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2016/12/28

Taxi Driver (12)



Já o tinha visto...estava ali há muito tempo?
- Há uns minutos. Para a António Augusto Aguiar, sff.
Vamos lá ver como está o trânsito, que estes dias tem sido uma loucura...
- Pois, isto com Natal e com férias pelo meio, é mais difícil.
Pelo menos não está a chover. É pena estar tanto frio, mas está um dia lindo.
- Pois está. Mas, quando o céu está mais azul, faz mais frio...
Mesmo assim temos um clima formidável. O pessoal do Norte da Europa, quando cá vem, até se "passa".
- É verdade, sim. Eu vivi dezenas de anos na Holanda e sei o que é o frio. Quando os portugueses se queixam do clima, digo-lhes sempre que deviam passar lá uns anitos, para saberem como é. Temos um dos melhores climas da Europa. O pior são as casas. Passamos mais frio dentro de casa do que fora...
É verdade. É o país que temos...As casas são todas mal construídas e não há garantias. Ninguém vem fiscalizar se estão bem isoladas ou não. Querem é vendê-las rapidamente. Ninguém nos pergunta se gostamos das casas ou não. Mas, também quem trata das casas, são sempre as mulheres. Elas é que põem e dispõem: onde é que fica o sofá, onde é que fica a mesa, os armários, a televisão...
- Quando se vive com alguém, é assim...
Não acredita? Eu já montei duas casas e foram sempre as mulheres que tiveram a palavra final. Onde é que queriam morar, que tipo de casa, que mobiliário, o que devíamos comprar, tudo, tudo! Eu não me meti em nada. E com a actual mulher é a mesma coisa. Veja lá, que até criei dois escritórios, um para mim e outro para ela. O meu está todo desarrumado, mas ela passa lá o tempo todo e está sempre a dizer-me como é que hei-de decorar o espaço. Elas é que mandam, agora. Não sei se já reparou, mas a sociedade está a mudar muito...
- Não sei se elas mandam mais agora, mas é natural que tenham mais direitos. Isso tem a ver com a chegada ao mercado de trabalho, que as tornou mais independentes economicamente e com a pílula, que as tornou mais emancipadas sexualmente, pois já não dependem de um parceiro para terem relações.
Eu sei lá...há coisas que dizem respeito às mulheres e outras aos homens. Eu, por exemplo tenho um grupo de amigos, onde as mulheres não entram. A minha bem me pergunta o que fazemos no grupo, mas eu digo-lhe sempre que também não me meto nos grupos das amigas dela. Mas, elas agora estão em todo o lado. Até já caçam. Às vezes, quando ando a caçar com os meus amigos, aparecem lá mulheres também. Andam lá, no meio da lama, todas sujas, com um camuflado vestido.
- Essa da caça, não sabia...pensava que era um "desporto" de homens. 
Era, era...o senhor já viu os rapazes de agora? Até parece que já não há homens como antigamente. Eu até nem me considero machista, mas estes gajos parecem uns bonecos. Andam no ginásio, todos depilados, meio amaricados, sem pêlos, nem nada...Já não há homens com cabelos no peito. Os gajos são todos uns "nonhas" e fazem tudo o que elas querem... Já viu a vida de um casal, hoje em dia? Trabalham os dois, mas, depois chegam a casa e ele tem de fazer tudo. Se quiser uma camisa passada, tem de ser ele a passá-la; se quiser comer, tem de ser ele a cozinhar; é ele que leva o filho à escola. Então, e a vida a dois? Foi para isto que me casei? Se é pela carne, vou ali ao talho, avio-me e venho-me embora...não é preciso estar casado...
- É a tendência actual e, provavelmente, os casais do futuro, serão cada vez mais independentes. Cada um faz a sua vida, ainda que tenham uma vida em comum...As estatísticas dizem-nos que 1/3 dos casamentos acaba em divórcio nos primeiros cinco anos. Estamos na média europeia...
Sim, nos países nórdicos já é assim. Estive na Holanda e acho que a Holanda é dos países mais livres do Mundo. Estão sempre à frente, em tudo.
- Nos costumes, sim. A maior parte dos jovens torna-se independente muito cedo. Normalmente, aos 18 ou 19 anos, quando acabam o liceu, vão viver em quartos ou em apartamentos de estudantes. Isso também lhes dá uma certa autonomia. Mas, claro, a sociedade está organizada nesse sentido. 
Aí é que está. A minha mulher trabalha na Universidade, onde não ganha mal, eu ando aqui entretido com o táxi, mas os putos têm de viver connosco. Como é que podíamos pagar-lhes uma casa?
- Isto está tudo ligado. Também por isso, em Portugal, os filhos ficam mais tempo em casa dos pais.
Coitados, eles não sabem fazer nada. O senhor já reparou bem nos rapazes de agora? Estão completamente ultrapassados. Eu, quando vou à universidade onde estão os meus filhos, só há mulheres. Elas ganham a maior parte dos concursos para os empregos, têm as melhores notas na universidade, são as mais bem preparadas. Eu não sei onde é que isto vai parar. Os gajos não mandam nada e não sabem fazer nada...
- Ainda por cima não fizeram a tropa...Antigamente, dizia-se que tinhamos de ir para a tropa, para nos fazermos homens...
Claro, pelo menos sempre se aprendia alguma coisa. A ter disciplina, higiene, a cuidar de nós, enfim a ser independentes. É o que eu digo aos meus filhos. É pá vê lá se ganhas juízo, que eu não estou sempre aqui. E o gajo, ri-se. O que é que ele há-de fazer?...
- Bom, já chegámos. Fico por aqui.
Boa tarde e boas festas, para o senhor.
- Boas festas.    

