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2026/01/28

Debates Presidenciais (2)

Foi um debate fraco e demasiado longo para a importância que lhe quiseram dar.

A Seguro bastou fazer-se de "morto" e controlar as emoções (ele é bom nisso), enquanto Ventura esteve ao nível de arruaceiro a que nos habituou. 

Ainda bem que os debates terminaram. Já não há paciência para tanto disparate.  

Mais uma vez, pouco ou nada se falou de política internacional, como se Portugal fosse uma ilha isolada neste Mundo em convulsões. Ninguém sabe o que os candidatos pensam ou farão, em crises tão graves como a guerra na Ucrânia, a situação na Palestina, a política hegemónica dos Estados Unidos sob Trump, a posição de Portugal na UE e na NATO ou os acordos do Mercasul, para citar algumas questões pertinentes. 

Neste capítulo, a responsabilidade foi também dos jornalistas, mal preparados e atemorizados perante o chorrilho de asneiras e as interrupções do candidato de extrema-direita. 

Seguro vai ganhar (quem duvida?), mas não deixará de ser um candidato mole e sem chama. Dali não virão criticas a Montenegro. Já o primeiro-ministro terá de preocupar-se com Ventura, a maior ameaça à sua direita, agora que disputam o mesmo campo ideológico.

O candidato fascista perderá, mas o fascismo não desaparecerá ("O eterno retorno do fascismo", Rob Riemen, ed. Bizâncio, 2012).  Estamos avisados.  

2025/10/20

Com Burkas e dolos, se enganam os tolos...

Grupo nacionalista faz 'passeata Ku Klux Klan' contra entidade antirracista  em Lisboa - 11/08/2020 - Mundo - Folha

Os "cheganos" são uns cómicos.

Mais um não-assunto, levado à votação na Assembleia da República, pelo tele-evangelista de serviço.

É sempre comovente ver fascistas "preocupados" com a emancipação das mulheres muçulmanas, eles que não "mexem uma palha" para criticar a violência de género em Portugal: 22 mulheres assassinadas e 11.900 ocorrências em 2024, uma das maiores percentagens europeias (dados da APAV). 

Também nunca os ouvimos falar dos milhares de imigrantes que, diariamente, dormem nos passeios em frente às instalações da AIMA, enquanto esperam uma senha para regularizar a sua situação. 

Os mesmos imigrantes, a quem é recusada a reunificação familiar, enquanto não obtiverem uma licença de estadia (o que pode demorar anos), mas que, entretanto, trabalham nos mais diversos sectores e descontam para a Segurança Social (3,6 mil milhões de euros em 2024). Descontos esses, que permitem equilibrar as contas e ajudam a pagar as pensões dos portugueses. 

Também nunca os ouvimos criticar a obtenção de "vistos gold", concedidos a estrangeiros ricos, especialidade do tele-evangelista, no tempo em que era um simples fiscalista, sem ambições messiânicas.

Uma cambada de hipócritas, os fascistas portugueses do Chega, ou não fossem inspirados pelas seitas evangélicas que os apoiam.

Depois de uma derrota copiosa nas últimas eleições autárquicas, nada como arranjar um "fait-divers" que distraia os portugueses dos seus reais problemas. A (falsa) questão, dos trajes femininos das seguidoras do Islão, foi o argumento encontrado para criar um projecto-lei, que nos defenda da violência terrorista (!?). 

A partir de hoje, esperamos que as "brigadas de costumes", a exemplo dos zelotas de Kabul, intervenham junto das "prevaricadoras" e, já agora, alarguem o controlo aos membros das claques desportivas e aos grupos nazis, especialistas em esconder rostos. Sim, porque nestas coisas, ou há moralidade ou comem todos...

2025/06/20

Fascismo 3D

Sem surpresa, foram desmanteladas duas milícias neonazis nos últimos dias, que integravam agentes das forças de segurança nas suas hostes. 

A Comunicação Social refere uma obscura organização que dá pelo nome de Movimento Armilar Lusitano (MAL) que incluía 4 agentes, entre duas dezenas de pessoas sinalizadas pela polícia. "O MAL é descrito como sendo uma milícia armada, com suspeitas de actividades terroristas, discriminação e incitamento ao ódio e à violência. Na operação da Unidade Nacional de Contra-Terrorismo (UNCT) foram apreendidos explosivos, armas brancas e armas de fogo, Foram ainda encontradas armas desenhadas em impressoras 3D com capacidade para disparar, algo inédito em Portugal" (in "Público" d.d. 19 de Junho). Dos planos apreendidos, constava um assalto ao parlamento, ao palácio presidencial e ataques a diversas personalidades políticas.   

O que é que isto nos diz? Provavelmente, que a ideologia e métodos fascistas, não sendo de hoje, existem há muito na sociedade, aguardando uma oportunidade para actuar. A chegada de um partido fascista ao parlamento em 2019, deu-lhes a confiança necessária para se mostrarem e exibirem a violência e o ódio que sempre os caracterizam. A violência é a principal característica do fascismo.  

Só que, estas coisas não surgem do vácuo (como diria o outro) tendo causas mais profundas. Uma delas é a herança da ditadura, longa de 50 anos, para além da ignorância que continua a influenciar grandes estratos da população. De acordo com dados recentes, a iliteracia funcional entre os portugueses é de 42% (in "Observador" d.d.18/12/24). Ou seja, cerca de metade da população, não entende o que lê. Este dado vale o que vale, mas não deve ser menosprezado. 

Como explicar o nível de abstenção crescente (um dos mais altos da Europa) nas eleições em Portugal? Ou a pouca participação cívica dos portugueses em assuntos nacionais e internacionais? Não há cidadania, e este é um problema cultural que influencia todo o resto. 

Durante muito tempo, as forças democráticas, que emergiram após o 25 de Abril, dominaram a arena política e pensou-se que bastava votar de quatro em quatro anos e descer anualmente a Avenida da Liberdade, para garantir a Democracia. Os fundos europeus de coesão alimentaram essa ideia e as gerações, que fizeram o "25 de Abril", reformaram-se, passando a "participar" na política através da televisão. O "sofá" substituiu a democracia participativa. A posterior liberalização de costumes e a cultura do consumismo, criou a ideia, numa certa classe média, de que já éramos europeus, porque já podíamos comprar tudo como na Europa. Ter ou não ter "roupa de marca", substituiu a "luta de classes". Naomi Klein, socióloga e activista canadiana, escreveu um livro seminal sobre esta questão (No Logo). 

Só que...os tempos e os contextos mudam. A crise do "crédito fácil" (subprime) em 2008, foi o primeiro sinal de alarme a afectar todo Mundo Ocidental. Seguiu-se a crise das "dívidas soberanas", das quais Portugal é um caso paradigmático (com a intervenção da Troika em 2011) e, mais tarde, a crise  pandémica, terminada em 2021. Ainda mal refeitos do vírus, e quando tudo parecia acalmado, começou uma guerra que criou mais inflação, o que hoje afecta toda a população. Se é assim em países mais desenvolvidos, porque seria diferente em Portugal, um dos elos fracos desta corrente? 

É neste contexto, que os portugueses mais desfavorecidos, com ou sem razão, procuram uma alternativa ao pântano actual. Esta é, certamente, uma das explicações para os votos no partido populista, cuja única actividade conhecida é a denúncia de um "sistema" que corrói a República. 

Só que, esta constatação, não explica tudo. Concorreram às últimas eleições cerca de 20 partidos. Porque é que podendo votar num partido fora do "arco da governação", 1,5 milhões de portugueses optaram pelo pior deles todos? Hoje, 40% dos jovens, entre 18 e 34 anos, dizem apoiar o "Chega". Alguma coisa está mal na sociedade e não são apenas as questões sócio-económicas que as explicam. 

Não partilho da opinião que são todos "coitadinhos" e devemos tentar entender as razões deste voto de protesto, contra o "sistema". Mas, qual sistema, se a "seita", que dá pelo nome de Chega, outra coisa não deseja do que pertencer ao sistema que tanto criticam? Penso que existe um certo "paternalismo" de esquerda nesta observação: procura-se justificar a ignorância, argumentando com uma entidade (o povo) que terá sempre razão (!?). Não é verdade. Quando os nazis cometeram os crimes que conhecemos, a maioria da população alemã apoiou-os. Mais tarde, quando interrogados, diziam que não sabiam...

É por isso que o aparecimento de milícias neonazis, apoiantes da ideologia do partido fascista no parlamento, não deve constituir uma surpresa. Constitui um aviso para o que aí vem. Não aprender com a História, pode revelar-se fatal. Quem adormece em democracia, pode acordar em ditadura.  

2025/06/12

10 de Junho: o dia da "raça" está de volta...

Discurso de Lídia Jorge nas comemorações do 10 de Junho em Lagos (na  íntegra) - Sul Informação

Dois acontecimentos dominam as discussões e opiniões escritas esta semana. 

O primeiro, cronologicamente o mais badalado, foi o discurso de Lídia Jorge em Lagos. Já toda a gente teve tempo de o ler e comentar, sendo o seu elogio quase unânime. Através de Camões (et pour cause) a escritora utilizou a obra do poeta, para enaltecer as nossas virtudes e defeitos, através da História. Houve quem visse, naquele texto,  uma apologia do colonialismo de miscigenação (!?) e, até, um pedido de desculpa aos povos escravizados. (!?). Nada disso. Tratou-se, e bem, de desconstruir a ideia da "raça pura" construída pela ideologia do Estado Novo e, mais recentemente, recuperada pelo partido fascista no parlamento. Não perceberam nada do que foi dito ou, o que é pior, não quiseram perceber. Burros velhos não aprendem línguas. 

Porque o tempo não pára, no mesmo dia em Lisboa, um grupo de energúmenos agrediu diversos actores da companhia de teatro A Barraca, tendo um dos actores sido esfaqueado e recebido tratamento hospitalar. Resta acrescentar que, o bando de criminosos responsável por tal acto, é conhecido da polícia como pertencente ao movimento neonazi "Blood and Honour", com ramificações internacionais. Estes dados são conhecidos da polícia. 

