Mostrar mensagens com a etiqueta Prevenção. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Prevenção. Mostrar todas as mensagens

2025/08/06

Dos fogos (outra vez)

Dicas de prevenção e proteção contra Incêndios Florestais

Voltou a "época dos fogos" e, com esta, as imagens diárias que todos lembramos de anos passados: imagens dantescas de populações desesperadas, que tentam salvar os seus bens, enquanto centenas de bombeiros, em terra e no ar, tentam salvar as populações e limitar os estragos. 

Uma guerra condenada ao fracasso, ainda que, aqui e ali, algumas batalhas possam ser ganhas.

As razões são conhecidas: a temperatura média do planeta está a aumentar e os dados conhecidos não mentem. 2024 foi o ano mais quente do século, a temperatura aumentou em média 1,3 graus e, de acordo com as estimativas meteorológicas, Portugal poderá ter, no futuro, mais de 50 dias anuais com temperaturas acima dos 35 graus (por muito que isto custe aos negacionistas, que acreditam que a Terra é plana e o Sol gira em volta da Terra...). 

Acresce que o país está inserido numa zona (mediterrânica) propícia a vagas de calor frequentes, tempo seco, ventos fortes e humidade relativa, o que torna a situação ainda mais complicada.

Ou seja, os fogos de Verão vão continuar, provavelmente com mais frequência e maior intensidade. Só nas últimas três semanas, já teriam ardido 30.000hectares (o equivalente a 30.000 campos de futebol) e muitos mais arderão até Setembro...

Uma fatalidade? Sim e não. Fogos haverá sempre, mas podemos prevenir melhor, para termos fogos de menor intensidade e mais circunscritos em superfície. Dito de outra forma: se o combate aos fogos é necessário, a prevenção é tanta, ou mais importante, pelo que não pode haver uma solução sem a outra. 

Todos os dias, os especialistas na matéria (uns mais conhecidos que outros) vêm alertar para o óbvio: é necessário mais limpeza das matas, maior controlo das zonas florestais, mais apoio às populações, compensações monetárias pela biomassa recolhida (lenhas, folhas, ervas, etc...), plantação de espécies autóctones (castanheiros, carvalhos, sobreiros...) que ardem menos e mais lentamente do que eucaliptos ou pinheiros bravos, plantação em mosaico (alternância de espécies plantadas...). Enfim, a lista é longa e conhecida de todos os interessados. Então, porque não se faz? 

Porque, para fazer tudo isto, têm de resolver, primeiro, os problemas a montante. 

Sabendo que 98% da floresta está em mãos de privados, como pode o estado intervir nesta matéria? Desde logo, actualizando o cadastro de terras (desactualizado a Norte do Tejo, há mais de 50 anos); depois, proceder ao reordenamento do território (uma reforma estrutural, que nenhum governo ousa fazer); obrigar os proprietários das terras a limpá-las (a lei existe, mas está longe de ser cumprida); ajudar a fixar as populações do interior (através de apoios que garantam uma contrapartida para a manutenção da floresta abandonada); criar incentivos à agro-pecuária e à manutenção de rebanhos (que ajudam a criar riqueza e a limpar a mata), etc. 

Tudo isto custa tempo e dinheiro, mas sem semear não se pode colher. No fundo, é investir hoje, para colher amanhã. 

Nada parece preocupar os nossos governantes, os de hoje e os do passado recente, que surgem pesarosos nas pantalhas televisivas, sempre que há tragédias, mas são incapazes de pensar o país a 15 ou 20 anos. Não há estratégia para a território, como não há para a floresta, ou para o despovoamento. Uma incapacidade total de resolver problemas estruturais da sociedade, que se arrastam há gerações, sem qualquer esperança que esta situação se altere a curto prazo. 

Estamos a meio do Verão e, até finais de Setembro, haverá mais vagas de calor e mais fogos. Seguem-se os relatórios sobre a área ardida e as compensações monetárias aos lesados. É sempre assim e nada prova que este ano seja diferente. A tradição (ainda) tem muita força. Para o ano, há mais...

