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2019/04/20
2014/07/03
O mar é reciclável?
Facebook que nos diz? Folha de rosto, do rosto, que rosto?
O meu ou o do planeta diário?
Punheta-umbigo ou cosmos?
Teatro do eu ou do mundo?
É como se nos dessemos a ver quando nos vemos num espelho?
Mas damo-nos a ver em charme decaído ou maquilhado, cores ou desenhos ou na bruta, assim mesmo, como a Gabriela que nasceu assim?
Num espelho que está fora de nós mas também naquele espelho que está dentro?
É uma coisa de ir atrás do impensado, de ir atrás do que vai à frente, de ceder ao imediato que nos preenche desse nada que enche?
E que significa o gosto e o comentário e as aplicações que seguem o sistema, a reprodução da estrutura desigual na economia, a democracia como a face visível e disponível do mundo do financismo, o parlamentarismo liberal burguês que reduz a política ao jogo mediatizado da alternância?
E o dia-a-dia como pura funcionalidade, o corpo mecânico, a cabeça pura química neuronal da actividade fabril mental?
E o pensamento, que espaço tem que não seja o já pensado?
Há criação por aqui?
E o não gosto tem espaço?
Não é logo entendido como autoexclusão?
A não empatia cola o quê a quê se só descola?
Não somos obrigados a uma simpatia online que passa por cavalheirismo, feminino – que será?-, e masculino, no meio de um voyeurismo dominante, massivo e que trabalha subliminarmente as atitudes como gestos quase impensados do fluxo da (in)consciência fluindo?
Pezinhos de lã no trato e subterraneamente um infinito mercado negro de tudo um pouco: tráficos vários, publicidades omnipresentes, o corte de cabelo da estrela, o champô que arrasa a caspa inimiga e faz um futuro escalpe de sonho na reforma sempre imaginado lazer infinito, o banco preferido de depósitos e taxas paradisíacas em directo na ilha com a tal, o tal, que se escolheu na anedota, de modo personalizado, educado, em voz baixa e adocicada neutra, como os bancos tratam os clientes, pois claro, e a brilhantina no horizonte como um sol a pôr-se ao contrário, nascendo de se pôr, mais os ténis de marca e aço invisível resistente e propulsor, o peito musculado em ginásio ao preço da uva mijona de euros que compensam na dureza dos abdominais de sonho, boa relação preço qualidade, ficas cliente-contente, e que atrai todos o tipo de garinas e garinos, de varinas e chichisbéus, como quase moscas vão à luz mortal que rompe do peito olímpico do atleta e inunda o mundo, as férias do craque seladas com um beijo russo semidespido que obrigam a dar um beijo no mesmo tipo de aparthotel quando formos casal instante, quecaqueda, mais pedofilia por certo e também as múltiplas e inovadoríssimas indústrias da dependência, tóxica e outras, as narrativas do governo bem mentidase mantidas, a vídeo-pornografia de híper-primeiros planos do material sem ecrã para os tamanhos dos materiais e outras variantes e o mais que seja que por aí adiante faça parte da ilimitável capacidade mutante da voracidade mercantil do capitalismo real no dia-a-dia não opcional – afinal, estar vivo, não é opção, opção é mesmo estar morto.
Nada tem de original esta engrenagem. Ela é um conjunto de operações que já fazíamos: a confissão ou notícia de qualquer coisa, o anúncio desesperado, a página dos óbitos, a bunda comerciada, a notícia confessional, pessoal ou acontecimento, a adesão ou recusa dessa coisa num regime que identifica uma tendência de grupo instante – ou mais regular – e a possibilidade do debate de ideias, o mais difícil e menos vulgar.
