2026/03/14

Foi você que pediu uma guerra?

Há duas semanas que o Médio-Oriente é palco de uma das mais devastadoras guerras em que a região tem sido pródiga. 

Desta vez, a razão invocada pela aliança EUA/Israel, para atacarem o Irão, seria o potencial perigo da existência de armas nucleares neste país. Dito de outro modo: o crescente programa de enriquecimento de urânio, levado a cabo pelo governo iraniano, faz suspeitar que aquele país possa fabricar bombas nucleares muito em breve e, com isso, ameaçar os países vizinhos. 

Esta é, pelo menos, a teoria de Netanyahu, que há mais de cinquenta anos se esforça por "justificar" que o Irão está em vésperas de fabricar uma bomba para aniquilar Israel...Se é verdade ou não, ninguém pôde provar, ainda que os iranianos continuem a afirmar que o urânio enriquecido se destina a fins pacíficos e os israelitas (secundados pelos americanos), afirmem o contrário. 

Durante muitos anos, a dúvida subsistiu, até ao consulado de Obama, quando o presidente americano convenceu o Irão a assinar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (2015), situação que permitia a inspecção e controlo periódico da IAEA (Agência Internacional de Energia Atómica) às reservas de urânio iranianas. O "Mundo" pareceu aliviado, ainda que os ataques perpetrados por "proxis" do Irão (Hamas, Hezbollah, Houthis...) contra Israel, continuassem.

Com a chegada de Trump ao poder, o acordo EUA/Irão foi abandonado unilateralmente pelos EUA (2018) e, a partir daí, o Irão sentiu-se "livre" para continuar com o programa de urânio, que dura até hoje. Ou seja, não foi o Irão que abandonou o Tratado de Não-Proliferação, pelo qual se obrigava a permitir inspecções da IAEA, mas os EUA (leia-se, Trump). 

Com o regresso dos republicanos ao poder, Netanyahu (a contas com um processo judicial que pode levar à sua destituição e prisão por peculato e corrupção) viu aqui uma nova oportunidade para a sua "velha" guerra e obsessão: derrotar os Ayatollas. Agora, com o apoio de Trump. 

Em Junho passado, foi feita uma primeira tentativa de destruir as centrais nucleares iranianas que (de acordo com Trump) tinha corrido tão bem que as centrais tinham sido completamente "obliteradas". Depois desta acção, conhecida como "guerra dos 12 dias", não tinha ficado "pedra sob pedra", pelo que levaria anos até o Irão poder ter capacidade para fabricar bombas atómicas...

Depois desta guerra, as partes voltaram ao diálogo e recomeçaram as conversações com vista a controlar os ímpetos belicistas iranianos. Eis senão, quando, durante as reuniões entre os EUA e o Irão, para estabelecer um novo acordo, os EUA/Israel decidem iniciar uma guerra, a que o presidente americano chamou de "preventiva"...

É aqui que estamos. 

Porque a situação, para além de perigosa, raia a insanidade dos principais actores, vale a pena relembrar algumas das declarações dos responsáveis americanos:  

28 de Fevereiro (Trump): "Eles nunca poderão ter uma arma nuclear. Nunca".       

2 de Março (Marc Rubio): "Os EUA foram informados que Israel estava a preparar um ataque ao Irão e decidiram atacar "preventivamente". 

3 de Março (Marc Rubio, perante a imprensa) "foram os EUA a pressionar Israel para atacar".   

3 de Março (Trump): "Nós esmagámos o inimigo. A capacidade de drones e mísseis do Irão foi completamente destruída".

9 de Março (Trump): " A marinha do Irão já não existe. Podem render-se ou lutar até não terem mais homens". Ao NYT declara que tinha 3 boas opções (interlocutores) para negociar a rendição, mas que, entretanto "tinham morto o Ayatollah Khameney e mais 20 subalternos e já não havia ninguém com quem negociar"...

9 de Março (Trump): "Não há uma resposta concreta para o fim da guerra. Pode durar 2, 4, 5 ou 6 dias. Durará o tempo que for necessário. temos a capacidade para continuar mais 5 semanas e é isso que faremos".  No mesmo dia, declara que "já ganhámos a guerra".

11 de Março (Trump): "A guerra está quase a acabar. Já não existem mais drones. Quando eu quiser, pode acabar".

11 de Março (Trump): "Não queremos sair mais cedo do Irão. Temos de terminar o trabalho. Ainda não estamos prontos".

11 de Março (Peter Hegseth): "Cabe ao presidente decidir, se estamos no início, no meio ou no fim da guerra". 

13 de Março (Trump, à entrada para o seu helicóptero: "Quando termina a guerra? Não sei. Essa resposta não lhe posso dar..."

Sobre opiniões erráticas, estamos conversados. Resta aguardar pelo fim desta guerra que, entretanto, já são três - Ucrânia, Irão e Líbano - e esperar que o Mundo não incendeie de vez. Já estivemos mais longe.      

 

 

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