2019/07/28

A "Época dos Fogos"


Como é da "tradição", voltaram os fogos de Verão. O fenómeno é de tal ordem, que alguém o baptizou de "época de fogos". Se já tínhamos a "quadra natalícia" e a "época balnear", porque não a "época dos fogos"? Desta forma, podemos sempre criar mais um "ritual de passagem" e anunciar lá fora: "Venha a Portugal no Verão: sol, praia e fogos, garantidos!". 
Os números não mentem. De acordo com o relatório "O Mediterrâneo Arde", apresentado este mês pela World Wildlife Fund" (WWF), as perspectivas para os países do Mediterrâneo Norte (Portugal incluído), são preocupantes. Já em finais de 2018, outro estudo, liderado por Marco Turco (universidade de Barcelona), apresentava projecções catastróficas: no melhor cenário, aquele em que a temperatura média do planeta aumentará 1,5ºC (limite estabelecido pelo Acordo de Paris sobre alterações climáticas) , o Mediterrâneo verá a sua área ardida aumentar em 40% até ao fim do século, sendo a Península Ibérica uma das zonas mais penalizadas. Caso o aquecimento chegue aos 3ºC, a destruição poderá atingir os 100%.
O relatório do WWF,  que incide sobre Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Turquia, alerta ainda para o facto de termos entrado numa época de megaincêndios (de sexta geração), imprevisíveis, violentos, incontroláveis e letais. Fazem parte desta categoria, os grandes fogos de 2017 (Pedrogão e 15 de Outubro) e 2018 (Grécia). Este ano, devido às irregularidades climatéricas e um Verão relativamente fraco, os grandes fogos começaram mais tarde. No entanto, bastaram dois dias de incêndios violentos (Vila de Rei e Mação), para que os números disparassem. Num só fim-de-semana, arderam 8000 ha, metade da área ardida em todo o ano! Se esta é a realidade de Julho, o que podemos esperar dos dois meses que faltam, para terminar a "época dos fogos"?...
É verdade que não houve vítimas, como há dois anos (112 mortos), o que mostra algum avanço na forma de combater o fogo. A estratégia passou a ser "salvar vidas", em detrimento de casas e bens. Mas, conforme todos os especialistas apontam, muito há ainda por fazer nesta área, a começar pela prevenção, que leva tempo a implementar e sem a qual o combate ao fogo será sempre inglório.
O diagnóstico está feito e passa por acções conjuntas, a começar pelo ordenamento do território e respectivo cadastro, sem o qual é impossível gerir a floresta existente nos terrenos privados (90% do território). Estes, encontram-se ao abandono, seja por falta de meios humanos, seja por falta de meios materiais.
Há duas variáveis que Portugal (os respectivos governos) dificilmente poderão controlar: o aquecimento global e a desertificação do interior. Relativamente ao primeiro "item", só através de acções conjuntas a nível internacional (o Acordo de Paris é um bom exemplo) poderão ser tomadas medidas que defendam o planeta do anunciado aquecimento. No segundo caso, os incêndios não poderão ser evitados (haverá sempre fogos, durante todo o ano), mas poderão ser minorados, desde que a prevenção tenha um papel determinante. Uma das formas, será criando incentivos que ajudem os proprietários a limpar os terrenos e a entregar a madeira e mato recolhidos, em troca de benefícios que justifiquem a recolha sistemática da carga "combustível" existente, para que, dessa forma, esta possa ser transformado em biomassa. Se não houver contrapartidas, dificilmente os donos dos terrenos, investirão numa industria, da qual não colhem proveitos. Na melhor das hipóteses, plantam árvores (eucaliptos e pinheiros) de crescimento rápido, para obter algum rendimento, uma das razões que estarão na origem de muitos dos fogos das últimas décadas. Uns por negligência, outros por interesses obscuros, já que sabemos que só uma ínfima parte dos fogos são originados por causas naturais (trovoadas, etc...).
Desde a década de sessenta do século passado, que a migração para o litoral (e para o estrangeiro) é uma constante. Mais de 75% da população portuguesa vive hoje numa faixa litoral, compreendida entre Braga e Setúbal. Reverter este processo, tornou-se utópico, admitindo que algum governo o queira tentar. Resta, pois, uma gestão equilibrada e sustentável do território, que passa por uma estratégia de longo termo, se ainda queremos salvar algo. Olhando para os gestores da coisa pública actuais, tememos o pior. Não se vislumbram grandes metas e as soluções (temporais) encontradas, acabam por ser mais do mesmo...Voltamos sempre ao princípio, ancorados numa velha certeza: o da tradição, imutável, como convém. Assim, não vamos lá...

