mentira e lucro, tudo bem, pois a quem por cima se mantém o que convém é o que por cima o mantém feito em baixo e com as baixezas traficadas por quem é capaz delas. Ela, Cão, desmanda, não manda, morde apenas no subalterno e morde com os dentes tortos ou os novos-ricos, investidos, principalmente na canela mais sincera que da dentada se não livra pois o que for verdade não tem caminho nela. A Cão detesta a verdade. É crítico o que na canela tem a sua marca de unha partidária arreganhada e não quer pagar o que dizem que deve não devendo – quem afinal vive acima das possibilidades mais que aqueles que foram donos das possibilidades desde que a tal Europa as trocou pela descaracterização lucrativa nacional? Que país é este tal em que assim se deputa a identidade? Nem o das tais três sílabas de plástico, pois esse apesar de tudo silabava e este só grunha.
Pouco manda ela, a Cão, afinal apenas é num quintal. Sua a casota que aí impera, grande casota com vistas para dentro da horta público-privada, querida e regada com a clandestina coisa pecaminosa que é capital secreto, porventura a ver se o que é geneticamente seco se humidifica milagrosamente no final de cada mês. 
É entretanto no quintal da frente que o penteado acontece: é evento em souplesse de sedosa publicidade silenciosa, só de estar na foto. No detrás se faz o desmancho ou o arranjo. O penteado queque é óbvio na frente, com o cabelo que há, a mise em work em progresso é no detrás, os rolos em cascata-croquete delirando na sobre tola sem miolo. 
E quem na Cão se põe? O Cão dela. No momento em que quer ladrar mais acima no estatuto ladra-lhe vociferante para cima de modo canino-masoquista. O Cão cuja cilindrada fede também a nabos vindos daquela frase de um tal Vicente que diz “assim que bafejais logo me cheirais a nabos”. 
Que bicho tem inimigo que não seja de humana ordem aprendido? Cão gosta de gato e gato de rato, o contrário é induzido – fome é outra coisa - e deputado de filha deputar. Deputado aplaude quando a batuta chefe lhe bate no bestunto. Quer dizer, se mandam ladrar ladra e não bate palmas. Mas há quem nem boca abra na magna assembleia quatro anos dados. Deputar calado colhe. Deputa com quem o calado? Deputa com ninguém, mas consigo, por certo. E consigo prossegue caninamente o que o umbigo inidentificável lhe dita – que pequeno burguês diz eu que seja identificável mais que ser o que tudo possa ser dizendo eu e sempre a dar à anca? Que lhe dita o umbigo? Dita-lhe que bingo: sigo caninamente o cimo e quando o cimo anda perdido melhor é andar na sombra e desacontecer – o deputado nem sempre é performativo. Com aos que sei Cão como ela, ou ele, são muitos. Deputa com não sei quantos que com certeza deputam e são de deputar disso, calados ou acontecidos. Serão? São e com que habilitação que seja? São de assim condizer com o nada ser mais que rebanho e nem diploma tenham mais que o cartão partidário. Saber? O quê? Para quê? Melhor é calar e abrir a boca para sim dizer o que convier ao que de cima ditarem. Lá vir opinar isso é outra coisa e é no quintal detrás. É colar bem no ouvido de quem traficar. 

2014/04/24

25A40 - Abril de escravos mil?

