2008/10/05

"Foram todos na onda"

A intervenção do senhor presidente da CML na última edição do programa "Quadratura do Círculo" constituiu um momento particularmente infeliz.
Sou o autor da Petição sobre a Maria Keil, que 1) ao contrário do que afirmou o presidente da CML, 2) como se pode constatar pela sua simples leitura e 3) como fica, se as dúvidas continuarem a subsistir, definitivamente esclarecido pelo presente post, não é anónima. Sou, justamente, aquele que levantou esta onda toda atrás da qual foram aqueles milhares de pobres criaturas sem personalidade e volúveis que o presidente da CML referiu.
Devo dizer, antes de mais, que fiquei profundamente chocado com algumas afirmações que foram proferidas. Em particular, acho que o senhor presidente exagerou quando me apelidou de mentiroso e caluniador (foi isso que objectivamente disse; está gravado!). Quero crer que não seria essa a sua intenção, nem será esse o seu estilo normal... E quero ainda crer que se tivesse pensado no meu potencial voto o presidente da CML não me teria chamado mentiroso, nem caluniador. 
Mas, o que me interessa aqui, sobretudo, relevar são outros aspectos desta sua intervenção.
Pergunto-me por que raio de carga de água o presidente da CML "impôs" (a expressão é de Carlos Andrade) este assunto na agenda do referido programa? O assunto era com ele? Com o organismo a que preside? É matéria de alguma área do exercício governativo em que tenha tido responsabilidade? Ou, fruto de uma enorme apetência pelo submundo, será que o presidente da CML não terá querido, ele próprio, perder a onda? Mistérios que gostaríamos todos de desvendar...
Uma outra hipótese de justificação para esta intervenção canhestra e insultuosa: pode ser que a quantidade de assinantes da petição esteja próxima de um qualquer número mágico a partir do qual começam a soar os alarmes e é preciso agir...
A verdade é que perante a acutilância das acusações que nos fez, esperar-se-ia outra coisa que não aquele completo vácuo de ideias, aquela avalanche de clichés, aquela espantosa ligeireza, aquela desconcertante confusão técnica e aquelas imprecisões que ouvimos. O tema, os espectadores, o país merecem muito mais. 
De tudo isto fica apenas a prova de que o exercício da cidadania num país como Portugal, no quadro institucional que temos, é algo que continua a incomodar. Fica a ideia que o escrutínio dos cidadãos não suscita o esclarecimento dos escrutinados, gera antes escárneo e insulto. Fica finalmente a convicção que o uso da inteligência não é, afinal, para todos. No melhor pano, é certo, cai a nódoa. 
Uma certeza: saímos de tudo isto com a determinação reforçada em continuar a batalha pelo valor da cidadania. A determinação em não ir na onda, compreendem...?

2008/10/02

Kadaverdiscipline

Por mais que o porta-voz do Partido Socialista se esforce, a disciplina de voto imposta aos membros da bancada parlamentar (na questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo) não consegue apaziguar alguns dos deputados mais inconformados. A descer nas intenções de voto de há seis meses a esta parte, o PS sabe, que, numa conjuntura desfavorável, não pode arriscar uma guerra com a sua ala mais conservadora.
Paradoxalmente, é um partido de direita e teoricamente mais conservador em questões de costumes, o PSD, que dá liberdade de voto aos seus deputados.
Algo não bate certo nesta lógica de calculismo político seguida pelo maior partido do parlamento. A justificação dada por Alberto Martins, sobre a oportunidade da votação, é uma declaração acabada da hipocrisia que domina o voto socialista.
Longe vão os tempos em que o PS criticava os partidos estalinistas pelas suas práticas de centralismo democrático. O argumento, segundo o qual o PS seria um partido de opiniões livres, deixa assim de fazer sentido. Na antiga Europa de Leste, chamava-se a este método "kadaverdiscipline": disciplina de ferro. Deputados assim, não são de ferro, são "mortos vivos".