2017/10/17

Quando ninguém é culpado, somos todos culpados...

Menos de quatro meses depois, daquela que já é considerada a maior tragédia do último século, o país viu-se, uma vez mais, confrontado com outra vaga de incêndios de proporções gigantescas. Quando escrevemos este texto, estavam contabilizados 41 vítimas mortais e mais de 70 feridos, entre os quais alguns em estado grave. Ou seja, em apenas dois dias de fogos florestais (17 de Junho e 15 de Outubro), morreram mais de 100 pessoas! Não estão aqui contabilizadas as perdas materiais (casas, alfaias, colheitas, animais) calculadas em qualquer coisa como 500 milhões de euros, para além da própria área florestal, da qual arderam 400.000 hectares, a maior área europeia este ano!
Uma catástrofe sem igual, que devia fazer pensar os gestores da coisa pública sobre as estratégias de prevenção e combate aos fogos, pensadas e aplicadas nas últimas décadas e que, ano após ano, continuam a falhar sistematicamente.
Algo está profundamente errado em tudo isto e não vale a pena lamentarmo-nos mais uma vez sobre esta calamidade, ou esperarmos por mais um relatório, para saber o que está mal e quais as origens do problema (são várias) ou os antídotos para solucionar (ainda que parcialmente) este problema.
O diagnóstico está feito e não são necessários mais pareceres e grupos de estudo para delinear uma estratégia nacional (a dez, vinte anos) que tenha a concordância dos sucessivos governos, pois se há causas nacionais, esta é uma delas.
Todos sabemos - e os técnicos repetiram-no esta semana -  que as causas profundas residem na desertificação do território (acelerado com a emigração e guerra colonial), na falta de ordenamento (de que toda a gente fala e ninguém quer saber), na falta de cadastro das florestas (não existe acima do Norte do Tejo) e no desaparecimento progressivo da agricultura de sobrevivência e do pastoreio (menos rebanhos, menos pastores), que foi trocada pela plantação desordenada de espécies exógenas (eucaliptos e pinheiro bravo) que ardem depressa e dão muito dinheiro a ganhar aos madeireiros e à industria de celulose. Acresce, que muitas autarquias não cumprem o obrigação da limpeza das matas e muitos habitantes, das zonas do interior, continuam a fazer queimadas, piqueniques e lançar foguetes em zonas proibidas, sem que alguém os proiba. Uma questão cultural, portanto.
Em Verões de extrema seca (como tem sido a maior parte, neste século) e com os pinhais sem vigilantes (acabaram com os guardas florestais e cantoneiros) não é para admirar que muitos fogos (90% são de origem humana) possam ser ateados, mesmo que sem dolo. Resta uma pequena percentagem (10%?) que comprovadamente foram actos de pirómanos e/ou terrorismo, a soldo de interesses vários (vinganças, económicos, políticos, etc.).
Ora, o que os fogos de domingo vieram demonstrar (mais de 500 ignições num só dia!) é que a prevenção falhou redondamente. Para além das causas naturais conhecidas (temperaturas excessivas para a época do ano, humidade relativa baixa e ventos ciclónicos) a verdade é que muitos dos dispositivos no terreno voltaram a claudicar na sua função mais importante: o aviso e a prevenção das populações. Falhou o famigerado SIRESP (mais de 500 milhões de custos), as famigeradas calhas onde passam as fibras ópticas que, supostamente, deviam estar enterradas para não derreter com o calor do fogo, a coordenação das equipas no terreno, os aviões e helicóperos em número insuficiente e "last but not least", o nível "Charlie" (alerta vermelho) que foi desactivado no dia 30 de Setembro, por ser considerado o último dia da "época de fogos" (!?).
É, por isso, incompreensível que, perante tanta inépcia e incompetência, o governo se limite agora a lamentar as mortes ocorridas e que use uma esfarrapada desculpa de um relatório, para não tomar, em tempo, medidas práticas de curto prazo.
Não, os fogos não podem ser todos controlados e não se pedem "milagres" aos governantes. Mas, pede-se, isso sim, a assumpção de responsabilidades que, neste caso, ninguém parece querer assumir. Uma melhor prevenção, não evita os fogos, mas limita a sua proliferação e diminui o risco implícito. Alguém tem de dar o "corpo às balas" e assumir responsabilidades por esta vergonha nacional. Quanto mais não seja, porque nem todos têm a mesma responsabilidade. Ora, como sabemos, quando ninguém é culpado, somos todos culpados. Já chega!   