Comemorar como quem põe mais um prego no caixão é recusar a potência inscrita de liberdade, justiça e igualdade que Abril trouxe e que existe tão intacta quanto tem vindo, de novo, a tomar a forma de um desejo colectivo como o prova a manifestação abrilista de 15 de Setembro de 2012. Em Portugal deseja-se um novo Abril propulsionado pelo de 1974 – é por não ter sido cumprido, tendo acontecido, à vista como uma terra boa que se julga achar, que as potencialidades são reais enquanto Abril não estiver para além da memória ou pela via da usurpação da sua carga simbólica convertido no que não é, um qualquer 25 de Novembro. 
O que é necessário fazer é o que não se fez e foi possível em embriões de novas sociabilidades destruídos policialmente pela “normalização democrática” primeiro e pela integração europeia depois – esta nunca aconteceu pela convergência entre os níveis de desenvolvimento díspares e as desigualdades nacionais, no plano do aprofundamento das democracias versus qualidade das vidas de cada país. O que aconteceu foi uma dissociação progressiva entre países numa integração subalternizante para os do Sul, europas de primeira, segunda, terceira e por-aí-fora, a bitola das desigualdades não cabe na visão mecânica das estatísticas, há portanto a considerar nos países avançados as comunidades emigrantes que, com regresso de um racismo activista, colocam questões mais que problemáticas à ideia de uma Europa da inclusão – pelo contrário, como temos visto na Alemanha, em França, na Itália e na Inglaterra. A conversa das duas velocidades oculta muitas outras realidades, a velocidade em si não é uma via de integração, só tem como ideia aquela pobre ideia do desenvolvimento como fenómeno quantitativo em busca de novas qualidades, quando existem questões culturais, religiosas e raciais que não são irrelevantes. 
A propaganda do establishment, assumidamente pragmática, a política real, culpando-te a ti, do Sul por seres quem és em nome de uma superioridade laboral especificamente alemã lança de novo o mote da superioridade racial e está presa à venda da ideia – as ideias são marketing para o poder conservador neoliberal europeu, convertidos ao consumo, como horizonte atingido, no lugar de Deus - de um comboio de duas classes, esquecendo que muitos viajam na carga e clandestinos, que outros estão parados onde nada chega, os interiores abandonados em que vivem populações idosas e que na fronteira da Europa muitos morrem numa espécie de catástrofe constante, como acontece em Lampedusa ou Melilla. Essa propaganda que afirma que apesar de tudo continuamos a parte do mundo civilizado mais civilizada enquanto deita para o lixo justamente o estado social que a caracterizava enquanto tal, esconde também, por exemplo, que a disparidade salarial na Europa civilizada pode chegar a abismos de distância como acontecia nas sociedades asiáticas de outrora: o salário de Gaspar é de 22.400 euros, muitas pensões rurais não atingem os 250 euros e esta diferença está longe de ser aquela que se verifica no sector bancário e privado em geral, em que há indivíduos, lembremo-nos dos Jardins Gonçalves das Opus Dei que são donos de pirâmides de ouro tendo enriquecido pela via da gestão, das administrações, do tráfico de influências e da especulação.
Abril interessa pelas conquistas, praticamente destruídas - não tendo sentido uma fixação na sua reconstrução mecânica como A política alternativa – mas interessa mais pelo que encerra de não realizado ao tempo: a revolução que se viveu como experiência mas que não se enraizou como democracia real. 
A tomada real do poder por um bloco social que não veja o futuro como dependência, sujeição a terceiros e pseudodemocracia massivas, devir empobrecido, desqualificado, pura imitação do que deva ser uma democracia, é decisiva. Tomada do poder por um bloco vasto que deseje um país da pluralidade das culturas que ao mesmo tempo não faça desaparecer a maravilhosa língua que nos identifica e teve um papel moldador de outros mundos, não fosse a nossa língua uma pátria aberta a falantes de outras línguas, matriz de pluralidades culturais, nas origens e nas consequências das partilhas com outros, vejam-se os crioulos, o português do sertão nordestino, de Moçambique, o português brasileiro, todas as formas de falar a língua que nenhum acordo travará e que beneficiariam, todas elas, de um contacto permanente e profícuo com uma matriz cuidada e amada. O que supõe uma política da língua menos obcecada pelo inglês, seja técnico ou de praia e sorria yes no dente perfilado para turista consumir... Se ao menos fosse o de Shakespeare estaria perto de uma mitologia comum greco-latina e até, já que o inglês tem o seu latim dentro, de uma matriz algo coincidente, parcialmente. O problema português é também o da colonização da língua, uma forma de a descaracterizar, como é a questão da natalidade. São questões decisivas.
Abril comemorado como o fazem oficialmente é um Abril desvitalizado, sem a sua “cafeína”, um Abril contra Abril. A normalização democrática, como a expressão trai, foi um modo de converter as conquistas que chegaram a ser direitos praticados num misto de romagem de saudade a Abril de 1974 e de alguma excitação polémica em torno da sua curiosidade histórica, tempo excêntrico, particularmente para os que não viveram Abril e a quem vendem a ideia de uma espécie de período de pés descalços no poder, de momento de loucura pouco mansa dos avós, de nenhuns brandos costumes, de desgoverno – desgoverno que agora nos conduz para o abismo e que assim olha Abril, um Abril que não foi, enquanto durou, obcecado de bancos nem em mercados, mas em população e democracia. Abril que nada teve de carnificina e que se algum sangue trouxe foi pelo anticomunismo e antissocialismo de meia dúzia é apresentado como excessivo, tresloucado, quando terrorista era o sistema a que deu fim – em Abril até o PSD era socialista e contra a exploração, falava mais em trabalhadores do que em classe média, claro que a estrutura do voto – social - era outra. 
Um novo “respeitinho é que é preciso” é o que quer este “jovem poder”. Querem uma espécie de passividade contente do sacrificado – é a visão de um “cidadão” obediente ao chefe - que vota na via única da dívida como não havendo para além dela outra vida – com eles vão voltar as bandeirinhas e o cortafitismo, as várias inaugurações para a mesma coisa inaugurada, como já acontece. A propaganda hoje omnipresente anda exultante. Eles confundem, de facto, regressão com vida e futuro com retrocesso, estão mais perto de Salazar do que dos economistas que não cessam de citar, as suas políticas são tão científicas quanto os resultados que apresentam: fome como nunca houve (25% dos portugueses no limiar da pobreza e muitos nem isso), desemprego/emigração (não se pode ler de outro modo), vulgarização e destruição do universo escolar, dos aparelhos mínimos da cultura e das artes, concepção da sociedade como uma espécie de falanstérios de vida/produção concentrados, com as pessoas a receber salários menos que mínimos e a viver em espaços urbanos degradados, população que deve estar agradecida e dobrar a cerviz pelo esforço que os governantes fazem – se eles soubessem o que custa governar! Onde é que já ouvimos isto? Um país a ser “organizado” como urbanizações degradadas de um lado e, a par, uma política de condomínios para criaturas Gold, algumas já nas prisões por branqueamento de capitais. Em Espanha o BES foi multado por coisa parecida, ter clientes ligados a essa prática. O turismo é outra das obsessões, não um turismo que respeite as identidades culturais, mas um turismo folclórico que transforme os “indígenas” em criaturas gentis, guardanapo no antebraço a direito e vincado do ferro, mal pagos mas agradecido pelo emprego, essa raridade em vias de extinção, a servir os reformados e turistas do Centro e Norte da Europa, da China e de outras paragens em que o crescimento económico prevalece, numa conversão do litoral num outro país em que domina um inglês de troca comercial, uma espécie de colónia dos paradigmas do lazer, peixe fresco e sol, em que somos apenas os serviçais, cozinheiros, barmans, criado de mesa, camareiras, porteiros e outras profissões altamente qualificadas. A quantidade de Escolas de Hotelaria que pulularam, por um lado e de campos de golfe e resorts, por outro, mostram bem a visão que os poderes têm da relação com esses terceiros do dinheiro- resta obviamente acrescentar os universos colaterais das prostituições e da pedofilia para um quadro completo.
Os tais excessos que dizem que se praticaram em Abril – Oh saudoso PREC, quantas injúrias te lançam levianamente!- não foram o suficiente para vivermos hoje uma democracia plena, tivessem esses excessos ajudado a cumprir Abril. Vivemos um simulacro. Os sinais mais evidentes disso são por certo, repito, a pobreza, 25% da população, o desemprego, a emigração que voltou, a generalização do medo e a eleição do gesto da delacção como “cidadania” premiada pelo poder. O que aconteceu nos transportes públicos recentemente, o convite a delactar quem não paga ou não valida o famoso bilhete e esta coisa do concurso das facturas com prémios Audi, revelam o enfeudamento total a uma ideia de “cidadania” exemplificada paternalmente pelo lado de uma sujeição total à contabilidade de si mesmo e ao policiamento do outro – não só vives para te organizares como burocrata de ti mesmo, ficas fichado, mas és também polícia do próximo, isto é: preenchem-te um tempo mental e controlam-te por todo o lado, nas portagens, balcões, escola, hospitais, etc., enquanto querem que sejas tu também controlador, controlador controlado. És vídeo-vigiado e nem dás por isso – o que eram visões de utopistas alucinados na literatura, vem-se insinuando como real. Tudo em nome da dívida e, não esquecer, do combate ao tal terrorismo que é alimentado pelas lógicas do antiterrorismo globalizado do Estado Espectacular Integrado. Aliás com o 11 de Setembro americano – que vale o de Allende?- os calendários e suas simbólicas datas foram revalorizados ideologicamente, perdendo força tudo o que era libertador e reforçando-se tudo o que é securitário e policial.
Voltou tudo aquilo que motivou o 25 de Abril excepto a guerra colonial. De um peso equivalente hoje e mais grave, é a perda da soberania. Se antes de Abril o poder era uma força totalitária contra o povo, que não era soberano e vivia sem direito de voto e opinião livre, não decidia o seu destino, agora a entrega da soberania à Alemanha e a organizações “internacionais” dela e dos Estados Unidos dependentes, no quadro da negação de uma Europa de soberanias interligadas livremente, faz de Portugal um país colonizado, tutelado, protectorado como assumiu o direitista Portas com orgulho de protegido – necessita ser defenestrado pois. Colonizado porque a “integração” tal como se processou é uma descaracterização da nossa identidade cultural e linguística – a história do acordo ortográfico tem um significado político pois cede na matriz para traficar uns cobres, para se inglesar na vocação comerciante, os curricula escolares de Bolonha são de um generalismo wikipédia antieuropeu, de vulgarização reles de conteúdos de conhecimento, da extensão e pluralidade do saber (está tudo na net, é com cada um, dirão! como se aprender a nadar fosse uma questão só de haver mar, um mar, claro, sem ondas nem peixes, alguns grandes). O que era superior e qualificado, é inferior, vulgar e mimético, citam-se bolcos de net por pura mecânica numa prática totalmente desconexa, absurda. Descontextualizada. E somos tutelados, colónia, porque não temos um governo autónomo mas um governo guiado de fora, satélite dos mercados financeiros e da Alemanha, obediente e covarde. 
O que hoje sucede politicamente e na economia como sujeito único é mais inspirado no salazarismo do que na libertação que os militares trouxeram – a liberdade que é uma conquista é o princípio necessário de mais liberdade, de um enraizamento da liberdade que liberte e crie igualdade, justiça, qualidade da democracia. Claro é que se governa sob o primado de uma ditadura financeira que, em si, não gera democracia, antes a destrói. O que o défice e a suposta política anti défice trouxeram é a instauração de uma prática do lucro constante dos credores, muito para além da expressão real do pagamento da dívida e na recusa constante de que deva ser auditada – temos todos de ir a fundo e perceber o que se passa e não ir atrás do que nos contam... 
O sistema da dívida e a redução da política à contabilidade da dívida, aliados ao não questionamento da lógica especuladora do crédito, são em si um Novo Velho Regime – Salazar começou nas Finanças -, o da concentração de modos lucrativos que nem sequer na economia se baseiam. O financismo é uma roleta manipulada por especuladores sem escrúpulos que, não sendo cretinos, têm também calendário político – que significa agora, perto do acto eleitoral, o verdadeiro fogo de barragem de boas notícias numéricas quando as más continuam péssimas e os problemas por resolver? As pessoas vão atrás dos números e já não querem ouvir palavras? Tudo se resume à demagogia de uns quantos dados estatísticos a dar ao ambiente informativo – ideológico - consumível um ar científico de inevitabilidade – a tal “ciência” estatística só serve para augurar o pior. Isto quando sabemos que a desregulação é justamente o modo de controlo dos poderes especuladores e que a sua “ciência” não tem outra regra para além da arbitrariedade dos tais mercados. A desregulação, o que é ela mais do que permitir a manipulação a quem tem o poder de impedir a regulação controlando governos e lei? Se tens a faca e o queijo na mão cortas a fatia que queres para ti e desenvolves junto do outro a tua política de redistribuição para famintos em doses “homeopáticas” de relativização da fome e do medo, crias o trauma, a patologia da inevitabilidade da via na cabeça do consumidor, enterrado cidadão entretanto empobrecido, precário, zé-ninguém. 
Abril fez-se contra a guerra, contra a exploração, contra a PIDE/DGS, contra a miséria, contra o analfabetismo, contra a condição periférica e o isolamento internacional – éramos um Estado pária, pois -, contra a necessidade de emigrar, contra o subdesenvolvimento, contra a escola elitista, contra a incultura, contra o abandono forçado dos campos, contra o absentismo dos terra-tenentes alentejanos, contra o trabalho precário, contra a inexistência de direitos sociais, laborais, de opinião livre, contra a proibição de organizar partidos, contra a violência terrorista do Estado fascista, contra a proibição da palavra, contra a liberdade de escrever, contra, contra… a subserviência e o medo eram fruto da omnipresença repressiva, o Estado tinha um rede de informadores e polícias que eram a extensão permanente da sua mão de ferro em todas as realidades íntimas, familiares, em todos os espaços de tentativa de organização política ou apenas de manifestação pública de ideias. O teatro, politicamente, viveu confinado, como numa reserva, sem uma verdadeira expressão pública e protestava quando podia com astúcia, Brecht era proibido, a literatura foi perseguida, as realizações públicas eram vigiadas e serviam muitas vezes para o regime fingir uma abertura que impedia.  O lápis azul era o meio ridículo de uma amputação constante da criação, a mão do censor prolongava o juízo do inquisidor, vinha de séculos de arbitrariedade. 
Estamos agora não no caminho do mesmo, não faz sentido esse tipo de comparações como homogenias temporais, mas num caminho em que aspectos do mesmo teor repressivo, totalitário, não democrático, estão aí. A este tipo de nova ditadura chamar-se-á o quê, um fascismo pós moderno? Não se trata apenas de um problema de nome, ele há muitos que identificam o que acontece, embora o termo financismo, por exemplo, tenha uma falta de conotação política necessária – diz uma cosia mas não diz a outra. A questão do autoritarismo social é mesmo real, da nossa vida quotidiana e real. O ambiente que vivemos é já o resultado de um regime que se tem vindo a instalar e cujos traços essenciais são repressivos e castradores.
A atitude da Presidente da Assembleia da República, Dr.ª Assunção Esteves, o modo displicente da resposta dada aos Capitães de Abril, de quem viveu Abril em Valpaços pela mão do pai alfaiate (e da concelhia do PSD) como diz a sua curta biografia na net, explica claramente a que ponto a instituição mais significativa – e reveladora - do que deve ser a democracia está contaminada pelo tique de um autoritarismo decisionista e irreflectido, “espontâneo”, tão colado à pele que nos faz pensar em outros tempos e em certo tipo de alienígenas. Estas pessoas não veem o que todos veem, então o que veem, são de que estranha origem, de que planeta?
Abril está por cumprir e porventura virá como uma nova Primavera, venha quando vier, no Inverno seja… e que se cumpra.

