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2011/03/21

Here we go again

Os bombardeamentos, iniciados este fim-de-semana contra as tropas de Kadhafi, com o fim de criar o que, eufemisticamente, alguns apelidam de "no fly zone", começa a apresentar semelhanças preocupantes com a guerra do "Golfo" de 1991.
Se é verdade que Kadhafi, há muito tempo um pária na cena internacional, não respeitou o cessar-fogo acordado com a ONU e continuou a bombardear a população civil, exponde-se assim a sanções militares, também é verdade que o "Ocidente" esperou um mês para "ver" e, só agora, resolveu intervir.
Diversas leituras, sobre esta guerra, são possíveis. A primeira, é a falta de unânimidade no Conselho de Segurança, sobre as medidas a tomar. Como é sabido, a China e a Russia opõem-se a qualquer tipo de intervenção. A segunda, é a posição dos EUA, fragilizado com duas guerras em curso (Iraque e Afeganistão) e a falta de apoio interna para novas aventuras militares. Finalmente, os interesses da UE na região, uma vez que grande parte do petróleo líbio é consumido pelos europeus. Provavelmente, as potências ocidentais preferiram esperar que Kadhafi caísse como os seus homólogos da Tunísia e do Egipto para, depois, poderem negociar com novos governantes.
A justificação apresentada pela coligação "aliada" para a criação de uma "no fly zone" - motivo humanitário - é parcialmente verdadeira, mas não totalmente transparente, se olharmos com atenção para o que se passa na zona em conflito. Enquanto as manifestações populares contra os regimes ditatoriais do Ièmen e do Barhein são btutalmente reprimidos pelos autocratas locais, estes mesmos governantes apoiam as sanções contra Kadhafi. Basta pensar na Arábia Saudita, o maior aliado dos EUA na região e apoiante dos "aliados", que invadiu o Barhein e o Iémen a semana passada em apoio dos sultões locais, para reprimir as populações revoltadas. Ou seja, mais do que a tão publicitada ajuda humanitária, a coligação "aliada" está preocupada com as revoltas no mundo árabe que podem atingir à Arábia Saudita (o maior produtor mundial de petróleo) e o Barhein (onde está fundeada a V esquadra morte-americana). Não deixa de ser irónico que, duas das maiores ditaduras da região, integrem as forças "aliadas" que actualmente bombardeiam outro ditador. Ou não serão todos ditadores?
É esta falta de coerência nas forças da coligação que lhes tira qualquer razão moral para actuarem de forma diferente em situações idênticas. Uma farsa, em suma.

2011/01/27

A rua árabe

Três dias, mil prisioneiros e cinco mortos depois, a revolta no Egipto parece ter vindo para ficar. Não muito longe dali, no Iémen, a população local está na rua, após a convocação de uma manifestação anti-governamental, a decorrer na capital do país. Na Tunisia, há duas semanas em ebulição, as manifestações diárias continuam a exigir a renovação total do governo deposto. Do Magreb ao Médio-Oriente, as populações árabes parecem despertar do longo sono a que foram sujeitas pelos regimes déspotas e autocratas da região. Provavelmente, outros países da zona, seguirão estes exemplos. Ainda é cedo para avaliar do impacto das revoltas, aparentemente "genuínas" e "expontâneas", convocadas através de simples SMS ou das "redes sociais". Uma coisa é certa: uma vez na rua, dificilmente as populações voltarão a aceitar o "recolher obrigatório" a que os dirigentes políticos os querem obrigar. Mesmo se essa contestação implicar vítimas, como foi o caso de Tunis e do Cairo, o que diz bem da determinação que move os contestatários. Essa é, para já, a grande lição a extrair destes quinze dias que estão a abalar o Médio Oriente. Por alguma razão, vieram já a terreiro os habituais "apaziguadores" internacionais (Clinton à cabeça) a pedir mudanças democráticas na região. Eles sabem que a recusa de reformas poderá mergulhar estes países num caos ainda maior que, em última análise, contribuirá para uma maior radicalização das forças políticas regionais. Não está sequer afastada a hipótese da chegada ao poder do fundamentalismo islâmico (a irmandade muçulmana) que conta com cerca de 30% de apoio no Egipto. Esse seria o pior cenário para o Ocidente e não parece que os EUA ou a Europa o desejem. Para já, as notícias são animadoras e devemos congratular-nos por esta vaga emancipatória que ousou afrontar e acabar com um ciclo de ditaduras anacrónicas na região.