Então, para onde vamos?
- Para a Rua de S. Bento, mesmo lá no fim, ao pé do Parlamento...
Oh diabo, isso não vai dar...
- Pois, hoje está difícil... estava a ver que não conseguia táxi.
Não sei se conseguiremos lá entrar, mas vamos até ao largo do Rato e depois logo se vê...
- Até ao Rato, já é bom. Depois, desço o resto da rua de S. Bento a pé...
Isto, hoje, não há táxis para ninguém...
- Pois, já percebi, mas, afinal, explique-me lá o que é isso da Uber, pois nunca andei num carro dessa empresa.
A Uber, é uma empresa ilegal, que não cumpre a lei e paga impostos na Holanda...
- Não cumpre a lei? Mas, isso é possível?
Claro... os carros não andam identificados, o senhor não pode mandar parar um na rua, mas se tiver uma aplicação no seu telemóvel, pode chamar um carro deles pelo telefone... eles mandam-lhe um carro particular, com chauffeur, mas sem taxímetro...
- Sem taxímetro? E como é que eu sei quanto devo pagar?
O preço é calculado em função da distância. Eles calculam o preço para si e comunicam quanto tem de pagar. Tem de fornecer o número do seu cartão de crédito e, depois, o valor da corrida, é-lhe retirado da conta bancária...
- Estou a ver... e passam facturas?
Só se o senhor quiser... mas, as facturas são electrónicas, em nome da sede da empresa, que é na América...
- Sim, já tinha percebido que era uma empresa americana, mas penso que, na Europa, a sede é na Holanda, certo?
Não, não, a empresa é americana e os impostos são pagos na Holanda...
- Então, qual a diferença entre um táxi normal e um táxi Uber?
A Uber diz que eles não são táxis normalizados, mas uma plataforma de serviços. Prestam serviços, entre os quais o transporte de passageiros.
- Para todos os efeitos, são vossos concorrentes...
Pois são, mas o problema não é a concorrência, é a diferença perante a lei.
- Então?
Para já, os carros deles são carros de "leasing" e não pagam os mesmo impostos de circulação. Depois, não estão identificados, os chauffeurs não pagam alvará e licença de táxi como nós, não têm taxímetro e não têm seguro de passageiros. Se têm um acidente, as companhias de seguro não pagam aos passageiros...
- Se é assim, isso é uma concorrência desleal...
Pois é, por isso é que os meus colegas estão em greve. Contra a discriminação de que somos alvo...
- Mas, eu oiço as pessoas dizerem que são bem tratadas pelos chauffeurs da Uber e que os carros deles são maiores, mais modernos e mais limpos...
Isso tudo, pode ser verdade, mas a lei é diferente... Aquilo é uma multinacional que não está sujeita às mesmas leis do mercado... Ora, isso é que está mal. Eles que cumpram a lei e que paguem os impostos em Portugal, como nós.
- Estou a perceber... então é quase como os "tuk-tuks", sem lei nem roque...
O senhor não me fale dos "tuk-tuks"... isso é uma praga... fazem o preço que querem, levam um preço por cabeça e as pessoas que querem no carro...se eu levar mais de 4 pessoas ou uma criança ao colo, sou logo multado... se fôr um carro da Uber ou um "tuk-tuk", pode levar 4 ou 5 pessoas, pedem 10euros por cabeça, para irem da Praça da Figueira ao Castelo e, quando chegam lá cima, são 50 euros no total. Se forem de táxi, são 5 euros pelo mesmo percurso.
- Mas, isso é uma "bagunça", completa. E, ninguém controla essas práticas?
Isso queremos nós. Mas, há dois anos que andamos nisto e nada se resolve...
- Mas, eu ouvi esta tarde, o presidente da Assembleia da República dizer que os recebeu e prometeu resolver a situação. Até criaram uma comissão para estudar o assunto...
Está a ver? Mais uma Comissão para estudar o assunto. Para quê? Toda a gente sabe que, quando criam uma comissão é para adiar a solução. Não vão resolver nada, como é costume...
- Já estamos no Rato, veja lá se pode avançar...
Vamos até à Rua da Imprensa e depois tenho de deixá-lo lá. Já vi que está tudo barrado pela polícia.
- Bom, ficamos aqui, então. Obrigado pelas informações.
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2016/04/30
2015/09/09
Taxi Driver
- Para onde vai?
Rossio.
- Está com sorte, hoje não há táxis p'ra ninguém...
Então?
- Foram todos para a manifestação, contra a Uber...
Contra quem?
- A Uber, o serviço privado de táxis que apareceu em Lisboa. Mas, a gente conhece-os a todos. No aeroporto, já não param e a polícia tem os números das matrículas todas, para não deixar que eles façam lá serviço. Já deu porrada e tudo. Em França, até lhes queimam os carros, não leu?...