2011/11/27

O corte e cola orçamental

O Ministro das Finanças comporta-se como um seráfico coveiro da democracia. Para ele a democracia é um álibi da esquerda para bloquear o combate ao défice e o orçamento o teste de uma demonstração de perícia numérica perante o juízo certamente neutro e científico da troika. O objectivo, depois de posta a democracia na gaveta – esta não será apenas a mítica liberdade e outros tê-lo-ão feito com o socialismo – é certamente a harmonia decrescente dos números percentuais da dívida, mas fundamentalmente a sua performance como académico, a confirmação por A mais B de que cortar cegamente faz crescer, uma quadratura numérica do círculo para centro-europeu e polícia financeira global aplaudirem. A margem de erro, para a maravilhosa alquimia de números, sempre mínima, pensará feliz o perito coveiro, zero ponto um ou dois – o orçamento da cultura chegará aos zero vírgula três? E a sua expressão em percentagem do PIB ao zero quê? À soma de zeros enfiados, perfeição matemática, com um vago um no fim da fila?
Conclui-se deste tipo de mentalidade que o orçamento e as suas aritméticas sectoriais são, pela via de manipulações curandeiras, a solução para o nosso problema – mais valia ler nas entranhas das aves, as linhas da vida de uma mão sem emprego ou ir à macumba. Portanto vai de cortar até que as contas dêem certo, se ainda não dão é necessário cortar mais. Se ainda não se chegou lá baixemos mais as calças pois a nota da troika, o exame trimestral, sobe em direcção à possibilidade de exportarmos a solução para a crise por termos atingido a forma paradigmática de a resolver: corte após corte até ao corte perfeito, descoberta e inovação financeira de excelência que praticamos na pátria global dos mercados especulativos. Eis como a solução pode também fazer crescer: vender a arte de talhante financeiro aos parceiros europeus em aflição por contágio, já os do centro da Europa, pois chegou à Bélgica. Exportemos o corte como suprema técnica orçamental, vendamos inteligência quantitativa.
É de facto uma panaceia, esta dos números e o princípio da subtracção a operá-los. Se não acreditarem, dirá o coveiro, ide a outro bruxo da mesma escola. É como em tudo na vida, poupar, cortar, diminuir, amputar, extinguir, reduzir, só traz saúde e faz crescer, principalmente com tudo bem embrulhado numa retórica da racionalidade dos números envolta no vocabulário religioso da austeridade, a palavra sacrifício repetida à exaustão como quem lava as mãos da tragédia que cria – os números são geneticamente ciência e academicamente demonstrações da inevitabilidade da sua intocável abstracção quantitativa. Quando se atira uma percentagem à cara da vida, espetando a faca do corte numa parte do corpo da democracia com a tal neutralidade da visão académica, só se pode espalhar o bem. Primeiro o sacrifício, a morte, depois o maná.
O Ministro das Finanças olha para uma peça de teatro, para um livro, para um libreto de ópera, para uma partitura, para um corpo que fala num palco – aqui não olha porventura, nem lá irá, nunca foi visto - para uma orquestra regional, para uma companhia de teatro, para um documentário, para uma ficção cinematográfica, e vê percentagens, cortes por fazer. Se assim não fosse e justamente em nome da crise, não descobria cortes a fazer onde o investimento é quase nenhum e a expressão numérica no orçamento ridícula. Pegando por exemplo num Beckett, um autor europeu bilingue razoavelmente feito entre nós – não poderão apelidá-lo de propagandista de nada, nem do absurdo e o Paulo Eduardo de Carvalho queria editar as suas obras completas em português, projecto já avançado e europeizado quando faleceu - numa sua peça proposta para ser editada e o Ministro logo contará as páginas que tem a mais e o seu número insuportável de caracteres. Corta-se, dirá logo, este livro, este projecto é realizável aplicando-lhe o princípio do corte, e reparem, não é cego, é o que é, necessário para a perfeição da percentagem final dos números que lhe pertencem a favor da sua colaboração no esforço da dívida - sim, estas páginas são demais nesta conjuntura, cortem-se trinta e oito, assuma-se o imperativo numérico e orçamental. Sim, a troika é um papão bom, um tribunal do Santo Ofício cujo credo está no dogma da Santa Trindade Orçamental, corte-se em nome do pai da dívida, do filho da dívida e do santo espírito desta. E nós, os melhores alunos, quais irlandeses ou gregos, respeitamos e baixamos as calças.Estranho mundo o dos números e estranho mundo os das cabeças que olhando para um orçamento não vêem vida potencial, actividade cultural, criação artística, economia a fervilhar, país e pátria, língua portuguesa, unidade territorial, ordenamento, macrocefalia de novo crescente, interior abandonado, urbanismo acéfalo a necessitar de emenda, inexistência de autonomia alimentar à míngua da força inexistente e politicamente provocada das pescas e da agricultura, vendidas aos prémios e subsídios europeus, esses sim sectores subsidiodependentes. A cultura é a mais das transversais das actividades do real e é um alimento constante do quotidiano dos cidadãos, não tem medida de aferição científica mas tem consequências anímicas, e várias rendibilidades, determinantes da vida e da economia. Não se confunde com o consumo porque é uma actividade que transforma, não é ritual de confirmações e desenvolve o afecto da língua pelo conhecimento da sua diversidade, nada tem a ver com o que são os rituais associados a uma outra expressão da sua existência, a do mercado, a do que é cultura de massas – infelizmente ler Gil Vicente, António José da Silva, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Natália Correia, António Lobo Antunes, por exemplo, não são fenómenos massivos mesmo que sejam muitos os livros vendidos, o problema não é tanto esse, é mais o da leitura e dos modos de ler. Esse é o trabalho da criação e dos profissionais da cultura para além do trabalho dos criadores propriamente ditos. Nem o milhão de espectadores de teatro, números da década que já passou do Instituto Nacional de Estatística – factos numéricos e não cálculo imaginários - é a expressão de um fenómeno massivo, é, isso sim, a multiplicação da existência de inúmeros “teatros de câmara”, de pólos e focos de vida. Se a leitura tem a importância de ser um acto individual, o teatro tem a importância de ser um acto assembleiístico, cidadão, vida democrática emergindo, reemergindo, prática constante da democracia como o parlamento tenta ser, mas voluntariamente frequentado – seria interessante ver o share do canal parlamento. Não se lhe pode fazer o que se faz ao cavalo do inglês, diminuindo-lhe um tanto a ração diariamente para que se habitue, pois acaba por morrer. Esse assassinato lento está em marcha, aqui e agora, como se dizia antes de Abril.
Será assim, pela sua perfeição endógena e articulações internas que o orçamento cumprirá um papel na nossa vida e história, como academicamente professará para si o Ministro na intimidade das suas quantificações proféticas. Na realidade somos o cavalo do inglês, ou melhor somos o cavalo da alemã. Mas mesmo esta, a alemã, acaba de fazer um extraordinário reforço de investimento no sector cultural, um aumento de 5,1% no apoio às artes – artes, berrei – num total de 50 milhões de euros. Pois é, há duas Europas, mesmo três a caminho, sendo que toda ela está num coma de crescimento augurado dir-se-á.

