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2025/08/06

Dos fogos (outra vez)

Dicas de prevenção e proteção contra Incêndios Florestais

Voltou a "época dos fogos" e, com esta, as imagens diárias que todos lembramos de anos passados: imagens dantescas de populações desesperadas, que tentam salvar os seus bens, enquanto centenas de bombeiros, em terra e no ar, tentam salvar as populações e limitar os estragos. 

Uma guerra condenada ao fracasso, ainda que, aqui e ali, algumas batalhas possam ser ganhas.

As razões são conhecidas: a temperatura média do planeta está a aumentar e os dados conhecidos não mentem. 2024 foi o ano mais quente do século, a temperatura aumentou em média 1,3 graus e, de acordo com as estimativas meteorológicas, Portugal poderá ter, no futuro, mais de 50 dias anuais com temperaturas acima dos 35 graus (por muito que isto custe aos negacionistas, que acreditam que a Terra é plana e o Sol gira em volta da Terra...). 

Acresce que o país está inserido numa zona (mediterrânica) propícia a vagas de calor frequentes, tempo seco, ventos fortes e humidade relativa, o que torna a situação ainda mais complicada.

Ou seja, os fogos de Verão vão continuar, provavelmente com mais frequência e maior intensidade. Só nas últimas três semanas, já teriam ardido 30.000hectares (o equivalente a 30.000 campos de futebol) e muitos mais arderão até Setembro...

Uma fatalidade? Sim e não. Fogos haverá sempre, mas podemos prevenir melhor, para termos fogos de menor intensidade e mais circunscritos em superfície. Dito de outra forma: se o combate aos fogos é necessário, a prevenção é tanta, ou mais importante, pelo que não pode haver uma solução sem a outra. 

Todos os dias, os especialistas na matéria (uns mais conhecidos que outros) vêm alertar para o óbvio: é necessário mais limpeza das matas, maior controlo das zonas florestais, mais apoio às populações, compensações monetárias pela biomassa recolhida (lenhas, folhas, ervas, etc...), plantação de espécies autóctones (castanheiros, carvalhos, sobreiros...) que ardem menos e mais lentamente do que eucaliptos ou pinheiros bravos, plantação em mosaico (alternância de espécies plantadas...). Enfim, a lista é longa e conhecida de todos os interessados. Então, porque não se faz? 

Porque, para fazer tudo isto, têm de resolver, primeiro, os problemas a montante. 

Sabendo que 98% da floresta está em mãos de privados, como pode o estado intervir nesta matéria? Desde logo, actualizando o cadastro de terras (desactualizado a Norte do Tejo, há mais de 50 anos); depois, proceder ao reordenamento do território (uma reforma estrutural, que nenhum governo ousa fazer); obrigar os proprietários das terras a limpá-las (a lei existe, mas está longe de ser cumprida); ajudar a fixar as populações do interior (através de apoios que garantam uma contrapartida para a manutenção da floresta abandonada); criar incentivos à agro-pecuária e à manutenção de rebanhos (que ajudam a criar riqueza e a limpar a mata), etc. 

Tudo isto custa tempo e dinheiro, mas sem semear não se pode colher. No fundo, é investir hoje, para colher amanhã. 

Nada parece preocupar os nossos governantes, os de hoje e os do passado recente, que surgem pesarosos nas pantalhas televisivas, sempre que há tragédias, mas são incapazes de pensar o país a 15 ou 20 anos. Não há estratégia para a território, como não há para a floresta, ou para o despovoamento. Uma incapacidade total de resolver problemas estruturais da sociedade, que se arrastam há gerações, sem qualquer esperança que esta situação se altere a curto prazo. 

Estamos a meio do Verão e, até finais de Setembro, haverá mais vagas de calor e mais fogos. Seguem-se os relatórios sobre a área ardida e as compensações monetárias aos lesados. É sempre assim e nada prova que este ano seja diferente. A tradição (ainda) tem muita força. Para o ano, há mais...

2017/10/17

Quando ninguém é culpado, somos todos culpados...