Não há surpresas aqui. A extrema-direita (fascista) está em crescendo em toda a Europa e era uma questão de tempo até chegar a Portugal. Todas as "modas" chegam sempre mais tarde. Se em países mais desenvolvidos (e supostamente mais cultos) os movimentos fascistas chegaram ao poder (Itália, Países-Baixos, Áustria, Suécia...) porque é que não podiam cá chegar? 

Somos um país semi-analfabeto (42% de iliteracia funcional); pindérico (2 milhões de pessoas a viver abaixo da fasquia de pobreza, calculada em €672/mês); com níveis de corrupção generalizados (a começar pelo primeiro-ministro actual); "crente" (o Chega é uma "igreja" e Ventura o tele-evangelista de serviço); logo, estavam reunidas todas as condições para a chamada "tempestade perfeita". Foi agora e vai, provavelmente, piorar. 

Como se explica que a polícia conheça as imagens dos agressores dos actores de "A Barraca" (eu vi-as na TV) tenha identificado o agressor (que esfaqueou Adérito Lopes) e o tenha deixado sair em liberdade? E onde estão os protestos dos partidos dito democráticos, a começar pelo PS? A única explicação é a polícia estar infiltrada pelos fascistas do Chega (o sindicato "zero" é afecto aquele partido) e o restante corpo policial não ser respeitado, como sublinhou um especialista em segurança nacional... 

Ora, como sabemos, a criminalidade é maior num estado que seja fraco. Quanto mais desordem, melhor. O caos, é o "caldo" ideal para repressão. É nele, que germinam os "salvadores da pátria" e os demagogos como Ventura. Está em todos os livros sobre a matéria. Só não sabe quem não quer.  

2025/02/15

O "Chega" é um partido fascista (qual a dúvida?)

Agora que "caiu o Carmo e a Trindade" no parlamento (e fora dele), devido às ofensas dos deputados do "Chega" a uma deputada invisual (algo inédito na sua virulência verbal e discriminatória, contra um deputado no exercício das suas funções) ouvem-se as vozes da indignação. Ainda bem que é assim.

Nada que nos deva surpreender, já que a estratégia de Ventura e seus pares foi, desde o início, mimetizar as práticas de partidos homólogos por esse Mundo fora: de Trump a Bolsonaro, de Milei a Meloni, de Le Pen a Abascal, todos eles se regem pelo mesmo comportamento-padrão: idolatram um líder, atacam o "sistema", discriminam minorias (ciganos, imigrantes, refugiados, negros, mulheres, LGTB, invisuais...) e instigam ao ódio e à violência, sempre contra os mais fracos da sociedade, a quem culpam pelos males de que eles (fascistas) dizem padecer...Não se lhes conhece um programa de governação (para além de um nacionalismo bacoco e da prisão ou expulsão de imigrantes) e, muito menos, uma crítica aos interesses instalados que governam os respectivos países. No fundo, "são fortes com os fracos e fracos com os fortes". Uns tristes.

Ao partido e ao seu líder, muitos já chamaram "populistas", "infantis" e mesmo "arruaceiros" ou "criminosos". Poucos os apelidam de fascistas, ainda que haja excepções (Raquel Varela, Fernando Rosa, Rui Bebiano...). Por alguma razão, são os historiadores a detectarem o óbvio. 

Independentemente das "infantilidades" de Ventura e seus sequazes, há uma estratégia por detrás deste comportamento de "bullying" permanente, dentro e fora do Parlamento. Começou na periferia (quem não se lembra da discriminação contra os ciganos em Loures?), passou para os imigrantes de origem asiática e já vai nos imigrantes ilegais, que o "Chega" associa à criminalidade (!?). 

Acontece que (o partido) foi tolerado quando não devia (depois da primeira tentativa de legalização do "Basta!", que se transformaria em "Chega!" após os primeiros estatutos terem sido chumbados pelo Tribunal Constitucional) ainda que continuem as mesmas práticas depois da reformulação estatutária. O que na gíria se apelida de "um lobo com pele de cordeiro". 

Se (o partido) já era criticável com 1 deputado "infantil", com 50 "arruaceiros" ganhou maior peso e visibilidade, tornando-se incontornável e insuportável. Mas, piorou, a menos que os democratas na AR, que formam a maioria, obriguem o (frouxo) presidente da Assembleia a tomar uma posição inequívoca, uma vez que é ele quem dirige os trabalhos e, portanto, é o responsável último pela ordem e disciplina no hemiciclo.  

Já toda a gente percebeu que este comportamento nada tem a ver com o debate político, mas com ataques soezes e "ad hominem", que mais não pretendem de que instigar o ódio e a divisão entre os pares. Estas práticas são conhecidas do passado (Mussolini, Hitler, etc) e voltaram a estar activas no presente (Trump, Bolsonaro, Milei, Wilders...). Chama-se Fascismo ou (novo)fascismo. Um fascismo de tipo novo. Não perceber estas coisas simples, pode ser fatal.

Umberto Eco, num ensaio clássico ("Como reconhecer o fascismo", Ed. Relógio de Água, 2017), referindo-se ao "Ur Fascismo" (o "fascismo eterno"), definia 14 características existentes na ideologia e prática fascistas. Escreveu Eco: "Não é necessário possuí-las todas, mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma "nebulosa fascista" (ibidem). Na prática do "Chega", são manifestas algumas dessas características: idolatração do líder, a procura de "um "bode expiatório" (judeus no passado, imigrantes no presente), discriminação de minorias, racismo, xenofobia, instigação ao ódio, violência verbal e física, etc...

No fundo, é como o "teste do pato": se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, muito provavelmente, é um pato. 

 

 

2025/01/21

Trump ou o regresso do Fascismo

Agora que Trump foi empossado e disse ao que vinha, anda meio-Mundo a vociferar contra o programa (i)liberal, que alguns comentadores, "bem-comportados", teimam em apelidar de "populista". Na realidade, não há nada de novo aqui, dadas as intenções manifestadas pelo mesmo presidente americano, na campanha de 2016. 

Ou seja, liberalizar ao máximo a economia, na esperança de que o "mercado" regularize a lei da oferta e da procura (para que todos possam ganhar com isso...), diminuir os impostos, aumentar as taxas de importação e regressar a um modelo de industrialização, abandonado no século XX, que permitiu à China tornar-se a segunda potência económica mundial e o principal competidor comercial dos EUA. De preferência "sem guerras", já que Trump, um homem de negócios, prefere o lucro ao sangue, bastando vender armas às ditaduras mais abjectas do planeta, para que a América seja grande de novo (!?).  Dado que não tem escrúpulos, nunca se interrogará sobre a natureza dos regimes com quem faz negócios, segundo o conhecido provérbio "olha para o que digo, não olhes para o que faço". Um biltre.

Uma vez que o poder imperial americano assenta na força económica e militar, pensa que bastará ameaçar o Canadá, o Panamá ou a Groenlândia, para que estes países se curvem e aceitem as propostas ridículas que fez, pois sabe que, numa negociação, pode sempre obter vantagens. Resta acrescentar, que tais declarações, não só foram completamente recusadas pelos países visados, como ainda existem leis e tribunais  internacionais, onde estas questões são, normalmente, derimidas. Mas, que importância tem isto, para um narcisista patológico, cujo ego é maior que o país que dirige?

Ao mesmo tempo, arranjam-se bodes expiatórios internamente, para sossegar os apoiantes em caso de fracasso, como os imigrantes ilegais, as mulheres, os muçulmanos ou os asiáticos que, ao que consta, "comem cães e gatos, em Springfield". Um tarado, não diria melhor. É esta egocêntrica figura, vencedor das eleições norte-americanas, que irá governar metade do Mundo nos próximos quatro anos. Mas, não está sozinho desta vez. Com ele, os oligarcas mais poderosos do país que, de tão ricos, já têm direito a um lugar na Casa Branca. Lá estavam também alguns (poucos) convidados europeus, como a reciclada fascista Meloni e o envergonhado Ventura. De fora, ficou o palhaço Bolsonaro, a quem confiscaram o passaporte. Pior, era impossível. 

Estamos, pois, a assistir ao regresso do fascismo, agora apoiado por corporações e oligarcas das novas tecnologias (Bezos, Musk, Zuckerberg), já que as "botas cardadas" caíram em desuso. No fundo, o fascismo não é mais do que uma das faces do capitalismo. Quando o lucro do capital não chega (nunca chega!) começa-se por destruir as conquistas sociais dos trabalhadores ou emprega-se a força (a violência é uma das componentes do fascismo) para obter dividendos. 

Ditadores, sempre existiram. O que parece não existir é uma "esquerda" digna desse nome que, de há décadas a esta parte, se demitiu do seu papel transformador, para passar a gerir o chamado "capitalismo de rosto humano" (a chamada "3ª via" de Blair, Schoder, Hollande, Zapatero, Kok, Sócrates...), com os resultados conhecidos. Quando o neoliberalismo actual (iniciado com Reagan e Thatcher) deixou de precisar destes "socialistas de salão", descartou-os ou, na melhor das hipóteses, comprou-os com sinecuras que garantem uma reforma dourada. Veja-se a triste figura que Costa anda a fazer na Europa, ao lado da prussiana que dirige a UE.

Sim, Musk fez ontem a saudação nazi, reproduzida em todas as pantalhas do planeta. Como já tinha elogiado Hitler, interferido na política alemã (ao apoiar o partido neo-nazi do AfD) e criticado a política actual do governo britânico. O mesmo fez Steve Bannon, que fez a saudação nazi ao receber o filho de Bolsonaro e que também faz, frequentemente, Ventura, ainda que de modo mais "envergonhado"... São todos populistas. Mas, também são fascistas e já sabemos como estas coisas acabam: primeiro levam os imigrantes, depois os sindicalistas, mais tarde os comunistas e, quando já não há quem nos defenda...


2024/11/06

EUA: o dia seguinte

Imagem REUTERS
Imagem REUTERS

Não há verdadeiramente uma surpresa nos resultados destas eleições. Talvez a vitória esmagadora de um fascista que (et pourtant) apesar do seu discurso xenófobo, racista, misógino e divisionista, conseguiu canalizar as frustrações dos "little men" do Midwest americano. Os votantes do partido republicano não votaram num programa político, mas em Donald Trump, o líder incontestado. Estamos a assistir ao culto do líder, uma constante em todos os partidos autocratas.  