2011/11/19

AL QUI MIA DE SI LA BAS

Como numa alquimia
As sílabas efervescendo do contacto que costuram
Que faz delas súbitas asas em corpo de palavras
Na pele e entre a página e a respiração
Assim é nas mãos pousar silêncios
Colhê-los com olhos abertos
Desenhar as frases longitudinalmente
Endireitá-las com uma faca de precisão em incisões invisíveis mágicas
Que não as firam às letras e não lhes amputem nem pernas nem acentos e cedilhas
Nem lhes ponham reticências que nas cabeças estão
Suspendê-las
No limite da página na vertigem
Ao encontro da sua própria respiração e latitude

Qualquer arremedo de ficção
Nasce do desencontro entre os ritmos cardíaco o silêncio e as teclas
Desencontro na impossibilidade da tensão harmónica
Que a tensão harmónica faz sono
E para que seria esta
Passa agora um peixe amarelo
Mas podia ser o insecto cor de violino do chileno célebre
Os dedos estão repletos do rasto de letras encavalitando-se à procura do seu sítio
Uma vogal na sombra de uma consoante
E a palavra desejo
A abrir para uns lábios
Ou para o sorriso de que fala Bolano em entrevista recente

Essas coisas ficam
Os sorrisos
E deles resta o que os nomeia
E uma certa percepção nervosa a aflorar à face das mãos
Esta coisa de sermos animais tácteis é mesmo mais que sermos racionais
Somos racionais até ao ponto de efervescência das letras na flor da pele
E de uma imagem que amarelece na memória e é diabo no inconsciente
Vagueando nele como o outro pela estrada fora
O inconsciente é sabido: tem as suas avenidas
Este diabo já avistado
Está como as fotos de Marte cada vez mais precisas e preciosas
Ou como outrora a Ásia para Colombo e a Guiné para o Cão
Tudo uma questão de medo
Medo do que se não vê nem conhece
Foi avistado mas dá-nos a volta ao miolo e o psiquiatra pescador
Não lá vai nem com a ciência nem com a conversa
É
Espécie de cauda de cascavel a circular nos sonhos fragmentários que vais sonhando com cada vez maior falta de nitidez e que de repente explodem de nitidez antes que disso tenhamos consciência e não estou a simplificar pois não é exactamente apenas um força mas também um destino que se procura
Que miopia afectará a luminosidade do cinema dos sonhos?
A página um laboratório mesmo
Nesta era digital
Mas ao surgir do papel imaginando-o
Todo o ritual regressa como era
E eis a alquimia da coisa

2011/11/14

Sobre a evidência

Nada serve carregar a evidência do que a berra
Poderia ser um dito de Keuner
Esse Brecht desavindo com o outro
Empregado na História e por assim dizer tão oficial
Que acampou para a eternidade próximo da campa de Hegel
Se não me engano

Dela se servindo para nela inocular os valores do espectacular
Os videirinhos do drama e da média
Lambem o chantilly do seu salário
Somando sangue ao que é por si encalhado e vistoso
Para satisfazer os níveis de adrenalina sadomasoquista
Que o hiper-consumo de massas naturaliza e o patrão exige

Ao por si da evidência acrescentaram as pirotecnias softwerianas dos meios sofisticados
Da tecnologia ideológica na nossa vida pós moderna
As mediações que multiplicam
Gritante
A evidência na sua proliferação
Como também numa outra natureza diversa do que é
Enervando o que a excede das cores que retintas transbordam
De cromatismo falando e não de rios

A operação necessária é a inversa
A de lhe subtrair
O que nela é mais que ela
E a obscurece de hiper-evidente

As velhas contas do drama
Oitocentista
Fabricavam-se no proscénio
E nessa proximidade
A ruga da actriz
Punha mais drama que a própria intriga tecia
A costura na liga entusiasmava
De como que dizer
Permitir à costureira e ao empregado de escritório
—mesmo ao provinciano actor amador —
Entrar num Olimpo de pacotilha
Que viam como luxo sem limite de estrelas
O tropeçar na sílaba o sotaque arranhado
Tudo coisas que ao rés-do-chão de uma respiração comum
São mais do que a penúria e o desleixo:
Eis porque na tragédia se morria em bastidor
Prevalecendo a notícia à foto do caso
A voz que rugia mais que o esfacelado corpo martirizado
E quando este vinha era já sepulto e longe do acto

Estas estratégias
De deferimento do momento bárbaro
Na Tragédia
Só à inteligência devem o seu modo
E o caso é que quem as compunha
Das guerras tinha a experiência
E por certo da morte em directo
Dela correndo em pensamento quando com ela se deparassem na criação
Do mesmo modo Tucídides fala do Porto de Siracusa:
Um mar pejado de cadáveres
De tal modo
Que estes faziam um chão que o encobria

A luz que tudo torna visível
Não é a que abre os olhos abertos
A luz que torna visível
É a que se alia ao que a sombra pode de contornar
E é a que sabe que os negros de escuro são necessários a qualquer estratégia de clareza
Pausas são respirações e estas são cerebrais
E sendo neuronais são evidentemente cardíacas
E por isso misturando aquela harmonia de uma pitada de empatia
Com uma pitada de crítica d’olho analítico
E uns grafismos de raciocínio em sequência que pertencem à gramática do lance em jogo já que a cada objecto ou situação pertence a sua especificidade estética
Uma natureza morta mimética nada tem a ver com o infinito das janelas em sucessivas camadas de abstracção cosmopolita

Nenhuma evidência é mais trágica do que a do coelho que cede aos faróis que o ofuscam
Deixando a vida num ápice em pleno excesso de luz
Conclui-se não lhe vê a origem
Pois no caso o que luz seria móvel
Massa metálica ameaçando
Máquina de morte sobre quatro rodas
Nem a si se vê o láparo como alvo
Os olhos nos faróis em adeus final
Nem o fora vê nem o dentro acorda o instinto
Olhos na luz hipnotizado
O excesso pára e não esclarece

É este o modo trágico da evidência que é simulacro da clareza
Porque luz
Mas da clareza nada fica
E na retina se instala o que oposto do negro fero
É já menos que este
Pois este não come do mesmo modo o que escuta
A luz que cega é a mesma que ensurdece
E o ouvido na noite cerrada alcança o que no ultra-som alcança a baleia em outro oceano
Ao coelho nem as orelhas salvam dos faróis nem o famoso faro
Nem o futuro em cenoura

Essa candura de banda desenhada dos coelhos
Não pertence ao real
É um modo de tirar ao real
O que ele é
Pintando-o com as cores convenientes da moleza supostamente protectora de uma civilização de peluche
Nada mais útil e didáctico que as arestas

Nem a evidência é por si legível
Pois o por si evaporou-se
Desde logo após os primeiros talheres de sílex
E após a queda da evidência no seu relato
Se as formas de premeio não a refizessem
Ela manteria as qualidades que Vaz de Caminha naquela índia
Descobriu
Na beleza das partes vergonhosas
Expostas quando a lei ministrada de Deus as encobria
E das quais ou de quem não tirou os olhos
Até ao consumar da prosa
O que é evidente desividencia-se com a força do preconceito no corpo desnudo mais a marca do crime aberta luz na foto celebrizada pelo concurso
E seu punctum
Ferida aberta ao culto ritual da nossa impotência sensível

Pode o corpo encenar-se e dar-se a ver aos cordeiros
E abutres
Que do lado de lá do ecrã
Apascentam as suas neuroses
No sossego perturbado do fim da intimidade
Cercados de máquinas e imagens
Nós mesmos no exterior de qualquer hipótese de interior
Paisagens que são um oceano único galgando as margens de todas as singularidades
E empurrando-as para cotas historicamente inimagináveis de egocêntrico anonimato e ausência ruminada num dentro entre o calcinado e o mole
Jogando-nos peixes fora de água no seu caudal de coliformes fecais reluzente nas sucessivas horas de ponta

O corpo abandonado
Quem o ressuscita se apenas a Jesus calhou e não à estudante de treze anos
A quem nenhum terceiro dia acenou
Menos ainda a striper de dezanove
Exposta a sua singularidade num varão para ex Cinderelas
Sejam corpos ou o acidente nuclear
Por exemplo Fukushima ou as quatrocentas e trinta mulheres assassinadas em Ciudad Juarez
Sublinhá-lo de forma aristotélica
Nada clarifica

Que é do comércio da evidência sem o excesso que a torna escândalo
Dirão os mercados
E que é dele sem choque ou sangue ou excesso de luz e crueldades

Porque nada poupam à evidência
Os que dela se servem
Manobrando-a numa transparência suposta que cega
Eis a questão

