Era previsível. O parlamento grego aprovou esta madrugada, por maioria expressiva, um terceiro programa de assistência (vulgo "resgate") para evitar a bancarrota do país.
Depois de 6 meses de negociações e um referendo, onde os gregos se expressaram inequivocamente contra mais medidas de austeridade, o governo de Tsipras foi obrigado a capitular perante a intransigência dos restantes países da zona Euro, Alemanha à cabeça.
Era possível outra saída?
Sim, caso Tsipras tivesse respeitado o resultado do referendo e agisse em consequência (saída da Grécia do Euro). Nesse caso, seguir-se-ia um período de transição, com vista a preparar o país para uma nova moeda, de consequências imprevisíveis e provavelmente mais dramáticas para o povo grego. Essa foi, de resto, a explicação dada pelo primeiro-ministro grego na primeira entrevista, após a maratona de Bruxelas e, ontem, confirmada no Parlamento.
Não, caso os credores se mostrassem intransigentes e obrigassem a Grécia a aceitar um novo programa de assistência (vulgo "resgate") que, em troca de mais dinheiro, mantivesse o país na esfera da dependência económica e financeira dos alemães e franceses.
Contra todas as expectativas e apesar de duas votações inequívocas, que suportavam uma decisão de ruptura, Tsipras deu o dito por não dito e aceitou as condições impostas pelos credores.
Deve, no entanto, ser sublinhado, que a posição do primeiro-ministro grego não foi apoiada por mais de três dezenas de deputados do seu próprio partido, entre os quais o ex-ministro das finanças, Varoufakis, que dirigiu a delegação grega durante as negociações de Bruxelas. A este propósito, leiam-se os apontamentos e sugestões de Varoufakis, publicadas por estes dias, que explicam bem as razões pelas quais ele teria sido "sacrificado" durante este processo.
E os credores? Ainda que um novo "resgate" possa aliviar temporariamente a situação grega e, indirectamente, permitir à Grécia pagar parte dos juros da dívida actual, a verdade é que, com este novo programa, a dívida grega aumenta e torna-se impagável. A opinião é da insuspeita Lagarde (FMI) que sabe do que fala. É ela que propõe um "haircut" (perdão) da dívida, única forma de aliviar a Grécia da pesada herança dos últimos 40 anos de governação e que conduziram o país a este beco sem saída. Percebe-se a preocupação da directora do FMI: se a Grécia dever 100 milhões de euros, o país terá de pagá-los, mas se dever 1000 milhões, os credores nunca mais verão o dinheiro...
Resta falar da Europa e do projecto europeu: depois do que aconteceu esta semana, a UE nunca mais será a mesma. A irredutabilidade de países credores, como a Alemanha, perante uma situação cujas causas devem ser procuradas na arquitectura de uma moeda única que não prevê situações de insolvabilidade financeira de países intervencionados, faz temer o pior e o pior poderá ser o fim do Euro e, quiçás, do próprio projecto europeu tal como o conhecemos.
Esse perigo ficou patente na reacção inglesa, que se recusa a apoiar o plano de emergência para acudir à Grécia e nas diversas manifestações, um pouco por toda a Europa, onde os partidos e movimentos nacionalistas (vide França, Finlândia e Hungria) não escondem o seu ódio aos ditames dos eurocratas de Bruxelas.
Sim, a operação de "resgate", parece estar a correr bem. Mas, não passa de um paliativo. Os problemas voltarão e nada nos faz acreditar que o paciente já não esteja, de facto, morto.
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2015/07/16
2012/05/17
Grécia: e se não houver plano B?
Perante o falhanço das conversações interpartidárias na Grécia e a crescente subida do Syriza nas sondagens, que apontam para a vitória deste partido nas próximas eleições, o BCE não esteve com meias medidas: suspendeu todos os contactos com a banca grega. O mesmo aconteceu com o FMI, que anunciou só voltar à Grécia quando houver um governo estável.
Resultado: uma corrida desenfreada aos bancos, donde foram levantados mais de mil milhões de euros esta semana. A este ritmo, dentro de um mês, o sistema económico entrará em colapso e a Grécia terá de declarar bancarrota, com todas as consequências daí advindas. Desde logo, a saída do Euro. Mas, não serão apenas os gregos a sofrer directamente as consequências. Toda a zona euro será afectada, a começar pelos credores, as economias mais débeis (Portugal) e mesmo outros países, como o Reino Unido, com relações económicas directamente dependentes da zona euro.
A estratégia é clara: através desta pressão, a banca tenta destabilizar o processo eleitoral em curso, com vista a evitar a chegada ao poder da única força de esquerda que declarou querer romper com o programa da Troika e aliviar o programa de austeridade imposto à Grécia.
Curiosamente, enquanto 80% dos gregos dizem querer continuar no Euro, figuras prominentes como a Sra. Lagarde (FMI) e a própria Merkel, dizem tudo querer fazer para ajudar o povo grego (!?). Em que ficamos, afinal?
Porque a História avança e o tempo começa a ser curto para arrepiar caminho, seria bom saber quais as consequências para a moeda única em caso de bancarrota de um dos seus estados membros e se existe um plano B para salvar a Grécia. Vamos acreditar que sim, porque se não existe, então está tudo louco e, quem acreditar nesta gente, corre sérios riscos de ficar contaminado.