Na realidade o que submerge a tanto navegar é mesmo a viagem, não se vai de um porto a outro através da superação inteligente da radical presença dos escolhos, as rochas reais, os baixios, mas também os Adamastores – em novo gostava de dizer Adapastores, aliás como gostava de dizer Minetauro. Navega-se parado no pesadelo de um mar de pânicos, muitos gostos são cliques, gestos mecânicos e estão ao alcance do não esforço – é assim a vida nos céus e é deste modo que os deuses têm uma vida algodoada, fofinha – que palavra … – como se diz: a existência em peluche não chega muitas vezes ao mar encrespado da autoconsciência de si, isso exige fundo, como aquele a que o furo artesiano vai buscar a água que já não há.
Lembrei-me de uma aranha em peluche, mas que aconteceu às aranhas para serem menos interessantes que os dinossauros de um ponto de vista lúdico-industrial? Preguiças já há, sem o cheiro, é como as doninhas fedorentas, são amorosas, mas extirpado o cheiro – assim são animais de leito, como os furões e furoas. E os ouriços, coitadinhos, esborrachados nas bermas de lentos, sob a velocidade crescente do automóvel de nova marca e cilindrada.
Tantas perguntas, outras respostas nas respostas que se compram a pronto.
As aranhas são de carnaval, para meter medo sazonal, não se pode pedir a uma aranha que dê a pata? Uma tarantola rosa é no entanto um amor de muitas patas e pode dar uma a uma a quem a amestrar – ora aí está uma licenciatura interessante.
Vêem-se muitas coisas nestas folhas de rosto, desde verdadeiras antecipações noticiosas a posições que os média nunca publicariam e vêem-se também escritas originais, mesmo de alcance artístico, muito raras mas reais, até se assiste a actos criativos no meio dos não actos do puro fluxo – um rio não para e quando para morre, faz-se-lhe o funeral, vende-se o leito em turismo acidental, catástrofe ambiental. Recicla-se o mar?
Mas essas coisas observam-se no quadro de todas as outras, porventura sendo dominantes aquelas que estruturam o voyeurismo e o narcisismo hedonista, mesmo um certo drama doméstico em primeiro plano – o primeiro plano é mais real do que o plano de conjunto, a importância da ruga e das olheiras leva a palma da atenção afectiva ao plano de conjunto, a estares como mobília entre mobílias. Precisas do drama para te sentires viva, a adrenalina emotiva cria a sensação de que afinal a vida não está parada, pelo contrário anda a centenas de pulsação instante – no resto esquece, isto é, qualquer um se pode ausentar de si mesmo para uma zona da consciência que fica standby. Qualquer coisa do género. Será assim? Chama-se alienação, ser preenchido por esse outro, mesmo pelo grande outro normativo. Brecht falava do grande costume. Numa era de entropias calculadas parecia não ser assim, parecia que a desordem assaltara tudo, mas não é assim, a ordem dos poderes nunca foi tão forte de capacidade totalitária, nunca o poder controlou a ideia de ser individual de uma forma tão capaz de produzir rebanhos miméticos uns dos outros, com a décalage das línguas e das riquezas entre as nações.
Quando alguém escreve tenho o olho inchado ou que o cão acordou triste e foi ao analista veterinário, seja pedo-canino-neurologista ou psiquiatra-canino e analista, ou mesmo psicãonalista, está a eleger a absoluta irrelevância como drama e a assumir que, num mesmo espaço, pode habitar o bordado de retalhos e o rapto das meninas nigerianas. Esta é a característica fundacional do esquema: no momento em que podemos ser livres - o que significa libertarmo-nos e não propriamente pensar que como escravos somos livres e que portanto liberdade é o que nos passar na bola e se atira cá para fora como quem tira uma nódoa da alma – e podemos, o modo de uso de uma estrutura que pode ser o instrumento disso, acaba por regrar o seu contrário na medida em que nivela as coisas pelo menos qualificado mental massivo híper-controlado e estabelece o vulgar, de modo absoluto, como máximo denominador comum.
