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2011/02/11

Os heróis da praça da libertação

Há festa no Cairo e não é razão para menos.
Dezoito dias após as primeiras manifestações que encheram a praça de Tahrir, os egípcios viram hoje a sua principal reivindicação satisfeita: a saída de Mubarak. Era uma exigência antiga, mas a ditadura militar, longa de trinta anos, resistia a todos os protestos. Com o apoio dos Estados Unidos e agitando o papão do fundamentalismo islâmico, Mubarak soube construir a imagem que convinha ao Ocidente. Afinal, ele podia orgulhar-se de ter assinado o mais durável acordo de Paz com Israel e, simultaneamente, manter a "irmandade muçulmana" fora do poder. Dito de outro modo, "era um sacana, mas era o nosso sacana".
As coisas começaram a mudar com a revolta na vizinha Tunísia. Se os tunisinos conseguiram, os egípcios haviam de conseguir também. Dezoito longos dias e 300 mortes mais tarde, durante os quais o Mundo pode seguir em directo o heróico braço de ferro entre os ocupantes da praça da libertação e o governo, o povo venceu. Mubarak demitiu-se hoje ao fim da tarde.
Ainda é cedo para extrair conclusões de um processo que vai, agora, iniciar-se. O exército, principal sustentáculo da ditadura, continua intacto e o substituto do presidente deposto é, ele mesmo, um militar. Ou seja, o período de transição necessário às mudanças de regime, terá sempre a supervisão militar. Nada garante que este se mantenha neutral, pois não quererá perder as regalias que os 1,3 mil milhões de dólares anuais dos Estados Unidos lhe garantem. Esta é, no momento, a grande incógnita: até onde poderão ir as reformas?
Uma coisa parece certa. Nada será como dantes. No Egipto e nas ditaduras mais ou menos musculadas da região. Repúblicas ou monarquias, todos terão de mudar e é bom que o façam depressa, para não terem de sair à força. Esta é a grande lição destas semanas alucinantes.
Para já, o tempo é de festa e só por isso devemos regozijar-nos.

11 de Fevereiro de 2011



Do corpo dos nossos mortos
E da sua alma
Irradiou uma voz
Que subiu ao céu,
Uma espiral
Cujo eco
Tornará a descer
Poderoso.
Uma hoste de cólera.


Marthiya de Abdel Hamid
Segundo Alberto Pimenta




2011/02/10

Mubarak: pouco e tarde

Parece claro que o discurso de Mubarak ficou claramente aquém das expectativas (para quem tinha expectativas...). A revolta no Egipto ficou mais distante de uma solução e o futuro imediato parece apontar para um levantamento ainda mais violento. Os egípcios querem Mubarak simplesmente fora de cena.
Também os parceiros políticos do Egipto, pode-se imaginar, não terão ficado certamente tranquilizados com as palavras de Mubarak.
Não deixa de ser curioso verificar que o ainda presidente privilegiou claramente no seu discurso a juventude, dirigindo-se-lhe em primeiro lugar, se bem que de forma paternalista, e fazendo-lhe o rapapé com a promessa de castigar os autores das mortes que esta revolução já gerou. A juventude egípcia já mostrou que não se deixa impressionar com manobras dilatórias, discursos de transferência pacífica de poder, de diálogo construtivo, e muito menos com o papão do telecomando a partir do estrangeiro do curso dos acontecimentos. O Twitter, o Facebook e os SMS, são um simples visto para os jovens egípcios passarem a fronteira electrónica, não para entrar no Egipto.
No momento exacto em que Mubarak fazia o seu discurso, víamos nos diferentes canais de televisão esses jovens a mostrar-lhe os sapatos e líamos nos newsfeeds das agências noticiosas e dos jornais que a multidão lhe gritava para que se fosse embora.
Víamos isto na hora, embora a milhares de quilómetros de distância. Será que ele não viu?