2011/05/16

O pentelo e o De

Era um Pentelho solitário e era uma vez. E veio o acordo ortográfico e não sabia por onde pegar quando deu com ele fora do rebanho, pois não é crime a solidão. Que fazer, ordenava o acordo um acto, obrigando a mudar o que estava, por obrigação. A ASAE das palavras hesitava entre pôr-lhe o I – no E de Pe - ou tirar-lhe o H - do LH. O inspector que estava diante de Pentelho era amigo do especulador Catroga mas nada dissera quando este desvalorizara o estatuto do Pentelho, mas ficara a remoer, assunto dele, melhor, seu pelouro, e ele, o Catroga remete-o para a insignificância do que é pequeno mas, além disso, irrelevante, tal como ser mais um qualquer grão de areia mesmo que de uma duna numa reserva natural, dunar.
E o Pentelho que muito queria ao E meteu cunha para que fosse o H a ir-se, pois com o L isolado, sem H contíguo, poderia enobrecer-se, não como com um DR., ao modo antigo, antes do nome – Dr. Pentelho - mas como Pentelo apenas, que soa a qualquer coisa que ascende, como se caindo o H isso reverberasse com qualquer coisa como poder vir a ser o Marquês de Pentelo – muito melhor que assessor político do Engenheiro, nobilitado muito mais do que de toga no nome pela via assessorante.
Ser marquês De Pentelo, a capital da Pentelheira – no século XIX Piolheira, no caso o nome da coisa designava o habitante da Pentelheira - cidade das pentelhas mais lindas do mundo globalizado das pentelheiras, tudo online claro, seria estar no Top social, alvo potencial das invejas sociais generalizadas de todos os que apanharam o ascensor social pela via do cargo, da sigla e das costas viradas à matriz – brenhas, vulgo - com o brasão do BCP ou do BPN ou do BPP, ou do PP ou do BPSD, ou do BPS na linha do horizonte.
Mas o Inspector da ASAE das palavras estava zangado com o modo como o Catroga tratara este vocábulo, descriminando-o, um vocábulo que apesar de tudo tem o seu charme e é de uma zona crítico/erótica, de crescimentos vários, e resolveu premiá-lo com uma excepção à regra: de ora em diante serás PenteLo com um De antes, tal como o A. Santos da Guarda cujo pai alfaiate nunca tivera um De antes do A., De A. Santos, coisa que o mesmo A. Santos, o filho do alfaiate da burguesia da Guarda, outra cidade da Pentelheira que está num ilustre alto, o mais alto dos altos, fez para ser do Estoril e ser cumprimentado pelo Duque De Cravinho na tasca dos jornais antes de ir à bica ou de suar na rotina do jogging socrático.
E o pentelho, agora De PenteLo, seguiu feliz para o seu rebanho. Isolara-se porque fora recusado pela Pentelha do lado que não o deixara encaracolar-se nela. Ela, no regresso dele, quando deu pelo De mais o L sem o H, enrolou-se nele, melhor ainda, enroscou-se nele e empentelharam-se os dois com alegria num nó cego de amor interminável, verdadeiras trepadeiras num abraço de uma reciprocidade lânguida e dinâmica, como faz falta à Crise. E é por isso que nalguns casos o acordo ortográfico aumenta as sílabas e não as diminui e foram felizes para sempre enquanto durou, protagonistas de um momento específico, caso raro de crescimento silabar, em plena Crise, justamente aquilo que dizem que só as exportações e os bens transaccionáveis podem viabilizar numa lógica globalmente alavancada.

2011/03/05

O Senhor Galliano

Os média gostam das stars e têm os estilistas por uma espécie de nobreza kitch, seguindo-lhes passos e desamores, pois são eles os autores das aparências que supostamente distinguem os sempre expostos desejosos de uma singularidade absolutamente única, dos outros sempre expostos que desejam uma mesma singularidade absolutamente única e detêm pela celebridade o mesmo poder de espectáculo de si mesmos – os restantes gostariam de um dia ser como eles e de andar de passerelle em passerelle, a laurear a pevide virtualizando-a. A realidade virtual é preenchida, na pausa das guerras em directo e nos intervalos, por um enchido de novelas em constante encruzilhada e a moda é um feliz ingrediente chamariz de casos – o pobre mortal que só necessita de mudar de roupa quando o rei faz anos sempre que o ligam ao mundo global lá tem de gramar a pastilha de um Galliano qualquer que perdeu o tino num qualquer Bar Pérola, numa capital do mundo claro e que é um criativo de roupas que têm conceitos, a filosofia e a braguilha de mãos dadas.
Com ou sem saldos, por indução ideológica, pois nos vemos no modo como nos olham os outros quando saímos da média, a engrenagem lá nos faz agir como peças suas, põe e dispõe, separando o que é sistémico do que é marginal e indo às margens buscar as novas fontes e inspirações do sistémico. Assim sucedeu com as baias comportamentais derrubadas no Maio de 68 e em Woodstock, logo potencialidades de mercado, independentemente de outras consequências da esfera do político e democrático. Ao mercado, para tudo penetrar, falta apenas derrubar alguns tabus e estamos mais perto disso do que sonhamos.
O Senhor Galliano, um estilista da casa Dior, soubemo-lo mundialmente, é mundialmente referência mais incontornável que Hamlet, por uns instantes da história claro, para quem o mercado se está nas tintas, a não ser que renasça accionista renomado depois de se ter canibalizado a si mesmo tendo sobrevivido – um caso de sangue em sede própria dirá o jurista. Assim vai a imaginação criativa dos contemporâneos, dominada pela confusão entre a publicidade como modo de pensar e o crime.
Os média chulam as stars e puseram o senhor Galliano a dizer o que disse num bar de Paris, cenário ideal, terra de ninguém para uma celebridade que ninguém veria em bares de gente normal, pois o Senhor Galliano estava completamente bêbado – em tribunal será atenuante – e disse aos vizinhos de mesa que eram feios e que por isso se vivessem no tempo de Hitler, de quem ele gostava, seriam gaseados. O Senhor Galliano repetiu o que disse quando as pessoas, gentilmente pelo que se percebe do tom das vozes, lhe perguntaram se não gostava de paz, de paz entre os homens, repetindo ele que para os feios só havia um caminho, as câmaras de gás – isto é o que se chama uma conversa de merda em bom português, desculpem lá. E não teria importância nenhuma se o indivíduo, como outras celebridades a raiar a psicopatia e os psicopatas são obviamente perigosos, não fosse notícia em tudo o que é voz falada e escrita, em todos os telejornais, em todos os diários, tanto os de referência como os da falta dela, já que assunto mediático é notícia mesmo não sendo notícia: a voz do mundo sintetizada é uma cloaca aberta de jogos de interesse – a quem na concorrência tudo isto serve, ou será ao próprio patrão da Dior? Intriga já skakespereana esta.
A notícia faz-se, alimenta-se, tem os seus seguimentos e é prenhe, na raiz, de potencialidades ilimitadas de ficção e os protagonistas das notícias, as celebridades, têm os seus assessores e as suas centrais de reconstrução cirúrgica de prestígios para score eleitoral e valor de mercado, quando, porque a natureza humana é assim, erram e mostram os dentes, a monstruosidade da sua intimidade, a face humana exposta ao globo – no El País, num excelente artigo sobre o caso, fala-se da passagem do sistema pan-óptico prisional para a videovigilância como generalização globalizada do que é policial e prisional a um tempo.
Deste modo o passo seguinte dado pelo estilista e seus advogados, porque em França onde proferiu a blasfémia celebrizada e por ainda restar alguma democracia escarrapachada na lei constitucional, o estilista vai ter de responder em tribunal, o que ele acata pela voz do advogado. Alguém filmou o estilista, a videovigilância está no telemóvel de toda a gente e a alma de polícia de cada um tem instrumentos para produzir factos com eficácia de prova desde que os capte parecendo sem ponto de vista, em bruto – se a câmara entrasse no olho do estilista dentro poderia parecer uma experiência estética, o olho muito grande e o texto extraordinário mediado por um primeiro plano de filme de terror.
Agora, já no terceiro episódio globalizado da interessante história, estamos numa clínica no Arizona dizem uns – por cá fala-se Nova Iorque (somos pacóvios até ao impossível) - onde, também Elton John esteve a fazer uma cura de alcoolismo.
No fim desta coisa toda vai ser processado por ter mau vinho, é mais que certo. Não teve agora Elton John uma criança e não será um pai de família perfeito? E nós com isso, porque não deixam o homem em paz? O que de facto espanta nisto tudo é como o espaço mediático abre deste modo as pernas a tanta quantidade de lixo. É caso para dizer: mas o que é feito das notícias? E porque raio é que um pobre idiota bêbado num bar de Paris é mais do que um pobre idiota bêbado num bar de Paris?
Pobre ficção esta que se globaliza no momento do insulto nazi de um imbecil perdido no planeta. Dentro de momentos seguem-se os episódios quatro e cinco: Galliano à saída da clínica muito arrependido e depois no tribunal a pedir desculpa aos judeus. Enfim, dantes dizia-se: e não têm mais nada para fazer, ou melhor, para contar?