A estratégia (!?) dos democratas foi desastrosa do princípio ao fim: afastamento tardio de Joe Biden, nomeação de uma candidata, sem passar pelo escrutínio das "primárias", pouca preparação de Kamala Harris em assuntos tão importantes como a economia, as relações comerciais com a China e a Europa, a Nato, as guerras da Ucrânia e da Palestina, etc., sobre os quais nunca foi clara e teve sempre um discurso redondo. Um falhanço total que os liberais vão pagar caro. 

Quando apostamos no mal menor, arriscamos levar com o mal maior. É dos livros. Leia-se o Reich da "Psicologia de Massas do Fascismo", escrito em 1933. Está lá (quase) tudo o que devemos saber.

Vem aí o fascismo norte-americano (sempre lá esteve) e, porque tudo o que se passa nos Estados Unidos acaba por influenciar a Europa, também seremos afectados por este resultado. De resto, o fenómeno (do aumento da influência dos partidos de extrema-direita) já acontece um pouco por todo o continente europeu: nalguns países veio de pantufas, noutros de botas cardadas. Por alguma razão, os ditadores de serviço - Putin, Orbán, Le Pen, Erdogan, Netanyhau, Wilders, Abascal ou Ventura - foram os primeiros a regozijarem-se com a vitória do seu homólogo americano.

Será que as forças progressistas, não aprendem?...

2023/01/11

2023: Ano Novo, Vida Nova?

Começou o ano e, até ver, poucas novidades. 

A guerra não terminou, a inflação aumentou, o fascismo não morreu e a corrupção está viva e recomenda-se. Para piorar a situação, o vírus pandémico reapareceu na China, pelo que não tardará a chegar à Europa...

Sobre a primeira questão: só os ingénuos podiam pensar que uma operação de "conquista territorial" iria terminar em dias, ou mesmo em semanas. Já lá vai (quase) um ano e não se vê fim à vista. Pesem os milhares de milhões, investidos na "defesa do Ocidente," nem a Rússia de Putin desiste dos seus intentos imperialistas, nem a Ucrânia de Zelensky, consegue expulsar os invasores. No meio, uma Europa sem recursos energéticos, sem exército e sem estadistas, incapaz de fazer ouvir a sua voz nos Fora internacionais. Apesar das "boas intenções" e aparente "unidade na acção", que Von der Leyen, Borrell e Stoltenberg continuam a propagar, nada de essencial mudou. Basta seguir o comportamento de figuras como Órban ou Erdogan (o primeiro membro da UE e o segundo membro da NATO) para deixar de acreditar em actos de coesão e lealdade, vindos de dois autocratas que, de democratas, pouco têm. O primeiro, não respeita direitos constitucionais e continua a desafiar e a desrespeitar as regras democratas europeias, que lhe valeram várias repreensões e penalizações da Comissão; o segundo, continua a receber milhões de euros da UE, para impedir a passagem de refugiados para a Europa, enquanto faz negócios com Putin e oferece gás e petróleo russo à Europa (!?). Uns cómicos, uns e outros. Ou seja, nesta guerra, perdem todos: perde a Ucrânia (parcialmente ocupada e destruída); perde a Rússia (o povo russo, entenda-se) sujeita a uma guerra que não escolheu e confrontada com as sanções do Ocidente; perde a União Europeia (dependente de recursos energéticos e alimentares, agora mais difíceis de obter devido às contra-sanções russas). O único país (até ver) que parece ganhar com esta guerra, são os EUA, que vendem armamento, gás liquefeito, petróleo e cereais à Ucrânia e à Europa. Um negócio das arábias! Porque não há "almoços grátis", quando a guerra terminar, serão os norte-americanos que irão "reconstruir" a Ucrânia, com um programa já anunciado como novo "Plano Marshall" (plano de recuperação europeia, após a 2ª guerra mundial.) Também, aqui, nada de novo. Trata-se da aplicação da "Doutrina de Choque", experimentada noutras latitudes (Iraque, Haiti, Grécia, Tailândia, Alemanha de Leste, União Soviética, etc...) onde, após uma catástrofe (guerra, terramoto, tsunami), os "empreendedores" norte-americanos, utilizam a sua capacidade económica e logística, para ajudar a "reparar" os danos. Os empreiteiros fazem fila...      

Porque isto anda tudo ligado, temos mais inflação. Acontece que a inflação, notória antes da guerra, piorou com esta. É natural. Com a pandemia, os preços que estiveram artificialmente congelados (juros, moratórias, etc...), voltaram ao nível previsto e agora, devido às contra-sanções russas, junta-se a especulação habitual em tempos de crise. Entretanto, a presidente do BCE (Christine - j´adore Dior - Lagarde) já decretou um aumento de juros bancários de 2% e anunciou que a coisa não vai ficar por aqui. O pior, são as consequências económicas para o cidadão comum. Apanhado, literalmente, "entre-dois-fogos", perdeu, no último ano, mais de 15% de poder de compra (basta ir ao supermercado) e vê, todos os dias, as taxas Euribor, (calculadas no pagamento das suas hipotecas) subir centenas de euros por mês! Já as medidas, anunciadas pelo governo, para compensar a perda de poder de compra, mostram-se insuficientes, pois os anunciados aumentos de 5%, ficam muito abaixo da inflação prevista. Uma "pescadinha de rabo-da-boca", que os "crânios" das finanças, parecem não ser capazes de resolver. Aparentemente, não há dinheiro para tudo, dizem-nos (Portugal é um país pobre, patati, patatá...). É verdade. Mas, então, se somos pobres e não temos dinheiro para tudo, porque é que insistimos em salvar bancos falidos, aumentamos a nossa contribuição para a guerra (NATO), continuamos a pagar uma dívida odiosa (contraída pelo estado) e queremos à viva força manter o deficit abaixo de 1%?...

O fascismo está de volta. Nunca desapareceu, de resto. O último exemplo, veio do Brasil. Uma horda de bárbaros organizados e pagos pelos inimigos da democracia, resolveram assaltar o "planalto", onde se encontram os símbolos dos "três poderes" brasileiros (o político, o judicial e o legislativo). Um atentado terrorista, contra um governo sufragado e eleito democraticamente pelo Povo, invocando uma pretensa irregularidade que nunca existiu. De resto, as eleições brasileiras, foram amplamente escrutinadas por organismos internos e externos, que confirmaram a transparência de todo o processo. Só débeis mentais poderiam acreditar numa narrativa completamente falsa (as "fakes news" existem), que já tinha sido experimentada nos EUA, pelos acólitos de Trump (outro atrasado mental). Não vingou nos EUA, nem vingou no Brasil. Acontece que, ao contrário da sociedade americana - mais culta, com mais cidadania e mecanismos de transparência (transparency) e prestação de contas (accountability) - a democracia brasileira é frágil. A democracia tem apenas 37 anos e, numa sociedade pouca instruída, onde a desigualdade e os níveis de pobreza extrema são gritantes (33 milhões de pessoas com fome), a corrupção é transversal e a criminalidade mata 60 000 pessoas ao ano, torna-se mais difícil a gestão. Proliferam os interesses corporativos, infiltrados na corporação militar (veja-se a passividade da polícia e dos militares, durante o assalto aos edifícios governamentais), nos grandes agrários (agro-negócios do gado e soja) e nas igrejas evangélicas (populadas por débeis mentais). Estes são os principais bastiões de apoio do psicopata Bolsonaro. No domingo, pareciam "zombies", completamente possessos, espumando pela boca, enquanto eram conduzidos de volta para os autocarros que os transportaram para Brasília. Bolsonaro pode estar morto politicamente, mas o núcleo duro dos seus apoiantes não desapareceu. São fascistas e devem ser combatidos como tal. "Não podemos ser tolerantes com intolerantes", lembrava Popper. Lula e os democratas brasileiros que se cuidem. 

Finalmente, o jornal "Público" de hoje (11.01.23) "puxou" para a primeira página a notícia da detenção de um ex-autarca de Espinho, acusado de corrupção, tráfico de influências e lavagem de dinheiro (mais um!). Desta vez é do PSD. Qual a novidade? O problema é todos os partidos (do poder) terem "telhados de vidro." Por isso, protegem-se mutuamente. A questão da corrupção (é disso que estamos a falar) é transversal à sociedade portuguesa. Uma sociedade profundamente desigual, onde a pobreza, a iliteracia e o medo, continuam enraizados. Uma cultura de séculos, que não mudará por simples decreto ou alterações da constituição. No fundo, os partidos (os políticos) mais não são do que o "espelho" da nação. Se a "média" é má, porque é que os políticos haviam de ser melhores? É como falar de "ética republicana." O que é isso? Ética, tem-se ou não se tem. Não compreender isto e "esperar" que os "nossos" políticos sejam melhores que os da "direita" (ou vice-versa) é pensar que as diferenças ideológicas tornam os cidadãos mais honestos. Uma treta, claro. 

 

2022/09/26

Itália ou o eterno retorno do fascismo

 


Pela primeira vez, desde a 2ª guerra mundial, a Itália tem um governo de extrema-direita. 

A grande vencedora da noite, Giorgia Meloni (neta de Mussolini) tratou logo de dizer que não era fascista como o avô (estas coisas não têm de ser genéticas). De facto, o neo-fascismo, que é disso que se trata, já não necessita de "botas cardadas" para governar (até ver...). Por enquanto, só o símbolo do partido "Irmãos de Itália" é o mesmo do partido do patriarca. A continuidade, ora aí está...  

À Meloni não faltam "pomodori": tem carisma, é autoritária, fala aos gritos, é contra os burocratas de Bruxelas, quer unir a Itália e devolvê-la aos italianos, quer governar com toda a gente, não quer mais imigrantes, refugiados e minorias a viver à custa do estado, defende uma baixa geral de impostos, é contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, como não podia deixar ser, o seu lema é "Deus, Pátria e Família".

Num célebre ensaio (Como reconhecer o fascismo) Umberto Eco enumera aquelas que considera as principais características do movimento original. São catorze no total, por isso o autor adverte: 

"O termo fascismo adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos e poder-se-á sempre reconhecê-lo como fascista. Retire-se ao fascismo o imperialismo, e teremos Franco e Salazar; retire-se o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescente-se ao fascismo italiano um anti-capitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescente-se o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julius Evola. Apesar desta confusão, considero que será possível indicar uma lista de características típicas do que poderei chamar de "Ur-Fascismo" ou "fascismo eterno". Estas caracteríticas não podem ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou de fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista" (Eco, Umberto: "Como reconhecer o fascismo", Ed. Relógio de Água, 2017).      

