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2024/08/13

Notícias da "Silly Season": assim se vê, a força da CP...

Faço mensalmente o percurso Lisboa-Faro-Lisboa de comboio, utilizando o Intercidades e o Alfa, dependendo dos horários e lugares disponíveis. Tem sido assim, nos últimos seis anos, a uma média de duas viagens por mês. Faço-o por comodidade, relação preço-qualidade e tempo para ler ou trabalhar enquanto viajo. Prefiro o comboio ao automóvel ou avião, ainda que reconheça maior flexibilidade nos horários e mais rapidez nas deslocações nestes meios de transporte.

Acontece que, de cada vez que me desloco ao Algarve e vice-versa, os comboios nunca partem ou chegam a horas. Arriscaria a dizer que, em 8 de cada 10 vezes, há atrasos. Estes começam logo nos avisos prestados através dos altifalantes, por uma voz de hospedeira de bordo, a informar que "o comboio que deveria dar entrada na linha X, em direcção a Y, circula com um atraso de Z minutos. Do facto pedimos desculpa". A palavra-chave aqui é deveria (no condicional) ao pôr-nos de sobreaviso para a notícia que vem a seguir: o comboio que deveria dar entrada, já não dá...

Já esperei cinco, dez, quinze minutos, meia-hora e, no passado dia 27 de Julho, 1 hora e 30 minutos! Um recorde absoluto, pensava eu, sentado na estação de Sete-Rios, enquanto esperava pelo comboio das 14.14h para Faro, quando a mesma voz cálida, anunciou outro atraso, este em sentido contrário (Faro-Lisboa) que circulava com um atraso de 3horas (três horas!). 

Porque a frequência dos atrasos é preocupante, para não dizer escandalosa, interroguei o revisor do comboio a que se deve tal desvario. Olhou-me com espanto e retorquiu: "o comboio teve uma avaria, como é que queria que chegasse à hora?". De facto, há cada pergunta...

O pior é que não foi a primeira vez, pois a linha do Sul é de via única e, em caso de avaria, os comboios têm de ser desviados para um ramal que nem sempre está próximo. Contou-me um ex-funcionário da EMEF que, no passado mês de Julho, o Alfa, onde ia, teve de ser desviado para o ramal de Alcácer do Sal, que não permite velocidades acima dos 30km. Dado que o condutor do Alfa (cuja velocidade pode atingir 200km) não possuía uma licença de velocidade reduzida (!?), teve de esperar por um colega maquinista com as condições requeridas, que conduziu o comboio na linha paralela a 30km à hora! Resultado: um atraso de 3horas e meia, à chegada a Faro! 

Porque a paciência tem limites, quando cheguei a Faro preenchi uma reclamação pelos serviços prestados, o que neste caso mais que se justificava. A funcionária que me atendeu, foi-me informando que tinha direito ao reembolso do bilhete, dado que o atraso tinha sido superior a uma hora. Já sabia, mas, o que mais me surpreendeu, foi a passividade dos restantes passageiros (a maioria estrangeiros) que aceitaram o atraso como fazendo parte da tradição ("very typical", devem ter pensado). 

No dia 30 de Julho, tinha um email da CP na minha caixa de correio. Lamentavam o sucedido, reconhecendo que, por vezes, surgem ocorrências que os impedem de cumprir compromissos assumidos com os clientes. Apresentavam as desculpas pelos transtornos causados e informavam que o comboio referido (Intercidades 572) sofreu um atraso à partida e à chegada na estação de Faro, de 1h e 30´. O atraso devia-se a um impedimento da via e era da responsabilidade da CP-Comboios de Portugal.  Aconselhavam-me a pedir o reembolso, bastando para isso enviar a cópia do bilhete e o meu IBAN. 

P.S. Hoje, recebi um segundo Email da CP-Reclamações, com um texto semelhante, acrescido da informação que "são esperadas melhorias no serviço, após a conclusão das obras de modernização a decorrer na linha do Algarve, da responsabilidade da IP-Infraestruturas de Portugal. A electrificação da linha, na sua totalidade, vai permitir a utilização de comboios de tracção eléctrica, mais modernos e ambientalmente sustentáveis". 

Olha que bom!

2022/06/23

Assim se vê...a força da CP!

Para o mês de Junho, a CP (Companhia Ferroviária Portuguesa), anunciou uma greve intermitente de maquinistas, a nível nacional. Porque a greve se anunciava "intermitente", temi o pior. Já bastam as greves "constantes" que, normalmente, só prejudicam os trabalhadores que compram passes mensais e perdem o dinheiro investido à cabeça, quanto mais "intermitentes"...

Porque necessitava de viajar de comboio para Faro, resolvi comprar o bilhete com alguma antecedência e dirigi-me à bilheteira de Sete-Rios, para tentar perceber o conceito de "intermitente". 

IDA

Conforme receava, apenas uma das duas bilheteiras funcionava e a fila (maioritariamente constituída por turistas) ultrapassava as três dezenas de pessoas. Após meia-hora de espera, sou atendido. 

- Estão em greve de zelo?

Não. Estamos em greve. 

- Estão em greve? Mas a bilheteira está a funcionar...