Esta é uma questão. E que nos diz? Diz-nos que esta engrenagem reproduz o mundo exterior, é reflexo da estrutura dominante, a tal que engendra a reprodução sistémica da desigualdade extremada produzida pelo capitalismo actual e suas estruturações reflexas na totalidade do REAL – há uma aliança entre o sistema financista e as performances de todo o tipo, para-publicitárias e publicitárias, que surfam de modo incontinente o ecrã das aparências seja pela via da insignificância que se assume como fim do sentido em pose, seja pela via da insignificância que é directamente mercantil.
Neste mundo de peluches e desacontecimentos – a resistência do núcleo duro do mesmismo é enorme, tem um potencial militarizado impensável – o que é verdade é que os verdadeiros dramas estão aí mas que o modo de os pensar – e tratar formalmente, é inevitável e é um combate constante – de os colocar em itálico, quase submerge no conjunto complexo e totalitário das poluições do imediatismo pseudo-espontâneo do impensado comum. E é assim que as casinhas dos botões são lindinhas e em cada uma sorri um botão de felicidade, com os seus dois olhos abertos ao devir.
E o BUTÃO é uma monarquia linda de se turistar, como o mar português, um de caravelar na mente e agora o outro, para semear turismo também. Com sede na Berlenga.
2014/06/30
Traição
O debate sobre a verdadeira origem e utilidade das chamadas "redes sociais" não é uma perda de tempo. Nem as redes sociais se irão embora por muito que se lhes arrime. Pelo contrário, penso que cada vez mais as relações entre as pessoas e as culturas vão ser mediadas por algo do género e que o seu papel está longe de se ter esgotado. Mas a Matrix e o Neuromancer são nomes que me parecem cada vez mais reais.
Quanto ao Facebook, o que as recentes notícias parecem querer dizer é que enquanto "o ajuda a ligar-se e a partilhar com as pessoas na sua vida", a rede do senhor Zuckerberg tem algo diferente em mente.
Isto não é ficção. Foi publicado em vários sítios, não foi desmentido e não se viu uma palavra aceitável de explicação ou desculpa para um facto tão grave. Uma vergonha.
Está na hora de repensar a presença no Facebook...
O que o senhor Zuckerberg fez foi um acto de traição totalmente inqualificável.
2011/02/01
Rede Social
Se há alguém que ainda não tenha percebido a importância das chamadas redes sociais e de outras aplicações resultantes do que se convencionou designar por Web 2.0, o melhor é que comece a abrir os olhos rapidamente. Já vai também sendo tempo de começarem a abrir os olhos todos aqueles que acham tudo isto uma futilidade ou que comentam —com ar ora pedante, ora ignorante— os seus efeitos.
É conhecido o papel que o Facebook, o Twitter, o Youtube ou o Flickr tiveram no conhecimento da situação interna do Irão depois da eleição presidencial de 2009. O efeito terá sido tão significativo que entre as primeiras medidas que os governos locais tomaram durante os recentes levantamentos na Tunísia e no Egipto, destaca-se o silenciamento da internet. Gato escaldado...
Perturbante e significativa é, por outro lado, a atitude da China, cujas autoridades, contam as notícias de hoje, bloquearam a palavra "Egipto" das pesquisas nos dois maiores portais do país e no Weibo, o equivalente chinês do Twitter. Não vão os protestos arranjar maneira de ultapassar a Rota da Seda e galgar a Muralha da China...
Há aqui uma lição qualquer que ainda não consegui perceber totalmente. Mas, querem ver que a cegueira e a tentação perante as "oportunidades de negócio" que as novas tecnologias da informação proporcionam, levaram as autoridades destes países, os "investidores" e os "mercados" a esquecer o seu potencial de fogo?! Quando olhamos para estes acontecimentos, quando tentamos compreender as razões que levaram estes povos a revoltarem-se (desemprego, pobreza, alta do custo de vida, ausência de democracia interna, etc) e quando vemos a aparentemente contraditória expansão que as tecnologias da informação e comunicação têm nestes países, o negócio que geram e o papel que, ironicamente, adquirem nestes processos, só podemos concluir que alguém se distraiu e andou a brincar com o fogo.