2017/08/03

Sinais Preocupantes

foto Raul Morgado
Algo está podre no reino da Dinamarca e os meses da "Silly Season" não explicam tudo.
Veja-se o caso dos fogos florestais: há décadas (pelo menos desde os anos sessenta do século passado) que a desertificação do interior português é um facto insofismável. O fenómeno tem vindo a aumentar exponencialmente e foi assinalado em dezenas de estudos e relatórios de "experts" das mais diferentes áreas: administração do território, engenheiros do ambiente, agrónomos, sivicultores, géografos, autarcas, economistas...
A desertificação é um dos problemas que está na origem deste flagelo cíclico, mas não é a única causa. Com o desaparecimento das populações (causado pela emigração em massa dos campos para o litoral e para o estrangeiro) nas décadas de sessenta e setenta, os campos deixaram de ser cultivados e o número de cabeças de gado (pastoreio) diminuiu igualmente. Com as terras abandonadas e sem agricultura/pastoreio, que as mantivesse produtivas, deixou de haver investimento nas zonas rurais, até porque as novas gerações (mais bem preparadas e a viverem em zonas urbanas) não voltaram para as suas localidades de origem, muito menos para os trabalhos agrícolas.
Os que mantêm casas, ou construíram de raiz novas casas, vivem muitas vezes no estrangeiro e só voltam em férias. Os que restam, estão cada vez mais velhos para poderem tratar das parcelas que ainda possuem.
Com a adesão de Portugal à (então) CEE, os terrenos agrícolas (até aí maioritariamente constituidos por uma agricultura de subsistência) foram abandonados (a troco de compensações monetárias) ou reconvertidos em culturas intensivas, que exigiram outro tipo de investimento e productividade. Ficaram as propriedades mais produtivas e diminuiu ainda mais a população agrícola. Sem outros meios de sobrevivência, muitos dos pequenos agricultores dedicaram-se à plantação de eucaliptos, por ser mais rentável e de fácil manutenção.
Acresce, que muitas dessas terras, para além dos eucaliptos, não possuem mais nada e o mato, em seu redor, cresce sem ser tratado. Não existem carreiros entre as árvores e, quando existem, estão muitas vezes cobertos de arvoredo, dado que ninguém trata deles. Porque são privados (97% do total florestado) o estado não pode obrigar os donos a fazê-lo, pois não possui um cadastro de terras actualizado. De resto, não existe cadastro de terras a Norte do Tejo!
Junte-se a isto tudo, a proverbial "falta de meios" humanos e materiais, de que todos os responsáveis se queixam, e começamos a ter uma ideia da situação a que chegámos.
Obviamente, que o calor e as médias de temperatura (a aumentar gradualmente) contribuem para este desastre anunciado. Aqui, a mão humana vale de pouco. Ou melhor, pode valer muito, se houver um consenso internacional que a isso obrigue.
Resta, contudo, uma questão central: se sabemos isto tudo, e os diagnósticos estão feitos, porque é que os gestores da coisa pública (governo, partidos, especialistas) não conseguem chegar a um consenso minímo para atacar este problema estrutural, que afecta não só uma das nossas maiores fontes de riqueza (a floresta), mas todo o país, a começar pelos seus cidadãos?
Outra questão, é a dos famigerados roubos de armas (em Tancos e não só) que regularmente têm lugar e sobre os quais, para além das medidas mais óbvias, pouco ou nada se sabe e, quando se sabe algo, as respostas são tão evasivas e ridículas (veja-se o caso do responsável do SIS que soube do roubo pela comunicação social!) que não sabemos se rir se chorar.
Finalmente, que este "post" já vai longo: ontem despenhou-se uma avioneta na praia de S. João da Caparica quando tentava aterrar na areia (!?). Morreram duas pessoas (entre as quais uma criança de oito anos) que estavam na praia. Podiam ter morrido dezenas. Nos minutos que antecederam o acidente, o piloto comunicou com a torre de comando (Tires) anunciando a pane, enquanto pedia autorização para aterrar...na praia! Ia a cerca de 300 pés (500 metros) que é, de acordo com os "experts", a altura média daquele "corredor" de voo, para não colidir com os aviões de carreira que voam mais alto...Mas passam todos os dias, por ali, dezenas de avionetas. Há anos! Por cima de uma praia, para mais cheia (às 4 horas da tarde) em pleno mês de Agosto. Mas, então, o avião não podia voar por cima do mar, ou o "corredor" é assim tão estreito que as avionetas de treino só podem passar por cima das praias? E o piloto, não podia ter tentado a amaragem no oceano? É a opinião de muitos "experts", de resto. Podia morrer? Claro que podia. E, então? Já nem comento o texto da "pivot" da SICn que, no fim da notícia, dizia que "a avioneta estava intacta e só tinha uma asa partida" (!?). Só tinha uma asa partida? Mas esta gente ensandeceu?
Nem tudo se pode evitar, certamente. Mas, não podemos prever estas e outras coisas, bem mais graves, e estabelecer regras mínimas que reduzam a possibilidade de existirem tais acidentes? Ou isto é tudo "inevitável"? Ou somos todos irresponsáveis, ainda que uns mais que outros, como é óbvio? Não quero acreditar que sejamos assim tão maus.     