A greve é dos maquinistas.

- Não estou a perceber. Os maquinistas estão em greve, os comboios não funcionam e os senhores vendem bilhetes? 

É como vê. Para onde vai? 

- Quero ir, depois de amanhã, para Faro e desejo um bilhete para o comboio das 10.14h.    

Se quiser eu vendo-lhe o bilhete, mas não prometo que haja comboio...

- Bonito serviço. E agora, que me aconselha? 

O senhor é que sabe. Pode ir sempre de autocarro. Ou vir nesse dia e aguardar pelo comboio...

- Estou a perceber. A greve é "intermitente" e pode ser que esse comboio funcione. Arrisco.

Comprei o bilhete e voltei para casa, onde espero dois dias, enquanto sigo a greve da CP pelas notícias. Entretanto, pessoa amiga em Faro, ia-me informando da dificuldade que tinha em regressar a Lisboa, dado que alguns comboios tinham sido cancelados. Fazia sentido: dia 13 (segunda) foi feriado em Lisboa e muita gente aproveitou a "ponte" de três dias para ir até à praia. Nada melhor do que uma greve durante um fim-de-semana prolongado. De resto, há uma tradição de greves à sexta e à segunda, em Portugal, o que não deixa de ser curioso... 

No dia aprazado (13) fui, com uma hora de antecedência, para a estação. Comprei o jornal e esperei pelo comboio. Com 10 minutos de atraso, chega o dito e pude embarcar normalmente. 

VOLTA

Nove dias mais tarde, eis-me de regresso a casa. Chego à estação de comboios de Faro, onde apenas duas das três bilheteiras existentes estão a funcionar. Uma fila de nacionais e turistas espera pacientemente, de mochilas às costas, pela sua vez. Só há uma fila, que se divide, à medida que as bilheteiras vão ficando livres. Quando chega a minha vez, dirijo-me à bilheteira da esquerda, que tinha ficado livre. A funcionária ignora-me, deixa a bilheteira aberta e dirige-se a uma secretária, onde inicia uma série de telefonemas, enquanto confere a papelada com ajuda de uma máquina de calcular. 

Aguardo pacientemente, ao mesmo tempo que a bilheteira do lado, continua a vender bilhetes. Passaram mais de 5 minutos e a funcionária continuava alegremente a conversar pelo telefone. Impaciente, bato no vidro e chamo-lhe a atenção para o facto de continuar à espera, já que a bilheteira não tinha sido encerrada. Olha-me irritada e faz-me sinal que devo passar para a outra fila. Respondo negativamente, uma vez que ela não tinha encerrado a bilheteira, pelo que continuava de serviço e eu não ia passar à frente dos outros passageiros na fila da direita.

Desvia o olhar e continua a conferir documentos, enquanto fala ao telefone com alguém. Torno a bater no vidro e, já irritado, chamo a atenção para o facto da bilheteira continuar aberta e ela não ter avisado ninguém, nem colocado o aviso de "encerrado" na bilheteira. Nem responde. Dada a urgência, passo para a fila do lado, onde uma gentil japonesa deixa que eu passe à sua frente. Dirijo-me ao funcionário, que me olha com os olhos esbugalhados e compro o bilhete, não sem antes pedir o livro de reclamações e protestar contra a forma como a companhia, de que ele faz parte, não ter a mínima consideração pelos passageiros e fazer greves por direitos, mas raramente cumprir deveres. Aproveito para fazer o discurso sobre a falta de cultura de "civil servant" (funcionário público) que é inexistente em Portugal. O homem (era brasileiro...) olha para mim, com ar desconsolado, passa-me o livro de reclamações e, enquanto escrevo a queixa, continua a emitir o bilhete, após o que me pergunta: "E o senhor, vai desejar número de contribuinte na factura?". 

 

2019/04/16

A ver passar os comboios...