Vá, vamos lá a abrir uma continha no Twitter ou no Facebook, vamos a despejar para lá conteúdos significativos e usar aquilo também como arma da cidadania. O Assange ajuda a explicar porque é que estas coisas são importantes...
É conhecido o papel que o Facebook, o Twitter, o Youtube ou o Flickr tiveram no conhecimento da situação interna do Irão depois da eleição presidencial de 2009. O efeito terá sido tão significativo que entre as primeiras medidas que os governos locais tomaram durante os recentes levantamentos na Tunísia e no Egipto, destaca-se o silenciamento da internet. Gato escaldado...
Perturbante e significativa é, por outro lado, a atitude da China, cujas autoridades, contam as notícias de hoje, bloquearam a palavra "Egipto" das pesquisas nos dois maiores portais do país e no Weibo, o equivalente chinês do Twitter. Não vão os protestos arranjar maneira de ultapassar a Rota da Seda e galgar a Muralha da China...
Há aqui uma lição qualquer que ainda não consegui perceber totalmente. Mas, querem ver que a cegueira e a tentação perante as "oportunidades de negócio" que as novas tecnologias da informação proporcionam, levaram as autoridades destes países, os "investidores" e os "mercados" a esquecer o seu potencial de fogo?! Quando olhamos para estes acontecimentos, quando tentamos compreender as razões que levaram estes povos a revoltarem-se (desemprego, pobreza, alta do custo de vida, ausência de democracia interna, etc) e quando vemos a aparentemente contraditória expansão que as tecnologias da informação e comunicação têm nestes países, o negócio que geram e o papel que, ironicamente, adquirem nestes processos, só podemos concluir que alguém se distraiu e andou a brincar com o fogo.
Vá, vamos lá a abrir uma continha no Twitter ou no Facebook, vamos a despejar para lá conteúdos significativos e usar aquilo também como arma da cidadania. O Assange ajuda a explicar porque é que estas coisas são importantes...
2009/06/14
As cancelas da internet
Para os leitores do Face Oculta que não são utilizadores do Facebook (eu sou), conto rapidamente como funciona esta "rede social". Qualquer pessoa se pode inscrever. Depois de inscrito, cada um trata de ir construindo a sua "rede", dirigindo convites a pessoas das suas relações, que ainda não sejam utilizadores deste serviço, para se tornarem "friends", ou encontrando, através da pesquisa de nomes ou de endereços electrónicos, gente conhecida que já seja utilizadora do Facebook. Depois de inscrito e de ter a sua "rede" constituída, o novo utilizador do Facebook está pronto a tirar partido deste serviço publicando os seus pensamentos, trocando mensagens, partilhando músicas, fotos, textos ou outro material existente na internet.
Aqui há dias ocorreu uma pequena avalanche no Facebook por causa de um escrito anódino que foi "marcado" como censurável por alguém, que por via dos mecanismos do próprio Facebook tem de ser "friend" do autor do escrito. (*) Esta "marcação" é uma função do Facebook, criada, quero crer, com a melhor das intenções, para denunciar material que possa ser considerado de facto impróprio. Ao "marcar" uma mensagem, um video, ou outra qualquer coisa, é desencadeado um processo que permite aos gestores do Facebook exercer o seu poder discricionário (que ninguém pode contraditar) e "bloquear" o acesso do utilizador a estes serviços. No caso vertente, não só o utilizador, mas também os "friends" que comentaram o seu escrito e até poderiam estar em desacordo com ele, foram impedidos de aceder ao Facebook.
Este episódio, meio ridículo, meio preocupante, desencadeou um movimento enérgico em torno da defesa do direito à livre expressão do pensamento do utilizador do Facebook em causa e dos seus comentadores.
Até ao momento, segundo creio, o movimento não teve consequências e o acesso do utilizador não foi restaurado, mas a sua simples expressão é já sintoma de que algo vai acontecer.
Em última análise os utilizadores do Facebook prejudicados por esta medida mudam-se para outro serviço deste género --tão facilmente como entraram-- e denunciam publicamente este episódio, o que não será bom certamente para o negócio.