Sim, vagamente, mas afinal qual é a diferença entre os táxis normais e a Uber?...
- Ora bem, são uns finaços, cheios da "bago", que compram mercedes prateados, de 7 lugares e sem táximetro. Depois, têm ar condicionado, perfume, água engarrafada para os "camones" e pedem-lhe uma milena para irem até Cascais... Assim, também eu...
Se é assim... devem protestar... mas, porque é que não melhoram os serviços de táxis?
- Isso é que era bom! Como é que o senhor quer que melhorem os táxis, se há 3.600 táxis em Lisboa e só 500 é que andam todo o dia cheios? E quem paga a factura, quem é?
Mas, deve ser possível melhorar as condições, ou não?
- Melhorar as condições? Deve estar a brincar comigo! Se tiver para aí uns 80 mil "parados" no Banco, ainda pode ir ao registo, pedir um alvará, que custa uns 60 ou 70 mil e ficar em casa a viver dos rendimentos. Arranja um chauffeur para guiar o carro, dá-lhe 40% do lucro e os trocos da caixa. Assim, ainda vá que não vá... mas quem pode fazer isso?
Não sabia que o alvará era tão caro...
- Ah, pois é, por isso está tudo na falência. Esta merda vai rebentar toda. Há táxis a mais na praça e agora ainda vêm para aí os Ubers roubar-nos o negócio.
Então e o que me diz dos Tuk-Tuks?
- É pá, nem me fale disso. Os "monhés" meteram cá os triciclos e agora são mais que as mães. Mais de trezentos, só em Lisboa. Tudo gajada "séria". Não têm licença, não têm taximetro, é só poluição e bloqueiam o trânsito todo. Dizem aos "camones" que levam 10 euros para os levar ao castelo, metem 5 no triciclo e, quando chegam lá cima, são 10 euros a cada um! Só numa viagem, do Terreiro do Paço ao castelo, já ganharam 50 "mocas" numa hora. Assim, também eu!
Sim, os tuck-tucks são uma praga, concordo. Mas, se calhar a culpa não é só deles, mas de quem não legislou uma lei para este tipo de transporte, a Câmara Municipal, o Turismo de Lisboa...
- Pois claro! Tá-se mesmo a ver. Mas, o senhor diga lá com franqueza: há alguma coisa que funcione neste país?...Estes gajos só pintam as passadeiras quando chegam as eleições. Já viu as "zebras" todas pintadinhas de branco? Ah, pois é, os votos...
E a que horas passa a manifestação?
- Já começou. Estão lá em cima na Duque de Palmela e agora vão descer a Avenida. Está a ver ali a "bófia"? Já estão a pôr os "palitos" para cortarem o trânsito... Vamos, mas é, pirar-nos por aqui, senão tenho de deixá-lo no Marquês e tem de ir a pé... Olhe ali, os "camones" a fazerem sinal! Hoje não andam de táxi. Vão na Uber, palhaços!
E para onde vai a manifestação?
- Para o Ministério da Justiça. Eu não posso ir lá, senão os meus colegas vêem que eu não aderi e cortam-me às postas. Andei todo o dia fora do centro, para poder ganhar uns "cobres"...
Bom, estamos quase. Pode parar aí na praça do Rossio...
- Ok. Aqui está bem? São 6.75. Tá ver, baratinho... cá o "mangas" sabe fugir deles...
Obrigado, olhe já tem aqui duas clientes à espera (japonesas).
- Para onde é que vão (em português)?
Avenue Libertat, diz uma delas.
- Avenida? Devem estar é malucas! No possível. Vão a pé, que faz bem às perninhas...
2011/03/15
Avisos à navegação
O artigo de Mário Soares, hoje publicado no DN, é revelador da inquietação que grassa nas hostes socialistas. Depois de, há uma semana, ter vindo criticar os jovens que convocaram a manifestação da "geração à rasca" (apelidando-os de niilistas e do perigo do populismo e do fascismo, que podiam desencadear), Soares vem agora fazer "mea culpa", alertando para a "mensagem" que a manifestação deu ao país e, pior, criticar Sócrates pelo anúncio de mais um PEC sem consulta prévia do parlamento. Vai mesmo mais longe e escreve que as eleições poderão ajudar a clarificar a actual situação política. Tais considerações, vindas do "pai da democracia", são palavras inequívocas para um governo da sua cor política, que chegou definitivamente ao fim da linha. Se isto não acelerar a demissão de Sócrates, não sei o que o obrigará a sair. Mas, o primeiro-ministro, tem certamente uma resposta para todas as críticas e vai estar esta noite na televisão em mais um dos seus monólogos habituais. Catatónico, como é, acreditará na sua própria mantra, pois já provou não saber viver de outra maneira.
