Há festa no Cairo e não é razão para menos.
Dezoito dias após as primeiras manifestações que encheram a praça de Tahrir, os egípcios viram hoje a sua principal reivindicação satisfeita: a saída de Mubarak. Era uma exigência antiga, mas a ditadura militar, longa de trinta anos, resistia a todos os protestos. Com o apoio dos Estados Unidos e agitando o papão do fundamentalismo islâmico, Mubarak soube construir a imagem que convinha ao Ocidente. Afinal, ele podia orgulhar-se de ter assinado o mais durável acordo de Paz com Israel e, simultaneamente, manter a "irmandade muçulmana" fora do poder. Dito de outro modo, "era um sacana, mas era o nosso sacana".
As coisas começaram a mudar com a revolta na vizinha Tunísia. Se os tunisinos conseguiram, os egípcios haviam de conseguir também. Dezoito longos dias e 300 mortes mais tarde, durante os quais o Mundo pode seguir em directo o heróico braço de ferro entre os ocupantes da praça da libertação e o governo, o povo venceu. Mubarak demitiu-se hoje ao fim da tarde.
Ainda é cedo para extrair conclusões de um processo que vai, agora, iniciar-se. O exército, principal sustentáculo da ditadura, continua intacto e o substituto do presidente deposto é, ele mesmo, um militar. Ou seja, o período de transição necessário às mudanças de regime, terá sempre a supervisão militar. Nada garante que este se mantenha neutral, pois não quererá perder as regalias que os 1,3 mil milhões de dólares anuais dos Estados Unidos lhe garantem. Esta é, no momento, a grande incógnita: até onde poderão ir as reformas?
Uma coisa parece certa. Nada será como dantes. No Egipto e nas ditaduras mais ou menos musculadas da região. Repúblicas ou monarquias, todos terão de mudar e é bom que o façam depressa, para não terem de sair à força. Esta é a grande lição destas semanas alucinantes.
Para já, o tempo é de festa e só por isso devemos regozijar-nos.
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2011/02/11
2011/02/10
Mubarak: pouco e tarde
Parece claro que o discurso de Mubarak ficou claramente aquém das expectativas (para quem tinha expectativas...). A revolta no Egipto ficou mais distante de uma solução e o futuro imediato parece apontar para um levantamento ainda mais violento. Os egípcios querem Mubarak simplesmente fora de cena.
Também os parceiros políticos do Egipto, pode-se imaginar, não terão ficado certamente tranquilizados com as palavras de Mubarak.
Não deixa de ser curioso verificar que o ainda presidente privilegiou claramente no seu discurso a juventude, dirigindo-se-lhe em primeiro lugar, se bem que de forma paternalista, e fazendo-lhe o rapapé com a promessa de castigar os autores das mortes que esta revolução já gerou. A juventude egípcia já mostrou que não se deixa impressionar com manobras dilatórias, discursos de transferência pacífica de poder, de diálogo construtivo, e muito menos com o papão do telecomando a partir do estrangeiro do curso dos acontecimentos. O Twitter, o Facebook e os SMS, são um simples visto para os jovens egípcios passarem a fronteira electrónica, não para entrar no Egipto.
No momento exacto em que Mubarak fazia o seu discurso, víamos nos diferentes canais de televisão esses jovens a mostrar-lhe os sapatos e líamos nos newsfeeds das agências noticiosas e dos jornais que a multidão lhe gritava para que se fosse embora.
Víamos isto na hora, embora a milhares de quilómetros de distância. Será que ele não viu?
Também os parceiros políticos do Egipto, pode-se imaginar, não terão ficado certamente tranquilizados com as palavras de Mubarak.
Não deixa de ser curioso verificar que o ainda presidente privilegiou claramente no seu discurso a juventude, dirigindo-se-lhe em primeiro lugar, se bem que de forma paternalista, e fazendo-lhe o rapapé com a promessa de castigar os autores das mortes que esta revolução já gerou. A juventude egípcia já mostrou que não se deixa impressionar com manobras dilatórias, discursos de transferência pacífica de poder, de diálogo construtivo, e muito menos com o papão do telecomando a partir do estrangeiro do curso dos acontecimentos. O Twitter, o Facebook e os SMS, são um simples visto para os jovens egípcios passarem a fronteira electrónica, não para entrar no Egipto.
No momento exacto em que Mubarak fazia o seu discurso, víamos nos diferentes canais de televisão esses jovens a mostrar-lhe os sapatos e líamos nos newsfeeds das agências noticiosas e dos jornais que a multidão lhe gritava para que se fosse embora.
Víamos isto na hora, embora a milhares de quilómetros de distância. Será que ele não viu?
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