2016/09/08

Fogos há muitos...

De acordo com a opinião dos "experts", os fogos causados por incendiários (que existem) não representam mais do que 20% do total dos incêndios. Os restantes 80%, têm a ver com causas várias (desleixo, "queimadas", picnics, fogos de artifício, canas de foguetes, falta de limpeza das matas, difícil acesso para os bombeiros, etc...).
Em meses extremamente quentes, como Julho e Agosto, com ventos de Leste que aceleram a propagação das chamas, torna-se praticamente impossível controlar todas as "ignições", calculadas em centenas por dia. Um flagelo, que atinge outros países bem mais apetrechados que o nosso (Austrália, EUA/Califórnia, etc.). De qualquer modo, Portugal teve, só este ano, cerca de 100.000ha ardidos, mais do que a totalidade da última década (!?), correspondente a 2% da área florestal da União Europeia! Uma catástrofe ambiental e económica, com prejuízos para as pessoas e para a natureza.
Alguma coisa está profundamente errada neste modelo de combate ao fogo em Portugal, a começar pela prevenção que nunca é feita de forma sistemática e em tempo útil (leia-se, nos meses de Inverno e Primavera).
Resta acrescentar que não existe um cadastro actualizado de terras a Norte do Tejo, o que torna impossível responsabilizar os donos/herdeiros das terras que lhes pertencem. Dado que os custos de limpeza dessas terras são, normalmente, superiores à rentabilidade dos terrenos, os proprietários (muitos deles, absentistas) preferem deixar as terras ao abandono. 
Quando os vendem ou arrendam, as árvores neles plantados são, por norma, eucaliptos para a celulose (industria do papel) que são mais rendáveis. Ora, como é sabido, o eucalipto exige mais água (seca tudo em seu redor) e arde mais depressa. Outro desastre ambiental!
Deviam plantar árvores como o carvalho, o castanheiro, o sobreiro, o pinheiro e a oliveira, que são mais adequadas à morfologia do mediterrâneo. Isto é o que dizem os engenheiros sivicultores e os agrónomos que percebem da poda. Porque muitos destes técnicos (não esquecer os guardas florestais), e os serviços que tutelavam, foram extintos, estamos pior do que há 30 anos atrás. Com gestores da coisa pública medíocres, não vamos lá. Um país adiado...

