A tentação de evocar as semelhanças entre a chamada Restauração da Independência de 1640 e este período triste da história do País é enorme. Há, quando visto pela rama, entre aquela época e os dias que correm, conturbados e desesperantes, alguns pontos de contacto.
O brutal jugo fiscal, o mal estar quase transversal na sociedade
e até uma certa "crise dinástica" são argumentos que, aparentemente, podem contribuir para aproximar as épocas. Mas, de facto, os tempos são outros.
Restauração não é refundação. Nem a "dependência," que a acção dos conjurados do século XVII conseguiu contrariar, tem as mesmas características nem a perda de soberania de hoje tem o mesmo significado que a de ontem nem estamos perante os mesmos antecedentes históricos nem, sobretudo, a Merkel é Felipe II.
Um traço inegavelmente comum é a vontade, hoje como ontem, de deitar os traidores pela janela. Acção concretizada em 1640 e com fortíssimas possibilidades de se repetir 372 anos depois. É que quando a reforma do Estado Português é quase literalmente encomendada a uns quaisquer "cámones", como muito bem lembra Alfredo Bruto da Costa, sem que o Estado, que somos todos nós, saiba, chegámos ao ponto em que alguém vai mesmo ter de voar pela janela fora...
Hoje assistia a um interessante documentário sobre a origem da vida na Terra. Falava-se sobre a possibilidade, real, de ela resultar da "visita" de uns quaisquer organismos primários provenientes de Marte. Formas simples de vida como bactérias, poderão ter atravessado o espaço a bordo de meteoritos marcianos e aqui poderão ter evoluido para formas de vida mais complexas.
Um dos astronautas que pisou a Lua durante a missão Apollo 12 contava no documentário, para ilustrar este argumento, que uma das tarefas que teve foi a de resgatar uma câmara de video de uma missão Apollo anterior. O recipiente que continha essa câmara estava revestido de poliestireno extrudido, vulgarmente conhecido por esferovite. Dizia ele que o operário encarregado de montar a câmara naquele recipiente estaria constipado e teria espirrado para cima dele enquanto executava o seu trabalho. O material foi depois observado em Terra e verificou-se que as bactérias lançadas pelo espirro do operário —disfarçadas entre as partículas do polímero e que, portanto, não se conseguiam observar logo após a encomenda apolínea ter sido devolvida ao remetente— voltaram subitamente a desenvolver-se, assim que as condições ambientais o permitiram.
As bactérias teriam permanecido completamente inertes durante os anos que passaram entre estas duas missões Apollo, em condições inimagináveis, viajaram de volta, com dramáticas saídas e entradas na atmosfera, e, assim que surgiram factores ambientais favoráveis, retomaram o seu processo de multiplicação.
A vida ensina-nos que a vida segue sempre o seu curso. Um espirro, uma simples bactéria que teima em resistir, um Miguel de Vasconcelos jogado pela janela fora e voltamos rapidamente à normalidade que isto já começa a chatear, mesmo, muito a sério.
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2012/11/02
2011/10/22
Alfredo Bruto da Costa
A pobreza é um problema vergonhoso neste país. Alfredo Bruto da Costa é certamente uma voz a escutar atentamente, se queremos dar ordem ao pensamento sobre este tema.
Não são de hoje as suas análises sobre as causas e as consequências da pobreza em Portugal e não são de hoje os alertas que tem lançado sobre a deterioração constante da situação do país nesta matéria. Há uma série de artigos e entrevistas que é oportuno ler ou reler. Ouça-se esta entrevista recente da TSF, veja-se esta outra, veja-se ainda esta outra, leia-se esta ou esta, ou ouça-se esta.
A sua entrevista de há poucos dias ao TVI24 foi um momento de raro valor televisivo. Simples, sem tiques nem demagogias, usando palavras totalmente ausentes hoje dos discursos públicos (quem fala de dignidade? Quem entende sequer o que é dignidade?!), Bruto da Costa revisitou de A a Z as causas do problema da pobreza em Portugal e desmontou as manhas e o embuste do OE2012. Fê-lo de um modo sereno, quase zen. Foi demolidor.
Pena que a TVI24 não disponibilize esta entrevista. Vale uma manif, bem concorrida.
Não são de hoje as suas análises sobre as causas e as consequências da pobreza em Portugal e não são de hoje os alertas que tem lançado sobre a deterioração constante da situação do país nesta matéria. Há uma série de artigos e entrevistas que é oportuno ler ou reler. Ouça-se esta entrevista recente da TSF, veja-se esta outra, veja-se ainda esta outra, leia-se esta ou esta, ou ouça-se esta.
A sua entrevista de há poucos dias ao TVI24 foi um momento de raro valor televisivo. Simples, sem tiques nem demagogias, usando palavras totalmente ausentes hoje dos discursos públicos (quem fala de dignidade? Quem entende sequer o que é dignidade?!), Bruto da Costa revisitou de A a Z as causas do problema da pobreza em Portugal e desmontou as manhas e o embuste do OE2012. Fê-lo de um modo sereno, quase zen. Foi demolidor.
Pena que a TVI24 não disponibilize esta entrevista. Vale uma manif, bem concorrida.
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