2011/03/12
De PEC em PEC até à bancarrota final
O anúncio, ontem feito em Bruxelas por Sócrates (e confirmado, horas mais tarde em Lisboa, por Teixeira dos Santos) sobre o novo pacote de medidas de austeridade apresentado pelo governo português para "sossegar" os mercados, confirmaram o pior dos cenários para o nosso país: nem os "mercados" parecem convencidos das nossas boas intenções (as taxas de juro continuam a subir e estão próximas dos 8%); nem o governo, nesta corrida contra o tempo, já se dá ao trabalho de informar os portugueses das suas intenções, limitando-se a pôr o país perante um facto consumado.
Que Sócrates, um mentiroso compulsivo, continue a afirmar tudo e o seu contrário, já estávamos habituados. Que Teixeira dos Santos, o único ministro vísível deste governo, ainda se preste a tais papéis, começa a tornar-se patético.
Ao que parece, a única pessoa informada (a partir de Bruxelas!) sobre este novo PEC, teria sido o líder da oposição; pois nem o Presidente da República, para não falar dos parceiros sociais (CIP e CGTP/UGT), ou outros partidos com assento no hemiciclo, foram postos ao corrente da situação. Ou seja, o primeiro-ministro, num desrespeito total pelo Parlamento, limitou-se a ir a Bruxelas apresentar o "caderno de encargos" acordado com Merkel, à revelia de qualquer acordo no quadro da União Europeia, da qual ambos os países fazem parte. Temos, assim, um governo subserviente e completamente dependente da ajuda externa, que negocia com um país, a Alemanha, que continua a impôr os seus "diktats" sobre os países periféricos mais vulneráveis.
Se isto não é anti-democrático, gostaria de saber o que é a democracia para estes políticos sem vergonha que nos desgovernam.
É possível que, Sócrates, encurralado no beco sem saída que ele próprio criou com as suas operações de "marketing", esteja hoje perante um dilema: sair, a exemplo de Guterres reconhecendo a inevitabilidade dos factos e condenando-se a uma "travessia do deserto" sem horizonte; ou resistir, na esperança de melhores dias que lhe permitiriam recandidatar-se em 2013. Outra hipótese, bastante provável, é a esperança que Cavaco o demita, para se apresentar como vítima de uma situação por ele mesmo criada.
Qualquer dos cenários, sendo possíveis, são insuficientes e não respondem aos justos anseios e protestos dos cidadãos (sempre os mesmos) espoliados e desprezados por um governo incapaz de perceber a realidade dos factos.
É contra esta situação, de impasse absoluto e discrédito total de uma classe política corrupta e incompetente que jovens precários e desempregados, mas também outros estratos da sociedade inconformados com o insuportável pântano social em que vivemos, vão hoje protestar em todo o país. Basta já!
Que Sócrates, um mentiroso compulsivo, continue a afirmar tudo e o seu contrário, já estávamos habituados. Que Teixeira dos Santos, o único ministro vísível deste governo, ainda se preste a tais papéis, começa a tornar-se patético.
Ao que parece, a única pessoa informada (a partir de Bruxelas!) sobre este novo PEC, teria sido o líder da oposição; pois nem o Presidente da República, para não falar dos parceiros sociais (CIP e CGTP/UGT), ou outros partidos com assento no hemiciclo, foram postos ao corrente da situação. Ou seja, o primeiro-ministro, num desrespeito total pelo Parlamento, limitou-se a ir a Bruxelas apresentar o "caderno de encargos" acordado com Merkel, à revelia de qualquer acordo no quadro da União Europeia, da qual ambos os países fazem parte. Temos, assim, um governo subserviente e completamente dependente da ajuda externa, que negocia com um país, a Alemanha, que continua a impôr os seus "diktats" sobre os países periféricos mais vulneráveis.
Se isto não é anti-democrático, gostaria de saber o que é a democracia para estes políticos sem vergonha que nos desgovernam.
É possível que, Sócrates, encurralado no beco sem saída que ele próprio criou com as suas operações de "marketing", esteja hoje perante um dilema: sair, a exemplo de Guterres reconhecendo a inevitabilidade dos factos e condenando-se a uma "travessia do deserto" sem horizonte; ou resistir, na esperança de melhores dias que lhe permitiriam recandidatar-se em 2013. Outra hipótese, bastante provável, é a esperança que Cavaco o demita, para se apresentar como vítima de uma situação por ele mesmo criada.
Qualquer dos cenários, sendo possíveis, são insuficientes e não respondem aos justos anseios e protestos dos cidadãos (sempre os mesmos) espoliados e desprezados por um governo incapaz de perceber a realidade dos factos.
