Os vídeos que diariamente vão surgindo e nos mostram a captura e o corpo, já sem vida, de Kadhafi, confirmam o que se imaginava: o coronel foi assassinado pela turbe que o capturou, vá lá saber-se se a mando de alguém...
Esta é uma história que se repete amiúde, ainda que alguns ditadores tenham tido mais "sorte" do que outros: há aqueles, como Salazar, Franco, Pinochet, Estaline ou Mao, para quem a morte foi um alívio. Outros, como Hitler, que escolheram o suicídio, para não darem oportunidade aos seus inimigos de os julgarem; e há aqueles que não puderam escapar ao julgamento terreno. Kadhafi, faz certamente parte deste último grupo, onde podem ser incluídos títeres como Mussolini, Ceauscescu e Saddam, executados por populares ou tribunais que, de justiça, tiveram muito pouco.
Há ainda um quarto grupo, onde se incluem os "inimigos de estimação", como Guevara, Bin Laden e, porque não (?), o coronel líbio, que interessou manter vivo enquanto foi útil ao Ocidente. Kadhafi podia ter fugido da Líbia, como chegou a ser proposto por vários dirigentes africanos, seguindo o exemplo do presidente da Tunísia, exilado algures no Médio Oriente. No entanto, preferiu morrer no seu país, como de resto sempre afirmou. Isso não faz dele um personagem mais simpático, nem apaga o regime de terror que instaurou na Líbia onde ditou as suas leis durante mais de 40 anos.
O que é extraordinário nisto tudo é o cinismo e a hipocrisia dos dirigentes ocidentais que, após anos de convívio e amizade com o regime pária do coronel, lhe voltaram as costas quando perceberam que o vento estava a mudar no Médio Oriente.
Sim, a morte de Kadhafi era inevitável. De preferência, sem julgamento. Não tinha Hillary Clinton, aquando da sua visita à Tunisia, pedido aos "rebeldes" líbios a captura do coronel vivo ou morto? A semana passada, estes fizeram-lhe a vontade.
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2011/10/24
2010/06/19
Fuso Luso 6
A 64º de latitude, estou nos limites da "ocidentalidade" a norte. Se continuasse a percorrer este meridiano em que me encontro, desse o pequeno passo que falta para ultrapassar a latitude 90º e me desviasse uns 70º para a minha direita, iria com toda esta facilidade e por uma via muito mais curta (se os navegadores soubessem...) tombar no outro lado, num outro norte, situado nas mesmas latitudes da ocidentalidade, mas com diferenças maiores do que a simples diferença entre o dia e a noite. Deste lado de cá não percebemos que há ali uma vantagem ancestral. É aquele lado que primeiro vê o dia nascer. Eles sabem isso, sabem a vantagem que têm e demonstam uma paciência sábia perante a nossa impaciência atrevida.
Ainda assim, apesar de percorrermos outras longitudes, continuamos a falar de norte. Se continuarmos, porém, a progredir ao longo deste mesmo meridiano em que me encontro (se os navegadores soubessem...), à queda do norte ocidental num norte oriental juntar-se-ia o trambolhão no sul. Onde nos vamos estatelar todos a sério!
Nestas latitudes remotas onde me encontro percebe-se melhor o quanto a ocidentalidade vive auto-convencida e alheada destas verdades meridianas.
Quando acordar arrisca-se a ser tratada com o mesmo respeito que Johan Ludvig Runeberg --o poeta nacional da Finlândia, representado na estátua da foto-- merece à gaivota nela pousada.
Não foi Gandhi que disse, a propósito da "civilização ocidental", que achava que seria uma boa ideia...?
E Portugal? Como vai lidando com todos estes problemas? Na região do fuso luso, esta dança dos quadrantes vai sendo tratada com a costumeira "astrolábia" dos dirigentes políticos, navegadores de águas chocas, desconhecedores do regime dos ventos, da força das marés e das regras da mareação actual. A marujada, por seu turno, opta pela arte da navegação solitária, já que ninguém a consegue mobilizar para um rumo comum. E como navegar é (continua a ser) preciso, toca de levantar ferro.
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