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2013/11/08

Portugal em 4D

Há tempos escrevi aqui uma prosa sobre o 3D em Portugal (o filme ainda dura...) Hoje ficámos a saber que o director da S&P acha que Portugal deve pedir um 2º resgate. Parecia um desses operadores de telemarketing dos bancos a tentar convencer-nos a pedir um novo cartão de crédito, esforçando-se por nos mostrar as fabulosas vantagens em o fazer. Não há dinheiro, dizem-nos, (lembrem-se das declarações recentes de D. Policarpo e de D. Crato...) mas já se aproximam os tempos do 4D. Afinal os "mercados" estão convictos que Portugal está maduro para  comprar mais crédito. Venham mais juros!!
O negócio do 3D deve estar a ir de vento em popa!

2011/05/11

Ali Babá, precisa-se

Um dia destes, confrontei-me com uma linha no extracto bancário que me mandaram, que, na singeleza de duas abreviaturas, traduzia um roubo: «desp man», assim rezava. E debitava-me 15 euros e tal.


Lá fui eu ao banco, aonde já há anos (desde que me permitiram acesso pela Internet) não me deslocava. Ah, e tal, que a minha conta tinha um saldo mensal médio de pouco mais de mil euros, logo inferior a 2500, que aquilo correspondia a despesas de manutenção, porque eles mandavam-me o extracto todos os meses, e assim. «Pois podem deixar de mandar, que eu não preciso disso para nada, pois movimento tudo pela net, como devem saber, pois há anos que não me põem a vista em cima.» E, falando grosso: «Só há duas hipóteses: ou me voltam a creditar o dinheiro que me debitaram ou, em vez de mil euros por mês, passam a ter zero euros, porque mudo para outro banco.» Se não se tinham impressionado com a minha vintena de anos «de casa», sempre sem lhes criar problemas, menos se impressionaram como a minha ameaça. «Faça como achar melhor, mas olhe que nós praticamos das taxas mais baixas do mercado, e nos outros bancos não irá decerto pagar menos.» Saí furioso, mas depressa constatei que eles tinham razão: nos outros bancos que abordei, também se praticava a taxa de «manutenção» e o preço era o mesmo; variavam outras condições (como a cobrança ou não de taxa por transferências, por exemplo), mas dos 15 eróis não me safava.


Nunca mais apareci no banco, mas aqui envergonhadamente confesso a humilhação de não ter cumprido a minha ameaça; ia ter de me chatear com burocracias e, como vêem, não ganhava nada com isso.


Segundo a minha leitura, o que se passa é que ao emprestar o seu dinheiro aos bancos, as pessoas se comprometem a uma destas duas alternativas: ou mantêm o tal saldo superior a 2500 euros, ou lerpam em 15 euros e tal por trimestre. Isto é contra a própria lógica do sistema: ainda não há muito tempo, lembro-me bem, os depósitos à ordem eram remunerados a uma taxa que variava de banco para banco, exactamente por efeito da concorrência, como forma de aliciamento dos clientes.


Emprestar-se dinheiro a uma instituição e esta fazer o emprestador pagar por isso não é a única aberração deste processo. Repare-se que quem paga não são todos: só os mais necessitados, os que têm saldo inferior a um certo montante. Poder-se-ia dizer que só põe o dinheiro no banco quem quer; mas o problema é, como o Carlos já referiu neste blogue, o de «certos pensionistas, que se vêem obrigados a receber as suas magríssimas pensões através de conta bancária». Não é só o problema destes, mas de todos os que, como eu, fazem alguns recebimentos por transferência bancária. Isto é, toda a gente integrada na vida social normal é, hoje em dia, obrigada a ter conta bancária aberta.


Em resumo, dado que quem paga são os mais pobres, assistimos a um fenómeno de duvidosa constitucionalidade, para não falar de grosseira imoralidade, que consiste em lançar um imposto sobre os mais desfavorecidos. Em proveito do Estado? Não, em favor da banca.


A isto acresce o que atrás se insinua: será por acaso que a taxa é igual em todos os bancos, não havendo possibilidade de escolha por parte do consumidor? O que mais será preciso para o Banco de Portugal investigar se se trata de uma atitude de cartel? Será isto constitucional?


O que mais me dói é que estamos de tal modo anestesiados nas nossas capacidades de cidadania que nos resignamos, nos curvamos, sem protestar, ante um facto a todos os títulos aberrante.

2011/04/25

O que é bom para a banca é bom para o país?

É a pergunta que se impõe perante uma notícia publicada no dia em que o actual e os antigos presidentes da república se juntam todos, em acto de simbólica singeleza, para comemorar os 37 anos da Revolução de Abril. A notícia da Lusa é peremptória e não pode deixar de nos comover a todos: o "resgate internacional" é bom para a banca portuguesa. Não é nada que não se soubesse, mas dito assim, de forma tão cândida e tão sintética, e confirmado, sobretudo, por analistas financeiros tão cândidos e tão insuspeitos, tem outro sabor.
Viva a banca, viva o 25 de Abril...

2011/04/07

Banca portuguesa, patriotismo e solidariedade...

