Num país normal há muito se saberia quais as datas das eleições legislativas e autárquicas. Em Portugal, não.
Para além de bizarra, esta situação é, no mínimo, caricata e releva do nosso atraso tradicional. Se a legislatura foi normal, tendo inclusive durado mais do que os quatro anos habituais, o que impede de serem conhecidas as datas eleitorais com a devida antecedência? E porque é que o Presidente da República não ouviu há mais tempo os partidos sobre esta questão?
Pior, questionado esta semana, Cavaco Silva lembrou o histórico de eleições anteriores (quantas?) onde teria havido eleições simultâneas e citou sondagens (quais?) onde os inquiridos teriam manifestado a sua preferência por realizar eleições diferentes no mesmo dia. Mas, então, o Presidente da República anda a reboque da opinião de um milhar de inquiridos em sondagens aleatórias? Há aqui qualquer coisa que me escapa. A menos que o PR tenha uma "agenda escondida" e queira beneficiar o PSD, o único partido que prefere eleições legislativas e autárquicas em simultâneo. Para as restantes forças partidárias com representação no hemiciclo (e são todas) as eleições devem ser em dias diferentes.
À excepção da abstenção, que pode ser ainda maior em caso de datas diferenciadas, não nos parece existirem outros argumentos importantes a favor da mesma data eleitoral. Mesmo o factor "custo", que a líder da oposição tem vindo a agitar como um "papão orçamental", não nos parece relevante. Como demonstram as contas, as despesas extra não ultrapassariam a "iluminação" da Avenida da Liberdade em épocas festivas. Cerca de 4 milhões de euros.
Por outro lado, ganhar-se-á em transparência democrática e em reforço da democracia, pois tanto os partidos como os votantes poderão escolher os seus representantes distintos em campanhas com características distintas. O dinheiro "a mais", gasto em eleições separadas, será sempre inferior ao preço de um qualquer quilómetro de auto-estrada, seja esta de côr rosa ou laranja. O Presidente da República devia saber isso.