É contra esta situação, de impasse absoluto e discrédito total de uma classe política corrupta e incompetente que jovens precários e desempregados, mas também outros estratos da sociedade inconformados com o insuportável pântano social em que vivemos, vão hoje protestar em todo o país. Basta já!
2011/03/10
Something in the Air
Se alguma surpresa houve no discurso de ontem de Cavaco Silva, só pode ter sido a tónica posta na crise da juventude e o seu apelo ao "sobressalto cívico", que poderá ser interpretado como uma adesão à manifestação da geração de desempregados, agendada para sábado. Algo de surpreendente num presidente conservador e cauteloso nas palavras.
Alguns comentadores de serviço (António Barreto, Miguel Sousa Tavares) logo se apressaram a catalogar este apelo como uma tentativa do presidente em "cavalgar a onda" da contestação ao governo. Pode ser que sim. Cavaco tem, certamente, uma agenda política e - a acreditar nos "tudólogos" - tudo fará para tornar a vida mais difícil a Sócrates. Até aqui, isto faz algum sentido.
O que não parece fazer tanto sentido é a "avalanche" de críticas, veladas ou explícitas, de figuras gradas do regime, como Soares ou Sampaio, para já não falar nos inúmeros artigos e "blogs" afectos ao governo (Jugular, Aspirinab, Câmara Corporativa) que não perdem nenhuma ocasião para menosprezarem a geração dos "Deolindos". Como se a banda pop tivesse alguma culpa da popularidade atingida pela sua canção.
Tavares, uma das pitonisas de serviço, chegou mesmo a afirmar que o "manifesto", que convoca a manifestação, é dúbio e anti-partidos, não se sabendo bem quem a convoca (uma "nublosa" nas suas palavras). Ou seja, um terreno propício para a demagogia. Daí ao aparecimento de figuras populistas e ao fascismo é um passo...
Quem diria que um simples protesto divulgado pela Net (certamente inspirado pela "rua" árabe) viria a constituir motivo de discussões acaloradas e longos editoriais de tanta gente responsável (que sempre criticou o descalabro da política sem norte e autista do governo) e agora se mostra chocada com um protesto contra uma situação que sempre denunciou?
Não sei o que se vai passar no sábado, mas uma coisa parece certa: poucas vezes um apelo (aparentemente sem "dono") causou tanta irritação a tanta gente. É isto uma coisa má? Não necessariamente. Como não é má, nem boa, a moção de hoje, apresentada pelo BE, ou a vitória dos "Homens da Luta" na Festival da Eurovisão. São apenas sinais de que alguma coisa está mal na sociedade e que a população anónima começa a estar farta desta classe política. Anda, de facto, alguma coisa no ar...
Alguns comentadores de serviço (António Barreto, Miguel Sousa Tavares) logo se apressaram a catalogar este apelo como uma tentativa do presidente em "cavalgar a onda" da contestação ao governo. Pode ser que sim. Cavaco tem, certamente, uma agenda política e - a acreditar nos "tudólogos" - tudo fará para tornar a vida mais difícil a Sócrates. Até aqui, isto faz algum sentido.
O que não parece fazer tanto sentido é a "avalanche" de críticas, veladas ou explícitas, de figuras gradas do regime, como Soares ou Sampaio, para já não falar nos inúmeros artigos e "blogs" afectos ao governo (Jugular, Aspirinab, Câmara Corporativa) que não perdem nenhuma ocasião para menosprezarem a geração dos "Deolindos". Como se a banda pop tivesse alguma culpa da popularidade atingida pela sua canção.
Tavares, uma das pitonisas de serviço, chegou mesmo a afirmar que o "manifesto", que convoca a manifestação, é dúbio e anti-partidos, não se sabendo bem quem a convoca (uma "nublosa" nas suas palavras). Ou seja, um terreno propício para a demagogia. Daí ao aparecimento de figuras populistas e ao fascismo é um passo...
Quem diria que um simples protesto divulgado pela Net (certamente inspirado pela "rua" árabe) viria a constituir motivo de discussões acaloradas e longos editoriais de tanta gente responsável (que sempre criticou o descalabro da política sem norte e autista do governo) e agora se mostra chocada com um protesto contra uma situação que sempre denunciou?
Não sei o que se vai passar no sábado, mas uma coisa parece certa: poucas vezes um apelo (aparentemente sem "dono") causou tanta irritação a tanta gente. É isto uma coisa má? Não necessariamente. Como não é má, nem boa, a moção de hoje, apresentada pelo BE, ou a vitória dos "Homens da Luta" na Festival da Eurovisão. São apenas sinais de que alguma coisa está mal na sociedade e que a população anónima começa a estar farta desta classe política. Anda, de facto, alguma coisa no ar...
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