Nos últimos quinze dias pude assistir a três obras cinematográficas - género documentário - sobre a memória de regimes e eventos políticos em países devastados por guerras, golpes de estado e repressão generalizada. Os dois primeiros, no âmbito do Festival "Olhares do Mediterrâneo" (Cinema no Feminino) e, o terceiro, numa das salas da Medeia Filmes.
Filmes sobre a guerra na Bósnia, na década de noventa (For those who can tell no tales); sobre a repressão em Portugal durante o fascismo (O medo à espreita) e sobre o golpe de estado militar na Indonésia em 1965 (O olhar do silêncio).
Enquanto no primeiro filme, a realizadora Jasmila Zbanic (Bósnia), utiliza uma turista australiana como alter-ego, para dessa forma construir uma narrativa distanciada, mas nem por isso menos denunciadora das violações sofridas por centenas de mulheres bósnias num hotel, utilizado pelas tropas sérvias durante a guerra civil na década de noventa; o filme português, de Marta Pessoa, reúne diversas figuras da resistência anti-fascista e deixa-as falar perante a câmara, num cenário negro, onde os entrevistados relatam as torturas a que foram sujeitos nos calabouços da PIDE. O terceiro filme, realizado por Joshua Oppenheimer (norte americano, baseado na Dinamarca), segue a investigação do personagem principal, cujo irmão foi torturado e morto por milícias de extrema-direita, às ordens dos generais indonésios.
Três formas diferentes de olhar a tortura, em sociedades onde, durante períodos mais ou menos prolongados, o poder foi exercido por regimes autoritários ou durante convulsões internas, como foi o caso da guerra civil na ex-Jugoslávia.
Dos três filmes, o docudrama de Oppenheimer (segunda parte do díptico iniciado com "A arte de matar", que vimos no ano passado) é, sem dúvida, o mais impressionante. Já porque o realizador dinamarquês possui aptidões que as realizadoras dos outros filmes parecem ainda não possuir; como, os meios técnicos postos à sua disposição, são, indubitavelmente, mais sofisticados. Se "A arte de matar" já era um filme devastador, pela crueza das histórias de tortura representadas pelos próprios esbirros, "O olhar do silêncio", ainda que versando o mesmo tema, não cai na repetição de "clichés" procurando descobrir a verdade, através das conversas informais que o personagem principal do filme vai tendo com os antigos torturadores, até conseguir descobrir os assassinos do próprio irmão. Um filme assustador na sua simplicidade formal, filmado com grande mestria e beleza estética, a lembrar a grande tradição asiática de Ozu e Lav Diaz.
Num período histórico de grandes convulsões políticas, em que começam a surgir prenúncios de regimes mais ou menos autoritários, alguns dos quais bem perto de nós, é bom lembrar que as derivas dictatoriais não estão tão longe assim. Neste sentido, filmes como aqueles que nos foi dado ver nas últimas semanas, são bons exemplos do que a arte cinematográfica pode fazer pela memória.
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2015/06/19
2014/04/07
A Imagem que Falta(va)
Há uns anos atrás, o Instituto Franco-Português organizou um ciclo do documentarista cambojano Rithy Panh. Alertado para o facto por uma amiga cinéfila, lá fui entre o curioso e o desconfiado. Do Cambodja, para além dos templos, do principe Sihanouk e do regime de Pol-Pot, pouco mais sabia.
Lembro-me de ter visto quatro dos seus filmes, respectivamente "Site 2" (1989), "La terre des âmes errantes" (2000), "S-21: La machine de Mort Khmère Rouge" (2003) e "Duch, le maître des forges de l'enfer" (2011). Uma tetralogia do terror Khmer Vermelho, filmado por uma das suas vítimas. Não me lembro de nenhum cineasta (para além de Lanzmann) que, de forma tão pungente, tivesse a coragem e a obstinação de confrontar-se com a memória desta forma, a um tempo documental e humanista, onde os carrascos respondem perante os seus crimes. Fiquei fã do realizador, certamente um dos maiores documentaristas da actualidade, na esperança que um dia seria descoberto em Portugal.
