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2010/03/18

Rolhas, Tenazes, Purgas e Exclusões

Desde o passado domingo que a célebre "lei da rolha" vem animando os espaços de opinião daqueles que defendem a plena liberdade de expressão. Como não podia deixar de ser, o PS julgou ver aqui uma oportunidade para desviar as atenções das acusações que são feitas ao governo neste capítulo, acusando o PSD de falta de espírito democrático. Acontece que estes partidos - todos - têm telhados de vidro e, ainda mal os "campeões da democracia" tinham começado os ataques, já um excluido autarca de Matosinhos vinha denunciar práticas internas que tão bem conhece. No PS, a "Lei da Rolha" chama-se "Tenaz" e os militantes críticos são purgados à boa maneira estalinista. Narciso Miranda, pois é dele que se trata, prometeu mais revelações e a coisa promete não ficar por aqui. Pelos vistos, ele não foi a única vítima e a lista de "purgados" é extensa.
Já tinhamos as vítimas do fascismo e do comunismo. Temos agora os "excluídos" dos partidos do centrão, "impolutos" campeões da liberdade e da democracia. Desta forma, ficam todos na mesma fotografia. A fotografia da "rolha" e da "tenaz", da "purga" e da "exclusão", da intolerância e da censura, da hipocrisia e da mentalidade fascista e totalitária que sempre os caracterizou. Todos diferentes, mas todos iguais, afinal.

2010/03/10

Pessoas de Bem

Assistir às sessões da Comissão de Ética, que por estes dias decorrem na Assembleia da República, pode não ajudar a esclarecer quem pressiona quem, mas ajuda-nos certamente a perceber quem são sempre os mesmos que pressionam. Se já tinhamos as pressões de Sócrates (denunciadas explicitamente por Mário Crespo, Henrique Monteiro, Moura Guedes e Eduardo Moniz) ontem tivemos as pressões de Morais Sarmento (denunciadas por Henrique Granadeiro, ao tempo administrador do grupo Lusomundo). Segundo Granadeiro, o ex-ministro de Durão Barroso e Paulo Portas ter-lhe-á exigido a demissão de Leite Pereira (JN), Luís Tadeu (CM) e Joaquim Vieira (GR), directores de publicações controladas pela Lusomundo. Sarmento já se apressou a desmentir e quer agora ir à Comissão contar a sua versão. A opinião pública está a ficar cada vez mais baralhada e, se calhar, é mesmo essa a intenção: baralhar e dar de novo. Para que tudo recomece, com os partidos do costume a pressionarem e a manipularem os grupos económicos que detêm orgãos de informação e para serem estes a pressionarem os jornalistas. Daí ao despedimento, ou à aceitação da auto-censura, a que muitos jornalistas se prestam, vai um pequeno passo. Se isto não é pressão, vou ali e já venho. Tudo gente de bem, como se depreende.

2010/02/02

Uma história mal contada

A notícia da alegada "censura" a Mário Crespo (MC) que há mais de 24horas faz parte do anedotário nacional, carece da confirmação que só poderia ser dada pelas testemunhas do ocorrido (admitindo que alguma coisa de grave ocorreu).
Ainda que não seja propriamente uma surpresa vermos um primeiro-ministro pressionar directores de TV para "calar" jornalistas incómodos, não me parece muito lógico que essa pressão tenha de ser feita num lugar público e em voz alta para que toda a gente ouvisse. A mesma pressão podia ter sido feita através do telefone ou no recato de um gabinete.
Admitindo que tudo o que Mário Crespo escreveu é verdade, ele devia saber que o contraditório era fundamental para ajuizar das suas acusações. Ora um artigo (ainda que de opinião) fundamentado em rumores, dificilmente passa o crivo de um jornalismo respeitável. Se o director do JN estava à espera de um argumento para censurar as suas crónicas, bastava-lhe este.
Por outro lado, de todas as personalidades presentes no dito almoço, MC não cita o nome do director do canal da TV abordado por Sócrates. Ficam, assim, algumas questões por responder:
Porque é que MC não revelou o nome da quarta pessoa presente (director da TV) nesse almoço?
Porque é que o director do JN não procurou indagar junto dos acusados a veracidade das acusações, exercendo o próprio jornal o seu contraditório?
Porque é que o governo, através de Jorge Lacão (um dos presentes no almoço) desvalorizou a questão afirmando que o governo não comentava calhandrices?
Verdade ou não, o afastamento de comentadores e jornalistas indesejáveis, começa a tornar-se uma tradição em Portugal: Marcelo e Moura Guedes na TVI, Marcelo na RTP e, agora, Mário Crespo no JN. Quem se seguirá?...

2009/03/21

O insustentável peso da censura (2)

Menos de 24 horas após ter sido visionado pelos provedores da RTP e da RDP, o polémico "spot" da Antena 1 (onde subliminarmente se insinuava que as manifestações prejudicavam quem queria trabalhar!) foi retirado.
Andaram bem Paquete de Oliveira e Adelino Gomes ao interpretarem a lei e o sentimento de indignação daqueles que denunciaram e protestaram contra esta grosseira manipulação. Para esta rápida reacção muito contribuiram, nunca será demais realçá-lo, os diversos "blogs" que alertaram para o anúncio e, dessa forma, deram continuidade a uma acção que pode ser considerada exemplar.
Ainda os ecos desta tentativa de manipulação não tinham desaparecido e já uma nova polémica parece estalar. A acreditar no comunicado da ERC (Entidade Reguladora da Comunicação) têm chegado a este organismo queixas de diversos espectadores sobre os conteúdos do telejornal da TVI, em particular a edição de sexta-feira, da responsabilidade da "pivot" Manuela Moura Guedes.
Devo confessar que não sou adepto da apresentadora em questão e muito menos do seu estilo, que pouco tem de jornalismo e muito menos de objectividade. Moura Guedes poderá ser corajosa e truculenta, mas tais atributos não são necessariamnte sinónimos de bom profissionalismo. Dito isto, devo dizer que vejo regularmente os célebres telejornais de sexta-feira que tanta celeuma parecem causar, quanto mais não seja para ouvir as opiniões do seu convidado residente e para perceber o que incomoda tanta gente. Ora, uma das diferenças, relativamente a outros telejornais, é o tratamento dado às polémicas que envolvem o primeiro-ministro, a última das quais (o caso Freeport) continua em investigação. Independentemente de tudo o que possa pensar-se sobre as implicações de Sócrates neste caso, a verdade é que - tanto quanto podemos perceber - nenhuma notícia avançada foi desmentida e, algumas delas, foram amplamente noticiadas noutros orgãos de comunicação. Não será por aqui que a Entidade Reguladora poderá pegar, pelo que a única razão para tal "aviso à navegação" só pode ser explicada pelo incómodo que determinadas notícias sobre o PM parecem provocar.
Se esta é a razão, Eduardo Moniz tem razão em protestar. Acontece que o director de programas da TVI tem "telhados de vidro" nesta matéria. Basta lembrarmos o afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa, por pressão do governo de Santana Lopes, durante o consulado de...Moniz!
Moral desta história muito pouco edificante: num país de tradição censória e pouca cidadania, os governos, sejam eles de um partido ou outro, não diferem nos métodos quando se trata de censurar e manipular a opinião pública. Esta é também a herança da ignorância, fruto de dezenas de anos de censura e desinformação. Resta saber se os eleitores que vão votar este ano querem continuar a acreditar na publicidade. Porque, para a propaganda dos partidos do centro, já não há paciência.