- Para a Buraca, sff.
Por onde quer ir?
- Talvez pelo Rato. Pela Ferreira Borges, parece-me difícil, está em obras...
Pela Ferreira Borges, nem pensar. Nunca mais de lá saímos. Vamos tentar pelo Rato, concorda?
- De acordo. Isto, à sexta-feira, nunca se sabe...
É obras por todo o lado. Agora, até a D. Carlos 1º está em obstruída, por causa do metro. Isto nunca mais acaba. Quanto mais tempo demorarem as obras, mais dinheiro custam e mais gente ganha com isso...
- Mas, isso é a tradição portuguesa. Tudo demora mais tempo que o previsto e custa mais dinheiro do que o orçamentado. Somos bons a criar, mas não sabemos gerir.
É verdade. Se for um alemão a montar um móvel e não tiver o parafuso certo, já não o monta. Mas, se for um português, arranja sempre uma solução. Desenrascamos...
- Não é bem assim. O que se passa é que os alemães são mais organizados e fazem bem aquilo em que se especializaram. A nossa cultura é geral, mas não somos especialistas em nada. Por outro lado, temos opinião sobre tudo.
É verdade. No Verão passado eu e a minha mulher fizemos férias na Dinamarca e parecia que estávamos num jardim. Tudo organizado e limpo, as pessoas felizes e simpáticas, até o tempo estava óptimo e havia pessoas na praia. Quero lá voltar. Aquilo sim, é um país organizado. Gostámos muito.
- Conheço bem. Onde esteve?
Fomos de carro e estivemos em Copenhagen e em Aarhus, onde temos amigos. Também andámos no barco que faz a travessia. Muita gente a andar de bicicleta...aquilo é outra vida. Não se vê stress...
- A quem o diz. Vivi muitos anos na Holanda e há muitas semelhanças entre os dois países. São ambos países pequenos, mas com populações educadas. Por isso são ricos e bem organizados. Tem a ver com a educação e disciplina no trabalho.
Deve ser isso. Aqui as pessoas são mais individualistas. Já viu como os portugueses andam no trânsito? Parece uma luta de vida ou de morte. Ninguém respeita ninguém. Eu moro em Benfica e tenho um vizinho em frente que, quando chega a casa, estaciona o carro atravessado para ocupar dois lugares. O outro lugar é para a mulher quando chega do emprego! Só pensam neles.
- É verdade, mas, lá está: a educação e a urbanidade não são o nosso forte...
Vou-lhe contar outra história: fiz diálise durante muitos anos e o SNS pagava-me o táxi para ir ao hospital. Também ia lá um casal, ambos fazerem diálise. Como o táxi era pago, em vez de irem os dois num só táxi, ia cada um no seu! Isto, faz algum sentido?
- Pois...não sabia que o SNS pagava táxis...
Até paga ambulâncias para fora da cidade. Uma vez, não pude fazer a diálise aqui em Lisboa e pagaram-me a ambulância para ir ao Porto. Já imaginou quanto é que aquilo custou?
- Deve ter sido no tempo das "vacas gordas" do SNS. Agora, até os partos são feitos em ambulâncias...
Nada funciona. Já viu os estragos destas últimas semanas. Tudo destruído. Agora dizem que a Europa vai ajudar, mas nunca vai chegar.
- Pois não. A UE tem um fundo para catástrofes naturais, que anda à volta de 3% do PIB. No nosso caso, será qualquer coisa como 6.000 milhões de euros. Não chega sequer para a região de Leiria...
Ainda por cima, é das zonas mais industriais do país, com milhares de empresas exportadoras. E agora?
- Um drama. Para os empresários, mas também para os trabalhadores, que ficam sem salário. É preciso um plano nacional.
Se demorarem tanto tempo, como a planear o novo aeroporto, nunca mais vão reconstruir nada. Há um aeroporto em Beja, que não é utilizado e está ali às moscas. Bastava construir uma linha de comboio até Lisboa e, depois, até ao Algarve e podia ser um motor de desenvolvimento para toda a região. Quando fui a Londres, desembarcámos no aeroporto de Tunstead, que fica a mais de uma hora da cidade. Qual é o problema?
- Sim, conheço o aeroporto do Beja. Tem a maior pista do país, mas faltam infraestruturas. Um aeroporto, não é só uma pista e uma hangar para aviões e passageiros. De acordo com os especialistas, não se justifica construir um aeroporto nacional em Beja, porque isso exigiria uma cidade de 50.000 pessoas que justificasse tal obra. Não é rentável. Londres tem outra dimensão.
Nunca mais saímos da cepa torta, é o que é! O senhor ainda é mais pessimista do que eu...
- Eu? Nem por isso. Basta comparar. Podíamos ser um pequeno paraíso, mas não sabemos governar-nos. É pena.
Pois é, mas há gente que se governa bem...
- Eu sei, eu sei.
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