Esse momento parece ter chegado agora, com a estreia, no circuito comercial, da sua mais recente obra, o premiado "L'Image Manquante" de 2013. Estamos, de novo, perante um filme-memória de um dos períodos mais negros da história recente. Ao contrário dos documentários anteriores, em que nos mostrava os horrores do regime de Pol-Pot através das suas vítimas e algozes, Panh conta-nos neste filme a sua própria experiência, desde o dia em que as tropas dos Khmer Vermelhos obrigaram a sua família a abandonar Phnom Penh, para ser "reeducada" nos arrozais do Cambodja. Estamos em Abril de 1975 e Rithy Panh tinha apenas 13 anos. Com ele foram os seus pais, irmãos e primos, que viriam a morrer de forma trágica. Estima-se que terão morrido cerca de 2 milhões de cambojanos (um terço da população do país), durante o regime comunista de Pot (1975-1979). A maioria devido a maus tratos e às condições sub-humanas em que eram obrigados a viver. É esta história, trágica e heróica, que o realizador nos conta. Porque as imagens reais são parcas e, na sua maioria, glorificavam o regime, Panh viu-se obrigado a improvisar, com bonecos de barro pintados à mão, todos eles representando um personagem real, entre os quais o próprio realizador, de camisa às pintas. Alternando com as imagens dos "campos da morte", a preto e branco, podemos assim seguir a história da família Panh, através da teatralização dos bonecos de barro, sublinhada pela excelente narração de Randal Douc. Uma espantosa "mise-en-scène", onde o horror está sempre presente, apesar de nunca o vermos.
Não sabemos se, com este filme, Rithy Panh, fechou o ciclo da memória que se propôs filmar. Após esta obra, verdadeiramente excepcional, ele entrou definitivamente para o panteão dos grandes documentaristas de sempre. Um filme imperdível.
2013/06/16
“Sugar Man”
Com estreia simultânea em diversas salas da capital, chegou finalmente a Portugal o aclamado documentário “Searching for Sugar Man” (À procura de Sugar Man”) um docudrama filmado pelo sueco Malik Bendjelloul, a partir de uma história relatada pelos sul-africanos Stephen “Sugar” Segerman e Craig Bartholomeu Strydom, editores dos álbuns de Rodriguez, um “sing songwriter” americano, idolatrado na África do Sul.
O filme, que teve a sua premiére no Festival Sundance de 2012, recebeu este ano o Óscar para o melhor documentário em Hollywood, o 66º British Award for the Best Documentary e o Bafta Award for Best Documentary 2012, tendo ainda passado em Lisboa, durante o último “DOCs”, onde teve boa aceitação da audiência e da critica.
Fazendo jus ao velho princípio de Hollywood “a good story, is a good story, is a good story”, Bendjelloul encontrou a história, que necessitava para o seu filme, ao ler um texto de Stephen Segerman (na contracapa de um dos álbuns de Rodriguez), onde este dono de uma loja de discos na cidade do Cabo, exortava os leitores do texto a procurarem o cantor norte-americano, autor de dois álbuns míticos que fizeram furor na África do Sul na década de setenta e que tinha, depois disso, desaparecido sem deixar rasto...
O desafio intrigou o realizador sueco que, juntamente com Segerman, decidiu pôr mãos à obra e iniciar a sua própria investigação. Depois de meses de procura e muitas peripécias (reconstituídas no filme) o acaso levou-os a uma familiar do músico dado como desaparecido, de quem se dizia ter cometido suicídio em pleno palco. Para surpresa dos dois homens, não só Rodriguez estava vivo, como se dispôs a colaborar no filme e a ir cantar à África do Sul, onde é idolatrado devido à popularidade das suas canções, usadas nas décadas de setenta e oitenta durante a resistência ao regime do “Apartheid”.
O documentário relata a procura do homem que toda a gente julgava morto e que, apesar do insucesso nos Estados Unidos (onde os seus álbuns tinham sido um “flop”) continuava a ser um herói na África do Sul, onde vendeu centenas de milhares de “bootlegs” que a juventude sul-africana conhecia e cantava de cor.