2013/07/01

Afinal, isto anda tudo ligado...

O que têm as manifestações de Istambul, Ancara, Cairo, Alexandria, S. Paulo ou do Rio de Janeiro, em comum?
Aparentemente, nada.
Na Turquia, o que começou por ser a ocupação pacífica de uma das praças mais emblemáticas de Istambul - contra planos urbanísticos que punham em causa um parque na cidade - tornou-se uma gigantesca onda de protesto nacional contra o governo de Erdogan e as suas politicas de islamização da sociedade turca, um estado formalmente laico desde os anos vinte do século passado. Mais do que os ocupantes da praça Taksim, os cidadãos de dezenas de outras cidades turcas que aderiram ao protesto, lutam agora por uma Turquia moderna e democrática, onde questões como a educação, o emprego e o meio-ambiente, passaram a estar na ordem do dia.
No Egipto, dois anos depois dos protestos da praça Tahir - que estiveram na origem da queda do governo de Mubarak - os habitantes do Cairo voltaram à rua, desta vez para exigirem a demissão do governo do presidente Morsi, acusado de manipulação dos resultados eleitorais que lhe deram a vitória há um ano atrás e da crescente islamização da sociedade egípcia desde que a Irmandade Muçulmana ascendeu ao poder. Também aqui os jovens da praça Tahir exigem democracia, educação e emprego.
Finalmente, o que começou por ser um protesto dos habitantes de S. Paulo - contra o aumento das tarifas dos transportes da cidade – alastrou a dezenas de cidades brasileiras, agora já não apenas contra os preços dos bilhetes, mas por melhores transportes, melhores escolas e melhores hospitais, exigências num pais democrático, onde 1/3 da população continua a não ter acesso a uma vida decente. Isto, ao mesmo tempo que o governo brasileiro gasta centenas de milhões de euros na organização de eventos desportivos para glorificação da suas classes dirigentes.
Alguma coisa está a passar-se em países e sociedades tão diversas, onde, há relativamente pouco tempo, as populações pareciam mergulhadas numa apatia geral, certamente explicadas pelos regimes de “democracia musculada” em que viviam, ou, na alternativa brasileira, numa bolha de crescimento económico, que se revelou artificial.
Se há um denominador comum em todos estes protestos, este deve ser procurado na recusa das novas gerações em aceitar regimes autoritários e corruptos, que mais não fazem do que reproduzir os modelos dos governos que eles próprios derrubaram, com a promessa de que, a partir de agora, tudo seria diferente,. Não foi. Não é. É isso que estes jovens, muitos deles educados, mas desempregados e sem futuro em sociedades onde a população jovem é maioritária, já perceberam. E porque deixaram de acreditar e não têm tempo para construir um futuro diferente, mais não lhes resta do que protestar. Para já, de forma espontânea e, aparentemente, desorganizada, mas com a coragem que exigem os grandes momentos. E este é, ainda que pelas piores razões, um importante momento histórico. O que se está a passar na Turquia, no Egipto ou no Brasil, apesar das suas diferenças, pode afinal estar bem mais perto do que as distancias geográficas fazem crer.