Os vídeos que diariamente vão surgindo e nos mostram a captura e o corpo, já sem vida, de Kadhafi, confirmam o que se imaginava: o coronel foi assassinado pela turbe que o capturou, vá lá saber-se se a mando de alguém...
Esta é uma história que se repete amiúde, ainda que alguns ditadores tenham tido mais "sorte" do que outros: há aqueles, como Salazar, Franco, Pinochet, Estaline ou Mao, para quem a morte foi um alívio. Outros, como Hitler, que escolheram o suicídio, para não darem oportunidade aos seus inimigos de os julgarem; e há aqueles que não puderam escapar ao julgamento terreno. Kadhafi, faz certamente parte deste último grupo, onde podem ser incluídos títeres como Mussolini, Ceauscescu e Saddam, executados por populares ou tribunais que, de justiça, tiveram muito pouco.
Há ainda um quarto grupo, onde se incluem os "inimigos de estimação", como Guevara, Bin Laden e, porque não (?), o coronel líbio, que interessou manter vivo enquanto foi útil ao Ocidente. Kadhafi podia ter fugido da Líbia, como chegou a ser proposto por vários dirigentes africanos, seguindo o exemplo do presidente da Tunísia, exilado algures no Médio Oriente. No entanto, preferiu morrer no seu país, como de resto sempre afirmou. Isso não faz dele um personagem mais simpático, nem apaga o regime de terror que instaurou na Líbia onde ditou as suas leis durante mais de 40 anos.
O que é extraordinário nisto tudo é o cinismo e a hipocrisia dos dirigentes ocidentais que, após anos de convívio e amizade com o regime pária do coronel, lhe voltaram as costas quando perceberam que o vento estava a mudar no Médio Oriente.
Sim, a morte de Kadhafi era inevitável. De preferência, sem julgamento. Não tinha Hillary Clinton, aquando da sua visita à Tunisia, pedido aos "rebeldes" líbios a captura do coronel vivo ou morto? A semana passada, estes fizeram-lhe a vontade.
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2011/10/24
2011/08/24
Os túneis de Tripoli
Agora que o regime líbio parece viver as suas últimas horas, ninguém de bom senso arrisca vaticinar os dias que vão seguir-se. Quem dirige, na realidade, as forças que combatem contra Kadhafi, eufemisticamente apelidadas de "forças rebeldes"? Chefes das muitas tribos e etnias que formam a nação líbia? Movimentos de oposição exilados em capitais ocidentais? Movimentos integristas, federados na "irmandade muçulmana"? O "Al Qaeda", ou o que dele resta? Mercenários do Chade, de sotaque americano, que se deslocam em jeeps de alta cilindrada e usam óculos "ray-ban"? Ou, o povo oprimido pela ditadura que, ainda há poucas semanas atrás, aclamava entusiasticamente o coronel na mesma "Praça Verde" onde hoje destrói os símbolos do regime deposto?
Não sabemos. Ninguém sabe. Do sempre bem informado Nuno Rogeiro (mais conhecido pelo "verdadeiro banda larga"), ao especialista do médio-oriente Robert Fisk, todos os analistas se interrogam sobre as virtudes desta "Revolução Árabe". Sim, porque há mais do que uma versão: a tunisina, que é diferente da egipcia que, por sua vez, é diferente da líbia e esta da síria, que ainda está para durar...
Também não se percebe porque é que o "Ocidente", através da NATO, não interveio na Tunísia e no Egipto e apoiou agora as "forças rebeldes". O argumento, da repressão usada por Kadhafi contra o seu povo, é defensável, mas então, porque não bombardear igualmente Assad (Síria) que já matou milhares de populares indefesos? A que se deve esta diferença de critérios? Talvez o facto da Líbia ter petróleo ajude a explicar algumas destas questões.
E porque é que Israel, a "única" democracia na região, nunca se pronunciou a favor dos movimentos emancipatórios árabes? Será que, lá no fundo, o governo israelita prefere os ditadores, desde que estes reprimam os fundamentalistas islâmicos que ameaçam a sua própria integridade? Tudo é possível, neste Mundo de "realpolitik", onde não interessa tanto se Kadhafi é um "son of a bitch", desde que seja o "nosso" filho da puta.