Eco escreveu a partir da sua experiência na Itália de Mussolini. Nasceu em 1932, quando o regime estava no auge e, desde então, muita coisa mudou. No entanto, as suas observações sobre o tema mantém-se actuais, já que o fascismo (nas suas diversas formas) volta sempre e não é um fenómeno típico de países do Sul. 

Essa é, também, a opinião do especialista Rob Riemen, que à questão dedicou vários escritos. No seu livro "O eterno retorno do fascismo", este filósofo holandês dá como exemplo um partido do seu próprio país: 

"Nos Países Baixos, Geert Wilders e o seu Partido da Liberdade (PVV), são os protótipos do fascismo contemporâneo e, enquanto tal, não são senão as consequências políticas lógicas de uma sociedade pela qual todos somos responsáveis. O fascismo contemporâneo resulta, mais uma vez, de partidos políticos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivaram um niilismo complacente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo dos negócios, de mass media que preferem ser ventríloquos do público em vez do seu espelho crítico São estas as elites corrompidas que alimentam o vazio espiritual, contribuindo para uma nova expansão do fascismo" (Riemen, Rob: "O eterno retorno do fascismo", Ed. Bizâncio, 2012).    

Voltando às eleições italianas: não penso que a coligação de extrema-direita que ganhou as eleições (constituída pelos "Irmãos de Itália" da Meloni, pela "Liga" de Salvini e pela "Forza Italia" de Berlusconi), possa governar durante muito tempo. Os egos e as contradições internas são demasiado grandes, apesar de alguns pontos em comum. A Itália é um membro demasiado importante para a União Europeia (a 3ª maior economia, o 2º país mais industrializado e a maior dívida pública da União), pelo que não deixará de estar atenta às exigências deste governo. Tudo depende, agora, de Bruxelas. Os "partidos Meloni" só crescem onde as democracias são fracas (é do livros). Por outro lado, a Hungria de Orbán (outro neo-fascista) já foi apelidada de país não-democrático pela própria Comissão Europeia e penalizada por isso. A questão de fundo é: se a Hungria (membro de pleno direito da União Europeia) não é democrata e não respeita o estado de direito, o que está a fazer na UE? 

Quando os regimes democráticos não se respeitam, não nos devemos admirar do crescimento dos partidos que, aproveitando-se da democracia, a querem destruir por dentro. Estamos avisados.

2020/04/25

(Apesar do confinamento) 25 de Abril, sempre!

gravura de José Santa Bárbara

Hoje não descerei a Avenida da Liberdade, como sempre fiz nos últimos 24 anos.
Há 46 anos atrás, também não o tinha feito, embora por razões diferentes. Nessa data - nesta data - estava exilado noutro país e impedido de regressar a Portugal.
Uma outra forma de "confinamento", nessa época protegido do "vírus" fascista que governava Portugal.
Nao é fácil protegermo-nos de vírus, ainda que a ciência ajude. Desde logo, com vacinas adequadas e, caso sobrevivamos, através da imunidade criada pelos anti-corpos.
Foi assim com as doenças infantis que todos contraímos na idade própria: do sarampo à varíola, da varicela à tosse convulsa. Para algumas, existia a vacina; para outras, o remédio era a quarentena forçada, que nos imunizava para o resto da vida. Também tomei a famosa BCG (contra a tuberculose), que em Portugal era obrigatória e que, nalguns países, nunca foi. Lembro-me bem, de ser chamado a um centro clínico holandês, onde aguardavam dezenas de refugiados portugueses para serem testados, dado que havia suspeitas que um de nós poderia estar infectado e contaminar os restantes. O médico, que me atendeu, ficou surpreendido por estarmos todos vacinados. Ninguém estava infectado. Nem o suspeito.
Durante os meus 8 anos de exílio, confirmei aquilo que já sabia. Não só estava imunizado contra as mais diversas doenças infantis, como tinha adquirido outras imunidades. Uma delas, contra o fascismo.
Uma "longa travessia", como cantou o Zé Mário, ao longo da qual vamos ficando mais fortes.
Esse vírus não apanhámos nós. E, aqueles que o apanham, são apenas a excepção que confirma a regra. 
Vem esta história toda, a propósito das comemorações deste ano, que vi em directo, através da NET.
Contrariamente a anos anteriores, estavam apenas 96 deputados e alguns convidados nas bancadas circundantes. Estiveram presentes, para além do PR, do PM e do Presidente da AR, representantes de todos os partidos.
Pese a tentativa grosseira de impedir a sessão, através de uma petição lançada em desespero pelo deputado fascista, a comemoração realizou-se na mesma. Da mesma forma que, como bem lembrou o PR, o Parlamento nunca fechou durante esta crise, também haverá celebrações do 10 de Junho, do 5 de Outubro e do 1ª de Dezembro, datas institucionais que não são pertença de ninguém em particular, mas pertencem aos portugueses em geral e por isso devem ser celebradas.
Foi bom seguir os discursos, ainda que à distância, desta vez forçada por um confinamento no estrangeiro. Nada a que não estivesse habituado, de resto.
Todos falaram. Até o fascista. Ainda bem. Prova que a democracia está forte e todos têm direito a expressar as suas opiniões, mesmo quando delas discordamos.
Confirmei aquilo de que suspeitava: estou imunizado contra o vírus do fascismo.   
Fascismo, nunca mais.
25 de Abril, sempre!

2020/02/10

O Vírus Fascista

Uma nova epidemia alastra pelo Mundo: o coronavírus.
De acordo com o mais recente balanço, teriam morrido 909 pessoas, a maior parte delas na China, o país onde o vírus foi detectado. O número de infectados ultrapassou os 40.235 e há casos confirmados em países europeus, como a Alemanha, Finlândia, Suécia, Bélgica, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Portugal. Uma pandemia, apesar dos cuidados tomados pelas autoridades chinesas que, numa primeira fase, tentaram silenciar o médico Li Wengliang (a primeira pessoa a alertar as autoridades para existência deste vírus) que também acabaria por morrer, vítima de contaminação. Ontem mesmo, surgiu a informação sobre outro cidadão chinês, que divulgou notícias sobre a forma de actuação das autoridades em Wuhan (cidade onde teve origem o surto) que, entretanto, se encontra desaparecido. O advogado Chen Qiushi, conhecido por fazer denúncias de questões sociais, nas redes sociais, terá sido colocado em "quarentena forçada". Um vídeo, sobre o isolamento forçado de Chen Qiushi, tornou-se viral na Weibo, uma rede social chinesa, com muitos utilizadores a pedirem ao governo que liberte o advogado. Não está fácil a vida na China onde, para além da epidemia provocada pelo coronavírus, o estado totalitário não permite aos cidadãos a informação a que têm direito. Um clássico.
Tão ou mais grave que o coronavírus, é a ideologia fascista, que os populistas de todas as matizes procuram disseminar, umas vezes subtilmente, outras à descarada. É o caso do Brasil, um verdadeiro "case study" nesta matéria, onde os atropelos aos direitos humanos há muito ultrapassaram todos os limites.
Disso mesmo, dão conta mais de 2000 artistas, intelectuais e cientistas, que publicaram um baixo-assinado nos principais jornais de referência internacional, apelando à condenação do regime e à solidariedade com o povo brasileiro. Entre os nomes conhecidos estão Sting, Noam Chomsky, Willem Dafoe, Caetano Veloso, Chico Buarque, Philip Glass, Sebastião Salgado, Saori Tukado, Paulo Coelho, Petra Costa, Boaventura Sousa Santos, Valter Hugo Mãe, Jean Wyllys, Pilar del Rio, Mia Couto, Maria Gadu, José Luís Peixoto, Maria de Medeiros, Helder Costa, João Pina Cabral, etc...
Resumimos algumas das passagens do baixo-assinado:
"As instituições democráticas do Brasil, estão sob um ataque, desde que a administração de Jair Bolsonaro, ajudado pelos seus aliados da extrema-direita, tem sistematicamente minado as instituições culturais, científicas e educacionais  do país, além de toda a imprensa adversa.
Inicialmente, membros do ex-partido político de Bolsonaro (PSL), lançaram uma campanha para encorajar os jovens estudantes a filmarem os seus professores e a denunciarem a "indoctrinação ideológica". Esta campanha, conhecida como "escola sem partido", criou um sentimento de intimidação e medo nas instituições do país, que saíu há pouco mais de 30 anos de uma ditadura militar.
No mês passado, Bolsonaro sugeriu que o estado deveria censurar livros do programa escolar e substitui-los por textos que defendessem valores conservadores. No ano passado, enquanto a Amazónia ardia sem controlo, a administração retaliou contra cientistas que ousaram apresentar provas das queimadas e da deflorestação, provocadas pelos madeireiros. Foi o caso de Ricardo Gabão, ex-director do INPE (Instituto Nacional de Investigação do Território), demitido após ter divulgado dados obtidos por satélite, que comprovavam a deflorestação acelerada da Amazónia.
Também no ano passado, a administração despediu o director de "marketing" do Banco do Brasil, Delano Valentim, por este ter lançado uma campanha de promoção da diversidade e de inclusão.
O governo também é hostil aos "média". No dia 21 de Janeiro deste ano, o Ministério Público Federal abriu uma investigação sem provas, contra o jornalista Glenn Greenwald e seus colaboradores, por alegada conspiração e espionagem de telemóveis das autoridades brasileiras. A acusação - um claro ataque à liberdade de imprensa - foi uma resposta à série de factos comprovados por Greenwald e publicadas pela agência Intercept, sobre a corrupção existente nos círculos próximos do presidente, entre os quais os membros da sua família.
Este, não foi um caso isolado.  Os representantes do governo, desde os tribunais regionais à polícia militar, encarregaram-se de defender Bolsonaro e impedir a imprensa livre. Só em 2019, foram relatados 208 ataques aos "média" e jornalistas no Brasil.
No dia 16 de Janeiro passado, Bolsonaro e o secretário-especial para a Cultura, Roberto Alvim, apresentaram em conjunto um filme sobre os seus planos ideológicos para o país, onde elogiavam a deriva conservadora e censória da cultura. No dia seguinte, Alvim, foi ainda mais longe: durante um vídeo-fragmento, onde anunciava um novo prémio para as Artes, fez alusões aos princípios nazis e utilizou frases do célebre propagandista nazi Joseph Goebbels. Posteriormente, devido à celeuma provocada no país e a nível internacional, Alvim seria demitido. No entanto, o ministro de Bolsonaro, foi apenas o seu mensageiro.
Instituições públicas, que representam a herança cultural brasileira, como o Conselho Superior do Cinema, Ancine, O Fundo do Audiovisual, a Biblioteca Nacional, O Instituto da Herança Histórica e Artística, a Fundação Palomares para a Cultura Negra, foram igualmente censuradas, tendo sofrido cortes nos apoios estatais e outras formas de pressão política.
Petra Costa, realizadora do filme "No Fio da Democracia", este ano nomeada para os óscares, foi criticada num "tweet" da secretaria de comunicação do governo por, alegadamente, ter mostrado uma face menos "simpática" da governação Bolsonaro.    
O governo de Bolsonaro, continua a trabalhar para fazer regredir importantes conquistas das últimas décadas: entre 2003 e 2017, a proporção de estudantes negros que entrou para a universidade aumentou em 51%. Bolsonaro quer diminuir esta percentagem.
Os ataques às minorias étnicas e à comunidade LGBTQ, continuam a aumentar, enquanto são ignoradas a violência e a criminalidade das milícias para-militares de extrema-direita.
Este é um governo que não tem um plano de desenvolvimento para o seu povo.
Pelo contrário, o governo combate qualquer sinal de progresso, nega o aquecimento global, os incêndios na Amazónia, a deflorestação e a diminuição do "habitat" dos povos índios, confinados a cada vez menos território. Uma das suas últimas directrizes, foi a de enviar missionários para ensinar religião às tribos índias.
A lista de livros, que devem ser retirados do programa escolar, inclui 43 obras, das quais 19 de autores brasileiros, entre os quais Rubem Fonseca, Ferreira Gullem (prémios Camões), Machado de Assis, Carlos Heitor Sony, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade, Euclides da Cunha, mas também Kafka, Edgar Alan Poe, entre muitos outros. Chico Buarque de Holanda (prémio Camões 2019) a quem Bolsonaro recusa entregar o prémio, virá recebê-lo a Portugal no dia 25 de Abril.
Esta lista, que deve constar do "index" escolar, é da autoria de Marcos Rocha, secretário de educação da Randónia, um ex-coronel da polícia militar, filiado no PSL, onde militou Bolsonaro. Perante a divulgação da lista, o documento foi retirado e considerado sigiloso pelo governo, ainda que não tivesse sido desmentido".
Faltaria ainda referir as ridículas afirmações da ministra de educação que considerou "o sexo fora do casamento, uma coisa de esquerda", ou as campanhas nacionais de "aconselhamento sexual", para pessoas acima dos 16 anos...
Da mesma forma que o vírus, a demência parece ter afectado os brasileiros. Mas, Bolsonaro, não está isolado. A apoiá-lo, estão 55 milhões de votantes, que não devem ser desvalorizados. Como escreveu um famoso escritor:
"Deve valorizar-se a opinião dos estúpidos: são a maioria". Lev Tolstoi (1828-1920)