2011/02/26

CABARET FILOSÓFICO

O que será? Parece não jogar, a liga a cair, a coxa a espreitar e o raciocínio a ir-se. Mas não será assim na tradição alemã. Desde logo porque Karl Valentin marca um estilo que faz do burlesco uma metafísica, ou não será isso que acontece quando uma carteira da primeira classe antiga perde as pernas e esmaga um corpo infante, como num desmoronamento, ficando de fora o pé descomunal do adolescente na crise de crescimento quando o corpo estica mais que a cabeça. Não lhe chamou Brecht clown metafísico? Aquele ar desorbitado, aquela capacidade de fazer do non sense uma anarquia estimulante, aquele tipo de resposta inesperado que deu a quem lhe oferecera um livro: e não pode mandar-mo já lido? E não dizia dele, também Brecht, que era a blague em corpo e não um contador de anedotas?
Que o cabaret é de um tempo de crises é certamente. Que é um lugar mais liberto que outros de polícias e interditos também é verdade. É mesmo um lugar em que os polícias podem ser foras-da-lei. Nele tudo se diz, tudo vale, na penumbra e de sentidos alçados e a censura quando entra, entra com o porrete e vai tudo para a esquadra. Mas quando acontece e o espectáculo está no ar, no espaço do Cabaret todos os tráficos se cruzam, os “sérios e respeitáveis” e os obscuros e sanguinários. A crise não é mole e faz vítimas. Um dos seus aspectos mais salientes é a intensidade da violência. Na crise a violência desregula e vai para patamares de vulgarização que choca apenas os despertos. A crise é um adormecimento generalizado, um dormir acordado que não passa, um modo de hibernar. No cabaret a regra, sendo o vale tudo, permite que a verdade apareça, sem disfarce. E na tradição alemã, a que este Cabaret Keuner se refere, mais pelos textos que pelo espectáculo, não há nenhum desprezo do que possa ser pensar e fundamentalmente exercer a crítica num cinismo abrangente e na blague, lançar a dúvida em que outros se estatelam, colocar a pergunta proibida. Neste conjunto de pequenas histórias e apotegmas, de dúvida burlesca e de afirmações de recorte clownesco – o parvo vicentino espreita lá do seu século 15, como o bobo de Shakespeare, essas figuras da verdade autorizada por falta de estatuto que o José Carlos Faria seleccionou, montou e interpreta – viajamos por dentro de um pensamento e não propriamente saltando por um aleatório caminho de raciocínios soltos, como se salta sobre as pedras de uma ponte improvisada nas águas de um ribeiro. Por detrás, de facto, do que é representado, está um modo de indagar a realidade, uma realidade que nos coloniza como seres incapazes de a conter e mesmo de a perceber nos outros, de a decifrar relacionalmente, pois sendo o que é, de uma violência inumana, parece que não a conseguimos mudar. E é isso que Keuner detesta, a insensibilidade à dialéctica, à predisposição para a mudança que ajuda a mudar. Numa sociedade de estatutos, hierarquias e frases feitas, é cada vez mais importante que se abram espaços de perspectiva, abertas como se diz da tempestade que cessa e que regressará, abertas de pensamento. Nada mais prático e operacional que o que foi pensado com plano e principalmente o que é laborado na consciência do erro como caminho. A experimentação é a transformação do erro, a qualificação do realizado no pressuposto da democracia, da consideração do outro, como outro que é também um eu.
Este nosso Cabaret é um Cabaret da resistência ao lugar comum e principalmente à inevitabilidade do abismo, como ele é pintado pelos que entoam constantemente o coro da dívida e têm na Crise uma espécie de emprego garantido e também a garantia de lucros cada vez mais fabulosos.
Disseram ao Senhor Keuner que ele estava na mesma e ele corou. A nós dizem-no que apertando muito o cinto nos fortaleceremos. E nós dizemos: até quando? Quando soará a hora da democracia concreta neste totalitarismo kitsch que nos leva manipulados? O populismo novelizado da era mediática estará para a sociedade do espectáculo como a fé cega outrora para os grandiosos autos de fé da inquisição.

2011/02/20

PRAÇATAHIR DO PAÇO

Séculos de hieróglifos, formas piramidais, paredes de símbolos em diálogos cabalísticos emaranhados, a morte omnipresente e cultuada, faraós de carne e osso o sagrado cu assente em tronos de ouro no serviço quotidiano de adorações, baixos-relevos de perfil dançante em meio corpo sugerindo a outra metade apetecida, figuras hieráticas em consonância ritual com os entrecruzados raios solares, o sol em Deus por justíssima razão, maior que outra que faz de um Deus Deus sem que isso nos aqueça, arquitectura funerária como nenhuma em grandeza e ciência construtiva, os crocodilos do Nilo e uma agricultura fertilizada pela riqueza dos detritos das cheias construíram um mito civilizacional – e a nossa escola, “nos tempos” como se diz em Moçambique, ilustrava tudo isto a cores - a que a figura de Cleópatra, enigmático poder feminino absoluto numa sociedade de absoluto poder masculino, se acrescentava como enigmática cereja no topo da pirâmide que todos vimos, agora as mais das vezes pelos olhos de um turismo obsessivo com camelos e bossas a roçar o burlesco e uma promessa de nariz partido na velha areia a levantar a adrenalina bem comportada.
Nada mais claro do que a pirâmide para se chegar à consciência de uma complexa diversidade das formas em três D, e sou fascinado de cilindros ao alto, cilindriformes mas algo fusiformes porque não, atentando contra a forma cilíndrica, e por poliedros ligeiramente aparentados na vocação de contrariar a gravidade pelo lado da inclinação que fez de Pisa a fama da sua torre. Pois hoje, muito mais tarde na história e com uns faraós de pacotilha descartáveis a mandar mais palpites que exercer poder, mas de uma arrogância personalizada ao vivo enquanto durar o que duram os mandatos, nas cidades que percorremos, raramente conseguimos conviver com seja que grandeza for, afinal, na origem, feita de lógicas artesanais, matemáticas, cáculos geométricos perfeitos e trabalho braçal escravo e colectivo – hoje todos se desvanecem perante o ecrã portátil de um PC, chame-se-lhe Magalhães ou Maçã. Hoje as formas são mais comuns pela falta de arrojo porque o arrojo é kitsch, blasé, prédio em forma de guitarra portuguesa com brilhos de madrepérola chinesa e sons de fado requentado no sonho rasteiro. É apenas endinheirado ou megalómano e faltando-lhe uma sustentação ritual humanamente convicta e anterior, como aquela que levou os homens a converter justamente o Sol em Deus. Pobres e pouco arrojadas certas partes das nossas cidades e mesmo as partes mais “sagradas” estão longe de praticar o arrojo a que esta arquitectura funerária chegou em diálogo com a morte e a eternidade – as excepções andarão por aí, poucas e austeras talvez.
Difícil será dizer que a tecnologia, hoje em dia, alcançou ou alcance o feito das pirâmides, tendo em conta a relativização das engenharias construtivas comparando épocas. Estamos de facto na era dos mercados, das fundações, dos banqueiros e das bolsas, e os poderes eleitos não têm na verdade projectos democráticos capazes de contrariar o princípio imposto da força dos interesses imediatos – os juros sobem e descem diariamente numa febre imposta a todos - a bloquear outros futuros. Não termos futuro fora dos juros da dívida é de um alcance não só reles como feito por vir, mas verdadeiramente rasteiro como destino. Os poderes de facto têm um défice de imaginação semelhante ao que equivale em imaginação o princípio reles da concorrência e do consumo (princípio da realidade dirá o outro voltando-se na tumba) ditados pela força massiva da convergência do desejo aquisitivo, construído pela vivência do simulacro de vida que as formas publicitárias engendram como auto-consciência possível – grande frase com raios, mas creio que justa!
E tudo mudou com a Praça Tahir, mesmo as pirâmides que o turismo já traíra pelo exercício até à náusea dessa doença fabril da foto de recordação ao serviço de uma nostalgia de pacote em previsão de culto mórbido, com ou sem netinhos. Mudou tudo a Praça Tahir. Praça que, como toda a Praça, é um lugar de libertação. As praças são lugares de memória, de acumulação de factos e feitos, de coragem, de atentados, de luta política e de encontro, de correrias e frentes a frentes, confronto. Quem não marca encontros numa Praça também, lugar absolutamente exposto, última probabilidade de uma conspiração e por isso apetecível? E procuro a nossa praça, a praça possível da nossa cólera convertida em actos e explosões colectivas, energias novas varrendo a mediocridade e a corrupção instaladas, capazes de ajudar a varrer os que da democracia fizeram a Casa Pia, a Dívida Pública, a face oculta, os negócios em horizonte curto e a democracia como instrumento. O Terreiro do Paço? O símbolo de séculos de centralismo exercido por todos os recém-chegados das Beiras altas e baixas e outros aparentados provincianos de costas para as suas origens, com desejo cego de Paço? Que outra Praça deitar por terra vivendo-a de outro modo, agora que a refizeram? Os Aliados? O Rossio, o pequenino rossio, sem tamanho para Revolução alguma e com aquele Teatro Nacional tacanho e coxo ao serviço de um pequeno meio também tecendo o atraso e o arcaico pós modernamente?
Quando os cravos tomaram conta de Lisboa, bem me lembro, por ter estado no Carmo e na Trindade, também no Rossio e no Terreiro do Paço, foi necessário ocupar a cidade, toda ela. Mas agora, sem os militares, mais corporativos do que nunca, o caminho é mesmo o Terreiro do Paço sem eles. Avancemos, comecemos a avançar, o primeiro passo atrairá os outros.