Sábado, 13 de Abril. Aguardo, na estação de Sete-Rios, pelo "Intercidades" das 10.04h, que faz a ligação entre Lisboa e Évora. São 9.45h. da manhã e, enquanto espero, observo os passageiros que, noutras plataformas, seguem as indicações horárias.  Através dos altifalantes, a voz de uma funcionária pede desculpa pelo atraso de um comboio, com origem em Sintra, que devia ter dado entrada minutos antes. Chegará com 8 minutos de atraso. Passam alguns minutos. A mesma voz anuncia, mais tarde, que o comboio para Setúbal, com origem na Gare do Oriente, chegará com dez minutos de atraso. Do facto, pede desculpa. Não há mais anúncios. O meu comboio chega à tabela.
Os primeiros 30 minutos da viagem decorrem sem incidentes. Em Pinhal Novo, a primeira paragem prolongada. Vejo o maquinista atravessar a carruagem em passo acelerado. Passam 10 minutos. O maquinista volta a passar, agora a correr. Através dos altifalantes, uma voz anuncia que "devido a problemas técnicos" o comboio, a partir dali, não poderá ultrapassar os 50km horários...
Preparo-me para o pior e telefono para comunicar que chegarei atrasado. Quanto tempo, não sei.
Os passageiros começam a dar algum sinal de inquietação. Uma senhora, acompanhada pelo pai, pergunta-me se chegará a tempo de apanhar a ligação, em Casa Branca, que a conduzirá a Cuba...
Não faço a mínima ideia, mas vou dizendo que poderá sempre reclamar e exigir o dinheiro do bilhete de volta. É o que vou fazer. Gera-se animada discussão na carruagem. Há mais queixosos. Todos portugueses. Os estrangeiros riem-se e perguntam-nos o que se passa... 
São 11.26 da manhã (hora prevista para chegar a Évora) e ainda não chegámos a Casa Branca...
Novo telefonema, a avisar que devo chegar com mais de uma hora de atraso. Em Casa Branca, metade dos passageiros sai para apanhar a ligação para Beja. Debalde. O comboio já tinha partido...
São 14.10h. quando chego a Évora. Com 3 horas de atraso, em relação à hora prevista, num percurso que demora habitualmente 1.20h a cumprir.
Dirijo-me ao chefe da estação para expor a situação. Bilheteira encerrada (hora de almoço). No bar, informam-me que "ali, não há chefes!". Fico mais descansado. Vou almoçar com o amigo, que teve a gentileza de esperar.
Ás 15h. volto à estação. A bilheteira está aberta. Entregam-me um formulário para pedir a devolução do bilhete. Como não tenho o comigo o Número Fiscal, não posso entregar o formulário. O funcionário acalma-me: "Pode entregá-lo em qualquer estação. Não há pressa. A resposta pode durar um ano...".
Peço o "livro de reclamações" e começo a escrever, enquanto os funcionários da estação olham para mim, com cara de quem presencia um acto inédito. Aproveito para criticar o estado dos comboios em Portugal, tema recorrente de muitas críticas e reclamações. Encolhem os ombros e concordam: "pois, só investiram no betão e deixaram a ferrovia ao abandono".
É verdade. Releio alguns artigos, dedicados ao tema, publicados na imprensa portuguesa:
"De 20 projectos do plano ferroviário nacional, apresentado por Pedro Marques (ex-ministro dos transportes), 8 já deviam estar concluídos e 11 deviam estar em execução. Mas, só há 6 em obra", escreveu Carlos Cipriano, especialista em ferrovia, no "Público". Estávamos em 31 de Janeiro deste ano.
Mais à frente: "Dos 2,7 mil milhões de euros anunciados para modernizar os caminhos-de-ferro portugueses até 2020, só há investimentos em curso no valor de 158 milhões de euros, o que dá uma taxa de execução de 7%. Mas, se se retirar os 675 milhões estimados para a nova linha Aveiro-Mangualde, que já foi chumbada duas vezes pela Comissão Europeia por falta de rentabilidade, a Ferrovia 2020 reduz-se a 2 mil milhões de euros. Ainda assim, só 8,8% está em execução.
(...) O Ferrovia 2020 previa intervir em 1193 quilómetros de via férrea, dos quais 214 seria construção de linha nova e 979 alvo de modernização. Destes ultimos, só 166 estão a ser modernizados. Da linha nova, zero. Entre os investimentos mais importantes está o célebre corredor Sines-Badajoz, que implica a construção de linha Évora-Elvas, a qual deveria ter início em Janeiro de 2018, para ficar concluída em Setembro de deste ano, mas ainda não houve adjudicação" (ibidem).
A que se deve tal situação?
Com o argumento de que o interior estava despovoado e a ferrovia não era rentável, cancelaram grande parte dos comboios. Com o encerramento das vias (mais de 1000 quilómetros) e o consequente abate de comboios (muitos foram vendidos para a Argentina, por exemplo) deixaram de ser fabricadas carruagens e automotoras  em Portugal e o número de técnicos foi reduzido. As oficinas fecharam e não há especialistas em quantidade para a manutenção dos comboios em funcionamento. As composições existentes têm, em média, mais de 40 anos de idade e, desde 1974, que não há investimentos estruturais no caminho de ferro. A excepção, é o Alfa-Pendular (10 composições) comprados à Fiat italiana, nos anos noventa.
"Nas últimas três décadas, as linhas de caminho de ferro, encolheram cerca de 30%, enquanto a rede rodoviária, multiplicou por nove a sua dimensão e atingiu em 2017 uma extensão total de 66% superior à da rede ferroviária. Não surpreende: entre 1999 e 2017 o investimento na rodovia foi de 19,8 mil milhões de euros, contra 6,1 mil milhões aplicados na ferrovia" (Cipriano, idem).
Grande parte das composições em circulação está "presas por arames" e, por razões de segurança, foram suprimidos, só este ano, mais de 1100 comboios. Trás-os-Montes e o Alentejo, foram as regiões mais prejudicadas.
"O desastre da ferrovia é uma das falhas mais nítidas da gestão de infra-estruturas por parte do Governo. O estado deplorável das linhas ou do material circulante resulta de um longo processo de abandono no qual todos os governos das últimas décadas, têm responsabilidade", acusa Manuel Carvalho, director do "Público", em editorial dedicado a este tema. Não podia estar mais de acordo. Enquanto espero pela resposta da CP, vou continuar sentado...