 
 
     

2019/08/14

A "salto" por terras beirãs


Vieram do país e do estrangeiro, ainda que todos tenham estado exilados por recusarem o fascismo e a guerra colonial. Eram cerca de setenta, entre homens e mulheres, irmanados na mesma causa: a evocação da passagem a "salto", pela fronteira mais emblemática de Portugal, nos anos em que a península ibérica era governada por ditaduras.
O encontro, denominado "Jornadas sócio-culturais da AEP61-74", decorreu nos dias 10 e 11 de Agosto em Vilar Formoso, foi organizado pela Associação de (ex)Exilados Políticos e teve o apoio da Câmara Municipal de Almeida, da Junta de Freguesia de Vilar Formoso e do Ayuntamento de Fuentes de Oñoro.
Do programa, no primeiro dia, destaque para uma entrevista colectiva à Rádio Fronteira, que dedicou parte substancial da sua emissão ao evento; o filme "O Trilho do Poço Velho", de Luís Godinho, sobre a experiência de exilados que passaram a "salto" por esta fronteira; um debate, que contou com a presença dos historiadores Irene Pimentel e José Pacheco Pereira e da ex-deputada europeia Ana Gomes, que abordaram a problemática dos refugiados de então, quando comparada com a actual situação na Europa; os cantores Manuel Freire e Tino Flores, que preencheram a parte lúdica do evento com poemas e canções; e uma visita ao Museu da Paz/Aristides de Sousa Mendes, sobre os refugiados judeus da 2ª guerra mundial, instalado na antiga estação de combóios da vila.
O segundo dia, seria dedicado a percorrer parte do antigo "trilho", que atravessava a fronteira luso-espanhola e ao descerrar de uma placa evocativa da passagem a "salto", efectuada por milhares de jovens portugueses, que recusaram a guerra, optando pelo exílio.
Uma justa, ainda que tardia homenagem, a todos aqueles que, de alguma forma, contribuiram para a denúncia e recusa de uma ditadura ignóbil, que governou Portugal durante 48 anos. Para que a memória, não se apague.

2019/07/31

Criadores e Criaturas

Maus de Art Spiegelman
Que o Mundo pode ser um lugar perigoso, já sabíamos há muito tempo.
Provavelmente, desde que o homem é "sapiens" e iniciou a luta pelo seu território.
Com altos e baixos, a História foi-se fazendo, sempre de maneira diferente, mas nem por isso menos surpreendente, uma vez que a História (em princípio) não se repete. Ou melhor, como dizia o filósofo, repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa.
Tudo isto, a propósito da recente "onda" de ditadorzecos, uns exercendo o poder de facto e outros aspirando a tal, que têm surgido um pouco por todo o lado. O processo vem de trás, mas o "Brexit", a eleição de Trump e a ascensão dos populismos na Europa, são sinais inequívocos desta tendência regressiva. Juntem-se, a estes exemplos, a China de Xi Jinping, onde o poder é exercido com mão de ferro; a autocracia mal disfarçada de Putin; a democracia musculada de Erdogan; a demência de Duterte; ou o regime proto-fascista de Bolsonaro, para termos uma ideia do que pensam e fazem tais persongens.
Ainda que tenham características comuns, a verdade é que o poder de uns (Trump, Xi, Putin...) é incomensuravelmente maior do que outros, os quais representam um perigo regional, que não deve ser subestimado. Estão neste caso, Erdogan, Duterte, Maduro ou Bolsonaro.  
Como chegámos aqui?, é uma pergunta recorrente, feita pelos mais diversos analistas. As causas são várias, pois nem todos os países foram confrontados com o mesmo tipo de problemas que poderão estar na origem de tal fenómeno: dos efeitos da recente crise económico-financeira, ao terrorismo internacional, passando pela crise dos refugiados e emigrantes (ligada à islamofobia e ao racismo crescente), são múltiplas as explicações para o recrudescimento do autoritarismo, da xenofobia e da "supremacia branca", que existe em todos os regimes populistas mencionados.
Em artigo recente, Nuno Severiano Teixeira ensaia uma explicação para o ataque a que as democracias estão, actualmente, sujeitas: "Mas, sejam quais forem as razões, uma coisa é certa: a liberdade e a democracia estão sob assalto e globalmente em retrocesso. Mais: se olharmos para esse retrocesso, uma coisa parece evidente: a queda das democracias já não é o que era. Dantes, caíam de um só golpe, súbita e estrondosamente, à força de armas. Era o tempo dos golpes de Estado. Hoje, caem lenta e silenciosamente. Na verdade, não caem, vão caindo, à medida que os incumbentes usam os mecanismos democráticos para subverter a própria democracia - isto é, as democracias já não caem pelo método violento do derrube, mas sim pelo método incremental da erosão" (in "Público", d.d. 31.7.19).
Se dúvidas houvesse, bastava olhar para o que se passa nos Estados Unidos - portanto, uma democracia consolidada - onde o populista Trump faz diariamente discursos racistas e apelos à expulsão de congressistas de origem estrangeira (ele, cuja família é de origem escocesa!) entre ataques descabelados ao reverendo Al Shappton, por este ousar criticá-lo; ou, mais a Sul, o que se passa no Brasil - uma democracia desde 1985 - onde o mentecapo Bolsonaro protege garimpeiros que querem destruir o Amazonas e as comunidades índigenas, enquanto continua a negar a existência da ditadura militar, que governou o país durante 21 anos!
Porque as democracias não são todas iguais, diria que Trump (sendo mais perigoso) é mais controlável, devido ao sistema de "checks and balances" existente na democracia americana; Já Bolsonaro (um ex-militar ignaro e fascistóide) é suportado por uma bancada de evangélicos, ruralistas e militares, que detém a maioria num congresso, onde as leis são aprovadas através da compra de votos.  
Uma coisa é certa: todos estes personagens - criadores e criaturas - sairão de cena, mais cedo ou mais tarde. Quanto mais não seja, pela inevitabilidade da morte. Também, porque, aos períodos de autoritarismo, sempre sucedem períodos de democracia. Ninguém, em consciência (a menos que seja masoquista) deseja viver em ditadura. O apelo da liberdade, será sempre mais forte.  