2011/02/04

Egipto, dia D

A acreditar nos "tudólogos", hoje será o dia de todas as decisões no Egipto. Como se a história pare ou acelere de vez, de acordo com as preferências dos gabinetes de Washington e Bruxelas.
Mais do que a revolta da rua árabe, o que parece preocupar estes "fazedores de opinião" (diariamente nos estúdios televisivos) é saber quem está por detrás das movimentações e se essas "forças ocultas" são fundamentalistas islâmicos, oposicionistas reconhecidos (de preferência educados no Ocidente) e do perigo de contágio para todo o Médio-Oriente que, como sabemos, tem as maiores reservas petrolíferas do Mundo...Isto para não falar da situação de Israel que, mais do que todos os regimes da região, teme pelo seu futuro.
Um dos mais entusiastas aceleradores de partículas da teoria da conspiração é o "anchor man" Mário Crespo. Crespo não perde uma oportunidade para espicaçar os seus convidados tentando levá-los a descobrir uma malévola estratégia por detrás de todas estas contestações populares. Foi assim, anteontem, com Ângelo Correia, quando perguntou se Israel não devia movimentar os seus tanques para as fronteiras com o Egipto e a Jordânia para defender o seu território (!?); e, ontem, com o ex-ministro Severiano Teixeira, procurando arrancar deste uma opinião sobre a maléfica influência da "irmandade muçulmana" nas manifestações do Cairo...
Felizmente que os convidados, apesar de tudo conhecedores da região, tiveram o bom senso de não darem continuidade à "febre" de Crespo, que vê inimigos façanhudos do Ocidente em todas as esquinas da capital egípcia...
É extraordinário como todos estes paladinos da democracia e da representatividade parlamentar, que nunca se preocuparam com os regimes autoritários e cleptocráticos que durante décadas reprimiram os povos da região, temam agora uma revolta popular que, ainda por cima (escândalo maior!) não parece ser dirigida por nenhuma força organizada em particular. Se não há instigadores reconhecidos, como reconhecer o inimigo, questiona-se o atormentado Crespo?
Lá se vai mais uma teoria da conspiração, que tanto jeito deu às recentes intervenções preventivas no Iraque e no Afeganistão. Se não há inimigos, temos de criá-los. Para isso, cá estão os Crespos deste Mundo que, diariamente, nos vão tentando "lavar o cérebro", preparando-nos para mais uma intervenção em defesa dos valores ocidentais num qualquer dia D à escolha dos estrategas militares do Ocidente.

2011/02/01

Rede Social

Se há alguém que ainda não tenha percebido a importância das chamadas redes sociais e de outras aplicações resultantes do que se convencionou designar por Web 2.0, o melhor é que comece a abrir os olhos rapidamente. Já vai também sendo tempo de começarem a abrir os olhos todos aqueles que acham tudo isto uma futilidade ou que comentam —com ar ora pedante, ora ignorante— os seus efeitos.
É conhecido o papel que o Facebook, o Twitter, o Youtube ou o Flickr tiveram no conhecimento da situação interna do Irão depois da eleição presidencial de 2009. O efeito terá sido tão significativo que entre as primeiras medidas que os governos locais tomaram durante os recentes levantamentos na Tunísia e no Egipto, destaca-se o silenciamento da internet. Gato escaldado...
Perturbante e significativa é, por outro lado, a atitude da China, cujas autoridades, contam as notícias de hoje, bloquearam a palavra "Egipto" das pesquisas nos dois maiores portais do país e no Weibo, o equivalente chinês do Twitter. Não vão os protestos arranjar maneira de ultapassar a Rota da Seda e galgar a Muralha da China...
Há aqui uma lição qualquer que ainda não consegui perceber totalmente. Mas, querem ver que a cegueira e a tentação perante as "oportunidades de negócio" que as novas tecnologias da informação proporcionam, levaram as autoridades destes países, os "investidores"  e os "mercados" a esquecer o seu potencial de fogo?! Quando olhamos para estes acontecimentos, quando tentamos compreender as razões que levaram estes povos a revoltarem-se (desemprego, pobreza, alta do custo de vida, ausência de democracia interna, etc) e quando vemos a aparentemente contraditória expansão que as tecnologias da informação e comunicação têm nestes países, o negócio que geram e o papel que, ironicamente, adquirem nestes processos, só podemos concluir que alguém se distraiu e andou a brincar com o fogo.
Vá, vamos lá a abrir uma continha no Twitter ou no Facebook, vamos a despejar para lá conteúdos significativos e usar aquilo também como arma da cidadania. O Assange ajuda a explicar porque é que estas coisas são importantes...