Interrompo um silêncio de vários meses para recomendar a leitura da entrevista que Joe Berardo deu ao suplemento Economia do Público de sexta-feira passada.
De facto, tenho visto os economistas e os políticos à rasquinha, sem saberem no que isto da crise vai dar. O Berardo, que é, ele próprio o reconhece na entrevista, um bocado desbocado, diz que está "banzado" e que "tudo aquilo que [aprendeu] até agora, que era analisar as potencialidades, os endividamentos, os dividendos, foi tudo por água abaixo e [que tem] que voltar a aprender de novo [passe a forma pleonástica]." Remata com a frase lapidar "Tem que haver um novo sistema."
Eu cá, desde que ouvi Greenspan dizer que se enganou acerca da capacidade do sistema se auto-regular (assim fazendo do "padre" João Carlos Espada praticamente o único fiel do liberalismo), só tenho a dizer que já nada me espanta. E acho paradigmáticas as afirmações de Berardo.
Estou convencido de que o que vem aí de crise é muito, mesmo muito, mais grave que o que a generalidade das pessoas julgam.
Porque (segundo Anselm Jappe, em artigo que recomendo vivamente) "desta vez, todos os comentadores estão de acordo" sobre que é realmente uma crise sistémica o que está a começar, e não uma "mera turbulência passageira dos mercados financeiros". Mas "todos aqueles que agora apelam a uma «maior regulação» dos mercados financeiros, desde a associação ATTAC ao Presidente Sarkozy, não vêem nas loucuras das bolsas mais do que um «excesso», um abcesso num corpo são".
Continuando assim a varrer a poeira para debaixo do tapete, nunca perceberão que o que realmente se está a passar é uma crise dos próprios fundamentos do sistema em que vivemos. "Os políticos não estão a perceber, estão a dar aquele ar de que é possível recuperar, eu acho que fazem bem, mas eu estou é preocupado com a destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande", Berardo dixit.
As boas notícias são que, depois de ler o discurso de tomada de posse de Obama, fiquei convencido de que ele, tal como o Berardo, também percebeu!