2019/05/02

Espanha: Recuperar a memória


Dia 27 de Abril, 12 horas da tarde. Uma vintena de homens e mulheres, concentram-se junto à entrada principal do cemitério de S. Fernando, em Sevilha. Transportam cartazes e fotos de familiares, que dispõem ao longo do gradeamento, enquanto um dos presentes coloca, a seu lado, uma bandeira republicana. Motivo: assembleia mensal do núcleo local da Associação de Recuperação da Memória Histórica (ARMH) que, excepcionalmente, reúne naquele lugar, devido à proibição de manifestações públicas em véspera de eleições, "dia de reflexão". Têm mais de cinquenta anos em média e partilham histórias, relacionadas com amigos e familiares desaparecidos, a maior parte deles executados e enterrados em valas comuns, durante a ditadura franquista. Muitas dessas vítimas estão neste cemitério, em 8 dessas valas, duas das quais já foram prospectadas. A reunião tem lugar em frente à vala 7, onde se encontram "dissidentes e judeus". Um verdadeiro "buraco negro", silenciado pela repressão fascista que, mais de 40 anos depois, permanece um dos temas malditos da democracia espanhola. A razão deste "silêncio", conhecido pelo "pacto del olvido", reside na Lei de Amnistia, aprovada por todos os partidos parlamentares em 1977, segundo a qual "todos os funcionários e agentes implicados nas violações de direitos humanos durante o regime franquista, são amnistiados". O "ponto de retorno" nesta situação, dá-se a 5 de Março de 2000, quando, durante uma investigação para escrever um livro sobre a história do seu avô, Emilio Silva encontrou um homem que sabia onde o tinham enterrrado. O avô, republicano, fora assassinado por falangistas em 1936. Com outros 12 presos, que tiveram a mesma sorte, foi enterrado numa vala comum, em Priaranza del Bierzo, Léon. Conseguiu exumá-lo em Outubro desse ano, sem ajuda do Estado e com pouco eco mediático. Mas, o primeiro passo estava dado e a exumação dos que ficaram conhecidos pelos "Os 13 de Priaranza", abriu o debate na sociedade espanhola.
"Quando abrimos a vala, não estávamos conscientes do que ia acontecer, mas aquilo despertou o interesse da sociedade pela memória histórica, sem medos e com argumentos legítimos", conta Francisco Etxeberria, médico forense e professor da Universidade do País Basco, responsável pela exumação. "Que em Espanha existissem valas comuns, no monte, com pessoas assassinadas, cujo destino nunca fora investigado, despertou uma ideia de injustiça", explica.         
A partir daí, Etxeberria começou a receber telefonemas de pessoas que procuravam os corpos dos familiares, vítimas da guerra civil ou da ditadura e que faziam parte dos 115.000 desaparecidos do conflito. "A Espanha tinha milhares de valas comuns e ninguém falava disso. Eu próprio ignorava que houvesse gente enterrada fora dos cemitérios. Foi um choque", recorda.
Desse choque, nasceu um movimento civil que deu origem à ARMH, liderada por Emilio Silva e que se dedica à localização e exumação de valas comuns e a pressionar para conseguir o que estipula o direito internacional para as vítimas: verdade, justiça e reparação.
Em 2007, o governo de Rodriguez Zapatero aprova a Lei de Memória Histórica que, pela primeira vez, condena o franquismo de forma explícita. Entre outras coisas, estipulava uma "reparação moral das vítimas"; declarava a "ilegitimidade dos tribunais civis da guerra civil e das condenações por motivos políticos, ideológicos ou religiosos"; autorizava "a localização e a identificação de valas comuns"; determinava "a retirada dos símbolos de exaltação franquista"; definia que o Vale dos Caídos "não poderia exaltar a guerra civil ou a ditadura"; e garantia "o acesso a todos os arquivos públicos".
A Lei, seria contestada à direita (PP), que receava pelo julgamento de todos os responsáveis dos crimes franquistas e pela esquerda (PSOE) mais crítico, apesar da Lei nunca pôr em causa o "status quo" de uma elite franquista que continuava a existir. A Lei, seria igualmente criticada por não se adequar ao direito internacional, não satisfazer o direito da verdade e a reparação e justiça das vítimas.
Foi precisamente para tentar satisfazer esse direito à justiça que, em 2008, o juíz Baltasar Garzón abriu um inquérito e declarou que os abusos cometidos se enquadram no contexto dos crimes contra a humanidade. O Juíz atribuiu a Franco e a outros 34 dirigentes do regime, um plano de repressão e extermínio dos opositores, que terminou com mais de 100.000 desaparecidos (115.000 segundo a ONU) e se enquadra nos crimes contra a humanidade.  A Espanha é o 2º país do Mundo, depois do Cambodja, com o maior número de desaparecidos.  
O Ministério Público recorreu e pediu a anulação do caso, por considerar que os crimes prescreveram ao abrigo da Lei de Amnistia, de 1977. Fechava-se, assim, a porta ao julgamento.
Para Garzón, "a Lei da Amnistia, foi usada por sectores políticos e judiciais para evitar a investigação sobre os crimes do franquismo. É uma interpretação errónea, porque os crimes de lesa-humanidade não prescrevem". Afastado dos tribunais, após ter instaurado um processo ao PP por corrupção (caso Gurtel), o juíz Garzón ficou impedido de exercer a magistratura até 2012, quando foi absolvido. Entretanto, em 2010, dá entrada, num Tribunal em Buenos Aires, uma denúncia, que acusa o Estado espanhol de crimes de genocídio e contra a humanidade, com base no caso de Dario Rivas (um galego exilado na Argentina, cujo pai fora assassinado em 1936 e cujas ossadas foram recuperadas em 2005, juntamente com mais 318). As diligências do colectivo argentino de juízes (dirigido por Maria Servini), para julgarem os responsáveis espanhóis na Argentina, através de um processo de extradição, esbarraram sempre na recusa por parte do governo de Rajoy. Até hoje, nenhum dos imputados foi detido ou extraditado, apesar das pressões por parte de organismos como a ONU. O argumento era sempre a Lei de Amnistia de 1977. Foi este caso, denominado como a "Querella Argentina", que esteve na origem do celebrado documentário "El Silencio de Otros" de Almudena Carracedo e Roberto Bahar (2018). O filme, nomeado para diversos prémios, entre os quais o prestigiado Goya e o Óscar, para o melhor documentário estrangeiro, pode ser visto, actualmente, em diversas salas portuguesas.
Dezanove anos após a sua criação, a ARMH dispõe hoje de delegações em todo o território espanhol, conta com mais de 5000 voluntários (entre arqueólogos, antropólogos, médicos forenses e estudantes), tendo contribuido para a localização de 400 valas comuns e exumado mais de 150, num total de 1400 vítimas do franquismo. Uma tarefa ciclópica, muito longe de terminada e sobre a qual pesam dificuldades de todo o tipo, desde as orçamentais às políticas, os principais obstáculos à recuperação e preservação de uma memória que muitos pretendem esquecer.      
  
  

2019/03/28

O eterno retorno do fascismo (6)


Os recentes actos eleitorais, em países como Espanha e Holanda, respectivamente para o parlamento andaluz e para a 1ª câmara dos Países-Baixos, confirmaram uma tendência europeia dos últimos anos: o crescimento de partidos populistas de direita, fora do "mainstream" partidário, que defendem ideias nacionalistas, proteccionistas, xenófobas, racistas e anti-feministas. Têm, ainda em comum, serem formações oriundas da direita tradicional (conservadora, cristã e liberal), que acusam de fazerem parte do "sistema" ao qual, afirmam, não pertencer (!?).
É o caso do VOX (Espanha), fundado em 2013 por dissidentes do PP, que acusam de estar minado pela corrupção e de ser pouco firme na questão catalã, considerada uma ameaça para a unidade nacional. Após um período de hibernação e de pouca expressão nacional (elegeu 1 deputado provincial), o VOX cresceria 20% em 2017, devido ao atentado terrorista em Barcelona e ao processo independentista catalão. Embalado por este êxito e aproveitando a realização de eleições intercalares na Andaluzia, o novo partido surgiria na praça pública com um programa "renovado", que expressa bem a ideologia que defende: condena o aborto, condena o matrimónio de pessoas do mesmo sexo, é contra a exumação dos restos mortais de Franco, é contra a Lei de Memória Histórica (que denuncia os crimes do franquismo), é contra o islão, a favor de imigração por quotas, contra o multiculturalismo, defende a centralização do estado e o nacionalismo espanhol. Com este programa, apresentou-se às eleições regionais de Dezembro último, tendo conquistado 10% dos votos e eleito 12 deputados para o parlamento andaluz. Esta votação, permite-lhe apoiar a coligação de direita (PP-Ciudadanos) que, desta forma, passou a ter maioria no parlamento regional.
Já na Holanda, o Forum voor Democratie (FvD), surgido em 2016 a partir de um "think tank" de inspiração neoliberal, conquistou 13 dos lugares em disputa para a 1ª câmara holandesa, tornando-se o partido mais votado nas recentes eleições de 20 de Março. Entre 2017, quando elegeu dois deputados para o parlamento nacional, e 2019, conheceu diversas purgas, devido à saída de alguns membros prominentes, que acusaram o partido de ser pouco democrático. Hoje, o FvD, está fortemente centralizado à volta da figura carismática do seu líder e ideólogo, T. Baudet, um filósofo de formação, cujo programa, defende menos dinheiro para as questões climatéricas, menos imigração, menos Islão, corte nos impostos, sobre as doações e as rendas, alterações radicais no ensino obrigatório, expansão das forças armadas, privatização da emissora nacional pública e reforma do sistema eleitoral. O FvD, é ainda pró-Nexit (saída da União Europeia), defende uma cultura de referendo, quer mais controlo fronteiriço e proibição do véu islâmico. Um programa populista de direita, que conquistou votos de uma grande franja eleitoral, nomeadamente da população mais idosa e dos descontentes com a política de imigração holandesa, esta semana posta em causa com um atentado terrorista cometido na ante-véspera das eleições. Contrariamente ao solicitado pelo governo (suspensão da campanha eleitoral, num país em luto), o FvD viu aqui uma oportunidade para granjear mais votos, tendo sido o único partido a fazer campanha no dia seguinte ao atentado. Entre oportuno e oportunista, que venha o diabo e escolha...
Após diversas vitórias, ainda que parciais, em países democráticos como o Reino Unido, a França, a Suécia e na Austria, na Polónia e na Hungria (onde são governo), os partidos populistas de extrema-direita, crescem na Europa onde, apenas Portugal e Irlanda, são agora as excepções.
Da Russia de Putin, à Turquia de Erdogan, das Filipinas de Duterte à Venezuela de Maduro, passando pela América de Trump e pelo Brasil de Bolsonaro, a democracia está em retrocesso e não se trata de uma opinião. Estas são, de resto, as conclusões do último relatório Freedom in the World, publicado no passado mês, pela Freedom House, uma organização independente, sem fins lucrativos, que publica anualmente um relatório sobre o estado da democracia no Mundo.
Em 2018, 68 países desceram nos índices de liberdade, enquanto apenas 50 subiram. Desceram a Hungria (suspensa pelo Parlamento Europeu por não respeitar os direitos humanos), a Sérvia, a Polónia, a Nicarágua e o Uganda. Subiram, a Etiópia, a Malásia e Angola, entre outros.
Não é o fim do Mundo, mas é bom saber reconhecer os sinais. O fascismo, ainda que sob outras designações, está em marcha e ignorá-lo pode ser fatal.      
          