2013/08/30

Um país a ferro e fogo

Foto DR
No Verão de 1979 passei três meses numa aldeia do concelho de Montalegre (Trás-os-Montes), local escolhido para “trabalho de campo” no âmbito de uma licenciatura em Antropologia.
O objecto de estudo (baldios e práticas comunitárias na região do Barroso) tinha sido definido em função da tradição enraizada entre as populações locais e que, à época, já se encontrava em vias de extinção: a utilização comunitária das terras de pastorícia, prática essencial para a manutenção dos rebanhos e para a economia de sobrevivência dos habitantes da região. 
Foi uma experiência enriquecedora, tanto do ponto de vista humano, como do conhecimento geográfico da região e do Portugal profundo, numa altura em que o refluxo dos anos loucos do PREC ainda se fazia sentir e as “vendettas” eram prática comum nas zonas rurais do pais.
Lembro-me de ter sido apresentado ao responsável dos serviços florestais do distrito, um engenheiro agrónomo, cujo local de trabalho era numa ampla vivenda, onde também residia. Disse-lhe ao que vinha, mostrei-lhe a carta (escrita em inglês) onde o orientador de tese pedia apoio para a minha investigação e o homem, depois de a ler, logo ali pôs os arquivos do centro à minha disposição. Durante dias a fio, passei largas horas naquele arquivo, lendo relatórios  e comparando dados sobre as terras incultas e o uso comum dos baldios e da floresta à guarda do estado, sobre os quais os últimos dados existentes eram do censo de 1970. Todas as semanas havia fumo no horizonte e eu sabia que algures, nas serras circundantes, a floresta estava a arder. Falávamos muito de fogos e, um dia, após ter recebido uma mensagem de alerta, virou-se para mim e perguntou-me: “Quer ver um fogo de perto? Venha comigo, pois vai assistir a um”.
Lá fomos no jipe da guarda florestal e após largos minutos por montes e vales chegámos a uma distância relativamente perto da ocorrência. Aguardava-nos um cenário dantesco: labaredas gigantes que ora avançavam, ora recuavam, mudando de direcção, fagulhas lançadas pelo vento que alimentavam a combustão, uma cortina de fumo negro que impedia a visão a uma dezena de metros e um calor abrasador que não nos permitia respirar. Fiquei, literalmente, siderado. Rapidamente, demos meia-volta, deixando para trás uma corporação de bombeiros que procuravam limitar os estragos. Perguntei-lhe se pensava que os fogos podiam ter uma origem criminosa... ”Nunca vi nenhum fogo espontâneo. Você já viu?”, foi a sua resposta.
Continuei o trabalho e, nas fichas consultadas, confirmei a opinião do técnico. Mais de metade das ocorrências estava marcada com a menção “fogo posto” ou “negligência”; enquanto os restantes casos apontavam como “origem desconhecida” a causa improvável dos incêndios.
Passados alguns dias, estava eu em Montalegre, ouviu-se uma explosão que fez estremecer toda a vila. Uma coluna de fumo negro elevava-se por cima da residência do técnico florestal. A notícia rapidamente se espalhou: uma bomba artesanal tinha deflagrado na casa do homem e este tinha morrido. No funeral, dizia-se à boca calada que ele tinha posto fim à vida. Várias versões sobre a sua morte, correram naquele Verão, entre as quais a de que ele teria dados comprometedores nos seus arquivos.  O caso caiu no esquecimento e provavelmente nunca se saberá a verdadeira razão de tão estranho acidente. Nunca me esqueci deste episódio e lembro-me sempre dele quando chega o Verão e vejo Portugal a arder.
Passaram mais de 30 anos e, ciclicamente, todos os Verões, os fogos em Portugal regressam, se possível com maior violência e mais vítimas humanas a lamentar. Se durante a ditadura os fogos eram, normalmente, associados a agricultores ou pastores, a quem eram atribuídas as “queimadas” para limparem o mato circundante; depois de 1974, as razões invocadas tem sido as mais díspares: desde pirómanos, a motivos políticos, motivos pessoais (vendettas), lobby da celulose, interesses mobiliários, empresas de material de combate aos fogos, falta de limpeza das matas e, claro, a inevitável imprevidência. Todas razões plausíveis, mas que não podem servir de argumento para continuar esta situação insustentável. 
Uma coisa é certa: nenhuma razão poderá ser invocada sem haver uma mudança radical de mentalidades (dos governantes, dos responsáveis e das populações interessadas), única forma de parar este verdadeiro flagelo nacional, contra o qual parece não haver antídoto.
É tempo de haver uma mobilização nacional à volta de uma riqueza tão importante como a floresta, para não falar das vidas humanas (de bombeiros e não só) que todos os anos são notícia nos telejornais. O diagnóstico, sobre as razões dos fogos, está feito e não são necessários mais programas “Prós e Contras” para um debate sobre o tema.
Mais do que os meios – que toda a gente diz serem suficientes – é necessário mais e melhor prevenção e não se percebe porque todos os anos falhamos. Haja vergonha!