Para quem não tenha ainda notado, a banca é um negócio artificial baseado num conceito artificial: o dinheiro, uma mera convenção, um simples padrão criado para facilitar o nosso relacionamento uns com os outros e permitir uma mais simples troca dos produtos que cada um de nós produz ou necessita, tornado, ele próprio e de uma forma aberrante, "mercadoria". O negócio consiste em tomar o nosso dinheiro para nos proteger do risco de sermos roubados no meio da rua, serviço pelo qual nos é concedido o privilégio de sermos roubados dentro do banco. Vale tudo e os métodos vão dos mais descarados (como aquele que saca a certos pensionistas, que se vêem obrigados a receber as suas magríssimas pensões através de conta bancária, uma comissão para "manutenção" da conta) até às mais subtis.
É assim que enquanto um enorme coro de vozes de todos os sectores anunciava que depois do resgate vêm aí mais sacrifícios, mais impostos, cortes e contracções, a banca portuguesa ganhava hoje, um dia após o anúncio do pedido desse mesmo resgate, 350 milhões de euros.
Segundo o Económico, hoje na Bolsa de Lisboa o "sector da banca registou ganhos em redor de 5%, com o BPI a liderar e a acelerar 5,12% para 1,31 euros. Já o BES e o BCP ganharam 4,18% e 4,07%, respectivamente. Ambos os bancos estão entre os que mais subiram na Europa, segundo o índice da Bloomberg para o sector."
Entretanto, ainda segundoEconómico, os banqueiros rejeitam a afirmação de que "a recusa da banca em continuar a financiar o Estado português teria sido o factor decisivo para que Portugal endereçasse um pedido de ajuda Bruxelas" e de que os bancos viraram as costas ao governo.
Não se trata de virar ou não as costas ao "Governo", digo eu. Trata-se é de virar ou não as costas a PORTUGAL.
Patriotismo e sentido de comunidade são bons... para o Banco Alimentar.

2010/10/25

"Deixar de pagar as dívidas à banca"

A propósito da nova taxa que os bancos certamente irão ter de pagar para o ano, o presidente do BES veio-nos hoje lembrar que a banca existe para ser rentável. Num súbito ataque de amnésia esqueceu-se do estatuto fiscal de privlégio de que goza este sector particular da nossa economia e de que a "rentabilidade" da banca portuguesa assenta, em boa parte, num inexplicável e injustificado "perdão fiscal" que o generoso povo português decidiu atribuir, por delegação de competências, à banca neste país.
Vale a pena ver e ouvir o insosso presidente do BES a dizer isto ao vivo e a cores.
(O título foi tirado do texto de Paulo Varela Gomes que ontem tive a oportunidade de reproduzir no post "Declaração".)

2010/07/24

O cestinho

Portugal atravessa hoje uma crise que todos somos obrigados a reconhecer. Muitos atribuem a origem dessa crise, não a aspectos conjunturais resultantes de problemas financeiros originados por um qualquer desacerto de gestão, doméstico ou ocorrido alhures, mas a aspectos estruturais, a uma crise, sim, mas de identidade e de rumo do país. Têm razão.
O país está como aquelas criaturas que vemos por aí vivendo ao sabor das circunstâncias, sem desígnio, virando-se para onde "estiver a dar".
Todos nós conhecemos certamente muita gente com projecto de vida, muita gente determinada e lutadora, muita gente que vive vida própria, independente, mas o país, esta entidade colectiva, não tem direcção, nem independência.
Não é a crise do subprime ou o problema da dívida soberana que nos corrói. É, de facto, a total falta de rumo colectivo. Todos os outros problemas vêm daí.  
Não me perguntem a mim o que fazer porque eu sou só compositor... Mas, perguntem aos imbecis que nos dirigem, aos que detêm o poder e aos que vigiam o exercício desse poder, o que raio andam eles a fazer! 
Deixa-me verdadeiramente entristecido ver que face às imensas dificuldades, ao aprofundamento das desigualdades e à manifesta ausência de soluções competentes, as entidades oficiais e organizações civis se remetam a uma lógica de mão estendida.
A Igreja Católica não encontra melhor solução do que pedir o dízimo aos fiéis, neste caso, a solução ridícula do tal fundo para acudir aos "mais necessitados". É claro que a Igreja tem sempre esta solução fácil de fazer passar o cestinho para a malta lá deitar umas moedas. Não se interroga sobre a origem dessas moedas, nem dá na sua doutrina valor ao modo como foram ganhas. O dinheiro, para a Igreja Católica, cai literalmente do céu. Como, enquanto instituição, não cria riqueza, a solução que encontra para quando a massa começa a faltar é passar o cestinho. 
Não me espanta, pois, (embora me choque...) o apelo do bispo Carlos Azevedo. Mas, espanta-me e choca-me o apelo do Ministro das Finanças às agências de rating para que tenham em conta os resultados dos stress tests à banca portuguesa nas suas avaliações futuras. Apelo compungido, sente-se-lhe mesmo a genuflexão. Para quê? Para podermos continuar a pedir dinheiro, mas este sair mais barato. A variante laica do cestinho dos católicos. Espanta-me que o ministro português faça apelos desta natureza depois de ter desacreditado por palavras a acção dessas agências e choca-me que não faça, enquanto responsável governamental, acompanhar este apelo de uma nota do género "eu digo isto, mas alerto os portugueses para a necessidade que temos de criar mais riqueza para não ter de andar a mendigar no estrangeiro." E envergonha-me não o ouvir anunciar medidas. Devemos gerar a nossa própria riqueza, devemos construir juntos um plano para superar os nossos problemas e encontrar os mecanismos para o concretizar. Mas, não ouvimos desde há muito, muito tempo uma palavra sequer sobre nada disto, nem uma ideia e muito menos uma medida para estimular a criação de riqueza.
Não é só a oposição, é o governo também que anda ao sabor dos ventos, sem um desígnio mobilizador. E não é problema de hoje, é coisa antiga, de décadas.
Em suma, nada, nem um projecto sequer.  Limitamo-nos a passar o cestinho quando é preciso, que seguramos com uma mão enquanto com a outra seguramos as calças para não cairem.  
Como é que alguém que tem uma qualquer forma de poder nas mãos consegue verdadeiramente sentir-se com a sua consciência limpa quando se limita a estender o cestinho ou a pedir que o passem?