Uma história verídica, filmada em supper8mm, que alterna imagens reais e reconstituição dos principais passos da investigação, para retraçar o percurso de “sixto” Rodriguez, o sexto filho de uma família de emigrantes mexicanos, que passou ao lado de uma carreira musical, apesar da qualidade inquestionável da sua música e textos que, alguém no filme, compara aos de Bob Dylan.
Pesem algumas limitações técnicas, dados os constrangimentos orçamentais que obrigaram algumas filmagens a serem feitas com um IPod Camera especial, o documentário vale pela história e o exemplo humilde de um cantor e compositor magnifico que, apesar do seu desaparecimento, nunca foi esquecido e hoje, graças a este documentário, recebe o reconhecimento que lhe é devido.
Nota Final: Rodriguez, que continua a viver, humildemente, na sua casa de sempre nos subúrbios de Detroit, recebeu no passado dia 9 de Maio, um doutoramento “honoris causa” da Wayne State University em Detroit, pela sua contribuição para a música e poesia americana.
Vão ver este filme magnífico, baseado numa extraordinária história de um artista excepcional.
O filme, que teve a sua premiére no Festival Sundance de 2012, recebeu este ano o Óscar para o melhor documentário em Hollywood, o 66º British Award for the Best Documentary e o Bafta Award for Best Documentary 2012, tendo ainda passado em Lisboa, durante o último “DOCs”, onde teve boa aceitação da audiência e da critica.
Fazendo jus ao velho princípio de Hollywood “a good story, is a good story, is a good story”, Bendjelloul encontrou a história, que necessitava para o seu filme, ao ler um texto de Stephen Segerman (na contracapa de um dos álbuns de Rodriguez), onde este dono de uma loja de discos na cidade do Cabo, exortava os leitores do texto a procurarem o cantor norte-americano, autor de dois álbuns míticos que fizeram furor na África do Sul na década de setenta e que tinha, depois disso, desaparecido sem deixar rasto...
O desafio intrigou o realizador sueco que, juntamente com Segerman, decidiu pôr mãos à obra e iniciar a sua própria investigação. Depois de meses de procura e muitas peripécias (reconstituídas no filme) o acaso levou-os a uma familiar do músico dado como desaparecido, de quem se dizia ter cometido suicídio em pleno palco. Para surpresa dos dois homens, não só Rodriguez estava vivo, como se dispôs a colaborar no filme e a ir cantar à África do Sul, onde é idolatrado devido à popularidade das suas canções, usadas nas décadas de setenta e oitenta durante a resistência ao regime do “Apartheid”.
O documentário relata a procura do homem que toda a gente julgava morto e que, apesar do insucesso nos Estados Unidos (onde os seus álbuns tinham sido um “flop”) continuava a ser um herói na África do Sul, onde vendeu centenas de milhares de “bootlegs” que a juventude sul-africana conhecia e cantava de cor.
Uma história verídica, filmada em supper8mm, que alterna imagens reais e reconstituição dos principais passos da investigação, para retraçar o percurso de “sixto” Rodriguez, o sexto filho de uma família de emigrantes mexicanos, que passou ao lado de uma carreira musical, apesar da qualidade inquestionável da sua música e textos que, alguém no filme, compara aos de Bob Dylan.
Pesem algumas limitações técnicas, dados os constrangimentos orçamentais que obrigaram algumas filmagens a serem feitas com um IPod Camera especial, o documentário vale pela história e o exemplo humilde de um cantor e compositor magnifico que, apesar do seu desaparecimento, nunca foi esquecido e hoje, graças a este documentário, recebe o reconhecimento que lhe é devido.
Nota Final: Rodriguez, que continua a viver, humildemente, na sua casa de sempre nos subúrbios de Detroit, recebeu no passado dia 9 de Maio, um doutoramento “honoris causa” da Wayne State University em Detroit, pela sua contribuição para a música e poesia americana.
Vão ver este filme magnífico, baseado numa extraordinária história de um artista excepcional.
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