2012/07/26

Começou a "época" dos fogos

Portugal, já sabemos, é um país de tradições. Porque a tradição ainda é o que era, pelo menos nalgumas áreas mais "tradicionais", todos os anos por esta época somos confrontados com o flagelo dos fogos. Há-os para todos os gostos: os de combustão "espontânea", os ateados por pirómanos, os de origem desconhecida, os provocados pelos madeireiros, pelas fábricas de celulose, pelos especuladores imobiliários, pelos pastores, pelas "queimadas", pela seca, pelo calor, pelo vento e, calculem só, por todas estas coisas em simultâneo! Faltam sempre meios: da protecção civil, dos bombeiros, de meios aéreos, de dinheiro, de coordenação e até de prevenção... Todos os anos - todos! - ardem dezenas de milhares de hectares de floresta pública e privada, assim como bens de todo o tipo, para além de vidas, muitas e preciosas, que morrem estupidamente sem sabermos bem porquê. Mais: na última década terão ardido mais de 1 milhão de hectares (1/3 do território nacional!), com picos de 340.000 hectares e 220.000 hectares em 2003 e 2005, respectivamente. Só este ano, já arderam 35.000 hectares. Pior: sabendo que a floresta (a par dos téxteis e calçado) é uma das principais riquezas nacionais (representando 3% do PIB português e 11% das exportações) não se percebe este desleixo verdadeiramente criminoso do estado português. Mas, a história não acaba aqui. De acordo com os dados da PorData, revelados por António Barreto num recente programa televisivo, metade do país (a zona a Norte do Tejo) não está sequer cadastrada. Ou seja, não se sabe ao certo qual a área e a quem pertencem os terrenos privados existentes! Dessa forma, torna-se impossível exigir medidas tão elementares como a limpeza das matas ou sancionar quem não cumpra estes pressupostos. Como o processo de cadastro exige tempo e dinheiro, os sucessivos governos vão adiando esta decisão fundamental para o nosso território, tornando-se cúmplices deste laxismo nacional que nos devia envergonhar pela ineficácia demonstrada. Estamos em Julho, a meio da "época de fogos". Muitos mais irão seguir-se, daqui até Setembro. No rescaldo, será feita mais uma avaliação e serão prometidas mais medidas, por ministros e secretários de estado de semblante grave e sisudo. Depois, esquece-se tudo, até ao próximo Verão, quando os "inevitáveis" incêndios voltarem a ser notícia. Tenho vergonha destes nossos governantes. De todos, sem excepção.