As tentativas de controlo da internet, de condicionamento dos seus utilizadores e de limitação dos seus conteúdos, são um atentado intolerável aos direitos individuais, uma absoluta negação do espírito que presidiu à criação e expansão da net e, em última análise, são tentativas condenadas ao fracasso porque podem sempre ser contornadas por um qualquer expediente informático. A proibição é uma palavra proibida na internet e ainda bem.
Por mim, sou contra qualquer tentativa de limitar o uso da internet.
Como diz Francisco Teixeira da Mota num artigo recente do Público "a internet é um direito fundamental". É-o, e é-o cada vez mais, à medida que o seu acesso se universaliza e se simplifica. O Conselho Constitucional francês tomou recentemente uma decisão que é uma prova prática disto mesmo que disse: não é possível, determinou este organismo, restringir por via administrativa o acesso à internet de alguém, mesmo que sobre esse alguém recaia uma qualquer razão específica, legítima, de queixa sobre o uso que faz da rede. Qualquer irregularidade cometida sobre um assunto específico tem que ser tratada no âmbito desse assunto específico. Desta forma --e foi esta questão que esteve na origem da decisão daquele Conselho--, o acesso à internet não pode ser cortado a uma pessoa que tenha feito downloads de música ilegais, por exemplo. Esta é matéria que terá de ser tratada de forma circunscrita.
De forma muito simplificada, é um pouco como se eu estivesse envolvido num acidente rodoviário e me fosse proibido o direito de me deslocar nas estradas. Ou se eu cortasse abusivamente o acesso à agua a um vizinho e fosse proibido de beber água.
Na China, assistimos neste momento a uma tentativa caricata de controlo da liberdade de circulação digital. O governo chinês prepara-se para fazer entrar em vigor a lei designada por "Cancela Verde" que obriga à instalação de software que restringe o acesso à internet. O objectivo, segundo os seus proponentes, é o de filtrar conteúdos pornográficos ou considerados "ordinários". Os chineses, dizem, tentam proteger as crianças.
Este software foi, aparentemente, implementado sem a audição dos fabricantes mas, a par dos seus propósitos mais ou menos virtuosos, parece permitir também bloquear blogs críticos do regime ou vigiar os dados dos computadores pessoais. É, de facto, estranho que a iniciativa e o seu controlo pertençam ao estado e que aos pais, a eles próprios pelo menos, não seja dada a chance de controlar o controlo.
No fundo, deixemo-nos de tretas, trata-se de uma tentativa, no mínimo, canhestra, de privar os cidadãos do uso da estrada, sob o pretexto de controlar acidentes.
A internet e as novas formas de socialização, de interacção e transmissão dos conhecimentos que proporcionam constituem uma nova fase do desenvolvimento humano. O mais empedernido adepto do luddismo concordará com esta observação hoje. Vindas de chineses ou de americanos as tentativas de controlo da internet estão votadas ao fracasso. Mas, há que estar vigilante. É que a viagem na internet não é à borla.
A Europa tem um exemplo forte a dar nesta matéria. A recente eleição de um membro do Partido Pirata da Suécia para o PE é sinal de que os europeus são sensívels a este tema e estão atentos, mais talvez do que se julga.
(*) O episódio está descrito aqui.
Aqui há dias ocorreu uma pequena avalanche no Facebook por causa de um escrito anódino que foi "marcado" como censurável por alguém, que por via dos mecanismos do próprio Facebook tem de ser "friend" do autor do escrito. (*) Esta "marcação" é uma função do Facebook, criada, quero crer, com a melhor das intenções, para denunciar material que possa ser considerado de facto impróprio. Ao "marcar" uma mensagem, um video, ou outra qualquer coisa, é desencadeado um processo que permite aos gestores do Facebook exercer o seu poder discricionário (que ninguém pode contraditar) e "bloquear" o acesso do utilizador a estes serviços. No caso vertente, não só o utilizador, mas também os "friends" que comentaram o seu escrito e até poderiam estar em desacordo com ele, foram impedidos de aceder ao Facebook.
