O "episódio" do CCB é, apenas, mais um, na já longa série de nomeações por "compadrio" (familiar e partidário) que enxameia o aparelho de estado (leia-se, o Poder) em Portugal. Neste particular, o PS não difere do PSD. Vivemos numa partidocracia controlada por duas "famílias" políticas (PS e PSD) que, de há 40 anos a esta parte, dominam por completo o "spectrum" político português.
Independentemente das pessoas que são (ou não) nomeadas para os cargos, o que importa realçar é o regime de clientelismo larvar que existe em Portugal, um país subdesenvolvido em termos de cidadania, onde as pessoas continuam dependentes do patrocinato existente, segundo a velha fórmula "se votares em mim, arranjo-te um emprego".
O problema não são as nomeações, mas a forma como os "amigos" são colocados no aparelho de estado e lá ficam eternamente. Se querem nomear pessoas de "confiança", façam-no com transparência e limitem os mandatos às legislaturas, como nos EUA, onde os nomeados abandonam os cargos, após exercerem os seus mandatos. Nesse sentido, é completamente ridícula a argumentação da ex-ministra da cultura (Canavilhas) quando ontem veio justificar a decisão de João Soares, com a desculpa de Mega Ferreira (PS) também ter sido afastado do CCB, para lá colocar Vasco da Graça Moura (PSD). Como se uma nomeação partidária pudesse ser justificada por outra nomeação partidária (...se o PSD já fez, nós também podemos fazer...).
Que dizer, então, da nomeação da filha de Ana Gomes para a direcção da EGEAC, da filha do ministro Vieira da Silva para secretária de estado, do filho de João Soares para assessor na CML, ou ainda da nomeação da (ex-deputada) Inês Medeiros para a direcção do INATEL?
E, agora ("cereja em cima do bolo"), a nomeação do "irmão" Summavielle para a presidência do CCB, como se a promiscuidade entre o estado e a maçonaria não fosse já suficiente...
Sim, Portugal é um país onde a corrupção campeia, a meritocracia não é reconhecida e o amiguismo e o "compadrio" continuam a fazer lei. Assim, não vamos lá.
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2016/03/02
2012/01/13
Nomeações, indigitações e outros vilões
A actual polémica sobre as "nomeações" (as quais, eufemisticamente, Telmo Correia apelidou de "indigitações") para cargos directivos da EDP e das Águas de Portugal, é pertinente, mas não deve causar surpresa. Pesem as promessas feitas durante as campanhas eleitorais, todos os líderes partidários, sem excepção, fazem exactamente o contrário, mal chegam ao governo. Como, em 37 anos de democracia, o poder foi partilhado por 3 partidos apenas (PS/PSD/CDS) é fácil perceber quem nomeou quem nas últimas décadas. Desta forma, a "casta" governante reproduz-se geracionalmente, seja através das estruturas partidárias ("jotas", distritais ou conselhos directivos de variada ordem) seja através da "cunha" e das "famílias" que, desde sempre, governaram o país. Mais do que a competência ou a meritocracia, importa a fidelidade (de preferência "canina") ao chefe e ao cartão partidário, quando não às "irmandades" de duvidosas práticas.
Podia ser diferente? Podia, mas seria sempre difícil, num país onde o nepotismo e o clientelismo há muito fazem parte da cultura dominante (o que de resto é comum à maior parte das sociedades mediterrânicas, patriacais e católicas, onde o patrocinato é um modo de vida). Por alguma razão, o "crime organizado" (o verdadeiro, o da Bayer) nasceu num país a Sul e não na Escandinávia, ainda que haja patrocinato em todas as sociedades sem excepção. O seu grau é que varia, na razão inversa do desenvolvimento social e económico das respectivas sociedades. Por isso, Portugal, um dos países com mais baixos níveis de instrução e maiores desigualdade sociais na Europa, tem vindo a subir nos "rankings" internacionais da corrupção. Porque, para haver corrupção é necessário um corrupto e um corruptor, percebe-se melhor a situação de total dependência a que chegou a maior parte dos portugueses. Uma vez criada a "dependência" da população (agora, através do empobrecimento acelerado de parte significativa desta) mais fácil é amendrontá-la e pressioná-la a aceitar esta situação de total impunidade para os poderosos. Para não ser excluído, o português aceita a "protecção" e a "fidelidade", sendo a melhor forma a adesão a um partido, ou seita, que lhe garantam algum bem estar e sossego. Dá o voto ao "chefe" e, caso este seja eleito, poderá receber algumas migalhas do bolo do poder em troca. Em caso de dúvidas, ou litígios judiciais, estão lá os tribunais para manterem o "sistema" a funcionar. Para quem não aceita a situação, a alternativa é emigrar, como quer o outro...
Por isso, não devemos estranhar que (ex)dirigentes passem alegremente das cúpulas partidárias para o governo e deste para as empresas, primeiro do estado e, depois, como no caso da EDP, para as privadas. O "sistema" reproduz-se assim, ainda que para isso seja necessário a conivência e aceitação da maioria silenciosa que continua a votar nos mesmos partidos e, dessa forma, a perpetuar o seu poder. Um círculo vicioso.
Podia ser diferente? Podia, mas seria sempre difícil, num país onde o nepotismo e o clientelismo há muito fazem parte da cultura dominante (o que de resto é comum à maior parte das sociedades mediterrânicas, patriacais e católicas, onde o patrocinato é um modo de vida). Por alguma razão, o "crime organizado" (o verdadeiro, o da Bayer) nasceu num país a Sul e não na Escandinávia, ainda que haja patrocinato em todas as sociedades sem excepção. O seu grau é que varia, na razão inversa do desenvolvimento social e económico das respectivas sociedades. Por isso, Portugal, um dos países com mais baixos níveis de instrução e maiores desigualdade sociais na Europa, tem vindo a subir nos "rankings" internacionais da corrupção. Porque, para haver corrupção é necessário um corrupto e um corruptor, percebe-se melhor a situação de total dependência a que chegou a maior parte dos portugueses. Uma vez criada a "dependência" da população (agora, através do empobrecimento acelerado de parte significativa desta) mais fácil é amendrontá-la e pressioná-la a aceitar esta situação de total impunidade para os poderosos. Para não ser excluído, o português aceita a "protecção" e a "fidelidade", sendo a melhor forma a adesão a um partido, ou seita, que lhe garantam algum bem estar e sossego. Dá o voto ao "chefe" e, caso este seja eleito, poderá receber algumas migalhas do bolo do poder em troca. Em caso de dúvidas, ou litígios judiciais, estão lá os tribunais para manterem o "sistema" a funcionar. Para quem não aceita a situação, a alternativa é emigrar, como quer o outro...
Por isso, não devemos estranhar que (ex)dirigentes passem alegremente das cúpulas partidárias para o governo e deste para as empresas, primeiro do estado e, depois, como no caso da EDP, para as privadas. O "sistema" reproduz-se assim, ainda que para isso seja necessário a conivência e aceitação da maioria silenciosa que continua a votar nos mesmos partidos e, dessa forma, a perpetuar o seu poder. Um círculo vicioso.
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