2010/08/12

A "época" dos fogos

Portugal está a arder e não se vê fim à vista. Talvez quando não houver mais floresta, e, ao fogo, faltar o material de combustão que alimenta os telejornais todos os anos por esta época. A "época", pasme-se, passou a fazer parte do léxico comum, como o Verão, ou a nova temporada do futebol. Já tinhamos a "silly season", que começa algures em Julho; a "rentrée", que se anuncia para Setembro; a época "balnear" e, de há uns anos a esta parte, a "época dos fogos", algures entre Julho e Setembro, que é quando os turistas nos visitam e os emigrantes descem ao país real. Assim, à falta de animação regional, arranjam-se todos os anos uns fogos para animar a "época". Alguém deve estar a ganhar com este negócio, pois não se percebe que um país depauperado e onde ainda existe uma das maiores manchas florestais da Europa (provavelmente o seu maior património natural) deixe queimar todos os anos centenas de milhares de hectares em dois meses apenas. Como é isto possível?
Todos sabemos que as alterações climáticas existem, que as temperaturas estão a aumentar e que a região mediterrânica é propícia a fogos. Também sabemos que os fogos não são um fenómeno específico de Portugal e que acontecem em países e regiões bem mais ricas e preparadas para combatê-los, como a Califórnia, a Austrália e, este ano, até a própria Russia. Tudo isto é verdade, no entanto...
...De acordo com a maioria dos especialistas nesta matéria, não há praticamente fogos de combustão espontânea e 97% dos casos terão origem humana, seja por acção criminosa, seja por negligência. Se, no primeiro caso, é difícil detectar o culpado em plena acto; no segundo, muito pode ser feito e não se compreende que a sensibilização e a prevenção não consigam ser mais eficazes.
Veja-se o caso do aumento e melhoramento dos materiais postos à disposição dos bombeiros desde 2003, o "ano de todos os fogos". Mais viaturas, mais aviões, mais helicópteros, mais coordenação e até um plano para minorar o flagelo. Ajudou? Aparentemente sim, tem havido menos fogos e menos áreas ardidas nos últimos anos. Mas, bastou um Inverno de chuva intensa, que fez aumentar a vegetação e o potencial perigo de combustão em tempo seco, para que tudo voltasse ao princípio.
Estamos a assistir a um dos piores verões da última década e ainda Agosto não chegou a meio...que fazer, pois?
Ao longo das últimas semanas, dezenas de comentadores (entre os quais o patético ministro do MAI) vêm-nos dizer o óbvio: que o clima está a mudar, que as temperaturas estão a aumentar, que há material suficiente e que os bombeiros são uns seres abnegados. Retive três intervenções: a do presidente da Liga Nacional de Bombeiros, a da presidente da Quercus e a do presidente da Cãmara de S. Pedro do Sul. Todos eles confirmaram a avaliação do ministro, mas acrescentaram algo mais do que a "panaceia" habitual. É preciso atacar o mal a montante, a saber:
Um novo ordenamento do território; um cadastro exaustivo da floresta; a alternância de arvores tradicionais, como o castanheiro e o sobreiro, com o eucalipto e o pinheiro, a limpeza da mata no tempo próprio; a obrigação dos proprietários limparem os seus terrenos; uma política de prevenção de proximidade que envolva poderes locais, bombeiros e populações, que são quem melhor conhecem o terreno e a forma mais eficaz de combater os incêndios.
É difícil? É. É impossível? Não. É necessário? Absolutamente. Então, porque é que não se faz?

2009/10/20

Rituais de Outono

Já estava com saudades. Da chuva. Hábitos de quem viveu trinta anos no Norte da Europa.
A diferença é que, no nosso país, as casas são frias e húmidas. Quando chove, a alternativa é ficar em casa com frio ou ir para a rua e ficar todo molhado. Não é uma escolha fácil.
O que me continua a espantar, após todos estes anos, é o efeito catastrófico que a água causa no quotidiano dos portugueses. Todos os anos, com as primeiras chuvas, lá vêm as inundações do costume.
Tome-se como exemplo o caso de hoje. No noticiário das nove, o "pivot" de serviço abre com: "ventos de 80km por hora e chuvas fortes causam inundações em Lisboa e no Porto. Os bombeiros não chegam para as operações de socorro. Caos no trânsito das principais entradas de Lisboa. Em virtude das más condições atmosféricas, o serviço nacional de segurança resolveu decretar o alerta amarelo para todo o país".
Fui ver: de facto, a chuva, que caía abundantemente, ameaçava de inundação o meu quintal. Nada que umas boas vassouradas não resolvessem de imediato. Também é verdade que, ciinco minutos mais tarde, o sol brilhava de novo.
Se todo este caos é provocado pelas primeiras chuvas e é assim todos os anos, porque é que continua a ser assim todos os anos e não são tomadas as medidas preventivas necessárias? O que seria de Portugal, se aqui chovesse como na Holanda, um país onde um terço do território está abaixo do nível do mar e não existem, praticamente, inundações? Estaríamos certamente perante um caso de "alerta vermelho".
Estranho país este, onde o "choque tecnológico" é capaz de projectar linhas de alta velocidade, "hubs" aeroportuários ibéricos, pontes rodo-ferroviárias e estádios para implodir, mas onde não se consegue prever a cíclica chuva que cai, todos os anos, pelo Outono.