2008/05/05

Manicómio

Tomara eu ser como a panela de pressão! Ter uma válvula que andasse naquele rodopiar, largando a pressão em excesso e mantendo as coisas lá dentro em equilíbrio operacional... Mas, não! Não tenho válvula, desculpem. Neste final de semana extra longo fomos bombardeados com uma operação gigantesca de recolha de alimentos, de bancos alimentares e de organizações variadas para praticar o desporto favorito da sociedade bem portuguesa: a caridade! A fazer fé nos relatórios e reportagens dos jornais e televisões, o país está em derrocada total! Que seria de nós sem a "caridadezinha"!!?
Voltámos (ou talvez nunca tenhamos de lá saído) à canção do Barata Moura...
Faz-me uma enorme confusão esta coisa de as pessoas demonstrarem um engenho brutal para organizar operações e estruturas extremamente complexas destinadas a suprir falhas estruturais da sociedade (e até ter sucesso com isso!), conseguirem juntar até um número significativo de gente para o efeito, mas revelarem-se totalmente incapazes de se entenderem e organizarem-se como país, de modo a que tenhamos todos uma vida que respeite os "mínimos", mais justa, digna e sem favores. Tantos milhares de "voluntários" que acodem ao apelo caritativo, mas não conseguem acordar num projecto para este sacana deste país!!
E faz-me também uma enorme confusão este retrato que os portugueses parecem estar a fazer de si próprios: um povo esquelético e angustiado, que deambula perdido pelo território árido, esgravatando sem esperança as terras secas em busca de umas magras sementes para se alimentar, enquanto, ao mesmo tempo na vida real e por esses centros urbanos fora, vai enchendo os carrinhos dos supermercados, cruzando incessantemente os centros comerciais, pulando de loja em loja, dessas de "marca" que enxameiam por todo lado, enchendo a transbordar a noite nas discotecas e formando filas intermináveis de carros à hora de ponta, mesmo com a gasolina caríssima!
O Alto Comissário para os refugiados, que é português, como sabemos, terá certamente razão para vir fazer uma missão especial a Portugal... Preparem os hospitais de campanha! Mandem vir as missões humanitárias!!
Hoje as notícias dão-nos conta de um relatório da OCDE que indica que a emigração aumentou em Portugal 50%! Acto de resistência ontem, a emigração continua a ser uma maneira de lidar com a insanidade deste país. Hoje, se calhar, perante as novas realidades do país (democracia, integração europeia, euro) a motivação destes portugueses será um pouco diferente. O melhor, pensarão decerto estes novos emigrantes, é pirar-me deste manicómio...

2 comentários:

Rui Mota disse...

Intolerável, a fome. No Mundo, mas agora também em Portugal.
Como é isto possível, 22 anos depois de termos aderido à UE, depois de 3 quadros comunitários de apoio e quando continuam a entrar, diariamente, milhões de euros no país?... Como é possível importarmos mais de 70% do que comemos?
E portanto, esta é a realidade portuguesa.
Estou de acordo que a "caridadezinha" não resolve um problema estrutural. Mas, graças à dita, o povo não se revolta. Há sempre uma Jonet de serviço, a justificar a "solidariedade" dos portugueses. Com os "brandos costumes" não vamos lá...
Emigrar pode ser uma alternativa. O problema de base - a incapacidade ancestral e a impotência generalizada - tem outras causas, como sabemos.
Somos um povo de eunucos, é o que é...

Carlos A. Augusto disse...

Assumamo-nos: transformemos Portugal numa gigantesca Misericórida!! Auxiliemos o ceguinho, o pobre e o desvalido! E já agora mandem algum aqui para o Face... A gente abre uma conta!