Menos de quatro meses depois, daquela que já é considerada a maior tragédia do último século, o país viu-se, uma vez mais, confrontado com outra vaga de incêndios de proporções gigantescas. Quando escrevemos este texto, estavam contabilizados 41 vítimas mortais e mais de 70 feridos, entre os quais alguns em estado grave. Ou seja, em apenas dois dias de fogos florestais (17 de Junho e 15 de Outubro), morreram mais de 100 pessoas! Não estão aqui contabilizadas as perdas materiais (casas, alfaias, colheitas, animais) calculadas em qualquer coisa como 500 milhões de euros, para além da própria área florestal, da qual arderam 400.000 hectares, a maior área europeia este ano!
Uma catástrofe sem igual, que devia fazer pensar os gestores da coisa pública sobre as estratégias de prevenção e combate aos fogos, pensadas e aplicadas nas últimas décadas e que, ano após ano, continuam a falhar sistematicamente.
Algo está profundamente errado em tudo isto e não vale a pena lamentarmo-nos mais uma vez sobre esta calamidade, ou esperarmos por mais um relatório, para saber o que está mal e quais as origens do problema (são várias) ou os antídotos para solucionar (ainda que parcialmente) este problema.
O diagnóstico está feito e não são necessários mais pareceres e grupos de estudo para delinear uma estratégia nacional (a dez, vinte anos) que tenha a concordância dos sucessivos governos, pois se há causas nacionais, esta é uma delas.
Todos sabemos - e os técnicos repetiram-no esta semana -  que as causas profundas residem na desertificação do território (acelerado com a emigração e guerra colonial), na falta de ordenamento (de que toda a gente fala e ninguém quer saber), na falta de cadastro das florestas (não existe acima do Norte do Tejo) e no desaparecimento progressivo da agricultura de sobrevivência e do pastoreio (menos rebanhos, menos pastores), que foi trocada pela plantação desordenada de espécies exógenas (eucaliptos e pinheiro bravo) que ardem depressa e dão muito dinheiro a ganhar aos madeireiros e à industria de celulose. Acresce, que muitas autarquias não cumprem o obrigação da limpeza das matas e muitos habitantes, das zonas do interior, continuam a fazer queimadas, piqueniques e lançar foguetes em zonas proibidas, sem que alguém os proiba. Uma questão cultural, portanto.
Em Verões de extrema seca (como tem sido a maior parte, neste século) e com os pinhais sem vigilantes (acabaram com os guardas florestais e cantoneiros) não é para admirar que muitos fogos (90% são de origem humana) possam ser ateados, mesmo que sem dolo. Resta uma pequena percentagem (10%?) que comprovadamente foram actos de pirómanos e/ou terrorismo, a soldo de interesses vários (vinganças, económicos, políticos, etc.).
Ora, o que os fogos de domingo vieram demonstrar (mais de 500 ignições num só dia!) é que a prevenção falhou redondamente. Para além das causas naturais conhecidas (temperaturas excessivas para a época do ano, humidade relativa baixa e ventos ciclónicos) a verdade é que muitos dos dispositivos no terreno voltaram a claudicar na sua função mais importante: o aviso e a prevenção das populações. Falhou o famigerado SIRESP (mais de 500 milhões de custos), as famigeradas calhas onde passam as fibras ópticas que, supostamente, deviam estar enterradas para não derreter com o calor do fogo, a coordenação das equipas no terreno, os aviões e helicóperos em número insuficiente e "last but not least", o nível "Charlie" (alerta vermelho) que foi desactivado no dia 30 de Setembro, por ser considerado o último dia da "época de fogos" (!?).
É, por isso, incompreensível que, perante tanta inépcia e incompetência, o governo se limite agora a lamentar as mortes ocorridas e que use uma esfarrapada desculpa de um relatório, para não tomar, em tempo, medidas práticas de curto prazo.
Não, os fogos não podem ser todos controlados e não se pedem "milagres" aos governantes. Mas, pede-se, isso sim, a assumpção de responsabilidades que, neste caso, ninguém parece querer assumir. Uma melhor prevenção, não evita os fogos, mas limita a sua proliferação e diminui o risco implícito. Alguém tem de dar o "corpo às balas" e assumir responsabilidades por esta vergonha nacional. Quanto mais não seja, porque nem todos têm a mesma responsabilidade. Ora, como sabemos, quando ninguém é culpado, somos todos culpados. Já chega!   