2011/02/11

Parágrafo extemporâneo - Do ego à idolatria

Parece que passar a própria fronteira do eu é qualquer coisa que a pele limita como exterior do corpo, a sua alfândega simbólica e real, isto é, o corpo, a pele e os sentidos são as nossas antenas ao fora de nós e simultaneamente a porta de entrada para o exercício de todas as sensibilidades e subjectividades, quando o sensorial toca as cordas do sensível e o faz ficcionar ou mesmo quando fica ali na beira, à espera de se expressar ou perceber, já que os sentidos não são propriamente um sensor de descodificações absolutamente científico, se é que isso existe, esse absoluto científico, e não é mais uma ficção sempre em busca de uma confirmação que não vem e esse nunca vir é a nossa própria existência. Mais que animal político somos animal de ficções e essa é a descoberta do capitalismo cultural, a matéria dos sonhos, o desejo e as suas vias, como mercadoria. Teremos dificuldade em sair da própria pele e o outro, essa abertura ao outro, é temporária, como se a identidade, sob a forma de uma solidão fatal nos cerceasse a própria vontade do outro em nós, essa troca sem troca, essa identidade dual. E quando projectamos esse egocentrismo num ídolo, ou em qualquer fetiche, o que fazemos é regressar a nós, ou melhor perdermo-nos numa deriva do desejo que é marcada por algo que significa deixar de ser, temporariamente, para voltar ao reduto do eu, seguro porto de abrigo. Já o amor é outra praia. Como se de facto nos tocasse com uma varinha de condão de outro tipo que não a fábula que infantiliza e de repente fosse algo como sentir que a água ligeira da maré que nos toca os pés, macia e fresca ali ao verão mas sem excessos de temperatura, nos integrasse numa outra realidade e essa é o cosmos. Aí a abertura ao outro é realizada no exterior do mundo que o mercado dita, pois na realidade só acontece quando não é ditada pelas condicionantes da mercadificação total.

2010/01/18

A voz do dono

Este tipo de pensamento tem dono e portanto age, melhor reage, sob o efeito da trela. A sua vocação é o mimetismo. É mimético do que o chefe diz e nada diz por si mesmo. Há muitos exemplos de criaturas que representam este tipo de produção mental. Os mais notórios são aqueles que pertencem ao universo dos acólitos e que têm o treino de secundar. Secundam a opinião do chefe pois nada mais lhes agrada do que agradar ao chefe. Isto não significa que gostem do chefe ou que admirem o chefe. O chefe aliás, nos tempos que correm, é chefe numa prestação de tempo e portanto não garante ao que secunda, ao que amplifica o que o chefe quer que se saiba, uma carreira longa, um tempo de privilégio que dure uma vida. Por isso os secundários têm de ser infiéis por natureza. Eles apostam num chefe e já estão a olhar para o próximo. São traidores por natureza.
Acontece também que este tipo de criatura caixa de ressonância, por vezes, quando está ameaçada a sua situação de segundo, pode ser voraz e perigosa. Quando enraivece pode mesmo morder e mais que argumentar o que a cartilha da circunstância dita, pode agredir, insultar, lançar boato, explorar os baixos instintos da massa e lançar o opróbrio sobre quem, ameaçando-o dirá ele, afirme uma verdade, defenda uma causa, afirme um desígnio de mudança para melhor, em suma queira naturalmente, por sensatez e mesmo por bondade, um mundo melhor, portanto diferente.
O cão de fila, outro nome para este tipo de “segundo”, é a expressão mais agressiva deste tipo de criatura. A expressão é feliz pois é um cão que fila aquele que é dissidente, o que é do outro clube e se quer passar para o dele não havendo espaço nem cargo, e principalmente o que afirma que há uma alternativa à situação, que nem tudo é a dívida pública, nem os impostos, nem a economia, nem a Europa, e que Pirandello e Pessoa já o diziam. O cão de fila diz o que o chefe diz de um modo mais peremptório que o chefe. O que o chefe diz de um modo suave, mesmo que cinicamente suave, ou hipocritamente suave, o cão de fila diz com os dentes cerrados e espera a contestação para lançar o gás pimenta do verbo de um modo obviamente definitivo. Não gosta do debate, gosta de opinar de cima para baixo e aprecia o argumento populista, manobra bem a intriga e paga bem, a um outro candidato a segundo capaz de fidelidade por cima do cadáver da ética. Paga obviamente com os dinheiros de outros, nomeadamente com os dinheiros públicos – também acontece pagar em géneros e em cargos, situações, viagens ao estrangeiro, na conta de um familiar, através de um empreiteiro que constrói fora do país.
Todas as manhas são possíveis num país com séculos de manha. O que assusta mais o cão de fila é ver outro cão de fila a aproximar-se do seu lugar na fila. Nessa situação é capaz de matar o próximo e de mandar matar o próximo do próximo, como a Máfia. É um tipo deveras perigoso porque nunca consta daquele tipo de cartaz que havia no Texas a dizer “procura-se morto ou vivo”. Está sempre do lado dos que procuram, dos que fazem a lei e nunca do outro lado. É um tipo que se disfarça de boa pessoa e que diz constantemente que não tem outra agenda que não seja a agenda do chefe. Bem vistas as coisas, neste tipo de criatura, descobrimos sempre mais de um chefe desejado e alguns mudam mesmo rapidamente para o chefe da posição antagonista com a rapidez da bala. Da fidelidade reafirmada são capazes de passar a outra religião qualquer desde que essa seja a que fica por cima nos tempos subsequentes. Têm um feitio traçado para acumulação de capital. Seja através de acções, seja na bolsa, seja em imobiliário. Vêm normalmente de baixo e quanto mais de baixo, maior é a voracidade. São, na opinião dos chefes, insubstituíveis. Neste preciso momento abundam, proliferaram com a falta de ar e de debate. São de facto muito dados a crescer no mofo e gostam de tudo o que é bafiento. São muitas vezes difíceis de distinguir dos outros, porque nem todos caiem na esparrela da ostentação do que adquiriram por via ilícita. Muitos passam aliás por pessoas de bondade e dedicadas à causa pública de alma e coração. Não vêem um pobre sem lhe encher a mão de cêntimos desde que alguém faça a fotografia. Enfim, são como tartufos e não são uma espécie em vias de extinção.
Na realidade este tipo de criatura assume um papel na engrenagem e na engrenagem cumpre como a mola, sem brilho algum, sem entusiasmo algum, sem coração. E dizer que pensa é afinal um erro crasso porque pensar é outra coisa, é algo que se faz na solidão e no debate, o que pressupõe justamente a ausência do chefe. Quanto muito a presença simbólica do mestre. O pensamento escravo é afinal um contra-senso nos termos e uma forma específica do pensamento único, aquele que regula o mercado pela sua própria regra sistémica de injustiça estruturante e sempre disposto a cimentá-la dinamicamente. É um gestor constante da verdade única.

2009/04/12

Do abraço da Rainha à tatuagem de Di Maria

Este mundo é extraordinário. Quando o jornalista mordia o cão e era notícia já nos espantávamos. Mas apesar de tudo aí, nessa dentada inexplicável à primeira apreciação, havia qualquer coisa a remeter para a psiquiatria, que pedia assunto, escavar as camadas de sentido e oculto, mais Freud menos subconsciente, mais escândalo programado menos cabeça. Agora as coisas mais idiotas são parangonadas e equiparadas aos grandes acontecimentos, a História entrelaçada na insignificância do salto, alto ou baixo, como este abraço da Rainha depois de a Michelle Obama a ter semi-enlaçado, as duas de costas para as câmaras e máquinas fotográficas – nunca uma dupla traseira ficou tão notada –, os olhos do mundo, os nossos, centrados naquele alto de rabo monárquico e naquele braço ex plebeu, num toque que, bem verificado, é absolutamente inexpressivo, encosto delicado, porventura ali na expectativa de que a Rainha caísse para trás, do cimo da sua provecta idade, as pernas não perdoam.
No tempo de remoer no caso foram-se vários bombistas suicidas, eficazes máquinas homicidas, numa lógica que não quebra e que era necessário quebrar. A irrelevância destes casos mede-se pelo impacto absolutamente rotineiro da notícia. Que valem umas dezenas de mortos lá no Iraque, depois de muitas outras dezenas de mortos, perante um abraço sem cobertura protocolar?
Tantos bombistas e tantos homicídios suicidas que os dias de consumo engolem como uma praga longínqua que, a bem ver, esta coisa do mundo global tem muito que se lhe diga, entre o lá longe e o aqui ao lado.
Localmente informados, ou melhor, desinformados pela montagem e sequência das notícias, modo de aparecer e localização, relevância, página ímpar ou par, primeiro plano mais que de sangue num telejornal que cega, tamanho gigante das letras mas tempo escasso, irreflexão estimulada, corrida para a frente interminável e cumprida diariamente com as cautelas devidas para não acicatar ódios politicamente incorrectos, e o mais que se sabe e não se clarifica, nós caminhamos alegremente pelos trilhos da insignificância alimentada sem a noção de que, na verdade, também somos parte desse mundo. O que qualquer dia nos cairá em cima como um cataclismo. O culto da cegueira é uma estranha coisa, e mesmo que os sobressaltos de racionalidade abram brechas nestes dias a preto e preto como na Branca de Neve do João César, vamos sonhando com a utopia da crítica, essa figura inalcançável e propriedade dos especialistas de opinião – o que será isso? – que vão enriquecendo licitamente nas trincheiras queridas.
Esta do Di Maria estrear uma tatuagem ultrapassa tudo e consola-nos a meio dos funerais de Estado na Itália. Felizmente tudo não passará de um fim de semana no parque de campismo.