2018/10/29

Bye Bye Brasil...


... É o título de um dos mais célebres filmes brasileiros da década de 1970, quando a ditadura militar governava e, para além da repressão e da tortura, vendia o país a retalho a multinacionais estrangeiras.
O filme, uma comédia de Carlos Diegues (1979), sobre as peripécias de uma família de saltimbancos em viagem pela Transamazonia, mostra um país de contrastes e desigualdades, tendo como pano de fundo a luta pela sobrevivência dos seus habitantes e a exploração desenfreada das suas riquezas naturais.
Sobre a obra escreveu, então, o crítico Cassiano Terra Rodrigues no "Correio Cidadania":
"Bye Bye Brasil é um filme de um país que está deixando de ser o que por muito tempo foi para se tornar não se sabe o quê...". Lembrei-me desta citação, quando assistia ontem à emissão especial de um canal televisivo sobre o acto eleitoral brasileiro.
Ainda que o resultado final não tenha sido propriamente uma surpresa (todas as projecções apontavam neste sentido), o facto de 57 milhões de brasileiros terem votado num bronco fascista é por demais preocupante para deixar indiferente qualquer democrata.
O Brasil (e por extensão, a América Latina) corre o risco de um retrocesso civilizacional, como não se via desde a década de setenta, quando a maior parte do continente sul-americano era governada por juntas militares, cuja política assentava na repressão, na tortura e na morte dos seus oponentes. Foi assim no Brasil, como no Chile e na Argentina, no Uruguay, como no Paraguay... O tempo da "operação Condor", idealizada por Kissinger e executada com o apoio da CIA. Toda a gente está lembrada disso e existem quilómetros de documentação escrita e filmada sobre os "anos de chumbo" que se abateu sobre a América do Sul, certamente um dos períodos mais negros do pós-guerra no Mundo Ocidental. Já lá vão mais de trinta anos e, desde então, muita coisa mudou no Mundo, a começar pelo Fascismo clássico que, não tendo desaparecido, ganhou, entretanto, outras formas. Com a queda do "muro de Berlim" e a implosão da União Soviética, o "papão comunista" pode ter desaparecido, mas a apetência pelas riquezas naturais, não. A "globalização" que se seguiu, ao contrário do que muitos profetizavam, não trouxe mais riqueza para todos e, muito menos, melhor distribuição dessa mesma riqueza. Os ricos aumentaram os seus proveitos (50% da riqueza do Mundo está, hoje, nas mãos de 1% da população mundial) e o capitalismo, agora menos regulado, tornou-se ainda mais predador do que já era.
A desregulação do sistema (que originou uma transferência do capital produtivo para a esfera do capital especulativo) levou os agentes económicos a procurar outras formas de intervenção que, em períodos de crescimento económico e em sistemas democráticos estáveis dispensa intervenções "musculadas", mas que, em regimes fracos, podem ser equacionadas. 
O que se está a passar no Brasil, como de resto noutras partes do Mundo - do Brexit inglês, à América de Trump, passando pela Hungria de Órban, ou à Austria e à Itália, onde governam  ditadores do "novo tipo" - não se trata de um hiper-fenómeno, mas de uma tendência que tem vindo a alastrar nos últimos anos. É verdade que o fascismo de hoje, tem características diferentes daquelas enunciadas por Eco no ensaio "Como reconhecer o fascismo" (Relógio de Água, 2017) no qual, o conhecido semiólogo italiano, utiliza 14 arquétipos para definir a "besta". No entanto, bastou ter ouvido Bolsonaro durante a campanha eleitoral (durante a qual se recusou a debater com o oponente) para reconhecer os principais traços de um ditador. Está lá tudo: o culto da tradição, a rejeição do modernismo, o irracionalismo, o sincretismo, o medo da diferença, o apelo às classes médias frustradas, a obsessão da conspiração, o nacionalismo, a deslocação do registo retórico, o apelo à violência, o desprezo pelos fracos, o culto dos heróis, o machismo, o populismo, a "neolíngua". Não por acaso, Bolsonaro é apoiado pelas forças armadas (bala), pelas seitas evangélicas (bíblia) e pelos grandes agrários (boiada), os três "Bs" que sustentam a sua candidatura. Que esperar de um candidato que elogiou a ditadura e, em pleno congresso, deu vivas a Ustra, o torturador-mor da junta brasileira; que disse que a ditadura matou pouca gente e que Fernando Henrique Cardoso (ex-presidente da República) devia ter sido morto; que as mulheres deviam ganhar menos que os homens e que as pobres deviam ser esterilizadas porque têm muitos filhos; que bandido morto é bandido bom; que quer armar a população; e que não gostaria que um filho seu fosse homosexual, entra outras barbaridades? Bom, esse candidato é Bolsonaro, ontem eleito presidente da maior democracia da América do Sul. Os brasileiros que nele votaram, não podem dizer que não sabiam. Todas estas declarações estão gravadas e foram amplamente noticiadas em todo o Mundo. Tiveram o apoio de mais de 50 milhões de votantes, muitos conscientes do que queriam, outros sem consciência alguma. Que se seguirá? Não sabemos, mas parece que governar o Brasil parece, agora, estar tão distante, como no filme de Diegues.
Nota final: em Portugal, os imigrantes brasileiros superaram os 55% atingidos pelo candidato fascista na média final. Mais de 64%, só em Lisboa! É obra. Perante tais números e partindo do princípio que estes "bolsonaristas", agora, já não têm nada a temer e podem regressar à pátria, faço, desde já, uma sugestão: trocá-los por um número igual de democratas brasileiros. Desta forma, ganhamos todos.     
      

2018/10/23

O eterno retorno do fascismo (5)


O fascismo cavalga sempre a ignorância. A ignorância e o medo.
As desigualdades sociais, a religião, a criminalidade e a corrupção, explicam o resto.
Num país de "castas", que dois séculos de independência não aboliram e onde o patrocinato e o clientelismo são regra, a corrupção é transversal e tornou-se um "modo de vida".
Não é de espantar esta reacção, contra elites e governantes corruptos que, não só não resolveram os problemas mais urgentes da população como, em muitos casos, os agravaram. Obviamente que a culpa não foi só do PT. Mas, agora, ninguém quer saber disso...
O apelo ao "homem forte" é uma constante da História em tempos de crise moral e social. Nomeadamente, em sociedades onde o estado é fraco. Onde o estado é fraco, a criminalidade aumenta (lei sociológica).
Sem esperança de dias melhores, numa sociedade com índices de criminalidade que rondam os 60000 homicídios/ano, os brasileiros querem "segurança" que - pensam eles - só um governo autoritário pode garantir.
A "lavagem cerebral" das seitas evangélicas, ampliadas pelas "fake news" e manipuladas pelos média, ao serviço de interesses vários, contribuem para o caos instaurado.
A alienação e o ódio, são totais.
Entrámos (entraram, os brasileiros) na fase da irracionalidade.
Nada é previsível e o pior pode acontecer.
Uma tragédia anunciada, o Brasil.

2018/10/03

O eterno retorno do fascismo (4)

EPA/SEBASTIAO MOREIRA
A menos de uma semana das eleições brasileiras, os dados parecem estar lançados: nenhum dos candidatos à presidência reunirá os votos necessários para ganhar à primeira ronda, pelo que será necessária uma segunda volta (prevista para o último fim-de-semana de Outubro), para saber quem irá ocupar o palácio do Planalto.
Os candidatos mais bem posicionados para passarem à segunda volta, são: Jair Bolsonaro, que representa a extrema-direita mais reaccionária e troglodita do país (apoiado pelos militares saudosistas da ditadura, pela alta-finança e pelas igrejas evangélicas, das quais, a IURD de Edir Macedo, é a mais conhecida); e Fernando Haddad, lançado à última hora pelo PT, em substituição de Inácio Lula, impedido de concorrer por se encontrar preso. 
De acordo com as últimas sondagens, Bolsonaro passará à segunda volta com cerca de 30% dos votos, enquanto Haddad, com cerca de 20%, já se distanciou dos outros concorrentes, ainda que continue longe dos 38% atribuídos a Lula, em finais de Agosto.
Perante este cenário e partindo do princípio que a maioria dos votantes não se revê em nenhum dos dois potenciais candidatos, resta saber em quem votarão os brasileiros (cerca de 50%), que rejeitam o fascismo e o PT.  Porque é disso que se trata, goste-se ou não da escolha.
Uma terceira alternativa, seria a abstenção, mas a constituição brasileira não o permite e o voto é obrigatório. Logo, quem não votar é multado e quem votar em branco favorece o candidato mais bem posicionado, neste caso Bolsonaro. Para mim, que defendo a democracia, a escolha seria fácil. Da mesma maneira que, se fosse americano, teria votado em Hillary Clinton, um mal menor relativamente ao escroque Trump.
Para grande parte da classe média brasileira, o "problema" parece residir no PT, que continua a gerar anti-corpos, muito por causa da corrupção generalizada, da criminalidade e da recessão económica, que o país atravessa de há anos a esta parte. Acontece que, estes problemas, sendo genuínos e reais, não se devem exclusivamente aos governos PT, por uma razão simples: o Brasil é, de há séculos, uma sociedade de "castas" e clientelas, onde a corrupção se tornou "um modo de vida" e o sistema de subornos e nepotismo criou e manteve uma das sociedades mais desiguais do planeta. Esta herança de séculos, que o PT tentou contrariar (sem nunca tocar nos privilégios das elites!), através de programas de combate à desigualdade - elogiados pela ONU, pelo PNUD, pela UNESCO e pelo Banco Mundial - não foi, contudo, suficiente para evitar uma crise social e económica. Os sucessivos escândalos de suborno e corrupção (Mensalão, Odebrecht, Petrobras, etc.) demonstraram à saciedade, que algo estava "podre no Brasil" e não era pouco. O processo de investigação, conhecido por "Lava Jato" (uma alusão à "lavagem" de dinheiro desviado) deu cabo das últimas esperanças do brasileiro médio, pouco politizado e manipulado por uma imprensa sensacionalista, que deixou de acreditar nos políticos. O desemprego galopante, a inflação e a recessão, que se seguiram, fizeram o resto. Perante a descrença total e sem soluções à vista, a panaceia para todos os males parece ser um homem "forte", de preferência militar. Falta-lhe o bigode, mas o filme é conhecido.
Alguém, nas redes sociais, dizia por estes dias que existem dois tipos de anti-petistas: os ideológicos e os patológicos. Penso que, a maior parte, pertence ao segundo grupo: não interessa em quem se vota, desde que o PT perca! No limite, muitos deles, nem gostarão de Bolsonaro, mas como é o único que pode impedir a vitória do PT, então, votam nele (!?).
Há claro, forças interessadas na sua vitória: desde logo os militares, saudosistas do tempo da ditadura (1964-1985) que vêem aqui uma oportunidade de sair dos quartéis; depois, há os evangélicos de diversa plumagem, que dão indicação de voto aos "fiéis", argumentando que o capitão psicopata defende os valores da  família e do cristianismo (!?); finalmente, a finança, que controla a banca, as grandes empresas e domina a comunicação social (Globo, Veja, Data Folha, TV Record, etc.).
Ora a finança (vulgo "mercados") está interessada numa ditadura, a melhor forma de controlar a economia. A "economia" sempre se deu bem com o fascismo, pois é a melhor maneira de manter os trabalhadores submissos. Claro que o fascismo tem a "perna curta" e, no médio prazo, acabará por cair, mas isso não interessa nada aos neoliberais, desde que o "mercado" funcione. Por alguma razão, Bolsonaro já anunciou que não percebe nada de economia (em rigor, ele não sabe nada de coisa nenhuma) e, por isso, nomeará para "ministro da fazenda", o célebre Paulo Guedes, um rapaz da "Escola de Chicago" que, em tempos, foi conselheiro de Pinochet...
Conheço, inclusive, brasileiros cristãos, casados e com filhas, que vão votar em Bolsonaro, apesar do seu discurso onde defende a pena de morte, a tortura, a violação, a misoginia, a homofobia e o racismo. Para essas pessoas, isso não interessa nada. O que interessa, agora, é impedir que o PT volte ao poder. Depois, logo se vê...
É como a história de Mephisto (Fausto): vendeu a alma ao diabo, acreditando na sua salvação.
Depois...fodeu-se!

