Ia alta a madrugada, diz-se, quando foi assinado o acordo de des-concertação social. Os obnóxios do costume, certamente já meio a dormir, deram a mão aos representantes dos subsídio-dependentes, parasitas, patrões do comércio e da indústria e deram a mão ao governo. Ficaram todos contentes. De mãos dadas. No fim sorriram certamente para a objectiva de algum fotógrafo noctívago ou para o telemóvel do Catroga de serviço, exibindo as olheiras da noite mal dormida.
Em tempo de reacções, uns sublinharam o falso problema que está em jogo neste acordo, lembrando que os custos com o trabalho não são a componente principal do défice da nossa economia e que mesmo que se mude a legislação laboral todos os anos nada se alterará enquanto não existir um novo modelo de desenvolvimento económico, enquanto outros se congratularam com o acordo alcançado, cantando loas à "coragem" do ministro e da tendência sindical da vergonha. Lembraram ainda outros que este acordo dá uma imagem boa para os mercados.
Este parece ser o dilema em Portugal: governar a sério, com novo rumo, enfrentando os verdadeiros problemas do país com verdadeira coragem e elevando a voz na Europa, ou governar para a imagem, navegando na velha rota, com o mesmo navio e a tripulação de piratas do costume, escaqueirando ainda mais as condições de vida dos trabalhadores portugueses.
O governo, os patrões e os seus serventuários escolheram.
Resta-nos tudo fazer para lhes escaqueirar a vida deles também.