2011/11/01
Poker Grego
Ao admitir referendar o segundo pacote de ajuda financeira à Grécia, Papandreou não só se colocou numa posição (aparentemente) insustentável, como abriu uma crise que pode vir a afectar toda a zona Euro e, por extensão, a própria Europa.
Desde logo, no seio do seu próprio partido, que hoje mesmo perdeu dois deputados e onde se exige a sua demissão, o que conduziria a eleições antecipadas. Depois, no governo, onde o seu ministro das finanças, que conduz o processo da dívida em Bruxelas, foi completamente ultrapassado pela notícia. Finalmente, na zona Euro, onde o contágio da crise grega parece agora o mais provável.
A avaliar pelas reacções da população grega, a tendência parece ser negativa. Se houver um referendo, o mais natural é o "não" ser maioritário. Nesse caso, a Grécia deixará de receber ajuda, será declarada insolvente e terá de sair do Euro. O regresso ao Dracma e a um longo período de pobreza será, nesse caso, inevitável. A vencer o "sim", o primeiro-ministro grego sairá fortalecido da crise, pois verá o pacote ser aceite pela população, legitimando dessa forma a sua posição.
Restam os "mercados" que, como sempre, ficaram "nervosos". Em Frankfurt, um dos corretores entrevistados dizia hoje que, desta forma, a Grécia teria de sair do Euro, o que já devia ter acontecido há muito tempo...
Acontece que a queda da Grécia arrastará, inevitavelmente, outros países europeus. Portugal, mas também a Irlanda, a Espanha ou a Itália, serão os próximos alvos dos especuladores. Nessa altura, Merkel perceberá que a estigmatização da Grécia, poderá significar a derrota da estratégia alemã. Será este o último "bluff" de Papandreou?
Desde logo, no seio do seu próprio partido, que hoje mesmo perdeu dois deputados e onde se exige a sua demissão, o que conduziria a eleições antecipadas. Depois, no governo, onde o seu ministro das finanças, que conduz o processo da dívida em Bruxelas, foi completamente ultrapassado pela notícia. Finalmente, na zona Euro, onde o contágio da crise grega parece agora o mais provável.
A avaliar pelas reacções da população grega, a tendência parece ser negativa. Se houver um referendo, o mais natural é o "não" ser maioritário. Nesse caso, a Grécia deixará de receber ajuda, será declarada insolvente e terá de sair do Euro. O regresso ao Dracma e a um longo período de pobreza será, nesse caso, inevitável. A vencer o "sim", o primeiro-ministro grego sairá fortalecido da crise, pois verá o pacote ser aceite pela população, legitimando dessa forma a sua posição.
Restam os "mercados" que, como sempre, ficaram "nervosos". Em Frankfurt, um dos corretores entrevistados dizia hoje que, desta forma, a Grécia teria de sair do Euro, o que já devia ter acontecido há muito tempo...
Acontece que a queda da Grécia arrastará, inevitavelmente, outros países europeus. Portugal, mas também a Irlanda, a Espanha ou a Itália, serão os próximos alvos dos especuladores. Nessa altura, Merkel perceberá que a estigmatização da Grécia, poderá significar a derrota da estratégia alemã. Será este o último "bluff" de Papandreou?
2011/05/24
E a Grécia aqui tão perto...
Como vem sendo relatado, de há um ano a esta parte, a intervenção financeira do FMI na Grécia não tem sido propriamente um sucesso. Os "pacotes" impostos (os PEC's gregos) e as "tranches" trimestrais (os empréstimos externos) não chegam para estancar a dívida grega e o consequente endividamento que não pára de crescer. À medida que a dívida cresce, mais empréstimos vão sendo necessários e, por consequência, maior é a dependência grega do exterior. Um ciclo infernal que não tem fim à vista e que levou ontem Papandreou a anunciar que, se a próxima "tranche" não chegar até Junho, o país entrará em bancarrota. Enquanto isso, a Fitch veio baixar o "rating" da Bélgica (que tem uma dívida externa superior à portuguesa) o que coloca o país no grupo das economias em risco, a par da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, os "pigs" de serviço.
Reagindo perante a hipótese da renegociação da dívida grega, o senhor Rompuy (aquele belga com cara de banda desenhada) já veio dizer que renegociar a dívida era pôr o Euro em perigo.
Resta citar Paul Krugman, o nobel de economia, que hoje mesmo reitera a sua opinião de "expert", para nos dizer que Portugal, como a Grécia ou a Irlanda, não tem capacidade de pagar a dívida e que esta deve ser renegociada enquanto é tempo.
Perante este cenário, alguém ainda acredita que vamos resolver os nossos problemas com o programa da "troika" em Portugal?
Reagindo perante a hipótese da renegociação da dívida grega, o senhor Rompuy (aquele belga com cara de banda desenhada) já veio dizer que renegociar a dívida era pôr o Euro em perigo.
Resta citar Paul Krugman, o nobel de economia, que hoje mesmo reitera a sua opinião de "expert", para nos dizer que Portugal, como a Grécia ou a Irlanda, não tem capacidade de pagar a dívida e que esta deve ser renegociada enquanto é tempo.
Perante este cenário, alguém ainda acredita que vamos resolver os nossos problemas com o programa da "troika" em Portugal?
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