Este episódio, meio ridículo, meio preocupante, desencadeou um movimento enérgico em torno da defesa do direito à livre expressão do pensamento do utilizador do Facebook em causa e dos seus comentadores.
Até ao momento, segundo creio, o movimento não teve consequências e o acesso do utilizador não foi restaurado, mas a sua simples expressão é já sintoma de que algo vai acontecer.
Em última análise os utilizadores do Facebook prejudicados por esta medida mudam-se para outro serviço deste género --tão facilmente como entraram-- e denunciam publicamente este episódio, o que não será bom certamente para o negócio.
As tentativas de controlo da internet, de condicionamento dos seus utilizadores e de limitação dos seus conteúdos, são um atentado intolerável aos direitos individuais, uma absoluta negação do espírito que presidiu à criação e expansão da net e, em última análise, são tentativas condenadas ao fracasso porque podem sempre ser contornadas por um qualquer expediente informático. A proibição é uma palavra proibida na internet e ainda bem.
Por mim, sou contra qualquer tentativa de limitar o uso da internet.
Como diz Francisco Teixeira da Mota num artigo recente do Público "a internet é um direito fundamental". É-o, e é-o cada vez mais, à medida que o seu acesso se universaliza e se simplifica. O Conselho Constitucional francês tomou recentemente uma decisão que é uma prova prática disto mesmo que disse: não é possível, determinou este organismo, restringir por via administrativa o acesso à internet de alguém, mesmo que sobre esse alguém recaia uma qualquer razão específica, legítima, de queixa sobre o uso que faz da rede. Qualquer irregularidade cometida sobre um assunto específico tem que ser tratada no âmbito desse assunto específico. Desta forma --e foi esta questão que esteve na origem da decisão daquele Conselho--, o acesso à internet não pode ser cortado a uma pessoa que tenha feito downloads de música ilegais, por exemplo. Esta é matéria que terá de ser tratada de forma circunscrita.
De forma muito simplificada, é um pouco como se eu estivesse envolvido num acidente rodoviário e me fosse proibido o direito de me deslocar nas estradas. Ou se eu cortasse abusivamente o acesso à agua a um vizinho e fosse proibido de beber água.
Na China, assistimos neste momento a uma tentativa caricata de controlo da liberdade de circulação digital. O governo chinês prepara-se para fazer entrar em vigor a lei designada por "Cancela Verde" que obriga à instalação de software que restringe o acesso à internet. O objectivo, segundo os seus proponentes, é o de filtrar conteúdos pornográficos ou considerados "ordinários". Os chineses, dizem, tentam proteger as crianças.
Este software foi, aparentemente, implementado sem a audição dos fabricantes mas, a par dos seus propósitos mais ou menos virtuosos, parece permitir também bloquear blogs críticos do regime ou vigiar os dados dos computadores pessoais. É, de facto, estranho que a iniciativa e o seu controlo pertençam ao estado e que aos pais, a eles próprios pelo menos, não seja dada a chance de controlar o controlo.
No fundo, deixemo-nos de tretas, trata-se de uma tentativa, no mínimo, canhestra, de privar os cidadãos do uso da estrada, sob o pretexto de controlar acidentes.
A internet e as novas formas de socialização, de interacção e transmissão dos conhecimentos que proporcionam constituem uma nova fase do desenvolvimento humano. O mais empedernido adepto do luddismo concordará com esta observação hoje. Vindas de chineses ou de americanos as tentativas de controlo da internet estão votadas ao fracasso. Mas, há que estar vigilante. É que a viagem na internet não é à borla.
A Europa tem um exemplo forte a dar nesta matéria. A recente eleição de um membro do Partido Pirata da Suécia para o PE é sinal de que os europeus são sensívels a este tema e estão atentos, mais talvez do que se julga.
(*) O episódio está descrito aqui.
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