2018/08/30

O eterno retorno do fascismo (2)


Dois acontecimentos, sem ligação aparente, marcaram a agenda política europeia desta semana: as violentas manifestações de grupos neo-nazis na cidade alemã de Chemnitz e o encontro entre os líderes dos governos de Itália (Salvini) e da Hungria (Orbán), na cidade italiana de Milão.
O primeiro caso, seguiu-se a um incidente em que um alemão foi esfaqueado e morreu no hospital na sequência de ferimentos, num episódio que ainda está por esclarecer. A polícia prendeu dois suspeitos, um iraquiano de 21 anos e um sírio de 22 anos. À morte do cidadão, seguiu-se um "rastilho" de rumores nas redes sociais (de que a vítima teria tentado defender mulheres de assédio dos estrangeiros) e uma manifestação de nacionalistas, que acabou com perseguições a "pessoas que tivessem uma aparência não-alemã". As imagens desta acção persecutória foram registadas nas redes sociais e mobilizaram as forças de esquerda da cidade, que convocaram uma contra-manifestação "em defesa do bom nome e cosmopolitismo de Chemnitz, por oposição à xenofobia dos grupos nacionalistas". O que se seguiu, foi uma batalha campal, que se prolongou por dois dias, com um balanço final de 20 feridos, entre os quais dois polícias, e a prisão de 10 manifestantes acusados de fazerem a saudação nazi, ilegal na Alemanha. O caso, que continua a ser discutido nos media, veio alertar para o crescimento dos movimentos nacionalistas e xenófobos naquele país, que têm maior expressão nos territórios da antiga Alemanha de Leste. A polícia alemã também não escapou a críticas, por ter permitido a escalada de violência. Na opinião do jornalista Hans Pfeifer (Deutsche Welle) esta atitude "pode ser interpretada como falta de empatia pelas vítimas, uma vez que parte dos políticos e funcionários públicos não são o primeiro alvo da extrema-direita". Ainda de acordo com o citado jornalista, "o que aconteceu não é um atentado contra estrangeiros ou contra a extrema-esquerda, mas contra a própria democracia". O mesmo parece ter entendido o governo de Merkel, ao declarar que "não serão toleradas reuniões ilegais, nem perseguição de pessoas que pareçam diferentes, nem tentativas de espalhar o ódio pelas ruas".
O segundo caso, prende-se com uma cimeira entre dois políticos conhecidos pelas suas posições populistas e xenófobas, cujos governos têm vindo a endurecer posições relativamente a refugiados e imigrantes, que procuram entrar nos países europeus. No caso de Salvini, a recusa em salvar náufragos à deriva no Mediterrâneo, foi condenada nas mais diversas instâncias e atenta contra o direito internacional e o código marítimo, que obrigam ao salvamentos de náufragos em mar-alto. No caso de Orbán, os atropelos às leis europeias são já incontáveis, desde as sucessivas alterações à constituição, que lhe permitem controlar a justiça e a imprensa, às políticas de racismo interno (ciganos) e à imigração. Orbán declarou recentemente que "a Hungria não quer receber gente, porque não deseja que os povos se misturem". O mesmo governo que, ainda esta semana, foi acusado de ter recusado comida e abrigo a estrangeiros (considerados) ilegais, enquanto esperam passagem, dado não poderem permanecer na Hungria. Órban está, neste momento, a violar a Convenção de Genebra para Protecção dos Refugiados, a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, a Carta dos Direitos Fundamentais da UE, e os próprios tratados da UE, após o Tratado de Lisboa.
Dois biltres, que apoiados pelos países da chamado "bloco soberanista" (checos, polacos, húngaros, eslovacos e italianos) desejam regressar ao passado nacionalista, que esteve na origem de guerras que devastaram o continente europeu.
É contra esta gente, que continua impunemente a passear-se pelos corredores de Bruxelas, enquanto desrespeita as regras mínimas da democracia e ameaça com boicotes ao orçamento da União, que os partidos democráticos do Parlamento Europeu devem unir-se, exigindo o cumprimento da lei em vigor na UE, condição primeira para serem membros de direito. Isto, ou a perda de apoios europeus, única linguagem que os ditadores percebem. Esta é a melhor forma de defendermos a democracia.
Como bem lembra Rui Tavares, num recente artigo de opinião ("Público" de 13.08.18): "Não é por acaso que a Constituição alemã proíbe a existência de partidos nazis ou que a Constituição da República Portuguesa contenha também uma proibição - ainda que pouco usada - contra a possibilidade de existência legal de organizações fascistas. É para não nos esquecermos de onde viemos. As nossas democracias nasceram contra o fascismo e essa história faz parte da sua razão de ser. Se nos esquecermos ou cansarmos desta história, estaremos já a caminho da regressão".    
Antes que seja tarde.
      

2018/08/15

Le Pen, some-te!


A história, conta-se em poucas palavras.
Na última sexta-feira, começou a circular nas redes sociais, uma notícia sobre a eventual presença de Marine Le Pen (dirigente da extrema-direita francesa) na WebSummit, a maior feira mundial de empreendedores de plataformas tecnológicas que, pelo terceiro ano consecutivo, se realiza em Lisboa. O convite, teria sido feito pela organização irlandesa (sediada em Dublin), ao arrepio dos patrocinadores, a CML, o Turismo de Portugal e o ICEP, que acolhem e apoiam o evento com uma quantia estimada em mais de 3 milhões de euros.
Perante tal notícia, seguiu-se a natural estupefacção e reacções de repúdio, para além do silêncio dos organizadores e das instituições em questão.
No fim-de-semana, sem qualquer explicação, o nome de Le Pen, desapareceu da programação e, quando pensávamos tratar-se de mais uma "fake news" (destinada a dar publicidade ao evento), eis que surge o nome da francesa de novo, agora anunciada como oradora no painel principal de convidados.
Novos protestos, agora noticiados pela Comunicação Social. Da parte do governo e da autarquia, seguiu-se o silêncio total.
Perante o avolumar da indignação (como assim, convidar uma fascista para discursar num evento pago pelos portugueses?), o director da WebSummit, o irlandês Paddy Cosgrave, emitiu ontem um comunicado onde, de forma sonsa e chantagista, dizia que "caso o governo português se opusesse à presença de Le Pen, ele estaria disposto a aceitar a decisão, em respeito à vontade do povo português" (!?). Ou seja, remetia a responsabilidade para o governo do país que o convidou e pagou para ele organizar o evento em Lisboa!
Obviamente, que o PM português não pode exprimir-se explicitamente sobre um evento privado, ainda que a CML, o Turismo de Portugal e o ICEP - em tanto que patrocinadores do evento - possam e devam, ter uma opinião sobre este convite.
De novo, nada se ouviu.
Ontem, os baixo-assinados contra a presença de Le Pen, começaram a circular e um partido político (BE) chegou mesmo a pronunciar-se sobre o caso, denunciando o carácter fascista e racista da oradora, cujas mensagens de ódio são inclusive proibidas pela Constituição portuguesa.
Hoje, finalmente, o Paddy lá reconsiderou e anunciou o cancelamento do convite, dada a comoção gerada na sociedade portuguesa, que ele não deseja alimentar...É sempre comovedor ver empreendedores, que defendem a livre iniciativa e são contra a intromissão do estado, servirem-se do estado quando não querem assumir a responsabilidade dos seus actos.
De facto, para além da presença indesejável da criatura, não se percebe muito bem o que viria ela cá fazer, pois não consta do seu currículo ser uma "expert" em Web ou quaisquer outras plataformas tecnológicas. Já a sua ligação a redes neo-fascistas internacionais é por demasiado conhecida, pelo que dispensa apresentações. Fez bem o Paddy, pois ainda há quem tenha memória do Fascismo por estes lados...
Em conclusão: Le Pen, some-te!