Três semanas após o início das "acampadas", a situação agudizou-se e ninguém acredita que vá parar.
Este é o resultado de uma Lei, que veio piorar a já de si difícil situação de milhares de portugueses que, após a liberalização de um mercado de arrendamento caduco e na impossibilidade de comprar uma casa, são confrontados com despejos associais ou, na melhor das hipóteses, permanecerem em casa dos pais "ad eternum", por não terem capacidade económica de adquirir uma habitação.
Um drama que, sendo comum a outros países europeus, se tornou a principal das muitas preocupações do português médio, confrontado ainda com a carestia de vida, um mercado de trabalho de baixos salários, habitação escassa, crise na saúde e na educação e, o pior de todos, falta de expectativas futuras.
Acrescente-se a estes factores, uma inflação galopante devida às guerras em curso (Ucrânia e Irão) e não será difícil concluir que os tempos que se avizinham são, desde já, os mais difíceis deste século. Não por acaso, foram as populações de países onde existe maior cidadania (Espanha, França, Itália, Bélgica...) as primeiras a reagir e a protestar contra os seus governos, que insistem em manter modelos de austeridade desajustados da realidade actual, libertando dinheiro para a industria militar enquanto reduzem as prestações do estado social.
Não é pois de estranhar que, mais tarde ou mais cedo, a explosão social chegasse a Portugal, todavia um dos países mais pobres da União Europeia, pese embora os 40 anos de adesão à então CEE e os generosos apoios europeus a fundo perdido, desde então recebidos.
Ou seja, se a crise social atinge sociedades ricas, onde vigora um estado social generoso, que pensar de um país como Portugal, onde os apoios mínimos não chegam à 20% da população e metade dos trabalhadores não ganha mais de 1400euros, considerado o ordenado médio nacional?
Este é o dilema. Num país onde o ordenado médio não chega sequer para pagar uma renda numa cidade do litoral, como esperar que o cidadão comum possa suportar as suas despesas regulares, que vão muito além da renda ou da hipoteca mensal?
Perante este dilema, que se tornou dramático para 30% da população (70% dos portugueses têm casa própria) não podemos estranhar que, mais cedo ou mais tarde, a explosão social acontecesse. Foi agora, começou no Porto e já dura há 22 dias, com extensões em Lisboa, Évora e Faro. Uma revolta que veio para ficar, uma vez que a solução do problema não poderá ser resolvida em meses e levará anos a construir um parque habitacional com rendas acessíveis.
O governo não quis perceber a indignação e reagiu da pior maneira: à "bastonada", contra manifestantes pacíficos, que mais não fizeram do que montar uma "acampada", à imagem de outros manifestantes que noutras ocasiões, já fizeram o mesmo em Portugal (bombeiros no Porto, polícias em Lisboa, empresários da restauração, frente ao parlamento durante a crise do Covid, etc.). Mais, não só as "tendas" nunca incomodaram o poder político nessas ocasiões, como os milhares de "sem-abrigo" que dormem em tendas e povoam as principais cidades portuguesas (mais de 10.000 de acordo com os dados conhecidos!) não parecem preocupar as autoridades deste país, sempre tão zelosas e fazer cumprir uma lei decretada em Agosto de 1974, anterior à Constituição de 1976. Uma lei interpretada segundo as conveniências de cada governo e que, até hoje, ninguém teve a coragem de alterar.
Ou seja, o governo aproveitou uma reivindicação social justa, para provocar um facto político que lhe pudesse ser útil na disputa que mantém com a extrema-direita (que continua a subir nas sondagens, a ponto de ultrapassar os partidos da AD) ameaçando a sua governação. Um clássico, conhecido de outras situações similares na História e que acabariam por conduzir movimentos autoritários ao poder. Basta olhar para a Europa do último século ou para fenómenos populistas recentes (leia-se pró-fascistas) na Hungria de Orban, EUA de Trump, Argentina de Milei ou Brasil de Bolsonaro, para perceber os meios e os métodos.
Chegados aqui, resta a questão central: e agora?
Estará o governo disposto a recuar na metodologia usada, ou vai continuar mudo e quedo, esperando que os manifestantes se cansem e a polícia acabe por vingar por meio de uma repressão, que nos lembra os tempos negros da "outra senhora"? E o presidente da República, qual o seu papel nesta crise? Uma "abstenção violenta", como tem sido o seu timbre, ou um murro na mesa, perante o desvario policial que provocou dezenas de feridos a necessitar de cuidados hospitalares? E os manifestantes, vão abandonar a luta, agora que o movimento cresceu exponencialmente e já é apoiado pelos pais e avós dos jovens que protestam, ou vão continuar?
Algo é evidente: o governo perdeu esta batalha e será difícil recuperar uma boa imagem que, de resto, nunca teve nos dois anos e meio que leva de governação. Uma coisa é apresentar quadros macro-económicos positivos; outra é a vida real da população, da qual Montenegro parece continuar alheado. Um desastre, este governo de neoliberais que continuam a viver numa "bolha". Quando esta rebentar, serão arrastados na enxurrada...
Estamos avisados: o (novo) fascismo está a caminho e ignorá-lo seria um erro tremendo. A democracia tem 52 anos e defendê-la é a tarefa urgente dos democratas. Todos, somos poucos.