Uma coisa parece certa: depois da "Primavera", já estamos no "Verão" e nada nos garante que não iremos assistir a um "Outono árabe". As revoluções árabes, vão continuar por muito tempo e muitas destas ditaduras não cairão para já. Ou, talvez caiam, para serem substituidas por outras mais sofisticadas, sempre ao serviço das mesmas elites que vão continuar a explorar os seus povos.
Entretanto, algures no subsolo de Tripoli, o coronel continua à procura de um túnel com luz ao fundo. Uma dúvida me assalta: terá ele levado as garbosas "amazonas" virgens que sempre o defenderam? Nesse caso, estará em boa companhia...
Não sabemos. Ninguém sabe. Do sempre bem informado Nuno Rogeiro (mais conhecido pelo "verdadeiro banda larga"), ao especialista do médio-oriente Robert Fisk, todos os analistas se interrogam sobre as virtudes desta "Revolução Árabe". Sim, porque há mais do que uma versão: a tunisina, que é diferente da egipcia que, por sua vez, é diferente da líbia e esta da síria, que ainda está para durar...
Também não se percebe porque é que o "Ocidente", através da NATO, não interveio na Tunísia e no Egipto e apoiou agora as "forças rebeldes". O argumento, da repressão usada por Kadhafi contra o seu povo, é defensável, mas então, porque não bombardear igualmente Assad (Síria) que já matou milhares de populares indefesos? A que se deve esta diferença de critérios? Talvez o facto da Líbia ter petróleo ajude a explicar algumas destas questões.
E porque é que Israel, a "única" democracia na região, nunca se pronunciou a favor dos movimentos emancipatórios árabes? Será que, lá no fundo, o governo israelita prefere os ditadores, desde que estes reprimam os fundamentalistas islâmicos que ameaçam a sua própria integridade? Tudo é possível, neste Mundo de "realpolitik", onde não interessa tanto se Kadhafi é um "son of a bitch", desde que seja o "nosso" filho da puta.
Uma coisa parece certa: depois da "Primavera", já estamos no "Verão" e nada nos garante que não iremos assistir a um "Outono árabe". As revoluções árabes, vão continuar por muito tempo e muitas destas ditaduras não cairão para já. Ou, talvez caiam, para serem substituidas por outras mais sofisticadas, sempre ao serviço das mesmas elites que vão continuar a explorar os seus povos.
Entretanto, algures no subsolo de Tripoli, o coronel continua à procura de um túnel com luz ao fundo. Uma dúvida me assalta: terá ele levado as garbosas "amazonas" virgens que sempre o defenderam? Nesse caso, estará em boa companhia...
2011/08/22
Operação Palito (2)
Enquanto assisto na televisão à queda de Kadhafi em directo, recebo um telefonema dos serviços técnicos da ZON: os serviços técnicos detectaram uma falha no meu antigo IP (Nº 10101747872) e desactivaram-no. Porque estão a desactivar todos os IPs na área onde resido e se trata de uma operação sistémica, deve demorar entre 2 e 14 dias até receber um novo IP e uma nova certificação. Até lá, continuo impossibilitado de enviar "emails" através da minha plataforma "entourage". Conseguirá, Kadhafi, resistir tanto tempo?
2011/03/21
Here we go again
Os bombardeamentos, iniciados este fim-de-semana contra as tropas de Kadhafi, com o fim de criar o que, eufemisticamente, alguns apelidam de "no fly zone", começa a apresentar semelhanças preocupantes com a guerra do "Golfo" de 1991.
Se é verdade que Kadhafi, há muito tempo um pária na cena internacional, não respeitou o cessar-fogo acordado com a ONU e continuou a bombardear a população civil, exponde-se assim a sanções militares, também é verdade que o "Ocidente" esperou um mês para "ver" e, só agora, resolveu intervir.