2008/04/14

Glossário ultra rápido do boyísmo (1)

Este glossário não respeita ainda as regras do acordo ortográfico, segue a sina antiga do p em óptimo e do c de gaita em facto, assumindo no entanto o y de boy sem receio de quem, sendo pelo ph, tenha, de há muito, optado por ser habitante de uma solidão elitista vocabular, em Ortugal (queda involuntária do P que, como na anedota do lete e do cafei, fugiu para Pespanha) e se decida pela agressão verbal contra o precário autor destas notas, um zé ninguém.
No país dos boys é óbvio (em breve obio) que boy e não boi prevalece dado que boi pertence manifestamente ao léxico taurino (tauino após a previsível queda do r de cornos, conos no âmbito acordado, coisa feia e não existente, que se grafará dentro de cinco anos istente).
Porctanto vejamos:
1. O Y distingue o boy do boi. O primeiro fala portinglês e o segundo fala à quarta classe antiga sendo mais clarividente e sensato que o primeiro. É porctanto comum e precvisível ouvir o boy dizer performance como flop como spréde como self made woman assim como nunca usa a expressão fast thinking apesar de portinglesa.
2. O verdadeiro boy usa gel e não usa chapéu. Normalmente o gel é da cor do nó da gravacta ou vice-versa.
3. O boy é de código genético um vice que sonha permanentemente com a oportunidade de ser um primeiro e que, logo que possa, mata o parceiro para lá chegar. Nos cromossomas traz um bafejo cheirando a nabos, a humildade dos nascidos remediados toscos numa beira alta ou baixa e gosta de n coisas caras nomeadamente de sonhar aristocrata turbo.
4. O boy é politicamente correcto pela frente e ladrão por detrás, chegando a vendar o pai, a mãe ou os irmãos. É muito comum não falar com a irmã mais velha por causa da quarta classe antiga dela.
5. O boy é centrista para os dois lados.
6. Os boys crescem como erva daninha.
7. Um boy pêessedê é muito diferente de um boy pêesse. O boy pêessedê consegue ser mais moderno, usar outro tipo de gel e o boy pêesse é mais ligado às sondagens e a perfumado de fresco.
8. Os boys detestam-se e chamam-se boys uns aos outros, depreciativamente, com o ânimo exaltado dos que afirmam o direito à indignação.
9. Há o grande boy de conselho de administração e há o pequeno boy para-autárquico. É comum que o último, depois de sete anos de nojo, chegue a um conselho privado de administração empresarial local ou mesmo público.
10. A história dos boys remonta à introdução do vinho do Porto nas encostas soalheiras do Douro aquando da chegada dos ingleses que nos descobriram assim como nós descobrimos os indianos da Índia. Nessa altura a palavra boy significava rapaz e não rapace, sentido actual do termo. O que os foi unindo na classe dos boys – o sindicato é clandestino – foi a defesa do mesmo princípio relativo à comissão: comissão para cá ou nada feito é a expressão que mais se ouve sempre que se fala de fazer qualquer coisa em que entrem dinheiros públicos. O boy nunca fez nem fará nada de próprio porque ele é, como diz Agamben, o pequeno burguês planetário, o que tudo aposta na indiferenciação indistinta. O boy age sempre na sombra e por conta própria. O boy é mais perigoso que o boi mesmo quando este é da lezíria.
É por estas razões que não gosto dos boys e gosto dos bois.
Finalmente o boy é um AMELO.

(1) Este glossário assume de modo vanguardista uma nova ordem alfabética atirando claramente o a de A para o fim das letras e assumindo o y de boYísmo como a letra Um.

2008/01/29

Air-Guantanamo

A notícia, divulgada por uma ONG britânica, sobre a passagem de 700 prisioneiros por território português, a caminho de Guantanamo, não deve surpreender-nos. As conclusões da Comissão Parlamentar Europeia, apresentadas pelo deputado Carlos Coelho em 2007, eram já indiciadoras da responsabilidade portuguesa nesta sensível matéria. Perante o silêncio cúmplice do govêrno, também Ana Gomes solicitou um inquérito ao PGR, que ainda está em curso. Independentemente do número exacto de prisioneiros e das conclusões do Procurador-Geral, é cada vez mais evidente a mentira que os sucessivos governos - de Durão a Sócrates - mantiveram sobre este assunto. Trata-se de saber se os EUA fizeram os "transportes" sem o conhecimento do governo português ou se o nosso governo sabia e calava. A justificação, dada por Luís Amado, de que não podíamos controlar o que se passava nas Lajes, não é sustentável. Então, "nós" não sabíamos e os ingleses sabiam? Uma mentira, pois. É relativamente à mentira que devemos indignar-nos e exigir que sejam dadas explicações.

2008/01/24

Tratar da Saúde

Correia de Campos anda nervoso. Não é caso para menos. Depois de uma primeira passagem pelo governo de Guterres, voltou, agora com Sócrates, ainda mais aguerrido e defensor de "boa" saúde. Aquela que se paga. Nos tempos do primeiro engenheiro, a matéria ainda era um misto de "piedosas intenções católicas" e incipiente "gestão" do sistema, pelo que o nosso "expert" não teve tempo de testar o seu modelo. Agora, com quatro anos de maioria absoluta e os interesses do Mello e do Espírito Santo à espera, há que avançar a todo o vapor. Apoiado na sanha de um primeiro-ministro asséptico, que deseja fazer de cada português um corredor de meio-fundo, Campos não esteve com meias-medidas: vá de reorganizar a "malha" (adoro este termo) hospitalar e fechar tudo o que não é rentável, com a promessa de que tudo vai melhorar...
Obrigados, pela força das circunstâncias, a deslocarem-se aos serviços disponíveis da sua área - e não tendo muitas vezes como - os habitantes pobres do Portugal profundo só têm duas soluções: chamar a ambulância e esperar que sejam curados a caminho das urgências mais próximas ou, caso estas (as ambulâncias) falhem, morrer à porta de urgências fechadas. Só quem nunca viveu no Barroso, em Trás-os-Montes, no Alentejo, ou na Serra Algarvia, pode pensar que as ambulâncias percorrem as sinuosas estradas a 100 à hora e chegam às urgências dos hospitais equipados, em menos de 20 minutos. Uma demagogia sem limites. Mesmo que a "malha" venha a ser operacional no futuro, começar a fechar as urgências sem que exista uma alternativa credível, é uma medida de mau gestor.
Porque os acidentes não tardaram e a revolta das populações também não, o ministro tem-se desdobrado em entrevistas e declarações televisivas a tentar justificar o injustificável: entre as suas intenções e a realidade do país, vai um passo de gigante. Um típico burocrata, enfeudado em números e modelos que não são compatíveis com o interior que temos.
Enredado nas "malhas" que ele próprio teceu, passou ao ataque. Já tinhamos dado por isso num recente programa "Prós & Contras" onde, de forma autoritária, ameaçou em público o representante da Ordem dos Médicos. Agora, foi um bocadinho mais longe: telefonou duas vezes para casa do presidente da Câmara de Anadia, a responsabilizá-lo por qualquer acidente que pudesse acontecer com as ambulâncias do INEM.
Correia de Campos parece querer, de facto, tratar-nos da saúde. Literalmente.

2008/01/15

Know How

Eu não sei se Zita Seabra é doutora, como lhe chamou Fátima Ferreira no programa "Prós & Contras" de ontem. Mas, engenheira, deve ser certamente. A avaliar pelo conhecimento mostrado em localizações de aeroportos...

2008/01/14

656

Seiscentos e cinquenta e seis é o número de "baldes" existentes nas celas das prisões portuguesas.
Ainda bem que conseguiram quantificá-los. Teriam sido os inspectores da ASAE?
Desta forma ficámos a saber que nem todos "cagam de poleiro". Mesmo nas prisões portuguesas há classes.