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2013/07/21

E agora, Cavaco?

Enquanto o Presidente da República prepara mais uma comunicação ao país, vale a pena relembrar as alternativas existentes, para sair do impasse politico em que nos encontramos desde que Gaspar bateu com a porta e deixou o governo a braços com a maior crise dos últimos anos.
Desde logo, as descartáveis:
1) Não haverá eleições, porque o presidente não as quer e a direita receia perder o poder.
2) Não haverá governo de iniciativa presidencial, porque a constituição não o permite desde 1982.
Depois, as mais prováveis:
3) Poderá haver a recondução da actual coligação, mas não se percebe muito bem com que ministros e ministérios.
4) Poderá haver a recondução da actual coligação, de acordo com a proposta de Passos Coelho (na qual Paulo Portas passará a supervisionar os ministérios mais importantes do governo, entre os quais o das Finanças).
Estas são as alternativas e nenhuma é boa, como já se percebeu. Nem Cavaco parece muito inclinado a aceitar a proposta de Passos, nem acredita nesta coligação a dois e, por isso, sugeriu um entendimento entre os três maiores partidos, que falhou esta semana.
Voltámos pois à “estaca zero” e, a menos que o governo se demita (por iniciativa própria ou por sugestão do Presidente) não vislumbramos nenhuma solução fora deste quadro.
É pouco e não augura nada de bom.
Quanto mais tempo esta situação durar, maiores serão as pressões internas e externas, pelo que não será de descartar uma solução grega à “la Papademos” ou à italiana à “la Monti”, ambas impostas de fora, pela Comissão Europeia, com a conivência da Alemanha e, claro está, dos seus homens de mão nos respectivos países.
É difícil acreditar que Cavaco tenha alguma solução milagrosa na manga. Preparemo-nos para o pior. Ou seja, mais do mesmo...

2010/10/07

Os cães ladram e a investigação continua

Há tempo escrevi aqui um comentário sobre o cinismo que os instalados no poder revelam ao abordar a questão do mérito. O mérito, para além de ser necessário tê-lo, precisa de ser reconhecido, e precisa de ser reconhecido através de actos concretos. Se assim não for, o mérito não passará nunca de uma curiosidade, de um número de variedades.
Em Portugal, o mérito é doença que suscita imediatas e violentas reacções de rejeição. Poder e falta de mérito vão aqui de mãos dadas. O exemplo vem de cima e pega como fogo em seara seca, por isso, o reconhecimento oficial do mérito, na prática, não existe.
Por mais "roteiros presidenciais" (iniciados por Mário Soares, recorde-se, que Cavaco segue à letra), por mais visitas simbólicas aos "centros de excelência", feitos por suas excelências, o círculo de giz caucasiano não se rompe. Fala-se em mérito e, na prática, ouve-se logo sacar da pistola!
Ainda há dias o professor António Damásio dizia, em entrevista na SICN —por palavras cuidadosamente escolhidas, mas dizia!— que a sua investigação não seria possível em Portugal. A ele coube reagir à falta de condições que tinha e escolher os EUA para fazer o seu trabalho. A nós todos, sobretudo os mais responsáveis, caber-nos-ia e cabe-nos perguntar, porque não? E é aqui que esta questão do mérito e do seu reconhecimento se começa a embrulhar num novelo cuja ponta precisamos de urgentemente encontrar.
Hoje o Público, num artigo de Teresa Firmino, refere que uma equipa de cientistas portugueses,  que trabalha com a equipa que ganhou o Nobel da Física pela descoberta do grafeno, viu o financiamento de um projecto seu que permitiria avançar no domínio da investigação sobre este novo material, ser recusado pela FCT. Um responsável da equipa portuguesa, o professor Nuno Peres da Universidade do Minho, diz, ainda segundo o Público, que "vamos continuar a trabalhar —sem dinheiro, com mais dificuldade—, porque a nossa motivação é compreender a natureza e daí tirar vantagens para a vida das pessoas."
Um dia destes vão todos tentar alapar no "mérito" destes investigadores, vão ver. Talvez mesmo distingui-los em breve com uma paragem do "roteiro" eleitoral e, para o ano, o presidente eleito vai conceder-lhes uma medalha de um "mérito" qualquer, num qualquer dia, de um qualquer Camões, sem corar de vergonha pelo ridículo do seu acto...
Depois continua tudo na mesma.

2010/02/19

Nobre escolha

Fernando Nobre, actual presidente da AMI, anuncia hoje, formalmente, a sua candidatura a Belém. Uma decisão algo surpreendente, ainda que seja conhecido o apoio que deu a diversas candidaturas e formações políticas ao longo dos últimos anos. Do PSD ao BE, passando pelas candidaturas de Mário Soares, António Capucho ou António Costa, o presidente da AMI tem mostrado a sua disponibilidade para apoiar causas públicas em que acredita. Nada a opôr.
A sua disponibilidade para, agora, se candidatar ao mais alto cargo da nação tem, no entanto, características diferentes. Pela primeira vez, deixa de ser apoiante de um partido ou político específico, para pedir o apoio destes. E das duas uma: ou o presidente da AMI, pensa que as suas ideias são suficientes para mobilizar um eleitorado cada vez mais descrente nas instituições que nos representam, naquilo que poderíamos apelidar de vaga de fundo para a"moralização da coisa pública"; ou o presidente da AMI dispõe já de um apoio concreto (aparelho partidário) que lhe garanta iniciar uma campanha eleitoral, com alguma probabilidade de sucesso, contra dois candidatos de peso: Cavaco Silva e Manuel Alegre.
Interrogado ontem, à chegada ao aeroporto, Nobre reafirmou alto e bom som que não era apoiado por nenhum partido, nomeadamente pelo partido socialista. É bem capaz de ser verdade.
Uma coisa parece certa, Nobre será sempre um candidato de "esquerda" nestas eleições e, nesse contexto, um concorrente de Alegre contra Cavaco. Independentemente de vir a ter o apoio de qualquer partido, o partido que apoiar Nobre não apoiará Alegre e vice-versa. Ou seja, Nobre, com a melhor das intenções, contribuirá para a divisão daqueles que se opõem a Cavaco. A manterem-se os pressupostos actuais, e caso estes três candidatos mantenham as suas candidaturas, não é difícil vaticinar que o actual presidente será, mais uma vez, eleito. Como escreveu o conhecido filósofo, a "história repete-se, agora como comédia".