2013/08/30

Um país a ferro e fogo

Foto DR
No Verão de 1979 passei três meses numa aldeia do concelho de Montalegre (Trás-os-Montes), local escolhido para “trabalho de campo” no âmbito de uma licenciatura em Antropologia.
O objecto de estudo (baldios e práticas comunitárias na região do Barroso) tinha sido definido em função da tradição enraizada entre as populações locais e que, à época, já se encontrava em vias de extinção: a utilização comunitária das terras de pastorícia, prática essencial para a manutenção dos rebanhos e para a economia de sobrevivência dos habitantes da região. 
Foi uma experiência enriquecedora, tanto do ponto de vista humano, como do conhecimento geográfico da região e do Portugal profundo, numa altura em que o refluxo dos anos loucos do PREC ainda se fazia sentir e as “vendettas” eram prática comum nas zonas rurais do pais.
Lembro-me de ter sido apresentado ao responsável dos serviços florestais do distrito, um engenheiro agrónomo, cujo local de trabalho era numa ampla vivenda, onde também residia. Disse-lhe ao que vinha, mostrei-lhe a carta (escrita em inglês) onde o orientador de tese pedia apoio para a minha investigação e o homem, depois de a ler, logo ali pôs os arquivos do centro à minha disposição. Durante dias a fio, passei largas horas naquele arquivo, lendo relatórios  e comparando dados sobre as terras incultas e o uso comum dos baldios e da floresta à guarda do estado, sobre os quais os últimos dados existentes eram do censo de 1970. Todas as semanas havia fumo no horizonte e eu sabia que algures, nas serras circundantes, a floresta estava a arder. Falávamos muito de fogos e, um dia, após ter recebido uma mensagem de alerta, virou-se para mim e perguntou-me: “Quer ver um fogo de perto? Venha comigo, pois vai assistir a um”.
Lá fomos no jipe da guarda florestal e após largos minutos por montes e vales chegámos a uma distância relativamente perto da ocorrência. Aguardava-nos um cenário dantesco: labaredas gigantes que ora avançavam, ora recuavam, mudando de direcção, fagulhas lançadas pelo vento que alimentavam a combustão, uma cortina de fumo negro que impedia a visão a uma dezena de metros e um calor abrasador que não nos permitia respirar. Fiquei, literalmente, siderado. Rapidamente, demos meia-volta, deixando para trás uma corporação de bombeiros que procuravam limitar os estragos. Perguntei-lhe se pensava que os fogos podiam ter uma origem criminosa... ”Nunca vi nenhum fogo espontâneo. Você já viu?”, foi a sua resposta.
Continuei o trabalho e, nas fichas consultadas, confirmei a opinião do técnico. Mais de metade das ocorrências estava marcada com a menção “fogo posto” ou “negligência”; enquanto os restantes casos apontavam como “origem desconhecida” a causa improvável dos incêndios.
Passados alguns dias, estava eu em Montalegre, ouviu-se uma explosão que fez estremecer toda a vila. Uma coluna de fumo negro elevava-se por cima da residência do técnico florestal. A notícia rapidamente se espalhou: uma bomba artesanal tinha deflagrado na casa do homem e este tinha morrido. No funeral, dizia-se à boca calada que ele tinha posto fim à vida. Várias versões sobre a sua morte, correram naquele Verão, entre as quais a de que ele teria dados comprometedores nos seus arquivos.  O caso caiu no esquecimento e provavelmente nunca se saberá a verdadeira razão de tão estranho acidente. Nunca me esqueci deste episódio e lembro-me sempre dele quando chega o Verão e vejo Portugal a arder.
Passaram mais de 30 anos e, ciclicamente, todos os Verões, os fogos em Portugal regressam, se possível com maior violência e mais vítimas humanas a lamentar. Se durante a ditadura os fogos eram, normalmente, associados a agricultores ou pastores, a quem eram atribuídas as “queimadas” para limparem o mato circundante; depois de 1974, as razões invocadas tem sido as mais díspares: desde pirómanos, a motivos políticos, motivos pessoais (vendettas), lobby da celulose, interesses mobiliários, empresas de material de combate aos fogos, falta de limpeza das matas e, claro, a inevitável imprevidência. Todas razões plausíveis, mas que não podem servir de argumento para continuar esta situação insustentável. 
Uma coisa é certa: nenhuma razão poderá ser invocada sem haver uma mudança radical de mentalidades (dos governantes, dos responsáveis e das populações interessadas), única forma de parar este verdadeiro flagelo nacional, contra o qual parece não haver antídoto.
É tempo de haver uma mobilização nacional à volta de uma riqueza tão importante como a floresta, para não falar das vidas humanas (de bombeiros e não só) que todos os anos são notícia nos telejornais. O diagnóstico, sobre as razões dos fogos, está feito e não são necessários mais programas “Prós e Contras” para um debate sobre o tema.
Mais do que os meios – que toda a gente diz serem suficientes – é necessário mais e melhor prevenção e não se percebe porque todos os anos falhamos. Haja vergonha!