Diversas leituras, sobre esta guerra, são possíveis. A primeira, é a falta de unânimidade no Conselho de Segurança, sobre as medidas a tomar. Como é sabido, a China e a Russia opõem-se a qualquer tipo de intervenção. A segunda, é a posição dos EUA, fragilizado com duas guerras em curso (Iraque e Afeganistão) e a falta de apoio interna para novas aventuras militares. Finalmente, os interesses da UE na região, uma vez que grande parte do petróleo líbio é consumido pelos europeus. Provavelmente, as potências ocidentais preferiram esperar que Kadhafi caísse como os seus homólogos da Tunísia e do Egipto para, depois, poderem negociar com novos governantes.
A justificação apresentada pela coligação "aliada" para a criação de uma "no fly zone" - motivo humanitário - é parcialmente verdadeira, mas não totalmente transparente, se olharmos com atenção para o que se passa na zona em conflito. Enquanto as manifestações populares contra os regimes ditatoriais do Ièmen e do Barhein são btutalmente reprimidos pelos autocratas locais, estes mesmos governantes apoiam as sanções contra Kadhafi. Basta pensar na Arábia Saudita, o maior aliado dos EUA na região e apoiante dos "aliados", que invadiu o Barhein e o Iémen a semana passada em apoio dos sultões locais, para reprimir as populações revoltadas. Ou seja, mais do que a tão publicitada ajuda humanitária, a coligação "aliada" está preocupada com as revoltas no mundo árabe que podem atingir à Arábia Saudita (o maior produtor mundial de petróleo) e o Barhein (onde está fundeada a V esquadra morte-americana). Não deixa de ser irónico que, duas das maiores ditaduras da região, integrem as forças "aliadas" que actualmente bombardeiam outro ditador. Ou não serão todos ditadores?
É esta falta de coerência nas forças da coligação que lhes tira qualquer razão moral para actuarem de forma diferente em situações idênticas. Uma farsa, em suma.
Se é verdade que Kadhafi, há muito tempo um pária na cena internacional, não respeitou o cessar-fogo acordado com a ONU e continuou a bombardear a população civil, exponde-se assim a sanções militares, também é verdade que o "Ocidente" esperou um mês para "ver" e, só agora, resolveu intervir.
Diversas leituras, sobre esta guerra, são possíveis. A primeira, é a falta de unânimidade no Conselho de Segurança, sobre as medidas a tomar. Como é sabido, a China e a Russia opõem-se a qualquer tipo de intervenção. A segunda, é a posição dos EUA, fragilizado com duas guerras em curso (Iraque e Afeganistão) e a falta de apoio interna para novas aventuras militares. Finalmente, os interesses da UE na região, uma vez que grande parte do petróleo líbio é consumido pelos europeus. Provavelmente, as potências ocidentais preferiram esperar que Kadhafi caísse como os seus homólogos da Tunísia e do Egipto para, depois, poderem negociar com novos governantes.
A justificação apresentada pela coligação "aliada" para a criação de uma "no fly zone" - motivo humanitário - é parcialmente verdadeira, mas não totalmente transparente, se olharmos com atenção para o que se passa na zona em conflito. Enquanto as manifestações populares contra os regimes ditatoriais do Ièmen e do Barhein são btutalmente reprimidos pelos autocratas locais, estes mesmos governantes apoiam as sanções contra Kadhafi. Basta pensar na Arábia Saudita, o maior aliado dos EUA na região e apoiante dos "aliados", que invadiu o Barhein e o Iémen a semana passada em apoio dos sultões locais, para reprimir as populações revoltadas. Ou seja, mais do que a tão publicitada ajuda humanitária, a coligação "aliada" está preocupada com as revoltas no mundo árabe que podem atingir à Arábia Saudita (o maior produtor mundial de petróleo) e o Barhein (onde está fundeada a V esquadra morte-americana). Não deixa de ser irónico que, duas das maiores ditaduras da região, integrem as forças "aliadas" que actualmente bombardeiam outro ditador. Ou não serão todos ditadores?
É esta falta de coerência nas forças da coligação que lhes tira qualquer razão moral para actuarem de forma diferente em situações idênticas. Uma farsa, em suma.
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